Nos primeiros meses de 1974, a maior
sensação musical do Brasil se resumia a um nome: o grupo Secos & Molhados. Graças
a um disco de estreia extraordinário, apresentações ao vivo empolgantes e uma necessidade
de muitos brasileiros em ouvir uma expressão de liberdade em meio à repressão
política e moral imposta pela ditadura militar, Gerson Conrad, João Ricardo e
Ney Matogrosso se tornaram extremamente populares em todo o país.
Em janeiro de 1974, o Secos &
Molhados retornava de maneira triunfal a um dos palcos mais emblemáticos da
história da música brasileira: o Teatro Thereza Rachel, o mesmo local no qual
Gal Costa realizara um de seus espetáculos mais inesquecíveis em toda a sua
carreira – FaTal: Gal a Todo Vapor. O rebuliço em torno de Ney Matogrosso era
tão grande naquela época que havia uma censora que o acompanhava desde a sua
chegada ao local até o fim de cada apresentação.
Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad
No entanto, nenhum evento foi tão
marcante para a trajetória do Secos & Molhados do que o dia 23 de fevereiro
de 1974. Até aquele momento, nenhuma atração musical nacional (salvo os
Festivais da Canção) tinha conseguido lotar o Ginásio do Maracanãzinho. A popularidade
do S&M era tão expressiva que lotou a capacidade do local e ainda deixou
milhares de fãs desesperados do lado de fora.
O Secos & Molhados no Ginásio do Maracanãzinho - 23/02/1974
Logo depois a lendária apresentação do
Maracanãzinho, o Secos & Molhados embarcou em sua primeira turnê
internacional. Pouco antes de embarcarem para o México, o empresário Moracy do
Val foi destituído de suas funções sob alegação de supostos desvios de
documentação – João Apolinário, poeta, crítico de teatro e pai de João Ricardo,
foi convocado para empresariar o grupo. Ao retornarem da América do Norte,
Gerson, João e Ney entrariam em estúdio para gravarem o trabalho que sucederia
o seu extraordinário disco de estreia.
João Ricardo durante as gravações do disco, em 1974.
João Ricardo, idealizador e produtor
do primeiro álbum do Secos & Molhados, não apenas assumiu a produção do
segundo disco, com também é o responsável por 12 das 13 canções que foram
gravadas. Os problemas com a censura fizeram com que Gerson Conrad e Paulinho
Mendonça compusessem “Delírio...” já no final das gravações do disco, visto que
“Tem Gente com Fome” e “Balada” (canção de João baseada em um poema musicado de
Carlos Drummond de Andrade).
Moracy do Val entre os integrantes do Secos & Molhados
O segundo LP do Secos & Molhados –
cuja imagem (as faces de Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso se
sobressaem em um fundo negro) é de autoria de Antônio Carlos Morare, o mesmo que
fotografou os integrantes para a capa do primeiro disco – não possui a mesma
aura lúdica, anárquica e a magia de fadas e pirilampos de seu antecessor. Pelo contrário:
várias canções refletem a mentalidade de sombras e trevas que os membros do
grupo viviam em meados de 1974. Apesar da atmosfera negativa que envolvia a
produção do álbum, “Flores Astrais”, “Voo”, “Tercer Mundo” e “O Hierofante” são
as faixas mais marcantes deste trabalho.
A gravadora Continental chegou a
montar uma estratégia de marketing fenomenal para promover o segundo LP do
Secos & Molhados: anúncios de TV em cinemas de todo o Brasil foi uma das
ações de promoção planejadas na época. No entanto, foi durante a participação
do grupo no programa Fantástico na primeira semana de agosto
de 1974 que o Brasil e o resto do mundo souberam que Gerson Conrad, João
Ricardo e Ney Matogrosso não trabalhariam mais juntos.
Os dois videoclipes gravados para a TV Globo
são o testemunho de que o Secos & Molhados poderia ter sido se os seus
membros não tivessem sucumbido às egotrips e demais conflitos internos. O LP
foi lançado na segunda semana de agosto de 1974 com o gosto amargo do fim de
uma verdadeira mania nacional que encheu o país de alegria e esperança no auge
da Ditadura Militar.
