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5 de maio de 2017

DISCOS DE VINIL # 30

RAUL SEIXAS – KRIG-HA, BANDOLO (1973)


 


Em um de seus sucessos mais expressivos na década de 1970, Rita Lee dizia que “um tal de Raul Seixas vem de disco voador”. Se levássemos em conta a música, a aparência, o estilo e a ambição de Raul dos Santos Seixas, poderíamos ter certeza de que Ritz estava nos dizendo a mais pura verdade. No entanto, os fatos dizem o contrário… Em seu primeiro sucesso, “Let Me Sing, Let Me Sing” dizia, descaradamente, miusturando Rock e Baião:


“Não vim aqui tratar dos seus problemas
O seu Messias ainda não chegou
Eu vim rever a moça de Ipanema
E vim dizer que o sonho
O sonho terminou
Eu vim rever a moça de Ipanema
E vim dizer que o sonho
O sonho terminou”

Pelo simples fato de não se tratar de um mero Messias do Rock, Raul também avisava que não estava aqui para agir e cantar como as belas cigarras, que encantam e seduzem a todos:

“Tenho 48 quilos, certo?
48 quilos de baião
Num vou cantar como a cigarra canta
Mas desse meu canto eu não lhe abro mão
Num vou cantar como a cigarra canta
Mas desse meu canto eu não lhe abro mão”

Quando Mestre Raul começou a tocar incessantemente entre nós a partir de 1973, já pudemos ver de cara que o baiano fã de Elvis Presley não tinha vindo para este mundo de estrelas musicais a passeio. Raulzito veio para fazer muito, mas muito barulho! Deixou para trás uma respeitada carreira de produtor musical, para dar início a uma carreira individual vitoriosa e brilhante. O título de sua estreia musical: Krig-Ha, Bandolo (título retirado de uma história de quadrinhos) quer dizer, nada mais nada menos do que, “Cuidado, lá vem o inimigo!”. Na foto da capa do disco, vemos um cantor que contraria toda a lógica do star system da Música Brasileira de 1973 – Raul se mostra magro, esquelético, de olhos entreabertos (efeitos da cannabis?), uma tatuagem na mão e um cordão dourado no centro do peito.
Definitivamente, Raul Seixas veio para ser um inimigo: da moral tradicionalista que regia o Brasil dos militares, dos bons costumes que nossos pais pregavam e nos obrigavam a seguir, ao bom gosto musical, dos velhos e novos baianos e sua música que deixava de ser contracultura para ser apropriada pelo sistema em meados da década de 1970.
Consequentemente, Raul Seixas se tornou um dos inimigos musicais mais perseguidos da ditadura militar entre 1973 e 1975 não pelo fato de assumir um discurso político, mas por assumir uma postura cáustica, irreverente e libertária perante o Brasil e o mundo que vivíamos nos anos 1970. Por outro lado, Raulzito se tornou o Rockstar brasileiro mais importante de nosso país graças à autenticidade de seu talento, de uma obra musical que se consolidou ao longo de duas décadas de sucesso e, principalmente, à sua estreia arrebatadora em disco.
Krig-Ha, Bandolo se inicia com uma belíssima introdução: Raulzito cantando “Good Rockin’ Tonight”, sucesso de Elvis Presley, deliciosamente desafinado aos nove anos de idade, revelando uma ambição de ser um astro que não se vê mais por aí em pleno século XXI. Para os que pensavam que estávamos ouvindo um disco de Rock, a faixa que se segue é um tapa muito bem dado nos ouvidos de pouca imaginação: “Mosca na Sopa” é um ponto de umbanda misturado com Rockabilly com um refrão tão empolgante e de uma ousadia tão gigantesca (Quem mais pensaria em misturar Macumba com Rock em 1973? Quem?!). Já avisava o baiano, com seu sotaque arrastado:


“Eu sou a mosca que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar”

Raul Seixas não queria ser uma unanimidade. Queria conquistar o mundo com suas ideias, com seu ideal, com sua sociedade alternativa. Queria ser, como diz um de seus maiores clássicos, uma “Metamorfose Ambulante” ao invés de ‘ter aquela velha opinião formada sobre tudo’. Queria provocar a moral e os bons costumes do Brasil de 1973 com a sua “Dentadura Postiça” ao anunciar que ‘Vai subir / O preço do horror’. Queria nos avisar, via “As Minas do Rei Salomão”, que ‘Do passado me esqueci / No presente me perdi’ e que ‘Se chamarem diga que eu saí’.
Em “Al Capone”, avisa personalidades de peso como Frank Sinatra, Jesus Cristo, Júlio César e o velho mafioso de Chicago que em algum momento a picaretagem tem o seu fim, afinal, o velho Raulzito (que iria anunciar em pouco menos de uma década que tinha nascido há 10 mil anos atràs) era o astrólogo que conhecia os percalços da ‘história do princípio ao fim’. Na belíssima “Cachorro Urubu”, concluía que ‘A história é a mesma / Aprendi na quaresma / Depois do Carnaval / A carne é algo mortal / Com multa de avançar sinal’. E já em “Rockxixe”, enfim, avisava, sem a menor dó dos medíocres:


“Você é forte, mas eu sou muito mais lindo
O meu cinto cintilante, a minha bota, o meu boné
Não tenho pressa, tenho muita paciência
Na esquina da falência que eu te pego pelo pé”

