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25 de janeiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 17

GEORGE MICHAEL - SONGS FROM THE LAST CENTURY (1999)


No final da década de 1990, a indústria musical foi impulsionada em fazer listas e mais listas das canções mais importantes do século XX e do novo milênio que os americanos achavam que começava em 2000 - na verdade, isso se daria apenas no ano de 2001. George Michael utilizou a oportunidade para fazer um projeto diferente: um disco de covers com as canções mais belas do século XX entitulado Songs from the Last Century, lançado em dezembro de 1999.
Quarto disco de estúdio do Pop Star, Songs... foi uma produção de George Michael feita em parceria com o lendário produtor Phil Ramone, um dos fundadores da A&M Records e que já trabalhou em discos de Frank Sinatra, Natalie Cole, Paul McCartney, Aretha Franklin, Burt Bacharach e Billy Joel, para não citarmos outros. George decidiu reunir clássicos do jazz, standards da canção americana e duas faixas mais recentes do universo Pop Rock com direitos a orquestras e metais de big band.
O número escolhido para a abertura de Songs... foi a bela “Brother, Can You Spare a Dime?” (E. Y. "Yip" Harburg & Jay Gorney), um dos maiores clássicos da grande depressão norte-americana. O contexto da canção retrata um mendigo reclamando com o sistema político-econômico a respeito do emprego perdido por causa da Crise de 1929. George Michael, ao se apropriar destes versos, dirige sua crítica à indústria fonográfica com a qual sempre brigou avidamente por causa de contratos profissionais.

Versão de Bing Crosby



Versão de George Michael



Duas escolhas surpreendentes de George Michael para este projeto foram “The First Time Ever I Saw Your Face” (Ewan MacColl) e “I Remember You” (Victor Schertzinger & Johnny Mercer). A primeira foi composta no final da década de 1950, foi um grande sucesso na voz de Roberta Flack em 1972. George manteve o mesmo tom delicado e quase sussurrado utilizado por Flack, o que contrasta com o tom grandiloquente do restante do disco. A  segunda tinha sido gravada por nomes de peso da música norte-americana como Dinah Washington, Doris Day e Sarah Vaughn – em Songs..., ouve-se apenas a voz do cantor embalada pelo belíssimo som de uma harpa.

Versão de Roberta Flack


 
Versão de George Michael





Versão de Sarah Vaughn


Versão de George Michael



Do repertório da imortal Nina Simone, George selecionou a sexy “My Baby Just Cares For Me” (Walter Donaldson & Gus Kahn) e a emblemática “Wild is the Wind” (Dimitri Tiomkin & Ned Washington). A primeira foi gravada com um belo arranjo de metais, enquanto a melancolia da segunda foi embalada por uma orquestra. A voz de George Michael soa bastante contida, porém não menos emotiva, em ambas as gravações – o que nos faz esquecer dos originais de Nina nem que seja por alguns minutos.

“My Baby Just Cares for Me”
Versão de Nina Simone


Versão de George Michael



“Wild is the Wind”
Versão de Nina Simone


Versão de George Michael



Da safra mais recente de criações do século XX, uma leitura jazzística surpreendente de "Roxanne" (Sting) e uma regravação da balada "Miss Sarajevo" - originalmente gravada pelo grupo U2 em dueto com o tenor Luciano Pavarotti. A primeira canção chegou a ganhar um videoclipe gravado nas ruas do Red Light District de Amsterdam, com personagens reais. As duas faixas em questão foram escolhidas como singles daquele trabalho, porém sem muito sucesso: Songs... é o único disco de George Michael até o final de 2016 a não alcançar o topo das paradas de sucesso britânicas.


Versão do The Police


Versão de George Michael



Versão do U2 + Luciano Pavarotti


Versão de George Michael

   

As três canções restantes do disco são clássicos consagrados dos standards norte-americanos. “You’ve Changed” (Bill Carey & Carl Fischer) é uma das assinaturas musicais mais marcantes de Billie Holiday. “Secret Love” (Sammy Fain & Paul Francis Webster) se tornou conhecida do grande público na voz de Doris Day. “Where or When”, por sua vez, é um dos maiores clássicos dos musicais compostos pela dupla Richard Rodgers – Lorenz Hart. George Michael fez versões bastante sensíveis para cada uma destas chansons d’amour, com muita elegância e discrição, sem apresentar nenhuma nota dissonante.

Versão de Billie Holiday


Versão de George Michael



Versão de Doris Day


Versão de George Michael



Versão de Ella Fitzgerald


Versão de George Michael



George Michael ao lado do produtor Phil Ramone durante as gravações de Symphonica (2014) 

Songs... se encerra com uma versão instrumental de “It’s All Right with Me” (Cole Porter). É um belíssimo epílogo para um dos trabalhos mais sensíveis de um dos cantores mais talentosos da música Pop. George Michael não apenas optou por caminhos óbvios para fazer um grande disco de cantor, ele traçou um caminho bastante autêntico para a sua carreira musical e gravou um dos discos mais bonitos da década de 1990. É um trabalho que merece ser ouvido no volume mais alto do seu aparelho do som para que possamos compreender a grandiosidade de um artista sensível e extraordinário e para que as gerações mais jovens conheçam 10 das canções mais belas do século XX.


25 de novembro de 2013

TROVA # 26


 LUZES & SONS DA INSPIRAÇÃO


“New York
Concrete jungle where dreams are made of
There’s nothing you can’t do
Now you’re in New York
These streets will make you feel brand new
Big lights will inspire you
Hear it for New York
New York, New York…”
(Alicia Keys)


Ao Nilton e à Aninha, que aguentaram
as minhas crises de cansaço por toda Manhattan.


         A Paris deram o nome de “Cidade das Luzes”. No entanto, quando se coloca os pés em Nova York pela primeira vez, a impressão que temos é a de que todas as luzes do planeta migraram para o Atlântico Norte. A quantidade de apelos visuais feéricos e intermitentes de todos os tipos simplesmente não tem mais fim.

Em meio a tudo isto, somemos uma quantidade generosa de línguas e culturas distintas, uma bela constelação de teatros com astros e estrelas de todos os gostos, egos e tamanhos, uma variedade de lojas e outlets de todos os tipos e museus para todas (repetindo: todas!) as formas de Arte. E, lógico: para tudo isto há sons e versos que embalam a experiência inesquecível de passar pela Big Apple, a maçã proibida que provamos com gosto e prazer, por mais letal que o seu veneno possa lhes parecer.

Se você ainda não conhece esta grande metrópole, as canções que escolhemos para este TOP 10 afetivo vão te ajudar a compreender esta loucura um pouquinho melhor. Se você já conhece a cidade, escolha uma canção com a qual você se identificar ainda mais e embarque no navio da memória musical e resgate as suas melhores lembranças.


10 MOTIVOS MUSICAIS PARA VOCÊ
CARREGAR NYC NOS SEUS OUVIDOS 
E NO SEU CORAÇÃO:







10) M
adonna – “I Love New York






         Um dos momentos mais incendiários da Confessions Tour se dava quando a Rainha do Pop empunhava sua guitarra e tocava “I Love New York”. Ao bradar versos como “I don't like cities / But I like New York / Other places make me feel like a dork / Los Angeles is for people who sleep / Paris and London / Baby you can keep” ou o refrão-pop-chiclete “Other cities always make me mad / Other places always make me sad / No other city ever made me glad except New York / I love New York”, Madonna declara não apenas o seu amor pela Big Apple, como também fala de como esta cidade definiu suas ambições e seus anseios de conquistar o mundo com a sua verve Pop.

9) Sting – “Englishman in New York





         Este jazz composto por Sting na década de 1980 é um dos momentos mais significativos depois de sua saída do The Police. Nesta canção, o astro fala do choque cultural sofrido por um homem inglês na Big Apple (“I don't drink coffee I take tea my dear / I like my toast done on one side / And you can hear it in my accent when I talk / I'm an Englishman in New York”) e da importância de manter suas características mais marcantes de sua cultura, apesar de ter trocado a cinzenta Londres pela iluminada Nova York.

8) The Rolling Stones – “Shattered



 


         A partir da década de 1970, os EUA passaram a ter maior importância na vida e na obra dos Rolling Stones. Várias canções compostas pela dupla Mick Jagger – Keith Richards falavam de sexo, drogas, luxúria, amores partidos e outras desilusões... “Shattered”, última faixa de um dos maiores sucessos dos Stones, Some Girls (1978), traz um universo de “Love and hope and sex and dreams” e de “Pride and joy and greed and sex” em plena 7th Avenue. Além disso, Jagger canta o fato de que viver em uma cidade na qual a taxa de criminalidade crescia vertiginosamente no final dos anos 1970 não era tarefa das mais fáceis. “Shattered” é uma ode de amor à NYC às avessas, com todo o seu universo de desejo, cobiça e sedução – afinal, um dos versos finais deste clássico nos pede para “Go ahead, bite the big apple, don't mind the maggots”. Se Mick Jagger disse para que saboreemos a grade maçã sem se importar com os caroços, por que não fazê-lo?

7) Frank Sinatra – “(Theme From) New York, New York






         Se todos os clichês em torno de Nova York se resumissem uma canção, a gravação que Frank Sinatra fez para a composição de John Kander e Fred Ebb é o melhor caso, uma espécie de “Corcovado” para os nativos da Big Apple. E não havia melhor voz para cantar este standard do que o velho Sinatra: no início da década de 1980, os velhos olhos azuis eram a “Voz da América”, por isso acordar na cidade que nunca que dorme e fazer parte dela era mais do que natural para uma das vozes mais importantes do século XX. Apesar de ser um clássico “batido” nos ouvidos de muitos seres humanos, “(Theme From) New York, New York” ainda consegue despertar a emoção de todos aqueles que vão passar uma temporada em NYC.


6) R.E.M. – “Leaving New York





         Faixa de abertura de um dos trabalhos mais injustiçados do R.E.M., Around The Sun (2004), “Leaving New York” é uma ode apaixonada do vocalista Michael Stipe à cidade. A sensação inicial quando ouvimos os primeiros versos (“It's quiet now / And what it brings / Is everything // Comes calling back / A brilliant night / I'm still awake //I looked ahead / I'm sure I saw you there // You don't need me / To tell you now / That nothing can compare”) é de que Stipe canta ao pé do ouvido da cidade que o acolheu (e ainda deve acolher) por tanto tempo. A cidade das luzes, a cidade que ele tinha que abandonar toda vez que ele abandonava a cidade temporariamente para sair em turnê com os seus colegas de banda, a cidade que foi ferida e marcada profundamente pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001... A cidade que Stipe sempre amou e há de amar. Um retrato sentimental, poético, triste, mas de uma beleza irrepreensível.

5) Billy Joel – “New York State of Mind





         Composta por Billy Joel, “New York State of Mind” apareceu pela primeira vez em Turnstiles (álbum lançado por Joel em 1976). Apesar de nunca ter sido lançada em single, a canção se tornou em uma das (favoritas) mais populares do repertório de seu criador, além de ter sido regravada por nomes de peso da música norte-americana como Barbra Streisand, Diane Schuur e Tony Bennett.
Tomando como ponto de vista o ônibus Greyhound que segue a linha que cruza o rio Hudson (que corta a cidade), Billy Joel fala do seu amor pela cidade como se Nova York fosse mais do que isso: as luzes, avenidas, estrelas de cinema, limusines, os jornais, a música, a beleza de Manhattan, a bela feiura de Chinatown, tudo isto faz da cidade um estado de espírito! Daí a vontade de celebrar o legado e a beleza de um lugar sem comparação...

4) Natalie Merchant – “Carnival




        
         Depois de largar o 10,000 Maniacs, Natalie Merchant deixou de ser uma cantora “bonitinha e fofinha” que estava à frente de uma banda de sucesso para capitanear sua carreira solo com unhas, dentes e muita ousadia. Tigerlily (1995) teve como carro-chefe “Carnival”, esta ode às ruas da Big Apple. O palco virtual desenhado por Natalie revela atores sociais que compõem a cena citadina, multidões, riqueza e pobreza, o luxo da Tiffany’s e o lixo da miséria social do Queens (por exemplo). Não se trata de um carnaval, mas de um “parque de diversões” no qual as entranhas de uma cidade se abrem e revelam a beleza e a pobreza presente em cada uma das duas faces da moeda. E, no final de cada refrão, Natalie pergunta se o que os olhos veem refletem cegueira, perdição, perplexidade, paralisia? Várias perguntas sem respostas e outras perguntas a serem feitas...

3) Lou Reed – “Walk On The Wild Side





         Lou Reed foi um dos cronistas mais frequentes de Nova York. No entanto, a memória do grande público somente se lembra dos versos, dos acordes e dos repetitivos “Dooo-dooo-dooos” de “Walk On The Wild Side”. Reed fotografa com precisão espetacular o submundo de sexo, drogas sob uma perspectiva incomum – junkies, gays, travestis em meio a tranquilizantes e sexo oral. Caminhar pelo lado selvagem era viver intensamente pela Big Apple. O fundador do Velvet Underground soube bem o que foi tudo isso...


2) Norah Jones – “Back to Manhattan”  





         Norah Jones é uma das cantoras mais influentes de sua geração. Quando gravou seu disco The Fall (2009), esta nativa da Big Apple já era uma artista mundialmente premiada e respeitada por uma obra musical relevante, consistente e ousada.
Back to Manhattan” é um dos poucos episódios de The Fall no qual Norah se dedicou ao gênero musical que a colocou no mapa musical do planeta, o Jazz. A letra fala dos mundos diversos que existem em NYC: de um lado a rispidez do Brooklyn; do outro, as luzes de Manhattan. O eu-lírico de Norah se divide entre estes dois universos, ciente da impossibilidade de se desfazer de suas raízes – “But Brooklyn holds you / And holds my heart too / What a fool I was to think / I could live in both worlds”. Uma bela canção de amor que se utiliza das contradições da Big Apple para existir e falar da inexistência de explicações para este mistério que é o sentimento amoroso.

1) Rosemary Clooney – “Take Me Back to Manhattan





         Ao andar pelos corredores sem fim do Metropolitan Museum, achei um CD organizado pelos curadores do Met com o melhor das canções feitas sobre a Big Apple. Não resisti, obviamente, e levei o tal CD comigo. A surpresa mais agradável foi ouvir uma gravação belíssima para “Take Me Back To Manhattan” (Cole Porter), feita por Rosemary Clooney (tia de George e uma das maiores lendas da música norte-americana).

         Na gravação feita por Clooney em seu álbum de 1993, Still On The Road, Nova York é a cidade ideal para ela (e para todos nós que amamos abeleza da cena urbana). No entanto, ao se ausentar de sua adorada cidade, ela pede (sem muito pudor) que seu verdadeiro desejo é de voltar para o seu adorado ninho, para o seu apartamento no centésimo andar, afinal as saudades de North, South, West e East Manhattan são maiores do que a vontade de conhecer o mundo.  Ouça o Jazz, a voz inesquecível de Rosemary Clooney e mergulhe no mar de afetividade que Cole Porter dedicou à cidade mais charmosa das Américas.


30 de setembro de 2013

TROVA # 21


A MÁGICA MTV BRASIL

 



 

“Every little thing she does is magic

Everything she do she turns me on

Even though my life before was tragic

Now I know my love for her goes on …”

(Sting, à frente do The Police – 1981)

 

No início da década de 1990, briguei com unhas e dentes pelo que Sting, em férias do The Police, pedia no início do famoso hit do Dire Straits: “I want my MTV!”. A partir de outubro de 2013, serei mais um dentre vários órfãos da MTV Brasil. A Music Television brasileira foi mais do que um mero canal de TV ou puro entretenimento para este que vos escreve. Ela teve um papel decisivo na minha educação musical e na minha formação cultural. Graças a ela, tive a oportunidade de fugir do marasmo medíocre e fatal da TV aberta e ter a oportunidade de ver os integrantes do Olimpo musical nacional e internacional em plena atividade.
 

Por outro lado, é também preciso deixar a hipocrisia e o saudosismo para trás: a MTV Brasil dos últimos tempos estava profundamente decadente, cambaleava morbidamente em praça pública, tal qual um Michael Jackson de This Is It ou um Elvis Presley com vários quilos acima do peso. Sua programação não tinha mais o brilhantismo e a inteligência do que víamos nos anos 1990/2000. Os VJs que estavam a cargo da programação não possuíam o mesmo carisma daqueles que um dia revolucionaram a maneira de se fazer TV neste país. Além disto, a propagação viral da Internet, das redes sociais e do You Tube fez com que a nossa Music Television deixasse de ser um celeiro que revelava novos talentos e que consolidava a imagem e o som dos grandes astros nas retinas e ouvidos do grande público jovem brasileiro.
 

Também não podemos nos esquecer da presença sadia do canal no comportamento dos jovens que a assistiam com programas e vinhetas de cunho informativo e educativo – as campanhas de combate à AIDS, as campanhas de conscientização política e a memorável campanha “Desligue a TV e vá ler um livro!” foram alguns dos pontos marcantes da minha memória televisiva emetivesca. E quem não se lembra de programas bárbaros como o Barraco MTV, o Disk MTV, o Top 20 Brasil, o MTV Non Stop, o MTV No Ar, o Supernova, o TVLeeZão, Os Piores Clipes do Mundo, o Furo MTV, o Pé na Cozinha e as cerimônias do Video Music Brasil? Ou do programa que Thunderbird (entre as suas milhares de idas e vindas) comandou em 2003, no qual DOIS novos VJs foram escolhidos? Meus dedos da mão direita também terão uma enorme dificuldade de esquecer o número "25" no dial do controle remoto...
 

Não me esqueço do primeiro videoclipe que assisti quando sintonizava (com muita dificuldade) o canal 24 UHF da TV do meu antigo quarto: “Every Little Thing She Does Is Magic”, do The Police. Enquanto Sting, Andy Summers e Stewart Copeland dançavam como três patetas enlouquecidos, eu tive a oportunidade descobrir que a mágica de cada clipe, de cada vinheta, de cada VJ estava nas pequenas coisinhas. Coisinhas estas que me livraram da solidão típica de qualquer adolescente excêntrico. Não, Xuxa não foi minha babá eletrônica. Sim, a MTV (parcialmente) me educou e me moldou no decorrer dos meus “anos de formação”.
 
 
Modéstia a parte, posso afirmar sem a menor vergonha e com muito orgulho que se não fosse pela MTV Brasil eu jamais teria conhecido os integrantes do The Police (que habitavam minha imaginação desde a tenra infância) em plena atividade, ou não teria vivido o retorno triunfal de Madonna ao mundo Pop com o incensado Ray of Light (1998), os Rolling Stones convertidos em gigantes e dominando uma Nova York com som e luxúria no vídeo de “Love Is Strong” (do antológico Voodoo Lounge, de 1994) ou a reaparição do Blondie depois de quase duas décadas de inatividade com No Exit (1999). Bandas emblemáticas do BritPop e dos EUA como Blur, Oasis, Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers teriam passado incólumes por meus olhos e ouvidos. R.E.M. e 10,000 Maniacs, duas das referências musicais mais importantes para mim, foram apresentados a mim via Music Television. Mestres da música brasileira como Caetano Veloso, Rita Lee (com ou sem Os Mutantes e/ou Roberto de Carvalho), Tom Zé, Itamar Assumpção, Cazuza, Barão Vermelho, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Gilberto Gil, Marina Lima, Cássia Eller, Gal Costa, Nando Reis, Zélia Duncan, Pitty, Zeca Baleiro, Planet Hemp, Chico Science, Fernanda Abreu e tantos outros seriam destituídos de qualquer significado para mim se eu não tivesse brigado pela minha MTV. Gigantes do Rock ‘n’ Roll como os Beatles (juntos ou solo), Led Zeppelin, Janis Joplin, The Black Crowes, Bob Dylan, Queen, Deee-Lite, Talking Heads, Radiohead, Metallica, Bom Jovi, Deep Purple, Black Sabbath (com ou sem Ozzy Osbourne), Garbage, Portishead, Lou Reed, Iggy Pop, Peter Gabriel, Eric Clapton e tantos outros não teriam sequer tamanho de um Gulliver sem a presença de seus videoclipes na TV. O mesmo teria acontecido se artífices do Pop do porte de Alanis Morissette, kd Lang, Prince, Annie Lennox (à frente ou não do Eurythmics), Stevie Wonder, Sheryl Crow, Mariah Carey, Human League, Shakira, Whitney Houston, Janet e/ou Michael Jackson, George Michael, Paula Cole, Fiona Apple, Jamiroquai, Beyoncé e tantos outros não estivessem na programação da MTV um dia. O que teria sido de mim sem a elegância de David Bowie, Bryan Ferry e Natalie Merchant?


Se eu não tivesse tido contato com estes nomes via MTV Brasil, eu jamais saberia distinguir o luxo do lixo em matéria de música popular. Em meio a uma era na qual a Internet, os downloads, o Google e o YouTube não tinham popularidade ou sequer existiam, a Music Television brasileira desempenhou um papel cultural fundamental para pessoas que dependiam das antenas UHF, da TV a cabo e da agilidade do Video Cassette.

 

Astrid Fontenelle: a cara da MTV Brasil
Enquanto muitas pessoas do meu círculo de amizades e contatos profissionais assistiam avidamente as atrações que agitaram o Rock In Rio 2013, eu preferi ficar na solidão do meu quarto assistindo o canto do cisne da MTV Brasil desenterrar imagens de arquivo em sessões de retrospectiva enquanto antigos (ex-)VJs se revezavam na tarefa de relembrar 23 anos de trajetória televisiva. Ao rever pessoas como Astrid Fontenelle, Gastão Moreira, Cuca Lazarotto, Luiz Thunderbird, Sabrina Parlatore, Edgard Piccoli, Soninha Francine, Fábio Massari, Marina Person, João Gordo e Chris Couto no vídeo, foi inevitável sentir um gosto de decepção e saudade. Decepção porque a tentativa brasileira de fazer uma MTV à brasileira, no final das contas, deixou de dar certo. Saudade porque todos sabemos que, a partir de 01 de Outubro de 2013, a MTV feita no Brasil passa a ser uma mera sucursal da original norte-americana, para tristeza de muitos parceiros da minha geração (que viveu o ápice da MTV, no decorrer dos anos 1990).
 

Graças às fitas VHS (hoje mofadas, provavelmente!) que foram convertidas em arquivos do YouTube, podemos assistir a mágica da MTV Brasil na Internet. Assim, podemos resgatar um pedaço de um momento marcante daquela programação incomum, anárquica e (às vezes) bizarra, como também, retomar flashes da nossa própria juventude sem evitar o saudosismo inútil e a lembrança de uma era memorável da televisão brasileira que, por forças do destino, atingiu o estágio final do seu ciclo.

Cheers!