As canções deste disco resistiram com
o passar dos tempos. No entanto, o segundo LP do Secos & Molhados ganhou
apenas UMA reedição em CD – a da série Dois Momentos, organizada por Charles
Gavin, ex-baterista do Titãs, que chegou a remixar os originais de 1974. Apesar
da Polysom ter reeditado este LP com toda a pompa e circunstância no início da
década de 2010, ainda aguardamos uma reedição deste clássico em CD, com encartes
especiais, etc. e tal. Assim, a justiça com a história da carreira fonográfica
do Secos & Molhados finalmente terá início...
O que é, o que é: qual o nome que se dá ao cruzamento de um músico
português, de um jovem compositor e de um cantor tímido e magricelo com um
timbre de voz agudo que se transformava em pleno palco?
Some-se a isso muita purpurina, maquiagem pesada, um som que ia do rock
clássico ao folclore português, sem deixar de passar por ritmos brasileiros e
com um discurso poético baseado em poemas de autores consagrados convertidos em
canção, além de letras originais…
Ah, e claro: uma boa pitada de contestação dos valores morais, estéticos
e, consequentemente, políticos da época na qual surgiu e o nome mais insólito
que uma banda brasileira poderia ter…
Se você, leitor, pensou no grupo Secos & Molhados, a sua resposta
está definitivamente COR-RE-TA!
A charada acima dá uma vaga ideia de que foi até fácil para que três
rapazes, cada um com o seu respectivo papel, revolucionasse a música do planeta
com apenas UM disco! E em apenas 12 meses! E, melhor de tudo, sem precisar
recorrer ao puro escracho que beirava os limites da baixaria, tal qual os
Mamonas Assassinas assim fizeram nos anos 1990.
O Secos & Molhados tinha tudo, menos uma receita pronta para o
estrondoso sucesso que fez na época, que tem feito há décadas e que ainda fará
por muitas outras: um vocalista com voz de mulher, um compositor de mão cheia,
o compositor “One Hit Wonder” mais significativo da história da música popular
brasileira e um som estranho para os padrões da época eram apenas alguns dos
elementos que NENHUMA gravadora de grande porte acreditaria hoje em dia!
E o que mais faz do disco de estreia do Secos & Molhados um dos
discos mais importantes dos últimos tempos? Vamos te dar 10 motivos para que
você possa saber:
1) A voz de
Ney Matogrosso ainda tem o poder de encantar gerações e mais gerações, de
crianças de 9 anos a senhorinhas de 90 anos;
2) As
composições originais de João Ricardo (em parceria com Luhli e Paulinho
Mendonça) conseguem fazer as pessoas cantarem, dançarem, pularem com versos
inesquecíveis como “Vira vira vira homem / vira vira / vira vira lobisomem” ou
“E o que me importa é não estar vencido”;
3) “Rosa de
Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad, é mais do
que uma ode às pessoas que sofreram os horrores da guerra, é um dos hinos
pacifistas mais belos em toda a história de versos, sons e ritmos da língua
portuguesa;
4) As
maquiagens utilizadas por Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso sempre
vão nos dar a impressão de que eles não são cantores e músicos, mas sim
criaturas que vieram de outro mundo!
5) A música do
Secos & Molhados, brasileira e da maior qualidade, mescla ritmos dos mais
diversos – Rock, Fado, Folk, Era do Rádio. Uma mistura de Bob Dylan com Crosby,
Stills, Nash & Young, conduzido pelo canto de uma Ângela Maria glitterizada
e com riffs de guitarras que parecem ter saído de The Rise & Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars.
6) Foi um dos
poucos discos da música brasileira que tocou todas as faixas (sim, as treze
faixas do disco!) nas ondas do rádio do Oiapoque ao Chuí!
7) A capa
deste disco é, sem dúvida nenhuma, a capa de disco mais ousada que já foi feita
neste planeta: quatro cabeças sendo servidas como pratos principais em uma mesa
de jantar!
8) Os refrões
das canções deste disco são fáceis de memorizar e, nem por isso, são pobres ou
desprovidos de inteligência musical!
