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12 de outubro de 2017

DISCOS DE VINIL # 44

SECOS & MOLHADOS – SECOS & MOLHADOS (1974)


Nos primeiros meses de 1974, a maior sensação musical do Brasil se resumia a um nome: o grupo Secos & Molhados. Graças a um disco de estreia extraordinário, apresentações ao vivo empolgantes e uma necessidade de muitos brasileiros em ouvir uma expressão de liberdade em meio à repressão política e moral imposta pela ditadura militar, Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso se tornaram extremamente populares em todo o país.


Em janeiro de 1974, o Secos & Molhados retornava de maneira triunfal a um dos palcos mais emblemáticos da história da música brasileira: o Teatro Thereza Rachel, o mesmo local no qual Gal Costa realizara um de seus espetáculos mais inesquecíveis em toda a sua carreira – FaTal: Gal a Todo Vapor. O rebuliço em torno de Ney Matogrosso era tão grande naquela época que havia uma censora que o acompanhava desde a sua chegada ao local até o fim de cada apresentação.

Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad

No entanto, nenhum evento foi tão marcante para a trajetória do Secos & Molhados do que o dia 23 de fevereiro de 1974. Até aquele momento, nenhuma atração musical nacional (salvo os Festivais da Canção) tinha conseguido lotar o Ginásio do Maracanãzinho. A popularidade do S&M era tão expressiva que lotou a capacidade do local e ainda deixou milhares de fãs desesperados do lado de fora.

O Secos & Molhados no Ginásio do Maracanãzinho - 23/02/1974

Logo depois a lendária apresentação do Maracanãzinho, o Secos & Molhados embarcou em sua primeira turnê internacional. Pouco antes de embarcarem para o México, o empresário Moracy do Val foi destituído de suas funções sob alegação de supostos desvios de documentação – João Apolinário, poeta, crítico de teatro e pai de João Ricardo, foi convocado para empresariar o grupo. Ao retornarem da América do Norte, Gerson, João e Ney entrariam em estúdio para gravarem o trabalho que sucederia o seu extraordinário disco de estreia.

João Ricardo durante as gravações do disco, em 1974.

João Ricardo, idealizador e produtor do primeiro álbum do Secos & Molhados, não apenas assumiu a produção do segundo disco, com também é o responsável por 12 das 13 canções que foram gravadas. Os problemas com a censura fizeram com que Gerson Conrad e Paulinho Mendonça compusessem “Delírio...” já no final das gravações do disco, visto que “Tem Gente com Fome” e “Balada” (canção de João baseada em um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade).

Moracy do Val entre os integrantes do Secos & Molhados

O segundo LP do Secos & Molhados – cuja imagem (as faces de Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso se sobressaem em um fundo negro) é de autoria de Antônio Carlos Morare, o mesmo que fotografou os integrantes para a capa do primeiro disco – não possui a mesma aura lúdica, anárquica e a magia de fadas e pirilampos de seu antecessor. Pelo contrário: várias canções refletem a mentalidade de sombras e trevas que os membros do grupo viviam em meados de 1974. Apesar da atmosfera negativa que envolvia a produção do álbum, “Flores Astrais”, “Voo”, “Tercer Mundo” e “O Hierofante” são as faixas mais marcantes deste trabalho.


A gravadora Continental chegou a montar uma estratégia de marketing fenomenal para promover o segundo LP do Secos & Molhados: anúncios de TV em cinemas de todo o Brasil foi uma das ações de promoção planejadas na época. No entanto, foi durante a participação do grupo no programa Fantástico na primeira semana de agosto de 1974 que o Brasil e o resto do mundo souberam que Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso não trabalhariam mais juntos.


 Os dois videoclipes gravados para a TV Globo são o testemunho de que o Secos & Molhados poderia ter sido se os seus membros não tivessem sucumbido às egotrips e demais conflitos internos. O LP foi lançado na segunda semana de agosto de 1974 com o gosto amargo do fim de uma verdadeira mania nacional que encheu o país de alegria e esperança no auge da Ditadura Militar.



As canções deste disco resistiram com o passar dos tempos. No entanto, o segundo LP do Secos & Molhados ganhou apenas UMA reedição em CD – a da série Dois Momentos, organizada por Charles Gavin, ex-baterista do Titãs, que chegou a remixar os originais de 1974. Apesar da Polysom ter reeditado este LP com toda a pompa e circunstância no início da década de 2010, ainda aguardamos uma reedição deste clássico em CD, com encartes especiais, etc. e tal. Assim, a justiça com a história da carreira fonográfica do Secos & Molhados finalmente terá início... 

