Mostrando postagens com marcador Annie Lennox. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Annie Lennox. Mostrar todas as postagens

12 de fevereiro de 2017

TROVA # 111

1825 DIAS SEM WHITNEY HOUSTON


Em memória de Whitney Houston (1963-2012)

Foi numa madrugada de domingo, daquela de intervalos perturbadores entre uma cochilada e outra, nos quais o corpo mais se cansa do que descansa. Recebi a notícia em uma das vezes em que acordei: Whitney Houston já não estava mais entre nós. Uma das vozes mais belas do mundo tinha morrido aos 48 anos.



Tal qual vários artistas de sua geração, Whitney possuía a maldição autodestrutiva de todo artista: ao mesmo tempo em que ele pode originar e erguer as coisas mais belas em matéria de arte, ele também consegue ser extremamente eficiente em matéria de sabotagem própria. Tal qual Michael Jackson, Prince ou Amy Winehouse, Whitney Houston sucumbiu aos prazeres efêmeros das drogas e do alcoolismo e não sobreviveu aos dilemas existenciais de ser uma celebridade em uma terra que respira o sucesso a qualquer preço.




A voz potente de Whitney me pegou em cheio quando eu ainda era criança, lá pelos idos de 1989-1990, graças às trilhas sonoras das novelas da TV Globo. Tinha 11 anos de idade quando a filha de Cissy Houston tomou as paradas de sucesso do planeta de assalto com as canções de The Bodyguard ("O Guarda Costas"). Lembro bem de ver um sem-fim de reportagens sobre a estrela Pop do momento, além de revistas de meninas com traduções de "I Will Always Love You", de Dolly Parton, que tocou nos rádios e na MTV até cansar nossos olhos e ouvidos e fez com que o álbum com as canções do filme fosse o mais vendido de toda a história. Já a película em si era de uma pobreza dramatúrgica sem tamanho: Kevin Costner é tão expressivo quanto uma estátua de cera, porém os videoclipes nos quais a personagem Rachel Marron estava em ação mostrava o que Whitney Houston sabia fazer melhor: cantar!


Pensando bem, Whitney Houston tinha um outro talento indiscutível: ela conseguia arranjar confusão tão bem quanto cantava. Os episódios de manchetes nos jornais por causa de abuso de drogas, álcool, de canos em aparições públicas e barracos com o ex-marido Bobby Brown fizeram a festa dos tabloides e dos programas de celebridades - com direito a um reality show estrelado pelo marido que renovou os limites do mau gosto. Sem esquecer de somar algumas pitadas de arrogância e uma vontade sem fim de dizer que está tudo bem para Deus e o mundo. Vergonha? Vontade de tapar o sol com a peneira? Ou os dois? Só ela poderia saber...




Os anos 1990 acabaram para mim ao som das músicas de My Love is Your Love (1998), que ganhei de presente em um dos meus aniversários. Whitney aparece linda e loira na capa do disco, cantando como nunca. A diva procurou se reconectar com o universo da música Pop ao gravar com nomes de peso como Mariah Carey, Missy Elliot e Lauryn Hill para continuar, digamos, na crista da onda daquele momento. E, com o seu talento indiscutível, conseguiu. "It's Not Right, But It's Okay", "If I Told You That" e "I Learned From the Best" foram a trilha sonora do final de uma década de brilho e sucesso para Whitney e de anos de tédio e amargura para mim.






Os anos 2000 não foram muito agradáveis para a estrela: os escândalos sucessivos e o consumo de drogas começaram a afetar sua forma física e a arranhar sua carreira musical. As vendas caíram e as turnês apontaram a decepção dos fãs e o desgaste de Whitney Houston perante o público. O brilho da estrela começava a se apagar. O novo milênio começava a ficar órfão de grandes vozes e de talentos genuínos. As pessoas teriam uma voz a menos para poder acreditar de que este mundo seria um lugar melhor de se habitar.