Apesar de se revelar uma persona um tanto complexa de se compreender, Raulzito conseguia ter os seus momentos de lirismo e romantismo. Em “A Hora do Trem Passar”, ele suplica à mulher amada: ‘Diga meu amor, pois eu preciso escolher / Apagar as luzes, ficar perto de você’. Em “How Could I Know?”, pergunta, em inglês: ‘Como eu iria saber / que os meus olhos podiam ver no escuro?’, contrariando todas as expectativas de que era impossível distinguir o joio do trigo em tempos de trevas e escuridão.
No entanto, a canção mais emblemática de Raul Seixas foi escolhida para ser a última canção de Krig-Ha, Bandolo. “Ouro de Tolo” é uma crítica monumental ao pequeno burguês que sonhava com o sabor artificial do bolo solado do Milagre Econômico brasileiro, que esconde injustiças sociais, econômicas através de um viés político autoritário. Raulzito alega que deveria estar contente em meio ao seu Corcel 73, ao seu emprego que lhe faz um cidadão responsável, por ter tido sucesso, por deixar de passar fome no Rio de Janeiro, por ter o domingo para passear no zoológico e outras pequenices que fazem a vida de qualquer burguesia.
Eterno insatisfeito, porém, Raul acha que ‘vencer na vida’, seguindo a cartilha do sistema, é uma piada de péssimo gosto, por ser decepcionante, limitado, medíocre. Afinal de contas, nós, humanos, somos grandessíssemos idiotas que usam apenas 10% de nossas cabeças e que sendo doutores, padres ou policiais que contribuem para um ‘belo quadro social’ que não existe, que é falido desde a sua instituição via argumentos falaciosos. Diante da mediocridade que nos ronda, o que não precisamos fazer para nos livrar de uma existência comum. Deixemos a resposta para Mestre Raul:



“Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador”


Para Raul Seixas, a fuga desta realidade absurda era o disco voador que, como o Godot de Samuel Beckett, nunca veio. Para a nossa felicidade, já que os extraterrestres deixaram Raulzito conosco cantando e tocando até o final da década de 1980, quando a Morte veio lhe buscar depois de anos e anos de abusos de álcool e drogas. No entanto, a mulher misteriosa com a foice na mão não nos levou a música. 
Por tudo isto, o momento pede que revisitemos Krig-Ha, Bandolo e possamos entender mais uma vez o porquê de Raul Seixas ser um dos artistas mais geniais do planeta. 


25 de abril de 2017

TROVA # 121

A MÚSICA QUE NOS SALVA


“Desobediência é a solução
Contra a tirania de sua tradição
Sua chibata bate mas eu tô de pé”
(Eduardo Brechó & Jairo Pereira, 2017)


            Os meus 20 e poucos anos foram bastante intensos. E me deram ocasiões que me ensinaram bastante. Uma das minhas favoritas aconteceu após um show de Rita Lee no Canecão, quando esperava a musa para poder tirar uma foto com ela e ficar alguns segundos perto de uma das artistas que mais influentes do Brasil. Rita, esfuziante e sorridente, conversava com amigos e fãs e logo nos atendeu, para emoção de todos os que estavam presentes. Meu encantamento foi ainda maior quando eu reparei que Ritz estava vestida com uma camiseta escrita: “music saves” [a música nos salva].


            Quando saí do Canecão, fiz da música meu estandarte e meu cavalo de batalha intelectual: ela me acompanhou na pós-graduação, na minha carreira enquanto professor, nas minhas pesquisas, no meu blog, na minha vida. Ela me ajuda a achar respostas para vários dos meus conflitos, me conforta, me dá alento. Especialmente em tempos nos quais a democracia no Brasil e no mundo é desafiada por medidas impopulares, pelos ataques aos direitos da sociedade e pela ascensão de lideranças profundamente conservadoras.


*

            A popularidade de 5% do Presidente ilegítimo Michel Temer é o retrato perfeito da convulsão social que o Brasil está prestes a se afundar se os direitos sociais continuarem a serem retirados com a desculpa de que há um ajuste fiscal a ser feito. Não basta limitar os gastos públicos em saúde e educação por vinte anos, o empresariado e a elite – vingativa, por odiarem um governo que, apesar dos erros políticos crassos, fez muito pelos pobres e pela classe média em 13 anos de governo – desejam sempre mais: já regulamentaram a terceirização para todos as atividades profissionais e querem aprovar uma reforma trabalhista e previdenciária sem mais nem menos. Silvio Santos, procurado por Temer, aproveitou para mandar sua equipe realizar comerciais de 30 segundos defendendo as reformas propostas pelo governo. Os manifestantes sequer possuem o direito de protestar contra seus algozes dentro do Congresso Nacional: são recebidos a pontapés, com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo pelas autoridades sem direito a qualquer espécie de argumento...
Na lógica dos golpistas, o pobre sempre é culpado, o menos favorecido é quem deve pagar. A lógica dos ilegítimos ignora os bilhões de reais que as grandes corporações devem para a Previdência Social, por exemplo. Enquanto o GAFE enlouquece com a manipulação de cada delação premiada da Odebrecht para tapear o povo brasileiro, a razão para as “medidas impopulares” fica cada vez mais clara: o “ajuste” serve para proteger os empresários devedores de fortunas para o Estado, que perdoa suas dívidas para poder explorar a classe trabalhadora ainda mais... Enquanto isso, e tome música para preencher os espaços da casa, já que o noticiário é a ficção mais inútil disponível no momento.

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Enquanto isso, no Tucanistão (mais conhecida como São Paulo ou Sampa, para os mais íntimos): os cidadãos veem um Prefeito que transformou a sua gestão (não se enganem, beautiful people: a especialidade dele é marketing, não a gestão em si!) em um enorme reality show. Os cidadãos paulistanos tomam conhecimento dos feitos pelo exercício do mandato através da promoção rasteira realizada pelas redes sociais de um indivíduo que se diz apolítico, mas que toma decisões extremamente políticas: defende o empresariado do qual ele faz parte, prejudica os menos favorecidos, foi conivente com as intervenções de um dos vereadores da câmara que visitou duas escolas com o intuito principal de intimidar os professores da Secretaria Municipal da Educação, aumentou os valores das passagens de ônibus mesmo com a qualidade terrível dos transportes da cidade, permitiu o aumento de velocidade das Marginais Tietê e Pinheiros – causando o aumento vertiginoso de acidentes e mortes por acidentes automobilísticos –, isso sem mencionar as catástrofes permanentes na área cultural: extinção do Clube do Choro e dos turnos de 24h da Biblioteca Mário de Andrade e a destruição dos grafites da avenida 23 de maio. Pergunto: estas medidas foram benéficas para quem? Enquanto a resposta não chega, a elite paulistana e os pobres de direita veem na figura do “PrefeiTOP” o seu expoente mais perfeito...


