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24 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 39

CAUBY PEIXOTO – CAUBY INTERPRETA ROBERTO (2009)


         A dupla Roberto & Erasmo é composta por dois dos compositores mais queridos da música de todo o Brasil: desde os anos 1960, são autores das canções mais amadas pelo público brasileiro em todos os tempos. Nara Leão e Maria Bethânia foram as primeiras intérpretes de peso do nicho da MPB que gravaram álbuns dedicados ao repertório gravado por Roberto Carlos. Nara fez uma releitura personalíssima do repertório do Rei. Bethânia, por sua vez, fez um álbum clássico, com direito a arranjos grandiloquentes de cordas e metais.



         Cauby interpreta Roberto, lançado por Cauby Peixoto no final de 2009, transita por estas duas tendências. Ao mesmo tempo que possui releituras nada convencionais do repertório de El Rey, há (bastante) espaço para arranjos de cordas, metais conduzidos por músicos competentíssimos – Hanilton Messias (piano e flauta), Ronaldo Rayol (violão e guitarra ), Eric Budney (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria) –, fazendo com que a voz de Cauby reverberasse com a intensidade de seu talento.



         A voz de Cauby Peixoto, apesar de não estar mais viçosa e com o mesmo brilho dos anos em que esteve no auge de sua carreira musical, ainda soava muito bem aos 78 anos de idade  ano em que gravou e lançou este disco. Senhor pleno de seu ofício, valorizou os tons graves em cada interpretação das canções de Roberto e Erasmo (de apelo extremamente popular) com enorme sutileza e elegância. “Proposta”, lançada por Roberto Carlos em 1973, abre o disco e atesta o talento e a vasta experiência de Cauby na arte da interpretação musical.


  “De Tanto Amor” (1971) recebeu uma releitura bastante “econômica”: sem arranjos de cordas ou metais e sem os vibratos e dós de peito tão característicos do intérprete de “Conceição”. A emoção da dor de versos como “Eu nada vou dizer, perdoa se eu chorar” está, justamente, no fato de ser entoada de maneira sincera e contida e Cauby o faz com uma precisão quase cirúrgica. É uma das melhores faixas de Cauby interpreta Roberto. Outra faixa na qual o talento de Cauby Peixoto se destaca foi para a releitura de “Olha” (1975), na qual o cantor é acompanhado apenas pelo piano de Keco Brandão. Sugestão do próprio Roberto Carlos para ser gravada por Cauby neste projeto, é outro momento de brilhantismo deste CD.


A terceira faixa do CD, “A Volta”, foi composta por Roberto e Erasmo para o repertório da dupla Os Vips em 1966 e gravada pelo Rei em seu disco de 2005, recebeu um arranjo sóbrio, bem ao estilo bossanovístico, algo não muito comum para Cauby. A quarta faixa do disco é “Sentado à Beira do Caminho”, gravada originalmente por Erasmo Carlos no final da década de 1960 e regravada pelo Tremendão ao lado de El Rey para o álbum Erasmo Carlos Convida... (1980). Levemente dramática e com arranjo de cordas, é a única canção não incluída nas tracklists de álbuns de Roberto. Certamente, uma das escolhas menos óbvias do repertório gravado por Cauby neste disco.


As demais canções escolhidas para Cauby interpreta Roberto são clássicos absolutos na voz de Roberto Carlos. A sexy e lasciva “Os Seus Botões” (1976) recebeu um belo arranjo de sax tenor de Ubaldo Versolato; “Música Suave” (1978), gravada originalmente com uma big band, ganhou contornos jazzísticos, típicos de uma gafieira elegante embalados pela interpretação sutil de Cauby; “Desabafo” (1979) se tornou em um tango argentino elegantíssimo, com um arranjo de cordas contundente de Cintia Zanco; “As Flores do Jardim da Nossa Casa” (1969), “À Distância” (1972) e “Não Se Esqueça de Mim” (1977), como não poderia ser diferente, ganharam releituras românticas, com violinos, cellos e violas para acentuar o trabalho competente da banda e da voz belíssima de Cauby Peixoto.


O encerramento de Cauby interpreta Roberto se dá com uma das canções mais emblemáticas do repertório de Roberto Carlos: “O Show Já Terminou” (1973) poderia ser uma marca tão registrada de Cauby (“O show já terminou / vamos voltar à realidade / Não precisamos mais / usar aquela maquiagem”) quanto “Bastidores” – composta por Chico para a voz de sua irmã, Cristina Buarque – sempre o foi. A produção sóbria de Thiago Marques Luiz faz justiça às canções da dupla mais românticas do Brasil e ao talento de uma das vozes mais belas que o mundo já conheceu: a de Cauby Peixoto.




Cauby interpreta Roberto merece ser ouvido e (re)descoberto por ouvintes e estudiosos da música brasileira. É um álbum que jamais sairá dos autofalantes daqui de casa, muito menos de minha memória afetiva. Uma pena que o show deste trabalho nunca gerou um DVD para que um registro audiovisual atestasse a prova de que Cauby Peixoto era um artista extraordinário... 


16 de maio de 2016

TROVA # 71

A LIÇÃO DO PROFESSOR
(ou o que aprendemos com Cauby Peixoto)

Cauby Peixoto (1931-2016)

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei o calmante, o excitante
E um bocado de gim

Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei

Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim

Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim

Mas não bisei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis Bêbados e febris
A se rasgar por mim

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim...

