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17 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 38

MARISA MONTE – MM (1989)


         Marisa de Azevedo Monte era uma menina graciosa de 21 anos quando desistiu de ser cantora lírica em Roma para se aventurar pelos territórios da música popular. A infância e a adolescência sempre foram marcadas pela música: seu pai, o engenheiro Carlos Saboia Monte foi um dos diretores da Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro. Além disso, Marisa estudou piano, canto e bateria. Aos 12 anos, participou de uma montagem de Rocky Horror Show dirigida por Miguel Falabella.
         Ao retornar de Roma para a Cidade Maravilhosa, Marisa Monte procurou o produtor e compositor Nelson Motta para montar o seu primeiro espetáculo solo. O repertório escolhido pelos dois era bastante abrangente – de Mutantes a Carmen Miranda, passando por Peninha, Luiz Gonzaga, Kurt Weill, Candeia e Waldick Soriano. A turnê, batizada de Veludo Azul, fez com que Marisa cantasse por várias cidades do Brasil durante o ano de 1988, com direito a aparição na mídia da época e o respeito da crítica. Inclassificável, os meios de comunicação a tacharam como uma artista “eclética”, por ter dificuldade em assimilar a diversidade que sempre foi a marca do trabalho da filha de Carlos e Sylvia Monte.


         Os convites das gravadoras para a realização do disco de estreia não faltaram. Depois de várias propostas rejeitadas, Marisa Monte decidiu assinar com a EMI. Com exceção de uma faixa, MM foi gravado ao vivo durante uma apresentação ao vivo em maio de 1988, sem retoques ou recursos de retoques na voz. Uma medida bastante incomum em termos de marketing estratégico de lançamentos de novos artistas, diga-se de passagem.


      MM é composto de 12 canções – 11 regravações e uma adaptação de um sucesso italiano para o português: Nelson Motta adaptou a letra de “E Po' Che Fa”, do italiano Pino Daniele, para o português. “Bem Que Se Quis” se tornou o primeiro sucesso de Marisa Monte e foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras do ano de 1989 e foi tema da personagem de Lúcia Veríssimo na novela O Salvador da Pátria, da TV Globo. A faixa de abertura é uma versão pungente de “Comida”, de Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Marcelo Frommer, uma das canções mais emblemáticas do repertório dos Titãs. Do universo do Rock nacional, Marisa regravou “Ando Meio Desligado”, de Rita Lee e dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista, um dos números mais importantes do repertório dos Mutantes.


         A terceira faixa do disco é uma regravação de “Chocolate”, uma das canções mais interessantes do repertório de Tim Maia, por quem Marisa Monte sempre considerou como uma de suas principais influências. O jingle de Tim, uma declaração de amor a um dos doces mais adorados pelos seres humanos, foi uma oportunidade e tanto para que Marisa fizesse um protesto a favor da liberação das drogas através dos versos, inclusos por ela:

“Não quero pó
Não quero rapé
Não quero cocaína
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
(Legalize marijuana!)
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber”


         Do mundo do samba, Marisa Monte resgatou três clássicos do gênero: “Preciso Me Encontrar”, uma das criações mais célebres de Candeia, foi um enorme sucesso na voz de Cartola. “Lenda das Sereias, Rainha do Mar” foi um dos temas de samba-enredo mais populares da história do Carnaval carioca. Por fim, “South American Way” (Al Dublin & Jimmy McHugh) é um dos números mais significativos do repertório que fez de Carmen Miranda uma das maiores lendas do showbiz internacional.
         O trunfo principal de MM é a diversidade de ritmos (Rock, Soul, Samba...). A regravação do Forró “O Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em ritmo de Reggae e a versão espetacular de “Negro Gato” (Getúlio Côrtes) em uma levada Blues com pitadas de Samba evidenciam o quanto Marisa Monte é uma cantora versátil, ousada e marcante. Já as três faixas finais do disco são releituras de clássicos da canção em língua inglesa: “I Heard It Through The Grapevine” (Barrett Strong & Norman Whitfield), um dos números mais importantes do repertório de Marvin Gaye; “Bess, You Is My Woman Now”, um dos números mais belos da ária Porgy & Bess, dos irmãos Gershwin, contou com a participação especial do grupo Nouvelle Cuisine; “Speak Low” (Kurt Weill & Ogden Nash), a única faixa gravada em estúdio, é uma homenagem ao estilo de cantar de João Gilberto.


         O disco de estreia de Marisa Monte é o retrato fiel do talento de uma das artistas mais talentosas da música brasileira. Um trabalho que merece ser reouvido para que sempre possamos nos lembrar da beleza do canto de uma das sereias mais belas do Brasil...   


26 de fevereiro de 2017

TROVA # 113

FOSSA ENSOLARADA
(meu apreço e minha inveja do lendário Solar da Fossa)


     

       A partir da segunda metade da década de 1960, a expressão “estar na fossa” adquiriu um sentido distinto do original, ou seja, nada a ver com desilusão amorosa. Tudo isso ocorreu graças a um lendário casarão convertido em uma suntuosa pensão que abrigou a nata da arte, do pensamento da cultura do Brasil daquele período. A Pensão Santa Terezinha, mais conhecido como Solar da Fossa, foi moradia de artistas e intelectuais antenados e engajados do porte de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Ruy Castro, Naná Vasconcellos, Sueli Costa, Tim Maia, Maria Gladys, Aderbal Freire Filho, Jards Macalé, Antônio Pedro, Zé Kéti, Abel Silva e mitos outros antes de alcançarem o reconhecimento e a fama.

Paulinho da Viola em frente ao portão principal do Solar da Fossa na capa de seu disco de 1971

         Se eu pudesse pegar o Delorean dos meus sonhos e voltar ao ano de 1967, eu faria questão de passar uns dias no Solar da Fossa depois de negociar minha estadia por um precinho bem bacana com D. Jurema Cavalcanti, a administradora da pensão. Poderia tomar um copo de uísque e trocar algumas figurinhas com meu amado mestre Ruy Castro sobre música, literatura e jornalismo. Teria a chance de ouvir Caetano Veloso e Paulinho da Viola cantarem “Alegria, Alegria” e “Sinal Fechado”, dois clássicos da música brasileira pela primeira vez. Conheceria o talento imortal de Zé Rodrix, Tim Maia e de Guarabyra em início de carreira. Assistiria a um show gratuito de Naná Vasconcellos e seus batuques inconfundíveis no meio do quintal da pensão. Viveria o deslumbre das belezas juvenis de Gal Costa, Darlene Glória, Maria Gladys, Betty Faria e Ítala Nandi. E, por fim, poderia xeretar os relacionamentos amorosos nada discretos de Zé Kéti e Antônio Pedro durante o meu tempo livre.




      O principal celeiro da intelligentsia carioca da época foi eternizado pelo jornalista Toninho Vaz em Solar da Fossa: um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias, publicado em 2011 pela Editora Casa da Palavra. Neste livro, o biógrafo de Torquato Neto e Paulo Leminski conta como o lendário casarão de Botafogo se tornou tão conhecido através de centenas de depoimentos de ex-moradores (ilustres ou não) do Solar da Fossa. Uma leitura deliciosa, que acendeu ainda mais minha vontade de ter sido um jovem nos anos 1960 só para poder “estar na fossa”.


        Infelizmente, a história do Solar da Fossa teve os seus altos e baixos, tal qual a trama de qualquer novela global: as disputas judiciais entre Frederico Mello, o arrendatário do casarão e dos terrenos e os proprietários do imóvel renderam longas batalhas nos tribunais, deixando as vidas de várias pessoas em um limbo de incertezas. A guerra entre Mello, Jurema Cavalcanti, os moradores e os donos do imóvel se findou em 1971 quando a justiça determinou que todos deveriam ser despejados da pensão sob escolta policial.


         Pouco tempo depois, o Solar da Fossa foi demolido para dar início à construção do Shopping Rio Sul, um dos maiores templos de consumo da Zona Sul carioca. Era o encerramento de mais um capítulo das batalhas entre liberdade e capital, entre o conservadorismo da direita elitista e o sentimento libertador das esquerdas do período, entre a ditadura militar e a intelligentsia disposta a resistir contra o regime de exceção. A demolição do casarão e o não-tombamento pelo patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro é mais um exemplo de que nossa tradição em renegar nossa história é muito maior do que o instinto de preservá-la.



         Por outro lado, nem a ditadura, nem os paladinos do capitalismo, tampouco os militares xucros que comandaram o Brasil por mais de 20 anos conseguiram que a história do Solar da Fossa fosse legada ao esquecimento. Afinal, é impossível demolir os edifícios da memória de quem viveu um momento histórico tão significativo para a história da humanidade como foi a segunda metade da década de 1960. Para aqueles, a fossa sempre será libertadora e ensolarada...


4 de dezembro de 2016

TROVA # 101

MEMÓRIAS DE UMA ROQUEIRA MALCOMPORTADA


"A sorte de ter sido quem sou, de estar onde estou, não é nada comparada ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente feliz." 
(Rita Lee – Rita Lee: Uma Autobiografia, p. 269)


Rita Lee lançou suas memórias em livro. Um livro para lá de esperado, interessantíssimo, encantador, honesto, sincero, brutal. Uma narrativa tão envolvente, que eu li em menos de sete noites (por motivos de força maior, eu só podia ler as memórias de Rita durante a parte da noite, antes de dormir). 


Se eu fosse a Rainha do Rock Brasileiro, eu teria dado outro título ao invés de "Uma Autobiografia": daria o título de "Memórias de uma Roqueira Malcomportada" por causa do conjunto da obra mais sincera que a filha de Dr. Charles e D. Chesa nos legou. Rita não se compromete em dar detalhes complexos de sua relação com Os Mutantes ou com os Tropicalistas, tampouco dá explicações detalhadas sobre sua relação de vida e trabalho de décadas ao lado do parceiro / marido Roberto de Carvalho. Datas não são o forte de Madame Lee, o que compreensível para alguém que foi por anos e anos a livre-docente em porra-louquice (só perdendo para Ozzy Osborne ou Keith Richards no quesito "drogas").



Já distante dos palcos e dos holofotes há alguns anos, Rita Lee decidiu fugir dos clichês que rondam o universo do showbiz e reuniu suas memórias em livro sem necessitar de um ghost writer, mas com “causos” bem picantes... 

Por isso e muito mais, decidi elencar 15 motivos para que você não deixe de ler o livro de Rita Lee de maneira alguma:

1) Rita Lee relata os seus problemas com as drogas e com alcoolismo sem rodeios - Sem discurso de "madalena arrependida", a Rainha do Rock Brasileiro fala de seus antigos vícios sem arrependimento, conta um pouquinho sobre suas internações em clínicas de reabilitação, do acidente que esfacelou o seu maxilar e quase a impediu de cantar em meados dos anos 1990 e de várias de suas operações (mastectomia, hemorroida, cordas vocais, reconstrução dos ossos do rosto, retirada da vesícula) e de uma surpreendente suspeita de Mal de Parkinson;




2) Rita Lee encanta os leitores com a bela família que constituiu - O amor intenso e verdadeiro por Roberto de Carvalho, por seus três belos filhos, sua neta e a devoção incansável por seus bichos mil chega a comover o mais insensível dos leitores. Apesar de toda a inconstância da rotina da mulher que mais vendeu discos no país (ela vendeu mais discos do que Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia JUNTAS!), Rita conseguiu dar a prioridade desejada ao seu ninho;



3) Rita Lee conta alguns bastidores surpreendentes do grupo Os Mutantes, do qual foi uma das fundadoras - A arrogância e os egos estratosféricos dos irmãos Cláudio Cesar, Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, a falta de asseio da residência dOzmano da Pompeia, os ataques de D. Clarisse (a matriarca da família) não passaram incólumes pelo olhar e a memória de Rita. Dos episódios com Arnaldo e Serginho, há três fatos inesquecíveis e surpreendentes:


3a) A prima ninfomaníaca dos Mutantes - segundo Madame Lee, Claudia Dias Baptista teria literalmente "passado o rodo" em vários homens que frequentavam uma academia de artes marciais que todos frequentavam na Vila Mariana, a ponto do dono do estabelecimento ter sido obrigado a fechar as portas por conta do escândalo de um homem casado ter se envolvido com uma aluna. Hoje, Claudia é conhecida pelo público brasileiro como Monja Coen, uma liderança budista;


