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1 de outubro de 2017

TROVA # 138

OS PRAZERES DO SILÊNCIO



Words like violence break the silence
Come crashing in into my little world
Painful to me, pierce right through me
Can't you understand, oh my little girl

All I ever wanted, all I ever needed is here in my arms
Words are very unnecessary, they can only do harm

Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain, so does the pain
Words are meaningless and forgettable

All I ever wanted, all I ever needed is here in my arms
Words are very unnecessary, they can only do harm

All I ever wanted, all I ever needed is here in my arms
Words are very unnecessary, they can only do harm

All I ever wanted, all I ever needed is here in my arms
Words are very unnecessary, they can only do harm
(Martin Gore, 1990)


Sou um amante do barulho de forma geral – os sons do rádio, da TV e o trânsito de cidade grande me dão a dimensão de quem eu sou, um típico animal urbano, buscando se integrar ao coletivo. No entanto, na medida em que comecei a trabalhar em ambientes profissionais cada vez mais barulhentos, comecei a esquecer desta paixão. Se no passado, eu chegava em casa e ligava o aparelho de som para que a música preenchesse os espaços vazios e silenciosos, hoje em dia eu só me acalmo com a ausência de qualquer espécie de ruído. Passei a amar o silêncio, sob todas as formas.

Quem me dera que todo o som e a fúria dos seres humanos estivesse restrita apenas à Literatura de Shakespeare ou de Faulkner. Em tempos nos quais as relações humanas são cada vez mais frias e fugazes (isto seria a tal da modernidade líquida de Bauman), a comunicação essencial se faz esquecida, o entendimento entre os pares se torna mitológico, o tempo individual é convertido em um bem precioso, as palavras soltas por aí são espinhos prestes a nos ferir a qualquer momento.

Sempre acreditei na força extraordinária da palavra enquanto recurso de comunicação. Não só aprendi a respeitá-las, como também passei a amá-las e até a cultivá-las. Há quase duas décadas que eu vivo entre contos, crônicas, romances, notícias de jornal, redes sociais, poemas e letras de música para tentar compreender o mundo. Porém, o excesso de desinformação é tão grande que deixei de acreditar na eficácia total do verbo falado e escrito para sanar os males do mundo.



Depois de passar um final de semana inteiro em casa em pleno silêncio. Para a insanidade e a imbecilidade, o silêncio é a cura. Para a reflexão e pensar no rumo das coisas também. Ouvir a voz do outro apenas no que é essencial, afinal, as palavras são mais do que desnecessárias diante da era de plena mediocridade que vivemos.

O silêncio é ouro. Especialmente em tempos nos quais todo mundo tem voz para falar não apenas o que pensa, como também para dar asas a todos os seus ódios e preconceitos para quem quer que possa ler ou ouvir. O silêncio é uma arma de ouro. Especialmente porque é uma defesa de quem procura um mínimo de sensatez em meio ao caos dos grandes centros urbanos.



A música mais bela, os escritos mais inteligentes, a literatura mais bacana, os recados mais perfeitos e as decisões mais ajuizadas foram tomadas depois de muito silêncio. Por isso, desfrute dos prazeres da ausência de ruídos em alguma parte do seu dia. Faça uso de mais reticências nos seus textos, elas servem para ventilar suas ideias. Pratique o silêncio em algum momento de sua jornada diária e faça da sua vida e de seu semelhante algo melhor. Não existe contraindicação. 

30 de julho de 2017

TROVA # 130

O ARAUTO DA LIBERDADE
(OU A NECESSIDADE DE RESPEITARMOS NEY MATOGROSSO)


Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
(Caetano Veloso, 1983)


1) Uma provocação

         Às vésperas de completar 76 anos de idade (em 1° de agosto de 2017) e 45 de carreira musical (se levarmos em conta a primeira apresentação ao vivo do Secos & Molhados, em dezembro de 1972), Ney Matogrosso recebeu uma belíssima homenagem durante o 28º Prêmio da Música Brasileira, organizado pelo empresário José Maurício Machline. Em uma série de entrevistas concedidas pelo artista para divulgar o evento, Ney concedeu uma série de entrevistas para os principais veículos da imprensa nacional, incluindo a Folha de S. Paulo, que fez a seguinte chamada para a matéria ficar bem nos moldes de um bom “caça-clique”: “’Que gay o caralho! Eu sou um ser humano’, diz Ney Matogrosso”.


