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11 de maio de 2021

TROVA # 165

“LONGAS CARTAS PRA NINGUÉM”


Por que escrevemos?

Porque não podemos somente viver

(Patti Smith – Devoção)



         Do tempo em que escrevíamos cartas, as pessoas davam uma importância gigantesca a papel, caneta, envelope e selos para que notícias, confissões e juras de amor e de ódio pudessem ser transmitidas para o destinatário que fosse. Com a chegada da Internet, das redes sociais e dos smart phones, tamanho encantamento se desfez e as correspondências perderam a sua intensidade: o avanço das tecnologias provocou uma mudança fatal da relação dos humanos com as palavras e as longas correspondências tornaram-se mais um resquício do passado. Quase toda comunicação relacionada às correspondências se tornou restritamente técnico e objetivo, as confissões mais íntimas viraram “textões” ou foram comprimidas em meros 140 caracteres no Twitter.


        A escolha de um blog para dar conta dos pensamentos e memórias que me habitam poderiam ser as crônicas que eu sempre sonhei na coluna do jornal, no portal da Internet ou (quem sabe?) nas páginas de um livro. A escrita que fiz por anos a fio tem sido além de um diário sentimental ou de um journal de críticas e pensamentos avulsos: todos os textos que passaram por aqui são, de certa forma, cartas. Enquanto as palavras do ciberespaço, do jornal e do livro possuem um destinatário específico, certeiro, as minhas correspondências são “longas cartas pra ninguém”, ou melhor, quase ninguém.

        Em uma entrevista de fevereiro de 1977, Clarice Lispector comentou a respeito de um dos assuntos mais discutidos entre literatos: o ato de escrever. Ao ser indagada sobre sua rotina de trabalho, Clarice foi taxativa ao dizer que nunca tinha sido uma escritora profissional e que só se dedicava à Literatura quando queria. Sua afirmação desconcertou por completo seu entrevistador e o público, já que a autora de A Hora da Estrela e Laços de Família já tinha publicado vários romances, contos e textos na grande imprensa até então. Apesar de eu sempre ter nutrido um enorme amor pela escrita (queria ser escritor desde os sete anos de idade!), nunca consegui me sentir um profissional das letras por dois motivos: 1) o anonimato e o meu talento permanente para ser um anônimo; 2) o fato de ter uma profissão que exige tempo e dedicação. Não me satisfaço com o amadorismo, tampouco com o anonimato. Porém, escrever como alternativa foi a solução possível para que eu extravasasse tudo o que eu gostaria de ser, mas que a vida não me permite que eu seja por conta de compromissos e responsabilidades...


         Confessar uma série de coisas nas páginas do papel e pela Internet afora é uma tarefa incomum para alguém que age com a discrição do anonimato. Era uma maneira de compreender a natureza dos fatos e suas consequências. Era um jeito de expressar a pouca saudade que tenho do passado, a vontade intensa de viver o presente e a loucura insustentável de ter o futuro nas mãos. Ou talvez uma forma de esconder minha própria mediocridade e dar a ela alguma espécie de status. Ou nenhuma das respostas anteriores mesmo, afinal há perguntas para as quais não temos solução.


         No entanto, ainda tenho a breve esperança de que cada texto que escrevi para este blog ou para a coluna de jornal dos meus sonhos possa fazer sentido para alguém, afinal foram mais de 115 mil acessos em nove anos de atividade. Tal qual Brás Cubas, um dos personagens mais célebres da ficção de Machado de Assis, também não tive filhos e não transmiti (até então) a nenhuma criatura o legado de minha miséria. Todavia, deixo vários escritos para a posteridade, um livro publicado e a vontade imensa de vida dentro de mim, apesar da barbárie que se abateu no Brasil e pelo mundo a partir de 2020.


