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17 de maio de 2021

TROVA # 166

“ASTRONAUTA DA SAUDADE”


 
 

Belezas são coisas acesas por dentro

Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento

(Jorge Mautner & Nelson Jacobina, 1974)



SAUDADE: palavra que traduz um sentimento agridoce de algo que já não temos mais conosco. Palavra muito difícil de ser traduzida para outros idiomas, bem difícil de explicação para quem não é nativo do idioma português. Dizem que a saudade é síndrome de quem vive no passado, enquanto a ansiedade é pavor do futuro e a depressão é o pânico do presente. Talvez faça sentido, porque sou alguém ansioso por natureza e já vivi episódios graves de depressão. E conheço várias pessoas que se encaixam nessa lógica.


Porém, não podemos nos esquecer jamais de que viver é um jogo muito mais complexo do que a lógica comum e é uma ação que requer, acima de tudo, CORAGEM. Coragem de se expor, coragem de tirar as palavras do pensamento e das conversas íntimas para leva-las para o papel e depois para o ciberespaço. Coragem de desafiar o senso comum imposto por um pensamento conservador e tacanho. Coragem de ser diferente em um contexto que exige que todo mundo seja e aja de maneira igual.


Apesar do que sugere o título do texto que você está lendo, estou longe de ser um entusiasta do que já passou. Guardo com carinho muitas lembranças de outrora, tenho outras memórias bem preservadas na gaveta do rancor. Tenho mais animação pelo futuro, considerando o que ele pode nos trazer de bom e não tão bom assim. Faço do meu presente a possibilidade de construir um futuro melhor para mim e para mais alguns. Escrevo tudo isso para dizer que não sinto uma ponta de saudade do passado que eu vivi, mas invejo profundamente o passado que eu não vivi. A juventude anárquica e desbundada dos anos 1960 e 1970 e muitos dos eventos político-culturais que foram promovidos para combater a caretice brasileira nossa de todo dia.

Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam apenas o seguinte: se o passado que me cabe e não me cabe mais são estrelas no espaço sideral, podem me chamar de “astronauta da saudade”, pois meus textos transitam por corpos celestes e resgatam as memórias boas que vivi e as lembranças que gostaria de ter tido. Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam também que sou um amigo da arte, da ciência e do conhecimento. Falo e escrevo sobre coisas “fora de moda”: “livros, discos, vídeos à mancheia” e outras coisinhas que o sujeito comum não gosta ou não aprecia mais. Sempre contra a corrente, contra o senso comum e a velha pasmaceira.


Cada texto que escrevo vai muito além do desejo de ser lido ou do mero instinto de me comunicar por meio de palavras para velhos conhecidos ou um leitor cujo rosto eu não conheço. Cada postagem em meu blog sempre foi uma maneira de procurara a beleza no presente com o auxílio da música. Em algumas ocasiões fui bem-sucedido, em outras nem tanto. No resumo de tudo, foi mantido o exercício da escrita como um ofício prazeroso e com a garantia de que erros e acertos estão devidamente registrados, apesar de levemente revisados.


Já que tornar público o que há de mais íntimo por parte do pensamento é o fato que está diante de seus olhos, aproveito para fazer um convite para você que chegou até aqui: ouça os textos, leia os discos e as canções que se encontram por aqui. O blog foi uma viagem e tanto. Quem sabe o livro seja também. Por isso, junte-se a mim e faça uma boa viagem pelas letras e sons que reuni aqui depois de tantos anos...

31 de dezembro de 2020

TROVA # 157

 

O CANSAÇO DA ESPERANÇA

Como o ano de 2020 cansou com algumas de nossas esperanças?

