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3 de maio de 2021

TROVA # 164

 

80 ANOS DE UMA LONGA ESTRADA

Roberto Carlos sempre soube aliar minha enorme admiração e o meu profundo desprezo



Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada

Do tempo que transforma todo amor, em quase nada

(Roberto Carlos & Erasmo Carlos, 1971)

 


 

Nunca amei e odiei e tanto um artista quanto Roberto Carlos. Amor e ódio são dois sentimentos comuns em pessoas que a gente admira, que a gente ama para que possamos, logo depois, desferir as piores pragas e juras de maldição. Mas não tem jeito: meu cérebro e meu coração sempre entram em conflito permanente quando o assunto é El Rey - apelido que eu dei para o intérprete de “Detalhes”.

 

Roberto Carlos surgiu na minha memória bem cedo: os especiais de TV veiculados pela Rede Globo desde meados dos anos 1970 eram obrigatórios lá em casa, um típico lar do subúrbio carioca. Isso sem mencionar as fitas cassete que meu pai ouvia no carro com os clássicos do Rei. Para uma criança / adolescente do subúrbio na década de 1990, Bob Charles não era o entretenimento mais irresistível do mundo. Enquanto meu pai cantava versos como “Daqui pra frente / Tudo vai ser diferente / Você tem que aprender a ser gente / O seu orgulho não vale nada (...)” de frente para a TV e revivia um clássico da sua juventude, tudo que me sobrava era a inevitável vontade de bocejar até não poder mais. 

 

Eu tinha 12 anos de idade quando Maria Bethânia (por quem já era apaixonado) lançou o seu já clássico disco As Canções que Você Fez pra Mim (1993). Graças àquele álbum, eu passei a ver o cantor que já tinha entoado quase tudo em matéria de música romântica com um pouco mais de respeito. Apesar de ainda achar que Roberto Carlos era sinônimo do que havia de mais antiquado e cafona. Apesar de Bethânia ter feito uma aparição ao lado de El Rey cantando “Fera Ferida” em dezembro daquele ano.

 


Foi no início dos anos 2000 que minha percepção sobre Roberto Carlos mudou de vez. Graças à descoberta da Tropicália e da deferência de Caetano e Gil pela turma da Jovem Guarda, eu passei a respeitar El Rey um pouquinho mais. Pouco tempo depois, descobri os seus discos lançados entre 1968 e 1983 - a sua fase mais romântica, adulta, com canções apaixonadas, confessionais, gravadas em estúdios no exterior. Foi inevitável: aos 20 e poucos anos eu ouvia as mesmas gravações que meu pai ouvia no carro em meados dos anos 1980 e me encantava com a qualidade de clássicos como “Detalhes”, “Proposta” e “Além do Horizonte”. Apesar desse repertório me trazer a memória do peru de natal que comíamos no final do ano e a lembrança das canções inevitáveis chatíssimas que viriam no pacote, passei a ouvir um pouco mais a obra de Roberto.

 

Porém, toda relação conflituosa tem os seus altos e baixos e 2007 foi o ano em que as minhas predileções por El Rey caíram por terra. Como reação ao lançamento da biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita pelo competentíssimo Paulo César de Araújo (professor, jornalista e acadêmico de primeiríssima linha), o Rei não hesitou duas vezes antes de ir aos tribunais para tentar retirar o livro de circulação. Motivo: “invasão de privacidade”. Roberto, um notório conservador (e apoiador da Ditadura, dizem as más línguas), não admitiu ver certas passagens de sua vida reveladas com tanta precisão. Paulo César, um fã confesso de Bob Charles, escreveu um texto respeitoso, honesto, de uma beleza singular. Uma declaração de amor em forma de livro. Mesmo assim, El Rey, do alto de sua ingratidão, não perdoou seu súdito; processou o autor, recolheu os livros e provavelmente os queimou. Afinal de contas, seus segredos, conquistas amorosas ou suas puxadas de tapete não poderiam ficar expostos diante do público conservador que sempre o apoiou. 