         Quando li a tal chamada, levei um susto e fui ler a tal entrevista antes de tomar qualquer conclusão ou juízo de valor – objetivo principal de qualquer coisa que o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) possui em seus jornais físicos e virtuais. Em palavras um tanto descuidadas, Ney Matogrosso respondeu se ele se considerou, em algum momento, representante de uma minoria dizendo o seguinte:

“Eu não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim: falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo, ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas, defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos aos guetos.
Me enquadrar como o “gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto de terceiro lugar”.



Ney Matogrosso foi hippie, isto é, vem da geração da contracultura: sempre rejeitou rótulos, limitações, imposições, qualquer coisa que cerceasse o seu desejo de ser livre. Nunca comprou nenhum peixe vendido pelo sistema apenas para agradar a sociedade. O que ele quis deixar muito claro em sua entrevista para a Folha de S. Paulo era justamente isso: a recusa em ser enquadrado sob qualquer rótulo, de forma que não fosse tachado ou limitado a uma ideia só ("cantor das minorias"). Infelizmente, nem todos entenderam assim... 


2) A revolta da turminha do lacre

Em primeiro lugar, vamos definir quem faz parte da turminha do lacre: são artistas LGBT surgidos na segunda metade da década de 2010 que não possuem a menor vergonha em desafiar padrões de gênero e tem feito bastante sucesso com as gerações mais jovens que saíram do armário. Adoram falar alto e ouvir pouco (ou quase nada!), acham Beyoncé e Elza Soares mulheres que “empoderam” (a palavrinha da moda!) seus pares e sempre curtem dar um pitaco em como devemos nos posicionar enquanto membros da causa cor de rosa.
Artistas como Liniker & Os Caramellows e a dupla As Bahias & A Cozinha Mineira são exponentes bastante talentosos dessa turma. Inspirados nas atitudes desse pessoal, a turminha em questão adora reverenciar o que é “lacre” (ou seja: tudo o que é ousado e que está, segundo Valesca Popozuda, “lacrando o cu das inimigas”). Se você diz ou faz algo que não é “lacrativo”, “fechativo” ou “bapho” (com “PH” mesmo!), você é digno de um “pisa menos”, de um “tombamento” e dizeres do tipo.
Eis a questão: quando a controvertida chamada para a entrevista de Ney chegou aos olhos de um dos exponentes dessa turma – um cantor em início de carreira cujo nome me recuso a citar não por questões de querer poupá-lo, mas porque qualquer menção ao nome do indivíduo é forma de publicidade indireta para o trabalho daquele ingrato –, a revolta de uma geração que lê mal, se posiciona mal e obcecada por “dar um close”, fez uma postagem arrasando com Ney Matogrosso em uma rede social. Disse o cidadão:

“É inconcebível ler a frase ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!). Vinda de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público”, comentou. (...) Um artista genial que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. (…) E em tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon”.

Diante da sucessão de enganos a respeito de Ney Matogrosso, é preciso deixar algumas coisas bastante claras:

a)  Apesar de sempre ter se recusado a fazer militância no sentido tradicional da coisa, Ney Matogrosso é um dos homens que mais batalharam pelo desenvolvimento da causa LGBT no Brasil: desafiou a ditadura e a censura durante os governos Médici e Geisel, seja à frente do lendário grupo Secos & Molhados ou em bem-sucedida carreira solo, ao quebrar padrões de gênero com coreografias e figurinos extravagantes, se maquiando e rebolando em pura demonstração de deboche, insubmissão e irreverência. Deixo para a turminha do lacre um trecho de uma entrevista para O GLOBO, na qual Ney deixa isso muito claro:

“O GLOBO: Quarenta anos depois dos Secos & Molhados, a gente chega a um momento da música brasileira em que os artistas não escondem sua sexualidade, e isso abriu uma discussão enorme sobre a questão de gênero. Você se reconhece no trabalho desses artistas?
NEY MATOGROSSO: Me reconhecer, não, porque eles são eles. Mas a verdade é que quem derrubou a porta fui eu. E o resto é consequência. Porém, não espero que ninguém fique batendo cabeça para mim. Não fiz nada além de atender à necessidade de me impor sobre uma mentalidade muito atrasada, muito estreita”;

b)  A carreira de Ney Matogrosso nunca se apoiou na causa LGBT. Pelo contrário: a causa LGBT sempre necessitou (e fez amplo uso!) do legado de Ney para poder se desenvolver no Brasil;
c)  Um artista que sempre se assumiu como homossexual e está há quase cinco anos dizendo que “Todo mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual” não é alguém que está desatento aos sinais de nosso tempo. O talento de Ney Matogrosso está longe de ser ou estar “cristalizado”: ele está há quase meia década percorrendo as casas de espetáculo do Brasil com o show Atento aos Sinais, um dos mais bem-sucedidos de sua carreira;



