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17 de janeiro de 2021

TROVA # 159

 

A GLORIFICAÇÃO DA IGNORÂNCIA

Dois episódios de intolerância e burrice que podem levar a democracia para o colapso


The lunatic is in my head

The lunatic is in my head

You raise the blade,

you make the change

You re-arrange me ‘til I’m sane

You lock the door

and throw away the key

There’s someone in my head

but it’s not me

(Roger Waters, 1973)

 

                Todos nós sabíamos que os primeiros dias de 2021 não seriam nada fáceis para o Brasil, tampouco para o resto do mundo. Porém, dois eventos ocorridos na primeira quinzena de janeiro demonstram que, tal qual nos diz o ditado, “miséria pouca é bobagem”.

         Nos EUA, Donald Trump entrou no ano novo ainda sem ter admitido que a derrota por Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020. O mundo inteiro sabia que o demônio de laquê faria mais uma investida contra as instituições norte-americanas para garantir mais quatro anos dentro da Casa Branca. A transferência de poder, longe de ser harmônica e republicana, tem sido uma troca de acusações, deixando a opinião pública em alerta por se tratar do país mais poderoso do planeta.

         No dia 6 de janeiro de 2021, o mundo tomou conhecimento da cartada de Trump para manter o poder. Diretamente de Washington, incitou uma horda de supremacistas brancos fanáticos para marchar até o prédio do Capitólio e impedir os membros do Congresso Nacional de diplomar Biden como o 46.º Presidente dos EUA. Os invasores invadiram um prédio público com facilidade, promovendo arruaças, quebra-quebras, pondo a vida de centenas de congressistas em risco. Cinco pessoas foram mortas em um dos eventos mais vergonhosos da história da democracia, com direito a transmissão mundial e em tempo real.

         Para estas retinas um tanto fatigadas, a cena mais estarrecedora de 6 de janeiro foi revelada no dia seguinte. Um vídeo divulgado por Donald Trump Jr., filho mais velho do Presidente, mostrava imagens da comitiva presidencial acompanhando a insurreição do Capitólio por meio de imagens de câmeras de segurança diretamente dos jardins da Casa Branca. Enquanto a barbárie avançava ferozmente, acuando os congressistas norte-americanos e demais presentes, os autofalantes tocavam “Gloria”, um sucesso de Laura Branigan que tinha feito enorme sucesso no início dos anos 1980.


Ao mesmo tempo em que correligionários trumpistas dançavam e urravam de alegria e excitação, ouviam-se os versos “Gloria, / don't you think you're fallin'? / If everybody wants you, / why isn't anybody callin'?” [Glória, / você ainda não entendeu que está caindo? / Se todo mundo lhe quer / por que não há ninguém chamando?”]. Por uma ironia do destino, os trumpistas bailavam tinha a trilha sonora perfeita para demonstrar que não se importavam com o fato de que mais de 80 milhões de pessoas e de que centenas de delegados se recusaram a prosseguir com o projeto de governo catastrófico de Donald Trump por mais quatro anos. O escárnio e o deboche daqueles indivíduos me deixaram profundamente revoltado por não haver nenhuma demonstração de empatia ou apreço pelas instituições.


Como consequência do horror que se abateu pelo Capitólio, um pedido de impeachment contra Donald Trump foi impetrado pela oposição do Partido Democrata, julgando-o culpado pela invasão do Congresso dos Estados Unidos. Nenhum político estadunidense conseguiu a marca histórica de ter sido condenado duas vezes por pedidos de impedimento (da primeira vez ele foi absolvido pelo Senado dos EUA). A ignorância trumpista, depois de tantos males feitos em 4 anos, parece estar chegando ao seu apogeu.

         Logo após os States vivenciarem os espasmos das primeiras vertigens de sua democracia, o nosso processo democrático apresentava novos sinais de que está adentrando em falência múltipla. Enquanto o número de doentes por COVID-19 aumentava assustadoramente devido às reuniões familiares e aglomerações das festas de fim de ano, o Indigno Presidente da República Federativa do Brasil se dizia preocupado com o futuro da nação ao demonstrar pesar com a importância do voto impresso e de que o ambiente político-social brasileira ficaria pior do que o norte-americano se ele não for reeleito em 2022. Durante os primeiros dias do ano, o Ministro da Saúde (um militar “especialista” em logística) destilava a sua arrogância e o seu desconhecimento da complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS), deixando a imprensa e a população em estado de perplexidade diante de seus pronunciamentos. O conhecimento científico passou a contar com o deboche do Presidente e de seus asseclas.

         Porém, a tragédia anunciada há tempos por epidemiologistas e outros especialistas em pandemias, controles epidêmicos e cargas virais se concretizou no raiar do dia 14 de janeiro de 2021. O sistema de saúde de Manaus, capital do Amazonas, atingiu o nível máximo de internações, esgotou todo o seu estoque de oxigênio e entrou em colapso. Enquanto doentes morriam por asfixia, profissionais de saúde e familiares se desesperavam para tentar salvar quem agonizava nos leitos hospitalares. Durante a espera de uma vacina para nos protegermos do coronavírus, assistimos milhares de brasileiros mortos por dia sem poder fazer quase nada. A ignorância bolsonarista, depois de tantos males feitos em 2 anos, parece estar chegando ao seu ápice.

*

         A Era da Mediocridade em escala mundial foi inaugurada por Trump em 2016 e teve nas chamadas fake news o seu combustível para tomar a democracia de assalto. Dois anos depois, o Brasil elegeu um dos políticos mais repugnantes da história para o posto político mais alto da República graças a um misto de desinformação, desumanidade e desserviço. O espaço público tem convivido com o que há de mais abominável em matéria de seres humanos ultimamente, deixando todo o ódio de classe, de raça e de gênero aniquilar o que ainda resta de direitos humanos por estas bandas.

Ao contrário do que acontece na letra de “Brain Damage”, uma das canções mais emblemáticas do repertório do Pink Floyd, o louco que estava na minha cabeça não era eu. De uns tempos para cá, ele deixou de habitar os meus pesadelos para apresentar a intolerância com o intuito de ofuscar a sabedoria e a diversidade, causando uma histeria coletiva de ódio e de ignorância. Graças às correntes toscas de redes sociais e de aplicativos de mensagens, passei a ter um respeito maior pela figura pública de Roger Waters, ex-baixista e líder da lendária banda inglesa, pois poucos escreveram tão bem sobre ódio e intolerância em matéria de canção. Em tempos de mediocridade e ignorância, é fundamental louvamos quem preza por liberdade e democracia e Waters sempre fez questão de denunciar fascistas e autoritários para seus ouvintes.


Por fim, nunca é demais dizer que a chamada “Era da Mediocridade” exige um preço alto daqueles que ainda cultivam a inteligência. Mais do que exaltada, a ignorância é glorificada por meio de autofalantes e pelos brados dos idiotas e tem matado milhares de brasileiros por uma peste que não tem previsão de nos abandonar tão cedo. Mas, enquanto estivermos aqui, estaremos respirando, cantando, escrevendo, protestando e xingando contra todo e qualquer autoritarismo. Afinal, os “esquerdistas” também amam. Às vezes, até demais...



