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27 de agosto de 2020
1 de outubro de 2017
TROVA # 138
OS PRAZERES DO SILÊNCIO
“Words
like violence break the silence
Come crashing in into my little world
Painful to me, pierce right through me
Can't you understand, oh my little girl
All I ever wanted, all I ever needed is here in my
arms
Words are very unnecessary, they can only do harm
Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain, so does the pain
Words are meaningless and forgettable
All I ever wanted, all I ever needed is here in my
arms
Words are very unnecessary, they can only do harm
All I ever wanted, all I ever needed is here in my
arms
Words are very unnecessary, they can only do harm
All I ever wanted, all I ever needed is here in my
arms
Words are very unnecessary, they can only do harm”
(Martin Gore, 1990)
Sou
um amante do barulho de forma geral – os sons do rádio, da TV e o trânsito de
cidade grande me dão a dimensão de quem eu sou, um típico animal urbano,
buscando se integrar ao coletivo. No entanto, na medida em que comecei a
trabalhar em ambientes profissionais cada vez mais barulhentos, comecei a
esquecer desta paixão. Se no passado, eu chegava em casa e ligava o aparelho de
som para que a música preenchesse os espaços vazios e silenciosos, hoje em dia
eu só me acalmo com a ausência de qualquer espécie de ruído. Passei a amar o
silêncio, sob todas as formas.
Quem
me dera que todo o som e a fúria dos seres humanos estivesse restrita apenas à
Literatura de Shakespeare ou de Faulkner. Em tempos nos quais as relações humanas
são cada vez mais frias e fugazes (isto seria a tal da modernidade líquida de
Bauman), a comunicação essencial se faz esquecida, o entendimento entre os
pares se torna mitológico, o tempo individual é convertido em um bem precioso,
as palavras soltas por aí são espinhos prestes a nos ferir a qualquer momento.
Sempre
acreditei na força extraordinária da palavra enquanto recurso de comunicação. Não
só aprendi a respeitá-las, como também passei a amá-las e até a cultivá-las. Há
quase duas décadas que eu vivo entre contos, crônicas, romances, notícias de
jornal, redes sociais, poemas e letras de música para tentar compreender o
mundo. Porém, o excesso de desinformação é tão grande que deixei de acreditar
na eficácia total do verbo falado e escrito para sanar os males do mundo.
Depois de passar um final de semana
inteiro em casa em pleno silêncio. Para a insanidade e a imbecilidade, o
silêncio é a cura. Para a reflexão e pensar no rumo das coisas também. Ouvir a
voz do outro apenas no que é essencial, afinal, as palavras são mais do que
desnecessárias diante da era de plena mediocridade que vivemos.
O silêncio é ouro. Especialmente em tempos
nos quais todo mundo tem voz para falar não apenas o que pensa, como também
para dar asas a todos os seus ódios e preconceitos para quem quer que possa ler
ou ouvir. O silêncio é uma arma de ouro. Especialmente porque é uma defesa de
quem procura um mínimo de sensatez em meio ao caos dos grandes centros urbanos.
A música mais bela, os escritos mais inteligentes,
a literatura mais bacana, os recados mais perfeitos e as decisões mais
ajuizadas foram tomadas depois de muito silêncio. Por isso, desfrute dos
prazeres da ausência de ruídos em alguma parte do seu dia. Faça uso de mais
reticências nos seus textos, elas servem para ventilar suas ideias. Pratique o
silêncio em algum momento de sua jornada diária e faça da sua vida e de seu
semelhante algo melhor. Não existe contraindicação.