30 de julho de 2017

TROVA # 130

O ARAUTO DA LIBERDADE
(OU A NECESSIDADE DE RESPEITARMOS NEY MATOGROSSO)


Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
(Caetano Veloso, 1983)


1) Uma provocação

         Às vésperas de completar 76 anos de idade (em 1° de agosto de 2017) e 45 de carreira musical (se levarmos em conta a primeira apresentação ao vivo do Secos & Molhados, em dezembro de 1972), Ney Matogrosso recebeu uma belíssima homenagem durante o 28º Prêmio da Música Brasileira, organizado pelo empresário José Maurício Machline. Em uma série de entrevistas concedidas pelo artista para divulgar o evento, Ney concedeu uma série de entrevistas para os principais veículos da imprensa nacional, incluindo a Folha de S. Paulo, que fez a seguinte chamada para a matéria ficar bem nos moldes de um bom “caça-clique”: “’Que gay o caralho! Eu sou um ser humano’, diz Ney Matogrosso”.


         Quando li a tal chamada, levei um susto e fui ler a tal entrevista antes de tomar qualquer conclusão ou juízo de valor – objetivo principal de qualquer coisa que o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) possui em seus jornais físicos e virtuais. Em palavras um tanto descuidadas, Ney Matogrosso respondeu se ele se considerou, em algum momento, representante de uma minoria dizendo o seguinte:

“Eu não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim: falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo, ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas, defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos aos guetos.
Me enquadrar como o “gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto de terceiro lugar”.



Ney Matogrosso foi hippie, isto é, vem da geração da contracultura: sempre rejeitou rótulos, limitações, imposições, qualquer coisa que cerceasse o seu desejo de ser livre. Nunca comprou nenhum peixe vendido pelo sistema apenas para agradar a sociedade. O que ele quis deixar muito claro em sua entrevista para a Folha de S. Paulo era justamente isso: a recusa em ser enquadrado sob qualquer rótulo, de forma que não fosse tachado ou limitado a uma ideia só ("cantor das minorias"). Infelizmente, nem todos entenderam assim... 


2) A revolta da turminha do lacre

Em primeiro lugar, vamos definir quem faz parte da turminha do lacre: são artistas LGBT surgidos na segunda metade da década de 2010 que não possuem a menor vergonha em desafiar padrões de gênero e tem feito bastante sucesso com as gerações mais jovens que saíram do armário. Adoram falar alto e ouvir pouco (ou quase nada!), acham Beyoncé e Elza Soares mulheres que “empoderam” (a palavrinha da moda!) seus pares e sempre curtem dar um pitaco em como devemos nos posicionar enquanto membros da causa cor de rosa.
Artistas como Liniker & Os Caramellows e a dupla As Bahias & A Cozinha Mineira são exponentes bastante talentosos dessa turma. Inspirados nas atitudes desse pessoal, a turminha em questão adora reverenciar o que é “lacre” (ou seja: tudo o que é ousado e que está, segundo Valesca Popozuda, “lacrando o cu das inimigas”). Se você diz ou faz algo que não é “lacrativo”, “fechativo” ou “bapho” (com “PH” mesmo!), você é digno de um “pisa menos”, de um “tombamento” e dizeres do tipo.
Eis a questão: quando a controvertida chamada para a entrevista de Ney chegou aos olhos de um dos exponentes dessa turma – um cantor em início de carreira cujo nome me recuso a citar não por questões de querer poupá-lo, mas porque qualquer menção ao nome do indivíduo é forma de publicidade indireta para o trabalho daquele ingrato –, a revolta de uma geração que lê mal, se posiciona mal e obcecada por “dar um close”, fez uma postagem arrasando com Ney Matogrosso em uma rede social. Disse o cidadão:

“É inconcebível ler a frase ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!). Vinda de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público”, comentou. (...) Um artista genial que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. (…) E em tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon”.

Diante da sucessão de enganos a respeito de Ney Matogrosso, é preciso deixar algumas coisas bastante claras:

a)  Apesar de sempre ter se recusado a fazer militância no sentido tradicional da coisa, Ney Matogrosso é um dos homens que mais batalharam pelo desenvolvimento da causa LGBT no Brasil: desafiou a ditadura e a censura durante os governos Médici e Geisel, seja à frente do lendário grupo Secos & Molhados ou em bem-sucedida carreira solo, ao quebrar padrões de gênero com coreografias e figurinos extravagantes, se maquiando e rebolando em pura demonstração de deboche, insubmissão e irreverência. Deixo para a turminha do lacre um trecho de uma entrevista para O GLOBO, na qual Ney deixa isso muito claro:

“O GLOBO: Quarenta anos depois dos Secos & Molhados, a gente chega a um momento da música brasileira em que os artistas não escondem sua sexualidade, e isso abriu uma discussão enorme sobre a questão de gênero. Você se reconhece no trabalho desses artistas?
NEY MATOGROSSO: Me reconhecer, não, porque eles são eles. Mas a verdade é que quem derrubou a porta fui eu. E o resto é consequência. Porém, não espero que ninguém fique batendo cabeça para mim. Não fiz nada além de atender à necessidade de me impor sobre uma mentalidade muito atrasada, muito estreita”;

b)  A carreira de Ney Matogrosso nunca se apoiou na causa LGBT. Pelo contrário: a causa LGBT sempre necessitou (e fez amplo uso!) do legado de Ney para poder se desenvolver no Brasil;
c)  Um artista que sempre se assumiu como homossexual e está há quase cinco anos dizendo que “Todo mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual” não é alguém que está desatento aos sinais de nosso tempo. O talento de Ney Matogrosso está longe de ser ou estar “cristalizado”: ele está há quase meia década percorrendo as casas de espetáculo do Brasil com o show Atento aos Sinais, um dos mais bem-sucedidos de sua carreira;