         Faz escuro, mas escrevo e também canto. O mundo pode fazer qualquer tipo de acusação contra mim, menos uma: eu sempre tive histórias para contar. E ainda terrei enquanto tiver um papel, uma caneta e um lápis nas mãos. Porque viver apenas não basta para mim: se eu puder viver tendo a possibilidade de escrever já é algo que me deixa mais feliz. E ser feliz em pleno século XXI é um dos maiores desafios que se apresentam para os seres humanos, especialmente para os que vivem no Brasil...

23 de agosto de 2020

TROVA # 148

 

SONS DA QUARENTENA

Adriana Calcanhotto é a prova de que o isolamento social pode até ser produtivo...

 

“No dia em que fui mais feliz...”

(Adriana Calcanhotto & Antonio Cicero, 1994)

 

1

    Adriana Calcahotto surgiu na minha vida há exatos 30 anos atrás: seu primeiro álbum, Enguiço (1990), tinha uma canção que tocava incessantemente durante as aventuras e desventuras de Mariana Szimanski, personagem de Renata Sorrah na novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. Eu tinha 9 anos de idade e não tinha condições para compreender a complexidade de versos como “E o meu coração embora / finja fazer mil viagens / fica batendo parado / naquela estação”, escritos por Caetano Veloso. De qualquer maneira, Adriana (Adrix para os íntimos) plantou a semente da dúvida e da intriga na estação dos meus afetos musicais.


Na medida em que fui deixando de dissociar o trabalho musical de Adriana Calcanhotto das trilhas sonoras das telenovelas da Rede Globo, fui descobrindo, aos poucos, que estávamos diante de uma cantora e compositora refinada, de uma sofisticação que ia muito além do dial da JB FM, da Antena 1, da Alpha, ou dos bons tempos da 98 FM. Graças à influência de duas primas paternas, descobri o terceiro álbum de Adriana, A Fábrica do Poema (1994) e me apaixonei perdidamente por seu trabalho. Quando ela lançou Maritmo (1998), comecei a comprar seus discos e fui me intrigando ainda mais: versos como “Entre por esta porta agora / E diga que me adora / Você tem meia hora / Pra mudar a minha vida” causaram um impacto profundo semelhante ao que eu tive com a Literatura de Clarice Lispector na década seguinte –compreender o que estava por trás das letras de Adrix, Antonio Cicero, Waly Salomão e outros letristas com quem ela estabelecia parcerias incríveis e geniais era uma tarefa bastante incomum para um jovem de 17 anos de idade que vivia em plena década de 1990, falemos a verdade...


Foi no lançamento do álbum / turnê Cantada (2002) que eu tive a coragem de ir a um show sozinho pela primeira vez na vida: vejam a barreira cultural que eu, um suburbano carioca de 21 anos da Ilha do Governador sem praticamente um centavo no bolso, tive que atravessar ao entrar no Canecão (templo musical da MPB que ficava em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro) apenas para ver Adriana Calcanhotto ao vivo. Essa é a primeira de algumas ousadias que eu devo a ela. Falar/escrever sobre seu trabalho musical é ter a certeza absoluta de estar remexendo em um baú de memórias afetivas e de shows memoráveis. Poderia ficar falando da beleza de O Micróbio do Samba (2012-2013) por horas seguidas, no qual uma interpretação de “Argumento” (Paulinho da Viola), em meio a luzes e fumaças transformava o palco em um cenário de um de filme de Bergman. Ou então poderia tecer várias crônicas musicais sobre espetáculos mais recentes como Olhos de Onda (2014), A Mulher do Pau Brasil (2018) ou Margem (2019-2020) com a paixão e as técnicas de escrita e análise que fui adquirindo pela vida acadêmica e profissional afora. No entanto, as circunstâncias que se abateram pelo Brasil e pelo mundo a partir de março de 2020 me impedem de fazer isso.