Em um universo musical cada vez mais fake e plastificado, a voz poderosa de Whitney Houston faz uma falta sem tamanho. Sua partida trágica de nosso convívio - ela morreu afogada em uma banheira de um hotel em Los Angeles por causa de abuso de drogas e álcool - e seus dramas pessoais que se tornaram públicos compuseram uma aura extremamente negativa de uma das vozes mais belas que o mundo já ouviu. Depois de viver 1825 dias sem a voz de Whitney entre nós, vejo que ela ainda é referência para muitos artistas a se aventurarem pelo mundo musical. Que ela sempre seja lembrada pelo seu talento...



20 de março de 2016

TROVA # 66

A CORAGEM E A OUSADIA DE MOTHER MONSTER
(algumas coisinhas sobre Lady Gaga)

Lady Gaga com o Globo de Ouro de Melhor Atriz graças ao seu maravilhoso trabalho em American Horror Story.


My whole career is a tribute to David Bowie
(Lady Gaga, 2016)

MISS YOU, STARMAN!

A partida repentina de David Bowie para o outro plano provocou reações diversas e surpreendentes por parte da mídia e do público. No entanto, foi a manifestação da classe artística como um todo que mais me comoveu: Bowie era uma fonte de inspiração de músicos de tribos completamente distintas como Lorde e o Red Hot Chilli Peppers. Mick Jagger escreveu um texto sentimental e belíssimo (a emoção extrema é algo incomum para o frontman dos Rolling Stones) sobre o velho amigo, ex-vizinho e rival musical. Madonna dedicou suas legendas mais apaixonadas em sua conta no Instagram à memória do artista que mudou sua percepção diante dos palcos e da vida. Annie Lennox demostrou sua maravilhosa inteligência ao falar do arauto que modificou a relação entre homem e arte. Por outro lado, de todas estas vozes que se ouviram para louvar o Starman, foi a de Stefani Joanne Angelina Germanotta – conhecida por nós como Lady Gaga – que gerou mais controvérsias entre todos os amantes de música.

Madonna definiu David Bowie como um artista talentoso, único, genial, alguém que mudou as regras do jogo da música Pop. Madge nunca teve tanta razão...

MICK JAGGER & DAVID BOWIE



Comecei a prestar atenção na mocinha pouco tempo depois do seu surgimento diante dos olhos do planeta. Parecia extremamente promissora no que diz respeito à ousadia e cara de pau para fazer música, além de ser uma profunda conhecedora das ferramentas e clichês do universo Pop. A ambição e o relativo oportunismo de Mother Monster, sua tosca bizarrice e a permanente vontade de chamar a atenção do público passaram a me irritar de tal maneira eu cheguei a entrar no coro que dizia que “Born this Way” era cópia descaradamente mal feita de “Express Yourself”. O jogo de Gaga virou para mim logo depois do inteligente Artpop (2013) e quando Tony Bennett entrou em cena para nos revelar a cantora extraordinária que Lady Gaga é: a gravação dela para “Ev’ry Time We Say Goodbye” é literalmente arrebatadora.

Gaga ao lado de Cher, na ocasião em que a primeira vestiu o ultra controverso "meat dress" em uma entrega do MTV Music Awards.


Apesar de cantar sem a menor desfaçatez que vivia para sentir o sabor e o frescor do aplauso, Lady Gaga se revelou como uma força distinta das cantoras Pop pelo simples fato de que possui mais voz e ousadia do que todas elas juntas. Não recorre a playbacks, autotunes ou outros efeitos eletrônicos que mascaram a pobreza da preparação vocal de suas colegas de profissão. Pelo contrário: seu talento transparece no fato de que ela não busca, por exemplo, a (impossível) eterna juventude de Madonna ou as caras, bocas e coreografias de Beyoncé, ou o farofismo e a falsa inocência (super infantil) de Katy Perry e Taylor Swift. Gaga sabe a diferença do Pop rasteiro e barato de sua geração e das canções que fizeram de eventos como The Sound of Music, Like a Prayer e The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars capítulos essenciais da cultura popular de todos os tempos.