Já o ilustre Governador do Estado de São Paulo, eleito no auge da crise hídrica que quase matou os paulistas de sede e acusado por corrupção nas “míticas” delações da Odebrecht, é responsável por uma das linhas auxiliares do GAFE:  a TV Cultura, um dos canais mais respeitados do mundo por exibir uma programação estupenda, apesar de exibir programas de entrevistas bastante tendenciosos e noticiários com comentadores raivosos e simpáticos de ideologias fascistas. Uma das polêmicas mais chocantes surgidas nos últimos dias foi à censura sofrida pela banda Aláfia: ao se apresentarem no programa Cultura Livre, tocaram a canção “Liga nas de Cem”, na qual faz uma crônica sensacional do ódio das elites paulistanas pelos mais pobres e dá nome aos bois ao citar Alckmin e Dória no final da letra. A apresentadora Roberta Martinelli e os músicos fizeram barulho diante do corte hediondo. O lado bom da polêmica foi fazer com que a Aláfia se tornasse mais conhecida diante deste caos polarizado no qual vivemos. E a música continua nos salvando da mediocridade do Tucanistão...



*


            E o Dia de São Jorge de 2017 ficou mais triste com a partida de uma das vozes mais importantes da Jovem Guarda: Jerry Adriani partiu para outro plano aos 70 anos de idade, vítima de um câncer. Mesmo sofrendo as dores da doença, Jerry se apresentou ao vivo cantando para as multidões do Brasil até um mês antes de morrer. A música lhe salvou da dor e lhe trouxe uma espécie de alento para um sofrimento sem fim. Apesar de não ser fã, fiquei comovido com sua história e com a sua força diante dos fatos – não desistiu de sua carreira em um momento sequer, seguiu em frente enquanto pôde.



            Que os brasileiros encontrem inspiração no exemplo de Jerry Adriani para seguir resistindo por seus direitos e consiga parar o país na Greve Geral programada para o dia 28 de abril de 2017. Afinal, vejo que a luta contra aqueles que não nos representam no Congresso Nacional e à elite ignorante e egoísta parece não ter fim...


31 de dezembro de 2016

2016 | 2017 + 40.000 visualizações



Se você está lendo este texto na noite de 31 de dezembro de 2016, receba os meus parabéns! Você e eu sobrevivemos a este ano de cão! Muitos de nós não conseguiram isso. Mais um motivo para celebrar a vida e agradecer à vida por podermos dormir e acordar com um mínimo de saúde e energia.
2016 não foi um ano fácil para a música do Brasil e do mundo. Tampouco, não foi um ano fácil para a política de nosso país. Muita patrulha, muita bagunça. Poucas alegrias, muitas lágrimas de tristeza. Mudanças profissionais ao lado das mesmices gritantes e avassaladoras do cotidiano de professores de educação básica.
No plano pessoal, amizades se desfizeram, outras foram para a geladeira por dentro indeterminado, novos amigos se fizeram, os mais antigos e fiéis permaneceram. Reencontros felizes, desencontros necessários. Frustrações sem fim, decepções clássicas, oportunidades perdidas...
Por outro lado, continuamos com a divulgação de meu primeiro livro, O Doce & O Amargo do Secos & Molhados. Fizemos três noites de autógrafos - uma em São Paulo, duas noites no Rio de Janeiro. Foram momentos de muita alegria e algumas surpresas bastante agradáveis. Dentre estes episódios especiais, destaco a noite em que Ney Matogrosso veio prestigiar o livro, para total surpresa minha e de todos os presentes. Prometo que tratarei deste assunto em futura outra crônica.


2016 foi o ano em que decidi que este Blog iria se posicionar a respeito dos rumos que a democracia do país estava tomando. Nossas ideias sobre política deram o tom de várias postagens por aqui.  Não foi fácil assistir os atos que resultaram no Golpe de Estado que retirou Dilma Rousseff do poder. Não tem sido fácil assistir as decisões tomadas pelo governo golpista de Michel Temer e sua corja pelos noticiários. Nesta página, há uma incansável resistência contra tamanhos desmandos e, em 2017, não será diferente.
Dentre as mudanças estruturais do Blog, tenho procurado deixar ele visualmente mais atraente para a leitura - na medida em que o site do Blogger me permite. As atualizações semanais - às quartas, um texto da série DISCOS DE VINIL; aos domingos, uma crônica musical inédita - tem sido um desafio abraçado com muito prazer e orgulho.
Aproveito está ocasião para dizer que alcançamos uma marca inédita no Trovas de Vinil: 40 mil visualizações de posts. 10 mil em um período de dois meses. 27 mil visualizações em um ano! Nada mal para um projeto que começou como uma simples terapia e hoje já possui mais de 120 textos sobre música e outras searas, não?
Gostaria de agradecer, mais uma vez, a cada um que comentou nossas postagens e a todos que compartilharam nossos textos nas redes sociais com seus amigos. Muito muito muito obrigado de coração!
Aproveito para deixar o link de nossa página no Facebook para que vocês possam saber sobre as atualizações do nosso Blog: https://m.facebook.com/TrovasDeVinil/
Desejo em 2017 muito sucesso, saúde e boa música e ótimas energias para cada um de nós. Que possamos encontrar na música conforto e alento para tolerar os percalços de nossa rotina!


