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28 de dezembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 48

THE ROLLING STONES – TATTOO YOU (1981)


Os anos 1980 foram bem bicudos para muitos músicos e bandas de Rock. John Lennon tinha sido brutalmente assassinado por um fã desequilibrado; O Led Zeppelin foi abatido fatalmente com a morte do baterista John Bonham; o Punk já era uma expressão musical em pura decadência, para citar apenas alguns exemplos daqueles dias difíceis. Infelizmente, a crise de meia-idade musical também tinha atingido os Rolling Stones: a parceria de Mick Jagger e Keith Richards já davam os primeiros sinais de desgaste, visto que as relações entre eles começavam a azedar cada vez mais.


Com a morte do guitarrista Brian Jones e com a saída do empresário Andrew Oldham do controle criativo dos Rolling Stones, Mick Jagger tomou para si o papel de direcionar os passos da banda. Enquanto Keith Richards vivia às voltas com Anita Pallenberg, a heroína, o álcool, algumas prisões e muita (mas muita!) confusão, Jagger conseguiu fazer dos Stones, enfim, um negócio bastante lucrativo. As turnês da década de 1970 se tornavam cada vez maiores, gerando mais discos, mais popularidade e um fluxo de caixa mais gordo para um grupo de músicos que, anos antes, tiveram que abandonar o Reino Unido às pressas por estarem afundados em dívidas com o governo britânico. A principal consequência deste processo foi a inflação do ego de Sir Jagger em escalas exponenciais, o que foi fatal para o equilíbrio das boas relações com Richards.


No final dos anos 1970, Keith estava finalmente se livrando da dependência em heroína, o que lhe motivou a querer retomar a sua participação como co-líder da banda. Mick, influenciado pelo tipo de música que se produzia na última metade daquela década, teve voz decisiva na realização dos álbuns Some Girls (1978) e Emotional Rescue (1980), dois sucessos de crítica e público, que deixaram Richards insatisfeito com os rumos musicais que os Rolling Stones trilhavam naquela época. No entanto, era preciso sair em turnê no ano seguinte - os Stones tinham programado duas excursões gigantescas: a primeira passaria pelos EUA no segundo semestre de 1981 e a segunda etapa levaria os músicos pela Europa até julho do ano seguinte -, por isso, todos os ressentimentos deveriam ser varridos para debaixo do tapete para que a máquina voltasse a rodar com todo o vigor necessário.



Como a parceria Jagger-Richards estava paralisada devido aos choques de egos entre Mick e Keith, a solução foi garimpar os arquivos de gravações dos Stones e criar um álbum "novo" para poder promover durante as turnês norte-americana e europeia. O resultado deste garimpo musical foi Tattoo You, lançado em 24 de agosto de 1981. Último álbum da banda a alcançar o topo das paradas musicais dos EUA até o presente momento, o disco abre com "Start Me Up", canção obrigatória em todas as apresentações dos Rolling Stones e um dos maiores sucessos de toda a história do Rock 'n' Roll. O videoclipe foi dirigido por Michael Lindsay-Hogg, o mesmo que dirigiu o documentário Let it Be (o canto do cisne dos Beatles), e mostra os músicos tocando em formato de playback com direito às piruetas de Mick Jagger em calças legging - uma das imagens mais icônicas do astro.



Os 44 minutos e 23 segundos de Tattoo You revelam a excelente disposição dos Rolling Stones em fazer música de qualidade. Das canções mais antigas desta coleção estão "Tops" e "Waiting On A Friend", compostas durante as sessões de gravação de Goat's Head Soup (1973). Enquanto a primeira é sobre um relacionamento intenso entre um homem e uma mulher, a segunda é um dos tratados poéticos mais sinceros e belos sobre a amizade - sentimento que Jagger e Richards não conseguiam cultivar naquele momento. Da safra 1975-1976, fazem parte "Worried About You" (uma das poucas faixas nas quais Mick Jagger toca piano elétrico), "Slave" (com direito a improvisações estilo Free Jazz do lendário tecladista Billy Preston) e a primeira versão de "Start Me Up", que teria sido um reggae se não tivesse ido para o arquivo das gravações do álbum Black and Blue (1976).