11 de abril de 2017

TROVA # 118

SEM PARTIDO, COM MORDAÇA


We don’t need no education
We don’t need no thought control
No dark sarcasm in the classroom (…)
(Roger Waters, 1979)



Dentre todas as irregularidades que tem acontecido no país desde o golpe de 2016, as piores delas se concentram nos ataques incessantes contra as escolas brasileiras. O Ministério da Educação não apenas limitou o orçamento das Universidade, como também cortou programas universitários (saudades do Ciência sem Fronteiras, amiguinhos?) e realizou uma reforma do Ensino Médio completamente estapafúrdia e autoritária – alunos e professores não foram sequer convidados a debater o tema a fundo. Porém, nenhuma destas arbitrariedades chama mais a minha atenção do que as propostas do grupo Escola sem Partido.
Idealizado por um advogado de São Paulo, o ESP alega que o principal mal das escolas brasileiras reside no fato de que os alunos são doutrinados por docentes esquerdopatas que impõem suas concepções políticas, morais e religiosas em plena sala de aula – ignorando completamente o fato de que os professores ganham mal, de que a educação privada é orientada por lógicas desumanas de mercado e de que as escolas públicas estão cada vez mais sucateadas e sofrem com o descaso das autoridades. De acordo com os mentores, nós, professores, devemos ser combatidos pelo Estado e impedidos de expor nossas crenças e concepções em nosso ambiente de trabalho. O que me pergunto diante de tamanhas propostas é o seguinte: por que docentes engajados e escolas participativas incomodam tanto os conservadores e poderosos?


A escola, em linhas gerais, deixou de ser o espaço opressor e retrógado tal qual observamos no filme The Wall, do Pink Floyd. Os bancos escolares do passado eram repletos de alunos reprimidos por professores e gestores que tratavam os espaços estudantis tal qual se fossem prisões. Em pleno século XXI, os estudantes possuem a liberdade (muitas vezes abusam da mesma!) de agir como desejam; o mesmo deveria valer para aqueles que se dedicam ao ensino, principalmente após a redemocratização do Brasil. Por sermos cidadãos, somos políticos. Por sermos profissionais de educação, temos o compromisso de atuarmos criticamente, pois é através da disseminação do saber é que fazemos um país andar para a frente. Se há um interesse para que o conhecimento se perpetue, é preciso ser responsável e apresentar os dois lados da moeda para cada fato a ser discutido em sala de aula, por exemplo.
O ESP acusa os professores de serem “doutrinadores” por colocarmos em prática preceitos marxistas, no entanto, veem Mises como um guru e Paulo Freire como a personificação de Lúcifer ou apenas um petista ordinário. A partir desta lógica muito pessoal e peculiar, eles se sentem à vontade para cercear e intimidar o trabalho de operários do ensino, estes comunas vermelhos, comedores de criancinhas dispostos a almoçar os cérebros de nossos jovens a qualquer hora do dia. Minha experiência como profissional da rede privada de ensino esfregou na minha cara que a lógica mercadológica, amada pela direita sempre deu o tom da ideologia dos estabelecimentos – o aluno, isto é, o pagante é o cliente que sempre tem e terá razão – e nunca foi objeto de perseguição dos órgãos oficiais ou do ESP.
Duas escolas da Prefeitura de São Paulo receberam a visita de um vereador ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) no início de abril de 2017. O intuito da “visitação” era o de fiscalizar as condições das instituições e verificar se os professores não estariam doutrinando os alunos daquelas unidades escolares. A repercussão pública foi escandalosa: as redes sociais e seus partidários e seus partidários de esquerda e de direita entraram em mais um debate baixo e violento; a grande imprensa e os vassalos do GAFE (Globo, Abril, folha e Estadão) viram nesta discussão acalorada uma oportunidade e tanto para atirarem mais lenha na fogueira; o Secretário Municipal de Educação – a autoridade mais competente e habilitada para nos orientar e fiscalizar) – decidiu pedir demissão, mas foi demovido da decisão pelo Prefeito de São Paulo, João Dória.
O fator mais revoltante da visita do vereador do MBL não foi a simples e notória patrulha ideológica ou a imposição da tática de mercado de fiscalizar os funcionários para verificar se a produção está de acordo ou não com a meta esperada. Atos como estes restringem a liberdade dos professores através da pura e simples intimidação, tal qual ocorria nos tempos da ditadura militar. Este é o pior retrocesso imposto pelo golpe de estado liderado por Michel Temer e o PMDB: reprimir profissionais de ensino, limitar a atuação crítica das escolas, sucatear a educação pública, atingir o povo com a retirada de um de seus direitos mais importantes.
Escolas são espaços de liberdade: a pluralidade de saberes precisa ser mantida, a diversidade precisa ser respeitada (daí a importância de se discutir questões de gênero com nossos alunos, por exemplo), a liberdade do professor em um ambiente de trabalho tão desgastado – salários baixos, assédio moral, burocratização e mercantilização do ensino – não pode ser patrulhada por fascistoides populistas. A lógica da mordaça para combater nossas crenças em pleno século XXI não nos cabe mais.

É por isto que acredito na importância da luta dos profissionais de Educação para que nosso trabalho não seja golpeado de maneira tão dura pelos defensores do ESP. Sem resistência, há retrocesso. Sem luta, há patrulhamento. Sem a crença em nós mesmos e no nosso poder de alcance, não há um Brasil melhor. 

6 de agosto de 2016

TROVA # 79

A MALANDRAGEM DO VIL METAL
(alguns episódios pessoais e públicos de como o dinheiro pode nos causar amor e ódio)



"Money, so they say
Is the root of all evil today
But if you ask for a rise 
It's no surprise that they're giving none away"
(Roger Waters - "Money", canção do lendário álbum The Dark Side of The Moon [1973], do Pink Floyd)


Minha relação com o dinheiro sempre foi muito difícil. Complicada mesmo, tal qual uma relação intempestiva de dois amantes que se amam muito e que vivem em pé de guerra permanente. 

Já fiz coisas horrorosas por não ter o tal do vil metal em mãos para adquirir algo. Já fiz coisas indignas, cedendo às tiranias dos outros, para poder garantir um pingo de estabilidade financeira. Consequência direta? Chegar à conclusão do quanto eu me anulei para poder satisfazer às demandas do mercado do qual eu faço parte - no caso, a educação privada. Consequência indireta? Minha qualidade de vida se tornou bastante comprometida ao ter que trabalhar todas às noites e durante meus finais de semana durante anos. 



Devo confessar não me arrependo de muitas coisas que já fiz por dinheiro. Entretanto, aprendi muito sobre mim, sobre os outros e (especialmente) sobre a falta de escrúpulos das instituições, amparadas pelo Capitalismo que nos rege. Acreditei piamente (e, de vez em quando, ainda acredito) na frase clássica de Nelson Rodrigues que dizia: "O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro". Quando comecei a me olhar no espelho e ver os reflexos do envelhecimento rápido (calvície, olheiras de estimação, metabolismo mais baixo, gordura localizada) e que estava vivendo 3 anos em 1, aprendi da maneira mais dura e difícil de que não há salário alto ou benefício que compense a sua qualidade de vida.