Ney Matogrosso no encerramento do Festival de Inverno de Bonito em 29/07/2017 - Foto: Rodrigo Motta

d)  Se artistas como Liniker e As Bahias conseguem “ botar a cara no sol” hoje em dia, elas deveriam agradecer a Ney Matogrosso por ter “dado a cara a tapa” há quase cinco décadas por fazer o que faz nos discos, nos palcos e nos programas de televisão. Não reconhecer isso não é simplesmente uma mera demonstração de petulância, é uma demonstração de burrice.

Show Destino de Aventureiro (1984)

3) As nuances do oportunismo

As redes sociais ferveram com a provocação de Ney e a revolta do integrante da “turminha do lacre”. Textos de opinião defendendo e enxovalhando Ney Matogrosso sem dó surgiram com uma avalanche. Infelizmente, o “embate” entre os defensores e os detratores de um dos maiores artistas da música brasileira deixou uma série de questões bastante caras:

a) A militância LGBT, infelizmente, precisa ser menos radical e sair do estratagema de que “todo bom gay é aquele que levanta bandeira” e não permitir que os haters determinem regras de como todos deveriam agir. Pelo conjunto da obra, Ney Matogrosso está acima de qualquer questão em relação à causa e muita gente ainda não entendeu isso;
b) O episódio serviu como uma luva para ajudar na divulgação do recente álbum do aspirante ao lugar insubstituível de Ney Matogrosso na música brasileira. Oportunismo barato e grotesco: se utilizar do nome de outra pessoa para criar polêmica com a justificativa de que faz muito pela causa LGBT é sinônimo de falta de ética, de canalhice. Comparar a declaração de Ney com uma suposta declaração de Madonna (“Mulher é o caralho!”) é demonstração de maniqueísmo, de falta de instrução.


Ney Matogrosso é o arauto da liberdade (diretamente ou não) de muitos integrantes da população LGBT no Brasil. Fez uso de um discurso libertário, ousado e irreverente para lutar por um pouco mais de igualdade. Dizer se é gay ou não, usar um rímel e delineador em um rosto com um bigode estilo “Freddie Mercury” é fazer muito pouco, quase nada para que um dia gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros adquiram direitos iguais. O intérprete de “Sangue Latino” não está observando atentamente os sinais de nosso tempo do alto de sua cobertura no Leblon: ele está em todos os cantos deste país cantando e dançando, longe do universo de um grupo reduzido de pessoas só sabem “evacuar regras para a vida alheia”.
Por isso e por muito mais que devemos agradecer ao Ney por tanto que ele fez pelos LGBTs, pelos amantes de música popular e pelo Brasil por estar fazendo o que faz com o mesmo primor de sempre. Muito obrigado por tudo, Ney! Eu sei que você não liga para essa gente careta e covarde. A partir de hoje, passarei a fazer o mesmo...
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20 de novembro de 2016

TROVA # 99

ALGUNS SEGREDOS MUSICAIS AO SOM DE ZÉLIA DUNCAN


Para Nilton Serra, no dia de seus 35 anos

You taught me precious secrets of the truth withholding nothing
You came out in front and I was hiding
But now I’m so much better
And if my words don’t come together
Listen to the melody
‘Cause my love is in there hiding

I love you in a place where there’s no space in time
I love you for in my life
You are a friend of mine
And when my life is over
Remember when we were together
We were alone and I was singing a song for you.
(Leon Russell, 1970)

Primeira vez que eu te vi
Meu coração não fez clique
Se ouvi ou vi, não vivi
Seu pique seu trique trique

Não vi sushi, sashimi
Nem Eros nem Afrodite
Primeira vez que eu te vi
Primeiro vi seus limites
(Christiaan Oyens & Itamar Assumpção, 2005)


Certa vez o sábio e saudoso poeta Torquato Neto escreveu: “Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas”. Se o co-autor de “Geleia Geral” tivesse escrito um texto sobre Zélia Duncan, ele diria que ela preferiria todas e mais uma. Não me recordo de nenhum artista cujo trabalho musical seja tão marcado pela diversidade quanto o de Zélia. É uma cantora, compositora e intérprete de uma coragem e dignidade impressionantes, qualidades raríssimas de ver por aí...