Ney Matogrosso no encerramento do Festival de Inverno de Bonito em 29/07/2017 - Foto: Rodrigo Motta

d)  Se artistas como Liniker e As Bahias conseguem “ botar a cara no sol” hoje em dia, elas deveriam agradecer a Ney Matogrosso por ter “dado a cara a tapa” há quase cinco décadas por fazer o que faz nos discos, nos palcos e nos programas de televisão. Não reconhecer isso não é simplesmente uma mera demonstração de petulância, é uma demonstração de burrice.

Show Destino de Aventureiro (1984)

3) As nuances do oportunismo

As redes sociais ferveram com a provocação de Ney e a revolta do integrante da “turminha do lacre”. Textos de opinião defendendo e enxovalhando Ney Matogrosso sem dó surgiram com uma avalanche. Infelizmente, o “embate” entre os defensores e os detratores de um dos maiores artistas da música brasileira deixou uma série de questões bastante caras:

a) A militância LGBT, infelizmente, precisa ser menos radical e sair do estratagema de que “todo bom gay é aquele que levanta bandeira” e não permitir que os haters determinem regras de como todos deveriam agir. Pelo conjunto da obra, Ney Matogrosso está acima de qualquer questão em relação à causa e muita gente ainda não entendeu isso;
b) O episódio serviu como uma luva para ajudar na divulgação do recente álbum do aspirante ao lugar insubstituível de Ney Matogrosso na música brasileira. Oportunismo barato e grotesco: se utilizar do nome de outra pessoa para criar polêmica com a justificativa de que faz muito pela causa LGBT é sinônimo de falta de ética, de canalhice. Comparar a declaração de Ney com uma suposta declaração de Madonna (“Mulher é o caralho!”) é demonstração de maniqueísmo, de falta de instrução.


Ney Matogrosso é o arauto da liberdade (diretamente ou não) de muitos integrantes da população LGBT no Brasil. Fez uso de um discurso libertário, ousado e irreverente para lutar por um pouco mais de igualdade. Dizer se é gay ou não, usar um rímel e delineador em um rosto com um bigode estilo “Freddie Mercury” é fazer muito pouco, quase nada para que um dia gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros adquiram direitos iguais. O intérprete de “Sangue Latino” não está observando atentamente os sinais de nosso tempo do alto de sua cobertura no Leblon: ele está em todos os cantos deste país cantando e dançando, longe do universo de um grupo reduzido de pessoas só sabem “evacuar regras para a vida alheia”.
Por isso e por muito mais que devemos agradecer ao Ney por tanto que ele fez pelos LGBTs, pelos amantes de música popular e pelo Brasil por estar fazendo o que faz com o mesmo primor de sempre. Muito obrigado por tudo, Ney! Eu sei que você não liga para essa gente careta e covarde. A partir de hoje, passarei a fazer o mesmo...
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21 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 12

NEY MATOGROSSO – O CAIR DA TARDE (1997)


                                                                            

                              
                
Em 1997 já era possível eleger qual tinha sido a voz mais ousada da música brasileira da segunda metade do século XX: seu nome era Ney Matogrosso. Em pouco mais de duas décadas e meia de atividades musicais, Ney já tinha feito um pouco de quase tudo – cantou música Pop à frente do grupo Secos & Molhados, virou um Homem de Neanderthal para, logo depois, ser um dos Bandidos mais ilustres da MPB. Anos depois, tornou-se em um irresistível Pescador de Pérolas uma década e meia depois ao interpretar os clássicos do cancioneiro brasileiro e fez projetos especiais memoráveis baseados no legado musical de Chico Buarque e Ângela Maria.


Entretanto, o projeto musical que Ney Matogrosso concretizou em 1997 era mais radical em relação a tudo que tinha feito até então. O Cair da Tarde seria um disco no qual Ney apenas interpretaria o repertório de Heitor Villa-Lobos. Porém, a proposta se completou com canções do maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um grande discípulo e admirador da obra de Villa-Lobos. Clássicos da Bossa Nova e da música e câmara, da MPB e de trilhas sonoras do Cinema Brasileiro ao lado de cirandas e das cirandas mais belas do folclore nacional, um repertório ousadíssimo e incomum para os fãs e seguidores do astro. Algo impensável de se cantar no Brasil do final da década de 1990, embalado pela vulgaridade musical do pagode romântico e de bundas televisivas que tremiam loucamente ao som de tchans ordinários e de boquinhas de garrafas assanhadas.


Ney Matogrosso convocou um time extraordinário de músicos para esta gravação: Leandro Braga (piano), Márcio Montarroyos (trompete), Zero (Percussão), Ricardo Silveira (violões e guitarras), Bruce Henry (baixo acústico) e Zé Nogueira (sopros) compuseram a banda de apoio de O Cair da Tarde. Em algumas faixas, o grupo Uakti (Marco Antônio Guimarães, Arthur Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos) fez participações especialíssimas com sua sonoridade regional e bastante peculiar. A obra de Tom Jobim e Villa-Lobos não recebeu um tratamento sinfônico e grandiloquente, típico da tradicional música de câmara, porém foi abordada com enorme reverência e delicadeza por Ney.



“Cair da Tarde” (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos) é o número de abertura do disco: o instrumental delicado do Uakti, somado ao trabalho fenomenal dos músicos da banda de apoio de Ney (com destaque para o piano de Leandro Braga e os sopros de Márcio Montarroyos), nos transporta para um belo recanto de uma floresta do Amazonas, com seus bichos soltos pela mata exótica e verdejante. As faixas seguintes, abordam a melancolia e as belezas de um Brasil que não existe mais, destruído pela insensibilidade humana e pela ganância dos homens. “Veleiros”, “Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos), “Prelúdio Número 3 [Prelúdio da Solidão] (Heitor Villa-Lobos & Hermínio Bello de Carvalho), “Modinha” e “Sem Você” (Antônio Carlos Jobim & Vinícius de Moraes) são exemplos deste fato.

Márcio Montarroyos


UAKTI

O Cair da Tarde surpreende os fãs de Ney Matogrosso e os ouvintes de Jobim e Villa-Lobos por apresentarem releituras intimistas de clássicos do cancioneiro brasileiro. “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos & Ferreira Gullar) e “Águas de Março” (Antônio Carlos Jobim) receberam releituras exuberantes e bastante distintas dos originais. “Pato Preto” (Antônio Carlos Jobim) fecha o disco, com esperança de trazer uma espécie de alento para o ouvinte, depois de ter sido exposto à tanta tristeza.


Não há dúvidas de que O Cair da Tarde é o projeto musical mais audacioso da carreira de Ney Matogrosso. Apesar de ser um disco bastante radical, já vendeu mais de 70 mil cópias, um marco para a carreira de Ney. Por outro lado, há alguns fatos importantes sobre este disco que são dignos de registro:


·        Turnê – Ney Matogrosso não saiu em turnê com este disco. Segundo o artista, ele queria colocar uma ilha dentro de um lago em pleno palco, com o Uakti de um lado e a banda de apoio do outro. O altíssimo custo da empreitada fez com que Ney desistisse da ideia, para tristeza de seus fãs, que até hoje imaginam como teria sido este espetáculo;
·        Capa do Disco – A capa de O Cair da Tarde traz a foto de um besouro que pertence ao acervo científico do Museu Nacional, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É a única imagem da discografia de Ney Matogrosso que não traz uma pose do cantor ou qualquer ilustração que fizesse alusão ao artista;
·        Temática – Antes de Maria Bethânia ter feito bastante sucesso com o repertório do CD e show Brasileirinho, Ney Matogrosso foi uma das primeiras vozes do alto escalão a lançar seu olhar para um Brasil menos conhecido por parte dos ouvintes de MPB.


O Cair da Tarde não é apenas um dos trabalhos mais expressivos da obra de Ney Matogrosso, como também é um dos momentos mais belos da história da música brasileira. Um disco que deve ser ouvido no volume máximo a partir das 17h30 de cada tarde, para que o ouvinte possa se despir de sua máscara urbana insensível e opressora para poder viver a experiência indescritível de viver um Brasil que só existe nas obras de Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.


4 de dezembro de 2016

TROVA # 101

MEMÓRIAS DE UMA ROQUEIRA MALCOMPORTADA


"A sorte de ter sido quem sou, de estar onde estou, não é nada comparada ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente feliz." 
(Rita Lee – Rita Lee: Uma Autobiografia, p. 269)


Rita Lee lançou suas memórias em livro. Um livro para lá de esperado, interessantíssimo, encantador, honesto, sincero, brutal. Uma narrativa tão envolvente, que eu li em menos de sete noites (por motivos de força maior, eu só podia ler as memórias de Rita durante a parte da noite, antes de dormir). 


Se eu fosse a Rainha do Rock Brasileiro, eu teria dado outro título ao invés de "Uma Autobiografia": daria o título de "Memórias de uma Roqueira Malcomportada" por causa do conjunto da obra mais sincera que a filha de Dr. Charles e D. Chesa nos legou. Rita não se compromete em dar detalhes complexos de sua relação com Os Mutantes ou com os Tropicalistas, tampouco dá explicações detalhadas sobre sua relação de vida e trabalho de décadas ao lado do parceiro / marido Roberto de Carvalho. Datas não são o forte de Madame Lee, o que compreensível para alguém que foi por anos e anos a livre-docente em porra-louquice (só perdendo para Ozzy Osborne ou Keith Richards no quesito "drogas").



Já distante dos palcos e dos holofotes há alguns anos, Rita Lee decidiu fugir dos clichês que rondam o universo do showbiz e reuniu suas memórias em livro sem necessitar de um ghost writer, mas com “causos” bem picantes... 

Por isso e muito mais, decidi elencar 15 motivos para que você não deixe de ler o livro de Rita Lee de maneira alguma:

1) Rita Lee relata os seus problemas com as drogas e com alcoolismo sem rodeios - Sem discurso de "madalena arrependida", a Rainha do Rock Brasileiro fala de seus antigos vícios sem arrependimento, conta um pouquinho sobre suas internações em clínicas de reabilitação, do acidente que esfacelou o seu maxilar e quase a impediu de cantar em meados dos anos 1990 e de várias de suas operações (mastectomia, hemorroida, cordas vocais, reconstrução dos ossos do rosto, retirada da vesícula) e de uma surpreendente suspeita de Mal de Parkinson;




2) Rita Lee encanta os leitores com a bela família que constituiu - O amor intenso e verdadeiro por Roberto de Carvalho, por seus três belos filhos, sua neta e a devoção incansável por seus bichos mil chega a comover o mais insensível dos leitores. Apesar de toda a inconstância da rotina da mulher que mais vendeu discos no país (ela vendeu mais discos do que Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia JUNTAS!), Rita conseguiu dar a prioridade desejada ao seu ninho;



3) Rita Lee conta alguns bastidores surpreendentes do grupo Os Mutantes, do qual foi uma das fundadoras - A arrogância e os egos estratosféricos dos irmãos Cláudio Cesar, Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, a falta de asseio da residência dOzmano da Pompeia, os ataques de D. Clarisse (a matriarca da família) não passaram incólumes pelo olhar e a memória de Rita. Dos episódios com Arnaldo e Serginho, há três fatos inesquecíveis e surpreendentes:


3a) A prima ninfomaníaca dos Mutantes - segundo Madame Lee, Claudia Dias Baptista teria literalmente "passado o rodo" em vários homens que frequentavam uma academia de artes marciais que todos frequentavam na Vila Mariana, a ponto do dono do estabelecimento ter sido obrigado a fechar as portas por conta do escândalo de um homem casado ter se envolvido com uma aluna. Hoje, Claudia é conhecida pelo público brasileiro como Monja Coen, uma liderança budista;


3b) A irreverência e a anarquia dos irmãos Mutantes assombrava mais da metade do mundo musical - De acordo com a autora, o ataque cardíaco fulminante de Vicente Celestino teria sido causado pelo choque de ver os irmãos Baptista aprontando suas estripulias com seus instrumentos musicais. O intérprete de "Coração Materno", que tinha sido convidado para participar do programa coletivo Divino Maravilhoso, tinha ficado bastante transtornado com a passagem de som dos rapazes, que tinham ligado os instrumentos no volume máximo durante uma passagem de som e fez com que Celestino começasse a passar mal dentro dos estúdios de TV. Segundo Rita, o episódio "pegou mal" para a reputação dos Irmãos Baptista;
3c) Desligando Edu - O episódio no qual Os Mutantes deveriam abrir um show de Edu Lobo em Portugal me rendeu altas gargalhadas. Depois de terem sido esnobados pelo autor de "Ponteio" de maneira bem grosseira, Arnaldo, Sérgio e Rita, em um ato de molecagem explícita, decidiram procurar pelos fios que ligavam o equipamento de som de Edu e simplesmente cortaram os fios da apresentação, inviabilizando o show. Sim, aqueles meninos poderiam ser mais terríveis do que se poderia imaginar...


4) Rita Lee e o lendário casarão da Vila Mariana - Localizada no número 670 da rua Joaquim Távora, a residência dos Jones abrigou várias histórias hilárias e algumas tristes do casal Charles Fenley Jones e Romilda Padula Jones (mais conhecida pelo apelido de Chesa), pais de Rita e de suas irmãs mais velhas - Mary Lee Jones e Virgínia Lee Jones. A presença de Balú e Carú, amigas de parentes que se tornaram, posteriormente, em babás e anjos da guarda da família, formava o harém irreverente e católico (Dona Romilda colocava a imagem de Nossa Senhora Aparecida em cima da TV durante as eliminatórias dos festivais da canção dos quais Os Mutantes participavam) que contrastava com o exército de um homem só formado pelo sargento Charles, que controlava tudo com seu olhar intimidador e com mão de ferro.


5) Rita Lee Fã - É, no mínimo, surpreendente que a mulher que mais vendeu discos no Brasil seja uma fã tão ardorosa de James Dean (sua eterna paixão!) e de David Bowie (a quem confessou ser fãzoca - Disse ela a Bowie: "I'm such an old fan of yours", no que ele respondeu, com sua elegância indefectível e seu humor inglês: "Oh yeah, I'm such and old singer"). Pelo fato de sempre ter sido tiete de seus ídolos, Rita alega sempre ter compreendido a idolatria (às vezes, desmedida e excessiva) de muitos de seus admiradores.


6) Rita Lee conta os detalhes de sua primeira vez na prisão, em 1976 - O grande público toma conhecimento dos detalhes que levaram a autora de "Ovelha Negra" para detrás das grades. Em solidariedade à mãe de um fã dos Mutantes que foi morto em uma apresentação do grupo em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, anos antes, Rita decidiu prestar depoimento esclarecendo que o rapaz foi morto por policiais que deveriam estar fazendo a segurança do local. Em represália, os "meganhas" surgiram na residência da artista, na época grávida de seu primeiro filho, "plantaram" drogas pelos cantos da casa e levaram Madame Lee em cana. Um detalhe: com todo o apoio da Ditadura Militar.

7) Rita Lee e seus queridos amigos - A artista não apenas fala da amizade com ilustres e famosos, como também nos brinda com algumas curiosidades deliciosas:
7a) Ritz & Gil - Amigos desde a época da Tropicália, Rita Lee e Gilberto Gil formaram uma parceria musical sólida e uma amizade de muitos anos. Foi ele quem fez com que a filha mais nova de Charles e Chesa largasse de vez os estudos em Comunicação na USP para assumir, de vez, a carreira artística. Padrinho do filho mais velho de Rita e Roberto de Carvalho, Gilberto Gil estava prestes a reeditar a segunda versão do show Refestança junto de sua querida pupila quando teve que declinar do convite pelo fato de ter que assumir o Ministério da Cultura do primeiro governo Lula;





7b) Ritz & Elis - A amizade entre ambas surgiu quando Rita estava presa e Elis Regina foi visitar a colega na prisão, exigindo condições decentes para o encarceramento de Rita. Apesar de César Camargo Mariano ter torcido o nariz em um primeiro momento, Elis se tornou uma intérprete constante da dupla Lee-Carvalho. Foi Madame Lee quem convenceu a geniosa intérprete de "Dois pra Lá, Dois pra Cá" a participar de Mulher 80, lendário especial de TV que reuniu as duas ao lado de Gal Costa, Maria Bethânia, Simone, Fafá de Belém, Joanna, Marina Lima, Zezé Motta e Quarteto em Cy. Uma parceria musical da Pimentinha com o casal mais ilustre da MPB (na qual Elis seria autora dos versos) estava programada, porém nunca aconteceu: a maior cantora do Brasil morreu em janeiro de 1982;





7c) Rita & Ney - Foi graças a Ney Matogrosso que os destinos de Rita Lee e Roberto de Carvalho (guitarrista que o acompanhava durante a turnê Bandido, em 1976) se cruzaram e nunca mais se separaram. Além de um grande intérprete das canções de Rita, a voz principal do grupo Secos & Molhados foi o cupido de um dos casamentos mais duradouros da música brasileira;



7d) Rita & Tim - Colegas de gravadora no início da década de 1970, Rita Lee e Tim Maia, insatisfeitos com as políticas comerciais da Philips, quebraram todo o escritório de André Midani, o Big Boss da gravadora na época. Ao sair de lá, Tim diz para a secretária, atônita: "Nada pessoal viu, lindinha!"...


8) Rita Lee desfere todo o seu rancor - Ferina e venenosa, Rita não perdoa vário desafetos, a saber:
8a) Arnaldo Baptista - o ex-marido e ex-companheiro de banda teve algumas intimidades conjugais reveladas no livro, com alfinetadas à atual esposa de Arnaldo, Lucinha Barbosa (um clone de "Rita Lee", segundo a autora das memórias) e com relatos tristes de episódios de insanidade de Lóki - o episódio do fim de Charles, o Jeep ano 1951, e do incêndio na casa alugada da Cantareira são dois exemplos bem tristes do desequilíbrio de um dos músicos mais brilhantes do Brasil;
8b) Mônica Lisboa - A ex-empresaria de Rita Lee só foi citada no livro através do apelido pejorativo de "Governanta". Ex-assistente de Guilherme Araújo, empresário de Gil, Gal e Caetano, foi acusada pela autora de "Esse Tal de Roque Enrow" de ser controladora demais, dentre outros pecados mortais;
8c) Luís Sérgio Carlini - Foi acusado por Rita de ter feito vários motins dentro da banda contra a band leader (Ritz) e de ter roubado o nome da banda "Tutti Frutti" ao registrar o título sob sua propriedade intelectual exclusiva;
8d) Okky de Souza - Casado com uma prima de Roberto de Carvalho, foi padrinho de Antônio, terceiro filho do casal Rita & Roberto. Rita Lee diz que ele passou a fazer parte da maioria absoluta de jornalistas que sempre falaram mal dela na grande imprensa;
8e) Ezequiel Neves - Rita Lee o acusa o anjo protetor de Cazuza de ter espalhado um boato de que ela estava com leucemia (o que rendeu uma música hilária que fecha o LP de 1985). A Rainha do Rock Brasileiro chegou até a ensaiar uma trégua com o "Abominável das Neves" em 1990, quando Cazuza estava em seu leito de morte e implorava por uma reconciliação. Rita confessa que chegou a doar uma quantia em dinheiro para custear um tratamento médico na época em que Zeca estava prestes a morrer, em 2010;
8f) Carlos Calado - Jornalista de respeito, biógrafo e autor de A Divina Comédia dos Mutantes (Ed. 34), Calado não escapou da escrita ferina de Rita Lee, por ter supostamente escrito "masturbações literárias";
8g) Zélia Duncan - Parceira de Rita Lee e amiga de infância até o episódio do revival dOs Mutantes, entre 2005-2007, Zélia Duncan chegou até a receber a bênção da Rainha do Rock Brasileiro para integrar a "nova" formação do grupo. Rita chegou a receber vários convites para reintegrar o grupo, porém declinou todos. Arnaldo, em tom de revanche, deu várias declarações para a imprensa dizendo que ZD era bem superior à Rita, o que deve ter agigantado o ego e a mágoa de Madame Lee. A autora das memórias não chega a dirigir nenhuma palavra de ódio contra Zélia, mas lhe destina o pior de todos os castigos: o da indiferença, mesmo depois de ZD ter gravado uma canção em homenagem à Rita;



9) Rita Lee nos oferta belas imagens de arquivo - Fotos do arquivo pessoal da família Jones ("unida e jamais vencida") se juntam às fotos de Rita ao lado de Roberto, dos filhos Beto, Juca e Tui e de momentos marcantes de uma carreira musical vitoriosa. Cá, para nós: ver Madame Lee fazendo topless na praia ou posando seminua para as câmeras, às vésperas do nascimento de dois de seus filhos, somados aos momentos de intimidade ao lado de seus bichinhos é algo belo e inusitado;


10) Rita Lee está acompanhada de Phantom, um fantasminha pra lá de camarada - Phantom, na verdade uma intervenção bem-humorada do jornalista Guilherme Samora, esclarece fatos, datas, aponta curiosidades e chega até a criticar a inaptidão de Rita em precisar momentos e datas. Um dos fatos curiosos mais interessantes apontados pelo fantasminha foi de que o show Acústico MTV continha uma versão acapella de "Dias Melhores Virão", algo que todos os fãs gostariam de ver e ouvir.



11) Rita Lee fala de suas canções mais importantes e nos conta um pouquinho sobre o processo de criação - Madame Lee fala sobre todos os discos dOs Mutantes dos quais participou, dos seus discos à frente da banda Tutti Frutti e dos discos gravados em parceria com Roberto de Carvalho até 1990. A partir daquele período, suas memórias e/ou sua vontade se tornam mais seletivas. No entanto, há três fatos que devem ser elencados:
11a) as "parcerias" entre Rita, Sérgio e Arnaldo que na verdade não aconteceram, visto que todos tinham uma espécie de acordo em colocar seus nomes em todos os créditos de composição do repertório dos álbuns dOs Mutantes;


11b) "Baila Comigo" foi composta depois de um sonho: grávida de João Lee, seu segundo filho, Rita acordou e compôs esta canção em poucos minutos, em um momento de plena inspiração;
11c) "Arrombou a Festa", uma canção esculachando a MPB da época, chegou a ser um dos maiores sucessos de Rita, em 1977. A Rainha do Rock chegou a gravar a segunda versão em seu álbum de 1979 e uma versão zombando de políticos da época em 1983. Uma quarta versão - Arrombou a Festa número pi" -  chegou a ser composta em 1993, mas foi vetada pela própria Rita Lee, pois anarquizava sem dó com os artistas da época: "Marisa traz dos montes as cantoras mais ecléticas / Quebrando o padrão das sapatas mais atléticas / Senhoras e senhores, o negócio é ser famoso / Quem nasce pra Lulu jamais chega a cão raivoso".




12) Rita Lee lembra de alguns acontecimentos incríveis ao lado de outros famosos - Madame Lee conta algumas situações inusitadas ao lado de lendas do showbiz, das quais selecionamos algumas:
12a) Hebe chegou a encontrar Rita doidona de drogas, na sarjeta em uma rua de São Paulo. A lenda da TV levou Ritz para casa e lhe deu banho e comida, além de implorar para que ela jamais passasse por tal vexame novamente;
12b) Um rapaz loiro e magricela sempre vinha trocar ideias com Rita e Os Mutantes na época do programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi. Tempos depois, ela descobriu que o rapaz era Stuart Angel, filho de Zuzu Angel;
12c) Ulysses Guimarães chegou a ser um dos pretendentes de D. Romilda, a mãe de Rita. No entanto, a paixão dela pelo Dr. Charles deixou o velho Ulysses a ver navios...
12d) Sonia Braga trabalhava como assistente de palco do programa de Ronnie Von na década de 1960 e fez amizade com Rita, que chegou a convidá-la a integrar Os Mutantes. La Braga, ciente de que o seu amor maior era pelo teatro e pelo cinema, declinou do convite;
12e) Durante a turnê do disco Flerte Fatal, Rita escolhia uma gostosona ou uma transexual para se vestir de Miss Brasil 2000 com apenas uma capa de miss e... nada mais! Em Porto Alegre, a escolhida a abrir a capa por poucos segundos e se mostrar para o público como veio ao mundo foi ninguém mais, ninguém menos do que Adriana Calcanhotto antes da fama;
12f) Mick Jagger ficou tão encantado com a apresentação de Rita na abertura do primeiro show da turnê dos Rolling Stones pelo Brasil que liberou as passarelas laterais do gigantesco palco da Voodoo Lounge (geralmente vetadas para os números de abertura) para que Madame Lee fizesse o que ela quisesse em cena. Detalhe: durante o show de Santa Rita de Sampa, Jagger estava de câmera em punho para fotografar a nudez da "Miss Brasil 2000" daquela noite;
12g) Em um jantar de gala oferecido para Shirley MacLaine, Rita ouviu da lendária atriz hollywoodiana que elas pareciam irmãs;
12h) Indignada com o tratamento que Alice Cooper dava para as cobras que ele utilizava em seus shows, Rita adentrou o backstage e roubou as duas coitadinhas em represália ao roqueiro;
12i) Antes de sua apresentação no Hollywood Rock, em 1975, Madame Lee recebeu a visita ilustríssima de Eric Clapton e sua esposa na época, Pattie Boyd - ex-George Harrison e musa inspiradora de "Layla", de Clapton. Detalhe: foi Pattie quem ajudou Rita a costurar o figurino no corpo minutos antes do show;
12j) Em uma de suas tentativas de querer alisar os cabelos crespos, Mary Lee Jones (a  irmã mais velha de Rita) chegou a raspar os cabelos e teve que pedir uma peruca emprestada para o namorado do farmacêutico do bairro. Anos depois, o dono da peruca seria conhecido por todo o Brasil como Clodovil.



13) Rita Lee fala, sem deixar uma certa dose de ironia e deboche de lado, a respeito de sua depressão, de bipolaridade e de outros episódios tristes - Madame Lee deixou bastante claro em suas memórias de que sua depressão, dentre outros aspectos, era fruto da falta de coragem em ter que encarar as mortes em sua família - Mary, Charles, Chesa, amigos mortos pela AIDS, etc. Além disto, ela relata um estupro sofrido na primeira infância e em um aborto realizado em 1977. O primeiro episódio é tratado com serenidade, enquanto o segundo é tratado com tristeza, mas com uma honestidade impressionante;




14) Rita Lee adiciona mais um fato à histórica polêmica envolvendo o grupo Secos & Molhados e a banda norte-americana KISS - Madame Lee afirma, com plena convicção de que os americanos realmente copiaram a maquiagem do grupo que revelou a voz e o talento de Ney Matogrosso para o Brasil e o mundo. Diz Rita: "Entre outros papos, comentamos que o KISS, por meio da estilista brasileira Maria Contessa (que confeccionava o figurino deles), teria sugerido aos gringos a maquiagem inspirada na dos Secos & Molhados. A história procede, uma vez que os Secos aconteceram antes do KISS, portanto pioneiros no quesito 'pintar a cara de branco e preto' (p. 142)".



15) Rita Lee e a ajuizada decisão em sair dos holofotes, aos 65 anos de idade - A autora explica em suas memórias alguns de seus motivos para abandonar os palcos (saúde bastante debilitada, falta de disposição para as exigências do showbiz são as principais), além de deixar claro que não deseja vivenciar os clichês que marcam o fim da vida de um roqueiro: morrer de overdose ou de AIDS, se converter a uma religião radical ou ter que (re)viver por aí em revivals oportunistas, em turnês bilionárias para alimentar o bolso ou o ego não são opções do agrado de Rita Lee, que prefere seguir seus próximos dias como "Tiranassaura Regina" (pp.236-237).


Em uma linguagem bastante coloquial e "adolescente" (segundo críticos mais ferrenhos), Rita Lee deixa claro o seu ódio por jornalistas e críticos. Não se preocupa em verificar datas e nomes de determinados acontecimentos, entretanto oferece um material riquíssimo para quem um dia quiser se lançar no trabalho monumental de escrever sua biografia definitiva. Rita faz um balanço de uma vida inteira dedicada à música e aos que ela sempre amou. E sem se esquecer daqueles que a admiram de paixão.


Se eu pudesse ter a oportunidade de conversar com Rita Lee novamente (tive esta honra duas vezes, assunto para outro texto!), eu lhe faria a seguinte indagação - "Mas afinal de contas, Lady Ritz, conta uma coisa aqui no ouvido da gente (juro de pés juntos que não conto pra ninguém!): quem é a tal cantora famosa em início de carreira com quem você trombou no apartamento do Jorge Ben quando você foi pedir repertório para o primeiro disco dOs Mutantes, hein?".


Eu tenho minhas suspeitas de quem seja a tal fulana, mas ouvir a resposta de um milhão de dólares dos lábios de Santa Rita de Sampa seria de um prazer inenarrável... Espero, de coração, que ambos possamos estar por aqui para vivenciarmos isto...

DUAS LEITURAS SOBRE RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA