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28 de agosto de 2020
20 de julho de 2017
DISCOS DE VINIL # 34
MARIA BETHÂNIA – MARIA BETHÂNIA (1965)
Em 1965, o Brasil estava às voltas com o início de um regime
militar que duraria mais 20 anos. Enquanto isso, vários artistas da música
brasileira buscavam protestar contra o autoritarismo do sistema político e dos
desmandos das elites com uma produção artística de fortíssimo cunho social. Uma
das vozes que mais se destacaram naquele período no que diz respeito à chamada
"canção de protesto" foi a de Nara Leão, que protagonizou o musical Opinião,
ao lado de João do Vale e Zé Kéti. Em pouco tempo, o espetáculo dirigido por
Augusto Boal se tornou em um dos maiores símbolos da resistência artística
contra a ditadura.
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| Nara Leão entre João do Vale e Zé Kéti |
Entretanto, Nara Leão não conseguiria encabeçar o elenco de Opinião
até o final da temporada (abril de 1965) devido a um intenso desgaste em suas cordas
vocais, o que lhe obrigava repouso absoluto. Em suas andanças pelo Brasil em
busca de novos cantores e compositores, Nara descobriu um grupo de artistas
formidáveis que viviam em Salvador, um dos maiores polos culturais de nosso
país na época. São eles: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Maria da Graça
(mais tarde conhecida entre nós como Gal Costa) e a jovem Maria Bethânia, irmã
mais nova de Caetano. Foi esta jovem nordestina de Santo Amaro da Purificação,
cidade localizada no recôncavo baiano, que foi escolhida pela intérprete de
"Diz Que Fui Por Aí" para o seu papel no musical de Augusto Boal.
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| Maria Bethânia entrou para o elenco do musical no início de 1965 |
Ao chegar no Rio de Janeiro para cumprir a etapa final da
temporada de Opinião, Maria Bethânia chocou uma parcela considerável de
espectadores – sua árida persona contrastava com a
doçura angelical de Nara Leão: magérrima, nordestina, cabelos crespos presos em
um coque, nariz adunco, voz grau é infinitamente potente, a artista conquistou
o público através de sua extraordinária dramaticidade. O ponto alto das apresentações
de Bethânia era a sua interpretação agressiva de "Carcará" (João do
Vale e José Cândido): ao final do número, ela recitava números de um relatório
da SUDENE sobre o êxodo de nordestinos para regiões mais desenvolvidas do país
(10% do Ceará, 13% do Piauí, 15% da Bahia, 17% de Alagoas) para encerrar com o
apoteótico "pega, mata e come".
A partir de então, "Carcará" se associou a sua
intérprete de tal maneira ao ponto de Maria Bethânia se recusar a cantar a
canção durante um bom tempo. Afinal, a jovem artista não desejava ser apenas
uma musa das esquerdas festivas cujo repertório era composto exclusivamente de
canções de protesto. Dentro do universo de Bethânia, também havia espaço para
os sambas de roda do recôncavo baiano, para os sambas de morro, para as
marchas-rancho, para o cancioneiro refinado de Caymmi e Noel, para o romantismo
do samba-canção, além dos trabalhos inéditos dos jovens compositores de sua
geração – Caetano Veloso, especialmente.
| O primeiro compacto de Bethânia apresentava "De Manhã", primeira canção de seu irmão Caetano Veloso gravada em disco. |
O álbum de estreia de Maria Bethânia foi lançado pela RCA
Victor em junho de 1965 e é um retrato fiel não apenas do talento de uma jovem
artista (às vésperas de completar 19 anos de idade), como é uma amostra e tanto
de seu extenso universo musical - além de "Carcará", sambas de
Batatinha e Noel Rosa figuram lado a lado de canções de João do Vale,
Braguinha, Monsueto e de Caetano Veloso, lançado ao mundo artístico (junto de
Gal Costa – o
dueto das duas em "Sol Negro" é um dos melhores momentos deste disco)
por Bethânia.
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| Bethânia & Gal |
À irmã de Caetano Veloso faltava naquela época muita técnica
e suavidade, porém sobrava bravura, ousadia e emoção – três elementos mais do
que necessários para atravessar tempos tão complicados como os de 1965 no
Brasil...
25 de julho de 2016
TROVA # 77
A HONESTIDADE NA TERRA DA
CONFUSÃO
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Grande Otelo como Macunaíma no filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade |
“O seu dinheiro nasce de repente
E embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade
(...)
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?”
(Noel Rosa,
1933)
|
“There’s too many men, too many people
Making too many problems
And there’s not much love to go around
Can’t you see this is a land of confusion?