Resumo da ópera: se antes associávamos Ms. Germanotta à Madonna da mesma maneira que o fazíamos ao dizer que Beyoncé era uma versão dos anos 2000 de Diana Ross à frente (ou não) das Supremes, é preciso rever nossos conceitos e admitir que a fonte de tanta ousadia, cara de pau e determinada genialidade vem do legado do artista mais inventivo de todos os tempos: DAVID BOWIE!



Acho de uma injustiça muito grande cobrar de uma jovem artista (Gaga atinge a marca dos 30 anos de idade em 28 de março de 2016) a genialidade de um homem que foi profundamente autêntico em tudo que fez. Na verdade, vejo uma maldade imensa dos detratores da moça ao criticarem o tributo que ela fez ao legado de Bowie na quinquagésima-oitava cerimônia de entrega dos Grammys. Muitos fãs do Starman, se pudessem, teria ofertado Ms. Germanotta aos leões ou à fogueira por ter cometido tamanha heresia com o repertório alheio. Duncan Jones, filho mais velho do Mestre, enxergou um “entusiasmo excessivo” de uma pessoa “mentalmente confusa”. Infelizmente a maldade de muitos foi muito mais ampla do que a ambição de Lady Gaga em ser respeitada e reconhecida por todos.


A apresentação de Lady Gaga contou com a direção musical de Nile Rodgers – que, graças ao seu eterno toque de Midas, fez de Diana Ross, Madonna e do próprio David Bowie estrelas de primeira grandeza através de álbuns fundamentais de qualquer discografia Pop como Diana (1980), Like a Virgin (1984) e Let’s Dance (1983). A jovem Pop star conseguiu reunir as mais distintas personae do Camaleão Inglês em seus seis minutos de apresentação ao juntar “Space Oddity”, “Rebel, Rebel”, “Changes”, “Ziggy Stardust”, “Fashion”, “Fame”, “Heroes”, “Let’s Dance” e “Under Pressure” em um medley esfuziante. Ao rever a apresentação de Gaga e compará-la com a homenagem feita por Lorde e os ex-companheiros de banda de Bowie no Brit Awards, percebi uma sinceridade e uma devoção muito mais intensas no que foi apresentado na Cerimônia de Entrega do Grammy.



De qualquer modo, utilizar a figura de David Bowie para massacrar a de Lady Gaga é um ledo engano. Enquanto Ms. Germanotta se dedicar a projetos que façam do universo Pop algo mais inteligente – o injustiçado álbum Artpop (2013) não sai do meu aparelho de som de jeito nenhum! –, ela será digna do meu aplauso. Afinal, a ambição e a inteligência que se convertem em coragem e ousadia são maiores do que a obviedade vislumbrada na MTV e nas paradas de sucesso da Billboard. Torço para que a moça continue a nos surpreender e encantar e, assim, levar sua música para caminhos menos óbvios e repletos de criatividade e sapiência, tal qual fez o nosso eterno e saudoso Starman



GAGA TOP 5


1. Applause


2. Born this Way


3. Judas


4. Bad Romance


5. Till It Happens to You



10 de novembro de 2014

TROVA # 40

A ARTE DO DESENCONTRO


Vinícius (não este quem vos escreve), o Poeta, proclamou que viver é a arte do encontro, apesar da quantidade infindável de desencontros que existem nesta vida. Aos contatos positivos, chamamos de encontros. Aos negativos, tratam-se de infelizes acidentes de percurso. Como toda caminhada tem direito ao seu fim, o mesmo deve acontecer com os encontros e os acidentes de percurso. Daí, os desencontros: alguns se fazem necessários para a nossa evolução enquanto seres humanos; outros não necessariamente, pois deixam de  nos agregar qualquer tipo de valor positivo...


Desenlaces me provocam reações das mais variadas: risos de alívio em alguns momentos, choros de amargura em outros, um ódio mortal e uma vontade de esfregar umas duas ou três verdades na cara do desafeto em questão, além da inevitável sensação de libertação de algo que deixa de fazer parte do seu cotidiano. Chorar a perda de algo é até importante, sofrer por alguns dias a dor do desenlace também é relevante. Viver em estágio de sofrimento constante por causa daquilo que já foi é inconcebível. É como a velha a roupa que um dia foi colorida e hoje é um mero conjunto de cores desbotadas manchando um pano velho: fantasma de um passado de glória...