 

Quando Roberto Carlos se revelou um autoritário de primeira linha, fazendo inveja a Hitler (que queimou livros em praça pública), passei a nutrir um ódio mortal por Vossa Majestade. Por sorte, adquirimos uma cópia do livro de Paulo César de Araújo em janeiro de 2007, já prevendo que El Rey poderia mobilizar seu exército de advogados para impedir que os detalhes de sua intimidade fossem devidamente catalogados e analisados em uma biografia. Ao somar todas as taras e manias do astro que se tornaram públicas, eu passei a fazer da transmissão de seus especiais de TV uma oportunidade e tanto para exercitar um dos meus maiores talentos: o de maldizer. Já que Vossa Majestade está na pista com todos os seus TOCs, por que não tirar proveito disso? 


 

O início da carreira de Roberto Carlos, como se sabe, foi marcado por uma quantidade de portas fechadas e nãos de todos os tipos, já que ele sempre foi um cara humilde, suburbano e sem uma voz de arrebatar multidões como Cauby Peixoto ou Francisco Alves. Tentou fazer sucesso sempre indo atrás dos ritmos que faziam sucesso na época: começou imitando Elvis Presley, depois tentou ser um cantor de Bossa Nova e finalmente estourou nas paradas de sucesso com o Iê-Iê-Iê. Quando sentiu que o público estava se cansando do som da Jovem Guarda não pensou duas vezes antes de pular do barco e começar a fazer uma música mais adulta, madura, com o objetivo de embalar as massas. 

 

Sua guinada na virada dos anos 1960 para os 70 deu muito certo: seus discos, sempre lançados na época do Natal, vendiam 1 milhão de cópias no auge do sucesso. Roberto sempre soube estar na crista de onda, seguindo as tendências musicais e o que tinha potencial de venda. Por isso, chegou a cantar com artistas de todos os tipos e tendências. Não porque eles eram necessariamente talentosos (muitos deles ainda são!), mas porque eles são máquinas de fazer dinheiro! El Rey, como bom vampiro musical, precisava sempre se reconectar com novas faixas de ouvintes.


 

Roberto Carlos chegou aos 80 anos de idade em abril de 2021 com a certeza absoluta de que é o maior nome que o showbiz brasileiro já produziu em décadas. Antes um desconhecido cantor de boates vindo do subúrbio, El Rey conquistou o seu respeitável público (composto de classes mais baixas) com o seu carisma exposto pela TV, para depois cantar para pagantes bem endinheirados em estádios, casas de show e em cruzeiros com ingressos a preços estratosféricos. Desprezado pelas elites no passado, adulado pelos mais endinheirados e pelo mesmo povão que sempre o amou, Roberto é dono de uma obra monumental, cujas canções mais emblemáticas - compostas em parceria com Erasmo Carlos seu “eterno amigo de fé e (...) irmão camarada” - compõem a lista dos maiores clássicos da nossa música. 

 

Apesar das inúmeras decepções com a figura pública, todas essas desilusões tendem a sumir na longa estrada. Afinal de contas, os ídolos sempre despertam um amor sem limite dentro de cada um de nós...

25 de dezembro de 2017

TROVA # 143

O DIA DA BADERNA


Na linha do horizonte
Do alto da montanha
Por onde quer que eu ande
Esse amor me acompanha
A luz que vem do alto
Aponta o meu caminho
É forte no meu peito
Eu não ando sozinho

Te vejo pelos campos
Te sinto até nos ares
Te encontro nas montanhas
E te ouço nos mares

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Pra quem te traz no peito
O mundo é mais florido
A vida aqui na Terra
Tem um outro sentido

Eu ando e não me canso
Esqueço a minha cruz
Firme nesse rumo
Que a você me conduz

Em todos os momentos
Que eu olho pro espaço
Sou forte e minha fé
Me faz um homem de aço

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Em todos os momentos
Que eu olho pro espaço
Sou forte e minha fé
Me faz um homem de aço

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você
Até você!
(Roberto Carlos & Erasmo Carlos na voz de Rita Benneditto)