"Hang Fire", "Neighbours" e "Black Limousine" (parceria entre Jagger, Richards e o guitarrista Ron Wood) foram três números compostos e/ou descartados de Some Girls e que cumpriam um ótimo papel nos setlists de apresentações ao vivo dos Stones na época. O videoclipe de "Neighbours", por exemplo, faz referências ao filme Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock) e ao fato incômodo de Keith Richards ter tido problemas jurídicos com vizinhos do prédio onde morava com Patti Hansen (segunda esposa do guitarrista) em Nova York por causa do volume alto da música que vinha de seu apartamento. "Hang Fire", infelizmente, não é um número tão executado nas turnês da banda: a batida rápida de Watts aliada às guitarras incandescentes de Richards e Wood são o combustível perfeito para a energia inesgotável de Jagger nos vocais. "Black Limousine", por outro lado, foi bastante tocada durante as apresentações do período 1981-1982.


Do período das gravações de Emotional Rescue, os Rolling Stones resgataram "Heaven", "Little T & A" e "No Use In Crying". "Little T & A" é uma declaração de amor de Keith Richards à então futura esposa, a modelo Patti Hansen, e mãe de suas duas filhas mais jovens: Alexandra e Theodora. Nos sets onde Keith assume o microfone principal para que Mick vá para o backstage renovar as energias para a segunda parte do espetáculo, a quarta canção de Tattoo You é uma presença constante ao lado de números mais consagrados como "Happy" e "You Got The Silver". "Heaven" é um número típico das ambições de Jagger no período - impressionado (ou ameaçado) por Prince, gravou uma faixa inteira com vocais em falsete com o objetivo de superar as atenções dadas ao autor e intérprete de "Kiss" e "Purple Rain". Já "No Use In Crying" é uma bela balada dos Stones, com direito aos riffs marcantes de Keith e a rara colaboração da dupla de compositores nos vocais - digamos que este é um dos últimos momentos de união entre os líderes da banda antes da guerra épica de egos que quase destruiu a banda na década de 1980.



Considerado pela crítica e pelos fãs como um dos melhores discos de Rock de todos os tempos, Tattoo You recebeu muitas críticas positivas e é considerado pelos admiradores mais ferrenhos dos Rolling Stones como o último grande momento da banda (foi o último disco dos Stones a alcançar o topo das paradas norte-americanas até o presente momento). Se levarmos em conta o time de músicos que tocaram nestas faixas - Nicky Hopkins, Ian Stewart e Billy Preston (piano e teclados), Wayne Perkins e Mick Taylor (guitarras), Sonny Rollins (sax), Pete Townshend (vocais de apoio em "Slave"), Ollie Brown, Jimmy Miller e Chris Kimsey -, Mick Jagger e cia conseguiram criar um punhado de grandes canções e que dificilmente deixarão de estar na memória dos amantes de Rock 'n' Roll. Afinal de contas, as palavras de ordem destes músicos sempre foi e sempre será: "Never Stop!"...


19 de outubro de 2017

DISCOS DE VINIL # 45

THE ROLLING STONES – EXILE ON MAIN STREET (1972)


        
           Em 1972, os ingleses Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Bill Wyman e Mick Taylor eram nada mais, nada menos do que um grupo de músicos expatriados tocando em uma banda que vivia à beira da separação. Um tanto radical? Porém, não havia outra alternativa para os Rolling Stones naquele período... Ao contrário de vários brasileiros, que tiveram que buscar exílio na França para escapar da repressão política, os Rolling Stones resolveram se instalar na Riviera Francesa para fugir do cerco do fisco do Reino Unido.