Em um mundo no qual convivemos com seres humanos o tempo todo, torna-se impossível não colhermos dissabores pelo caminho. A interação humana também se dá na base da frustração. Os infelizes acidentes nos trazem obstáculos que nos obrigam a extrair limonadas saborosas de limões podres. Certos encontros - que um dia nos proporcionaram coisas boas e podem deixar de nos trazer carinho e conforto - provocam profundas decepções.


As decepções surgem de onde menos esperamos: elas surgem de uma presença amigável, aparentemente inofensiva e que supostamente te quer bem. São estas falhas graves que nos trazem cicatrizes profundas na alma. A cicatrização, por vezes, é lenta. No entanto, ela precisa ser feita aos poucos e de forma gradual, sem olhar para trás...


Cole Porter, autor de algumas das canções mais belas que este mundo já ouviu, dizia que nós morremos um pouco quando dizemos adeus. Não consigo discordar de tamanha inteligência a respeito do comportamento humano. Chorar e pensar nos porquês de dizermos adeus nos ajudam com a cicatrização, por mais estranhas que as mudanças possam nos parecer. É através da dor que aprendemos as maiores lições de vida e de onde podemos nos expressar da maneira mais íntegra e coerente com os nossos princípios.


Patti Smith, por exemplo, retratou o impacto da perda repentina e precoce de seu marido, Fred "Sonic" Smith, em uma das canções mais singelas e líricas que ela jamais escreveu. Em "My Madrigal", Patti deixa de ser a Musa dos Punks para se converter uma mulher que acreditava no amor "até que a morte nos separassem".


Já o pianista e compositor Antônio Adolfo, em entrevista recente, confidenciou que sua famosa canção "Teletema" também retrata a despedida de alguém que se foi inesperadamente. Neste caso, uma ex-namorada do próprio Adolfo, falecida em um acidente de carro. Uma maneira bastante simples, delicada e singela de se despedir de um encontro memorável. Djavan, por outro lado, fez um samba memorável para celebrar a suposta perda de um amor: “Flor de Lis” (a única canção que me encanta em seu cancioneiro), é de uma tristeza tão absurda, mas tão absurda que emociona o maior dos insensíveis...



Por outro lado, os acidentes de percurso devem ser celebrados em grande estilo quando eles deixam de cruzar o nosso caminho. Uma das interpretações mais notáveis de Frank Sinatra, "One for My Baby (And One More for The Road)", reproduz uma conversa imaginária entre um homem abandonado por uma mulher e um barman. O que resta a um ser humano, deixado de lado por uma paixão avassaladora, por volta de três horas da manhã quando tudo o que lhe resta é chorar o abandono? Pedir mais uma dose dupla e compartilhar as mágoas com alguém para que a longa estrada seja menos pesarosa de se trilhar. 


Porter, Patti e Adolfo falaram da despedida de um encontro. Sinatra se refere a um mero acidente de percurso que deixa de existir. Chorar diante de ambos os tipos de desenlace é estritamente normal. Fazer com que a saudade e a decepção deixem de nos atormentar através da melancolia e do rancor é praticar a arte do desencontro.



Compartilho do mesmo pensamento do qual o Poetinha dizia sobre si mesmo diante da vida: "Morro ontem" e "Nasço amanhã". Como a arte do desencontro é um jogo, por vezes muitíssimo perverso, o segredo para que sejamos bons jogadores é que possamos a aprender a jogá-lo: espero aprender a fazer isto bem um dia...
Enquanto isso, eu festejo o fato de que, tal qual o Poeta de quem eu herdei o mesmo nome, não ando só. Sempre estarei em boa companhia. Primeiramente, a companhia imprescindível da minha presença e da minha paz de espírito...