Lojas de discos sempre foram o meu
local preferido no mundo. Se elas são grandes e possuem livros à mancheia,
tenho vontade de entrar nelas e não voltar para a vida social nunca mais,
afinal eu sempre teria algo de novo para ouvir ou alguma coisa de interessante
para ler.
O século XXI e a Era da Mediocridade infelizmente
não conseguem conviver com as lojas de discos. Música se tornou um artigo
supérfluo, que basicamente se ouve no rádio do carro ou nos fones de ouvido de
celular. Visito as casas das pessoas e não vejo mais as coleções de LPs e CDs
impondo suas presenças nas salas de estar, para minha tristeza e decepção. As mídias
musicais continuam cada vez mais caras e são embaladas em um digipack vagabundo. As poucas lojas de
discos que sobraram se tornaram espaços frequentados por colecionadores e
amantes ferrenhos da arte musical como eu, que se satisfazem com tais fetiches
encontrados em utopias sonoras.
A lendária Modern Sound, em Copacabana
As lojas de discos não sobreviveram à
chegada do MP3 e ao streaming e
muitas tiveram que fechar suas portas. Quase morri de tristeza quando a Modern Sound, a lendária loja da Rua
Barata Ribeiro, em Copacabana, fechou. Toda vez que eu ia ao Ilha Plaza
Shopping, localizado na Ilha do Governador, no subúrbio carioca onde nasci e me
criei, e constatava que uma loja de CDs tinha encerrado suas atividades, sentia
pontadas no coração. Não deixei de bradar o meu ódio mortal quando a Neto Discos, localizada no coração da
Rua Augusta e onde comprei alguns dos itens mais adorados da minha coleção de
discos, deixou de existir para virar um restaurante mexicano.
Um vendedor da antiga Neto Discos, na Rua Augusta
Ainda bem que existem alguns recantos
nos quais ainda podemos exercitar nossa paixão por versos e sons em LPs e CDs:
a Augusta velha de guerra, a Galeria do Rock e o sebo Berinjela são pilares de
resistência que ainda me fazem feliz tal qual os protagonistas dos filmes
Durval Discos (Anna Muylaert) ou de Aquarius (Kleber Mendonça Filho), ao ouvirem
um clássico da música (inter)nacional soando truinfal por uma sala.
Marisa Orth & Ary França em Durval Discos (2002), de Anna Muylaert
Sonia Braga em Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho
*
Eu poderia encher várias linhas com
anedotas cômicas, bizarras, vergonhosas e tristes sobre minhas experiências dentro
de lojas de discos. Todavia, gostaria de resgatar uma experiência mais recente
e que foi bastante especial para mim...
*
Carolzinha & Eu - uma amizade de quase vinte anos
Minhas temporadas de férias no Rio de
Janeiro sempre são bastante intensas e animadas. Especialmente porque não
consigo mais passar mais de sete dias na Cidade Maravilhosa. Por isso, meus
encontros com minha amiga Caroline Rohan, que me ama e me aguenta por quase
duas décadas de amizade, sempre são hilários e repletos de boas memórias. Nosso
último encontro de 2016 foi na nossa Copacabana velha de guerra e de tantas
anedotas para contar.
Carolzinha me levou a um paraíso que todo
amante da boa música gostaria de ir na época de Natal: em uma loja de discos na
Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 5. Depois de ter jurado que não gastaria
nem um centavo com novas aquisições, entrei em contradição ao ver a vitrine com
algo extraordinário: uma cópia do álbum de 1973 de Frank Sinatra em LP muito
bem-conservada e por um preço baratinho. Ao ver a capa de Ol’ Blue Eyes is Backcom o
sorriso reluzente e triunfante da Voz,
ignorei por alguns minutos de que ainda nem tenho um tocador de discos de vinil
em casa. Fiquei namorando outros LPs e alguns CDs, mas minha paixão por Sinatra
falou mais alto do que a razão- além da vitrola que ainda não tenho, estou em
uma quebra de braços com a falta de espaço para meus livros e meus discos.
Depois da farra e de algumas conversas
e com o meu Sinatra debaixo dos meus braços, continuamos nossas andanças por
Copa, fomos visitar a recém-inaugurada estátua de nosso amado mestre Nelson
Rodrigues e paramos em um bar para tomar nossas bebidinhas que os canários não
bebem. Antes de ir embora da Zona Sul, pedi a Carol que me levasse para o Beco das Garrafas, um beco na Rua
Duvivier onde Elis Regina começou a cantar e fez história. Fiquei encantado ao
saber que a tal esquina hoje abriga uma loja de discos com uma seção fabulosa
de livros de música.