Um beijo e um abraço do
Vinícius

P.S.: Enquanto a redentora intervenção alienígena não vem, faço minhas as palavras de Rita Lee & Roberto de Carvalho na voz da saudosa Elis Regina:




12 de dezembro de 2016

TROVA # 102

FORTALEZAS FEMININAS


Dizem que a mulher é o sexo frágil
Mas que mentira absurda
(Erasmo Carlos, 1981)


O mundo do cinema foi abalado recentemente por uma revelação bombástica do cineasta italiano Bernardo Bertolucci: a atriz Maria Schneider, que tinha estrelado o filme cult O Último Tango em Paris ao lado de Marlon Brando, tinha sido estuprada por seu colega de elenco graças a uma orientação do diretor. A suposta verdade que Schneider transmitia ao ser violada por um Brando com as mãos lambuzadas de manteiga era uma dor verdadeira e fruto de uma indignação sem tamanho com Marlon e, principalmente, com Bertolucci.

Marlon Brando & Maria Schneider

A confissão do crime do cineasta italiano não só abalou Hollywood, como também deixou o mundo do cinema em polvorosa. Maria Schneider jamais se recuperou do trauma e se tornou em uma viciada em drogas, com vários episódios de crises depressivas e de overdoses. Entretanto, Maria fez de sua dor e de sua depressão estandartes para que ela se tornasse uma verdadeira defensora ferrenha dos direitos das mulheres no meio cinematográfico.


A história de Maria Schneider é mais um capítulo dramático do quanto a repressão do universo machista, misógino e cruel pode fazer mal para muitas mulheres. No entanto, ela não foi a única que fez de sua dor e sofrimento um instrumento de contestação e resistência contra aqueles que sempre ditaram as regras do jogo. Exemplos de fortalezas femininas que se levantaram contra o ódio sexista devem ser lembrados e homenageados sempre que possível. Eu, como um aberto defensor do feminismo e esperançoso na necessidade de equiparação entre homens e mulheres, também me aproprio da luta destas guerreiras e aproveito para reverenciar algumas delas...




Virginia Woolf ao lado de seu pai, Sir Leslie Stephen

Uma das fortalezas femininas que sempre renderam minha admiração é a escritora inglesa Virginia Woolf. Terceira filha do casal Leslie e Julia Stephen e casada com o editor Leonard Woolf, Virginia sofreu horrores por ter sido estuprada por um de seus meios-irmãos, pela perda precoce da mãe e por nunca ter ido à Universidade – “privilégio” concedido aos homens da família Stephen.

Leonard Woolf & Virginia Woolf
Virginia aproveitou a impossibilidade de ir à Cambridge e passava horas e horas estudando na extensa biblioteca do Pai, um grande intelectual da Inglaterra Vitoriana. Não foi apenas uma das maiores revolucionárias da Literatura do século XX, como também se projetou como uma das intelectuais mais importantes de todos os tempos. A Room of One’s Own (1929) é um de seus ensaios mais importantes e é uma das bíblias do feminismo.

Rita Lee e o primeiro filho, Beto Lee, em 1977

Uma das passagens mais comoventes do livro de memórias de Rita Lee é justamente o momento no qual ela nos conta sobre um aborto realizado em 1977. Ritz nos deixa claro que não era nenhuma alegria ter que realizar um procedimento daquele porte. No caso da Rainha do Rock Brasileiro, era uma decisão necessária, pois ela tinha acabado de sair de uma gravidez de altíssimo risco e de uma passagem pela cadeia.
Aposto que o episódio será mais um argumento para que as camadas mais conservadoras da sociedade brasileira se mobilizem contra a legalização do aborto com a desculpa esfarrapada do histórico de porralouquices de Rita Lee, ignorando toda as questões relacionadas à cultura do estupro, que sempre permeou nossa vida social. Rita não hesitaria em dar de ombros para os conservadores e mostrar-lhes a bunda; afinal de contas, o pioneirismo maior da velha “Ovelha Negra” foi de subverter as regras masculinas ao fazer Rock em um país no qual os machos eram aqueles que empunhavam guitarras em riste e encaravam o microfone diante de plateias imensas.

Maria Bethânia, Doutora Maricotinha ou Doutora Honoris Causa pela UFBA

Um dos fatos mais surpreendentes do ano de 2016 aqui no Brasil foi a escolha da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em conceder o título de Doutora Honoris Causa à Maria Bethânia pelo conjunto da obra. Dona de uma carreira musical de mais de cinco décadas, Bethânia foi pioneira em integrar música, poesia e dramaticidade em seus trabalhos musicais. E uma das primeiras artistas da canção popular em receber tamanha honraria. Doutora Maricotinha, emocionada, fez um belo discurso no momento da entrega do título e passou a ocupar um lugar em uma galeria geralmente dominada por homens.
Outra pioneira que merece não apenas o meu aplauso, como também minha gigantesca admiração, é Patricia Lee Smith, mais conhecida entre nós como Patti Smith. Matriarca do Punk, poetisa intensa, prosadora inteligentíssima, uma mulher de um histórico de vida extraordinária. Mostrou para o mundo que as mulheres que fazem Rock’n’Roll não precisam ser belas, maquiadas e repletas de glamour. A beleza não é fruto de sua maquiagem ou do seu penteado, e sim resultado de sua inteligência.


Patti gravou 11 discos, publicou 15 livros de poesia e 2 excelentes livros de memórias. Seu disco de estreia, Horses (1975), é uma verdadeira aula de poesia, rebeldia e Rock ‘n’ Roll. Influenciou vários músicos de sua geração e de outras que surgiram. Seus livros de prosa receberam vários prêmios literários e foram aclamados pela crítica especializada. Não me surpreendi quando ela foi escolhida por Bob Dylan para receber o Prêmio Nobel de Literatura em seu nome e cantar um de seus clássicos diante de um teatro lotado. Nervosa, Patti Smith errou a letra duas vezes e pediu desculpas para os presentes e nos ofertou com uma das interpretações mais belas em décadas de atividades.