 


Esperança cansa
Cansa de esperar
Já não tô podendo mais
Minha paciência é a razão
 

Minha fúria odiosa já tá na agulha
Minha fúria odiosa já tá na agulha
E um dia poderosa
Poderá dizer que acha tudo muito pouco
 

Fugir quando estiver desesperada, abandonada
E de repente voltar
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
 

E de repente, volta
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa

(Karina Buhr, 2010)

 



Se você chegou até aqui, é porque sobreviveu junto comigo e junto de tantos outros que fizeram com que as coisas valessem a pena. Escrevo este texto faltando menos de 24 horas para o apagar das luzes do ano da (des)graça de 2020 na tentativa de encontrar uma lógica coerente ou um pouco de esperança para o próximo ciclo de 365 dias que está a caminho. A dificuldade é imensa, já que vivemos anos bastante difíceis: uma pandemia que ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros e contaminou (oficialmente) mais de 7 milhões e meio de pessoas; uma crise política permanente aliada a retrocessos econômicos, minando quaisquer possibilidades de avanços sociais;  os órgãos de imprensa vivem sob ataque constante do Governo Federal enquanto milhões retornam ao mapa da fome.

Sempre haverá um ou outro que pode me acusar de pessimista, ou de ser movido apenas por uma “fúria odiosa”, algo totalmente compreensível em tempos de tamanha intolerância. Porém, aproveito para me defender citando uma frase famosa do escritor português José Saramago que se encaixa com perfeição no ano de 2020: “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo!”. Os três exemplos que citei já são suficientes para derrubar a esperança de qualquer um para dar voz ao cansaço.

Mas, apesar de estar exausto de “tanto horror e iniquidade”, como nos disse Chico Buarque, a empatia que ainda habita o meu ser ainda me faz ligar o noticiário para assistir os acontecimentos do Brasil e do mundo durante o período de festas. O resultado é ainda mais desastroso: vejo pessoas curtindo a vida lá fora como se não houvesse um vírus que já matou milhares de pessoas e que tem levado os sistemas de saúde ao colapso – festas clandestinas, reuniões familiares com dezenas de pessoas, hotéis funcionando quase normalmente, máscaras faciais colocadas no queixo ou em lugar nenhum, um desapreço total pelos médicos e cientistas, que nos advertiram dos riscos de contaminação. Para os poucos que ainda estão em confinamento, como eu, ver essa turba toda se divertindo pela TV e pelas redes sociais (ambientes tóxicos por natureza!) é uma ofensa, um desrespeito, um deboche explícito: com medo de me infectar, estou em casa há mais de 9 meses e posso contar nos dedos das mãos quantas vezes eu saí de casa para ir ao trabalho, ao supermercado, ao correio ou ate a farmácia.

 


Deixando as festividades um pouco de lado, vamos fazer um breve retrospecto de alguns fatos e acontecimentos que sacudiram o ano? Enumero alguns deles...

2020 foi mais um ano no qual o racismo mostrou novamente a sua face mais perversa ao Brasil e ao resto do mundo. Para ficarmos apenas em nosso território, aproveito para retomar dois dados alarmantes: Primeiro: MAIS DE 2.000 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM MORTOS POR POLICIAIS ENTRE 2017 E 2019; Segundo: ATÉ O INÍCIO DE DEZEMBRO DE 2020, 12 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM ASSASSINADOS PELA POLÍCIA APENAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO! Com a pandemia e com a maior quantidade de pessoas em casa, tivemos de prestar mais atenção a casos hediondos de vidas ceifadas pela irresponsabilidade de quem deveria proteger a sociedade. Fato ainda mais estarrecedor: a maioria das vítimas era negra. Em um texto publicado na Folha de S. Paulo de 6 de dezembro de 2020, afirmou Thiago Amparo, advogado e professor de Direito Internacional: “Balas não são perdidas, porque sempre acham os mesmos corpos negros para os quais foram disparadas.”

Diante do massacre praticado contra negros e pobres, eu me pergunto que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares das primas Emilly e Rebeca, mortas por uma “bala perdida” na frente de casa? Que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares de João Pedro Pinto, de Leônidas Oliveira e de tantos outros mortos pela irresponsabilidade do Estado enquanto famílias brancas puderam comemorar o final de 2020 com toda a irresponsabilidade que eles julgavam ter direito?

Outra palavra que ouvimos aos montes durante o ano da (des)graça de 2020 foi feminicídio. Graças ao assassinato brutal da juíza Viviane Arronenzi pelo marido na Véspera de Natal, os noticiários aproveitaram a ocasião para noticiar outros casos cruéis de mulheres que tiveram suas vidas interrompidas por seus respectivos (ex-)maridos, namorados e companheiros. Com todo o respeito à memória e às filhas da Juíza Viviane, eu me pergunto: precisou que morresse uma mulher branca de forma perversa para que a opinião pública voltasse seu olhar para um problema que atinge mulheres negras aos montes?

 



Nesta época, na qual celebramos o nascimento de Jesus Cristo, deveríamos buscar a reflexão, o amor pelo próximo, a tal da empatia que muitos citam e raramente praticam. Em um texto escrito no Natal de 2014, Guilherme Boulos escreveu algo que ainda se encaixa no Brasil de hoje: “Jesus dedicou sua vida à igualdade, à justiça e à paz entre os povos. Se reaparecesse (...) no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da Internet. Seria chamado de bolivariano na Avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria: ‘Vai pra Cuba, Jesus!’.” Cristãos da boca para fora existem aos montes, levar os ensinamentos bíblicos a sério é algo não permitido pela hipocrisia de cada um. É muito mais cômodo agir como Pôncio Pilatos e lavar as mãos diante da barbárie que se pratica diariamente.

Ficar em isolamento dentro de casa seria um exemplo de olhar para o seu semelhante para que ele não entrasse para as estatísticas que os veículos de imprensa noticiam às 8 da noite com o objetivo de nos informar quantos foram infectados e quantos morreram em 24 horas. Abdicar de festas em família com mais de 10 pessoas seria um ato de sensatez. Dizer não para o convite do amiguinho e ir para qualquer parte seria outro exemplo de sanidade mental. Defender a vacinação para todos os brasileiros o quanto antes enquanto outros países do mundo já estão se vacinando seria ter princípios éticos bem consolidados dentro de si. No entanto, como se diz por aí, miséria pouca é bobagem: bom senso não é algo que faz parte do repertório de todo mundo.

 


Confesso: minha esperança está bem cansada em relação ao que virá. Reitero: cansada, mas (ainda) não está morta! Por isso, procurei ouvir a voz visionária dos artistas para encontrar forças e seguir em frente diante das tragédias. Muitos me ofereceram o conforto por meio de sua arte e me ajudaram a pensar o contexto atual com mais tranquilidade. Por isso, lembro-me de Patti Smith, uma das pessoas que mais me inspiram nos dias de hoje, que estou bem próximo dos 40 anos de idade: “O povo tem o poder / de consertar o trabalho dos tolos”. As linhas que eu escrevo talvez não tragam o conserto para muita coisa, mas me auxiliam a renovar as esperanças para o futuro. Afinal, o que se cansa pode se renovar. Aquilo já morreu, morto está e vai ficar. Sigamos em frente, com ou sem o cansaço para combater a barbárie...



20 de novembro de 2017

TROVA # 141

O DIA DA CONSCIÊNCIA



A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos

A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que fez e faz história
Segurando esse país no braço
O cabra aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento
Mas muito bem intencionado
E esse país
Vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado

Mas mesmo assim
Ainda guardo o direito
De algum antepassado da cor
Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
Brigar, brigar, brigar

A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
(Marcelo Yuka, Seu Jorge & Wilson Cappellette na voz de Elza Soares, 2002)


         Há pouco tempo que foi instituído o Feriado do Dia da Consciência Negra. Infelizmente, não para todas as cidades do país e sem o reconhecimento unânime de toda a população brasileira (alguns acham que precisamos de mais “consciência humana” e não de mais conscientização a respeito da luta e das mazelas da população negra). Zumbi dos Palmares (morto em 20 de novembro de 1695), se estivesse entre nós, teria um trabalho e tanto para acalmar a turba xucra e insensível de cidadãos que expõem os seus pensamentos mais horrendos pela Internet afora.


O que os detratores do feriado de 20 de novembro ignoram ou não reconhecem é que a população negra trazida da África à força para o Brasil ajudou a construir as bases deste país debaixo de muito suor, dor, sangue e chicote. Se levarmos em conta que o racismo nunca deixou de estar presente nas relações entre nós e se faz cada vez mais gritante em tempos nos quais vivemos uma retirada constante de direitos civis, é preciso declaramos apoio incondicional a momentos como este.
Ao acordar mais tarde na manhã de 20 de novembro de 2017, aproveitei para descansar mais um pouco e tomar um café da manhã mais demorado na frente da televisão: vejo a lendária atriz Ruth de Souza, no alto dos seus 96 anos de idade, sendo homenageada em um programa de variedades, assistido por milhões de brasileiros. Senti uma pontinha de orgulho e esperança ao ver uma atriz de um pioneirismo tão grande como Ruth em cadeia nacional, depois de mais de quatro décadas de carreira nas artes cênicas.
Entretanto, a minha euforia foi para as cucuias quando tive a infeliz ideia de acessar as redes sociais e ver comentários de profissionais de educação criticando o Dia da Consciência Negra. Um detalhe importante: são colegas de profissão que, como eu, convivem com uma quantidade expressiva de alunos e pais negros e que possuem muito menos privilégios do que qualquer um de nós que teve a chance de ouro de estudar em boas universidades.


Pausa para as trivialidades do Instagram e do Facebook para ir até a janela ver a origem do barulho ensurdecedor que invade o meu quarto em um passe de mágica: vejo um trânsito absurdo na Rodovia Raposo Tavares para um dia normal (imagine para um feriado...) e dois helicópteros fazendo a ronda da região onde moro. Ao investigar pelo noticiário, descubro que um carro tinha sido interceptado pela polícia com um carregamento de drogas. Vi a figura do criminoso pela televisão sentado no meio-fio perto do ponto de ônibus de frente para a minha janela. Detalhe importante: o meliante estava sem algemas. Perguntei-me: e se ele fosse negro? Estaria provavelmente algemado e espancado pelos meganhas ou até morto, dependendo de sua (falta de) sorte...


Depois da sessão “mundo cão”, fui almoçar enquanto assistia o noticiário do dia. Ao assistir a notícia de um rapaz negro que foi perseguido, acusado de roubo e espancado por seguranças de um terminal de ônibus de São Paulo, senti a comida começando a embrulhar no estômago. Apesar de não ser negro, tenho a compaixão mínima de me colocar no lugar da pessoa que foi agredida. Poderia ser um aluno meu. Poderia ser um amigo meu. Não poderia ter sido eu, pelo fato das pessoas olharem para a cor da minha pele, para as roupas que eu visto e ver que jamais estaria sob suspeita de qualquer delito.


A solução para o mal-estar era dormir um pouco depois do almoço para ver se o desconforto passava. Não passou... Antes de me preparar para as tarefas do dia, caí na infelicidade de ler um texto escrito por um projeto mal-acabado de filósofo, intelectual reacionário, defendendo o jornalista William Waack, flagrado em um vídeo praticando o racismo da forma mais deplorável e abjeta que já vimos nos últimos tempos na TV.


Enquanto arrumava a casa, decidi ouvir música. Escolhi dois CDs dos Rolling Stones para me animar a fazer a faxina da semana. Enquanto ouvia aqueles rocks entremeados de blues clássicos de Howlin’ Wolf e Willie Dixon, fui me lembrando de passagens da biografia das pedras rolantes: o que teria sido de Mick Jagger e Keith Richards se eles não tivessem bebido no manancial poderoso da música negra norte-americana? Duvido que eles teriam tido metade da relevância que possuem para o mundo do entretenimento se Mick e Keith não reverenciassem os negros com tanto respeito...


E teve gente que pensou que Madonna era negra quando surgiu para o mundo do Pop em 1982. Levaram um susto ao ver que a voz de “Everybody” não era de uma “afro-americana” e sim de uma branquela de Michigan recém-radicada em Nova York.  Em mais de 35 anos de carreira, Madge é o que é graças à contribuição da musicalidade dos negros (Rap, Soul, Hip-Hop, etc.) e porque preconceito nunca esteve em seu dicionário musical. Aprendeu mais uma das lições mais importantes de seu guru David Bowie, que fez discos maravilhosos nos quais misturou Soul, Funk com androginia, narcóticos e Rock ‘n’ Roll. Dois exemplos de artistas brancos que sempre trataram os negros com enorme respeito.


Se formos falar em matéria de música brasileira, temos um material gigantesco de músicos brancos que reverenciaram os negros com todo o respeito. Elis Regina, para citar um exemplo feminino, encontrou em “Upa, Neguinho!” um de seus maiores sucessos: a canção de Edu Lobo & Gianfrancesco Guarnieri fala do infante Zumbi dos Palmares e o retrata como uma alternativa para a liberdade que os negros tanto procuraram em séculos de exploração.



Apesar dos negros terem encontrado uma parcela de liberdade e uma boa dose de respeito dentro do universo da música, eles ainda ganharão menos do que os brancos (fato que contribui para o atraso da economia brasileira) e estarão no topo das estatísticas de pessoas assassinadas no Brasil. Enquanto os brancos ainda torcerem o pescoço com medo ou repulsa daqueles que escravizaram no passado, teremos milhares de motivos para que todo dia 20 de novembro seja lembrado dos horrores que nós e nossos antepassados já cometeram por pura maldade, burrice e ignorância... 


6 de agosto de 2017

TROVA # 131

A MELODIA FINAL DO NEGRO GATO

Em memória de Luiz Melodia (1951-2017)


"Eu fico com essa dor
Ou essa dor tem que morrer
A dor que nos ensina
E a vontade de não ter
Sofrer de mais que tudo
Nós precisamos aprender
Eu grito e me solto
Eu preciso aprender

Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo enganado ou enganando meu viver
Pois quando estou amando é parecido com sofrer
Eu morro de amores
Eu preciso aprender"
(Luiz Melodia, 1978)


Dias cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical brasileira no dia 4 de agosto de 2017. 




A primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso – "Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo, adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença. 


Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73

A intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato, do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a chance de gravar seu primeiro álbum.









As dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz, Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.








Em pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20 discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus projetos musicais. 






O eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver engano"...


3 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 36

CAETANO VELOSO – VELÔ (1984)


Dentre todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me toca é Velô, lançado pelo filho mais ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como nunca tinha sido até então. 

A sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo e foi o produtor de Velô (junto de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.

Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa

A primeira canção de Velô é uma das obras mais importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de "Caetanos".





Três canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit "Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi  o tema de abertura da novela global A Gata Comeu (1985), um dos maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete", retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô, que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e pelo sax de Signeri:


"Feras lutam dentro da noite-normal
Todos os insetos, os do belo e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim

Ela loura e negra, querubim e animal
Burra, sábia, deusa, mulher, menino e mandarim
Mas se ela não quis meu sorvete
Por que gravá-la em videocassete (...)"

Show Velô - Foto de Thereza Eugênia



"Grafitti", parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero, versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos quatro cantos do planeta.




Velô possui duas canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso –  pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com muita sobriedade e lucidez: 


"Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal"



A segunda canção de cunho filosófico de Velô é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:



"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde possa o chão, minha alma salta
E ganha a liberdade na amplidão (...)"

A última canção de Velô, o samba-rap "Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira: 

Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)

"Flor do lácio, sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?"



A canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.