         Em tempos de crise, fica difícil encontrar motivação para celebrar qualquer coisa. Especialmente quando se trata de festividades deslavadamente incentivadas pelo mercado. Os shopping centers ficam repletos de gente em busca de presentes em um frenesi que leva o nosso suado décimo-terceiro salário em um rabo de foguete. A excitação em comprar, comprar e comprar e ganhar, ganhar e ganhar presentes recebe o nome de “espírito natalino”.
         Jesus Cristo, o aniversariante do dia 25 de dezembro, era o que hoje chamaríamos de comunista bolivariano, tal qual foi brilhantemente alardeado por Gregório Duvivier em sua coluna da Folha de S. Paulo: “não acumulou riqueza, não se formou, ao invés disso vivia descalço cercado de leprosos defendendo bandido... O sujeito tava mais pra Marighella que pra Gandhi (...)”.
A “celebração” do aniversário de Jesus Cristo faz com que as pessoas organizem comilanças babilônicas, regadaas a litros e litros de bebida; a televisão seleciona o que há de mais bisonho em termos de música antes de exibir a Missa do Galo e os parentes com os quais nos encontramos pouquíssimas vezes ao ano e que mal nos conhecem, ora se animam com a sua presença figurativa no sofá, ora se ressentem da sua ausência. O aniversariante do dia fica ofuscado pelo Funk carioca, pelo pagode e pela sofrência das meninas do “feminejo” ou de outros ritmos musicais na crista da onda...



Para o seu lugar, entrou o imbatível Papai Noel (mais conhecido como Santa Claus) distribuindo presentes na pele dos chefes de família, fazendo a festa da criançada e movendo a roda do Capitalismo, tão bem lembrado pelo escritor Gabriel García-Márquez em uma crônica sobre esta época do ano: “O menino Jesus foi destronado pelo Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.”.


         Cristo era um defensor dos fracos, dos oprimidos, era o maior dos justos. Pensando na essência de seu legado e também por puro comodismo, passei a me questionar a necessidade de tanta pompa e circunstância prescrita pelo credo capitalista para esta época do ano. Decidi que o Natal deste ano deveria ser um momento de reflexão, de agradecimento e, principalmente, de descanso: como só tive férias a partir do dia 22 de dezembro, achei mais prudente e mais proveitoso ficar em casa, sem um pingo de ostentação: desfrutei de uma ceia natalina mais simples e cercado apenas das pessoas mais íntimas; nada de troca de presentes ou de seleções de amigo secreto; nada de ter que me obrigar a ser simpático com pessoas que desconheço ou quase nunca vejo; nada de roupa nova para a ocasião – ganhei um pijama de uma amiga minha e adorei passar a virada de 24 para 25 de dezembro assim. A conta bancária agradece e o bom humor também!



         Infelizmente, as postagens nas redes sociais me levam a crer que muitos se esqueceram do verdadeiro legado deste perturbador da ordem chamado Jesus Cristo e só ficaram com a baderna de comidas, bebidas e presentes com direito à trilha sonora da TV ligada. Se a crise obrigasse a maioria dos indivíduos a crescerem diante da escassez de recursos e da desunião entre os homens, já seria um bom (re)começo para a humanidade. No entanto, muitos preferem a letargia confortável do consumismo...

24 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 39

CAUBY PEIXOTO – CAUBY INTERPRETA ROBERTO (2009)


         A dupla Roberto & Erasmo é composta por dois dos compositores mais queridos da música de todo o Brasil: desde os anos 1960, são autores das canções mais amadas pelo público brasileiro em todos os tempos. Nara Leão e Maria Bethânia foram as primeiras intérpretes de peso do nicho da MPB que gravaram álbuns dedicados ao repertório gravado por Roberto Carlos. Nara fez uma releitura personalíssima do repertório do Rei. Bethânia, por sua vez, fez um álbum clássico, com direito a arranjos grandiloquentes de cordas e metais.



         Cauby interpreta Roberto, lançado por Cauby Peixoto no final de 2009, transita por estas duas tendências. Ao mesmo tempo que possui releituras nada convencionais do repertório de El Rey, há (bastante) espaço para arranjos de cordas, metais conduzidos por músicos competentíssimos – Hanilton Messias (piano e flauta), Ronaldo Rayol (violão e guitarra ), Eric Budney (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria) –, fazendo com que a voz de Cauby reverberasse com a intensidade de seu talento.



         A voz de Cauby Peixoto, apesar de não estar mais viçosa e com o mesmo brilho dos anos em que esteve no auge de sua carreira musical, ainda soava muito bem aos 78 anos de idade  ano em que gravou e lançou este disco. Senhor pleno de seu ofício, valorizou os tons graves em cada interpretação das canções de Roberto e Erasmo (de apelo extremamente popular) com enorme sutileza e elegância. “Proposta”, lançada por Roberto Carlos em 1973, abre o disco e atesta o talento e a vasta experiência de Cauby na arte da interpretação musical.


  “De Tanto Amor” (1971) recebeu uma releitura bastante “econômica”: sem arranjos de cordas ou metais e sem os vibratos e dós de peito tão característicos do intérprete de “Conceição”. A emoção da dor de versos como “Eu nada vou dizer, perdoa se eu chorar” está, justamente, no fato de ser entoada de maneira sincera e contida e Cauby o faz com uma precisão quase cirúrgica. É uma das melhores faixas de Cauby interpreta Roberto. Outra faixa na qual o talento de Cauby Peixoto se destaca foi para a releitura de “Olha” (1975), na qual o cantor é acompanhado apenas pelo piano de Keco Brandão. Sugestão do próprio Roberto Carlos para ser gravada por Cauby neste projeto, é outro momento de brilhantismo deste CD.


A terceira faixa do CD, “A Volta”, foi composta por Roberto e Erasmo para o repertório da dupla Os Vips em 1966 e gravada pelo Rei em seu disco de 2005, recebeu um arranjo sóbrio, bem ao estilo bossanovístico, algo não muito comum para Cauby. A quarta faixa do disco é “Sentado à Beira do Caminho”, gravada originalmente por Erasmo Carlos no final da década de 1960 e regravada pelo Tremendão ao lado de El Rey para o álbum Erasmo Carlos Convida... (1980). Levemente dramática e com arranjo de cordas, é a única canção não incluída nas tracklists de álbuns de Roberto. Certamente, uma das escolhas menos óbvias do repertório gravado por Cauby neste disco.


As demais canções escolhidas para Cauby interpreta Roberto são clássicos absolutos na voz de Roberto Carlos. A sexy e lasciva “Os Seus Botões” (1976) recebeu um belo arranjo de sax tenor de Ubaldo Versolato; “Música Suave” (1978), gravada originalmente com uma big band, ganhou contornos jazzísticos, típicos de uma gafieira elegante embalados pela interpretação sutil de Cauby; “Desabafo” (1979) se tornou em um tango argentino elegantíssimo, com um arranjo de cordas contundente de Cintia Zanco; “As Flores do Jardim da Nossa Casa” (1969), “À Distância” (1972) e “Não Se Esqueça de Mim” (1977), como não poderia ser diferente, ganharam releituras românticas, com violinos, cellos e violas para acentuar o trabalho competente da banda e da voz belíssima de Cauby Peixoto.


O encerramento de Cauby interpreta Roberto se dá com uma das canções mais emblemáticas do repertório de Roberto Carlos: “O Show Já Terminou” (1973) poderia ser uma marca tão registrada de Cauby (“O show já terminou / vamos voltar à realidade / Não precisamos mais / usar aquela maquiagem”) quanto “Bastidores” – composta por Chico para a voz de sua irmã, Cristina Buarque – sempre o foi. A produção sóbria de Thiago Marques Luiz faz justiça às canções da dupla mais românticas do Brasil e ao talento de uma das vozes mais belas que o mundo já conheceu: a de Cauby Peixoto.




Cauby interpreta Roberto merece ser ouvido e (re)descoberto por ouvintes e estudiosos da música brasileira. É um álbum que jamais sairá dos autofalantes daqui de casa, muito menos de minha memória afetiva. Uma pena que o show deste trabalho nunca gerou um DVD para que um registro audiovisual atestasse a prova de que Cauby Peixoto era um artista extraordinário... 


3 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 36

CAETANO VELOSO – VELÔ (1984)


Dentre todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me toca é Velô, lançado pelo filho mais ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como nunca tinha sido até então. 

A sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo e foi o produtor de Velô (junto de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.

Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa

A primeira canção de Velô é uma das obras mais importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de "Caetanos".