9) Os músicos
de apoio que tocaram neste disco – Emilio Carrera, John Flavin, Willie
Verdaguer, Sérgio Rosadas, Marcelo Frias – fizeram dos teclados, guitarras,
baixo, flauta, bateria e percussão elementos de uma massa sonora complexa e de
uma riqueza extraordinária de sons e ritmos;
10) Este disco
vendeu cerca de 1 milhão de cópias em um ano de lançamento e desbancou o “Rei”
Roberto Carlos como o artista que mais vendia discos neste país! Além disto, o
Secos & Molhados conseguiu lotar o Maracanãzinho em uma apresentação
histórica em fevereiro de 1974.
Com o seu aclamado álbum de estreia e com a inesperada receptividade do
público e da crítica, o Secos & Molhados deixou de ser um mero conjunto pop
para se transformar em uma espécie de Beatlemania à brasileira e com toques e
temperos glitter. A consequência
imediata de tamanha popularidade foi a dissolução da formação clássica do grupo
em agosto de 1974, quando Ney Matogrosso decidiu abandonar o grupo alegando
“diferenças irreconciliáveis” com o seu companheiro de banda, João Ricardo.
Com apenas 13 faixas, o “disco das cabeças cortadas” se tornou uma das
pérolas mais brilhantes da canção brasileira! A cada audição deste disco, somos
transportados ao universo atemporal de “corujas e pirilampos” que falam e
dançam “entre os sacis e as fadas”.
Afinal, sempre haverá uma maneira de iluminarmos “a dança, a roda, a
festa”! E você pode ouvir este disco na íntegra aqui:
O LINK ORIGINAL ESTÁ NO PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS DESDE O DIA 2 DE JANEIRO DE 2014:
ELES & EU (meu relato
de minhas idas e vindas com o grupo Secos & Molhados)
O grupo Secos & Molhados (da esquerda para a direita): Gerson Conrad, Ney Matogrosso & João Ricardo
"Um grito de estrela vem do
infinito E um
bando de luz repete o
grito Todas as
cores e outras
mais Procriam
flores astrais
O verme
passeia na lua
cheia"
("Flores Astrais" - João Ricardo & João Apolinário – canção do segundoálbum do Secos &
Molhados, de 1974)
2015
foi um ano de início de novos ciclos, como também de conclusão de outras de
minhas jornadas profissionais. A que encerro neste ano é, sem dúvida, a minha
empreitada mais apaixonada, mais empenhada e a qual me rendeu muito do que sou
hoje. A partir de 15 de dezembro de 2015 deixo de ser um mero escritor amador
que enche inúmeras páginas com palavras supostamente vãs para tentar ser mais
um a "encher de mais confusão as prateleiras", como cantava Caetano
Veloso lá pelos idos do final da década de 1990. O assunto? Música,
evidentemente! O tema? O lendário grupo Secos & Molhados, objeto de meu
Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, de minha Dissertação de Mestrado e
de tantos anos de pesquisas.
Minha
história oficial com os meus três mascarados começou oficialmente há quinze
anos, quando meus estudos na Faculdade de Letras ainda estavam lá no início.
Encantado com os estudos de Literatura e inebriado pelos prazeres do texto,
ouvia repetidamente os dois primeiros do Secos & Molhados já tentando
desvendar as relações enigmáticas entre a poesia de Vinícius e Pessoa com a voz
e a postura cênica infinitamente abusada de Ney Matogrosso. E ficava intrigado
com as afirmações do meu pai, que deviam ser o total lugar-comum da época, que
não variavam muito entre: "Os caras do Secos & Molhados? Tudo
veado!"...
No
final de 2003, precisava cumprir com uma obrigação burocrática imposta pela Universidade:
dar cabo de um projeto de pesquisa e apresentá-lo para uma banca composta por
três professores da Faculdade de Letras. Estes créditos respondiam pelo nome de "Monografia", o que hoje chamamos de Trabalho de Conclusão de Curso
de Graduação, vulgo TCC. Na
impossibilidade de dar conta de um trabalho ousado demais – modéstia à parte – sobre
teatro contemporâneo (minhas ambições acadêmicas hercúleas já eram bastante
criticadas naquela época), resolvi começar a investigar mais sobre os três
mascarados alados que há tanto me intrigavam. No dia 17 de dezembro de 2003, 31 anos depois que o Secos & Molhados fez sua primeira apresentação ao vivo lá nos fundos do Teatro Ruth Escobar (um local conhecido como Casa de Badalação & Tédio),
apresentei meu trabalho final para a Universidade Estácio de Sá, que me aprovou
com nota máxima.
Poucos
meses depois, novos desafios me aguardavam. A vida de um professor
recém-formado no Brasil é nada estimulante em termos profissionais e
financeiros. Nem a chance de ouro de ter iniciado meu Mestrado em Literatura
Brasileira pela Universidade Federal Fluminense foi algo que me trouxe tanta
animação assim. Lógico, ter sido aprovado em uma seleção concorridíssima em
11.º lugar com um histórico e uma pesquisa nada ortodoxos em uma instituição
pública era algo certamente extraordinário. O problema era que Niterói e a UFF
soavam provincianos demais para mim: eu me sentia como um eterno e incorrigível
integrante de um exército de um homem só.
A
explicação para isso era o fato de que, no momento em que ingressei na UFF, não
havia mais pesquisadores que se preocupassem com o tema "Literatura &
Música Popular". Com isso, fui fatalmente relegado à margem, como
consequência, e com imenso orgulho e sem um pingo de modéstia. Afinal, lutar pela minha integridade
intelectual sempre foi minha prioridade. Algo plenamente compatível com as
canções do grupo que eu escolhi como objeto de pesquisa. Apesar de ter tido uma
excelente Orientadora de Mestrado, meu instinto de sobrevivência dizia que eu
sempre precisava ser independente, ir em busca de fontes, de fatos, como um bom
pesquisador deve ser. Consegui duas entrevistas valiosíssimas para meu
trabalho: Gerson Conrad conversou longamente comigo em outubro de 2005 e Luhli cedeu um
maravilhoso depoimento em janeiro de 2006. Decididamente, eu tive de ser o
verme a passear pela lua cheia contente e convencional da academia, no estilo mais
low profile possível, visto que meus méritos não consistiam meramente de
relações influentes ou de grande poder.
Os
dois anos que se seguiram foram difíceis em termos profissionais e acadêmicos.
Nenhuma das disciplinas que cursei no decorrer do Mestrado geraram trabalhos
que me auxiliassem nas pesquisas que deveriam dar origem ao texto da Dissertação.
De qualquer maneira foi ótimo pesquisar sobre a obra de Silviano Santiago,
Phillip Roth, Jean-Paul Sartre e J. M. Coetzee, sobre o legado dos romances de
Oswald, Flaubert e Jane Austen e investigar as relações entre Cinema e
Literatura a partir das criações de Arnaldo Jabor e Nelson Rodrigues. No plano
pessoal, um relacionamento que vivia uma crise que se parecia a um avião
prestes a cair sobre duas Torres Gêmeas prestes a implodir com (quase) tudo ao redor.
Uma grande mudança era necessária para que todos os bloqueios fossem,
enfim, retirados do caminho.
Quando
pisei em São Paulo no dia 14 de março de 2006 para ficar de vez, tinha apenas
os 60 reais restantes da última parcela do meu seguro-desemprego no bolso. As únicas coisas que estavam certas em minha vida eram a matrícula trancada na UFF
por seis meses, uma sacola repleta de livros para ler, uma pesquisa inacabada e um mar eterno de incertezas pela
frente. Pelo menos, havia alguém para amar, uma nova família (que me recebeu de
braços abertos) e novos amigos para dar apoio, além dos poucos que sobraram no
Rio de Janeiro na torcida. Foi na Terra da Garoa, debaixo de muito custo, de
algumas contribuições valiosíssimas (o arquivo da Folha de S. Paulo, a maior
delas!) e de muitas noites sem dormir, que o texto, finalmente, começou a tomar
corpo. No entanto, precisávamos de mais seis meses de prorrogação, desta vez
com a aprovação do Colegiado da Pós-Graduação da UFF. Foi neste momento que
pensei que não íamos chegar até o fim. Entretanto, chegamos! E, mais uma vez,
iríamos fazer um passeio de luxo pela lua cheia dos contentes. Eu teria até
março do ano seguinte para concluir as pesquisas, sendo que eu estaria em São
Paulo e Matildes, minha santa Orientadora, no Rio de Janeiro. Santificados sejam os pacotes de
SEDEX, que tanto nos auxiliaram em momentos de urgência e necessidade. Em nome de todas as pesquisas, AMÉM!
A
primeira etapa dessa jornada chegou ao fim no dia 14 de abril de 2007. Depois
de enfrentar seis horas de espera no Aeroporto de Congonhas (o país vivia o
auge da crise dos aeroportos!) para fazer a ponte aérea, retornei para o Rio de
Janeiro para, enfim, defender minha Dissertação de Mestrado. Pedi a benção para
a estátua de Drummond em Copacabana na parte da manhã, pedi a proteção ao Dom Quixote
que fica em frente ao prédio da Letras antes de subir para o quinto andar. E
enfrentamos um atraso de quase uma hora, debates acalorados típicos das
esquizofrenias do mundo acadêmico e ouvimos o veredicto da banca... outra nota
10! Com indicação para que a Dissertação fosse publicada, para minha plena
felicidade.
A BANCA: Pascoal Farinaccio (UFF), Matildes Demetrio dos Santos (UFF - Orientadora) e Carmen Lúcia Negreiros de Figueiredo (Uerj)
Sabia
que o abismo que separaria a transformação de meu Mestrado em Livro era imenso.
Primeiro porque eu tinha a plena consciência de que havia inúmeras correções a
serem feitas no texto. Em segundo lugar, porque não tinha conseguido aproveitar
todas as minhas fontes de pesquisa. Terceiro, e pior de tudo: sou um perfeccionista obsessivo e incorrigível, extremamente atento a detalhes e sofro demais quando vejo qualquer traço de imperfeição! A correção do texto era algo que teria que ser feita em algum momento, mas eu
precisaria de bastante tempo para poder me refazer das dolorosas batalhas que me levaram até a
defesa da Dissertação...
O
período de férias que eu me concedi foi de uns dois anos até, finalmente,
chegar ao texto final da Dissertação, um volume monstruoso de quase 400
páginas. Diploma de Mestre obtido, 10 cópias nas mãos, hora de presentear os
mais próximos com a promessa do remoto livro. Rosana Barbosa, Matildes Demetrio, Herom Vargas, Emílio Carrera e Zélia
Duncan foram algumas das pessoas que receberam seus presentes com as suas devidas dedicatórias. Porém, achei
que precisava presentear uma pessoa, e eu o fiz em 14 de março de 2009, no dia
exato que marcava meu terceiro aniversário de chegada em São Paulo: fiquei
felicíssimo de ter conseguido arrancar um sorriso aberto de Ney Matogrosso ao
entregar o resultado de minhas pesquisas em suas mãos. Contei brevemente o
périplo percorrido até chegar naquele camarim com aquelas tortuosas páginas e
ele ficou impressionado com o quanto o meio acadêmico ainda consegue ser
careta... Foi o máximo de interação que eu, um tímido ocasional e incorrigível, consegui me
permitir com uma das pessoas mais admiradas por mim...
Ao lado de um sorridente Ney Matogrosso, em 14 de março de 2009.
Acabei
tirando férias dos meus mascarados por algumas temporadas, mas nunca conseguia
fazer isso por muito tempo. Sempre havia alguma coisa que me remetia a eles:
Matildes me convidou para um dia maravilhoso de palestras na UFF e lá fui eu
mais uma vez voando para o Rio de Janeiro falar sobre o Secos & Molhados para
alunos de Graduação em 2008. Um contato do professor Herom Vargas, interessado
em conhecer meu trabalho em janeiro de 2009, fez com que eu me entusiasmasse
com as pesquisas novamente. Um ou outro livro que abordava o legado e a loucura
dos anos 1970 sempre vinha a público para me atormentar e me lembrar de que era
preciso atualizar a versão final do texto. Fui investindo nestas atualizações
até o final de 2014, quando concluí a versão final do que se transformou
no livro.
Como
resolução principal para 2015, decidi que não apenas iria retirar meus escritos
das pastas e das gavetas, como também iria viver um ritmo profissional mais brando, com finais de semana livres e mais qualidade de vida.
Isso implicava trabalhar menos, como também iria acarretar ganhos financeiros
menores. Não me arrependo nem um pouco. Pude revisar as provas do livro e suas infindáveis
idas, vindas e tormentas com a atenção devida e projetar uma parte do futuro. E sonhar com
o dia de poder sair assinando livros para as pessoas e compartilhar o
conhecimento com todos os que quiserem comprar O Doce & O Amargo do Secos
& Molhados: Poesia, Performance e Política na Música Brasileira. Afinal de
contas, o que realmente vale no tocante a qualquer jornada intelectual é poder
repartir o pouco que sabemos com os nossos semelhantes...
Mais
uma vez me vejo rodeado de uma série de atos simbólicos: lançar meu primeiro
livro logo após a comemoração do centenário de Frank Sinatra, a alguns metros de
distância do Teatro Ruth Escobar, na mesmíssima cidade que revelou o Secos
& Molhados para o universo, quase 12 anos depois de apresentar a primeira
versão de meu trabalho de conclusão de curso definitivamente deve ser sinal de
bons fluidos. Um ciclo se fecha, outro está a caminho. O que nos espera, não
sabemos. O que desejo? Que seja bom para todos nós, tão divertido quanto “O
Vira” que até hoje faz crianças, adultos e velhinhos dançarem por aí sem temer
o medo de qualquer noção de ridículo. Que cative as almas dos leitores e
ouvintes, tal qual meus olhos e ouvidos foram cativados por aquela magia
fantástica dos meus queridos mascarados. E que seja leve, como uma leve pluma
que pousa alegremente sobre os corações da gente.
* Quando era adolescente, lá pelos idos da
década de 1990, era o típico jovem “aborrecente” que só ouvia música em inglês.
No entanto, apenas três artistas chamavam minha atenção naquela época: Rita
Lee, Ney Matogrosso e Maria Bethânia – artistas que não tinham surgido na minha
geração, mas que me diziam muito. No ano em que iniciei a Faculdade de Letras,
resolvi prestar mais atenção na banda que projetou Ney para os quatro cantos
deste planeta. Descobri o Secos & Molhados e me tornei não apenas fã, como
pesquisador deste fenômeno meteórico que foi sinônimo de ousadia, liberdade e
música de primeiríssima qualidade. Concluí a graduação, a pós-graduação (não,
necessariamente!) e minha paixão por este grupo continua... Por isso, não
poderia deixar de fazer meu tributo ao Secos & Molhados e o que este grupo
significou/significa para mim.
** Este texto foi publicado há exatamente cinco
anos no site oficial de Ney Matogrosso. Na época, eu estava em fase de
conclusão de minha Dissertação de Mestrado sobre o Secos & Molhados e fiz
um breve perfil do grupo que tomou o Brasil inteiro de assalto entre 1973 e
1974. A versão que aqui apresento foi devidamente atualizada de acordo com o
novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Nada foi acrescentado ao conteúdo do texto. Afinal de contas, time que está ganhando não deve ser alterado, não é verdade?
Aquelas
noites de dezembro de 1972 jamais teriam sido as mesmas se um grupo musical
composto por três rapazes não tivesse se apresentado na Casa de Badalação
& Tédio, uma espécie de anexo do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo.
Surgia, naquele palco, ao lado de João Ricardo e Gerson Conrad, uma criatura
bem estranha: um rapaz bigodudo requebrando provocativamente, com uma voz
incomum e insólita para alguém do sexo masculino, vestido com uma calça de
cetim e uma grinalda na cabeça, bastante maquiado e repleto de purpurina. Não
parecia nem homem nem mulher, nem rumbeira nem cigana, nem animal nem ser
humano. Era Ney Matogrosso que vinha a público com todo o seu fogo cênico e
desaforado, acalentado por anos e anos de teatro.
Graças ao
empenho do empresário Moracy do Val, que decidira contratar o grupo assim que o
assistiu pela primeira vez, a temporada de shows no Ruth Escobar rendeu uma
série de apresentações em outros locais, transformando o Secos & Molhados
em uma sensação das noites paulistanas como num passe de mágica. Poucos meses
depois de sua estreia nos palcos, o grupo entrou no estúdio Prova (SP)
para as gravações de seu primeiro disco. Entre maio e junho de 1973, o álbum
foi gravado.
João Ricardo (violão) e Ney Matogrosso durante ensaio para um show do Secos & Molhados
A capa do
primeiro disco do Secos & Molhados foi fotografada e produzida por Antônio
Carlos Rodrigues, que, ao tomar conhecimento do nome do grupo, decidiu criar
uma mesa de jantar com produtos perecíveis normalmente vendidos em um armazém
(um nome genérico para secos e molhados). Porém, o prato principal do banquete
consistia simplesmente das cabeças de Ney Matogrosso, João Ricardo,
Gerson Conrad e Marcelo Frias (baterista que não aceitou integrar o grupo).
Ao lançar
o álbum, a gravadora Continental produziu apenas 1.500 cópias do primeiro
trabalho do Secos & Molhados. No entanto, a aparição do grupo em rede
nacional na estreia do programa Fantástico, da Rede Globo, provocou uma
enorme curiosidade por parte do grande público em relação à novidade que
surgia. Em aproximadamente uma semana, os 1.500 discos já tinham sido vendidos.
Os executivos da indústria fonográfica se viram obrigados a derreter vinis de
outros artistas que não vendiam tanto para fabricar mais álbuns do Secos &
Molhados, uma vez que faltava matéria-prima disponível para prensar mais
discos. Enquanto isso, as rádios tocavam sucessos como “O Vira” (João Ricardo –
Luhli), “Sangue latino” (João Ricardo – Paulinho Mendonça) e “Rosa de
Hiroshima” (Gerson Conrad – Vinícius de Moraes).
Os shows
de lançamento do primeiro disco foram no Teatro Itália, em setembro de 1973,
rendendo uma série de lembranças inesquecíveis para os que estiveram lá para
assistir o grupo nos palcos. A partir daí, Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso
começaram a se apresentar por todo o Brasil, causando frenesi por onde
passavam. Um exemplo deste fato se deu no Rio de Janeiro em novembro do mesmo
ano, numa temporada no Teatro Tereza Rachel: o assédio dos fãs era tão grande
que filas e filas se formavam na expectativa de ver o Secos & Molhados no
palco!
Era
evidente que uma manifestação tão rica e intensa como o Secos & Molhados
incomodava a ditadura militar que castigava o Brasil no início da década de 70.
O incômodo não se justificava por algo político sem querer ser (o Secos não era
um grupo politicamente engajado), mas por possuir uma irreverência que
afrontava a moralidade de muitas famílias brasileiras. Abordar a falta de
liberdade e expor a sexualidade incomum (até então) provocava a inquietação nas
altas patentes do governo. Entretanto, censurar um fenômeno maciço de crítica e
público era tarefa impossível.
A
aparição de Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso no Rio de Janeiro foi
tão bem-sucedida que eles foram convidados para uma temporada de um mês no
Tereza Rachel, com direito a uma censora dentro do camarim de Ney o tempo todo.
O sucesso foi tamanho que eles decidiram fazer um show de encerramento no
Ginásio do Maracanãzinho, em 13 de fevereiro de 1974. Muitos acharam o convite
um absurdo, pois nenhuma atração brasileira tinha tido a oportunidade de se
apresentar naquele palco apenas com seu próprio espetáculo. Outros temiam que
Ney fosse agredido pelo público. Havia expectativas de que não haveria pessoas
suficientes para preencher o local.
Gerson Conrad, Ney Matogrosso e João Ricardo em ação...
A
receptividade dos mexicanos também foi muito positiva. Em pouco tempo, a
postura ousada e provocante do Secos & Molhados deixou o país em polvorosa,
com direito a uma foto deles na capa da famosa revista norte-americana Billboard.
Segundo os membros do grupo, empresários norte-americanos, fascinados com o
impacto visual provocado pela maquiagem de Ney, João e Gerson, convidaram-nos
para apresentações nos Estados Unidos. Ney Matogrosso relatou, certa vez, que
um destes executivos lhe propôs a abandonar o Secos & Molhados e fazer uma
carreira solo na terra do Tio Sam com um repertório mais pesado e mantendo sua
indefectível presença de palco. A possibilidade de se transformar em uma versão
glitter e caricatural de Carmen Miranda em um território cuja língua
jamais dominara não o animou, para o alívio de muitos brasileiros...
Em pouco
mais de um ano, o primeiro LP do Secos & Molhados vendeu cerca de um milhão
de cópias, concorrendo com o maior vendedor de discos do Brasil em todos os
tempos, Roberto Carlos. Pela primeira vez em sua história, o “Rei” se viu
obrigado a dividir seu trono com corujas, pirilampos, sacis e fadas.
O sucesso do primeiro LP do Secos & Molhados foi tamanho que a gravadora Continental precisou derreter vinis de outros artistas para fabricar LPs deste fenômeno de vendas.
Ao
retornarem do México, iniciaram-se as sessões de gravação do disco sucessor ao
álbum das cabeças cortadas. As turbulências internas entre os integrantes do
Secos & Molhados provocaram rumores de sua dissolução antes do início das
gravações. Ney Matogrosso já tinha optado por abandonar o grupo, decisão que só
seria oficialmente tomada assim que o segundo disco fosse para as lojas. João
Ricardo assumiu a produção do trabalho, função que antes cabia a Moracy do Val,
que, nesta altura dos acontecimentos, não era mais empresário do Secos. As
gravações do segundo álbum do Secos & Molhados se deram em meio a uma
atmosfera de desentendimentos, disputas e crises.
Previa-se
que o lançamento do segundo disco do Secos & Molhados seria o principal
acontecimento fonográfico de 1974, mas as notícias da separação de seus
integrantes chegaram aos jornais antes da primeira semana de agosto. Muitos
compraram o novo álbum com um sabor de tristeza ao saber que Gerson Conrad,
João Ricardo e Ney Matogrosso já não eram mais um único grupo. Os três
decidiram sair em carreira solo a partir da dissolução do fenômeno: Gerson
Conrad se uniu a Paulinho Mendonça (co-autor de “Sangue latino” e “Delírio...”,
do segundo disco) gravou um álbum em parceria com a cantora e atriz Zezé Motta
no ano seguinte e depois fez um trabalho solo em 1981 (Rosto marcado);
João Ricardo se dividiu em projetos solo e em formações alternativas do Secos
& Molhados; Ney Matogrosso, por sua vez, seguiu em carreira solo e estreou
em 1975 com o show Homem de Neanderthal e o disco Água do Céu-Passaro.
Contrariando
todas as previsões, o Secos & Molhados não só conseguiu a façanha de ser a
primeira atração nacional a lotar o Maracanãzinho (20 mil pessoas foram
assisti-los e eles ainda deixaram outras milhares de pessoas do lado de fora!),
como teve a sua apresentação transmitida pela Rede Globo para todo o Brasil.
Tal acontecimento rendeu em uma das noites mais importantes da História da
Música Popular Brasileira e foi fundamental para que o grupo seguisse rumo a
uma turnê de duas semanas pelo México, tempos depois. Em 1980, foi lançado o LP
Secos & Molhados Ao vivo no Maracanãzinho, com supervisão de Gerson
Conrad e com os melhores momentos daquele show. Este trabalho nunca foi lançado
oficialmente em CD por não possuir uma boa qualidade técnica e problemas de
som.
Brigas e
farpas à parte, a carreira do Secos & Molhados marca um dos momentos mais
importantes da música popular brasileira. Seus discos e suas apresentações ao
vivo renderam legiões de fãs e admiradores até os dias de hoje. Falar sobre a
magia em torno do Secos & Molhados não é apenas se referir à trajetória de
nossas artes, mas é também recorrer à memória coletiva de muitos brasileiros.