Quando você trabalha por horas e horas a fio sem ter possibilidades significativas de crescimento profissional, com a ausência de um plano de carreira que dê aquele sorriso no rosto para que você pondere a necessidade de sacrifícios, quase tudo relacionado ao universo do trabalho deixa de fazer sentido para ti, afinal o lucro que está sendo gerado, em primeiro lugar, jamais pertencerá a você. Remuneração nenhuma substitui a possibilidade de você ver seu sobrinho que mora em outro estado crescer pelas redes sociais ou pelo celular ou a primeira visita da afilhada que veio passar o dia na sua casa enquanto você não está. Os momentos familiares perdidos por causa do seu trabalho doem na alma. Penso na dor de meu pai ao passar sua juventude tendo que trabalhar para sustentar esposa e dois filhos. Penso no sofrimento de meu avô em ter que começar um negócio próprio praticamente do zero e fazer prosperar através de muito suor enquanto os filhos cresciam e sua mulher trabalhava arduamente para dar conta de uma casa.


Já ganhei um bocadinho de plata nesta vida afora como professor em escolas regulares e institutos de idiomas. Não investi meus rendimentos e economias em um negócio próprio por jamais me imaginar como chefe ou alguém que deve administrar as finanças ou tomar decisões de grande porte. Jamais ambicionei o desejo de ter um carro 0km ou refeições regadas a champanhe e caviar como uma prioridade de vida. Roupas de marca e de fino trato até me interessam, mas prefiro meus velhos farrapos ao invés de ter que investir milhares de reais em um camisa pólo ou um sapato de presença que vá além de 200 reais. Jet set? Restaurantes claros e/ou cafés da moda? Baladinhas do momento ou casas de stand-up comedy? Não, obrigado! / No Thanks! Cogitei a possibilidade de um dia ter um teto para poder chamar de meu, porém os bancos ainda acham que o meu cartão de crédito é uma navalha. Um claríssimo exemplo de um amor jamais correspondido. Um ódio descaradamente declarado.


Desde sempre, compreendi que o mundo seria muito mais interessante pra mim a partir de um investimento maciço na intelectualidade. Não me tornei um grande pensador, tampouco em um influente formador de opinião. Por outro lado, já posso plantar meus amigos, meus discos e meus livros e nada mais - algo muito mais atraente do que roupas, festas, carrões e drinks à base de Red Bull. Com isso, não me sinto na eterna obrigação de agradar todo mundo, o que me faz um inimigo público de peso de acordo com uma boa parcela da sociedade. Resumindo: por ter escolhido o caminho menos óbvio, o dinheiro é algo de pouca relevância para mim, apesar de ser essencial para muitas atividades que faço.


A consequência por ter me feito um indivíduo menos materialista e mais pragmático? Desenvolvi uma capacidade crônica em lidar com dinheiro. Os credores e os bancos me amam de paixão por causa desta aptidão e pela facilidade impressionante em contrair dívidas. Minha revolta com o Capitalismo tem sido minha resposta para o fato do vil metal nunca ter gostado de mim, o que é um sentimento mútuo entre nós dois. O que me consola é o fato de não ser o único: o Poeta Vinícius de Moraes era conhecido entre seus familiares e amigos pela sua enorme incapacidade em lidar com as finanças. Dizem as lendas que o Poetinha, que se casou nove vezes, saía de cada um de seus divórcios apenas com uma muda de roupas e o seu Portinari debaixo do braço, prova claríssima do seu profundo desapego em relação à grana.


Em contrapartida, a ambição e a vontade desmedida por dinheiro pode levar o ser humano a cometer atos indecentes, deploráveis, nojentos, dignos de causar vergonha. Alguns exemplos bastante palpáveis deste fato são a corrupção dos políticos que elegemos, a eterna ganância das corporações, o desrespeito pelo ser humano em prol do lucro individual é limitado. Por causa do amor por este malandro que não nos ama ou não nos corresponde da mesma maneira, invertemos os valores da sociedade em que vivemos, passando a fazer da exceção à regra. Atitudes éticas se tornam em artigos enfadonhos. A arte e o pensamento crítico são relegados para outros planos e deixam de ser prioridade. O lucro e o sucesso são a cartilha a ser seguida.


O artista e o intelectual, por estarem plenamente comprometidos com a sensibilidade, geralmente possuem dificuldades gritantes em lidar com o vil metal. Leonard Cohen, por exemplo, se lançou em uma extensa turnê mundial devido a um gigantesco desfalque dado por sua ex-empresária. Os Beatles se separaram de vez em 1970 devido às disputas financeiras que azedaram a amizade e parceria musical de John Lennon e Paul McCartney. Os Rolling Stones seguiram rumo ao exílio na França a partir de 1971 por causa das dívidas astronômicas de Jagger & Richards com o fisco inglês. Dizem que Barbra Streisand retornou aos palcos depois de 20 anos de recusa em fazer turnês simplesmente porque o dinheiro tinha acabado. Sinais evidentes que as verdinhas podem amá-los, como também odiá-los com uma intensidade impressionante.


Sem falsa modéstia ou “vitimismo” descarado, afirmo, sem rodeios, que pertenço ao grupo daqueles que o dinheiro sempre odiou. Com muito orgulho é um pouco de vergonha. Sempre me pergunto por onde esse verdinho anda depois do dia 6 ou 7 de cada mês, pensando nas culpas e na minha eterna inaptidão em lidar com ele. O vil metal, o mais malandro de todos os malandros, volta sorrateiramente ou no último dia da temporada ou no quinto dia útil para, logo depois, bater cruelmente em retirada. Quando eu aprender a ser um romântico calculista, ele vai ficar do meu lado durante uma temporada mensal completa. Até lá, preciso entender a lição do velho Tio Patinhas e tomar decisões mais pautadas pelo cérebro, não pelo coração. Quem sabe a maturidade dos meus 30 e poucos anos me dê a oportunidade de um dia poder zombar daqueles que sorriram diante dos meus fracassos e das solas gastas dos meus sapatos furados. Talvez eu não consiga comprar um time de futebol ou um Lear Jet, mas quem sabe posso garantir um mínimo de conforto para a velhice?