Devo confessar publicamente que demorei um bocado para fazer parte da festança musical de Dona ZD. Tenho alguns motivos: 1) minha dificuldade em compreender que o repertório dela era muito além da “Catedral” ou os lençóis do reggae que lhe fizeram famosa pelo Brasil inteiro; 2) uma boa dose de ciúmes desta nobre escorpiana; afinal de contas, o aquariano com ascendente em touro que vos escreve sempre demandou por atenção e exclusividade...



Nilton Serra, outro escorpiano obstinado e insistente, me ensinou não só a gostar do trabalho de Zélia, como também me ensinou a admirá-la profundamente. Aprendi que ser famoso e ser reconhecido não é fruto de mera celebridade ou dos reflexos dos louros colhidos de um sucesso na trilha sonora de uma das novelas de Silvio de Abreu. É resultado de muito trabalho, de várias parcerias e do amor de “um milhão de amigos”. Zélia Duncan é uma operária da canção, uma formiguinha sempre disposta a espalhar o seu canto por toda a parte. Despojada de quaisquer atributos ou cacoetes das “Divas da Música Brasileira”, compõe, produz, toca violão, guitarra, bandolim e canta com um dos registros vocais graves dos mais belos que eu já ouvi.



A primeira vez em que eu vi Zélia cantando ao vivo foi durante a gravação de um DVD ao vivo de Rita Lee, em 2004. Interpretou “Pagu” lado a lado da Rainha do Rock brasileiro e teve de fazer o número duas vezes para que a filmagem ficasse perfeita. Melhor para nós, mortais espectadores, que pudemos presenciar uma das parcerias mais bacanas da música nacional duas vezes em uma mesma noite. Nada mal para um carioca que sempre morreu de amores por São Paulo e viajava para a Terra da Garoa durante os feriados prolongados. Apesar de ter gostado muito, eu ouvia aquela voz grave com uma certa desconfiança...



Anos depois, já morando em São Paulo, fomos curtir um sábado em outra gravação de DVD, desta vez de Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band, de Zélia. Tudo transcorria muito bem quando senti algo muito estranho dentro da boca ao comer um salgadinho. Resultado: tinha quebrado um dente minutos antes de chegar ao Auditório Ibirapuera. Por não se tratar de um dente da frente e por não estar sentindo nenhuma dor (apenas um desconforto gigantesco!), decidimos ir para o show mesmo assim. Assistimos Zélia Duncan em um dos momentos mais inspirados e produtivos de sua carreira diretamente da segunda fila do auditório e interpretando compositores de primeiríssima linha como Itamar Assumpção, Alice Ruiz e Paulinho Moska com muita competência e à frente de uma banda de músicos extraordinários.




Como toda filmagem tem lá os seus imprevistos, ficamos dentro da sala de espetáculos até 3 ou 4 da madrugada com ZD repetindo números de seu setlist, ralhando (coberta de razão!) com membros da equipe técnica para que o trabalho se concluísse a tempo dela não se sentir obrigada a servir o café da manhã para os heróicos espectadores ainda presentes no Auditório Ibirapuera. Ah, se todas as cantoras brasileiras tivessem este tipo de bom humor ao enfrentar imprevistos em cima do palco...



Poucos anos depois, retornamos a mais uma gravação de CD e DVD ao vivo no Auditório Ibirapuera: desta vez, em Amigo é Casa, no qual Zélia dividia o espetáculo com a cantora Simone. Duas noites de shows, duas noites virados na rua esperando pela abertura das catracas do metrô às 5 da manhã, pois (pobres e fodidos que éramos na época) não tínhamos carro ou sequer dinheiro para pegar um táxi para casa. Acima de tudo, nós éramos jovens de vinte e poucos anos felizes e topávamos qualquer noitada na rua ao lado de nossos queridos amigos. A formiga e a cigarra da música brasileira foram a trilha sonora daqueles tempos – canções de Gonzaguinha, Roque Ferreira, Guilherme Arantes e tantos outros fizeram a nossa cabeça e abriram ainda mais os meus ouvidos para o trabalho de Zélia Duncan.




Foi graças ao excelente disco Pelo Sabor do Gesto que Zélia Duncan finalmente conquistou este chato e exigente coração! Depois de ouvir todos os seus discos, creio que foi em 2009 que ZD achou o auge de sua forma – suas parcerias, sua voz e o seu repertório me atingiu em cheio. Fiquei um pouco triste por ela ter mudado a letra de “Ambição” – uma das minhas favoritas de Rita Lee –, mas adorei a escolha de uma canção obscura do cancioneiro da Rainha do Rock brasileiro. “Tudo Sobre Você” ficou impregnada nos meus ouvidos por um bom tempo. “Esporte Fino Confortável”, parceria de Zélia com Chico César, serve como piada interna entre nós e alguns de nossos amigos até hoje.




E foi graças ao show baseado em Pelo Sabor do Gesto que Nilton e eu cometemos a maior maluquice de toda a nossa história de frequentadores de shows: ir de São Paulo até Niterói para assistir a mais uma gravação de DVD de Zélia - dois shows em um mesmo dia no Teatro Municipal de Nikiti (um às 15h e outro às 18h), uma verdadeira maratona musical. Quando vi Lady Duncan linda e esplendorosa dentro de um vestido colorido de Ronaldo Fraga no palco daquele teatro aconchegante, deixei todo o mau humor da viagem de lado e curti aquele dia de domingo. Depois de algumas emoções e surpresas, voltamos para São Paulo, exaustos como nunca.





Fiquei encantado e emocionado com Tudo Esclarecido, CD e show no qual Zélia interpretava as canções do indefectível Itamar Assumpção. Entendi como o Jimi Hendrix conseguia ser um artista de inteligência e intensidade através da gigantesca reverência e competência de ZD – ninguém conseguirá me convencer da inexistência de outra gravação mais bela para “Noite Torta” do que a da filha de D. Loïse Duncan. Na mesma época, tivemos a oportunidade de vislumbrar a obra de Luiz Tatit com outros olhos através de ToTatiando. Zélia Duncan conseguiu a improvável façanha de deixar Tatit menos hermético através de uma perspectiva encantadoramente dramática de seu cancioneiro. Confesso que perdi as contas de quantas vezes assisti a este espetáculo, como também nem consigo me lembrar de quantas vezes já fui ao seu camarim e fomos recebidos com um sorriso largo que não parece ter mais fim.






Os excessos de compromissos profissionais, somados a algumas chegadas e partidas familiares nos tiraram de circulação por um bom tempo. Consequência direta: deixamos de acompanhar as gravações de DVD mais recentes de ZD. Por outro lado, fiquei bem contente quando surgiu a oportunidade de ver um show inédito de Zélia Duncan depois de um bom tempo. A felicidade dobrou quando soube que o espetáculo era baseado em Quando o Mundo Acabar, CD no qual Lady Duncan nos concedeu o luxo de ouvirmos alguns sambas consagrados e outros de sua própria autoria. No entanto, estávamos bem longe do palco e acomodados nas últimas cadeiras do teatro do SESC Vila Mariana. Deixei-me surpreender ao ver a cortina se abrir e me deparar com a artista saindo justamente do nosso lado para dar início a um espetáculo alegre e inteligente.



Zélia Duncan nunca tinha soado tão bela e jovial em cima de um palco para mim: em menos de duas horas de show, meu coração batucou com cavacos e cuícas que choravam com elegância. A moça em cena nem se parecia com aquela que substituiu Rita Lee no grupo Os Mutantes entre 2005 e 2007, com quem eu ralhava tanto, mas fui assistir no Parque da Independência mesmo assim... Minha implicância com ZD se transformou em uma admiração confessa, acrescida de uma inveja branca sem tamanho: como alguém que consegue fazer tanta coisa boa em termos de música tem a capacidade de escrever crônicas tão belas para o jornal O Globo toda sexta-feira?!






Aqui estão algumas de nossas historinhas tão particulares e preciosas com Zélia Duncan, a artista que mais tem contribuído para a intimidade dos nossos sons de alguns anos para cá. Existem outras anedotas a serem ditas, mas é melhor deixá-las para outro texto por questões de espaço – afinal, o amor e a admiração por ZD ultrapassam quaisquer limites. Quando eu conseguir me exprimir em palavras com um décimo da classe e da competência de Lady Duncan, eu escrevo outra crônica. "Por hoje é só"...




“Nem que eu contasse as gotas do mar, todos os dias
Pra me acalmar do que eu nunca fiz
Nem que eu parasse as ondas do ar, dia após dia
Descansaria as horas em mim,
Por hoje é só
Bruxas e reis sorriram pra mim,
Sei que é assim
Certo é errar, mas quando acordei corri devagar
Sem perceber cheguei aqui”
(Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)

15 de maio de 2016

TROVA # 70

A ANORMALIDADE NECESSÁRIA DE MARIA ALCINA


De normal batam os outros
É preciso ter coragem
Venha a nós o vosso reino
Quem não pode se sacode
Eu aceito só metade
E a família como vai?
(Arnaldo Antunes – “De Normal”, canção que deu o nome para o álbum De Normal Bastam os Outros, lançado por Maria Alcina no final de 2013)


Ainda me emociono bastante quando vejo determinados artistas do mundo da música que conseguem realizar seu ofício com extrema paixão. O público deixa de ser uma simples horda de pessoas que pagaram por um ingresso que lhe garante uma hora e meia ou duas de simples entretenimento. O palco deixa de ser um mero local de trabalho para se transformar em um santuário musical que reflete nossos desejos e sensações mais genuínas. Todos os presentes se tornam cúmplices de uma estrela que deseja fazer daquela noite um evento memorável. A isto damos o nome de arte.

Maria Alcina no SESC Belenzinho - SP,  18/02/2016
Foto: Nilton Serra

Maria Alcina é uma tradução e tanto para o que foi descrito acima. Tive a oportunidade singular de presenciar seu retorno definitivo ao mainstream com o CD e DVD De Normal Bastam os Outros, lançados entre 2013 e 2015. Quem pensa que os seus shows são um mero desfile de irreverência, confete e serpentina está plenamente enganado. Por trás de toda a purpurina e maquiagem pesada, há uma cantora de voz potente é poderosíssima, dona de um timbre vocal único e que consegue imprimir tratamentos distintos a canções da dupla João Bosco / Aldir Blanc como o antológico samba “Kid Cavaquinho” e o chocante blues “O Chefão”. Seu estilo inconfundível, nem um pouco sintonizado com os arroubos das Divas da MPB, é o diferencial de Alcina em um país de cantoras tão talentosas e bem-dotadas de talento.


De acordo com o produtor musical Thiago Marques Luiz, Maria Alcina é uma “artista singular que o Brasil entende e desentende, lembra d esquece, mas jamais deixa de aplaudir”. Descaradamente influenciada por Carmen Miranda, sua música faz uma conexão do presente com o passado, sem nenhuma presença de nostalgia. Sua arte é pautada em viés carnavalizante, cuja marca registrada é a sua voz bem-humorada e a sua personalidade esfuziante que tem cativado os brasileiros desde a sua consagração com “Fio Maravilha”, do Festival Internacional da Canção de 1972, ou de álbuns mais recentes como Confete & Serpentina (2009).




O que mais me impressionou a respeito da presença de palco de Maria Alcina foi justamente a sua brejeira simplicidade – típico de qualquer bela mineira de Cataguases – perante os músicos que a acompanhavam em cena, em relação ao público e até com as funcionárias da comedoria do SESC Belenzinho (o local do show), que ela fez questão de convidar ao palco para dançar junto dela ao som de “Prenda o Tadeu”, para delírio de todos os presentes. Além disso, o repertório do CD e DVD De Normal Bastam os Outros – composto por nomes de peso como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Karina Buhr e Anastácia – consegue dialogar com canções já clássicas do repertório de Alcina como “Fio Maravilha”, “Doida, Bonita e Gostosa” e “Bacurinha”. Não se trata apenas de uma grande cantora comemorando 40 anos de carreira musical, e sim o retorno de uma grande artista ao spotlight depois de algum tempo longe de seu público.



Karina Buhr & Maria Alcina no Theatro Net Rio - RJ, 10/06/2014
Foto: Mauro Ferreira

Injustiçada pela censura e pelo ostracismo das décadas de 1980 e 1990, Maria Alcina conseguiu se manter viva enquanto artista graças aos programas de auditório e de sua vontade incessante de querer cantar onde houvesse trabalho. Graças à Internet, às redes sociais (a cantora de “Kid Cavaquinho” pode ser facilmente encontrada no Facebook e no Instagram), à memória musical coletiva de seus fãs e dos esforços hercúleos do produtor musical Thiago Marques Luiz, o devido reconhecido foi concedido a um dos nomes mais inquietos da música brasileira.




Alcina é uma cantora que olha para a frente sem deixar de reverenciar o que foi produzido de melhor no passado. Resgatar o repertório de Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola em tempos nos quais muitos pouco conhecem o básico do cancioneiro popular brasileiro é mais do que um ato de reverência: é um serviço de utilidade pública! Em uma era na qual o “politicamente correto” e a “falsa inocência” na música brasileira, a anormalidade do canto de Maria Alcina é fundamental para o Brasil de hoje.



Nós dois ao lado de Maria Alcina após seu show no SESC Belenzinho - SP,  18/02/2016