O melhor da visita à Bossa Nova &
Companhia foi poder conversar com os vendedores da loja, entusiasmados em falar
comigo porque Carolzinha fez questão de dizer que o amigo dela era escritor e
possui um Blog sobre música. Conversamos sobre as discografias de Ney
Matogrosso e Maria Bethânia, contei algumas histórias e ouvi outras deliciosas.
Fiquei com vontade não apenas de ter lançado meu livro por lá, como quis ficar
por lá para sempre, pois a atmosfera do local é composta de versos e sons da
melhor qualidade.
Saí de Copacabana com a crença de que a
vida ainda pode ser leve e doce. Tranquila como uma canção de amor entoada por
Frank Sinatra, poética como um samba gravado por Maria Bethânia e intensa como uma
interpretação antológica de Elis Regina. Graças a uma amiga adorada e que
sempre está disposta a me fazer feliz – naquele dia, eu ganhei de presente um
chaveiro de lembrança com os nomes de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes, dois
dos arautos da música brasileira moderna. Graças a Caroline Rohan, meu amor
pela arte musical, livros e lojas de discos anda comigo aonde quer que eu vou:
afinal, sempre é bom estar em boa companhia...
Para Ciça Carvalho, uma das fortalezas que me inspiram “Sim, minha força está na solidão. Não tenho
medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também
sou o escuro da noite.”
(Clarice Lispector)
Desde que a vida começou a me ensinar
as lições mais amargas da existência que eu ouço o velho e surrado ditado: “Após
a tempestade, vem a bonança”. Apesar de sempre carregar uma pontinha de
otimismo dentro de mim, sempre odiei chuvas – as verdadeiras e as simbólicas. O
desconforto se sente no corpo e na alma, todavia só construímos nossas
fortalezas depois de muitas crises e sem direito a sombrinha ou guarda-chuva
para nos reconfortar.
Tempestades são cursos intensivos de
aprendizagem e autoconhecimento, pois nos ensinam a juntar os cacos de mundos
que são desfeitos com a agressividade do vento e dos raios. Tempestades nos
fazem aprender sobre a importância da dor e do sofrimento para cada um de nós. Tempestades
são dolorosamente necessárias, pois são instrumentos de amadurecimento.
As intempéries doem simplesmente pelo
fato de que não possuem tempo determinado para acabar: podem durar minutos,
horas, dias, anos ou uma vida inteira. No entanto, sempre haverá o momento no
qual o frio passa e o céu se abre para que tudo se renove, se transforme e
novos caminhos se abram. Nem sempre as trilhas são lógicas. As trilhas nunca são
em linha reta. Porém, elas nunca falham. E, por isso, devemos sempre agradecer
aos astros por cada coisa boa e ruim que nos acontece.
Sempre me julguei uma pessoa forte. No entanto,
ao tomar conhecimento da vida de uma de minhas amigas, concluí de que preciso
de muito arroz, feijão e experiência de vida para ter metade da força que ela
tem. Minha amiga é uma verdadeira fortaleza: sempre disposta a superar seus
próprios limites, é corajosa, determinada, guerreira e dona de uma gargalhada
inconfundível. Mãe coragem, profissional dedicada e sempre aberta ao
aprendizado. Vítima do mal que assola milhares de brasileiras, foi vítima de violência
de um antigo companheiro. Tem expiado a dor e a decepção se mostrando ainda
mais forte por dentro, mesmo que fragilíssima por fora e sem se esquecer de seu
belo sorriso. E ainda consegue tempo para participar de uma bateria de um bloco
de Carnaval.
Já que falei de festividades, os dias
de fevereiro são geralmente de bastante celebração por causa do Carnaval que
arrasta milhões de pessoas para as ruas de todo o Brasil. Ótima oportunidade
não apenas para deixar nossos dilemas de lado, como também é um momento e tanto
para exorcizar nossos demônios e protestar contra o que existe de mais torto em
matéria de política neste país. E, em meio ao calor acachapante do verão
brasileiro, a chuva que cai nas nossas costas é sinal de refresco e de
purificação.
Este Vinícius que vos escreve, hoje tão
avesso aos excessos carnavalescos (calor e muita gente não me fazem bem!), pede
ao Rei Momo para que muitas pessoas se animem a pular, dançar e cantar o Carnaval
a São Pedro para que muita chuva seja enviada para as terras de cá. Afinal de
contas, promessas de vida são precisas para que as fortalezas humanas floresçam
e resistam diante das tempestades que vem por aí...
“Some people
go to priests; others to poetry; I to my friends. The beauty of the world,
which is so soon to perish, has two edges, one of laughter, one of anguish,
cutting the heart asunder. If you do not tell the truth about yourself, you
cannot tell it about people.”
(Virginia
Woolf)
Estou longe de ser um tipo, digamos,
popular: não tenho um milhão de amigos, porém sou bastante grato a cada uma das
amizades que tenho e não posso deixar de agradecer aos que um dia me concederam
doces momentos em parceria. Afinal, devo muito do que sou hoje aos encontros e
desencontros que a vida me proporcionou em 30 e poucos anos de caminhada.
Quando era mais jovem, meu temperamento
forte, introspectivo e sensível contrastava com a tendência expansiva de
membros de minha família: eu vivia em meus universos paralelos que cabiam
dentro do meu antigo quarto, enquanto o mundo de meu irmão mais novo não cabia
dentro das quatro paredes de nosso velho apartamento, já que ele vivia na rua e
era uma das pessoas mais populares do pedaço, enquanto eu sempre colecionei os
frutos da minha impopularidade.
Amizades são como pontes: elas sempre
te levam para algum lugar, seja o destino final bom ou ruim. Quando há um
sentimento verdadeiro, podemos alcançar lugares infinitos dentro das relações
humanas. Por outro lado, no momento em que o interesse, a conveniência e a
falsidade entram em cena, falsos amigos possuem máscaras de péssima qualidade e
que, um dia, caem. Depois dos 35 anos de idade, busco relações mais sólidas,
maior qualidade de vida, amigos com a possibilidade de agregar algo de bom. Quero
um amigo inteiro e não pela metade.
Como eu sempre fui um ancião
aprisionado em um corpo de jovem, meu desconforto com o mundo diminuiu um pouco
quando fui para a Faculdade de Letras, um terreno supostamente livre de
preconceitos de quaisquer tipos. O fato de pessoas de variadas faixas etárias
estudarem juntas me fez sentir mais à vontade dentro da sala de aula, algo inédito
para mim até então. Carrego amizades, colegas e umas duas ou três paixões um
tanto secretas no meu convívio pessoal e dentro do meu peito até hoje.
Ao trocar o Rio de Janeiro por são
Paulo no início de 2006, pensei que não sobreviveria à mudança para uma cidade
tão diferente da minha terra natal. Consegui me adaptar completamente graças às
amizades que fiz e aos velhos companheiros que não me abandonaram apesar da
distância. Foi a partir da vida adulta que pude entender o sentido do ditado “Quem
tem amigos não morre pagão”.
O mundo da música, por exemplo, já nos
ofertou amizades inesquecíveis: John Lennon e Paul McCartney fizeram a trilha
sonora de várias gerações à frente dos Beatles. Mick Jagger e Keith Richards
colocaram os egos e às mágoas de lado em nome de mais de cinco décadas de
carreira dos Rolling Stones. Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes fizeram
de sua relação uma parceria que levou a música brasileira para o mundo inteiro.
Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Caetano Veloso e Gilberto Gil modernizaram a
canção brasileira graças a mais de 50 anos de amizade.
Estes exemplos nos mostram que amizades
genuínas sobrevivem a brigas, cobranças, disputas de ego, distâncias e o
próprio tempo. É preciso buscar inspiração nestas pessoas para que possamos
viver de maneira mais leve, alegre e plena. Isso acontece se tivermos amizades
que podemos contar nas pontas dos dedos ou um milhão de amigos...
O ano
de 1972 foi bastante significativo para a chamada “Música Popular Brasileira”
graças a artistas que lançaram discos essenciais para qualquer um que aprecie o
que há de melhor em matéria de canção brasileira. Elis Regina é uma das
artistas que merecem sem lembradas não apenas pela qualidade de seu trabalho em
1972, mas por todos os serviços prestados pelas artes no Brasil.
No
entanto, Elis não era uma figura tão benquista no início da década de 1970 para
algumas pessoas no Brasil. Muitos entenderam suas declarações contra as
turminhas da Jovem Guarda e da Tropicália como reacionárias e retrógadas. Seu
temperamento explosivo e espalhafatoso lhe rendeu uma aura de diva – fato que
também era realçado pelo seu casamento com Ronaldo Bôscoli, um dos artífices da
Bossa Nova. Sua apresentação no Encontro Cívico Nacional, evento organizado
pelo governo militar em 21 de abril de 1972, regendo um coral de artistas que
entoaram o Hino Nacional Brasileiro foi um amargo passaporte para a galeria de
artistas que “apoiavam o regime”. Anos depois, ficou esclarecido de que a
Pimentinha estava sendo ameaçada pelos militares a fazer a tal apresentação
para que pudesse, enfim, dormir em paz e sem se preocupar com a possibilidade de
ser presa e/ou torturada.
A
esquerda e outros reacionários de plantão não hesitaram em levar Elis Regina
para o limbo dos artistas malditos por supostamente apoiarem o regime militar,
o que exigiu uma resposta imediata da cantora: seu repertório precisava ser
mais jovem, mais engajado, menos sisudo. Para a execução desta missão de honra,
a Philips (gravadora da Pimentinha na época) convocou Roberto Menescal para
produzir o disco e o talentoso pianista César Camargo Mariano para fazer os
arranjos. Elis tratou de operar o restante das mudanças necessárias: separou-se
de Bôscoli (desfazendo a parceria de trabalho com o marido e seu fiel
companheiro, Luiz Carlos Miéle), rompeu seu contrato com a Rede Globo de
Televisão e deu início à sua parceria (musical e amorosa) com César.
Elis, segundo disco de uma série de discos que levavam o primeiro nome
da artista na década de 1970, foi lançado em 1972. A partir deste disco, Elis
Regina sentiu-se finalmente livre para explorar limites nunca antes explorados
até aquele momento em sua carreira: sua interpretação tornou-se mais sóbria e menos
exagerada; seu repertório passou a ser mais ousado, mais diversificado, mais
juvenil, porém sem deixar de reverenciar o que há de melhor na tradição de
monstros sagrados da canção brasileira. Enfim, este é o primeiro disco que
reflete a virada musical da carreira da cantora mais importante do Brasil.
O time
de compositores jovens reunidos por Elis e Roberto Menescal para este álbum é
um verdadeiro escrete de talentos musicais invejáveis: Sueli Costa & Vitor
Martins, João Bosco & Aldir Blanc, Milton Nascimento & Ronaldo Bastos,
Fagner & Belchior, Zé Rodrix & Guarabyra, Chico Buarque & Francis
Hime, Ivan Lins & Ronaldo Monteiro de Souza, Zé Rodrix & Tavito… Além
de uma faixa inédita de Tom Jobim, o repertório deste disco se compõe também de
regravações de dois clássicos da nossa Era do Rádio: “Vida de Bailarina”
(Américo Seixas – Dorival Silva) e “Boa Noite Amor” (José Maria de Abreu –
Francisco Matoso).
Elis Regina ao vivo no Teatro da Praia (RJ) em 1972
Veja a tracklist do disco, com uma breve explicação para cada faixa e entenda o
porquê deste trabalho de Elis ser considerado um verdadeiro clássico da música
brasileira:
1) “Vinte
Anos Blue” (3:11) - Parceria da cantora e pianista Sueli Costa com o
letrista Vitor Martins (que se tornaria célebre graças a sua parceria musical
com Ivan Lins anos mais tarde), esta canção é uma balada melancólica que ganha
uma força bastante significativa na voz de Elis, que tinha 27 anos ao gravar
este clássico. O disco abre com a constatação de que a voz que canta já passou
de seus 20 anos de idade e que existe uma série de “perguntas sem respostas”… O
piano de César Camargo Mariano e o arranjo de cordas que surge ao final da
canção conferem a esta gravação uma melancolia típica do Brasil de 1972.
2) “Bala
com Bala” (3:12) - Elis Regina já era conhecida em 1972 como uma verdadeira
caçadora de jovens talentos musicais. Neste disco, não foi diferente ao lançar
uma nova dupla de compositores: o engenheiro, cantor e compositor João Bosco e
seu parceiro, o letrista e psiquiatra Aldir Blanc. “Bala com Bala” é um jazz
arrebatador, pontuado pelo piano elétrico de César e permitindo vários dribles
vocais de Elis, que narra duelos inacabados, batalhas implacáveis e concluindo
(de maneira brilhante!) que “Toda fita em série que se preza, dizem, reza /
Acaba sempre no melhor pedaço”.
3) “Nada
Será Como Antes” (2:45) - Uma das canções mais populares (e políticas) do
disco, esta canção é uma parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. As
notícias de pessoas “distantes” devido à ditadura militar, a falta de utopias
no presente e a crença de que o futuro jamais abrigaria as glórias do passado.
Há uma curiosidade em relação à versão de Elis: os versos “Alvoroço em meu
coração / Amanhã ou depois de amanhã / Resistindo na boca da noite um gosto de
sol” foram suprimidos para dar lugar aos versos pessimistas “Sei que nada será
como está / Amanhã ou depois de manhã”. Pergunto-me o porquê de Elis ter feito
esta omissão de trechos da canção de Milton. Seria por esquecimento? Seria por
desconhecimento do original do Clube da Esquina? Seria intencional? Seria para
deixar seu pessimismo bem claro? De qualquer maneira, a interpretação de Elis
Regina de “Nada Será Como Antes” tornou o clássico de Milton menos esperançoso,
o que, em 1972, era necessário para que as pessoas se conscientizassem a
respeito do verdadeiro clima que pairava nos ares deste país.
4) “Mucuripe”
(2:27) - A quarta faixa do disco é uma toada composta por Fagner e Belchior.
Apesar de ter sido gravada por Roberto Carlos e seu antológico disco de 1975,
foi a versão de Elis que ajudou a popularizar os compositores desta canção, que
pouco tempo depois, gravaram seus primeiros LPs. A interpretação de Elis é
contida, porém não deixa de ser dramática e emocionante.
5) “Olhos
Abertos” (2:37) - Rock rural de Zé Rodrix e Gutemberg Guarabyra (dois
integrantes do trio Sá, Rodrix e Guarabyra). Em um mundo dividido entre
comunistas e capitalistas, hippies alienados e militantes engajados, jovens e
velhos, o canto de desejo de Elis Regina pregava união em um momento no qual o
sistema queria que tudo e todos estivessem reduzidos a fragmentos.
6) “Vida
de Bailarina” (2:25) - A sexta faixa do disco é uma regravação de um dos
maiores hits de Ângela Maria. Tributo composto por Américo Seixas e Dorival
Silva (também conhecido como Chocolate), “Vida de Bailarina” foi a primeira
canção escolhida pela jovem Elis Regina para interpretar nas primeiras vezes em
que participou de concursos de calouros da Rádio Farroupilha, de sua Porto
Alegre natal. A versão que foi registrada nos sulcos do vinil revela uma interpretação
discreta de Elis – fugindo a tradição dos cantores da geração de Ângela e Cauby
Peixoto, que cantavam casos e desenlaces amorosos a plenos pulmões, isto é, a
partir de notas altíssimas! –, conduzida pelo dedilhar jazzístico do piano de
César Camargo Mariano, baixo, bateria e um arranjo singelo de cordas.
7) “Águas
de Março” (3:05) - O Lado B se inicia com a esperançosa “Águas de Março”,
uma dos maiores composições de Antônio Carlos Jobim. Lançada originalmente por
Tom em maio de 1972, em um compacto (dividido com João Bosco) encartado no
lendário semanário underground O Pasquim, a canção foi oferecida a Elis logo
depois. A versão de Elis para a canção de Jobim se tornou tão emblemática que
recebeu uma releitura da Pimentinha ao lado do Maestro Soberano dois anos
depois, quando ambos gravaram Elis & Tom em Los Angeles, nos Estados
Unidos.
As referências literárias e musicais,
escolhidas por Tom foram as mais variadas. No entanto, os versos mais
emblemáticos de “Águas de Março” são justamente os que encerram esta belíssima
canção: (“São as águas de março / fechando o verão / É promessa de vida / no
seu coração”). Através da voz de Tom, Elis Regina lançava em sua viagem de
trevas uma (merecida) fagulha de esperança. A temporada de chuvas que fecha o
verão é símbolo de esperança e renovação, apesar das trevas, dos pregos e do
desgosto.
8) “Atrás
da Porta” (2:48) - Obra-prima da parceria entre Chico Buarque e Francis
Hime, “Atrás da Porta” foi escrita sob medida para a voz de Elis Regina. O que
existe de curioso a respeito da história da gravação deste clássico é que Chico
não havia completado apenas a primeira parte da letra desta canção quando Elis
começou a gravá-la. Ao ouvir a fita que continha estes versos gravados, Chico
emocionou-se e escreveu o resto da letra… O que fez de “Atrás da Porta” uma
canção antológica foi o fato de que Elis a interpretou com o conformismo
desesperado de uma mulher que vivia em crise amorosa permanente. Elis conhecia
muito bem este circuito de trevas, pois, aos 27 anos, já tinha vivido vários
amores frustrados (Solano Ribeiro, Ronaldo Bôscoli e, anos mais tarde, o
próprio César Camargo Mariano).
9) “Cais”
(3:17) – Parceria musical de Milton Nascimento & Ronaldo Bastos, é um
acalanto para a mulher abandonada descrita na faixa anterior. A invenção
torna-se a única arma que restava para a viagem a qual Pimentinha trilhava. O
suntuoso arranjo de cordas e o cravo tocado por César Camargo Mariano conferem
um tom épico e dão à interpretação de Elis uma força de um gigante. Milton,
definitivamente, conseguiu em Elis Regina sua intérprete mais singular, mais
completa e mais competente graças a gravações como esta.
10) “Me
Deixa em Paz” (2:10) - A décima canção que faz parte deste disco de Elis é
uma parceria entre Ivan Lins e seu primeiro parceiro musical, o letrista
Ronaldo Monteiro de Souza. “Me Deixa Em Paz”, destaca-se neste pacote não
apenas pelo piano elétrico de César Camargo Mariano, como também pela elegante
interpretação de Elis, que lembra um pouco as canções que interpretava em suas
lendárias temporadas no Beco das Garrafas.