17 de abril de 2016

TROVA # 68

A CIÊNCIA DA BURRICE E AS NOSSAS LUTAS INGLÓRIAS


Para Denise Stoklos e Nara Leão,
dois estandartes da inteligência e da liberdade 

"Tem tanto burro mandando
Em homens de inteligência
Que, às vezes, fico pensando
Que a burrice é uma ciência"
(Guto & Mariozinho Rocha - "Cabra Macho" - canção interpretada brilhantemente por Nara Leão em seu disco Nara, de 1967)

"Haven't you heard it's a battle of words
the poster bearer cried
Listen son, said the man with the gun
There's room for you inside (...)"
(Roger Waters & Richard Wright - "Us and Them" - uma das faixas do lendário album The Dark Side of the Moon, lançado pelo Pink Floyd em 1973)

"Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos"
(Caetano Veloso - "Podres Poderes" - canção que abre o seu álbum Velô, de 1984)




Lembro muito bem de ter lido um ensaio muito famoso de Roberto Schwarz na época em que fazia minhas pesquisas para o Mestrado. O texto afirmava com uma exatidão notável de que na década de 1960, em meio a uma ditadura que florescia a olhos vistos, a classe artística e intelectual do Brasil estava "irreconhecivelmente inteligente". Schwarz estava certíssimo: seu pensamento serviu (e ainda nos serve) como referência para pensar um país tão complexo e contraditório como o nosso.

No entanto, o pensamento que melhor traduz a desordem mental e intelectual de uma boa parcela dos brasileiros é o do já saudoso ensaísta, escritor e intelectual Umberto Eco. O autor de O Nome da Rosa disse, sem rodeios, de que as redes sociais ampliam o pensamento e as vozes dos imbecis. Tempos inglórios estes que reproduzem o pensamento de uma elite e de uma mídia infinitamente conservadora e sórdida que se assemelham ao caos vivido por muitos de nós nos anos 1960. Porém, há uma diferença aterradora: a inteligência dos tempos de outrora passou longe de uma boa parcela da sociedade...

O Brasil enfrenta uma das crises políticas mais graves de sua história. A Presidente Dilma Rousseff corre o risco de ser impedida de governar oficialmente devido a acusações de ter infringido a lei de responsabilidade fiscal. Julgada por uma Câmara dos Deputados majoritariamente corrupta, que se comporta como paladinos da moralidade, da decência e da honestidade, muitos desses Senhores não só nos representam mal, como estão preocupados com seus próprios interesses. Quando vejo a TV Câmara, com o desfile de hipócritas falando sobre corrupção, vejo o quanto uma canção interpretada por Nara Leão no auge da ditadura militar continua de uma atualidade impressionante: é muito fácil ser "cabra macho" e acusar os outros; difícil mesmo é ser homem e assumir os crimes cometidos e revelar o seu rabo preso.

Para piorar, a grande mídia brasileira - assumidamente partidária e controlada por menos de DEZ famílias ricas - se levanta assumidamente contra aqueles que pretendem dar um golpe na democracia brasileira. Eu me pergunto ATÉ QUANDO teremos que cantar canções que tratam do egoísmo daqueles que se refestelam no poder, da incompetência dos tiranos que querem fazer do Brasil um país mais desigual, que não dá oportunidades para todos os seus habitantes? O papel dos meios de comunicação brasileiros é determinante neste processo, visto que eles advogam em causa próprias, em prol dos corruptos e não de uma pessoa idônea, que nunca se beneficiou dos seis anos na Presidência da República. Os jornais e a TV manipulam as informações e dão ampla sustentação a um impeachment travestido de golpe de estado que pode comprometer a democracia de maneira fatal. Veículos de peso como a Folha de S. Paulo possuem entre seus colunistas indivíduos de moral baixa e vergonhosa como Reinaldo Azevedo e Kim Kataguiri. Enquanto isso, muitos repetem o eternamente viciado discurso midiático formulado pela canalhice de dois ou três como cassandras robotizadas e inconscientes da gravidade dos fatos.

O clima de ódio e agressividade passa a tomar conta das manifestações políticas de uma maneira muito nociva. Ao ponto de nomes como Chico Buarque de Hollanda, um eterno defensor da democracia e da liberdade de expressão, chegar a ser infinitamente enxovalhado em praça pública, pela mídia golpista e nas redes sociais. Como dizia a famosa canção de Rita Lee & Roberto de Carvalho, eternizada pela voz de Elis Regina: hoje vivemos tempos de "muita patrulha" e "muita bagunça", nos quais torna-se difícil de encontrar a verdade dos fatos. Os inegáveis erros dos governos petistas (corrupção de membros do governo, coerência, falta de medidas de "esquerda") acabam falando mais alto do que os indiscutíveis acertos das administrações de Lula e Dilma.

A burrice se tornou uma constante de uma parcela maciça da esfera pública. A criação do maior número de universidades federais, a inclusão social que gerou uma diminuição expressiva da fome no Brasil e a ascensão das classes C, D e E, a garantia de alguns direitos das minorias são algumas das conquistas dos governos do PT que foram sumariamente ignoradas por, pelo menos, metade da população brasileira. Por outro lado, os governos de oposição - especialmente os do PSDB - não recebem o julgamento de uma significativa parcela da mídia e da sociedade. Alguns exemplos deste fato no Sudeste devem-se ao descaso do governo Alckmin com os transportes, a educação e os bens culturais: nenhum afiliado tucano foi julgado pelos envolvimentos no Tremsalão, as escolas estaduais se encontram em um estado deplorável, dois centros culturais importantíssimos sofreram incêndios e não temos a menor perspectiva de termos acesso ao Museu da Língua Portuguesa e ao Auditório do Memorial da América Latina. O que podemos dizer dos mais de 20 museus fechados no RJ em prol do Museu do Amanhã, construído só para inglês ver? Esperamos até hoje que os responsáveis pela tragédia de Mariana (MG) sejam devidamente punidos pelas autoridades...


Junto com a burrice das instituições, a hipocrisia se destaca de maneira impressionante. Os redutos da elite desejam dar o tom de um pensamento único neste país, sem direito de exercer qualquer espécie de discórdia. O fascismo generalizado progride através de um conservadorismo atroz. Este texto é um apelo para que a esfera pública não se permita abater pela burrice, ciência que deveria ser estudada e entendida a ponto de que os erros do passado não sejam repetidos no presente e comprometam o futuro. Para os que não compreendem a importância da democracia e não entendem a importância do lado escolhido por mim, deixo uma frase do diretor e encenador teatral Gerald Thomas como mensagem direta: "Joguem essas pedras, meus amores! Precisamos delas!". Não tememos o preço de levantar nossas vozes dissonantes a favor das lutas inglórias e a favor da liberdade e da democracia...



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https://blogseseloscontraogolpe.wordpress.com/2016/04/13/blogs-e-selos-contra-o-golpe/ 



1 de janeiro de 2014

TROVA # 30

PLEASE TAKE ME TO 1973!


                 
Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar – o que é terrivelmente difícil – que me acompanhe.
(Clarice Lispector, em seu livro Água Viva, de 1973. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.30).

Eu ainda sonho com o dia em que eu poderei embarcar em uma máquina do tempo como o carro do filme De Volta Para o Futuro e fazer uma temporada pelo passado. Gostaria de voltar 40 anos no tempo presente e ir para 1973. Não porque foi um ano de glórias para a humanidade e para o Brasil – enquanto a ditadura de Médici e seus comparsas comia livre, leve e solta por aqui, o mundo vivia a crise econômica do petróleo, além de um clima de autoritarismo e repressão que pairava pelos ares. Não foi um momento de glória, mas de várias tentativas de libertação de um sistema que nos cerceava mais e mais...
            A música do planeta, por outro lado, nos trouxe momentos de pura contestação aos valores vigentes e de esperança na humanidade. No Brasil, 1973 foi um dos anos mais revolucionários de toda a história da música brasileira. Na cena internacional, obras-primas foram lançadas e um reencontro marcou a memória musical de ouvidos no mundo inteiro.
            Aí vai mais uma lista (repleta de muita afetividade) de 14 motivos musicais que te fariam sonhar com uma máquina do tempo e embarcar para 1973, este ano riquíssimo em experiências musicais:

14) Led Zeppelin – Houses of the Holy
        

Depois de lançarem quarto discos que continham apenas o nome da banda (Led Zeppelin I, II, III e IV), os rapazes do Led Zeppelin eram autoridades de primeira grandeza e decidiram lançar seu primeiro disco com material inédito. Entre janeiro e agosto de 1972, gravaram várias canções para Houses of the Holy entre estúdios badalados de gravação (Olympic Studios, em Londres, e Electric Lady Studios, em Nova York) e deixaram apenas OITO para o disco. A faixa-título, por exemplo, apesar de ter sido gravada para o quinto álbum do Zeppelin só veio a público em 1975, com o álbum duplo Physical Graffiti.
O disco abre com o clássico “The Song Remains the Same”, canção de Jimmy Page e Robert Plant na qual, Mr. Page, no auge de seu virtuosismo, gravou OITO guitarras diferentes, isso mesmo: OITO guitarras diferentes para a faixa! Outras faixas do disco que se tornaram clássicas foram “Over the Hills and Far Away”, “Dancin’ Days”, “D’yer Maker” (uma contração de “Did you make her” com a palavra “Jamaica”) e “No Quarter”.
 A minha canção preferida deste clássico é justamente a última do disco. “The Ocean” reflete bem o quanto Jimmy Page, Robert Plant, John-Paul Jones e John Bonham trabalhavam bem juntos. Tinham uma sinergia tão perfeita quando estavam em atividade em pleno palco, que a impressão que tenho é a de que eles eram um só. Um zepelim que voava alto e pairava sobre nossos ouvidos sem licença através de riffs de guitarra geniais, de uma voz lancinante, de um baixo e teclados que adornavam a massa sonora condimentada pelo baterista mais genial que já aportou por estas galáxias...


13) Maria Bethânia – Drama, 3.º Ato: Luz da Noite


         Em 1973, Maria Bethânia já não era mais conhecida como “a irmã de Caetano Veloso que cantava música de protesto”. Era uma artista reconhecida por espetáculos nos quais misturava música e poesia, sendo Rosa dos Ventos – O Show Encantado o mais bem-sucedido de toda a sua carreira até então. Drama, 3.º Ato: Luz da Noite é o registro (parcial) em disco do show que levou aos palcos durante o ano de 1973.
            Uma das primeiras canções do roteiro do show, “Baioque” (Chico Buarque), reflete bem não só o espírito do espetáculo, como também é um raio-X fidedigno do espírito do artista brasileiro em 1973: “Quando eu canto que se cuide / Quem não for meu irmão / O meu canto, punhalada / Não conhece perdão / Quando eu rio/ Quando rio, rio seco / Como é seco o sertão, meu sorriso / É uma fenda escavada no chão”. Além disso, havia também um espírito de desbunde e contracultura nos versos finais da canção de Chico quando Bethânia diz (debochadamente) a plenos pulmões que não quer “seguir definhando sol a sol” e quer partir “requebrando um rock and roll” e achar um lugar “ao sol de Ipanema, cinema e televisão” ao invés de dançar o baião que não necessariamente libertaria o corpo de todos as patrulhas que o envolviam em 1973. Apesar de Bethânia ainda não conseguir fazer as respirações nos momentos adequados, por exemplo, sua interpretação é de uma intensidade única na música brasileira – ela canta não apenas com a voz, mas com o corpo inteiro.


12) The Rolling Stones – Goats Head Soup


         Depois de abandonarem o Reino Unido por causa de problemas com o fisco inglês, os Rolling Stones se instalaram no sul da França para gravar o disco mais importante de toda a sua história, o sensacional Exile on Main St. (1972) e sair em turnê pelos EUA ao lado de Stevie Wonder durante o primeiro semestre de 1972.
            Como os Stones (leia-se o arruaceiro matusalém Keith Richards e sua esposa na época, Anita Pallenberg) não eram bem-vindos em vários países do mundo, um dos poucos países que aceitaram as pedras rolantes em seu território foi a Jamaica. A banda se reuniu no estúdio Dynamic Sound, em Kingston, para gravar boa parte de Goats Head Soup, em novembro de 1972. Ao contrário do que ocorreu no álbum anterior, as gravações não tomaram muito tempo da banda, o que possibilitou a Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Mick Taylor e Bill Wyman o fato de saírem em turnê mundial no ano seguinte.
            O hit principal de Goats Head Soup foi “Angie”, uma das baladas mais importantes de toda a carreira dos Rolling Stones. Muitos acreditaram que a canção era para Angela Bowie (esposa de David) ou para Angela Richards (filha de Keith e Anita), no entanto, Jagger e Richards desmentiram as duas teses anos depois. “Angie” alcançou o topo das paradas de sucesso em vários países do mundo, contrariando as prerrogativas dos executivos da gravadora dos Stones. Vamos relembrar um dos momentos mais interessantes deste disco, a censurada “Star Star”, que trata muitíssimo bem o clichê Sexo, Drogas & Rock ‘n’ Roll.


11) Chico Buarque – Chico canta Calabar


         Em 1973, Chico Buarque de Hollanda era o inimigo n. º 1 da ditadura brasileira. Suas canções eram censuradas sem a menor explicação. Sua peça Calabar, o elogio da traição – que conta a saga do holandês Maurício de Nassau em terras brasileiras – foi proibida de ser montada em território nacional pouco antes de estrear. O disco com as canções compostas para a peça recebeu cortes impostos pelos militares – canções sem letra, chiados inesperados no decorrer de outras, um horror... “Cálice”, sua primeira parceria com Gilberto Gil, foi censurada e impedida de ser executada em pleno festival Phono 73, evento organizado pela sua gravadora na época, a Philips.
Enfim, a maré não estava nada boa para o filho de Sérgio Buarque de Hollanda no decorrer da primeira metade dos anos 1970. Chico canta Calabar é o seu último grito de sobrevivência autoral naquele período. Depois deste disco, diante da paranoia que estava instalada em torno da figura do referido compositor, vieram os álbuns Sinal Fechado e Meus Caros Amigos, álbuns nos quais Chico Buarque teve de se impor uma espécie de autocensura para poder trabalhar.
“Tira as Mãos de Mim” é o meu momento preferido do disco Calabar. O arranjo de cordas sombrio é tão impressionante que demonstra a frieza que sentíamos no decorrer dos anos de chumbo.


10) David Bowie – Aladdin Sane

        
Depois de sacudir o planeta na pele de Ziggy Stardust, seu personagem / alter-ego mais famoso, David Bowie não tinha absolutamente mais nada para provar para o planeta. Já era um rock star de primeiríssima grandeza, lotando casas de espetáculo, com fotos em capas de revistas e fazendo bastante barulho.
Apesar de ter “executado” Ziggy no show final da turnê The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars, em meados de 1973, Bowie ainda se ateve ao personagem por, pelo menos, mais um ano. O disco Aladdin Sane (uma brincadeira com a expressão A Lad Insane – em português, um cara maluco) foi descrito pelo próprio artista como uma incursão de Ziggy pelos Estados Unidos, país no qual David Bowie fez história entre 1972 e 1973. O álbum de covers Pin-Ups, lançado no final de 1973, auxiliou o público a fixar a imagem e o som do artista inglês nas retinas e ouvidos do grande público.
Quando Aladdin Sane foi lançado, em abril de 1973, Ziggy ainda não estava morto. Por isso, podemos dizer que este trabalho é uma continuação do trabalho anterior e que lançou David Bowie para o estrelato. Não é conceitual como The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars, não é intimista como Hunky Dory, mas possui clássicos que fazem parte de qualquer coletânea de Bowie como “The Jean Genie”, “Time”, “Cracked Actor” e um cover delicioso de “Let’s Spend the Night Together”, dos Rolling Stones.
Item obrigatório em qualquer coleção de amantes de David Bowie, Aladdin Sane chega aos 40 anos dando muito banho em muita banda surgida nos anos 2000 ou 2010...


9) Luiz Melodia – Pérola Negra
     
   
         Luiz Carlos dos Santos era um mero negro compositor que morava no Morro do Estácio quando foi descoberto pela trupe dos tropicalistas. Waly Salomão ficou encantado com a poética daquele jovem talento e apresentou-o para Torquato Neto e Guilherme Araújo, que se tornou seu empresário. Antes de ser famoso, Luiz Melodia já tinha tido canções gravadas pelas musas baianas Gal Costa e Maria Bethânia – “Pérola Negra” foi registrada por Gal em Fa-Tal e “Estácio, Holly Estácio” foi gravada por Bethânia em Drama – Anjo Exterminado –, por isso, tinha tudo para ser uma das revelações do ano de 1973.
            Apesar do disco de estreia de Luiz Melodia ser um clássico hoje em dia, Pérola Negra não foi um fenômeno de vendas na época em que foi lançado. Perinho Albuquerque, produtor e arranjador da turma tropicalista, fez arranjos maravilhosos para “Magrelinha”, “Pra Aquietar”, “Vale Quanto Pesa” e a faixa-título. O disco em si reúne estilos dos mais diversos dentro do universo da música brasileira – samba, choro, forró, rock – e até hoje impressiona o ouvinte com a diversidade musical e a poética áspera de Melodia. Um disco que merece ser ouvido e sentido de cabo a rabo!


8) Frank Sinatra – Ol’ Blue Eyes is Back
           

            No início de 1973, havia muita gente que tinha acreditado que Francis Albert Sinatra não cantaria mais devido a um anúncio de aposentadoria feito pelo próprio. Para a alegria de muitos de nós, The Voice decidiu revogar sua aposentadoria e voltou com grande estilo ao disco com Ol’ Blue Eyes is Back em outubro deste ano, graças a um repertório inédito e uma extensiva campanha de marketing.
            O público respondeu prontamente ao retorno de Frank Sinatra: o disco que marcou o seu retorno ao disco foi topo nas paradas nos EUA e no Reino Unido e atestou que os olhos azuis estavam cantando melhor do que nunca. O sucesso mais importante do disco, “Let Me Try Again” (Paul Anka, Sammy Cahn e Michel Jourdan), é considerado como uma das interpretações mais marcantes de Sinatra em todos os tempos. Por isso, não vale a pena escrever muito sobre A Voz, o importante é deixar que ela cante mais uma vez...


7) Elis Regina – Elis


         No primeiro semestre de 1973, Elis Regina andava com o prestígio meio abalado com várias pessoas do meio artístico. Convocada (forçadamente, segundo a própria) a cantar nas Olimpíadas do Exército, em 1972, em pleno auge da ditadura militar brasileira, Elis passou a ser crucificada pela esquerda e por parte do público. A contrapartida da Pimentinha foi a realização de um álbum rascante, de repertório mais moderno e que estivesse em sintonia com os tempos sombrios que marcavam a primeira metade da década de 1970.
            O disco Elis, lançado por Elis Regina no primeiro semestre de 1973, foi outra guinada na discografia da estrela. Canções de Gilberto Gil e da frutífera parceria João Bosco – Aldir Blanc dominaram 80% do repertório do disco. “Oriente”, de Gil, abria o disco para que a Pimentinha deixasse muito claro de que o recado a ser dado por ora era de que todos nós deveríamos nos orientar diante de tanto som e fúria que empesteavam os ares do Brasil. As releituras para os sambas “Folhas Secas” (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) e “É Com Esse Que Eu Vou” (Pedro Caetano) são definitivas não apenas pela precisão da voz da Maior Cantora do Brasil, como também pelo dedilhar de piano indefectível de César Camargo Mariano.
            A interpretação mais marcante deste disco é a do belíssimo tango “Cabaré”, de João Bosco & Aldir Blanc. Os agudos de Elis lembram vagamente os agudos de Ângela Maria (sua maior influência) e narram a saga de uma crooner que canta em um inferninho decadente (“Na porta lentas luzes de neon / Na mesa flores murchas de crepom / E a luz grená filtrada entre conversas”) e que precisa se debater com “um silêncio de morte” em meio ao “drama sufocado em cada rosto / A lama de não ser o que se quis / A chama quase morta de um sol posto” e a lembrança vaga de ter sido uma bela “dama de um passado mais feliz”. Com este trabalho irretocável, Elis Regina veio para dizer para a sociedade mundial que não fazia música para alegrar a sociedade e sim para provocá-la com seu canto insubstituível.


6) Paul McCartney & Wings – Band on the Run


         Band on the Run é considerado por muitos fãs como o melhor disco lançado por um Beatle após Let It Be (1970). Concordo plenamente! Por mais que All Things Must Pass (George Harrison, 1970) e Imagine (John Lennon, 1971) sejam discos importantes, nenhum disco solo de um Fab Four conseguiu alcançar a eficiência musical que Paul McCartney, Linda McCartney e os Wings (o guitarrista e pianista Denny Laine, o baixista Henry McCullough e o baterista Denny Seiwell) conseguiram com este álbum.
            Apesar de constar entre um dos álbuns mais vendidos de 1974, o caminho para o sucesso foi árduo. Depois de comporem as faixas do disco em sua casa de campo na Escócia, Paul e Linda queriam gravar o disco longe do Reino Unido – de preferência em um local bastante exótico. Quando o casal McCartney estava com tudo pronto para partir para Lagos, na Nigéria, duas surpresas desagradáveis ocorreram: McCullogh e Seiwell abandonaram o barco, reduzindo o Wings a um trio. Quando chegaram em seu local de destino, encontraram um país assolado por miséria e corrupção de um governo militar, um estúdio em péssimas condições de trabalho. Para somar a estadia nigeriana, Paul e Linda foram roubados, o ex-Beatle sofreu um espasmo respiratório devido ao excesso de nicotina e a cereja do bolo foi um arranca-rabo homérico com o músico e ativista nigeriano Fela Kuti (que acusava os McCartney de se apropriar da cultura africana indevidamente ao supostamente incluí-la nas novas canções do Wings). Quando a trupe retornou para a Inglaterra em 23 de Setembro de 1973, com todas as bases de Band on the Run gravadas, todos devem ter sentido o alívio do dever cumprido diante de tamanha precariedade.
            As nove faixas que constam no disco original (“Band on the Run”, “Jet”, “Bluebird”, “Mrs. Vanderbilt”, “Let Me Roll It”, “Mamunia”, “No Words”, “Picasso’s Last Words” e “Nineteen Hundred and Eighty-Five”), somadas às outras duas faixas-bônus (“Helen Wheels” e “Country Dreamer”) são o atestado definitive de que Paul McCartney não estava nem um pouco a fim de se religar ao seu passado de glória e fama e queria escrever um novo capítulo musical de sua trajetória. É, sem dúvida, o seu melhor disco pós-Beatles. Por isso, merece (e muito!) ser ouvido…


5) Gal Costa – Índia*
        

Em 1973, Gal Costa deu a sua guinada mais importante em sua carreira até aquele momento. Deixou de lado a agressividade característica de sua fase tropicalista para dar espaço a uma postura mais brejeira e sexy. Com o lançamento de Índia, Gal adotou o princípio de resgatar clássicos da canção brasileira (“Desafinado” e a bela guarânia que dá nome ao disco) e fez a capa de disco mais sensual de todos os tempos.
            É lógico que os militares acharam um AB-SUR-DO uma capa com um close nas partes íntimas de Gal. Na data do lançamento, o vinil precisou sair com um invólucro preto para que fosse vendido, o que chamou ainda mais a atenção para o que Gal Costa tinha a dizer naquele momento. Canções inesquecíveis de Lupicínio Rodrigues (“Volta”) e Tom Jobim (“Desafinado”) integram o repertório do disco ao lado de criações de Caetano Veloso (“Da Maior Importância”, “Relance” – parceria de Caê com Pedro Novis), Gilberto Gil (responsável pela adaptação de “Milho Verde”, uma cantiga do folclore português), Luiz Melodia (“Presente Cotidiano”), Tuzé de Abreu (“Passarinho”), Jards Macalé e Waly Salomão (“Pontos de Luz”).
O time de músicos que contribuíram com seus talentos para Índia é invejável. Sob a direção musical de Mestre Gilberto Gil (que pilotou boa parte dos violões do disco), Roberto Silva e Chico Batera ficaram responsáveis pela bateria, percussão e efeitos, Luiz Alves pelo contrabaixo e Toninho Horta pela guitarra. As participações especiais de Roberto Menescal (em “Desafinado”), Wagner Tiso, Arthur Verocai e Chacal azeitaram a sonoridade deste clássico. Entretanto, devemos destacar a contribuição essencial de dois artistas que foram fundamentais para este trabalho: o Maestro Rogério Duprat (arauto erudito dos Tropicalistas), que recriou “Índia” com um arranjo orquestral épico e Dominguinhos, que trouxe seu indefectível acordeom para várias faixas do disco. Sem a presença destes dois, o canto de Gal não teria atingido a mesma força, pois não teria a precisão dramática do que o Tropicalismo nos ofertou de melhor.
Esqueçam as outras cantoras brasileiras que gostam de se dizer sexy e cool: Índia, lançado por Gal Costa em 1973, é uma das provas cabais de como Gracinha é a cantora brasileira mais sensual e afinada de todas as galáxias pré e pós-tropicalistas!

* Tive a honra de escrever sobre este disco fantástico para o blog Pequenos Clássicos Perdidos, do meu guru Fábio Bridges. Por isso, as informações sobre este disco antológico de Gal Costa são uma mera compilação do texto que está disponível no link a seguir: http://pequenosclassicosperdidos.wordpress.com/2013/07/25/gal-costa-india-1973/

       
    
4) Elton John – Goodbye Yellow Brick Road


         O sétimo álbum de Reginald Kenneth Dwight foi a pedra do gênesis definitiva para que Elton John (nome artístico de Reg) entrasse de vez para a história da música do planeta. Goodbye Yellow Brick Road é uma obra-prima, não só por demonstrar que Elton estava no auge da forma como músico e cantor (o mesmo pode-se dizer de seus companheiros de banda), como também pelas letras inspiradíssimas de seu parceiro, Bernie Taupin. Um detalhe interessante: Taupin escreveu as letras do disco em menos de TRÊS SEMANAS, repetindo: em menos de TRÊS SEMANAS! Boa parte das canções foi finalizada por Elton em, aproximadamente, TRÊS DIAS!
            Elton John já era famoso pelos surtos e exigências que fariam qualquer Diva ruborizar de vergonha naquela época. Quis gravar seu disco na Jamaica apenas pelo simples fato de que os Rolling Stones tinham gravado Goats Head Soup na terra de Bob Marley. Quando as dificuldades começaram a surgir em janeiro de 1973, no início das gravações do disco, Elton e a trupe se mudaram de mala e cuia para o belo Château d'Hérouville, na França, onde os álbuns Honky Château e Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player foram gravados no ano anterior. Assim que os trabalhos se iniciaram no Château, as sessões de gravação duraram apenas DUAS SEMANAS! Só Frank Sinatra teria feito mais rápido do que isso...
            Goodbye Yellow Brick Road vendeu cerca de 31 milhões de cópias no mundo inteiro. Isto se deve não apenas aos clássicos do disco (“Candle in the Wind”, “Bennie & The Jets”, “Saturday Night’s Alright for Fighting” e a faixa-título não podem faltar em nenhum show de Elton John!), mas também aos lados B que compõem o disco: “Sweet Painted Lady”, “Harmony”, “I’ve Seen That Movie Too”, “Roy Rogers”, “All the Girls Love Alice”, “Your Sister Can't Twist (But She Can Rock 'n Roll)” e “ The Ballad of Danny Bailey (1909–34)”. Não é a toa que este disco é considerado como o preferido de muitos fãs de Elton...

          
3) Raul Seixas – Krig-Ha, Bandolo!
   
     
         Quando Raul dos Santos Seixas começou a tocar incessantemente entre nós a partir de 1973, já pudemos ver de cara que o baiano fã de Elvis Presley não tinha vindo para este mundo de estrelas musicais a passeio. Raulzito veio para fazer muito, mas muito barulho! Deixou para trás uma respeitada carreira de produtor musical para dar início a uma carreira individual vitoriosa e brilhante. O título de sua estreia musical: Krig-Ha, Bandolo! (título retirado de uma história de quadrinhos) quer dizer, nada mais nada menos do que, “Cuidado, lá vem o inimigo!”. Na foto da capa do disco, vemos um cantor que contraria toda a lógica do star system da Música Brasileira de 1973 – Raul se mostra magro, esquelético, de olhos entreabertos (efeitos da cannabis?), uma tatuagem na mão e um cordão dourado no centro do peito.
         As canções que Raul reuniu em seu primeiro disco demonstram o talento inacreditável que ele tinha de misturar Rock com baião, forró, ponto de macumba e baladas que carregavam muito lirismo. Krig-Ha, Bandolo! era um disco que mostrava muito deboche da vida brasileira que se vivia em 1973 – críticas ao consumismo (“Ouro de Tolo”), à política (“Al Capone”), ao bom gosto (“Mosca na Sopa”) e que tocou fundo o coração e os ouvidos dos brasileiros. Foi um dos maiores sucessos comerciais daquele ano e levou Raul Seixas para a galeria dos compositores mais importantes da música brasileira.


2) Pink Floyd – The Dark Side of the Moon


            Nenhum disco foi tão genial na cena internacional do que a obra-prima que o Pink Floyd nos ofertou em 1973. Muito já foi escrito sobre The Dark Side of the Moon e muito ainda vai faltar para explicar tudo o que David Gilmour, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason fizeram em apenas 10 faixas. O fato é que este disco é um dos mais importantes de toda a história da música no mundo. É o mais importante da década de 1970, sem sombra de dúvida e, por isso, não podemos deixar de falar sobre ele aqui.
            Primeiramente é importante deixar claro que The Dark Side of the Moon é uma experiência sensorial indescritível. Batidas de coração, pessoas correndo, autofalantes de aeroporto, batidas ensurdecedoras de relógios, gritos de desespero, caixas-registradoras tilintando o som de verdinhas, um arco-íris que se faz, refaz para (enfim) se esfacelar e gestos de loucura para que tudo se exploda assim que o eclipse lunar esconda o sol e dar início a um novo ciclo. Poderíamos descrever este álbum do Pink Floyd apenas pelos sons, se quiséssemos. Letra e música comungam de um credo que uma não chega a se justapor à outra e aí está a genialidade de Gilmour, Waters, Wright e Mason.
Quando eles tocavam juntos, nesta época, era um trabalho dividido de forma equânime: 25% de brilhantismo para cada um. Quando Roger Waters quis tomar os louros da genialidade para si a partir de Wish You Were Here (1975), o Floyd deixou de ser o mesmo. Os álbuns seguintes, Animals (1977) e The Wall (1979), apesar de serem muito bons, não conseguiram dar a mesma continuidade ao feito que eles conseguiram com The Dark Side of the Moon: um disco de banda, não o produto da egolatria de um homem só (Waters, no caso).
Por isso, prefiro me apropriar de um verso recente de Gerson Conrad que diz “que deixemos viver o mito”. Cada vez ouvimos como o lado obscuro da lua pode nos dizer tanto, uma alma é salva em nome do Rock ‘n’ Roll.


1) Secos & Molhados – Secos & Molhados


         Nada, mas nada neste mundo causou tanto furor quanto este grupo em 1973! Com a impressão de que tinham surgido em outro planeta, o Secos & Molhados foi um dos acontecimentos mais revolucionários da música brasileira: dois compositores de mão cheia, um cantor magrelo que cantava e dançava como nunca se tinha visto antes, uma sonoridade que ia do rock ao folclore português, sem deixar de passar por ritmos brasileiros e com um discurso poético baseado em poemas de autores consagrados convertidos em canção, além de letras originais... Ah, e claro: uma boa pitada de contestação dos valores morais, estéticos e, consequentemente, políticos da época na qual surgiu e o nome mais insólito que uma banda brasileira poderia ter...
O Secos & Molhados tinha tudo, menos uma receita pronta para o estrondoso sucesso que fez na época, que tem feito há exatos 40 anos e que ainda fará por mais 40 bilhões de anos: um vocalista com voz de mulher, um compositor de mão cheia, o compositor One Hit Wonder mais significativo da história da música popular brasileira e um som estranho para os padrões da época eram apenas alguns dos elementos que NENHUMA gravadora de grande porte acreditaria hoje em dia!
40 anos depois, a voz de Ney Matogrosso ainda tem a capacidade de seduzir plateias de todas as idades. É praticamente impossível não ficar parado quando “O Vira” começa a tocar em qualquer aparelho de som e dançar ao som de corujas e pirilampos entre sacis e fadas. É praticamente impossível não se emocionar com “Sangue Latino” e “Rosa de Hiroshima”, canções de tom pacifista que eram um grito de liberdade em pleno clima de austeridade imposto pela ditadura militar. O disco de estreia do Secos & Molhados foi um dos poucos discos que tocou TODAS as faixas, repetindo TODAS as faixas do disco (sim, as treze faixas do disco!) nas ondas do rádio do Oiapoque ao Chuí!
Já a capa deste disco é, sem dúvida nenhuma, a capa de disco mais ousada que já foi feita neste planeta: quatro cabeças sendo servidas como pratos principais em uma mesa de jantar!  Os músicos de apoio que tocaram neste disco – Emilio Carrera, John Flavin, Willie Verdaguer, Sérgio Rosadas, Marcelo Frias – fizeram dos teclados, guitarras, baixo, flauta, bateria e percussão elementos de uma massa sonora complexa e de uma riqueza extraordinária de sons e ritmos. O resultado de tamanho esforço coletivo foi a venda de cerca de 1 milhão de cópias em pouco menos de um ano de lançamento, desbancando Roberto Carlos como o artista que mais vendia discos no Brasil.
Com o seu aclamado disco de estreia e com a inesperada receptividade do público e da crítica, o Secos & Molhados deixou de ser um mero conjunto Pop para se transformar em uma espécie de Beatlemania à brasileira e com toques e temperos glitter. A consequência imediata de gigantesca popularidade foi a dissolução da formação clássica do grupo em agosto de 1974, quando Ney Matogrosso decidiu abandonar o grupo alegando “diferenças irreconciliáveis” com o seu companheiro de banda, João Ricardo. Com apenas 13 faixas, o “disco das cabeças cortadas” se tornou uma das pérolas mais brilhantes da canção brasileira!


* Tive a honra de escrever sobre este disco fantástico para o blog Pequenos Clássicos Perdidos, do meu guru Fábio Bridges. Por isso, as informações sobre este disco antológico do Secos & Molhados são uma mera compilação do texto que está disponível no link a seguir:  http://pequenosclassicosperdidos.com.br/2014/01/02/secos-molhados-secos-molhados-1973/




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            Estes são os meus 14 motivos musicais para querer entrar em uma máquina do tempo. Quem sabe um Delorean aparece na porta da minha casa com um cientista que seja mais maluco do que eu e pede que eu volte por uns tempos para 1973? Boa música para ouvir era algo que certamente não iria faltar...