 

2

 

Até o final da tarde do dia 13 de março de 2020, uma sexta-feira 13, o mundo vivia a plenitude de sua normalidade. Minha rotina vivia a pleno vapor da intensidade de um ano letivo recém-iniciado em um novo ambiente de trabalho, mais saudável, porém com seus desafios. A turbulência profissional dos tempos de outrora dava lugar a um ritmo de trabalho mais leve e com a dose necessária de um conforto conquistado a custa de duras penas. Tinha acabado de concluir meu quarto curso de pós-graduação e traçava planos para iniciar mais um projeto acadêmico, já que a vida seguia nos desafiando e nos surpreendendo. Além disso, meus planos de voltar a escrever crônicas seguiam a todo vapor com outras promessas de publicação, já que a gaveta e o caderninho de anotações andavam repletos de escritos inéditos.

Enquanto isso, eu voltava a religar os laços com minha família carioca, depois da festa que comemorava o 5.º ano de vida do meu sobrinho. Apesar de ter que conviver com rendimentos mais modestos, estava em condições de pagar as contas – dentre os boletos, as prestações mensais da tão sonhada casa própria. A vida social se dividia entre os amigos, afilhados, parentes queridos, shows, cinema, teatro, livrarias e o apartamento novo, conquista principal de quase 15 anos de vida a dois. Em poucas palavras, viver não era um exercício de sofrimento, era um prazer do qual não se provava há bastante tempo. Mas, todas as nossas certezas, convicções e rotinas foram por água abaixo depois do décimo-terceiro dia do terceiro mês de 2020.

Foi naquele dia que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que o planeta estava diante de uma pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2, vulgo coronavírus, desconhecido por especialistas em medicina até recentemente. Para nos protegermos do inimigo invisível, era preciso fazer quarentena, isto é, ficar dentro de casa em pleno isolamento social para que o vírus não se espalhasse tanto e a curva de contágios diminuísse. Assim, não só nos protegeríamos da doença, como teríamos a garantia de que nossos entes e amigos queridos estariam sãos e salvos na medida do possível. Em menos de cinco dias, minha vida marcada por uma rotina trepidante ficou reduzida à convivência restrita à proteção dos 55 m² do meu apartamento “perdido na cidade”, com compromissos cancelados e a suspensão das atividades presenciais na escola onde trabalho por tempo indeterminado.

O pior da quarentena foi me obrigar a ser espectador da nossa desgraça em tempo real. Enquanto o número de infectados pelo coronavírus subia a níveis galopantes, vitimando milhares de pessoas, assistíamos a tensão política tomar conta do noticiário com a mesma intensidade dos contágios causados pela pandemia. Fato evidente e consumado: o Brasil é definitivamente o país mais emocionante de se viver nesta época, já que temos o vírus e o pandemônio político disputando os holofotes da imprensa a todo custo. As atividades ligadas aos setores culturais, como já sabemos, foram profundamente atingidas pela crise sanitária, já que aglomerações não são permitidas em nome da segurança de artistas, equipe e público. Por isso, tivemos que nos contentar com nossos ídolos fazendo aparições em lives caseiras em suas redes sociais para tentar diminuir as distâncias provocadas pelo distanciamento social obrigatório. Assim, não precisaríamos ter que nos condenar a ficar “fazendo longas cartas pra ninguém” em meio a tanta loucura...

 

3

 

Eis que, depois de dois meses de isolamento, Adriana Calcanhotto decidiu surpreender seu público com uma novidade musical: decidiu voltar a compor e gravou um álbum inteiro durante a pandemia. (2020) reúne nove canções inéditas que vão muito além da crônica musical de costumes e sentimentos: as faixas foram compostas, produzidas, gravadas e mixadas (tudo à distância) entre 27 de março e 8 de maio de 2020, um tempo recorde. É um trabalho que faz uma radiografia e tanto da vida brasileira antes e durante a pandemia com a sensibilidade que Adriana já emprestou a trabalhos anteriores como Senhas (1992) ou Loucura (2015). Ao contrário do que podia se esperar de um disco surgido em regime de confinamento, é um trabalho bem-humorado, irreverente, mas sem deixar de abordar certos aspectos difíceis da realidade atual. “Ninguém na Rua”, faixa de abertura, trata de solidão do isolamento sem deixar de encontrar o remédio para o sofrimento na memória e no pensamento de quem a gente ama. “Era Só” trata, com bastante simplicidade, do sentimento que (ainda) é a eterna “razão pra rima”.