Keith entre Anita Pallenberg (sua esposa na época) e Gram Parsons

Um banquete em Nellcote

Um casarão suntuoso, lúgubre e gigantesco de Villa Nellcote ocupado por Keith Richards e sua família foi o berço de um dos álbuns mais controvertidos e discutidos de toda a história: Exile on Main Street, considerado por crítica e público como o trabalho mais importante de toda a discografia dos Rolling Stones. Um local belíssimo, porém que teve que ser adaptado para que o disco fosse gravado – as sessões de gravação ocorriam no porão de Nellcote, com direito a mofo, umidade e instrumentos constantemente desafinados por causa das péssimas condições de trabalho. A locação não poderia ser mais perfeita para que os músicos vivessem a plenitude do trinômio sexo, drogas e Rock ‘n’ Roll...

Keith Richards e seu amigo Gram Parsons

          Quando Exile foi lançado como LP duplo, em meados de 1972, quase ninguém entendeu o que os Stones tinham a dizer. Várias críticas foram bastante negativas ao disco que, hoje em dia, é visto por fãs, especialistas (e pelos próprios músicos) como “a obra-prima do grupo”. Em 18 pérolas originais (e mais algumas inéditas que foram lançadas em uma edição especial de 2010), notamos como Mick Jagger estava no auge de sua forma vocal (estourando as cordas vocais de tanto cantar acima de seu tom, feito que nem o próprio conseguiu igualar anos depois!); Keith Richards e Mick Taylor faziam de seus riffs e solos de guitarras e violões verdadeiras artilharias sonoras; Bill Wyman e Charlie Watts eram a cozinha mais elegante e completa do Rock com a imbatível parceria entre baixo e bateria; A produção de Jimmy Miller respeitou o ápice da criatividade dos artistas em um período extremamente turbulento da trajetória da banda; Os músicos de apoio não ficavam atrás dos membros da banda porque eram de uma eficiência sem tamanho: Nicky Hopkins nos pianos e outras teclas de todos os tipos, Bobby Keys e Jim Price davam a elegância Soul dos sopros à maioria das faixas do disco, as vocalistas de apoio Venetta Fields e Clydie King (negras, evidentemente!) davam o apoio essencial à voz de Sir Jagger e ao som dos Rolling Stones.

A dupla Jagger - Richards finalizando o álbum em um estúdio de Los Angeles (EUA)

          A capa do disco mostra uma quantidade diversa de universos paralelos – são fotos em preto e branco de pessoas anônimas misturadas a Jagger e o seu olhar de eterno desdém; Richards e sua aura de pirata, exercitando a sua fama de bad boy; Watts, Wyman e Taylor como os coadjuvantes necessários para que todas as pedras rolem juntas pelos ouvidos das pessoas. Canções sobre sexo, delírios, jogatinas, política, desilusões amorosas, esperanças perdidas e tantas outras que poderiam ser encontradas em algum verso menos óbvio de Exile on Main Street.






         “Tumbling Dice”, “Happy” e "All Down the Line" são números permanentes das apresentações dos Stones ao vivo até hoje. “Rocks Off”, por exemplo, é um dos melhores números utilizados pelos músicos para abrir algum show ou para dar um gás no meio do setlist e deixar o público em polvorosa; “Sweet Virginia” e “Torn and Frayed” são duas das melhores canções acústicas de toda a história do Rock; “Ventilator Blues” e “Soul Survivor” são dois lados B dos Stones que mereciam ser tocadas ao vivo para que as turnês tivessem maior abrangência de repertório.





Exile on Main Street é um disco que merece não apenas uma audição atenta, como também merece um esforço físico de sua parte: ele merece que você tenha o trabalho de afastar os móveis da sala para que você saia pulando, cantando e dançando ao som das pedras rolantes como se você estivesse vivendo a plenitude dos clichês mais corriqueiros do Rock com o volume bem alto! Para o bem dos Stones e da música do planeta, Jagger, Richards & Cia. conseguiram fazer do amargor do exílio uma obra imprescindível para a humanidade.