30 de julho de 2017
TROVA # 130
O
ARAUTO DA LIBERDADE
(OU
A NECESSIDADE DE RESPEITARMOS NEY MATOGROSSO)
“Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia”
(Caetano Veloso, 1983)
1) Uma provocação
Às vésperas de completar 76 anos de
idade (em 1° de agosto de 2017) e 45 de carreira musical (se levarmos em conta
a primeira apresentação ao vivo do Secos & Molhados, em dezembro de 1972), Ney
Matogrosso recebeu uma belíssima homenagem durante o 28º Prêmio da Música
Brasileira, organizado pelo empresário José Maurício Machline. Em uma série de
entrevistas concedidas pelo artista para divulgar o evento, Ney concedeu uma
série de entrevistas para os principais veículos da imprensa nacional,
incluindo a Folha de S. Paulo, que
fez a seguinte chamada para a matéria ficar bem nos moldes de um bom “caça-clique”:
“’Que gay o caralho! Eu sou um ser humano’,
diz Ney Matogrosso”.
Quando li a tal chamada, levei um susto
e fui ler a tal entrevista antes de tomar qualquer conclusão ou juízo de valor –
objetivo principal de qualquer coisa que o GAFE
(Globo, Abril, Folha e Estadão) possui em seus jornais físicos e virtuais. Em
palavras um tanto descuidadas, Ney Matogrosso respondeu se ele se considerou,
em algum momento, representante de uma minoria dizendo o seguinte:
“Eu
não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim:
falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu
fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo,
ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas,
defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo
os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos
aos guetos.
Me
enquadrar como o “gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o
caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha
sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto de
terceiro lugar”.
Ney Matogrosso foi hippie,
isto é, vem da geração da contracultura: sempre rejeitou rótulos, limitações,
imposições, qualquer coisa que cerceasse o seu desejo de ser livre. Nunca
comprou nenhum peixe vendido pelo sistema apenas para agradar a sociedade. O que
ele quis deixar muito claro em sua entrevista para a Folha de S. Paulo era justamente isso: a recusa em ser enquadrado sob qualquer rótulo, de forma que não fosse tachado ou limitado a uma ideia só ("cantor das minorias"). Infelizmente, nem todos entenderam assim...
2) A revolta da turminha do lacre
Em primeiro lugar, vamos definir quem
faz parte da turminha do lacre: são artistas LGBT surgidos na segunda metade da
década de 2010 que não possuem a menor vergonha em desafiar padrões de gênero e
tem feito bastante sucesso com as gerações mais jovens que saíram do armário. Adoram
falar alto e ouvir pouco (ou quase nada!), acham Beyoncé e Elza Soares mulheres
que “empoderam” (a palavrinha da moda!) seus pares e sempre curtem dar um
pitaco em como devemos nos posicionar enquanto membros da causa cor de rosa.
Artistas como Liniker & Os
Caramellows e a dupla As Bahias & A Cozinha Mineira são exponentes bastante
talentosos dessa turma. Inspirados nas atitudes desse pessoal, a turminha em
questão adora reverenciar o que é “lacre” (ou seja: tudo o que é ousado e que
está, segundo Valesca Popozuda, “lacrando o cu das inimigas”). Se você diz ou faz
algo que não é “lacrativo”, “fechativo” ou “bapho” (com “PH” mesmo!), você é
digno de um “pisa menos”, de um “tombamento” e dizeres do tipo.
Eis a questão: quando a controvertida chamada
para a entrevista de Ney chegou aos olhos de um dos exponentes dessa turma – um
cantor em início de carreira cujo nome me recuso a citar não por questões de
querer poupá-lo, mas porque qualquer menção ao nome do indivíduo é forma de
publicidade indireta para o trabalho daquele ingrato –, a revolta de uma
geração que lê mal, se posiciona mal e obcecada por “dar um close”, fez uma
postagem arrasando com Ney Matogrosso em uma rede social. Disse o cidadão:
“É inconcebível ler a frase ‘Que gay o
caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!). Vinda
de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta
dessa comunidade, de seu próprio público”, comentou. (...) Um artista genial
que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. (…) E em
tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra
caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon”.
Diante da sucessão de enganos a
respeito de Ney Matogrosso, é preciso deixar algumas coisas bastante claras:
a) Apesar de
sempre ter se recusado a fazer militância no sentido tradicional da coisa, Ney
Matogrosso é um dos homens que mais batalharam pelo desenvolvimento da causa
LGBT no Brasil: desafiou a ditadura e a censura durante os governos Médici e
Geisel, seja à frente do lendário grupo Secos & Molhados ou em bem-sucedida
carreira solo, ao quebrar padrões de gênero com coreografias e figurinos
extravagantes, se maquiando e rebolando em pura demonstração de deboche,
insubmissão e irreverência. Deixo para a turminha do lacre um trecho de uma entrevista
para O GLOBO, na qual Ney deixa isso muito claro:
“O
GLOBO:
Quarenta anos depois dos Secos & Molhados, a gente chega a um momento da
música brasileira em que os artistas não escondem sua sexualidade, e isso abriu
uma discussão enorme sobre a questão de gênero. Você se reconhece no trabalho
desses artistas?
NEY MATOGROSSO: Me
reconhecer, não, porque eles são eles. Mas a verdade é que quem derrubou a
porta fui eu. E o resto é consequência. Porém, não espero que ninguém fique
batendo cabeça para mim. Não fiz nada além de atender à necessidade de me impor
sobre uma mentalidade muito atrasada, muito estreita”;
b) A carreira de Ney
Matogrosso nunca se apoiou na causa LGBT. Pelo contrário: a causa LGBT sempre
necessitou (e fez amplo uso!) do legado de Ney para poder se desenvolver no
Brasil;
c) Um artista que
sempre se assumiu como homossexual e está há quase cinco anos dizendo que “Todo
mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual” não é alguém que está
desatento aos sinais de nosso tempo. O talento de Ney Matogrosso está longe de
ser ou estar “cristalizado”: ele está há quase meia década percorrendo as casas
de espetáculo do Brasil com o show Atento aos Sinais,
um dos mais bem-sucedidos de sua carreira;
d)
Se
artistas como Liniker e As Bahias conseguem “ botar a cara no sol” hoje em dia,
elas deveriam agradecer a Ney Matogrosso por ter “dado a cara a tapa” há quase
cinco décadas por fazer o que faz nos discos, nos palcos e nos programas de
televisão. Não reconhecer isso não é simplesmente uma mera demonstração de
petulância, é uma demonstração de burrice.
3) As nuances do oportunismo
As redes sociais ferveram com a provocação de Ney e a
revolta do integrante da “turminha do lacre”. Textos de opinião defendendo e
enxovalhando Ney Matogrosso sem dó surgiram com uma avalanche. Infelizmente, o “embate”
entre os defensores e os detratores de um dos maiores artistas da música
brasileira deixou uma série de questões bastante caras:
a) A
militância LGBT, infelizmente, precisa ser menos radical e sair do estratagema
de que “todo bom gay é aquele que levanta bandeira” e não permitir que os haters determinem regras de como todos
deveriam agir. Pelo conjunto da obra, Ney Matogrosso está acima de qualquer
questão em relação à causa e muita gente ainda não entendeu isso;
b) O
episódio serviu como uma luva para ajudar na divulgação do recente álbum do
aspirante ao lugar insubstituível de Ney Matogrosso na música brasileira.
Oportunismo barato e grotesco: se utilizar do nome de outra pessoa para criar
polêmica com a justificativa de que faz muito pela causa LGBT é sinônimo de
falta de ética, de canalhice. Comparar a declaração de Ney com uma suposta
declaração de Madonna (“Mulher é o caralho!”) é demonstração de maniqueísmo, de
falta de instrução.
Ney Matogrosso é o arauto da liberdade (diretamente ou
não) de muitos integrantes da população LGBT no Brasil. Fez uso de um discurso
libertário, ousado e irreverente para lutar por um pouco mais de igualdade. Dizer
se é gay ou não, usar um rímel e delineador em um rosto com um bigode estilo “Freddie
Mercury” é fazer muito pouco, quase nada para que um dia gays, lésbicas,
bissexuais, travestis e transgêneros adquiram direitos iguais. O intérprete de “Sangue
Latino” não está observando atentamente os sinais de nosso tempo do alto de sua
cobertura no Leblon: ele está em todos os cantos deste país cantando e
dançando, longe do universo de um grupo reduzido de pessoas só sabem “evacuar
regras para a vida alheia”.
Por isso e por muito mais que devemos agradecer ao Ney
por tanto que ele fez pelos LGBTs, pelos amantes de música popular e pelo
Brasil por estar fazendo o que faz com o mesmo primor de sempre. Muito obrigado
por tudo, Ney! Eu sei que você não liga para essa gente careta e covarde. A partir
de hoje, passarei a fazer o mesmo...
.
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20 de novembro de 2016
TROVA # 99
ALGUNS SEGREDOS MUSICAIS
AO SOM DE ZÉLIA DUNCAN
Para
Nilton Serra, no dia de seus 35 anos
“You
taught me precious secrets of the truth withholding nothing
You came out in front and I was hiding
But now I’m so much better
And if my words don’t come together
Listen to the melody
‘Cause my love is in there hiding
I love you in a place where there’s no space in time
I love you for in my life
You are a friend of mine
And when my life is over
Remember when we were together
We were alone and I was singing a song for you.”
(Leon Russell, 1970)
“Primeira
vez que eu te vi
Meu
coração não fez clique
Se
ouvi ou vi, não vivi
Seu
pique seu trique trique
Não
vi sushi, sashimi
Nem
Eros nem Afrodite
Primeira
vez que eu te vi
Primeiro
vi seus limites”
(Christiaan Oyens & Itamar
Assumpção, 2005)
Certa vez o sábio e saudoso poeta Torquato Neto escreveu: “Há várias
maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas”.
Se o co-autor de “Geleia Geral” tivesse escrito um texto sobre Zélia Duncan,
ele diria que ela preferiria todas e mais uma. Não me recordo de nenhum artista
cujo trabalho musical seja tão marcado pela diversidade quanto o de Zélia. É
uma cantora, compositora e intérprete de uma coragem e dignidade
impressionantes, qualidades raríssimas de ver por aí...
Devo confessar publicamente que demorei um bocado para fazer parte da
festança musical de Dona ZD. Tenho alguns motivos: 1) minha dificuldade em
compreender que o repertório dela era muito além da “Catedral” ou os lençóis do
reggae que lhe fizeram famosa pelo Brasil inteiro; 2) uma boa dose de ciúmes
desta nobre escorpiana; afinal de contas, o aquariano com ascendente em touro
que vos escreve sempre demandou por atenção e exclusividade...
Nilton Serra, outro escorpiano obstinado e insistente, me ensinou não só
a gostar do trabalho de Zélia, como também me ensinou a admirá-la
profundamente. Aprendi que ser famoso e ser reconhecido não é fruto de mera
celebridade ou dos reflexos dos louros colhidos de um sucesso na trilha sonora de uma das novelas de
Silvio de Abreu. É resultado de muito trabalho, de várias
parcerias e do amor de “um milhão de amigos”. Zélia Duncan é uma operária da
canção, uma formiguinha sempre disposta a espalhar o seu canto por toda a
parte. Despojada de quaisquer atributos ou cacoetes das “Divas da Música
Brasileira”, compõe, produz, toca violão, guitarra, bandolim e canta com um dos
registros vocais graves dos mais belos que eu já ouvi.
A primeira vez em que eu vi Zélia cantando ao vivo foi durante a
gravação de um DVD ao vivo de Rita Lee, em 2004. Interpretou “Pagu” lado a lado
da Rainha do Rock brasileiro e teve de fazer o número duas vezes para que a
filmagem ficasse perfeita. Melhor para nós, mortais espectadores, que pudemos
presenciar uma das parcerias mais bacanas da música nacional duas vezes em uma
mesma noite. Nada mal para um carioca que sempre morreu de amores por São Paulo
e viajava para a Terra da Garoa durante os feriados prolongados. Apesar de ter gostado
muito, eu ouvia aquela voz grave com uma certa desconfiança...
Anos depois, já morando em São Paulo, fomos curtir um sábado em outra
gravação de DVD, desta vez de Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band,
de Zélia. Tudo transcorria muito bem quando senti algo muito estranho dentro da
boca ao comer um salgadinho. Resultado: tinha quebrado um dente minutos antes
de chegar ao Auditório Ibirapuera. Por não se tratar de um dente da frente e
por não estar sentindo nenhuma dor (apenas um desconforto gigantesco!),
decidimos ir para o show mesmo assim. Assistimos Zélia Duncan em um dos
momentos mais inspirados e produtivos de sua carreira diretamente da segunda fila do auditório e interpretando
compositores de primeiríssima linha como Itamar Assumpção, Alice Ruiz e
Paulinho Moska com muita competência e à frente de uma banda de músicos
extraordinários.
Como toda filmagem tem lá os seus imprevistos, ficamos dentro da sala de
espetáculos até 3 ou 4 da madrugada com ZD repetindo números de seu setlist, ralhando (coberta de razão!) com
membros da equipe técnica para que o trabalho se concluísse a tempo dela não se
sentir obrigada a servir o café da manhã para os heróicos espectadores ainda presentes
no Auditório Ibirapuera. Ah, se todas as cantoras brasileiras tivessem este
tipo de bom humor ao enfrentar imprevistos em cima do palco...
Poucos anos depois, retornamos a mais uma gravação de CD e DVD ao vivo
no Auditório Ibirapuera: desta vez, em Amigo
é Casa, no qual Zélia dividia o espetáculo com a cantora Simone. Duas
noites de shows, duas noites virados na rua esperando pela abertura das
catracas do metrô às 5 da manhã, pois (pobres e fodidos que éramos na época)
não tínhamos carro ou sequer dinheiro para pegar um táxi para casa. Acima de
tudo, nós éramos jovens de vinte e poucos anos felizes e topávamos qualquer
noitada na rua ao lado de nossos queridos amigos. A formiga e a cigarra da
música brasileira foram a trilha sonora daqueles tempos – canções de
Gonzaguinha, Roque Ferreira, Guilherme Arantes e tantos outros fizeram a nossa
cabeça e abriram ainda mais os meus ouvidos para o trabalho de Zélia Duncan.
Foi graças ao excelente disco Pelo
Sabor do Gesto que Zélia Duncan finalmente conquistou este chato e exigente
coração! Depois de ouvir todos os seus discos, creio que foi em 2009 que ZD
achou o auge de sua forma – suas parcerias, sua voz e o seu repertório me
atingiu em cheio. Fiquei um pouco triste por ela ter mudado a letra de “Ambição”
– uma das minhas favoritas de Rita Lee –, mas adorei a escolha de uma canção
obscura do cancioneiro da Rainha do Rock brasileiro. “Tudo Sobre Você” ficou
impregnada nos meus ouvidos por um bom tempo. “Esporte Fino Confortável”,
parceria de Zélia com Chico César, serve como piada interna entre nós e alguns
de nossos amigos até hoje.
E foi graças ao show baseado em Pelo
Sabor do Gesto que Nilton e eu cometemos a maior maluquice de toda a nossa
história de frequentadores de shows: ir de São Paulo até Niterói para assistir
a mais uma gravação de DVD de Zélia - dois shows em um mesmo dia no Teatro
Municipal de Nikiti (um às 15h e outro às 18h), uma verdadeira maratona musical. Quando vi Lady Duncan linda e
esplendorosa dentro de um vestido colorido de Ronaldo Fraga no palco daquele
teatro aconchegante, deixei todo o mau humor da viagem de lado e curti aquele
dia de domingo. Depois de algumas emoções e surpresas, voltamos para São Paulo,
exaustos como nunca.
Fiquei encantado e emocionado com Tudo
Esclarecido, CD e show no qual Zélia interpretava as canções do
indefectível Itamar Assumpção. Entendi como o Jimi Hendrix conseguia ser um
artista de inteligência e intensidade através da gigantesca reverência e
competência de ZD – ninguém conseguirá me convencer da inexistência de
outra gravação mais bela para “Noite Torta” do que a da filha de
D. Loïse Duncan. Na mesma época, tivemos a oportunidade de vislumbrar a obra de
Luiz Tatit com outros olhos através de ToTatiando. Zélia Duncan conseguiu a
improvável façanha de deixar Tatit menos hermético através de uma perspectiva
encantadoramente dramática de seu cancioneiro. Confesso que perdi as contas de
quantas vezes assisti a este espetáculo, como também nem consigo me lembrar de
quantas vezes já fui ao seu camarim e fomos recebidos com um sorriso largo que
não parece ter mais fim.
Os excessos de compromissos profissionais, somados a algumas chegadas e
partidas familiares nos tiraram de circulação por um bom tempo. Consequência direta:
deixamos de acompanhar as gravações de DVD mais recentes de ZD. Por outro lado,
fiquei bem contente quando surgiu a oportunidade de ver um show inédito de
Zélia Duncan depois de um bom tempo. A felicidade dobrou quando soube que o
espetáculo era baseado em Quando o Mundo
Acabar, CD no qual Lady Duncan nos concedeu o luxo de ouvirmos alguns
sambas consagrados e outros de sua própria autoria. No entanto, estávamos bem
longe do palco e acomodados nas últimas cadeiras do teatro do SESC Vila
Mariana. Deixei-me surpreender ao ver a cortina se abrir e me deparar com a
artista saindo justamente do nosso lado para dar início a um espetáculo alegre
e inteligente.
Zélia Duncan nunca tinha soado tão bela e jovial em cima de um palco
para mim: em menos de duas horas de show, meu coração batucou com cavacos e
cuícas que choravam com elegância. A moça em cena nem se parecia com aquela que
substituiu Rita Lee no grupo Os Mutantes entre 2005 e 2007, com quem eu ralhava tanto, mas fui assistir no Parque da Independência mesmo assim... Minha implicância com
ZD se transformou em uma admiração confessa, acrescida de uma inveja branca sem
tamanho: como alguém que consegue fazer tanta coisa boa em termos de música tem
a capacidade de escrever crônicas tão belas para o jornal O Globo toda sexta-feira?!
Aqui estão algumas de nossas historinhas tão particulares e preciosas
com Zélia Duncan, a artista que mais tem contribuído para a intimidade dos nossos
sons de alguns anos para cá. Existem outras anedotas a serem ditas, mas é
melhor deixá-las para outro texto por questões de espaço – afinal, o amor e a
admiração por ZD ultrapassam quaisquer limites. Quando eu conseguir me exprimir
em palavras com um décimo da classe e da competência de Lady Duncan, eu escrevo
outra crônica. "Por hoje é só"...
“Nem que eu contasse as gotas do mar,
todos os dias
Pra me acalmar do que eu nunca fiz
Nem que eu parasse as ondas do ar, dia
após dia
Descansaria as horas em mim,
Por hoje é só
Bruxas e reis sorriram pra mim,
Sei que é assim
Certo é errar, mas quando acordei corri
devagar
Sem perceber cheguei aqui”
(Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)
(Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)
15 de maio de 2016
TROVA # 70
A ANORMALIDADE NECESSÁRIA DE MARIA
ALCINA
“De normal batam os outros
É
preciso ter coragem
Venha
a nós o vosso reino
Quem
não pode se sacode
Eu
aceito só metade
E
a família como vai?”
(Arnaldo
Antunes
– “De Normal”, canção que deu o nome para o álbum De Normal Bastam os Outros,
lançado por Maria
Alcina no final de 2013)
Ainda me emociono bastante quando vejo determinados artistas do mundo da
música que conseguem realizar seu ofício com extrema paixão. O público deixa de
ser uma simples horda de pessoas que pagaram por um ingresso que lhe garante
uma hora e meia ou duas de simples entretenimento. O palco deixa de ser um mero
local de trabalho para se transformar em um santuário musical que reflete
nossos desejos e sensações mais genuínas. Todos os presentes se tornam
cúmplices de uma estrela que deseja fazer daquela noite um evento memorável. A
isto damos o nome de arte.
![]() |
| Maria Alcina no SESC Belenzinho - SP, 18/02/2016 Foto: Nilton Serra |
Maria Alcina é uma tradução e tanto para o que foi descrito acima. Tive a
oportunidade singular de presenciar seu retorno definitivo ao mainstream com o CD e DVD De
Normal Bastam os Outros, lançados entre 2013 e 2015. Quem pensa que os
seus shows são um mero desfile de irreverência, confete e serpentina está
plenamente enganado. Por trás de toda a purpurina e maquiagem pesada, há uma
cantora de voz potente é poderosíssima, dona de um timbre vocal único e que
consegue imprimir tratamentos distintos a canções da dupla João Bosco / Aldir
Blanc como o antológico samba “Kid Cavaquinho” e o chocante blues “O Chefão”. Seu estilo inconfundível, nem um pouco
sintonizado com os arroubos das Divas da MPB, é o diferencial de Alcina em um
país de cantoras tão talentosas e bem-dotadas de talento.
De acordo com o produtor musical Thiago Marques Luiz, Maria Alcina é uma
“artista singular que o Brasil entende e desentende, lembra d esquece, mas
jamais deixa de aplaudir”. Descaradamente influenciada por Carmen Miranda, sua
música faz uma conexão do presente com o passado, sem nenhuma presença de
nostalgia. Sua arte é pautada em viés carnavalizante, cuja marca registrada é a
sua voz bem-humorada e a sua personalidade esfuziante que tem cativado os
brasileiros desde a sua consagração com “Fio Maravilha”, do Festival Internacional
da Canção de 1972, ou de álbuns mais recentes como Confete & Serpentina (2009).
O que mais me impressionou a respeito da presença de palco de Maria
Alcina foi justamente a sua brejeira simplicidade – típico de qualquer bela
mineira de Cataguases – perante os músicos que a acompanhavam em cena, em
relação ao público e até com as funcionárias da comedoria do SESC Belenzinho (o
local do show), que ela fez questão de convidar ao palco para dançar junto dela
ao som de “Prenda o Tadeu”, para delírio de todos os presentes. Além disso, o
repertório do CD e DVD De Normal Bastam
os Outros – composto por nomes de peso como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro,
Karina Buhr e Anastácia – consegue dialogar com canções já clássicas do
repertório de Alcina como “Fio Maravilha”, “Doida, Bonita e Gostosa” e
“Bacurinha”. Não se trata apenas de uma grande cantora comemorando 40 anos de
carreira musical, e sim o retorno de uma grande artista ao spotlight depois de algum tempo longe de seu público.
![]() |
| Karina Buhr & Maria Alcina no Theatro Net Rio - RJ, 10/06/2014 Foto: Mauro Ferreira |
Injustiçada pela censura e pelo ostracismo das décadas de 1980 e 1990,
Maria Alcina conseguiu se manter viva enquanto artista graças aos programas de
auditório e de sua vontade incessante de querer cantar onde houvesse trabalho. Graças
à Internet, às redes sociais (a cantora de “Kid Cavaquinho” pode ser facilmente
encontrada no Facebook e no Instagram), à memória musical coletiva
de seus fãs e dos esforços hercúleos do produtor musical Thiago Marques Luiz, o
devido reconhecido foi concedido a um dos nomes mais inquietos da música brasileira.
Alcina é uma cantora que olha para a frente sem deixar de reverenciar o
que foi produzido de melhor no passado. Resgatar o repertório de Adoniran
Barbosa, Paulinho da Viola em tempos nos quais muitos pouco conhecem o básico
do cancioneiro popular brasileiro é mais do que um ato de reverência: é um
serviço de utilidade pública! Em uma era na qual o “politicamente correto” e a
“falsa inocência” na música brasileira, a anormalidade do canto de Maria Alcina
é fundamental para o Brasil de hoje.
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