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26 de agosto de 2020
1 de março de 2018
DISCOS DE VINIL # 49
ANGELA
RÔ RÔ – COMPASSO (2006)
“Estou bem melhor como cantora sem a nicotina
e o alcatrão. Tenho mais fôlego, mais lucidez e melhorou meu sistema nervoso.
Desafino menos.”
(Angela Rô Rô)
Angela Rô Rô é uma das cantoras mais
talentosas da música brasileira: em uma carreira que se expande por quatro
décadas, lançou 14 álbuns até o final de 2017 – 11 de estúdio e 3 ao vivo. Suas
canções falam das mais variadas formas de amor – declarações de liberdade, protestos
contra a depredação da natureza e as famosas odes amorosas em forma de canção
são os temas mais recorrentes de sua obra musical.
Compasso
é o único álbum de inéditas lançado por Angela Rô Rô na década de 2000.
Bastante elogiado pela crítica e aclamado pelo público, é um trabalho de
parcerias interessantes: além do seu escudeiro de décadas, o tecladista Ricardo
MacCord, há dobradinhas com a poeta e letrista Ana Terra (co-autora de “Amor
Meu Grande Amor”) e com o pianista e produtor Antonio Adolfo, com quem a
artista trabalhou em seus primeiros anos de carreira. O ouvinte é brindado com
uma diversidade musical bastante interessante: Rock, Jazz, Forró, Blues, Bossa
Nova e baladas românticas bem ao gosto das rádios de MPB.
A faixa-título é uma declaração de amor
à nova vida que surgia, um manifesto da nova Angela Rô Rô que surgia para os
olhos e ouvidos do seu público: sóbria, sorridente e bastante esbelta (não
menos louca, diga-se de passagem!) – uma imagem bastante distinta da gordinha
sexy que vivia em plena esbórnia e cantava a fossa e a boemia como
pouquíssimos. O uísque dos tempos de outrora fora substituído pela água
mineral. A irreverência, como consequência, passou a ser abastecida por um bom
humor menos agressivo:
É
o que pulsa o meu sangue quente
É
o que faz meu animal ser gente
É
o meu compasso mais civilizado e controlado
Estou
deixando o ar me respirar
Bebendo
água pra lubrificar
Mirando
a mente em algo producente
Meu
alvo é a paz!
Vou
carregar de tudo vida afora
Marcas
de amor, de luto e espora
Deixo
alegria e dor ao ir embora
Amo
a vida a cada segundo
Pois
para viver eu transformei meu mundo
Abro
feliz o peito, é meu direito!
“Contagem regressiva”, um rock assinado pela cantora e Ricardo MacCord,
se assemelha por demais com as gravações clássicas de Angela Rô Rô do início
dos anos 1980 e uma das melhores faixas de Compasso,
pois atesta o seu talento de intérprete:
Se
alguma coisa perturba você
Larga
a aflição e vem me ver
Se
a solidão caça você
Larga
essa dor, eu vou te ver!
Pode
contar comigo contagem regressiva
Que
eu ponho fim a essa tristeza compulsiva
Também,
pra quê que serve amigo?
Chamego
e conforto, teu barco à deriva
Posso
ser teu porto! Meu bem!
Se
o amor assusta você
Conta
comigo, vem me ver
Se
o amor feriu você
Sou
teu amigo, vou te ver
Pode
contar comigo contagem regressiva
Que
eu ponho fim a essa tristeza compulsiva
Também,
pra quê que serve amigo?
Chamego
e conforto, teu barco à deriva
Posso
ser teu porto! Meu bem!
Dentre as
faixas românticas de Compasso,
destaca-se “Paixão”, parceria bissexta de Angela Rô Rô com a poeta Ana Terra,
mais de duas décadas depois de “Amor, Meu Grande Amor”. Com Ricardo MacCord,
compôs as apaixonadas “Sem Adeus” e “Loucura Maior”. No entanto, a faixa mais
apaixonada deste CD é “Chance de Amar”, sétima faixa do disco, uma dobradinha
de Rô Rô com o pianista, compositor e produtor musical Antônio Adolfo:
Não
é por sentir que te quero
Nem
por saber esperar
Por
todas as vezes que antes... foi vacilar
Sem
medo de perdas ou ganhos
Sem
pensar se amar
Ao
longo de todos os anos... valeu tentar
Apenas
a música lenta... tocando dentro de mim
Lembrando
que um sonho de alento... não tem fim
Não
é por pensar em você... como quem quer estudar
Todas
as aulas da vida... sem faltar.
Sem
culpa da curiosidade... pois tão pouco te vi
Ao
longo de toda a cidade... ando a sorrir
Apenas
a música lenta... tocando dentro de mim
Lembrando
que todo o tormento... tem um fim
É
por ser tanto que quero... que vou saber esperar
Por
qualquer tipo de afeto... que brotar
Sem
medo de perdas ou ganhos, sem pensar se amar
Ao
longo de todos os anos... valeu tentar
Apenas
a música lenta... tocando dentro de nós.
Lembrando
num gesto amigo... não somos sós.
Teu
caminho a liberdade... pro meu caminho cruzar.
Aprendi
a dar valor... a qualquer chance de amar
A
menor chance de amar.
A
qualquer chance de amar.
No quesito diversidade musical, os fãs
de Angela Rô Rô foram brindados com “Dá Pé!”, um reggae filosófico e bem debochado, bem ao estilo irreverente da
artista. “Menti pra Você”, uma Bossa marcada pelos arranjos de MacCord, vai na
contramão dos clássicos do gênero ao falar de amores fugazes, porém intensos. “Arranca
Essa Flor” é um bolero delicado e inspirado no repertório musical de Omara
Portuondo, uma das mais belas vozes cubanas. Por fim, “Não Adianta” é um forró,
um lamento apaixonado que trata de dor e desilusão e comprova o quando Rô Rô é
um intérprete versátil e inteligente, ao transitar com naturalidade por
universos musicais distintos:
Tenho
um coração apaixonado
Não
adianta nem tentar curar
Não
vejo mais o verde das pastagens
Nem
ouço a brisa da alegria me chamar
Pois
só escuto a dor a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
Pois
só escuto a dor a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
Tenho
um coração tão machucado
Não
adianta nem amaciar!
Não
ouço o riacho versejando
E
os passarinhos cedo a cantar...
Pois
só escuto a dor a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
Pois
só escuto a dor a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
O
sol se põe tardinha quase noite
E
a sua ausência vira um açoite
Depois
de um dia inteiro trabalhando
Não
durmo com a saudade me açoitando
E
o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
E
o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que
eu não posso mais amar você
O
sol se põe tardinha quase noite
E
a sua ausência vira um açoite
Depois
de um dia inteiro trabalhando
Não
durmo com a saudade me açoitando
E
o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
E
o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que
eu não posso mais amar você
Talvez
toda essa gente sinta o mesmo
E
a essa hora corra para o bar
Só
sei que o sentimento por você
Me
fez até não querer mais me embriagar
Pois
só escuto a dor a me dizer
Que
eu não posso mais querer você
Pois
só escuto a dor a me dizer
Que
eu não posso mais amar você
Angela Rô Rô guardou para o final de Compasso as
três faixas mais intensas do disco. “Bater Não Doi” e “Nossos Enganos” são duas
canções de protesto bastante fortes, com mensagem direta: as consequências dos
atos mais irresponsáveis dos seres humanos, a falta de perspectivas de um mundo
a mercê dos desmandos dos homens, a vilania e a ambição do homo sapiens:
São
nossos os nossos enganos
Os
danos que danam em nós
Os
erros que erramos unidos
Pagamos
com a vida a sós
A
vida com as horas contadas
O
encontro marcado às escuras
Caminho
de pedras marcadas
E
um chão de penas duras
A
raça humana ingrata
Só
fez ferir a terra
De
um jeito que não haja mais amanhã
Cruel
geral tormenta
Doença,
fome e guerra
Tão
triste reconhecer que sou vilã
O álbum se encerra com “Dorme, Sonha...”,
um acalanto apaixonado e que foi número de abertura das primeiras apresentações
da turnê deste álbum em São Paulo. Uma Angela Rô Rô lírica, intensa e
apaixonada surge para o ouvinte, convidando sua musa amada para o sono redentor
dos amantes apaixonados e sedentos por amor:
Dorme,
dorme, dorme e sonha
Deixa
o seu perfume em minha fronha
Acorda,
acordo, a corda está sem nós
A
corda deu um laço não estamos sós
Dorme
e sonha espanta o medo
Meu
amor é só o seu brinquedo
Acorda,
acordo o seu adeus certeiro
leva
o sonho do meu travesseiro
Em
breve sei que vou sentir seu cheiro
Compasso é um dos cinco trabalhos mais importantes da
discografia de Angela Rô Rô, visto que apresentou a artista a uma nova geração de
ouvintes de MPB e satisfez fãs saudosos de novos sucessos, do lirismo e da fina
ironia de uma das cantoras mais talentosas de nossa música. Apesar de sóbria e
limpa de quaisquer tipos de narcóticos, a loucura de Rô Rô se manteve intacta
com o passar do tempo: continua intensa, hilária e apaixonada, por isso, é uma
artista fundamental.
6 de agosto de 2017
TROVA # 131
A
MELODIA FINAL DO NEGRO GATO
Em memória de Luiz Melodia (1951-2017)
"Eu fico com essa dor
Ou
essa dor tem que morrer
A
dor que nos ensina
E
a vontade de não ter
Sofrer
de mais que tudo
Nós
precisamos aprender
Eu
grito e me solto
Eu
preciso aprender
Curo
esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo
enganado ou enganando meu viver
Pois
quando estou amando é parecido com sofrer
Eu
morro de amores
Eu
preciso aprender"
(Luiz Melodia, 1978)
Dias
cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou
em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A
vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de
chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de
carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical
brasileira no dia 4 de agosto de 2017.
A
primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e
elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início
do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao
invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso –
"Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do
lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo,
adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença.
![]() |
| Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73 |
A
intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato,
do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela
incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo
Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da
MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em
seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento
do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a
chance de gravar seu primeiro álbum.
As
dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador
em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de
clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz,
Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer
um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação
ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não
precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais
notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.
Em
pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20
discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música
brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma
série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não
hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo
público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé
Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica
da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus
projetos musicais.
O
eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem
qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela
qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em
plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do
Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de
nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver
engano"...
20 de novembro de 2016
TROVA # 99
ALGUNS SEGREDOS MUSICAIS
AO SOM DE ZÉLIA DUNCAN
Para
Nilton Serra, no dia de seus 35 anos
“You
taught me precious secrets of the truth withholding nothing
You came out in front and I was hiding
But now I’m so much better
And if my words don’t come together
Listen to the melody
‘Cause my love is in there hiding
I love you in a place where there’s no space in time
I love you for in my life
You are a friend of mine
And when my life is over
Remember when we were together
We were alone and I was singing a song for you.”
(Leon Russell, 1970)
“Primeira
vez que eu te vi
Meu
coração não fez clique
Se
ouvi ou vi, não vivi
Seu
pique seu trique trique
Não
vi sushi, sashimi
Nem
Eros nem Afrodite
Primeira
vez que eu te vi
Primeiro
vi seus limites”
(Christiaan Oyens & Itamar
Assumpção, 2005)
Certa vez o sábio e saudoso poeta Torquato Neto escreveu: “Há várias
maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas”.
Se o co-autor de “Geleia Geral” tivesse escrito um texto sobre Zélia Duncan,
ele diria que ela preferiria todas e mais uma. Não me recordo de nenhum artista
cujo trabalho musical seja tão marcado pela diversidade quanto o de Zélia. É
uma cantora, compositora e intérprete de uma coragem e dignidade
impressionantes, qualidades raríssimas de ver por aí...
Devo confessar publicamente que demorei um bocado para fazer parte da
festança musical de Dona ZD. Tenho alguns motivos: 1) minha dificuldade em
compreender que o repertório dela era muito além da “Catedral” ou os lençóis do
reggae que lhe fizeram famosa pelo Brasil inteiro; 2) uma boa dose de ciúmes
desta nobre escorpiana; afinal de contas, o aquariano com ascendente em touro
que vos escreve sempre demandou por atenção e exclusividade...
Nilton Serra, outro escorpiano obstinado e insistente, me ensinou não só
a gostar do trabalho de Zélia, como também me ensinou a admirá-la
profundamente. Aprendi que ser famoso e ser reconhecido não é fruto de mera
celebridade ou dos reflexos dos louros colhidos de um sucesso na trilha sonora de uma das novelas de
Silvio de Abreu. É resultado de muito trabalho, de várias
parcerias e do amor de “um milhão de amigos”. Zélia Duncan é uma operária da
canção, uma formiguinha sempre disposta a espalhar o seu canto por toda a
parte. Despojada de quaisquer atributos ou cacoetes das “Divas da Música
Brasileira”, compõe, produz, toca violão, guitarra, bandolim e canta com um dos
registros vocais graves dos mais belos que eu já ouvi.
A primeira vez em que eu vi Zélia cantando ao vivo foi durante a
gravação de um DVD ao vivo de Rita Lee, em 2004. Interpretou “Pagu” lado a lado
da Rainha do Rock brasileiro e teve de fazer o número duas vezes para que a
filmagem ficasse perfeita. Melhor para nós, mortais espectadores, que pudemos
presenciar uma das parcerias mais bacanas da música nacional duas vezes em uma
mesma noite. Nada mal para um carioca que sempre morreu de amores por São Paulo
e viajava para a Terra da Garoa durante os feriados prolongados. Apesar de ter gostado
muito, eu ouvia aquela voz grave com uma certa desconfiança...
Anos depois, já morando em São Paulo, fomos curtir um sábado em outra
gravação de DVD, desta vez de Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band,
de Zélia. Tudo transcorria muito bem quando senti algo muito estranho dentro da
boca ao comer um salgadinho. Resultado: tinha quebrado um dente minutos antes
de chegar ao Auditório Ibirapuera. Por não se tratar de um dente da frente e
por não estar sentindo nenhuma dor (apenas um desconforto gigantesco!),
decidimos ir para o show mesmo assim. Assistimos Zélia Duncan em um dos
momentos mais inspirados e produtivos de sua carreira diretamente da segunda fila do auditório e interpretando
compositores de primeiríssima linha como Itamar Assumpção, Alice Ruiz e
Paulinho Moska com muita competência e à frente de uma banda de músicos
extraordinários.
Como toda filmagem tem lá os seus imprevistos, ficamos dentro da sala de
espetáculos até 3 ou 4 da madrugada com ZD repetindo números de seu setlist, ralhando (coberta de razão!) com
membros da equipe técnica para que o trabalho se concluísse a tempo dela não se
sentir obrigada a servir o café da manhã para os heróicos espectadores ainda presentes
no Auditório Ibirapuera. Ah, se todas as cantoras brasileiras tivessem este
tipo de bom humor ao enfrentar imprevistos em cima do palco...
Poucos anos depois, retornamos a mais uma gravação de CD e DVD ao vivo
no Auditório Ibirapuera: desta vez, em Amigo
é Casa, no qual Zélia dividia o espetáculo com a cantora Simone. Duas
noites de shows, duas noites virados na rua esperando pela abertura das
catracas do metrô às 5 da manhã, pois (pobres e fodidos que éramos na época)
não tínhamos carro ou sequer dinheiro para pegar um táxi para casa. Acima de
tudo, nós éramos jovens de vinte e poucos anos felizes e topávamos qualquer
noitada na rua ao lado de nossos queridos amigos. A formiga e a cigarra da
música brasileira foram a trilha sonora daqueles tempos – canções de
Gonzaguinha, Roque Ferreira, Guilherme Arantes e tantos outros fizeram a nossa
cabeça e abriram ainda mais os meus ouvidos para o trabalho de Zélia Duncan.
Foi graças ao excelente disco Pelo
Sabor do Gesto que Zélia Duncan finalmente conquistou este chato e exigente
coração! Depois de ouvir todos os seus discos, creio que foi em 2009 que ZD
achou o auge de sua forma – suas parcerias, sua voz e o seu repertório me
atingiu em cheio. Fiquei um pouco triste por ela ter mudado a letra de “Ambição”
– uma das minhas favoritas de Rita Lee –, mas adorei a escolha de uma canção
obscura do cancioneiro da Rainha do Rock brasileiro. “Tudo Sobre Você” ficou
impregnada nos meus ouvidos por um bom tempo. “Esporte Fino Confortável”,
parceria de Zélia com Chico César, serve como piada interna entre nós e alguns
de nossos amigos até hoje.
E foi graças ao show baseado em Pelo
Sabor do Gesto que Nilton e eu cometemos a maior maluquice de toda a nossa
história de frequentadores de shows: ir de São Paulo até Niterói para assistir
a mais uma gravação de DVD de Zélia - dois shows em um mesmo dia no Teatro
Municipal de Nikiti (um às 15h e outro às 18h), uma verdadeira maratona musical. Quando vi Lady Duncan linda e
esplendorosa dentro de um vestido colorido de Ronaldo Fraga no palco daquele
teatro aconchegante, deixei todo o mau humor da viagem de lado e curti aquele
dia de domingo. Depois de algumas emoções e surpresas, voltamos para São Paulo,
exaustos como nunca.
Fiquei encantado e emocionado com Tudo
Esclarecido, CD e show no qual Zélia interpretava as canções do
indefectível Itamar Assumpção. Entendi como o Jimi Hendrix conseguia ser um
artista de inteligência e intensidade através da gigantesca reverência e
competência de ZD – ninguém conseguirá me convencer da inexistência de
outra gravação mais bela para “Noite Torta” do que a da filha de
D. Loïse Duncan. Na mesma época, tivemos a oportunidade de vislumbrar a obra de
Luiz Tatit com outros olhos através de ToTatiando. Zélia Duncan conseguiu a
improvável façanha de deixar Tatit menos hermético através de uma perspectiva
encantadoramente dramática de seu cancioneiro. Confesso que perdi as contas de
quantas vezes assisti a este espetáculo, como também nem consigo me lembrar de
quantas vezes já fui ao seu camarim e fomos recebidos com um sorriso largo que
não parece ter mais fim.
Os excessos de compromissos profissionais, somados a algumas chegadas e
partidas familiares nos tiraram de circulação por um bom tempo. Consequência direta:
deixamos de acompanhar as gravações de DVD mais recentes de ZD. Por outro lado,
fiquei bem contente quando surgiu a oportunidade de ver um show inédito de
Zélia Duncan depois de um bom tempo. A felicidade dobrou quando soube que o
espetáculo era baseado em Quando o Mundo
Acabar, CD no qual Lady Duncan nos concedeu o luxo de ouvirmos alguns
sambas consagrados e outros de sua própria autoria. No entanto, estávamos bem
longe do palco e acomodados nas últimas cadeiras do teatro do SESC Vila
Mariana. Deixei-me surpreender ao ver a cortina se abrir e me deparar com a
artista saindo justamente do nosso lado para dar início a um espetáculo alegre
e inteligente.
Zélia Duncan nunca tinha soado tão bela e jovial em cima de um palco
para mim: em menos de duas horas de show, meu coração batucou com cavacos e
cuícas que choravam com elegância. A moça em cena nem se parecia com aquela que
substituiu Rita Lee no grupo Os Mutantes entre 2005 e 2007, com quem eu ralhava tanto, mas fui assistir no Parque da Independência mesmo assim... Minha implicância com
ZD se transformou em uma admiração confessa, acrescida de uma inveja branca sem
tamanho: como alguém que consegue fazer tanta coisa boa em termos de música tem
a capacidade de escrever crônicas tão belas para o jornal O Globo toda sexta-feira?!
Aqui estão algumas de nossas historinhas tão particulares e preciosas
com Zélia Duncan, a artista que mais tem contribuído para a intimidade dos nossos
sons de alguns anos para cá. Existem outras anedotas a serem ditas, mas é
melhor deixá-las para outro texto por questões de espaço – afinal, o amor e a
admiração por ZD ultrapassam quaisquer limites. Quando eu conseguir me exprimir
em palavras com um décimo da classe e da competência de Lady Duncan, eu escrevo
outra crônica. "Por hoje é só"...
“Nem que eu contasse as gotas do mar,
todos os dias
Pra me acalmar do que eu nunca fiz
Nem que eu parasse as ondas do ar, dia
após dia
Descansaria as horas em mim,
Por hoje é só
Bruxas e reis sorriram pra mim,
Sei que é assim
Certo é errar, mas quando acordei corri
devagar
Sem perceber cheguei aqui”
(Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)
(Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)
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