3b) A irreverência e a anarquia dos irmãos Mutantes assombrava mais da metade do mundo musical - De acordo com a autora, o ataque cardíaco fulminante de Vicente Celestino teria sido causado pelo choque de ver os irmãos Baptista aprontando suas estripulias com seus instrumentos musicais. O intérprete de "Coração Materno", que tinha sido convidado para participar do programa coletivo Divino Maravilhoso, tinha ficado bastante transtornado com a passagem de som dos rapazes, que tinham ligado os instrumentos no volume máximo durante uma passagem de som e fez com que Celestino começasse a passar mal dentro dos estúdios de TV. Segundo Rita, o episódio "pegou mal" para a reputação dos Irmãos Baptista;
3c) Desligando Edu - O episódio no qual Os Mutantes deveriam abrir um show de Edu Lobo em Portugal me rendeu altas gargalhadas. Depois de terem sido esnobados pelo autor de "Ponteio" de maneira bem grosseira, Arnaldo, Sérgio e Rita, em um ato de molecagem explícita, decidiram procurar pelos fios que ligavam o equipamento de som de Edu e simplesmente cortaram os fios da apresentação, inviabilizando o show. Sim, aqueles meninos poderiam ser mais terríveis do que se poderia imaginar...


4) Rita Lee e o lendário casarão da Vila Mariana - Localizada no número 670 da rua Joaquim Távora, a residência dos Jones abrigou várias histórias hilárias e algumas tristes do casal Charles Fenley Jones e Romilda Padula Jones (mais conhecida pelo apelido de Chesa), pais de Rita e de suas irmãs mais velhas - Mary Lee Jones e Virgínia Lee Jones. A presença de Balú e Carú, amigas de parentes que se tornaram, posteriormente, em babás e anjos da guarda da família, formava o harém irreverente e católico (Dona Romilda colocava a imagem de Nossa Senhora Aparecida em cima da TV durante as eliminatórias dos festivais da canção dos quais Os Mutantes participavam) que contrastava com o exército de um homem só formado pelo sargento Charles, que controlava tudo com seu olhar intimidador e com mão de ferro.


5) Rita Lee Fã - É, no mínimo, surpreendente que a mulher que mais vendeu discos no Brasil seja uma fã tão ardorosa de James Dean (sua eterna paixão!) e de David Bowie (a quem confessou ser fãzoca - Disse ela a Bowie: "I'm such an old fan of yours", no que ele respondeu, com sua elegância indefectível e seu humor inglês: "Oh yeah, I'm such and old singer"). Pelo fato de sempre ter sido tiete de seus ídolos, Rita alega sempre ter compreendido a idolatria (às vezes, desmedida e excessiva) de muitos de seus admiradores.


6) Rita Lee conta os detalhes de sua primeira vez na prisão, em 1976 - O grande público toma conhecimento dos detalhes que levaram a autora de "Ovelha Negra" para detrás das grades. Em solidariedade à mãe de um fã dos Mutantes que foi morto em uma apresentação do grupo em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, anos antes, Rita decidiu prestar depoimento esclarecendo que o rapaz foi morto por policiais que deveriam estar fazendo a segurança do local. Em represália, os "meganhas" surgiram na residência da artista, na época grávida de seu primeiro filho, "plantaram" drogas pelos cantos da casa e levaram Madame Lee em cana. Um detalhe: com todo o apoio da Ditadura Militar.

7) Rita Lee e seus queridos amigos - A artista não apenas fala da amizade com ilustres e famosos, como também nos brinda com algumas curiosidades deliciosas:
7a) Ritz & Gil - Amigos desde a época da Tropicália, Rita Lee e Gilberto Gil formaram uma parceria musical sólida e uma amizade de muitos anos. Foi ele quem fez com que a filha mais nova de Charles e Chesa largasse de vez os estudos em Comunicação na USP para assumir, de vez, a carreira artística. Padrinho do filho mais velho de Rita e Roberto de Carvalho, Gilberto Gil estava prestes a reeditar a segunda versão do show Refestança junto de sua querida pupila quando teve que declinar do convite pelo fato de ter que assumir o Ministério da Cultura do primeiro governo Lula;





7b) Ritz & Elis - A amizade entre ambas surgiu quando Rita estava presa e Elis Regina foi visitar a colega na prisão, exigindo condições decentes para o encarceramento de Rita. Apesar de César Camargo Mariano ter torcido o nariz em um primeiro momento, Elis se tornou uma intérprete constante da dupla Lee-Carvalho. Foi Madame Lee quem convenceu a geniosa intérprete de "Dois pra Lá, Dois pra Cá" a participar de Mulher 80, lendário especial de TV que reuniu as duas ao lado de Gal Costa, Maria Bethânia, Simone, Fafá de Belém, Joanna, Marina Lima, Zezé Motta e Quarteto em Cy. Uma parceria musical da Pimentinha com o casal mais ilustre da MPB (na qual Elis seria autora dos versos) estava programada, porém nunca aconteceu: a maior cantora do Brasil morreu em janeiro de 1982;





7c) Rita & Ney - Foi graças a Ney Matogrosso que os destinos de Rita Lee e Roberto de Carvalho (guitarrista que o acompanhava durante a turnê Bandido, em 1976) se cruzaram e nunca mais se separaram. Além de um grande intérprete das canções de Rita, a voz principal do grupo Secos & Molhados foi o cupido de um dos casamentos mais duradouros da música brasileira;



7d) Rita & Tim - Colegas de gravadora no início da década de 1970, Rita Lee e Tim Maia, insatisfeitos com as políticas comerciais da Philips, quebraram todo o escritório de André Midani, o Big Boss da gravadora na época. Ao sair de lá, Tim diz para a secretária, atônita: "Nada pessoal viu, lindinha!"...


8) Rita Lee desfere todo o seu rancor - Ferina e venenosa, Rita não perdoa vário desafetos, a saber:
8a) Arnaldo Baptista - o ex-marido e ex-companheiro de banda teve algumas intimidades conjugais reveladas no livro, com alfinetadas à atual esposa de Arnaldo, Lucinha Barbosa (um clone de "Rita Lee", segundo a autora das memórias) e com relatos tristes de episódios de insanidade de Lóki - o episódio do fim de Charles, o Jeep ano 1951, e do incêndio na casa alugada da Cantareira são dois exemplos bem tristes do desequilíbrio de um dos músicos mais brilhantes do Brasil;
8b) Mônica Lisboa - A ex-empresaria de Rita Lee só foi citada no livro através do apelido pejorativo de "Governanta". Ex-assistente de Guilherme Araújo, empresário de Gil, Gal e Caetano, foi acusada pela autora de "Esse Tal de Roque Enrow" de ser controladora demais, dentre outros pecados mortais;
8c) Luís Sérgio Carlini - Foi acusado por Rita de ter feito vários motins dentro da banda contra a band leader (Ritz) e de ter roubado o nome da banda "Tutti Frutti" ao registrar o título sob sua propriedade intelectual exclusiva;
8d) Okky de Souza - Casado com uma prima de Roberto de Carvalho, foi padrinho de Antônio, terceiro filho do casal Rita & Roberto. Rita Lee diz que ele passou a fazer parte da maioria absoluta de jornalistas que sempre falaram mal dela na grande imprensa;
8e) Ezequiel Neves - Rita Lee o acusa o anjo protetor de Cazuza de ter espalhado um boato de que ela estava com leucemia (o que rendeu uma música hilária que fecha o LP de 1985). A Rainha do Rock Brasileiro chegou até a ensaiar uma trégua com o "Abominável das Neves" em 1990, quando Cazuza estava em seu leito de morte e implorava por uma reconciliação. Rita confessa que chegou a doar uma quantia em dinheiro para custear um tratamento médico na época em que Zeca estava prestes a morrer, em 2010;
8f) Carlos Calado - Jornalista de respeito, biógrafo e autor de A Divina Comédia dos Mutantes (Ed. 34), Calado não escapou da escrita ferina de Rita Lee, por ter supostamente escrito "masturbações literárias";
8g) Zélia Duncan - Parceira de Rita Lee e amiga de infância até o episódio do revival dOs Mutantes, entre 2005-2007, Zélia Duncan chegou até a receber a bênção da Rainha do Rock Brasileiro para integrar a "nova" formação do grupo. Rita chegou a receber vários convites para reintegrar o grupo, porém declinou todos. Arnaldo, em tom de revanche, deu várias declarações para a imprensa dizendo que ZD era bem superior à Rita, o que deve ter agigantado o ego e a mágoa de Madame Lee. A autora das memórias não chega a dirigir nenhuma palavra de ódio contra Zélia, mas lhe destina o pior de todos os castigos: o da indiferença, mesmo depois de ZD ter gravado uma canção em homenagem à Rita;



9) Rita Lee nos oferta belas imagens de arquivo - Fotos do arquivo pessoal da família Jones ("unida e jamais vencida") se juntam às fotos de Rita ao lado de Roberto, dos filhos Beto, Juca e Tui e de momentos marcantes de uma carreira musical vitoriosa. Cá, para nós: ver Madame Lee fazendo topless na praia ou posando seminua para as câmeras, às vésperas do nascimento de dois de seus filhos, somados aos momentos de intimidade ao lado de seus bichinhos é algo belo e inusitado;


10) Rita Lee está acompanhada de Phantom, um fantasminha pra lá de camarada - Phantom, na verdade uma intervenção bem-humorada do jornalista Guilherme Samora, esclarece fatos, datas, aponta curiosidades e chega até a criticar a inaptidão de Rita em precisar momentos e datas. Um dos fatos curiosos mais interessantes apontados pelo fantasminha foi de que o show Acústico MTV continha uma versão acapella de "Dias Melhores Virão", algo que todos os fãs gostariam de ver e ouvir.



11) Rita Lee fala de suas canções mais importantes e nos conta um pouquinho sobre o processo de criação - Madame Lee fala sobre todos os discos dOs Mutantes dos quais participou, dos seus discos à frente da banda Tutti Frutti e dos discos gravados em parceria com Roberto de Carvalho até 1990. A partir daquele período, suas memórias e/ou sua vontade se tornam mais seletivas. No entanto, há três fatos que devem ser elencados:
11a) as "parcerias" entre Rita, Sérgio e Arnaldo que na verdade não aconteceram, visto que todos tinham uma espécie de acordo em colocar seus nomes em todos os créditos de composição do repertório dos álbuns dOs Mutantes;


11b) "Baila Comigo" foi composta depois de um sonho: grávida de João Lee, seu segundo filho, Rita acordou e compôs esta canção em poucos minutos, em um momento de plena inspiração;
11c) "Arrombou a Festa", uma canção esculachando a MPB da época, chegou a ser um dos maiores sucessos de Rita, em 1977. A Rainha do Rock chegou a gravar a segunda versão em seu álbum de 1979 e uma versão zombando de políticos da época em 1983. Uma quarta versão - Arrombou a Festa número pi" -  chegou a ser composta em 1993, mas foi vetada pela própria Rita Lee, pois anarquizava sem dó com os artistas da época: "Marisa traz dos montes as cantoras mais ecléticas / Quebrando o padrão das sapatas mais atléticas / Senhoras e senhores, o negócio é ser famoso / Quem nasce pra Lulu jamais chega a cão raivoso".




12) Rita Lee lembra de alguns acontecimentos incríveis ao lado de outros famosos - Madame Lee conta algumas situações inusitadas ao lado de lendas do showbiz, das quais selecionamos algumas:
12a) Hebe chegou a encontrar Rita doidona de drogas, na sarjeta em uma rua de São Paulo. A lenda da TV levou Ritz para casa e lhe deu banho e comida, além de implorar para que ela jamais passasse por tal vexame novamente;
12b) Um rapaz loiro e magricela sempre vinha trocar ideias com Rita e Os Mutantes na época do programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi. Tempos depois, ela descobriu que o rapaz era Stuart Angel, filho de Zuzu Angel;
12c) Ulysses Guimarães chegou a ser um dos pretendentes de D. Romilda, a mãe de Rita. No entanto, a paixão dela pelo Dr. Charles deixou o velho Ulysses a ver navios...
12d) Sonia Braga trabalhava como assistente de palco do programa de Ronnie Von na década de 1960 e fez amizade com Rita, que chegou a convidá-la a integrar Os Mutantes. La Braga, ciente de que o seu amor maior era pelo teatro e pelo cinema, declinou do convite;
12e) Durante a turnê do disco Flerte Fatal, Rita escolhia uma gostosona ou uma transexual para se vestir de Miss Brasil 2000 com apenas uma capa de miss e... nada mais! Em Porto Alegre, a escolhida a abrir a capa por poucos segundos e se mostrar para o público como veio ao mundo foi ninguém mais, ninguém menos do que Adriana Calcanhotto antes da fama;
12f) Mick Jagger ficou tão encantado com a apresentação de Rita na abertura do primeiro show da turnê dos Rolling Stones pelo Brasil que liberou as passarelas laterais do gigantesco palco da Voodoo Lounge (geralmente vetadas para os números de abertura) para que Madame Lee fizesse o que ela quisesse em cena. Detalhe: durante o show de Santa Rita de Sampa, Jagger estava de câmera em punho para fotografar a nudez da "Miss Brasil 2000" daquela noite;
12g) Em um jantar de gala oferecido para Shirley MacLaine, Rita ouviu da lendária atriz hollywoodiana que elas pareciam irmãs;
12h) Indignada com o tratamento que Alice Cooper dava para as cobras que ele utilizava em seus shows, Rita adentrou o backstage e roubou as duas coitadinhas em represália ao roqueiro;
12i) Antes de sua apresentação no Hollywood Rock, em 1975, Madame Lee recebeu a visita ilustríssima de Eric Clapton e sua esposa na época, Pattie Boyd - ex-George Harrison e musa inspiradora de "Layla", de Clapton. Detalhe: foi Pattie quem ajudou Rita a costurar o figurino no corpo minutos antes do show;
12j) Em uma de suas tentativas de querer alisar os cabelos crespos, Mary Lee Jones (a  irmã mais velha de Rita) chegou a raspar os cabelos e teve que pedir uma peruca emprestada para o namorado do farmacêutico do bairro. Anos depois, o dono da peruca seria conhecido por todo o Brasil como Clodovil.



13) Rita Lee fala, sem deixar uma certa dose de ironia e deboche de lado, a respeito de sua depressão, de bipolaridade e de outros episódios tristes - Madame Lee deixou bastante claro em suas memórias de que sua depressão, dentre outros aspectos, era fruto da falta de coragem em ter que encarar as mortes em sua família - Mary, Charles, Chesa, amigos mortos pela AIDS, etc. Além disto, ela relata um estupro sofrido na primeira infância e em um aborto realizado em 1977. O primeiro episódio é tratado com serenidade, enquanto o segundo é tratado com tristeza, mas com uma honestidade impressionante;




14) Rita Lee adiciona mais um fato à histórica polêmica envolvendo o grupo Secos & Molhados e a banda norte-americana KISS - Madame Lee afirma, com plena convicção de que os americanos realmente copiaram a maquiagem do grupo que revelou a voz e o talento de Ney Matogrosso para o Brasil e o mundo. Diz Rita: "Entre outros papos, comentamos que o KISS, por meio da estilista brasileira Maria Contessa (que confeccionava o figurino deles), teria sugerido aos gringos a maquiagem inspirada na dos Secos & Molhados. A história procede, uma vez que os Secos aconteceram antes do KISS, portanto pioneiros no quesito 'pintar a cara de branco e preto' (p. 142)".



15) Rita Lee e a ajuizada decisão em sair dos holofotes, aos 65 anos de idade - A autora explica em suas memórias alguns de seus motivos para abandonar os palcos (saúde bastante debilitada, falta de disposição para as exigências do showbiz são as principais), além de deixar claro que não deseja vivenciar os clichês que marcam o fim da vida de um roqueiro: morrer de overdose ou de AIDS, se converter a uma religião radical ou ter que (re)viver por aí em revivals oportunistas, em turnês bilionárias para alimentar o bolso ou o ego não são opções do agrado de Rita Lee, que prefere seguir seus próximos dias como "Tiranassaura Regina" (pp.236-237).


Em uma linguagem bastante coloquial e "adolescente" (segundo críticos mais ferrenhos), Rita Lee deixa claro o seu ódio por jornalistas e críticos. Não se preocupa em verificar datas e nomes de determinados acontecimentos, entretanto oferece um material riquíssimo para quem um dia quiser se lançar no trabalho monumental de escrever sua biografia definitiva. Rita faz um balanço de uma vida inteira dedicada à música e aos que ela sempre amou. E sem se esquecer daqueles que a admiram de paixão.


Se eu pudesse ter a oportunidade de conversar com Rita Lee novamente (tive esta honra duas vezes, assunto para outro texto!), eu lhe faria a seguinte indagação - "Mas afinal de contas, Lady Ritz, conta uma coisa aqui no ouvido da gente (juro de pés juntos que não conto pra ninguém!): quem é a tal cantora famosa em início de carreira com quem você trombou no apartamento do Jorge Ben quando você foi pedir repertório para o primeiro disco dOs Mutantes, hein?".


Eu tenho minhas suspeitas de quem seja a tal fulana, mas ouvir a resposta de um milhão de dólares dos lábios de Santa Rita de Sampa seria de um prazer inenarrável... Espero, de coração, que ambos possamos estar por aqui para vivenciarmos isto...

DUAS LEITURAS SOBRE RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA