SAUDADE:
palavra que traduz um sentimento agridoce de algo que já não temos mais
conosco. Palavra muito difícil de ser traduzida para outros idiomas, bem
difícil de explicação para quem não é nativo do idioma português. Dizem que a saudade
é síndrome de quem vive no passado, enquanto a ansiedade é pavor do futuro e a
depressão é o pânico do presente. Talvez faça sentido, porque sou alguém
ansioso por natureza e já vivi episódios graves de depressão. E conheço várias
pessoas que se encaixam nessa lógica.
Porém,
não podemos nos esquecer jamais de que viver é um jogo muito mais complexo do
que a lógica comum e é uma ação que requer, acima de tudo, CORAGEM. Coragem de
se expor, coragem de tirar as palavras do pensamento e das conversas íntimas
para leva-las para o papel e depois para o ciberespaço. Coragem de desafiar o
senso comum imposto por um pensamento conservador e tacanho. Coragem de ser
diferente em um contexto que exige que todo mundo seja e aja de maneira igual.
Apesar
do que sugere o título do texto que você está lendo, estou longe de ser um
entusiasta do que já passou. Guardo com carinho muitas lembranças de outrora, tenho
outras memórias bem preservadas na gaveta do rancor. Tenho mais animação pelo
futuro, considerando o que ele pode nos trazer de bom e não tão bom assim. Faço
do meu presente a possibilidade de construir um futuro melhor para mim e para
mais alguns. Escrevo tudo isso para dizer que não sinto uma ponta de saudade do
passado que eu vivi, mas invejo profundamente o passado que eu não vivi. A
juventude anárquica e desbundada dos anos 1960 e 1970 e muitos dos eventos
político-culturais que foram promovidos para combater a caretice brasileira
nossa de todo dia.
Caso
queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam apenas o seguinte: se o passado
que me cabe e não me cabe mais são estrelas no espaço sideral, podem me chamar
de “astronauta da saudade”, pois meus textos transitam por corpos celestes e
resgatam as memórias boas que vivi e as lembranças que gostaria de ter tido.
Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam também que sou um amigo da
arte, da ciência e do conhecimento. Falo e escrevo sobre coisas “fora de moda”:
“livros, discos, vídeos à mancheia” e outras coisinhas que o sujeito comum não
gosta ou não aprecia mais. Sempre contra a corrente, contra o senso comum e a
velha pasmaceira.
Cada
texto que escrevo vai muito além do desejo de ser lido ou do mero instinto de
me comunicar por meio de palavras para velhos conhecidos ou um leitor cujo
rosto eu não conheço. Cada postagem em meu blog
sempre foi uma maneira de procurara a beleza no presente com o auxílio da
música. Em algumas ocasiões fui bem-sucedido, em outras nem tanto. No resumo de
tudo, foi mantido o exercício da escrita como um ofício prazeroso e com a
garantia de que erros e acertos estão devidamente registrados, apesar de
levemente revisados.
Já
que tornar público o que há de mais íntimo por parte do pensamento é o fato que
está diante de seus olhos, aproveito para fazer um convite para você que chegou
até aqui: ouça os textos, leia os discos e as canções que se encontram por
aqui. O blog foi uma viagem e tanto.
Quem sabe o livro seja também. Por isso, junte-se a mim e faça uma boa viagem
pelas letras e sons que reuni aqui depois de tantos anos...
Como
o ano de 2020 cansou com algumas de nossas esperanças?
“Esperança cansa
Cansa de esperar
Já não tô podendo mais
Minha paciência é a razão
Minha fúria odiosa já tá na agulha
Minha fúria odiosa já tá na agulha
E um dia poderosa
Poderá dizer que acha tudo muito pouco
Fugir quando estiver desesperada, abandonada
E de repente voltar
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
E de repente, volta
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa”
(Karina Buhr, 2010)
Se você chegou até
aqui, é porque sobreviveu junto comigo e junto de tantos outros que fizeram com
que as coisas valessem a pena. Escrevo este texto faltando menos de 24 horas
para o apagar das luzes do ano da (des)graça de 2020 na tentativa de encontrar
uma lógica coerente ou um pouco de esperança para o próximo ciclo de 365 dias
que está a caminho. A dificuldade é imensa, já que vivemos anos bastante
difíceis: uma pandemia que ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros e
contaminou (oficialmente) mais de 7 milhões e meio de pessoas; uma crise
política permanente aliada a retrocessos econômicos, minando quaisquer
possibilidades de avanços sociais;os
órgãos de imprensa vivem sob ataque constante do Governo Federal enquanto
milhões retornam ao mapa da fome.
Sempre haverá um ou
outro que pode me acusar de pessimista, ou de ser movido apenas por uma “fúria odiosa”, algo totalmente compreensível em tempos
de tamanha intolerância. Porém, aproveito para me defender citando uma frase
famosa do escritor português José Saramago que se encaixa com perfeição no ano
de 2020: “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo!”. Os três exemplos que
citei já são suficientes para derrubar a esperança de qualquer um para dar voz
ao cansaço.
Mas, apesar de estar
exausto de “tanto horror e iniquidade”, como nos disse Chico Buarque, a empatia
que ainda habita o meu ser ainda me faz ligar o noticiário para assistir os
acontecimentos do Brasil e do mundo durante o período de festas. O resultado é
ainda mais desastroso: vejo pessoas curtindo a vida lá fora como se não
houvesse um vírus que já matou milhares de pessoas e que tem levado os sistemas
de saúde ao colapso – festas clandestinas, reuniões familiares com dezenas de
pessoas, hotéis funcionando quase normalmente, máscaras faciais colocadas no
queixo ou em lugar nenhum, um desapreço total pelos médicos e cientistas, que
nos advertiram dos riscos de contaminação. Para os poucos que ainda estão em
confinamento, como eu, ver essa turba toda se divertindo pela TV e pelas redes
sociais (ambientes tóxicos por natureza!) é uma ofensa, um desrespeito, um
deboche explícito: com medo de me infectar, estou em casa há mais de 9 meses e
posso contar nos dedos das mãos quantas vezes eu saí de
casa para ir ao trabalho, ao supermercado, ao correio ou ate a farmácia.
Deixando as
festividades um pouco de lado, vamos fazer um breve retrospecto de alguns fatos
e acontecimentos que sacudiram o ano? Enumero alguns deles...
2020 foi mais um ano
no qual o racismo mostrou novamentea sua face mais
perversa ao Brasil e ao resto do mundo. Para ficarmos apenas em nosso
território, aproveito para retomar dois dados alarmantes: Primeiro: MAIS DE
2.000 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM MORTOS POR POLICIAIS ENTRE 2017 E 2019;
Segundo: ATÉ O INÍCIO DE DEZEMBRO DE 2020, 12 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM
ASSASSINADOS PELA POLÍCIA APENAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO! Com a pandemia e
com a maior quantidade de pessoas em casa, tivemos de prestar mais atenção a
casos hediondos de vidas ceifadas pela irresponsabilidade de quem deveria
proteger a sociedade. Fato ainda mais estarrecedor: a maioria das vítimas era
negra. Em um texto publicado na Folha de S. Paulo de 6 de dezembro de 2020, afirmou
Thiago Amparo, advogado e professor de Direito Internacional: “Balas não são perdidas,
porque sempre acham os mesmos corpos negros para os quais foram disparadas.”
Diante do massacre
praticado contra negros e pobres, eu me pergunto que tipo de “Boas Festas”
tiveram os familiares das primas Emilly e Rebeca, mortas por uma “bala perdida”
na frente de casa? Que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares de João Pedro
Pinto, de Leônidas Oliveira e de tantos outros mortos pela irresponsabilidade
do Estado enquanto famílias brancas puderam comemorar o final de 2020 com toda
a irresponsabilidade que eles julgavam ter direito?
Outra palavra que
ouvimos aos montes durante o ano da (des)graça de 2020 foi feminicídio. Graças ao assassinato brutal da juíza Viviane
Arronenzi pelo marido na Véspera de Natal, os noticiários aproveitaram a
ocasião para noticiar outros casos cruéis de mulheres que tiveram suas vidas
interrompidas por seus respectivos (ex-)maridos, namorados e companheiros. Com
todo o respeito à memória e às filhas da Juíza Viviane, eu me pergunto:
precisou que morresse uma mulher branca de forma perversa para que a opinião
pública voltasse seu olhar para um problema que atinge mulheres negras aos
montes?
Nesta época, na qual
celebramos o nascimento de Jesus Cristo, deveríamos buscar a reflexão, o amor
pelo próximo, a tal da empatia que muitos citam e raramente praticam. Em um
texto escrito no Natal de 2014, Guilherme Boulos escreveu algo que ainda se
encaixa no Brasil de hoje: “Jesus dedicou sua vida à igualdade, à justiça e à
paz entre os povos. Se reaparecesse (...) no Brasil, ficaria espantado com o
que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras
inomináveis nas seções de comentários da Internet. Seria chamado de bolivariano
na Avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para
casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de
algum carro no Leblon, gritaria: ‘Vai pra Cuba, Jesus!’.” Cristãos da boca para
fora existem aos montes, levar os ensinamentos bíblicos a sério é algo não
permitido pela hipocrisia de cada um. É muito mais cômodo agir como Pôncio
Pilatos e lavar as mãos diante da barbárie que se pratica diariamente.
Ficar em isolamento dentro
de casa seria um exemplo de olhar para o seu semelhante para que ele não
entrasse para as estatísticas que os veículos de imprensa noticiam às 8 da
noite com o objetivo de nos informar quantos foram infectados e quantos
morreram em 24 horas. Abdicar de festas em família com mais de 10 pessoas seria
um ato de sensatez. Dizer não para o convite do amiguinho e ir para qualquer
parte seria outro exemplo de sanidade mental. Defender a vacinação para todos
os brasileiros o quanto antes enquanto outros países do mundo já estão se
vacinando seria ter princípios éticos bem consolidados dentro de si. No
entanto, como se diz por aí, miséria pouca é bobagem: bom senso não é algo que
faz parte do repertório de todo mundo.
Confesso: minha
esperança está bem cansada em relação ao que virá. Reitero: cansada, mas (ainda)
não está morta! Por isso, procurei ouvir a voz visionária dos artistas para
encontrar forças e seguir em frente diante das tragédias. Muitos me ofereceram
o conforto por meio de sua arte e me ajudaram a pensar o contexto atual com
mais tranquilidade. Por isso, lembro-me de Patti Smith, uma das pessoas que
mais me inspiram nos dias de hoje, que estou bem próximo dos 40 anos de idade: “O
povo tem o poder / de consertar o trabalho dos tolos”. As linhas que eu escrevo
talvez não tragam o conserto para muita coisa, mas me auxiliam a renovar as
esperanças para o futuro. Afinal, o que se cansa pode se renovar. Aquilo já
morreu, morto está e vai ficar. Sigamos em frente, com ou sem o cansaço para
combater a barbárie...
(Marcelo
Yuka, Seu Jorge & Wilson Cappellette na
voz de Elza Soares, 2002)
Há pouco tempo que foi instituído o
Feriado do Dia da Consciência Negra. Infelizmente, não para todas as cidades do
país e sem o reconhecimento unânime de toda a população brasileira (alguns
acham que precisamos de mais “consciência humana” e não de mais conscientização
a respeito da luta e das mazelas da população negra). Zumbi dos Palmares (morto
em 20 de novembro de 1695), se estivesse entre nós, teria um trabalho e tanto
para acalmar a turba xucra e insensível de cidadãos que expõem os seus
pensamentos mais horrendos pela Internet
afora.
O que os detratores do feriado de 20
de novembro ignoram ou não reconhecem é que a população negra trazida da África
à força para o Brasil ajudou a construir as bases deste país debaixo de muito
suor, dor, sangue e chicote. Se levarmos em conta que o racismo nunca deixou de
estar presente nas relações entre nós e se faz cada vez mais gritante em tempos
nos quais vivemos uma retirada constante de direitos civis, é preciso
declaramos apoio incondicional a momentos como este.
Ao acordar mais tarde na manhã de 20
de novembro de 2017, aproveitei para descansar mais um pouco e tomar um café da
manhã mais demorado na frente da televisão: vejo a lendária atriz Ruth de
Souza, no alto dos seus 96 anos de idade, sendo homenageada em um programa de
variedades, assistido por milhões de brasileiros. Senti uma pontinha de orgulho
e esperança ao ver uma atriz de um pioneirismo tão grande como Ruth em cadeia
nacional, depois de mais de quatro décadas de carreira nas artes cênicas.
Entretanto, a minha euforia foi para
as cucuias quando tive a infeliz ideia de acessar as redes sociais e ver
comentários de profissionais de educação criticando o Dia da Consciência Negra.
Um detalhe importante: são colegas de profissão que, como eu, convivem com uma
quantidade expressiva de alunos e pais negros e que possuem muito menos
privilégios do que qualquer um de nós que teve a chance de ouro de estudar em
boas universidades.
Pausa para as trivialidades do
Instagram e do Facebook para ir até a janela ver a origem do barulho
ensurdecedor que invade o meu quarto em um passe de mágica: vejo um trânsito
absurdo na Rodovia Raposo Tavares para um dia normal (imagine para um
feriado...) e dois helicópteros fazendo a ronda da região onde moro. Ao
investigar pelo noticiário, descubro que um carro tinha sido interceptado pela
polícia com um carregamento de drogas. Vi a figura do criminoso pela televisão
sentado no meio-fio perto do ponto de ônibus de frente para a minha janela.
Detalhe importante: o meliante estava sem algemas. Perguntei-me: e se ele fosse
negro? Estaria provavelmente algemado e espancado pelos meganhas ou até morto,
dependendo de sua (falta de) sorte...
Depois da sessão “mundo cão”, fui
almoçar enquanto assistia o noticiário do dia. Ao assistir a notícia de um
rapaz negro que foi perseguido, acusado de roubo e espancado por seguranças de
um terminal de ônibus de São Paulo, senti a comida começando a embrulhar no
estômago. Apesar de não ser negro, tenho a compaixão mínima de me colocar no
lugar da pessoa que foi agredida. Poderia ser um aluno meu. Poderia ser um
amigo meu. Não poderia ter sido eu, pelo fato das pessoas olharem para a cor da
minha pele, para as roupas que eu visto e ver que jamais estaria sob suspeita
de qualquer delito.
A solução para o mal-estar era dormir
um pouco depois do almoço para ver se o desconforto passava. Não passou...
Antes de me preparar para as tarefas do dia, caí na infelicidade de ler um
texto escrito por um projeto mal-acabado de filósofo, intelectual reacionário,
defendendo o jornalista William Waack, flagrado em um vídeo praticando o
racismo da forma mais deplorável e abjeta que já vimos nos últimos tempos na TV.
Enquanto arrumava a casa, decidi ouvir
música. Escolhi dois CDs dos Rolling Stones para me animar a fazer a faxina da
semana. Enquanto ouvia aqueles rocks entremeados
de blues clássicos de Howlin’ Wolf e
Willie Dixon, fui me lembrando de passagens da biografia das pedras rolantes: o
que teria sido de Mick Jagger e Keith Richards se eles não tivessem bebido no
manancial poderoso da música negra norte-americana? Duvido que eles teriam tido
metade da relevância que possuem para o mundo do entretenimento se Mick e Keith
não reverenciassem os negros com tanto respeito...
E teve gente que pensou que Madonna era
negra quando surgiu para o mundo do Pop
em 1982. Levaram um susto ao ver que a voz de “Everybody” não era de uma “afro-americana”
e sim de uma branquela de Michigan recém-radicada em Nova York. Em mais de 35 anos de carreira, Madge é o que
é graças à contribuição da musicalidade dos negros (Rap, Soul, Hip-Hop, etc.) e
porque preconceito nunca esteve em seu dicionário musical. Aprendeu mais uma
das lições mais importantes de seu guru David Bowie, que fez discos
maravilhosos nos quais misturou Soul,
Funk com androginia, narcóticos e Rock ‘n’ Roll. Dois exemplos de artistas
brancos que sempre trataram os negros com enorme respeito.
Se formos falar em matéria de música
brasileira, temos um material gigantesco de músicos brancos que reverenciaram
os negros com todo o respeito. Elis Regina, para citar um exemplo feminino,
encontrou em “Upa, Neguinho!” um de seus maiores sucessos: a canção de Edu Lobo
& Gianfrancesco Guarnieri fala do infante Zumbi dos Palmares e o retrata como
uma alternativa para a liberdade que os negros tanto procuraram em séculos de
exploração.
Apesar dos negros terem encontrado uma
parcela de liberdade e uma boa dose de respeito dentro do universo da música,
eles ainda ganharão menos do que os brancos (fato que contribui para o atraso
da economia brasileira) e estarão no topo das estatísticas de pessoas
assassinadas no Brasil. Enquanto os brancos ainda torcerem o pescoço com medo
ou repulsa daqueles que escravizaram no passado, teremos milhares de motivos
para que todo dia 20 de novembro seja lembrado dos horrores que nós e nossos
antepassados já cometeram por pura maldade, burrice e ignorância...
Dias
cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou
em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A
vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de
chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de
carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical
brasileira no dia 4 de agosto de 2017.
A
primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e
elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início
do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao
invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso –
"Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do
lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo,
adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença.
Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73
A
intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato,
do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela
incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo
Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da
MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em
seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento
do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a
chance de gravar seu primeiro álbum.
As
dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador
em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de
clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz,
Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer
um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação
ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não
precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais
notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.
Em
pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20
discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música
brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma
série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não
hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo
público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé
Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica
da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus
projetos musicais.
O
eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem
qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela
qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em
plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do
Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de
nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver
engano"...
Dentre
todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me
toca é Velô, lançado pelo filho mais
ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum
de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como
nunca tinha sido até então.
A
sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda
Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho
Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal
ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável
pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo
e foi o produtor de Velô(junto
de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do
chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo
amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima
potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.
Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa
A
primeira canção de Velô é uma das obras mais
importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma
das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a
um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por
habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas
avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica
a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso
desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série
educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em
relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas
automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de
"Caetanos".
Três
canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios
brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de
sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a
participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit
"Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi o tema de abertura da novela
global A Gata Comeu (1985), um dos
maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete",
retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa
amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô,
que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco
de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e
pelo sax de Signeri:
"Feras lutam dentro da
noite-normal
Todos os insetos, os do belo
e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim
Ela loura e negra, querubim
e animal
Burra, sábia, deusa, mulher,
menino e mandarim
Mas se ela não quis meu
sorvete
Por que gravá-la em
videocassete (...)"
Show Velô - Foto de Thereza Eugênia
"Grafitti",
parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero,
versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade
ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela
parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia
Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do
frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical
baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do
disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano
Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos
quatro cantos do planeta.
Velô possui duas
canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem
Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso – pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick
Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com
muita sobriedade e lucidez:
"Os filhos, filmes,
livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão
do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único,
indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que
é imortal"
A
segunda canção de cunho filosófico de Velô
é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já
regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de
Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:
"Onde queres revólver,
sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou
paixão
Onde queres descanso, sou
desejo
E onde sou só desejo, queres
não
E onde não queres nada, nada
falta
E onde voas bem alto, eu sou
o chão
E onde possa o chão, minha
alma salta
E ganha a liberdade na
amplidão (...)"
A
última canção de Velô, o samba-rap
"Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau
e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira:
Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)
"Flor do lácio,
sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa
língua?"
A
canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de
estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da
literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João
Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista
encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao
panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.