Da vida que ficou lá fora antes de buscarmos proteção em nossas casas durante a quarentena, ficou a lembrança da vida vivida pelos quatro cantos do Brasil (“Lembrando da Estrada”) e as recordações de uma vida leve e liberta das convenções sociais que nos amarram (“Eu Vi Você Sambar”). A farra, antes amaldiçoada por simplesmente ser libertina e libertadora, hoje é maldita por aqueles que justificam que o Carnaval de 2020, por exemplo, ajudou a propagar o vírus entre nós – é importante deixar claro que a OMS declarou que não estávamos em pandemia dias durante os festejos do Rei Momo.




Na 4.ª faixa de , “O Que Temos”, Adriana nos lembra de que a solidão nos deu uma nova companheira para encararmos o mundo que ficou lá fora: as janelas são os nossos ingressos para a intimidade do outro, para o contato com o nosso semelhante, para o veículo das nossas revoltas e protestos, já que não podemos fazer passeatas e temos de nos contentar com notas de repúdio que não levam o Brasil a lugar algum que seja diferente do fundo do poço. O “Sol Quadrado” que nos ilumina também nos lembra de tudo de bom e de ruim que semeamos pelo mundo afora sempre irá nos trazer resultados (positivos ou negativos): “Diz uma lei da física / Que o que jogas pro alto volta para o teu telhado / O mundo dá voltas e agora / até o gado tá baratinado”. Em meio a um cotidiano no qual nós nos obrigamos a nos alimentar de notícias (o que seria de nós sem os jornalistas que se aventuram no front de batalha contra o coronavírus?), a melancolia e a tristeza acabam se tornando em nossas companheiras mais frequentes durante a quarentena. “Tive Notícias”, sexta faixa de , reproduz o sentimento de solidão que nos atormenta em meio de afetos e desafetos amorosos, que nos privam de beijos e abraços quando mais necessitamos deles.




Por outro lado, a quarentena também nos traz outro companheiro bastante desagradável: o tédio. Mas, Adriana Calcanhotto, versada na boa e velha Tropicália, decidiu brincar com isso e achou “melhor fazer uma canção”. Decidiu devorar o funk carioca, várias de suas expressões de duplo sentido e conotação sexual explícita para compor “Bunda Lê Lê”. O título chega até a nos remeter a algum sucesso de Latino ou Mr. Catra, mas é, segundo Adriana, o “Funk da Quarentena” que nos pergunta repetidamente: “O que que faz na quarentena?”. A resposta é bem simples: ler, estudar, ir à luta por um mundo melhor diante de tanta ignorância e falta de educação que existe no Brasil de hoje. Alguns ouvidos menos sensíveis e mais elitistas (arrogantes?) torceram o nariz e fizeram pouco de Adrix. Outros, incluindo este reles blogueiro de fim de semana, simplesmente adoraram.



Como encerramento para , Adriana Calcanhotto escolheu a canção mais inspirada de sua safra do isolamento. “Corre o Munda” é uma alusão direta ao Rio Mondego, que banha a cidade portuguesa de Coimbra, onde a artista passou a residir durante parte do ano por causa de suas aulas na renomada universidade (os romanos chamavam o rio de “Munda”, daí o termo). Não é simplesmente uma declaração de amor por terras portuguesas, é uma canção que trata da esperança que ainda há dentro de cada um de nós de retomar o ritmo da vida que ficou lá fora, de lançar-se ao mundo, de navegar, de viver por meio dos versos e sons de uma “compositora sem eira nem beira” em uma viagem cuja embarcação é a palavra cantada.