Patti durante a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de 2016

O Pop também nos revelou a maior fortaleza feminina do mundo da música. Madonna está no mundo musical há mais de três décadas, sempre se reinventando em termos de imagem e som. Aclamada pelos fãs, odiada por setores da crítica musical e pelos conservadores de plantão e incompreendida por uma vasta parcela da intelectualidade e de seus pares na música, Madge se manteve como referência de qualidade e longevidade.


Ao aceitar o prêmio de Mulher do Ano de 2016 da Revista Billboard, Madonna falou não apenas daqueles que lhe deram inspiração, mas também falou a respeito das limitações sofridas pelo fato de ser uma mulher em universo musical predominantemente masculino: Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry, Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras, mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não aja como se você tivesse uma opinião que vá contra o status quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e definitivamente não tocará nas rádios.





Além disto, Madonna fala da importância de estar viva e da necessidade das novas gerações de mulheres de se espelharem em outras pioneiras para continuar seguindo na sua trajetória de fortalezas femininas: “Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui. Michael se foi; Tupac se foi; Prince se foi; Whitney se foi; Amy Winehouse se foi; David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas e todo dia eu agradeço por isso. O que eu gostaria de dizer para todas as mulheres que estão aqui hoje é: mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque eles valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para as inspirem, apoiem e instruam”.



O discurso de Madonna, infelizmente, faz bastante sentido em um contexto no qual as mulheres são constantemente criticadas e cerceadas pelos homens. Elas recebem salários inferiores do que os dos homens. São, muitas vezes, chefiadas, assediadas e injustiçadas pelo sexo oposto. Por isso, lembrar de algumas referências de fortalezas femininas é algo fundamental para que acreditemos que um dia a igualdade entre os sexos possa ser uma realidade e não mero fruto de nossas imaginações.


4 de dezembro de 2016

TROVA # 101

MEMÓRIAS DE UMA ROQUEIRA MALCOMPORTADA


"A sorte de ter sido quem sou, de estar onde estou, não é nada comparada ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente feliz." 
(Rita Lee – Rita Lee: Uma Autobiografia, p. 269)


Rita Lee lançou suas memórias em livro. Um livro para lá de esperado, interessantíssimo, encantador, honesto, sincero, brutal. Uma narrativa tão envolvente, que eu li em menos de sete noites (por motivos de força maior, eu só podia ler as memórias de Rita durante a parte da noite, antes de dormir). 


Se eu fosse a Rainha do Rock Brasileiro, eu teria dado outro título ao invés de "Uma Autobiografia": daria o título de "Memórias de uma Roqueira Malcomportada" por causa do conjunto da obra mais sincera que a filha de Dr. Charles e D. Chesa nos legou. Rita não se compromete em dar detalhes complexos de sua relação com Os Mutantes ou com os Tropicalistas, tampouco dá explicações detalhadas sobre sua relação de vida e trabalho de décadas ao lado do parceiro / marido Roberto de Carvalho. Datas não são o forte de Madame Lee, o que compreensível para alguém que foi por anos e anos a livre-docente em porra-louquice (só perdendo para Ozzy Osborne ou Keith Richards no quesito "drogas").



Já distante dos palcos e dos holofotes há alguns anos, Rita Lee decidiu fugir dos clichês que rondam o universo do showbiz e reuniu suas memórias em livro sem necessitar de um ghost writer, mas com “causos” bem picantes... 

Por isso e muito mais, decidi elencar 15 motivos para que você não deixe de ler o livro de Rita Lee de maneira alguma:

1) Rita Lee relata os seus problemas com as drogas e com alcoolismo sem rodeios - Sem discurso de "madalena arrependida", a Rainha do Rock Brasileiro fala de seus antigos vícios sem arrependimento, conta um pouquinho sobre suas internações em clínicas de reabilitação, do acidente que esfacelou o seu maxilar e quase a impediu de cantar em meados dos anos 1990 e de várias de suas operações (mastectomia, hemorroida, cordas vocais, reconstrução dos ossos do rosto, retirada da vesícula) e de uma surpreendente suspeita de Mal de Parkinson;




2) Rita Lee encanta os leitores com a bela família que constituiu - O amor intenso e verdadeiro por Roberto de Carvalho, por seus três belos filhos, sua neta e a devoção incansável por seus bichos mil chega a comover o mais insensível dos leitores. Apesar de toda a inconstância da rotina da mulher que mais vendeu discos no país (ela vendeu mais discos do que Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia JUNTAS!), Rita conseguiu dar a prioridade desejada ao seu ninho;



3) Rita Lee conta alguns bastidores surpreendentes do grupo Os Mutantes, do qual foi uma das fundadoras - A arrogância e os egos estratosféricos dos irmãos Cláudio Cesar, Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, a falta de asseio da residência dOzmano da Pompeia, os ataques de D. Clarisse (a matriarca da família) não passaram incólumes pelo olhar e a memória de Rita. Dos episódios com Arnaldo e Serginho, há três fatos inesquecíveis e surpreendentes:


3a) A prima ninfomaníaca dos Mutantes - segundo Madame Lee, Claudia Dias Baptista teria literalmente "passado o rodo" em vários homens que frequentavam uma academia de artes marciais que todos frequentavam na Vila Mariana, a ponto do dono do estabelecimento ter sido obrigado a fechar as portas por conta do escândalo de um homem casado ter se envolvido com uma aluna. Hoje, Claudia é conhecida pelo público brasileiro como Monja Coen, uma liderança budista;