Três canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit "Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi  o tema de abertura da novela global A Gata Comeu (1985), um dos maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete", retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô, que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e pelo sax de Signeri:


"Feras lutam dentro da noite-normal
Todos os insetos, os do belo e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim

Ela loura e negra, querubim e animal
Burra, sábia, deusa, mulher, menino e mandarim
Mas se ela não quis meu sorvete
Por que gravá-la em videocassete (...)"

Show Velô - Foto de Thereza Eugênia



"Grafitti", parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero, versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos quatro cantos do planeta.




Velô possui duas canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso –  pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com muita sobriedade e lucidez: 


"Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal"



A segunda canção de cunho filosófico de Velô é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:



"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde possa o chão, minha alma salta
E ganha a liberdade na amplidão (...)"

A última canção de Velô, o samba-rap "Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira: 

Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)

"Flor do lácio, sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?"



A canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.

20 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 28

KID ABELHA – MEU MUNDO GIRA EM TORNO DE VOCÊ (1996)



         O Kid Abelha foi uma das atrações principais do chamado “Rock Brasileiro” na década de 1980: a bela vocalista Paula Toller ao lado do saxofonista George Israel, do guitarrista Bruno Fortunato e de Leoni (baixista, letrista e vocalista, que participou dos primeiros discos da banda) foram alçados ao estrelato, com canções estouradas nas rádios, participações em programas de TV e videoclipes no Fantástico.


         Na década seguinte, já sem Leoni, o Kid Abelha perdeu em termos de lirismo e contestação, mas manteve a qualidade musical de seus discos. Paula Toller foi alçada à condição de sex symbol e passou a cantar melhor, fazendo uso de seu belo timbre não apenas para interpretar as canções do Kid, como também clássicos de Tim Maia e Roberto Carlos. Um dos melhores momentos da carreira da banda é Meu Mundo Gira em Torno de Você, décimo álbum da banda, lançado em 1996.
         Meu Mundo... é um dos discos mais vendidos da discografia do Kid Abelha – cerca de meio milhão de cópias vendidas em um pouco mais de 20 anos. O motivo para o sucesso se deve, em primeiro lugar, pela guinada de Paula, George e Bruno Fortunato por uma sonoridade mais voltada para o Pop, tendência adotada desde o início da década de 1990 com os discos Iê Iê Iê (1992) e Meio Desligado (1994). Além disto, a escolha do primeiro single foi a regravação de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon, um dos maiores expoentes da música soul produzida no Brasil.


         O álbum é composto de canções de Paula Toller e George Israel, porém há algumas parcerias bissextas. A primeira delas, “Como É Que Eu Vou Embora” (primeira faixa do disco), é uma colaboração da cantora Cris Braun com George. Já a faixa-título é uma parceria de Paula, George e Jorge Mautner, além de duas parcerias com Lui Farias – “Combinação” e “La Nouveauté” –, cineasta e marido de Paula. Por fim, “A Moto” é um trabalho da vocalista do grupo ao lado de Herbert Vianna, guitarrista e líder do grupo Os Paralamas do Sucesso.

Paula Toller & Herbert Vianna


         “Te Amo Pra Sempre” chegou a ganhar um videoclipe que tocou bastante no verão de 1997 na extinta e saudosa MTV Brasil, com Paula Toller dançando na praia de biquíni tal qual uma menininha de dezoito anos. Uma canção jovial, com um refrão marcante como chiclete, com a duração perfeita para tocar no rádio e grudar nos seus ouvidos para sempre. Dentre os lados B de Meu Mundo... está “Vou Mergulhar”, décima faixa do disco, que faz alusão direta a “Além do Horizonte”, lendária parceria de Roberto e Erasmo Carlos.


         A crítica especializada da época detestou o disco, com versos completamente despretensiosos como os de “O Animal”, que encerrava o disco: “Me mimar demais / Foi o seu mal / A partir de agora / Seja um animal”. Os fãs ignoraram a caretice dos críticos e fizeram com que Meu Mundo... recebesse reedições de ouro e de platina, com remixes dos sucessos do disco.

         Se eu fosse escolher um disco essencial do Kid Abelha, não pensaria duas vezes e ficaria com Meu Mundo Gira em Torno de Você. Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato resumem em um único disco toda a essência de seu trabalho...