A quarentena foi, para algumas pessoas, sinônimo de prostração, revolta, depressão com alguns picos de produtividade e toneladas de teletrabalho e desespero. Se o nosso isolamento vai deixar algum legado para os outros é algo difícil de sabermos, mas o distanciamento de Adriana Calcanhotto nos oferta uma obra a ser apreciada futuramente com a vontade de saber mais a respeito de uma guerra travada contra inimigos invisíveis (o vírus, o tédio, o desespero, a angústia, a revolta) diante dos olhos e outros algozes bem visíveis diante dos seres humanos de bom coração (esses sequer merecem ser mencionados pelo nome).

Viu, Adriana? Por culpa sua e desse seu disco ótimo, que foi dedicado à memória de Moraes Moreira, estou até superando o meu bloqueio criativo e estou voltando às minhas crônicas. Devo mais uma a ti!


24 de setembro de 2017

TROVA # 137

O ALVORECER DOS MEDÍOCRES
(ou o retrocesso nosso de cada dia)




O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho, tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata, o homem que mente

Por que você me trata mal
Se eu te trato bem
Por que você me faz o mal
Se eu só te faço o bem

Todos somos filhos de Deus
Só não falamos as mesmas línguas
Todos somos filhos de Deus
Só não falamos as mesmas línguas
(André Abujamra, 1995)


Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
(Adriana Calcanhotto, 1992)

        
         O meu excesso de trabalho e o meu estado de choque permanente em relação ao noticiário me impedem de escrever com a frequência desejada. A era da mediocridade tem dado as cartas com uma frequência tão grande que faz com que muitos de nós entrem num estado de revolta e apatia coletiva. O Brasil tem vivido o alvorecer dos medíocres com uma força tão avassaladora que é preciso digerir cada baque em partes para não temos uma indigestão.

*

O golpe de 2016 tem oferecido ao Brasil uma série de retrocessos que surgem diante de nossos olhos como se estivéssemos em queda livre rumo às catacumbas sem cinto de segurança. Assistimos à retirada de direitos humanos que foram conquistados há muito tempo debaixo de sangue, suor, gritos e muitas lágrimas em estado de apatia e choque.
         O Brasil ficou infinitamente mais estúpido e ignorante a partir de 2013: as manifestações que levaram multidões às ruas criaram a ilusão de que o brasileiro médio tinha o poder de mudar os rumos da nação. O fato que muitos desconhecem é que as mãos que detém o poder sempre foram as mesmas; a diferença é que as vozes que berram o moralismo nosso de cada dia nas fuças de Deus e o mundo mudaram de rosto, mas reproduzem o mesmo discurso que levou o país para a ditadura militar em 1964.
         As forças políticas mais conservadoras da sociedade brasileira hoje deram voz e munição para grupos de “oposição” aos governos petistas e que foram massa de manobra para a consolidação do golpe de 2016. O grupo mais “pop” dentre todas essas milícias é o MBL (Movimento Brasil Livre), empenhado em livrar nosso país das garras da corrupção – para eles, os petistas.
         Fruto mais apodrecido do chamado “antipetismo”, o MBL tem se infiltrado em diversos setores da sociedade brasileira e se interessam pela regulamentação de tudo ou quase tudo que eles consideram “inapropriado”: são os principais defensores do projeto bizarro da “Escola sem Partido” e fazem linchamentos públicos de pessoas e coisas que vão de encontro aos ideais que defendem. O mais recente deles foi contra a exposição Queermuseu, exposição de arte de temática LGBT que estava em cartaz na cidade de Porto Alegre e era financiada pelo Banco Santander. O evento colocou em cartaz cerca de 270 trabalhos assinados por mais de 80 artistas, entre eles nomes renomados como Volpi, Portinari, Luiz Fernando Borges da Fonseca e Lygia Clark, em diversos suportes artísticos, como pintura, gravura, fotografia serigrafia e escultura. Visando a diversidade sexual, o tema é tratado de maneira explícita e abstrata.


         A repercussão negativa das postagens do MBL sobre a exposição nas redes sociais foi tão negativa, que o Santander, num ímpeto de autocensura, decidiu retirar a exposição de cartaz, por não querer ver o nome da empresa associada à pedofilia, zoofilia e contra a moral e os bons costumes cristãos. Graças ao conservadorismo de um grupo fascista e medíocre, o Brasil passou a viver às voltas com o conceito pérfido de “arte degenerada”, cunhado e posto em prática pelos nazistas da época de Hitler.

*


         Outro exemplo da era da mediocridade em nosso cotidiano se deu com o cantor e compositor sertanejo Zezé di Camargo: em uma entrevista à jornalista Leda Nagle, o cantor deu uma série de declarações bastante polêmicas sobre nossa história mais recente: “Muita gente confunde militarismo com ditadura, todo mundo fala: ‘nós vivíamos numa ditadura’. Nós não vivíamos numa ditadura, nós vivíamos num militarismo vigiado, não numa ditadura”. Além de defender os militares que ficaram no poder de maneira ilegítima por mais de 20 anos, Zezé teve a pachorra de querer contrariar a natureza dos fatos históricos, o que a Internet não perdoou.


         O pensamento retrógado e desinformado do autor de “É o Amor” só encontrou o eco desejado por causa da saída do armário deste conservadorismo fascista que desconhece noções de história, filosofia, sociologia e interpretação de texto básicas a qualquer indivíduo com o mínimo de sensatez. O fator que me incomoda ainda mais é que Zezé di Camargo não é o único músico conservador que faz uso do espaço público para expressar sua visão de mundo nada libertária. Durante suas apresentações na edição de 2017 do Rock in Rio, os vocalistas Samuel Rosa (Skank) e Dinho Ouro Preto (Capital Inicial), defensores de políticos que apoiaram e deram o golpe de 2016, posavam de bons moços ao defenderem a Amazônia apenas por puro prazer de serem bons moços. Infelizmente, para eles, as redes sociais não esquecem do que eles fizeram na temporada eleitoral passada...



*

         Uma das decisões mais estarrecedoras tomadas pela justiça brasileira se deu através de uma liminar concedida por um juiz do DF, que permite que psicólogos ofereçam terapias de “reversão sexual” para pacientes LGBT sem qualquer tipo de censura prévia ou autorização. O projeto, conhecido como “cura gay”, foi um dos maiores golpes contra a população homossexual do país onde mais se assassina homossexuais no mundo.



Foto: Adriana Souze

           O episódio da “cura gay” é apenas mais uma oportunidade e tanto para que os medíocres possam não apenas semear suas sementes do ódio e da discórdia para censurarem e restringirem a liberdade daqueles que eles julgam como minoria. O alvorecer dos medíocres pode fazer com que mais pedradas venham com mais agressividade, porém, as pedras que nos atiram são o motivo principal para que sigamos em frente. Afinal, o retrocesso geral já quer que andemos para atrás: para os guetos, para os porões, para as fogueiras, para os armários. Se nós iremos longe, não sabemos: mas seguiremos livres para onde quisermos ir.


27 de novembro de 2016

TROVA # 100

O MESTRE CENTENÁRIO
(uma declaração de amor ao samba no dia de seus 100 anos)



Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais
Eu viverei sem o seu amor
(Paulinho da Viola, 1976)


A primeira coisa que eu deveria fazer pelo samba, este mestre centenário, é lhe pedir perdão. Quando eu era mais jovem, no auge da minha sanha elitista e arrogante de pobre de direita, achava que a coisa mais chique do mundo era ouvir música em inglês. Ledo engano: no momento em que eu entendi o meu lugar de fala, de onde eu venho e tudo o mais, entendi que ser sambista é também ser chique e elegante, é nobreza de altíssimo nível, da patente das mais elevadas.
Um dos pouquíssimos orgulhos que ainda possuo de ser carioca de nascimento é o de ter nascido na mesma cidade que foi um dos berços principais do samba. Foi em um fundo de quintal de uma casa nas imediações da Praça Onze e do bairro do Estácio que o ritmo musical trazido pelos africanos para as bandas de cá começou a sua trajetória. Todo sambista carrega a ancestralidade dos escravos em seu DNA e deve agradecer à Tia Ciata por ter aberto as portas de sua residência para os primeiríssimos sambistas.