3b) A irreverência e a anarquia dos irmãos Mutantes assombrava mais da metade do mundo musical - De acordo com a autora, o ataque cardíaco fulminante de Vicente Celestino teria sido causado pelo choque de ver os irmãos Baptista aprontando suas estripulias com seus instrumentos musicais. O intérprete de "Coração Materno", que tinha sido convidado para participar do programa coletivo Divino Maravilhoso, tinha ficado bastante transtornado com a passagem de som dos rapazes, que tinham ligado os instrumentos no volume máximo durante uma passagem de som e fez com que Celestino começasse a passar mal dentro dos estúdios de TV. Segundo Rita, o episódio "pegou mal" para a reputação dos Irmãos Baptista;
3c) Desligando Edu - O episódio no qual Os Mutantes deveriam abrir um show de Edu Lobo em Portugal me rendeu altas gargalhadas. Depois de terem sido esnobados pelo autor de "Ponteio" de maneira bem grosseira, Arnaldo, Sérgio e Rita, em um ato de molecagem explícita, decidiram procurar pelos fios que ligavam o equipamento de som de Edu e simplesmente cortaram os fios da apresentação, inviabilizando o show. Sim, aqueles meninos poderiam ser mais terríveis do que se poderia imaginar...


4) Rita Lee e o lendário casarão da Vila Mariana - Localizada no número 670 da rua Joaquim Távora, a residência dos Jones abrigou várias histórias hilárias e algumas tristes do casal Charles Fenley Jones e Romilda Padula Jones (mais conhecida pelo apelido de Chesa), pais de Rita e de suas irmãs mais velhas - Mary Lee Jones e Virgínia Lee Jones. A presença de Balú e Carú, amigas de parentes que se tornaram, posteriormente, em babás e anjos da guarda da família, formava o harém irreverente e católico (Dona Romilda colocava a imagem de Nossa Senhora Aparecida em cima da TV durante as eliminatórias dos festivais da canção dos quais Os Mutantes participavam) que contrastava com o exército de um homem só formado pelo sargento Charles, que controlava tudo com seu olhar intimidador e com mão de ferro.


5) Rita Lee Fã - É, no mínimo, surpreendente que a mulher que mais vendeu discos no Brasil seja uma fã tão ardorosa de James Dean (sua eterna paixão!) e de David Bowie (a quem confessou ser fãzoca - Disse ela a Bowie: "I'm such an old fan of yours", no que ele respondeu, com sua elegância indefectível e seu humor inglês: "Oh yeah, I'm such and old singer"). Pelo fato de sempre ter sido tiete de seus ídolos, Rita alega sempre ter compreendido a idolatria (às vezes, desmedida e excessiva) de muitos de seus admiradores.


6) Rita Lee conta os detalhes de sua primeira vez na prisão, em 1976 - O grande público toma conhecimento dos detalhes que levaram a autora de "Ovelha Negra" para detrás das grades. Em solidariedade à mãe de um fã dos Mutantes que foi morto em uma apresentação do grupo em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, anos antes, Rita decidiu prestar depoimento esclarecendo que o rapaz foi morto por policiais que deveriam estar fazendo a segurança do local. Em represália, os "meganhas" surgiram na residência da artista, na época grávida de seu primeiro filho, "plantaram" drogas pelos cantos da casa e levaram Madame Lee em cana. Um detalhe: com todo o apoio da Ditadura Militar.

7) Rita Lee e seus queridos amigos - A artista não apenas fala da amizade com ilustres e famosos, como também nos brinda com algumas curiosidades deliciosas:
7a) Ritz & Gil - Amigos desde a época da Tropicália, Rita Lee e Gilberto Gil formaram uma parceria musical sólida e uma amizade de muitos anos. Foi ele quem fez com que a filha mais nova de Charles e Chesa largasse de vez os estudos em Comunicação na USP para assumir, de vez, a carreira artística. Padrinho do filho mais velho de Rita e Roberto de Carvalho, Gilberto Gil estava prestes a reeditar a segunda versão do show Refestança junto de sua querida pupila quando teve que declinar do convite pelo fato de ter que assumir o Ministério da Cultura do primeiro governo Lula;





7b) Ritz & Elis - A amizade entre ambas surgiu quando Rita estava presa e Elis Regina foi visitar a colega na prisão, exigindo condições decentes para o encarceramento de Rita. Apesar de César Camargo Mariano ter torcido o nariz em um primeiro momento, Elis se tornou uma intérprete constante da dupla Lee-Carvalho. Foi Madame Lee quem convenceu a geniosa intérprete de "Dois pra Lá, Dois pra Cá" a participar de Mulher 80, lendário especial de TV que reuniu as duas ao lado de Gal Costa, Maria Bethânia, Simone, Fafá de Belém, Joanna, Marina Lima, Zezé Motta e Quarteto em Cy. Uma parceria musical da Pimentinha com o casal mais ilustre da MPB (na qual Elis seria autora dos versos) estava programada, porém nunca aconteceu: a maior cantora do Brasil morreu em janeiro de 1982;





7c) Rita & Ney - Foi graças a Ney Matogrosso que os destinos de Rita Lee e Roberto de Carvalho (guitarrista que o acompanhava durante a turnê Bandido, em 1976) se cruzaram e nunca mais se separaram. Além de um grande intérprete das canções de Rita, a voz principal do grupo Secos & Molhados foi o cupido de um dos casamentos mais duradouros da música brasileira;



7d) Rita & Tim - Colegas de gravadora no início da década de 1970, Rita Lee e Tim Maia, insatisfeitos com as políticas comerciais da Philips, quebraram todo o escritório de André Midani, o Big Boss da gravadora na época. Ao sair de lá, Tim diz para a secretária, atônita: "Nada pessoal viu, lindinha!"...


8) Rita Lee desfere todo o seu rancor - Ferina e venenosa, Rita não perdoa vário desafetos, a saber:
8a) Arnaldo Baptista - o ex-marido e ex-companheiro de banda teve algumas intimidades conjugais reveladas no livro, com alfinetadas à atual esposa de Arnaldo, Lucinha Barbosa (um clone de "Rita Lee", segundo a autora das memórias) e com relatos tristes de episódios de insanidade de Lóki - o episódio do fim de Charles, o Jeep ano 1951, e do incêndio na casa alugada da Cantareira são dois exemplos bem tristes do desequilíbrio de um dos músicos mais brilhantes do Brasil;
8b) Mônica Lisboa - A ex-empresaria de Rita Lee só foi citada no livro através do apelido pejorativo de "Governanta". Ex-assistente de Guilherme Araújo, empresário de Gil, Gal e Caetano, foi acusada pela autora de "Esse Tal de Roque Enrow" de ser controladora demais, dentre outros pecados mortais;
8c) Luís Sérgio Carlini - Foi acusado por Rita de ter feito vários motins dentro da banda contra a band leader (Ritz) e de ter roubado o nome da banda "Tutti Frutti" ao registrar o título sob sua propriedade intelectual exclusiva;
8d) Okky de Souza - Casado com uma prima de Roberto de Carvalho, foi padrinho de Antônio, terceiro filho do casal Rita & Roberto. Rita Lee diz que ele passou a fazer parte da maioria absoluta de jornalistas que sempre falaram mal dela na grande imprensa;
8e) Ezequiel Neves - Rita Lee o acusa o anjo protetor de Cazuza de ter espalhado um boato de que ela estava com leucemia (o que rendeu uma música hilária que fecha o LP de 1985). A Rainha do Rock Brasileiro chegou até a ensaiar uma trégua com o "Abominável das Neves" em 1990, quando Cazuza estava em seu leito de morte e implorava por uma reconciliação. Rita confessa que chegou a doar uma quantia em dinheiro para custear um tratamento médico na época em que Zeca estava prestes a morrer, em 2010;
8f) Carlos Calado - Jornalista de respeito, biógrafo e autor de A Divina Comédia dos Mutantes (Ed. 34), Calado não escapou da escrita ferina de Rita Lee, por ter supostamente escrito "masturbações literárias";
8g) Zélia Duncan - Parceira de Rita Lee e amiga de infância até o episódio do revival dOs Mutantes, entre 2005-2007, Zélia Duncan chegou até a receber a bênção da Rainha do Rock Brasileiro para integrar a "nova" formação do grupo. Rita chegou a receber vários convites para reintegrar o grupo, porém declinou todos. Arnaldo, em tom de revanche, deu várias declarações para a imprensa dizendo que ZD era bem superior à Rita, o que deve ter agigantado o ego e a mágoa de Madame Lee. A autora das memórias não chega a dirigir nenhuma palavra de ódio contra Zélia, mas lhe destina o pior de todos os castigos: o da indiferença, mesmo depois de ZD ter gravado uma canção em homenagem à Rita;



9) Rita Lee nos oferta belas imagens de arquivo - Fotos do arquivo pessoal da família Jones ("unida e jamais vencida") se juntam às fotos de Rita ao lado de Roberto, dos filhos Beto, Juca e Tui e de momentos marcantes de uma carreira musical vitoriosa. Cá, para nós: ver Madame Lee fazendo topless na praia ou posando seminua para as câmeras, às vésperas do nascimento de dois de seus filhos, somados aos momentos de intimidade ao lado de seus bichinhos é algo belo e inusitado;


10) Rita Lee está acompanhada de Phantom, um fantasminha pra lá de camarada - Phantom, na verdade uma intervenção bem-humorada do jornalista Guilherme Samora, esclarece fatos, datas, aponta curiosidades e chega até a criticar a inaptidão de Rita em precisar momentos e datas. Um dos fatos curiosos mais interessantes apontados pelo fantasminha foi de que o show Acústico MTV continha uma versão acapella de "Dias Melhores Virão", algo que todos os fãs gostariam de ver e ouvir.



11) Rita Lee fala de suas canções mais importantes e nos conta um pouquinho sobre o processo de criação - Madame Lee fala sobre todos os discos dOs Mutantes dos quais participou, dos seus discos à frente da banda Tutti Frutti e dos discos gravados em parceria com Roberto de Carvalho até 1990. A partir daquele período, suas memórias e/ou sua vontade se tornam mais seletivas. No entanto, há três fatos que devem ser elencados:
11a) as "parcerias" entre Rita, Sérgio e Arnaldo que na verdade não aconteceram, visto que todos tinham uma espécie de acordo em colocar seus nomes em todos os créditos de composição do repertório dos álbuns dOs Mutantes;


11b) "Baila Comigo" foi composta depois de um sonho: grávida de João Lee, seu segundo filho, Rita acordou e compôs esta canção em poucos minutos, em um momento de plena inspiração;
11c) "Arrombou a Festa", uma canção esculachando a MPB da época, chegou a ser um dos maiores sucessos de Rita, em 1977. A Rainha do Rock chegou a gravar a segunda versão em seu álbum de 1979 e uma versão zombando de políticos da época em 1983. Uma quarta versão - Arrombou a Festa número pi" -  chegou a ser composta em 1993, mas foi vetada pela própria Rita Lee, pois anarquizava sem dó com os artistas da época: "Marisa traz dos montes as cantoras mais ecléticas / Quebrando o padrão das sapatas mais atléticas / Senhoras e senhores, o negócio é ser famoso / Quem nasce pra Lulu jamais chega a cão raivoso".




12) Rita Lee lembra de alguns acontecimentos incríveis ao lado de outros famosos - Madame Lee conta algumas situações inusitadas ao lado de lendas do showbiz, das quais selecionamos algumas:
12a) Hebe chegou a encontrar Rita doidona de drogas, na sarjeta em uma rua de São Paulo. A lenda da TV levou Ritz para casa e lhe deu banho e comida, além de implorar para que ela jamais passasse por tal vexame novamente;
12b) Um rapaz loiro e magricela sempre vinha trocar ideias com Rita e Os Mutantes na época do programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi. Tempos depois, ela descobriu que o rapaz era Stuart Angel, filho de Zuzu Angel;
12c) Ulysses Guimarães chegou a ser um dos pretendentes de D. Romilda, a mãe de Rita. No entanto, a paixão dela pelo Dr. Charles deixou o velho Ulysses a ver navios...
12d) Sonia Braga trabalhava como assistente de palco do programa de Ronnie Von na década de 1960 e fez amizade com Rita, que chegou a convidá-la a integrar Os Mutantes. La Braga, ciente de que o seu amor maior era pelo teatro e pelo cinema, declinou do convite;
12e) Durante a turnê do disco Flerte Fatal, Rita escolhia uma gostosona ou uma transexual para se vestir de Miss Brasil 2000 com apenas uma capa de miss e... nada mais! Em Porto Alegre, a escolhida a abrir a capa por poucos segundos e se mostrar para o público como veio ao mundo foi ninguém mais, ninguém menos do que Adriana Calcanhotto antes da fama;
12f) Mick Jagger ficou tão encantado com a apresentação de Rita na abertura do primeiro show da turnê dos Rolling Stones pelo Brasil que liberou as passarelas laterais do gigantesco palco da Voodoo Lounge (geralmente vetadas para os números de abertura) para que Madame Lee fizesse o que ela quisesse em cena. Detalhe: durante o show de Santa Rita de Sampa, Jagger estava de câmera em punho para fotografar a nudez da "Miss Brasil 2000" daquela noite;
12g) Em um jantar de gala oferecido para Shirley MacLaine, Rita ouviu da lendária atriz hollywoodiana que elas pareciam irmãs;
12h) Indignada com o tratamento que Alice Cooper dava para as cobras que ele utilizava em seus shows, Rita adentrou o backstage e roubou as duas coitadinhas em represália ao roqueiro;
12i) Antes de sua apresentação no Hollywood Rock, em 1975, Madame Lee recebeu a visita ilustríssima de Eric Clapton e sua esposa na época, Pattie Boyd - ex-George Harrison e musa inspiradora de "Layla", de Clapton. Detalhe: foi Pattie quem ajudou Rita a costurar o figurino no corpo minutos antes do show;
12j) Em uma de suas tentativas de querer alisar os cabelos crespos, Mary Lee Jones (a  irmã mais velha de Rita) chegou a raspar os cabelos e teve que pedir uma peruca emprestada para o namorado do farmacêutico do bairro. Anos depois, o dono da peruca seria conhecido por todo o Brasil como Clodovil.



13) Rita Lee fala, sem deixar uma certa dose de ironia e deboche de lado, a respeito de sua depressão, de bipolaridade e de outros episódios tristes - Madame Lee deixou bastante claro em suas memórias de que sua depressão, dentre outros aspectos, era fruto da falta de coragem em ter que encarar as mortes em sua família - Mary, Charles, Chesa, amigos mortos pela AIDS, etc. Além disto, ela relata um estupro sofrido na primeira infância e em um aborto realizado em 1977. O primeiro episódio é tratado com serenidade, enquanto o segundo é tratado com tristeza, mas com uma honestidade impressionante;




14) Rita Lee adiciona mais um fato à histórica polêmica envolvendo o grupo Secos & Molhados e a banda norte-americana KISS - Madame Lee afirma, com plena convicção de que os americanos realmente copiaram a maquiagem do grupo que revelou a voz e o talento de Ney Matogrosso para o Brasil e o mundo. Diz Rita: "Entre outros papos, comentamos que o KISS, por meio da estilista brasileira Maria Contessa (que confeccionava o figurino deles), teria sugerido aos gringos a maquiagem inspirada na dos Secos & Molhados. A história procede, uma vez que os Secos aconteceram antes do KISS, portanto pioneiros no quesito 'pintar a cara de branco e preto' (p. 142)".



15) Rita Lee e a ajuizada decisão em sair dos holofotes, aos 65 anos de idade - A autora explica em suas memórias alguns de seus motivos para abandonar os palcos (saúde bastante debilitada, falta de disposição para as exigências do showbiz são as principais), além de deixar claro que não deseja vivenciar os clichês que marcam o fim da vida de um roqueiro: morrer de overdose ou de AIDS, se converter a uma religião radical ou ter que (re)viver por aí em revivals oportunistas, em turnês bilionárias para alimentar o bolso ou o ego não são opções do agrado de Rita Lee, que prefere seguir seus próximos dias como "Tiranassaura Regina" (pp.236-237).


Em uma linguagem bastante coloquial e "adolescente" (segundo críticos mais ferrenhos), Rita Lee deixa claro o seu ódio por jornalistas e críticos. Não se preocupa em verificar datas e nomes de determinados acontecimentos, entretanto oferece um material riquíssimo para quem um dia quiser se lançar no trabalho monumental de escrever sua biografia definitiva. Rita faz um balanço de uma vida inteira dedicada à música e aos que ela sempre amou. E sem se esquecer daqueles que a admiram de paixão.


Se eu pudesse ter a oportunidade de conversar com Rita Lee novamente (tive esta honra duas vezes, assunto para outro texto!), eu lhe faria a seguinte indagação - "Mas afinal de contas, Lady Ritz, conta uma coisa aqui no ouvido da gente (juro de pés juntos que não conto pra ninguém!): quem é a tal cantora famosa em início de carreira com quem você trombou no apartamento do Jorge Ben quando você foi pedir repertório para o primeiro disco dOs Mutantes, hein?".


Eu tenho minhas suspeitas de quem seja a tal fulana, mas ouvir a resposta de um milhão de dólares dos lábios de Santa Rita de Sampa seria de um prazer inenarrável... Espero, de coração, que ambos possamos estar por aqui para vivenciarmos isto...

DUAS LEITURAS SOBRE RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA