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11 de maio de 2021

TROVA # 165

“LONGAS CARTAS PRA NINGUÉM”


Por que escrevemos?

Porque não podemos somente viver

(Patti Smith – Devoção)



         Do tempo em que escrevíamos cartas, as pessoas davam uma importância gigantesca a papel, caneta, envelope e selos para que notícias, confissões e juras de amor e de ódio pudessem ser transmitidas para o destinatário que fosse. Com a chegada da Internet, das redes sociais e dos smart phones, tamanho encantamento se desfez e as correspondências perderam a sua intensidade: o avanço das tecnologias provocou uma mudança fatal da relação dos humanos com as palavras e as longas correspondências tornaram-se mais um resquício do passado. Quase toda comunicação relacionada às correspondências se tornou restritamente técnico e objetivo, as confissões mais íntimas viraram “textões” ou foram comprimidas em meros 140 caracteres no Twitter.


        A escolha de um blog para dar conta dos pensamentos e memórias que me habitam poderiam ser as crônicas que eu sempre sonhei na coluna do jornal, no portal da Internet ou (quem sabe?) nas páginas de um livro. A escrita que fiz por anos a fio tem sido além de um diário sentimental ou de um journal de críticas e pensamentos avulsos: todos os textos que passaram por aqui são, de certa forma, cartas. Enquanto as palavras do ciberespaço, do jornal e do livro possuem um destinatário específico, certeiro, as minhas correspondências são “longas cartas pra ninguém”, ou melhor, quase ninguém.

        Em uma entrevista de fevereiro de 1977, Clarice Lispector comentou a respeito de um dos assuntos mais discutidos entre literatos: o ato de escrever. Ao ser indagada sobre sua rotina de trabalho, Clarice foi taxativa ao dizer que nunca tinha sido uma escritora profissional e que só se dedicava à Literatura quando queria. Sua afirmação desconcertou por completo seu entrevistador e o público, já que a autora de A Hora da Estrela e Laços de Família já tinha publicado vários romances, contos e textos na grande imprensa até então. Apesar de eu sempre ter nutrido um enorme amor pela escrita (queria ser escritor desde os sete anos de idade!), nunca consegui me sentir um profissional das letras por dois motivos: 1) o anonimato e o meu talento permanente para ser um anônimo; 2) o fato de ter uma profissão que exige tempo e dedicação. Não me satisfaço com o amadorismo, tampouco com o anonimato. Porém, escrever como alternativa foi a solução possível para que eu extravasasse tudo o que eu gostaria de ser, mas que a vida não me permite que eu seja por conta de compromissos e responsabilidades...


         Confessar uma série de coisas nas páginas do papel e pela Internet afora é uma tarefa incomum para alguém que age com a discrição do anonimato. Era uma maneira de compreender a natureza dos fatos e suas consequências. Era um jeito de expressar a pouca saudade que tenho do passado, a vontade intensa de viver o presente e a loucura insustentável de ter o futuro nas mãos. Ou talvez uma forma de esconder minha própria mediocridade e dar a ela alguma espécie de status. Ou nenhuma das respostas anteriores mesmo, afinal há perguntas para as quais não temos solução.


         No entanto, ainda tenho a breve esperança de que cada texto que escrevi para este blog ou para a coluna de jornal dos meus sonhos possa fazer sentido para alguém, afinal foram mais de 115 mil acessos em nove anos de atividade. Tal qual Brás Cubas, um dos personagens mais célebres da ficção de Machado de Assis, também não tive filhos e não transmiti (até então) a nenhuma criatura o legado de minha miséria. Todavia, deixo vários escritos para a posteridade, um livro publicado e a vontade imensa de vida dentro de mim, apesar da barbárie que se abateu no Brasil e pelo mundo a partir de 2020.


         Faz escuro, mas escrevo e também canto. O mundo pode fazer qualquer tipo de acusação contra mim, menos uma: eu sempre tive histórias para contar. E ainda terrei enquanto tiver um papel, uma caneta e um lápis nas mãos. Porque viver apenas não basta para mim: se eu puder viver tendo a possibilidade de escrever já é algo que me deixa mais feliz. E ser feliz em pleno século XXI é um dos maiores desafios que se apresentam para os seres humanos, especialmente para os que vivem no Brasil...

3 de maio de 2021

TROVA # 164

 

80 ANOS DE UMA LONGA ESTRADA

Roberto Carlos sempre soube aliar minha enorme admiração e o meu profundo desprezo



Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada

Do tempo que transforma todo amor, em quase nada

(Roberto Carlos & Erasmo Carlos, 1971)

 


 

Nunca amei e odiei e tanto um artista quanto Roberto Carlos. Amor e ódio são dois sentimentos comuns em pessoas que a gente admira, que a gente ama para que possamos, logo depois, desferir as piores pragas e juras de maldição. Mas não tem jeito: meu cérebro e meu coração sempre entram em conflito permanente quando o assunto é El Rey - apelido que eu dei para o intérprete de “Detalhes”.

 

Roberto Carlos surgiu na minha memória bem cedo: os especiais de TV veiculados pela Rede Globo desde meados dos anos 1970 eram obrigatórios lá em casa, um típico lar do subúrbio carioca. Isso sem mencionar as fitas cassete que meu pai ouvia no carro com os clássicos do Rei. Para uma criança / adolescente do subúrbio na década de 1990, Bob Charles não era o entretenimento mais irresistível do mundo. Enquanto meu pai cantava versos como “Daqui pra frente / Tudo vai ser diferente / Você tem que aprender a ser gente / O seu orgulho não vale nada (...)” de frente para a TV e revivia um clássico da sua juventude, tudo que me sobrava era a inevitável vontade de bocejar até não poder mais. 

 

Eu tinha 12 anos de idade quando Maria Bethânia (por quem já era apaixonado) lançou o seu já clássico disco As Canções que Você Fez pra Mim (1993). Graças àquele álbum, eu passei a ver o cantor que já tinha entoado quase tudo em matéria de música romântica com um pouco mais de respeito. Apesar de ainda achar que Roberto Carlos era sinônimo do que havia de mais antiquado e cafona. Apesar de Bethânia ter feito uma aparição ao lado de El Rey cantando “Fera Ferida” em dezembro daquele ano.

 


Foi no início dos anos 2000 que minha percepção sobre Roberto Carlos mudou de vez. Graças à descoberta da Tropicália e da deferência de Caetano e Gil pela turma da Jovem Guarda, eu passei a respeitar El Rey um pouquinho mais. Pouco tempo depois, descobri os seus discos lançados entre 1968 e 1983 - a sua fase mais romântica, adulta, com canções apaixonadas, confessionais, gravadas em estúdios no exterior. Foi inevitável: aos 20 e poucos anos eu ouvia as mesmas gravações que meu pai ouvia no carro em meados dos anos 1980 e me encantava com a qualidade de clássicos como “Detalhes”, “Proposta” e “Além do Horizonte”. Apesar desse repertório me trazer a memória do peru de natal que comíamos no final do ano e a lembrança das canções inevitáveis chatíssimas que viriam no pacote, passei a ouvir um pouco mais a obra de Roberto.

 

Porém, toda relação conflituosa tem os seus altos e baixos e 2007 foi o ano em que as minhas predileções por El Rey caíram por terra. Como reação ao lançamento da biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita pelo competentíssimo Paulo César de Araújo (professor, jornalista e acadêmico de primeiríssima linha), o Rei não hesitou duas vezes antes de ir aos tribunais para tentar retirar o livro de circulação. Motivo: “invasão de privacidade”. Roberto, um notório conservador (e apoiador da Ditadura, dizem as más línguas), não admitiu ver certas passagens de sua vida reveladas com tanta precisão. Paulo César, um fã confesso de Bob Charles, escreveu um texto respeitoso, honesto, de uma beleza singular. Uma declaração de amor em forma de livro. Mesmo assim, El Rey, do alto de sua ingratidão, não perdoou seu súdito; processou o autor, recolheu os livros e provavelmente os queimou. Afinal de contas, seus segredos, conquistas amorosas ou suas puxadas de tapete não poderiam ficar expostos diante do público conservador que sempre o apoiou. 

 

Quando Roberto Carlos se revelou um autoritário de primeira linha, fazendo inveja a Hitler (que queimou livros em praça pública), passei a nutrir um ódio mortal por Vossa Majestade. Por sorte, adquirimos uma cópia do livro de Paulo César de Araújo em janeiro de 2007, já prevendo que El Rey poderia mobilizar seu exército de advogados para impedir que os detalhes de sua intimidade fossem devidamente catalogados e analisados em uma biografia. Ao somar todas as taras e manias do astro que se tornaram públicas, eu passei a fazer da transmissão de seus especiais de TV uma oportunidade e tanto para exercitar um dos meus maiores talentos: o de maldizer. Já que Vossa Majestade está na pista com todos os seus TOCs, por que não tirar proveito disso? 


 

O início da carreira de Roberto Carlos, como se sabe, foi marcado por uma quantidade de portas fechadas e nãos de todos os tipos, já que ele sempre foi um cara humilde, suburbano e sem uma voz de arrebatar multidões como Cauby Peixoto ou Francisco Alves. Tentou fazer sucesso sempre indo atrás dos ritmos que faziam sucesso na época: começou imitando Elvis Presley, depois tentou ser um cantor de Bossa Nova e finalmente estourou nas paradas de sucesso com o Iê-Iê-Iê. Quando sentiu que o público estava se cansando do som da Jovem Guarda não pensou duas vezes antes de pular do barco e começar a fazer uma música mais adulta, madura, com o objetivo de embalar as massas. 

 

Sua guinada na virada dos anos 1960 para os 70 deu muito certo: seus discos, sempre lançados na época do Natal, vendiam 1 milhão de cópias no auge do sucesso. Roberto sempre soube estar na crista de onda, seguindo as tendências musicais e o que tinha potencial de venda. Por isso, chegou a cantar com artistas de todos os tipos e tendências. Não porque eles eram necessariamente talentosos (muitos deles ainda são!), mas porque eles são máquinas de fazer dinheiro! El Rey, como bom vampiro musical, precisava sempre se reconectar com novas faixas de ouvintes.


 

Roberto Carlos chegou aos 80 anos de idade em abril de 2021 com a certeza absoluta de que é o maior nome que o showbiz brasileiro já produziu em décadas. Antes um desconhecido cantor de boates vindo do subúrbio, El Rey conquistou o seu respeitável público (composto de classes mais baixas) com o seu carisma exposto pela TV, para depois cantar para pagantes bem endinheirados em estádios, casas de show e em cruzeiros com ingressos a preços estratosféricos. Desprezado pelas elites no passado, adulado pelos mais endinheirados e pelo mesmo povão que sempre o amou, Roberto é dono de uma obra monumental, cujas canções mais emblemáticas - compostas em parceria com Erasmo Carlos seu “eterno amigo de fé e (...) irmão camarada” - compõem a lista dos maiores clássicos da nossa música. 

 

Apesar das inúmeras decepções com a figura pública, todas essas desilusões tendem a sumir na longa estrada. Afinal de contas, os ídolos sempre despertam um amor sem limite dentro de cada um de nós...

8 de setembro de 2020

TROVA # 150

 

SETE DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?

Vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros?

              


 

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar

Livre para amar

Livre para amar

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Ir aonde quiser

Ir aonde quiser

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ser o que ele é

Ser o que ele é

(Gilberto Gil, 1976)

 

Estamos a dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200 anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.

Antigamente, a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas janelas abertas da Internet e dos meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?) condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.

Porém, é importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente, eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...

O atual Governo Federal, eleito na base das fake news e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou aos yankees uma base militar no Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres (Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais etc.) e favorecendo os mais ricos.

Outro motivo gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos situações tão absurdas assim...

A ocasião do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país, é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?

Por outro lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise, por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.




7 de setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil, devemos ser livres para ser e amar como quisermos...

12 de fevereiro de 2018

TROVA # 146

DIAS DE FOLIA

Av. Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro

“Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!”
(Chico Buarque de Hollanda)



         Este é meu trigésimo sétimo Carnaval. Não me lembro de todos, e ainda tenho a memória de alguns inesquecíveis. Já me rendi aos encantos da folia, porém hoje em dia aproveito os dias de festejos não apenas para descansar um pouco da loucura recém-iniciada do ano letivo, como também para ler um pouco, acompanhar os festejos pela TV, ver alguns desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e até tento sair em um ou outro bloco carnavalesco, para não dizer que determinadas emoções eu vivi.

Acadêmicos do Baixo Augusta na Rua da Consolação, com a Pça Roosevelt à esquerda

         No passado, eu adorava desfrutar dos prazeres da carne durante os dias em que o Rei Momo governava as cidades e nos garantia quatro dias de folia, irreverência e batucada. Porém, os 30 foram chegando, me mudei para São Paulo (que só foi resgatar os carnavais de antigamente de alguns anos para cá) e o meu coração passou a pertencer a alguém. Além disso, minha resistência para aglomerações foi diminuindo e a minha paciência para programas coletivos ficou bem limitada. Folia imperdível é a que fica entre o sofá, a cama e o sol da piscina com algumas saídas com hora marcada para voltar.

As multidões na folia do Rio de Janeiro

         Além do empurra-empurra e do pessoal que bebe demais e resolve satisfazer suas vontades fisiológicas no meio da rua (não existe coisa mais desagradável do que cheiro de urina), o calor do verão me deixa profundamente angustiado. Outro motivo que me mantém em casa é a violência que não dá trégua durante o Carnaval: tenho pavor de assaltos e as cenas de criminalidade na TV me deixaram ainda mais sem vontade de sair às ruas. Não há irreverência ou marchinha de carnavalesca que resista à falta de policiamento nas ruas das grandes cidades brasileiras. Por outro lado, a vontade de protestar contra os governantes e as injustiças e me divertir cantando e espantando os males diários ainda me dá vontade de sair de casa e ainda acreditar que posso me sentir melhor...

A lendária Banda de Ipanema

         Diante de uma série de retrocessos e de direitos que os brasileiros têm perdido nos últimos dois anos, o Carnaval se tornou em um verdadeiro palco de protesto e resistência do povão e dos defensores da diversidade contra uma elite que sempre teve amor pelo luxo e horror a pobre. Enquanto os detentores de um bom capital conseguem investir em fantasias de alas de escolas de samba, carnavalescos elaboram protestos inteligentes contra o autoritarismo e a boçalidade que têm dado o tom de tempos mais recentes. O que seríamos de nós sem a genialidade de Joãosinho Trinta? E como seria a nossa irreverência se não existissem as marchinhas carnavalescas com suas letras irreverentes de duplo sentido?   

A alegoria de Joãosinho Trinta proibida de desfilar graças à Igreja Católica


            Por outro lado, é importante deixarmos claro uma questão fundamental: o Carnaval é a celebração da diversidade. Por isso, é um momento para que todos possam se expressar da maneira que achar melhor: os foliões podem ir para a rua, os roqueiros podem curtir seu som preferido nas alturas, os nerds podem ficar em casa em maratonas intensas de Netflix, os mais religiosos podem praticar a sua fé em retiros espirituais orando por suas almas e antissociais como eu podem ficar entre a rua e o conforto sagrado do lar. Se a individualidade de cada um fosse respeitada, a liberdade não seria uma constante apenas durante quatro dias de fevereiro ou março.



7 de fevereiro de 2018

TROVA # 145

BREVE MANUAL DE ETIQUETA PARA PLATEIAS DE SHOWS


         Um dia eu ainda irei escrever um livro para satisfazer as demandas do mercado. Quem sabe um desses manuais de moda e etiqueta ao estilo da Glória Kalil só que aplicado aos eventos musicais, porém com muita ironia e o deboche que me cabem neste latifúndio cibernético.
         Os principais eventos de um artista que se aventura pelo universo da música são os shows. Neste momento, o público possui a tão esperada oportunidade de ver a banda, o cantor ou a cantora de que tanto gosta no exercício de sua arte em carne e osso. Se existe a chance de ouro de ir até o camarim e estar com o seu ídolo face-to-face, você ainda pode trocar algumas palavrinhas com ele, tirar uma foto e pegar um autógrafo.
         Com o advento dos smart phones e das redes sociais, uma parcela do público de shows literalmente perdeu algumas noções básicas de bons modos e civilidade enquanto o artista faz o seu trabalho perante a plateia. Por isso, aproveito esta chance para fazer um TOP 10 dos comportamentos mais desagradáveis em shows:

    1) CHECAR REDES SOCIAIS DURANTE A APRESENTAÇÃO – É simplesmente inacreditável que os detentores de ingressos dediquem o seu tempo e dinheiro enquanto plateia para checar os chats do WhatsApp, os likes e DMs do Instagram, as transmissões ao vivo do Snapchat, Instastories e do Facebook. Além do fato de que o olho humano se desloca para lente da câmera e/ou para o visor do celular e de que a luminosidade e os ruídos dos telefones incomodam a concentração dos demais.

        2) TIRAR FOTOS E FILMAR O SHOW INTEIRO COM CÂMERAS, TABLETS E CELULARES – Não há coisa mais tosca, cafona do que posar para uma lente fotográfica com a cara mais feliz do planeta enquanto um músico se apresenta para uma plateia. Selfies em shows são o que há de mais brega em matéria de comportamento humano: dois ou mais animadinhos sempre incomodam aqueles que estão dispostos a desfrutar de uma boa música ao vivo.
Lembro, certa vez, de um surto que tive com uma louca que queria porque queria que eu interrompesse todas as atividades para tirar uma foto comigo e com meus amigos durante um show de Zélia Duncan. Em outra ocasião, tive que disputar terreno em uma plateia do SESC Itaquera para não derrubar um tripé de filmadora que estava estrategicamente posicionada para a filmagem de um show inteiro: não era a TV SESC, era um fã obcecado que achou mais importante ter que filmar tudo...
Deixar os outros em posição desconfortável por causa de um capricho tão egoísta – tirar fotos e filmar – é de uma insensibilidade sem tamanho. Restringir a liberdade alheia por um desejo seu é o cúmulo do ridículo...

3) CONVERSAR COM QUEM ESTÁ AO LADO DURANTE O SHOW – Certas pessoas se comportam em locais de show como se estivessem em estádios de futebol. Apenas se esquecem de que os músicos estão longe de serem craques da bola e de que cada número do setlist não é um lance futebolístico digno de análise ou comentário. Por isso, para que raios agem como se fossem o Neto ou o Galvão Bueno?!
Não me esqueço de um show de Angela Rô Rô no Teatro FECAP no qual um casal sentado atrás de mim comentava as piadas e canções daquele dia como se estivéssemos em uma final de Copa do Mundo. Por isso, amiguinho: não comente nada durante o espetáculo, sinta a música. Deixe para fazer isso durante a pizza após o evento...

4) RECLAMAR EM VOZ ALTA PORQUE NÃO OCARAM A SUA CANÇÃO PREFERIDA DURANTE O SHOW – Há comentários que são infinitamente desagradáveis. Principalmente quando são feitos durante uma apresentação que está agradando a maioria do público. Não estrague a alegria dos outros e não atrapalhe o trabalho de quem está no palco: Robert Plant não vai tocar “Stairway to Heaven”, Marisa Monte não é obrigada a tocar “Bem Que Se Quis”, Ney Matogrosso não canta “Telma Eu Não Sou Gay” nem por um decreto! O artista não tem a obrigação de tocar o que o público exige e nós, pagantes, não somos obrigados a encarar as lamentações dos outros.

5) GRITAR PEDIDOS DURANTE O SHOW – Teatros e casas de shows não são bares ou restaurantes com música ao vivo, onde basta enviar um bilhetinho pedindo “Flor de Lis”, “Oceano”, “Sozinho” e outros clássicos das FMs. E não existe nada mais deprimente do que ouvir um “TOCA RAUL!” em meio a uma apresentação. Deixem o espírito do Mestre Raul Seixas em paz...

6) BEBER MUITO DURANTE O SHOW – Se bêbados já são pessoas desagradáveis em bares, imaginem em eventos musicais com open bar? São representantes do que há de mais inconveniente no pedaço: ter que se deparar com poças de vômito, com o péssimo comportamento provocado pelo álcool e outras situações horrorosas é o cúmulo da falta de elegância! Além da alta possibilidade de barracos, provocações e brigas...

7) JOGAR O CORPO PARA FRENTE DO PALCO DURANTE O SHOW – O direito mínimo das pessoas que enfrentam horas e horas de fila para conseguir um lugar privilegiado na frente do palco, é ter o seu espaço garantido durante o evento. Por isso, é muita falta de educação e de ética chegar poucos minutos antes do show e ficar empurrando os demais para conseguir um lugarzinho bacaninha para ver a estrela da noite. Se queres conforto, chegue mais cedo!

8) LEVANTAR DO ASSENTO DURANTE O SHOW – Em certas ocasiões, precisamos fazer uma passagem pelo banheiro durante uma apresentação musical. Quando isso acontece comigo, me levanto de onde eu estou repleto de vergonha e vou discretamente ao destino tão desejado. Venhamos e convenhamos, há pessoas que extrapolam os limites do bom senso. Exemplo: estava eu em um show de Gal Costa numa renomada casa de show de São Paulo quando notei o burburinho de duas mesas de lados opostos da Pista VIP, onde eu, por acaso, estava. Uma moça da mesa do lado esquerdo se locomovia freneticamente para o lado direito (e vice-versa) enquanto Gal cantava o repertório de Recanto para ficar conversando com os amiguinhos durante o show. Nenhum problema em relação à hiperatividade da criatura se não fosse o fato de que ela estava EM PÉ ao lado direito da casa bem na frente deste que vos escreve para fofocar. Meu surto foi inevitável: expulsei a cidadã do meu campo de vista com meia dúzia de patadas e grosserias e voltei ao show de Gal com uma raiva imensa do tempo perdido. É muita petulância alheia com alguém que pagou ingresso caro para assistir uma das artistas que você mais gosta.

9) GRITAR DECLARAÇÕES DE AMOR PARA QUEM ESTÁ NO PALCO DURANTE O SHOW – Deixemos algo bem claro: você pode gritar e berrar o quando você quiser para o artista que ele é amado, desejado ou que ele é “lindo, tesão, bonito e gostosão” ou até que deseja fazer coisas impublicáveis com ele ou ela. (In)felizmente, quem está no palco geralmente não poderá ouvir os anseios da plateia. Shows de Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Ana Carolina reúnem uma quantidade sem fim de frases que eu tenho vergonha que reproduzir aqui. Show de Chico Buarque então é um festival eterno de correio para o monstro de olhos azuis que me faz entender o fato dele raramente sair em turnê. No entanto, tem uma passagem hilária ocorrida comigo: em uma área VIP de um show de Paul McCartney em São Paulo, um rapaz de 20 e poucos anos não cansava de gritar “I love you, Paul!” para o ex-Beatle, inerte aos desejos histéricos individuais de 2 ou 3 e empenhado com um show de quase 180 minutos pela frente. Já uma amiga minha me contou que quase espancou uma quarentona louca que berrava na pista (500m de distância do palco!) de um show dos Rolling Stones de que Mick Jagger TINHA que fazer um filho com ela a todo custo.

10) ARRANJAR CONFUSÃO NO CAMARIM APÓS O SHOW – Se existe a oportunidade de outro de ir até o camarim e estar, por breves instantes, com o seu ídolo face to face após um show, já é um motivo e tanto para se sentir nas nuvens: trocar algumas palavrinhas, tirar uma foto e ainda pegar um autógrafo são ingredientes perfeitos para a plenitude da sua felicidade musical. Entretanto, há pessoas que desconhecem noções básicas de respeito e civilidade em situações assim. A admiração se transforma em histeria. As vozes histéricas se convertem em um desrespeito pessoal à figura do artista: ninguém é obrigado a tirar um milhão de selfies ou a autografar uma série sem fim de capas de disco ou de quinquilharias e ainda ter que sorrir freneticamente depois de horas extenuantes de ensaios, passagens de som e dos shows em si. O camarim não é a Ilha de Caras! Além disso, sempre há aqueles fãs que se acham mais dignos do que outros e adoram menosprezar os demais fãs e sugam o artista como um vampiro sedento por sua presa inocente. Diante do caos típico de toda porta de camarim, lembro-me sempre de uma frase muito sábia dita por minha fada madrinha: “O ingresso te dá direito ao show e não a uma ida ao camarim!”.  Quando não estamos no meio daquelas rodadas bregas de meet and greet, vale levar em conta que o artista não é propriedade particular do fã. Por isso e por muito mais, respeito e privacidade sempre fazem bem em uma hora dessas.  
Eis 10 dicas de etiqueta para que você possa se comportar adequadamente em eventos musicais. Se você seguir estas recomendações à risca, cada show será uma oportunidade e tanto de ser um acontecimento inesquecível. Nem a Glorinha Kalil ou essas blogueirinhas de plantão teriam te dado dicas tão bacanas como essas...

7 de setembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 41

CHICO BUARQUE – CARAVANAS (2017)




         O vocábulo caravana é originado do árabe e significa comboio de viajantes, peregrinos ou mercadores dispostos a percorrer grandes distâncias. Isto posto, cabe deixar claro que o mote utilizado por Chico Buarque para batizar o seu 23° álbum de estúdio é bastante peculiar: as nove canções de Caravanas fazem referência direta ou indiretamente a alguma espécie de viagem, seja esta literal ou simbólica.


         Caravanas é composto por nove canções: duas já gravadas por Chico Buarque em projetos alheios e sete inéditas. As referências musicais e literárias utilizadas por Chico para compor as novidades de seu repertório são bem distintas: “Tua Cantiga”, faixa de abertura do álbum e escolhida como o primeiro single do disco, é uma parceria do autor de “Meu Caro Amigo” com o pianista Cristóvão Bastos – com quem compôs e gravou “Todo Sentimento”, em 1987. A melodia de Cristóvão foi levemente inspirada em uma obra de Bach e nos velhos lundus que eram compostos na virada do século XIX para o início do século XX. Alvo de polêmicas devido ao verso “Largo mulher e filhos”, os versos da canção expõem um sujeito poético romântico, disposto a se aventurar por sua musa adorada.



         A segunda faixa do CD, “Blues pra Bia”, é outra caravana amorosa: o eu-lírico forjado por Chico compôs uma canção para outra musa: uma figura inacessível graças ao fato de se enamorar por... mulheres! Chico trata da homossexualidade de Bia sutil e delicadamente, algo impensável em termos de música brasileira décadas atrás – “(...) no coração de Bia / Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Para ela me enamorar”; uma novidade temática para um compositor acusado recentemente de machista e de não estar sintonizado com os tempos atuais.



         “A Moça do Sonho”, parceria de Chico com Edu Lobo, foi composta para a trilha sonora da peça Cambaio, cuja primeira montagem foi dirigida por João e Adriana e Falcão em 2001. Gravada por Maria Bethânia para seu álbum Maricotinha (2001), nunca tinha recebido a voz de Chico. A canção versa sobre uma figura feminina que habita os devaneios mais selvagens do sujeito poético. Uma caravana poética em busca do desejo: “Há de haver algum lugar / Um confuso casarão / Onde os sonhos serão reais / E a vida não / Por ali reinaria meu bem / Com seus risos, seus ais, sua tez / E uma cama onde à noite / Sonhasse comigo / Talvez”. “Jogo de Bola”, a quarta faixa de Caravanas, é mais uma das canções de Chico Buarque sobre uma de suas maiores paixões: o futebol! Falar sobre os prazeres surgidos das coisas mais simples da vida em tempos nos quais a indelicadeza se tornou uma constante no que diz respeito às relações humanas: “Salve o futebol, salve a filosofia / De botequim, salve o jogar bonito / O não ganhar no grito a simpatia / Quase amor / Da guria que antes do apito final / Vai sem aviso embora”.


Dois Chicos: o Buarque e o Brown

         Chico Buarque decidiu fazer conexões com as gerações mais jovens em seu 23° álbum de estúdio. A valsa “Massarandupió” é uma parceria de Mestre Buarque com o neto Chico Brown (filho de Helena Buarque com o músico Carlinhos Brown). Os versos do avô versando sobre o neto, que brincava nas areias da praia de Massarandupió quando menino foram o mote para uma das faixas mais belas de Caravanas. Já a conexão do autor de “Construção” com a neta Clara se deu com a regravação de uma das obras mais belas do cancioneiro buarqueano: “Dueto” foi gravada pela primeira vez para o álbum Com Açúcar, Com Afeto (1980), de Nara Leão e recebeu uma regravação, brejeira e com menções ao amor que existe nas mídias sociais.


Chico ao lado de sua neta Clara Buarque

         “Casualmente”, é uma parceria de Chico Buarque com o baixista Jorge Helder que tinha sido originalmente idealizada para a voz de Omara Portuondo, uma das maiores vozes de Cuba. Na impossibilidade da estrela principal de Buena Vista Social Club gravar a canção em questão, Chico decidiu retomar os trabalhos de composição para o repertório de Caravanas. A caravana em questão faz uma viagem sentimental à Cuba de tempos românticos, que jamais se materializarão novamente: “Não voltará nunca mais / A canção sentimental / Que casualmente em Havana escutei cantar / Uma mulher / Como já não verei / Outra vez nada igual”. Já a oitava faixa do disco, “Desaforos”, é um plácido recado aos tribunais das redes sociais, sempre dispostos a julgar e condenar qualquer um prestes a desafiar as convenções, o senso comum ou o “coro dos contentes”. O recado de Chico é sutil, porém certeiro e claro: “Alguém me disse / Que tu não me queres / E que até proferes desaforos pro meu lado / Fico admirado por incomodar-te assim / Jamais pensei / Que pensasses em mim”. Parece que, depois desta gravação, os detratores da Família Buarque terão muita artilharia para dedicar ao “mulato que [apenas] toca boleros”, petista e que viveria às custas dos incentivos da Lei Rouanet em um suntuoso apartamento em Paris.


Chico ao lado do baixista Jorge Helder,  seu parceiro musical em "Casualmente"

         A última canção do disco, “As Caravanas”, é uma crônica feroz da classe média carioca em um de seus momentos de maior pânico: a chegada de integrantes das comunidades “negras e imundas” nas praias “alvas e límpidas” da Zona Sul carioca em caravanas infindáveis. A alucinação gerada pela luz forte do sol é apenas um pretexto para justificar a sanha violenta de brancos dispostos a fazer uso dos dispositivos mais covardes para se sentir minimamente protegida ou uma fonte de alucinação de quem ouve vozes de negros escravizados em caravelas, reprimidos em transportes públicos sucateados que os levam para o idílio das praias do Leme ou de Copacabana.


         “As Caravanas” é uma das canções mais políticas do repertório de Chico Buarque, pois relata o sentimento mais torpe e medíocre da classe média brasileira a partir de um viés histórico, que muitos de nós acabamos por esquecer. Os versos de Chico ganharam um tom ainda mais forte graças aos arranjos de cordas de Luiz Cláudio Ramos e a participação de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho, fazendo beat box. É o fechamento de um dos melhores álbuns de Chico em mais de 20 anos.

Chico ao lado de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho


         Apesar de seus brevíssimos 28 minutos, Caravanas é um álbum que merece ser ouvido por ouvintes de todas as gerações para reconhecer o talento indiscutível de Chico Buarque como um dos maiores tradutores da nação brasileira em matéria de canção.