21 de março de 2017

TROVA # 115

MANY THANKS, CHUCK!


Em memória de Chuck Berry (1926-2017)

"All of us are footnotes to the words of Chuck Berry."
(Leonard Cohen)
"If they were to rename Rock 'n' Roll, it would be called Chuck Berry."
(John Lennon)
"The beautiful thing about Chuck Berry's playing was it had such an effortless swing (...)."
(Keith Richards)


O Rock não tinha mãe, mas tinha um pai dedicado, zeloso e bastante presente. Seu nome: Charles Edward Anderson Berry, um nome de monarca; para nós, mortais: Chuck Berry. 


A morte de um dos principais criadores do Rock 'n' Roll em março de 2017 marca o desaparecimento de um dos maiores influenciadores da música popular do século XX. Vários músicos que alcançaram a fama a partir da primeira metade dos anos 1960 apontam a importância de Chuck Berry para que eles conseguissem coragem e empunhassem uma guitarra para viver através da sua arte. John Lennon, Keith Richards, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Leonard Cohen, os Beach Boys, os irmãos Young do AC/DC, os mascarados do Kiss, Rod Stewart, Lenny Kravitz e Kurt Cobain são apenas alguns dos músicos que viam Chuck como uma de suas referências principais. Rita Lee e Raul Seixas, os pais do Rock por estas bandas, nunca esconderam a sua admiração pelo autor de "Johnny B. Goode".


Cantor e guitarrista, Chuck Berry misturou elementos do blues, do country, do R&B e do bom e velho boogie para gerar uma das criações mais diabólicas do mundo da música, o Rock 'n' Roll. A lembrança mais frequente que tenho do astro é de vê-lo empunhando uma guitarra em riste e fazendo a sua indefectível "duck dance", copiada por Angus Young e tantos outros guitarristas. O passo de dança, um dos clichês mais famosos da música, surgiu por volta de 1956: sempre preocupado com sua elegância e com a qualidade visual de seus ternos, Chuck decidiu investir em um novo passo de dança para esconder as partes amarrotadas de seu figurino. Quem diria que uma roupa amarrotada faria história?


O maior feito de Chuck Berry não foi apenas a invenção de um dos estilos musicais mais versáteis e populares de todos os tempos. Se Elvis Presley deu asas ao imaginário feminino graças aos acordes de sua guitarra e aos agitos de sua pélvis indecente, isto se deve aos feitos do homem mais notável de Saint Louis. Canções como "Roll Over Beethoven", "Carol", "Johnny B. Goode", "Memphis, Tennessee", "Maybellene" e "Sweet Little Sixteen" fizeram tanto, mas tanto sucesso que extrapolaram as fronteiras de gênero ou classe social. Além disto, ele introduziu um léxico revolucionário na música popular de seu tempo - falar de "monkey business" (negócio sujo) ou de carros e sexo nos Estados Unidos da década de 1950, fazendo uma crítica social violenta, cantando Rock e ainda sendo negro?! Chuck simplesmente fez a revolução, apesar do mundo não ter se preparado para tal.


Obviamente, Chuck Berry pagou um preço alto por ter sido tão ousado. Antes da fama, já tinha sido preso por roubo e porte de arma de fogo e chegou a ficar em detenção por alguns anos. Anos depois, já consagrado, foi acusado injustamente de aliciar uma menina de 14 anos, quase lhe custando a carreira, além de uns tempos no xilindró. Eu me pergunto se a lei foi mais pesada para Chuck simplesmente pelo fato dele ser negro. O que é fato incontestável é que foi graças aos seus amados pupilos - Beatles e Rolling Stones, especialmente - que o Pai do Rock 'n' Roll reergueu sua carreira, já reconhecido pelo seu status de lenda.


Chuck Berry manteve a simplicidade e fez apresentações até recentemente nos cassinos e clubes de Saint Louis, região onde morava, apesar do peso dos anos. A figura do criador desaparece e deixa uma quantidade sem tamanho de órfãos. Já o seu legado musical permanecerá enquanto os acordes de uma guitarra ecoarem por aí...





9 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 19

THE ROLLING STONES – STICKY FINGERS (1971)


A virada da década de 1960 para a de 1970 não trouxe boas vibrações para os Rolling Stones: a morte de Brian Jones, a participação da banda no famigerado festival de Altamont que resultou na morte trágica de um fã do grupo, as disputas financeiras com o ex-empresário Allen Klein que se transformavam em batalhas judiciais intensas e o fim do contrato com a gravadora Decca chegava ao fim de forma amarga e turbulenta. Até o final de 1969, a banda não possuía controle pleno sobre o seu trabalho e vivia com as finanças no vermelho. Keith Richards poderia, enfim, viver a plenitude de seu amor pela explosiva e junkie Anita Pallenberg com direito a todos os narcóticos que quisessem. Mick Jagger deixara Marianne Faithfull para trás para se casar com a exuberante Bianca Pérez-Mora de Macías (futuramente: Bianca Jagger) pouco tempo depois, decidira se aventurar como ator de cinema e dava início à sua egotrip eterna. Tais fatos fizeram com que o futuro da banda fosse considerado como incerto naqueles tempos.

Keith & Anita

Jagger & Richards na virada da década 
Mick & Bianca

O mundo se surpreendeu completamente com o surgimento de Sticky Fingers em 23 de abril de 1971. O álbum não apenas garantiu a redenção musical dos Rolling Stones, como também trouxe a banda com toda a pompa e circunstância para a década mais insana da história dos músicos. Além disto, estamos diante de uma das dez obras-primas do Rock ‘n’ Roll e os Stones são autores de duas destas pedras fundamentais: este disco e o lendário Exile on Main St. (1972), o rosário de todas as obsessões sexuais e lisérgicas de Jagger e Richards. O impacto profundo se dava com a capa do álbum – uma imagem em close-up de um jeans masculino com um órgão sexual proeminente, mais uma das criações escandalosas de Andy Warhol. A primeira edição em vinil deste clássico (hoje em dia, uma raridade!) continha um zíper que, infelizmente, danificava a qualidade do bolachão. Os conservadores de plantão acharam um horror, o que fez com que a capa do disco fosse censurada em países como a Espanha, que colocou uma ilustração no lugar da foto do jeans controverso.


Sticky Fingers foi um álbum que marcou uma série de marcos iniciais para os Rolling Stones: não se trata apenas do primeiro álbum de inéditas da banda na década de 1970, como também foi o primeiro trabalho que contou com a participação plena do guitarrista Mick Taylor (substituto de Brian Jones), o primeiro álbum no qual Mick Jagger apareceu nos créditos tocando guitarra e violão, o primeiro trabalho a exibir o logo que se tornou a marca registrada da banda (a boca e a língua de Mick Jagger estilizadas por John Pasche) e o foi o primeiro produto da Rolling Stones Records, selo fundado por Jagger, Richards e cia via Atlantic Records. A gênese deste disco começou alguns anos antes de 1971: parte das canções foram gravadas no lendário Muscle Shoals Sound Studio em 1969 – templo sagrado de mestres do Soul americano como Aretha Franklin localizado no coração do Alabama – outras foram gravadas no Olympic Studios e no Trident Studios, em Londres e as restantes foram criadas no The Rolling Stones Mobile Studio em Stargroves, propriedade de Jagger e Richards no interior do Reino Unido entre o final de 1969 e 1970. A produção deste clássico ficou a cargo de Jimmy Miller, parceiro musical das pedras rolantes até a primeira metade dos anos 1970.


Apesar das crises internas intensas, a forma musical dos Rolling Stones era invejável durante aquele período. Keith Richards e Mick Taylor conseguiram um entrosamento intenso, Charlie Watts e Bill Wyman eram a cozinha mais elegante e completa do Rock ‘n’ Roll e Mick Jagger estava no auge de sua forma vocal. O time de músicos convidados para tocar em Sticky Fingers é digno de dar inveja a qualquer banda iniciante: Bobby Keys e Jim Price nos metais, Ian Stewart, Billy Preston e Jack Nitzsche no piano e no órgão Hammond B-3, Ry Cooder na guitarra slide, Rocky Dijon nas congas e o arranjo de cordas do maestro Paul Buckmaster. As dez canções do disco são uma espécie de prenúncio do rosário de loucuras e obsessões que fariam de Exile on Main St. um dos cinco discos mais importantes de toda a história da música. “Wild Horses” e “Moonlight Mile”, por exemplo, são as melhores baladas que Jagger e Richards já compuseram e falam de amor e dor em seu estado bruto:


“I know I dreamed you a sin and a lie
I have my freedom but I don’t have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let’s do some living after we die”
(Wild Horses)


“The sound of strangers sending nothing to my mind
Just another mad mad day on the road
I am just living to be lying by your side
But I’m just about a moonlight mile on down the road”
(Moonlight Mile)

“Dead Flowers” é um country rock vingativo e é um dos melhores números ao vivo dos Rolling Stones até os dias de hoje. A letra, entoada sarcasticamente por Mick Jagger e presença constante nos setlists da banda até hoje, deve ter sido dedicado a Marianne Faithfull. “Sister Morphine” foi originalmente gravada por Marianne em 1968 e teria sido supostamente mais uma parceria de Mick Jagger e Keith Richards. No entanto, o relato de um junkie à beira da alucinação decorrente de uma suposta overdose não seria mero fruto do talento indiscutível da interpretação da ex-namorada do vocalista dos Stones. Anos depois, os créditos de composição passaram a apontar Jagger, Richards e Faithfull como os autores de uma das canções mais pungentes de todo o repertório stoniano:


“Take me down, little Susie, take me down
I know you think you’re the queen of the underground
And you can send me dead flowers every morning
Send me dead flowers by the US Mail
Send me dead flowers to my wedding
And I won’t forget to put roses on your grave”
(Dead Flowers)


“Well it just goes to show
Things are not what they seem
Please, Sister Morphine
Turn my nightmares into dreams
Oh, can’t you see I’m fading fast?
And that this shot may be my last”
(Sister Morphine)

Sticky Fingers possui um dos lados B mais importantes da carreira dos Rolling Stones: “Sway”, segunda faixa do disco. O solo de guitarra de Mick Taylor e o arranjo de cordas de Paul Buckmaster resulta em uma das gravações mais intensas de toda a história do Rock, com direito a uma letra inspiradíssima. “I Got the Blues” é um dos números mais emocionantes já gravados pela banda, com direito a um solo belíssimo de Billy Preston e com apoio elegante dos metais de Bobby Keys e Jim Price. A regravação de “You Gotta Move” (número de blues composto por Fred McDowell e Gary Davis que já fazia parte do repertório da banda desde o final da década anterior) destaca a sintonia existente entre Jagger e Richards:


“Did you ever wake up to find
A day that broke up your mind
Destroyed your notion of circular time
It’s just that demon life has got you in its sway
It’s just that demos life has got you in its sway”
(Sway)


“As I stand by your flame
I get burned once again
Feelin’ low down, I’m blue
As I sit by the fire
Of your warm desire
I’ve got the blues for you, yeah”
(I Got the Blues)


“You may be high
You may be low
You may be rich, child
You may be poor
But when the Lord gets ready
You gotta move”
(You Gotta Move)

Os números mais rápidos do disco foram justamente os mais populares de Sticky Fingers. “Can’t You Hear Me Knocking”, jam session de pouco mais de sete minutos e uma das canções preferidas do lendário diretor Martin Scorsese (um dos momentos mais eletrizantes de Casino se dá com os golpes certeiros de NIcky Santoro, personagem de Joe Pesci, nos elementos mais suspeitos de Las Vegas), é o momento mais estridente do disco. Os vocais lancinantes de Jagger, os riffs arrasadores de Keith, as congas furiosas de Dijon e os solos melodiosos e hipnóticos de Taylor e Bobby Keys foram os elementos que fizeram desta gravação um verdadeiro clássico.
“Bitch”, por sua vez, é mais uma grande canção sobre os desencantos amorosos com direito aos metais incendiários de Keys e Jim Price. E o que podemos dizer de “Brown Sugar” além do fato dela ser uma das canções mais perfeitas sobre sexo, drogas e Rock ‘n’ Roll já feitas em toda a história da música?


“Can’t you hear me knockin’, ahh, are you safe asleep?
Can’t you hear me knockin’, yeah, down the gas light street, now
Can’t you hear me knockin’, yeah, throw me down the keys
Alright now
Hear me ringing big bell tolls
Hear me singing soft and low
I’ve been begging on my knees
I’ve been kickin’, help me please
Hear me prowlin’
I’m gonna take you down
Hear me growlin’
Yeah, I’ve got flat-ten feet now, now, now, now
Hear me howlin’
And all, all around your street now
Hear me knockin’
And all, all around your town”
(Can’t You Hear Me Knocking)


“Sometimes I’m sexy, move like a stud
Kicking the stall all night
Sometimes I’m so shy, got to be worked on
Don’t have no bark or bite, alright
Yeah when you call my name
I salivate like a Pavlov dog
Yeah when you lay me out
My heart is bumpin’ louder than a big bass drum, alright”
(Bitch)


“Drums beating, cold English blood runs hot
Lady of the house wonderin’ where it’s gonna stop
House boy knows that he’s doing alright
You shoulda heard him just around midnight
Brown sugar
How come you taste so good, now?
Brown sugar
Just like a young girl should, now”
(Brown Sugar)

Sticky Fingers recebeu críticas moderadas e gerou opiniões diversas dos jornalistas musicais da época. Com o passar dos anos, todos foram unânimes ao perceberem que estamos diante de um dos discos mais coesos e coerentes de toda a história dos Rolling Stones. No entanto, o álbum alcançou os primeiros lugares das paradas de sucesso no Reino Unido e nos Estados Unidos em maio de 1971 e se mantém como um dos mais vendidos por eles até hoje. A banda lançou um de seus maiores sucessos pouco tempo depois de ter feito uma apresentação lendária no Marquee Club de Londres no decorrer de uma turnê de despedida do Reino Unido – os músicos ingleses decidiram deixar a terra de Elizabeth II alegando não ter condições de pagar os impostos exorbitantes que a Coroa Inglesa cobrava.


Obrigados a deixar o país, Jagger, Richards, Taylor, Wyman e Watts seguiram rumo à França para poder reerguer não só as finanças, mas o que sobrou da identidade do grupo. A lendária mansão de Villa Nellcôte seria o QG dos Stones até o final de 1972, com direito a todas as loucuras que estivessem ao alcance deles. Em outras palavras, nenhum dos integrantes do grupo teve a oportunidade de vivenciar o sucesso de sua obra-prima até então devido ao fato de terem seguido em um exílio voluntário.


Em 2015, os Stones nos legaram várias versões deluxe de Sticky Fingers, com direito a uma versão remasterizada deste clássico, além de outtakes e trechos de duas apresentações feitas entre 13 e 14 de março de 1971 em Londres e em Leeds. Dentre os números que ficaram de fora do disco original, está uma versão de “Brown Sugar” datada de 1970 com a participação de Eric Clapton na slide guitar, uma versão estendida de “Bitch” e uma versão eletroacústica de “Dead Flowers” (muitíssimo parecida com a versão que a banda apresenta em suas apresentações até os dias de hoje). A reedição deste álbum não só afirma a perenidade e a importância desta obra fundamental, como também mantém os Rolling Stones como uma das bandas mais importantes de Rock clássico que já surgiu em todos os tempos.


Por isso e muito mais que não está escrito aqui, deixe-se levar pelos dedos grudentos e musicais dos Rolling Stones, afaste o seu sofá e aproveite este momento para cantar e dançar com toda a fúria e o amor que só eles conseguiram expressar nos sulcos de um vinil. Este clássico se renova cada vez mais na medida em que você vibrar ao som de cada nota estridente tocada pelas rolantes do Rock. Divirta-se!


30 de janeiro de 2017

TROVA # 109

AS PONTES DA AMIZADE



“Some people go to priests; others to poetry; I to my friends. The beauty of the world, which is so soon to perish, has two edges, one of laughter, one of anguish, cutting the heart asunder. If you do not tell the truth about yourself, you cannot tell it about people.”
(Virginia Woolf)



Estou longe de ser um tipo, digamos, popular: não tenho um milhão de amigos, porém sou bastante grato a cada uma das amizades que tenho e não posso deixar de agradecer aos que um dia me concederam doces momentos em parceria. Afinal, devo muito do que sou hoje aos encontros e desencontros que a vida me proporcionou em 30 e poucos anos de caminhada.


Quando era mais jovem, meu temperamento forte, introspectivo e sensível contrastava com a tendência expansiva de membros de minha família: eu vivia em meus universos paralelos que cabiam dentro do meu antigo quarto, enquanto o mundo de meu irmão mais novo não cabia dentro das quatro paredes de nosso velho apartamento, já que ele vivia na rua e era uma das pessoas mais populares do pedaço, enquanto eu sempre colecionei os frutos da minha impopularidade.


Amizades são como pontes: elas sempre te levam para algum lugar, seja o destino final bom ou ruim. Quando há um sentimento verdadeiro, podemos alcançar lugares infinitos dentro das relações humanas. Por outro lado, no momento em que o interesse, a conveniência e a falsidade entram em cena, falsos amigos possuem máscaras de péssima qualidade e que, um dia, caem. Depois dos 35 anos de idade, busco relações mais sólidas, maior qualidade de vida, amigos com a possibilidade de agregar algo de bom. Quero um amigo inteiro e não pela metade.


Como eu sempre fui um ancião aprisionado em um corpo de jovem, meu desconforto com o mundo diminuiu um pouco quando fui para a Faculdade de Letras, um terreno supostamente livre de preconceitos de quaisquer tipos. O fato de pessoas de variadas faixas etárias estudarem juntas me fez sentir mais à vontade dentro da sala de aula, algo inédito para mim até então. Carrego amizades, colegas e umas duas ou três paixões um tanto secretas no meu convívio pessoal e dentro do meu peito até hoje.


Ao trocar o Rio de Janeiro por são Paulo no início de 2006, pensei que não sobreviveria à mudança para uma cidade tão diferente da minha terra natal. Consegui me adaptar completamente graças às amizades que fiz e aos velhos companheiros que não me abandonaram apesar da distância. Foi a partir da vida adulta que pude entender o sentido do ditado “Quem tem amigos não morre pagão”.


O mundo da música, por exemplo, já nos ofertou amizades inesquecíveis: John Lennon e Paul McCartney fizeram a trilha sonora de várias gerações à frente dos Beatles. Mick Jagger e Keith Richards colocaram os egos e às mágoas de lado em nome de mais de cinco décadas de carreira dos Rolling Stones. Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes fizeram de sua relação uma parceria que levou a música brasileira para o mundo inteiro. Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Caetano Veloso e Gilberto Gil modernizaram a canção brasileira graças a mais de 50 anos de amizade.



Estes exemplos nos mostram que amizades genuínas sobrevivem a brigas, cobranças, disputas de ego, distâncias e o próprio tempo. É preciso buscar inspiração nestas pessoas para que possamos viver de maneira mais leve, alegre e plena. Isso acontece se tivermos amizades que podemos contar nas pontas dos dedos ou um milhão de amigos...