This is the world we live in
And these are the hands we’re given
Use them and let’s start trying
To make it a place worth living in”
(Tony Banks, Phil Collins & Mike Rutherford, 1986)
|
Se
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade vivesse por aqui em
2016, ele iria vociferar e repetir sem pestanejar: “Pouca saúde e muita saúva os
males do Brasil são”. A vida política brasileira sofreu um abalo sísmico
profundo com o golpe que destituiu Dilma Rousseff no segundo ano de seu segundo
mandato. Os responsáveis? As formigas comilonas que sempre busca(ra)m saciar a
sua eterna gula.
Quem
são as tais saúvas que seriam citadas por Macunaíma hoje? Os políticos
desonestos e golpistas eleitos por nós para nos apunhalar abertamente no
exercício de seus mandatos, um judiciário corrupto e conivente com a injustiça
deste país e a grande mídia, pertencente às oligarquias econômicas brasileiras que
distorcem os fatos e exploram a população. Estou bem longe de ser uma
formiguinha gulosa: não pertenço ao rol daqueles que tiveram o privilégio de
ter nascido em berço de ouro, tampouco fui vítima da ascensão social que me
trouxe estabilidade financeira e ausência de senso crítico. Sou um trabalhador
que ouve e pensa basicamente através da música que ouço e dos livros que leio. Mesmo
assim, sei que sou, dentre a realidade de grande maioria dos brasileiros, um
afortunado, por ter curso superior, pós-graduação em uma universidade federal e
ter uma parcela considerável de conforto sem ter que roubar, enganar poucas pessoas
ou desejar o mal de quase ninguém. Procuro ostensivamente por uma virtude que
raramente se vê no Brasil: HONESTIDADE.
A
inimiga número 1 da honestidade é a hipocrisia. As saúvas que devoram o nosso
país todo dia são hipócritas por excelência. Vide o exemplo da Câmara dos
Deputados e do Senado Federal, majoritariamente investigada por crimes de
corrupção, julgando um processo de impeachment
de uma governante eleita com 54 milhões de votos e que não enriqueceu, nem
possui dinheiro público em paraísos fiscais na Suíça ou nas Ilhas Cayman. Membros
do STF são acusados de receberam propina do PSDB e seus colegas juízes estão
sempre dispostos a protegerem os malfeitos dos tucanos e maximizarem os erros
de membros do PT, às vezes, sem provas concretas. A polícia reprime negros,
pobres e honestos indiscriminadamente enquanto milhares de bandidos estão
tranquilamente soltos por aí. Tudo isso recebe a bênção do quarto poder: a nata
da imprensa brasileira – ou o GAFE (Globo, Abril, Folha
e Estadão), uma nomeação
alternativa cunhada por mim para que o renomado jornalista Paulo Henrique
Amorim chama de PiG (Partido da Imprensa Golpista) –
defende os interesses de uma dúzia de famílias oligarcas (Marinho, Civita,
Frias e Mesquita entre elas) ao se revelar tendenciosa e afirmar descaradamente
que o jornalismo que pratica é justo e imparcial.
A
hipocrisia que se faz soberana em muitas salas de jantar deste país faz com que
uma expressiva parcela da sociedade ignore as suas verdadeiras prioridades. Remover
os petistas do governo federal (um projeto obsessivo e antigo das elites)
tornou-se mais importante do que combater a crescente cultura do estupro e da
homofobia, que faz milhares de vítimas enquanto uma agenda político-social
conservadora toma conta do Brasil, majoritariamente orientada por políticos
evangélicos. A privatização das Universidades públicas com a desculpa de que
são um alto custo para os governos locais não merecem a mesma atenção do que o
projeto de lei estapafúrdio de uma “escola sem partido” – lembremos, mais uma
vez da frase antológica de Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil não é uma
crise; é um projeto” – enquanto o legado de Paulo Freire é amaldiçoado
por vários brasileiros enquanto o autor de Pedagogia da
Autonomia é respeitadíssimo no exterior. Corruptos muito mais
nocivos foram postos no poder no lugar de um grupo político supostamente
desonesto. Enquanto o Rio de Janeiro está moral e financeiramente falido, um
falso clima de euforia é embutido na rotina da população através de uma tocha
olímpica que recebe mais atenção policial do que muitos criminosos à solta por
aí. Delações premiadas se tornaram mais valorizadas do que demonstrações cabais
de honestidade. Os hipócritas seguem animados com o seu projeto: o de inverter
os valores mais básicos para nós.
Ao
contrário do que aconteceu por aqui pós-1964, o Brasil ficou insuportavelmente
polarizado entre “coxinhas” e “mortadelas”, deixando a inteligência literalmente
de lado. O debate intelectualizado e qualificado foi substituído por ataques
verbais (físicos, às vezes) de todos os tipos. A capacidade de análise tem sido
sumariamente delegada aos meios de comunicação, que trazem seus juízos de valor
para uma extensa parcela de indivíduos que mal leem ou interpretam e vestem a
camisa da CBF para bater panelas em suas varandas gourmet, destilar seu fascismo contido dentro de si e protestar nas
ruas e avenidas aos domingos. O resultado desta catástrofe? Grande parte da
classe média e trabalhadora, que deveria litar pelos seus princípios e
necessidades (educação e saúde de qualidade, segurança pública decente, meios
de transporte dignos e decentes, etc.), passa a defender o discurso dos mais
ricos (a não criação da CPMF, que atingiria diretamente quem tem mais dinheiro,
não os mais pobres!) ao serem induzidos pela irresponsabilidade e conivência do
GAFE. É a supremacia da hipocrisia. A
honestidade se torna cada vez mais um mito
a ser devorado pelas saúvas.
As
redes sociais se converteram no palco principal de debates, agressões e busca
de informações relevantes sobre políticas nos últimos anos, visto que órgãos de
imprensa alternativa encontraram no Twitter
e no Facebook terrenos férteis para a
disseminação ética e responsável de notícias. Cabe ao usuário educar o seu
olhar para “filtrar” o que lê para ter uma visão menos tendenciosa dos fatos
ocorridos em nosso país. Com o intuito de ser mais uma alternativa de
propagação responsável da informação, de protestar contra o golpe, a corrupção
e a hipocrisia, além ser uma oposição irreverente ao GAFE e outros pilares da hipocrisia brasileira, Nilton Serra e eu
idealizamos um “evento” fictício chamado Constantino, nos
inclua na sua lista, baseado na lista “caça às bruxas” criada
pelo macarthista anêmico Rodrigo Constantino, antigo pau mandado da revista Veja e do jornal O Globo. O sucesso da página nos surpreendeu imensamente, pois
muitos de nós queríamos ser “boicotados” ao lado de gente ilustríssima como
Chico Buarque e muitos outros. Compramos algumas brigas e fizemos novas
amizades. Passamos a dividir a moderação do “evento”, pois não tínhamos tempo
hábil (e ainda não temos, porque as salas de aula demandam muito de nossa vida
útil) para dar conta de tudo sozinhos.
Às
vésperas do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder, o Cafeína – página
coletiva de amantes de café da qual participamos desde sua criação e
brilhantemente capitaneada por nossa querida amiga Ana Paula Raulickis, em 2006
– publicou uma carta de repúdio à crise política em nossa página no Facebook. Apesar de alguns protestos coxinhas
bem agressivos dizendo que iriam “descurtir” nossa página por causa de nossa virada à esquerda
(que Dilma deveria ter dado assim que foi reeleita, mas não deu!), milhares de
adesões ocorreram nos dias seguintes à publicação de nosso protesto coletivo. As
explicações para isso? Café também rima com mortadela. Necessitamos de
discussões de fôlego nas redes sociais, apenas isso.
Por
fim, decidimos criar uma page para
todos os que queriam ter seu nome na lista negra do anêmico MacCarthy à
brasileira. Cerca de 17 mil pessoas acompanham as postagens do Coletivo Vozes Dissonantes – nome adotado
por nós, após um longo período de discussões –, enquanto cerca de 132 mil já
deram o seu “Like” na página do Cafeína. Já o evento fictício Constantino,
nos inclua na sua lista possui em julho de 2016 a adesão de 20
mil revoltados genuínos com a situação calamitosa que o Brasil se encontra. Algo
impressionante para quem luta contra o GAFE
e outros “movimentos” de direita que distribuem suas “revoltas” online e são
financiados pelo que existe de pior na política conservadora brasileira.
Ao
ler uma das crônicas de Fernanda Torres incluídas em Sete
Anos, encontrei algo bem interessante e que diz bastante acerca
do momento político-cultural brasileiro no século XXI: “(...) eu guardo a
suspeita de que o Brasil é um país que se situa entre a Veja e a CartaCapital”. Em
outras palavras, nosso país está entre um filme de catástrofe e uma produção de
ficção científica. Em uma época extremamente confusa e delicada politicamente,
sinto cada vez mais a necessidade de parar de ler jornais e seguir rumo à
ignorância para o que mais de honesto em mim não me leve ao encontro da
loucura. No entanto, o desejo recorrente de me resguardar é apenas benéfico
para os hipócritas de plantão. Graças à hipocrisia, assistimos a olhos vistos a
mitificação da honestidade na terra da confusão. Enquanto eu puder cantarolar o
samba do Noel e o rock do Genesis sem
correr risco à minha integridade, haverá luta permanente contra a injustiça.
PÁGINAS:
Cafeína –
Coletivo Vozes Dissonantes –
https://www.facebook.com/ColetivoVozesDissonantes/
Constantino, nos
inclua na sua lista – https://www.facebook.com/events/939298339519775/
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