É também preciso pedir a benção de Donga por ter gravado “Pelo Telefone”, a primeiríssima gravação jamais feita de um samba em disco. E não podemos nos esquecer de pedir a proteção de Ismael Silva por ter sido o grande criador da primeira escola de samba. Por fim, não devemos nos esquecer que nossa ginga e malemolência é fruto da malandragem dos sambistas que faziam música e fugiam da polícia nos anos 1930 para poder ter o seu direito de expressão artística garantido. Sim, sambista brasileiro já teve cara de bandido...



É claro que alguns me dirão que o samba nasceu lá na Bahia, porém meu coração carioca sempre irá discordar ou ignorar esta tese. No entanto, isto é assunto para outro texto, que um dia prometo escrever...

*


Samba sempre foi assunto seríssimo lá dentro de casa. Meu tio Silvio Bertho, irmão mais velho de meu pai, foi advogado, boêmio e radialista dos bons – dizem que ele era dono de vastíssimo conhecimento de música e de um acervo de discos de samba de fazer inveja a muita gente; meu tio Celso Bertho também foi radialista e adorava um partido alto. Já do lado da família de minha mãe, os Rangel, não havia muita diferença: guardo a eterna referência musical dos discos dos meus avós – meu avô Adhemar, por exemplo, era um grande admirador da obra de Paulinho da Viola; já D. Magaly, minha avó, me apresentou à música de Bezerra da Silva. Foi graças a ela que eu descobri que o embaixador dos morros e favelas era mais Rock ‘n’ Roll do que muitos roqueiros juntos e enfileirados.



Por fim, não posso deixar de mencionar a contribuição do Sr. Orlando Bertho, meu Pai, para os meus ouvidos: ex-integrante da ala de bateria da União da Ilha do Governador, era chamado de “O Rei do Tamborim” por vários de seus amigos e colegas de escola de samba. O instrumento ainda existe e, se não me engano, volta à ativa todo mês de fevereiro durante as festas de Carnaval. Foi graças ao seu acervo de LPs, CDs e fitas K7 que eu ouvi falar em mestres do samba como Mestre Marçal, Beth Carvalho, Grupo Fundo de Quintal, Jorge Aragão e todos os clássicos do samba-enredo que passaram por metros e mais metros de avenida.




Diante dos exemplos familiares que citei, só posso chegar a uma conclusão hoje em dia: não tinha como fugir da batucada, pois ela já estava dentro do coração e dos ouvidos dos dois lados da família.

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         Foi depois dos meus 20 anos de idade – época em que ingressei na Faculdade de Letras – que o meu interesse pelo samba se deu de vez. Graças a Ney Matogrosso descobri a obra de Cartola graças a dois discos belíssimos com a fina flor da obra do Divino Mestre da Estação Primeira de Mangueira. Clara Nunes e Paulinho da Viola, estandartes da Portela, surgiram para mim neste período e me incentivaram a amar o azul e branco da principal escola de samba de Madureira. Logo depois da graduação, Maurício Martins do Carmo, meu ex-professor e ex-orientador de TCC, me pediu uma encomenda: uma pesquisa para um seminário comemorativo homenageando um dos maiores bambas do samba, Lamartine Babo. Fui nocauteado pela genialidade do grande criador de marchinhas carnavalescas de todo o Brasil e apresentei (modéstia à parte!) um belo trabalho no evento organizado pela Universidade Estácio de Sá.




         [Preciso fazer um adendo importante e necessário: se eu não tivesse me envolvido tão intensamente com o objeto de pesquisa da minha Dissertação de Mestrado e que resultou em meu primeiro livro – a obra musical do grupo Secos & Molhados –, creio que teria dado continuidade às minhas pesquisas sobre o samba. Quando eu for mais velho e um pouquinho mais sábio, espero poder oferecer minha contribuição para um dos temas mais debatidos em matéria de canção popular].



*

         Em 2006, dei um dos meus giros de 180 graus nesta vida e troquei o Rio de Janeiro por São Paulo. Troquei a Cidade Maravilhosa pela Terra da Garoa. Saí do berço em rumo ao “túmulo do samba”. Meu choque anafilático da troca de uma capital pela outra foi aliviado graças à obra de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, uma das paixões musicais do Sr. Leonildo Moreira Serra, meu segundo pai – ele adorava ouvir as canções de um disco dos Demônios que eu converti para MP3 no carro enquanto dirigia. Nenhum compositor soube captar a alma paulistana com a sensibilidade apurada e irreverente de Adoniran, a voz principal do samba paulistano.


         Foi quando me converti em cidadão paulistano que os meus ouvidos se abriram de vez para o legado de outros bambas do samba: Noel Rosa & Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wilson Baptista & Mário Reis, Elza Soares, Martinho da Vila, Clementina de Jesus & Jovelina Pérola Negra, Carlos Cachaça & Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Alcione & Beth Carvalho, João Nogueira & Zeca Pagodinho... Sim, meus ouvidos já estavam escolados em matéria de batucada, não tanto quanto os ouvidos do meu pai, dos meus avós ou dos meus tios, todavia nada mal para quem odiava o som de um cavaquinho...


         Diante de um marcado fonográfico cada vez mais comercial e menos cultural, o samba continua agonizando em praça pública, mas nunca morre. Em um século de vida, o mestre centenário já fez parcerias das mais inusitadas com a MPB: Nara Leão foi a primeira artista de seu núcleo musical elitista a buscar inspiração para cantar o Brasil através da obra de Zé Kéti e Cartola; Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil sempre foram extremamente respeitosos e reverentes com o legado de seus colegas sambistas; Divas da canção brasileira como Maria Bethânia, Marisa Monte, Zélia Duncan, Simone e Adriana Calcanhotto (re)gravaram clássicos e/ou renovaram a linguagem do samba com muita classe e propriedade; Tereza Cristina e Fabiana Cozza, por sua vez, conseguiram extrapolar os limites das rodas de samba e flertam constantemente com outros gêneros musicais; Mart’Nália e Diogo Nogueira, por exemplo, são muito mais do que “filhos de peixe” e conseguem sambar com seus próprios pés, sem a necessidade de depender do legado ou da força dos próprios pais. Por outro lado, outros músicos não necessariamente ligados às raízes do samba ou à elite da MPB conseguiram parcerias memoráveis com o samba: Marcelo D2 e Paula Lima são dois exemplos dos quais eu gosto bastante.


*

         Este mestre centenário não possui quaisquer preconceitos ou cerimônias. Adora fazer dobradinhas com a já citada MPB, com o Soul, o Jazz e o Funk. O pagode romântico que tanto se ouve nas rádios mais popularescas só existe por causa dos velhos bambas que um dia fugiram da polícia e do governo. Nossa batucada nos ensinou a importância de nosso valor cultural não apenas para nós mesmos, como também para o resto do planeta. Não apenas por mero entretenimento ou diversão, mas principalmente por ser reflexo da luta de um povo contra quaisquer formas de injustiça e desigualdade. É a lição que vem da voz das ruas, não das rodinhas insossas de intelectuais repletas de empáfia e arrogância. É o samba o nosso primeiro e maior mestre em matéria de música popular.


E é, por isso e muito mais, que este jovem Vinícius pede ao mestre centenário não apenas a benção, como também lhe pede o seu mais sincero perdão. Sem pieguice ou oportunismo, mas com toda a sinceridade e amor...