(Chico Buarque de Hollanda
na voz imortal e inconfundível de Cauby Peixoto)


Segunda-feira, 16 de maio de 2016. Fui acordado através de um sobressalto em um dia chuvoso e de nuvens negras. Fui avisado que Cauby Peixoto já não estava mais entre nós, os mortais. Uma tristeza instantânea toma conta de mim. Mais uma semana começava. A diferença é que, desta vez, não teremos mais o canto indefectível do Professor para nos ensinar o que é cantar com intensidade, elegância e vontade. Isso vai ser duro, muito duro.

A eterna classe do Professor 

Assisti Cauby Peixoto cantar ao vivo duas vezes. Dois eventos inesquecíveis para mim, apaixonado por música que sempre fui. Vi ele fazer a fina flor do repertório de Frank Sinatra no SESC Belenzinho em 25/01/2011, aniversário de São Paulo. Detalhe: no original e com um inglês PER-FEI-TO! Vestido em um terno de strass azul e preto é acompanhado por uma banda mais do que classuda, eu me perguntei o porquê de ter implicado tanto com a voz que me dava calafrios na adolescência, com aqueles vibratos e aquele "dó de peito" vigoroso. 

Cauby em 1989 - Acervo: Estadão 

Cauby me ensinou que a elegância é o pré-requisito principal para que você pise os seus dois pés em um palco e cante para uma multidão. Não me refiro apenas ao vestuário, mas principalmente ao respeito com o qual o Professor sempre ofertou aos seus músicos e, especialmente, ao público. A vida podia ser muito mais bonita através do colorido dos refletores e Mr. Peixoto fazia questão de extravasar sua alegria de estar ali. Não pela fama, não pelo dinheiro, não pelo ego, mas principalmente pelo prazer de exercer o seu com mais precioso: o de cantar.

FOTO: Marco Aurélio Olímpio 


Na única vez em que me aventurei em cantar para um grupo de pessoas - em junho de 2014 -, tive a coragem absurda em cantar uma das canções mais importantes do repertório de Cauby Peixoto. "Bastidores" foi escrita por Chico Buarque para sua irmã Cristina a cantasse. Apesar dela ter gravado o presente do irmão notável, foi através de Cauby que os versos de Chico se eternizaram. A versão do Professor se tornou uma das cinco gravações mais importantes não apenas de sua carreira, como da história da música brasileira. Este é o dom de um artista extraordinário: fazer com que a obra se torne uma marca-registrada tão autêntica, ao ponto de acreditarmos piamente que Mestre Buarque compôs uma de suas obras-primas sob medida para o intérprete de "Conceição".

Os mínimos detalhes da elegância de Cauby 

Resolvi ler a biografia de Cauby escrita pelo Rodrigo Faour e que estava encostada em uma das estantes aqui de casa há anos. Fiquei impressionado com a história monumental de uma das vozes mais importantes de nossa música. Conheceu a glória e o ostracismo. Apesar do luxo e do glamour, veio de berço humilde. Cantava em várias línguas diferentes. Seu repertório ia do bolero e baladas dramáticas a rocks, serestas e jazz. Não tinha preconceito em relação a repertório - sua única condição era de que a música fosse de boa qualidade. Gravou projetos especiais dedicados ao legado de Nat King Cole, de Roberto & Erasmo, da Bossa Nova, de Baden Powell, dos Beatles e de Frank Sinatra. 

Fafá & Cauby 

Estive na primeira fila do saudoso Teatro FECAP em 09 de abril de 2011 para assistir um show comemorativo de 60 anos de carreira de Cauby Peixoto. Não era preciso nem dizer que estava me sentindo um verdadeiro "pinto no lixo" em poder ver o Professor exercendo sua arte tão de perto. A cada salva de palmas que o público lhe ofertava, Cauby olhava para Ronaldo Rayol - violonista diretor musical de seu show - com um olhar de menino alegre e feliz por ter feito um gol de placa e dizia frases do tipo: "Que lindo, Ronaldo! Eles gostaram, viu só?". Aplausos não faltaram para o Mestre, que foram retribuídos com beijos, palmas e sorrisos do astro para cada um dos presentes na plateia.

Fafá & Cauby
Elis & Cauby
Ângela & Cauby

Cauby Peixoto fez inúmeros amigos e parcerias de trabalho: cantou com nomes dos mais diversos do porte de Leny Eversong, Roberto Carlos, Alcione, Emílio Santiago, Elis Regina, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Agnaldo Rayol, Vânia Bastos, Chico Buarque, Lucinha Lins, Paulinho da Viola, Daniela Mercury, Agnaldo Timóteo, Gal Costa, Supla, Fafá de Belém, Caetano Veloso, além de ter feito vários shows e três discos belíssimos com sua grande parceira de disco e palco, Ângela Maria. Gravou 48 álbuns e deixou um disco inédito em mais de sessenta anos de música brasileira. Na última década de atividade musical, Cauby estava em uma produtividade inacreditável: lançou um 10 CDs, 2 DVDs, vivia em turnês pelo país e se apresentava religiosamente toda segunda-feira no Bar Brahma.




A esquina mais charmosa de São Paulo perde o seu brilho com a ida de Cauby para o reino das estrelas celestes. A Gardênia está azul de tristeza. Conceição não poderá mais viver pelo fatídico morro a sonhar. Meu arrependimento em voltar correndo para o seu lar - o lendário Bar Brahma - e não mais encontrá-lo vestido com brilhos e belamente pintado e vestido é do tamanho da grandiosidade do seu canto. No entanto, o Professor cumpriu sua missão: sua voz e sua elegância não estarão mais diante de nossos olhos, mas diante do coração de cada um de quem bateu palmas para um dos maiores artistas do mundo.



Salve, Professor! Faremos o possível para que novas gerações aprendam com o seu legado insubstituível. Que o seu corpo descanse em paz e o seu canto ecoe para onde você for...