11) “Casa
no Campo” (2:45) - Outro Rock rural de Zé Rodrix, desta vez em parceria com
Tavito. No entanto, a gravação de Elis Regina para “Casa no Campo” é tão
lembrada pela memória afetiva dos brasileiros que torna-se difícil para
qualquer pessoa que faça música neste país gravá-la… A letra da canção descreve
o desejo que todos nós temos em ter uma casa repleta de amigos, animais,
discos, paz, calmaria, esperança… Além disso, Elis desejava uma “esperança de
óculos” e seu “filho de cuca legal” (João Marcello Bôscoli), desejo que todos
nós que temos filhos também compartilhamos…
12) “Boa
Noite, Amor” (2:23) - O Elis 1972 se encerra com um dos
maiores sucessos de Francisco Alves. Composta por José Maria de Abreu e
Francisco Matoso, trata-se de uma belíssima cantiga de ninar para a pessoa
amada entoada por uma voz contida, precisa, porém sem deixar de ser emocionada.
Pimentinha escolheu para finalizar seu disco uma belíssima declaração de amor
para seu novo marido e parceiro musical por nove anos, César Camargo Mariano. A
participação deste músico foi um dos elementos-chave na produção de um dos
álbuns mais marcantes da discografia de Elis Regina.
*
Se você
nunca ouviu este disco de Elis Regina e quer saber o porquê deste trabalho ser
um dos discos mais importantes não só de 1972, mas de toda a história da música
brasileira, não hesite mais de uma vez e ouça-o! Mas, se você sonha com uma
reedição Deluxe Edition, com todos os
ônus e bônus acoplados, aí vai uma boa notícia: a gravadora Trama, de João
Marcello Bôscoli (filho de Elis), está preparando uma bela reedição deste disco
em CD.
De
acordo com o A & R da gravadora, a proposta deste trabalho consiste em
replanificar o som estéreo do álbum, abrindo os quatro canais da gravação
original em fita analógica e mixá-los através das mais altas tecnologias com o
intuito de eliminar os incômodos ruídos do vinil. Para a execução desta mission impossible, foi convocado um dos
melhores engenheiros de som neste país: Luís Paulo Serafim.
No
entanto, se eu pudesse fazer um pedido ao pessoal da Trama, faria apenas um: o
de que a versão de luxo deste Elis tivesse um encarte maior, uma
ficha técnica detalhada e a inclusão da foto de Elis se espreguiçando na bela cadeira de vime, disponível apenas na
versão original em LP: Discos como este fazem com que qualquer um de nós
entenda o porquê do Brasil ainda necessitar ouvir Elis Regina, afinal ela
sempre terá muito a nos dizer…
Em
1997 já era possível eleger qual tinha sido a voz mais ousada da música
brasileira da segunda metade do século XX: seu nome era Ney Matogrosso. Em pouco
mais de duas décadas e meia de atividades musicais, Ney já tinha feito um pouco
de quase tudo – cantou música Pop à
frente do grupo Secos & Molhados, virou um Homem de Neanderthal para, logo depois, ser um dos Bandidos mais ilustres da MPB. Anos
depois, tornou-se em um irresistível Pescador
de Pérolas uma década e meia depois ao interpretar os clássicos do
cancioneiro brasileiro e fez projetos especiais memoráveis baseados no legado
musical de Chico Buarque e Ângela Maria.
Entretanto,
o projeto musical que Ney Matogrosso concretizou em 1997 era mais radical em
relação a tudo que tinha feito até então. O Cair da Tardeseria um disco no qual Ney apenas interpretaria o
repertório de Heitor Villa-Lobos. Porém, a proposta se completou com canções do
maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um grande discípulo e admirador da obra
de Villa-Lobos. Clássicos da Bossa Nova e da música e câmara, da MPB e de
trilhas sonoras do Cinema Brasileiro ao lado de cirandas e das cirandas mais
belas do folclore nacional, um repertório ousadíssimo e incomum para os fãs e
seguidores do astro. Algo impensável de se cantar no Brasil do final da década
de 1990, embalado pela vulgaridade musical do pagode romântico e de bundas
televisivas que tremiam loucamente ao som de tchans ordinários e de boquinhas de garrafas assanhadas.
Ney
Matogrosso convocou um time extraordinário de músicos para esta gravação:
Leandro Braga (piano), Márcio Montarroyos (trompete), Zero (Percussão), Ricardo
Silveira (violões e guitarras), Bruce Henry (baixo acústico) e Zé Nogueira
(sopros) compuseram a banda de apoio de O Cair da Tarde.
Em algumas faixas, o grupo Uakti (Marco Antônio Guimarães, Arthur Ribeiro,
Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos) fez participações especialíssimas com sua
sonoridade regional e bastante peculiar. A obra de Tom Jobim e Villa-Lobos não
recebeu um tratamento sinfônico e grandiloquente, típico da tradicional música
de câmara, porém foi abordada com enorme reverência e delicadeza por Ney.
“Cair
da Tarde” (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos) é o número de abertura
do disco: o instrumental delicado do Uakti, somado ao trabalho fenomenal dos
músicos da banda de apoio de Ney (com destaque para o piano de Leandro Braga e
os sopros de Márcio Montarroyos), nos transporta para um belo recanto de uma
floresta do Amazonas, com seus bichos soltos pela mata exótica e verdejante. As
faixas seguintes, abordam a melancolia e as belezas de um Brasil que não existe
mais, destruído pela insensibilidade humana e pela ganância dos homens. “Veleiros”,
“Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos), “Prelúdio
Número 3 [Prelúdio da Solidão] (Heitor Villa-Lobos & Hermínio Bello de
Carvalho), “Modinha” e “Sem Você” (Antônio Carlos Jobim & Vinícius de
Moraes) são exemplos deste fato.
Márcio Montarroyos
UAKTI
O Cair da Tarde surpreende os
fãs de Ney Matogrosso e os ouvintes de Jobim e Villa-Lobos por apresentarem
releituras intimistas de clássicos do cancioneiro brasileiro. “Trenzinho do
Caipira” (Heitor Villa-Lobos & Ferreira Gullar) e “Águas de Março” (Antônio
Carlos Jobim) receberam releituras exuberantes e bastante distintas dos
originais. “Pato Preto” (Antônio Carlos Jobim) fecha o disco, com esperança de
trazer uma espécie de alento para o ouvinte, depois de ter sido exposto à tanta
tristeza.
Não
há dúvidas de que O Cair da Tardeé o projeto musical mais audacioso da carreira de
Ney Matogrosso. Apesar de ser um disco bastante radical, já vendeu mais de 70
mil cópias, um marco para a carreira de Ney. Por outro lado, há alguns fatos
importantes sobre este disco que são dignos de registro:
·Turnê
–
Ney Matogrosso não saiu em turnê com este disco. Segundo o artista, ele queria
colocar uma ilha dentro de um lago em pleno palco, com o Uakti de um lado e a
banda de apoio do outro. O altíssimo custo da empreitada fez com que Ney
desistisse da ideia, para tristeza de seus fãs, que até hoje imaginam como
teria sido este espetáculo;
·Capa
do Disco –
A capa de O Cair da Tardetraz a foto de um besouro que pertence ao acervo
científico do Museu Nacional, administrado pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). É a única imagem da discografia de Ney Matogrosso que não traz
uma pose do cantor ou qualquer ilustração que fizesse alusão ao artista;
·Temática
–
Antes de Maria Bethânia ter feito bastante sucesso com o repertório do CD e
show Brasileirinho, Ney Matogrosso foi uma das
primeiras vozes do alto escalão a lançar seu olhar para um Brasil menos conhecido
por parte dos ouvintes de MPB.
O
Cair da Tarde
não é apenas um dos trabalhos mais expressivos da obra de Ney Matogrosso, como
também é um dos momentos mais belos da história da música brasileira. Um disco
que deve ser ouvido no volume máximo a partir das 17h30 de cada tarde, para que
o ouvinte possa se despir de sua máscara urbana insensível e opressora para
poder viver a experiência indescritível de viver um Brasil que só existe nas
obras de Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.
(Raul Seixas, Kika Seixas e Cláudio Roberto, 1980)
O maestro soberano Antônio Carlos Jobim
dizia que o Brasil não era um país para principiantes. Raul Seixas,
sarcasticamente, ainda iria entoar o verso “A solução é alugar o Brasil”. Ao
tentarmos entender os acontecimentos políticos e sociais do Brasil de 2016,
vejo que estas frases fazem cada vez mais sentido. As contradições que regem a
vida de muitos brasileiros são dignas de um estudo acadêmico de fôlego ou de
uma ação urgentíssima de um exorcista para dar um pouco mais de juízo e
coerência para as pessoas.
Os efeitos colaterais do golpe
parlamentar que tirou Dilma Rousseff do cargo e que varreu o PT do Governo
Federal já começaram a aparecer diante dos olhos de todos: o governo golpista e
ilegítimo de Michel Temer tem adotado medidas de altíssima austeridade contra
as camadas mais pobres da sociedade brasileira. A aprovação de uma PEC
(Proposta de Emenda à Constituição) que limita os gastos públicos com saúde e
educação por 20 anos é um retrocesso de três décadas ou mais. Para poder
garantir a aprovação destas medidas, Temer e sua corja aumentaram os salários
do judiciário e do legislativo e investiu rios de dinheiro no GAFE (Globo,
Abril, Folha e Estadão) para garantir a tão sonhada tranquilidade enquanto “trabalha”
pelo Brasil.
A maioria do eleitorado nacional,
descontente com a crise econômica que tem deixado milhões de brasileiros
desempregados e sem dinheiro, elegeu (em alta escala) os políticos mais
conservadores e reacionários do momento para as prefeituras do país. As
principais capitais do Brasil serão governadas pelas expressões locais do que
há de pior em matéria de retrocesso
para o mandato 2017-2020: João Doria Jr. (São Paulo), Marcelo Crivella (Rio de
Janeiro), Alexandre Kalil (Belo Horizonte), Rafael Greca (Curitiba) e Nelson
Marchezan Jr. (Porto Alegre). Um lobista privatizador, um pastor evangélico, um
cartola do futebol, um detrator dos pobres e um neto da ditadura militar.
Milhões de pessoas nas mãos do que há de mais repugnante na classe política
brasileira graças ao antipetismo ostensivo que a mídia brasileira dissemina
diariamente e à falta de tradição reflexiva crítica da maioria dos eleitores.
A busca pela coerência e por uma
compreensão mais clarividente dos fatos e acontecimentos nos causa sentimentos
dos mais negativos: raiva, frustração, decepção, desilusão, desespero,
descrença e muitos palavrões impublicáveis. Não se trata apenas de um mero
desapontamento: tamanha perplexidade se dá diante de dois fatos: 1) o desprezo
de uma parcela expressiva da sociedade por aqueles que pensam e refletem acerca
dos ocorridos (por defendermos a democracia e discordarmos veementemente da
cartilha neoliberal, somos tachados de “petistas”, “mortadelas”, “corruptos” e
por aí vai...); 2) a derrocada dos grupos de esquerda, fragmentada e desunida,
enquanto uma onda reacionária de extrema direita surge aos olhos do público com
a bênção e a chancela do GAFE.
Vislumbrar o apoio significativo para
organizações que abominam as políticas sociais dos governos petistas, que acham
que direitos de LGBTs, negros e mulheres são privilégios, que flertam com o
fascismo e acham nomes como os de Adolf Hitler, Jair Bolsonaro e Donald Trump o
verdadeiro máximo é algo que não apenas dói no fundo da alma, como também é
fruto de muita incoerência e estupidez quando os apoiadores são compostos por
pessoas não-brancas e/ou não-detentoras de privilégios. É de uma burrice atroz
e impressionante ao estarmos diante de tamanha contradição. Os cidadãos que
concedem seu apoio às forças fascistas emergentes são os mesmos que tecem
críticas ferozes às milhares de ocupações de escolas e universidades do Brasil
– para eles, os estudantes que estão protestando contra a reforma do Ensino
Médio e da PEC são meros vagabundos, arruaceiros, maconheiros e inimigos da
ordem pública desinteressados em estudar.
São episódios como estes que revelam a
extensão do preconceito e do ódio de classes, raças, minorias e ideologias que
circulam na mídia e no discurso do brasileiro comum. A livre manifestação do
fascismo sob a chancela de uma “libertinagem de imprensa” que atende aos
interesses das oligarquias brasileiras tem ajudado a eleger políticos dos mais
conservadores nos últimos anos. Os efeitos das “medidas impopulares” destes
governistas serão sentidos pela classe trabalhadora e pela classe média que
apoiou os programas de governo das elites. A democracia, esta verdadeira
exceção do sistema político brasileiro, é comprometida e vilipendiada mais de
uma vez pela falta de pensamento crítico dos que deveriam zelar por ela.
Quando quero entender os rumos nefastos
que o Brasil tem tomado nestes tempos mais recentes, sempre vou ao Google em
busca das máximas incomparáveis de Nelson Rodrigues. Não consigo encontrar
resposta contundente em nenhum filósofo, artista ou intelectual que me
satisfaça tanto quanto as reflexões sensacionais do autor de Toda Nudez Será Castigada. Disse Nelson
certa vez: “É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra
hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a
própria hediondez”.
Sim, Nelson: você tem razão! O problema
é que a hediondez do Brasil se faz cada vez mais presente enquanto a delicadeza
e a compaixão se esvaem a olhos vistos. Nem é preciso pagar o alto preço de um
pensamento coerente para reconhecer isto...