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12 de outubro de 2017

DISCOS DE VINIL # 44

SECOS & MOLHADOS – SECOS & MOLHADOS (1974)


Nos primeiros meses de 1974, a maior sensação musical do Brasil se resumia a um nome: o grupo Secos & Molhados. Graças a um disco de estreia extraordinário, apresentações ao vivo empolgantes e uma necessidade de muitos brasileiros em ouvir uma expressão de liberdade em meio à repressão política e moral imposta pela ditadura militar, Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso se tornaram extremamente populares em todo o país.


Em janeiro de 1974, o Secos & Molhados retornava de maneira triunfal a um dos palcos mais emblemáticos da história da música brasileira: o Teatro Thereza Rachel, o mesmo local no qual Gal Costa realizara um de seus espetáculos mais inesquecíveis em toda a sua carreira – FaTal: Gal a Todo Vapor. O rebuliço em torno de Ney Matogrosso era tão grande naquela época que havia uma censora que o acompanhava desde a sua chegada ao local até o fim de cada apresentação.

Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad

No entanto, nenhum evento foi tão marcante para a trajetória do Secos & Molhados do que o dia 23 de fevereiro de 1974. Até aquele momento, nenhuma atração musical nacional (salvo os Festivais da Canção) tinha conseguido lotar o Ginásio do Maracanãzinho. A popularidade do S&M era tão expressiva que lotou a capacidade do local e ainda deixou milhares de fãs desesperados do lado de fora.

O Secos & Molhados no Ginásio do Maracanãzinho - 23/02/1974

Logo depois a lendária apresentação do Maracanãzinho, o Secos & Molhados embarcou em sua primeira turnê internacional. Pouco antes de embarcarem para o México, o empresário Moracy do Val foi destituído de suas funções sob alegação de supostos desvios de documentação – João Apolinário, poeta, crítico de teatro e pai de João Ricardo, foi convocado para empresariar o grupo. Ao retornarem da América do Norte, Gerson, João e Ney entrariam em estúdio para gravarem o trabalho que sucederia o seu extraordinário disco de estreia.

João Ricardo durante as gravações do disco, em 1974.

João Ricardo, idealizador e produtor do primeiro álbum do Secos & Molhados, não apenas assumiu a produção do segundo disco, com também é o responsável por 12 das 13 canções que foram gravadas. Os problemas com a censura fizeram com que Gerson Conrad e Paulinho Mendonça compusessem “Delírio...” já no final das gravações do disco, visto que “Tem Gente com Fome” e “Balada” (canção de João baseada em um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade).

Moracy do Val entre os integrantes do Secos & Molhados

O segundo LP do Secos & Molhados – cuja imagem (as faces de Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso se sobressaem em um fundo negro) é de autoria de Antônio Carlos Morare, o mesmo que fotografou os integrantes para a capa do primeiro disco – não possui a mesma aura lúdica, anárquica e a magia de fadas e pirilampos de seu antecessor. Pelo contrário: várias canções refletem a mentalidade de sombras e trevas que os membros do grupo viviam em meados de 1974. Apesar da atmosfera negativa que envolvia a produção do álbum, “Flores Astrais”, “Voo”, “Tercer Mundo” e “O Hierofante” são as faixas mais marcantes deste trabalho.


A gravadora Continental chegou a montar uma estratégia de marketing fenomenal para promover o segundo LP do Secos & Molhados: anúncios de TV em cinemas de todo o Brasil foi uma das ações de promoção planejadas na época. No entanto, foi durante a participação do grupo no programa Fantástico na primeira semana de agosto de 1974 que o Brasil e o resto do mundo souberam que Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso não trabalhariam mais juntos.


 Os dois videoclipes gravados para a TV Globo são o testemunho de que o Secos & Molhados poderia ter sido se os seus membros não tivessem sucumbido às egotrips e demais conflitos internos. O LP foi lançado na segunda semana de agosto de 1974 com o gosto amargo do fim de uma verdadeira mania nacional que encheu o país de alegria e esperança no auge da Ditadura Militar.



As canções deste disco resistiram com o passar dos tempos. No entanto, o segundo LP do Secos & Molhados ganhou apenas UMA reedição em CD – a da série Dois Momentos, organizada por Charles Gavin, ex-baterista do Titãs, que chegou a remixar os originais de 1974. Apesar da Polysom ter reeditado este LP com toda a pompa e circunstância no início da década de 2010, ainda aguardamos uma reedição deste clássico em CD, com encartes especiais, etc. e tal. Assim, a justiça com a história da carreira fonográfica do Secos & Molhados finalmente terá início... 

5 de outubro de 2016

DISCOS DE VINIL # 2

SECOS & MOLHADOS - SECOS & MOLHADOS (1973)




O que é, o que é: qual o nome que se dá ao cruzamento de um músico português, de um jovem compositor e de um cantor tímido e magricelo com um timbre de voz agudo que se transformava em pleno palco?
Some-se a isso muita purpurina, maquiagem pesada, um som que ia do rock clássico ao folclore português, sem deixar de passar por ritmos brasileiros e com um discurso poético baseado em poemas de autores consagrados convertidos em canção, além de letras originais…
Ah, e claro: uma boa pitada de contestação dos valores morais, estéticos e, consequentemente, políticos da época na qual surgiu e o nome mais insólito que uma banda brasileira poderia ter…
Se você, leitor, pensou no grupo Secos & Molhados, a sua resposta está definitivamente COR-RE-TA!
A charada acima dá uma vaga ideia de que foi até fácil para que três rapazes, cada um com o seu respectivo papel, revolucionasse a música do planeta com apenas UM disco! E em apenas 12 meses! E, melhor de tudo, sem precisar recorrer ao puro escracho que beirava os limites da baixaria, tal qual os Mamonas Assassinas assim fizeram nos anos 1990.
O Secos & Molhados tinha tudo, menos uma receita pronta para o estrondoso sucesso que fez na época, que tem feito há décadas e que ainda fará por muitas outras: um vocalista com voz de mulher, um compositor de mão cheia, o compositor “One Hit Wonder” mais significativo da história da música popular brasileira e um som estranho para os padrões da época eram apenas alguns dos elementos que NENHUMA gravadora de grande porte acreditaria hoje em dia!
E o que mais faz do disco de estreia do Secos & Molhados um dos discos mais importantes dos últimos tempos? Vamos te dar 10 motivos para que você possa saber:

1) A voz de Ney Matogrosso ainda tem o poder de encantar gerações e mais gerações, de crianças de 9 anos a senhorinhas de 90 anos;

2) As composições originais de João Ricardo (em parceria com Luhli e Paulinho Mendonça) conseguem fazer as pessoas cantarem, dançarem, pularem com versos inesquecíveis como “Vira vira vira homem / vira vira / vira vira lobisomem” ou “E o que me importa é não estar vencido”;

3) “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad, é mais do que uma ode às pessoas que sofreram os horrores da guerra, é um dos hinos pacifistas mais belos em toda a história de versos, sons e ritmos da língua portuguesa;

4) As maquiagens utilizadas por Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso sempre vão nos dar a impressão de que eles não são cantores e músicos, mas sim criaturas que vieram de outro mundo!

5) A música do Secos & Molhados, brasileira e da maior qualidade, mescla ritmos dos mais diversos – Rock, Fado, Folk, Era do Rádio. Uma mistura de Bob Dylan com Crosby, Stills, Nash & Young, conduzido pelo canto de uma Ângela Maria glitterizada e com riffs de guitarras que parecem ter saído de The Rise & Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars.

6) Foi um dos poucos discos da música brasileira que tocou todas as faixas (sim, as treze faixas do disco!) nas ondas do rádio do Oiapoque ao Chuí!

7) A capa deste disco é, sem dúvida nenhuma, a capa de disco mais ousada que já foi feita neste planeta: quatro cabeças sendo servidas como pratos principais em uma mesa de jantar!

8) Os refrões das canções deste disco são fáceis de memorizar e, nem por isso, são pobres ou desprovidos de inteligência musical!

9) Os músicos de apoio que tocaram neste disco – Emilio Carrera, John Flavin, Willie Verdaguer, Sérgio Rosadas, Marcelo Frias – fizeram dos teclados, guitarras, baixo, flauta, bateria e percussão elementos de uma massa sonora complexa e de uma riqueza extraordinária de sons e ritmos;

10) Este disco vendeu cerca de 1 milhão de cópias em um ano de lançamento e desbancou o “Rei” Roberto Carlos como o artista que mais vendia discos neste país! Além disto, o Secos & Molhados conseguiu lotar o Maracanãzinho em uma apresentação histórica em fevereiro de 1974.

Com o seu aclamado álbum de estreia e com a inesperada receptividade do público e da crítica, o Secos & Molhados deixou de ser um mero conjunto pop para se transformar em uma espécie de Beatlemania à brasileira e com toques e temperos glitter. A consequência imediata de tamanha popularidade foi a dissolução da formação clássica do grupo em agosto de 1974, quando Ney Matogrosso decidiu abandonar o grupo alegando “diferenças irreconciliáveis” com o seu companheiro de banda, João Ricardo.
Com apenas 13 faixas, o “disco das cabeças cortadas” se tornou uma das pérolas mais brilhantes da canção brasileira! A cada audição deste disco, somos transportados ao universo atemporal de “corujas e pirilampos” que falam e dançam “entre os sacis e as fadas”.
Afinal, sempre haverá uma maneira de iluminarmos “a dança, a roda, a festa”! E você pode ouvir este disco na íntegra aqui:



O LINK ORIGINAL ESTÁ NO PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS DESDE O DIA 2 DE JANEIRO DE 2014:


ESTE TEXTO E OUTRAS CURIOSIDADES SOBRE O GRUPO SECOS & MOLHADOS TAMBÉM SE ENCONTRA NO LIVRO O DOCE & O AMARGO DO SECOS & MOLHADOS:



SAIBA MAIS SOBRE O LIVRO AQUI:

15 de dezembro de 2015

TROVA # 61

ELES & EU
(meu relato de minhas idas e vindas com o grupo Secos & Molhados)

O grupo Secos & Molhados (da esquerda para a direita): Gerson Conrad, Ney Matogrosso & João Ricardo

"Um grito de estrela
vem do infinito
E um bando de luz
repete o grito
Todas as cores
e outras mais
Procriam flores
astrais

O verme passeia
na lua cheia
"
("Flores Astrais" - João Ricardo & João Apolinário – canção do segundo álbum do Secos & Molhados, de 1974)



2015 foi um ano de início de novos ciclos, como também de conclusão de outras de minhas jornadas profissionais. A que encerro neste ano é, sem dúvida, a minha empreitada mais apaixonada, mais empenhada e a qual me rendeu muito do que sou hoje. A partir de 15 de dezembro de 2015 deixo de ser um mero escritor amador que enche inúmeras páginas com palavras supostamente vãs para tentar ser mais um a "encher de mais confusão as prateleiras", como cantava Caetano Veloso lá pelos idos do final da década de 1990. O assunto? Música, evidentemente! O tema? O lendário grupo Secos & Molhados, objeto de meu Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, de minha Dissertação de Mestrado e de tantos anos de pesquisas.



Minha história oficial com os meus três mascarados começou oficialmente há quinze anos, quando meus estudos na Faculdade de Letras ainda estavam lá no início. Encantado com os estudos de Literatura e inebriado pelos prazeres do texto, ouvia repetidamente os dois primeiros do Secos & Molhados já tentando desvendar as relações enigmáticas entre a poesia de Vinícius e Pessoa com a voz e a postura cênica infinitamente abusada de Ney Matogrosso. E ficava intrigado com as afirmações do meu pai, que deviam ser o total lugar-comum da época, que não variavam muito entre: "Os caras do Secos & Molhados? Tudo veado!"...

No final de 2003, precisava cumprir com uma obrigação burocrática imposta pela Universidade: dar cabo de um projeto de pesquisa e apresentá-lo para uma banca composta por três professores da Faculdade de Letras. Estes créditos respondiam pelo nome de "Monografia", o que hoje chamamos de Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, vulgo TCC. Na impossibilidade de dar conta de um trabalho ousado demais – modéstia à parte – sobre teatro contemporâneo (minhas ambições acadêmicas hercúleas já eram bastante criticadas naquela época), resolvi começar a investigar mais sobre os três mascarados alados que há tanto me intrigavam. No dia 17 de dezembro de 2003, 31 anos depois que o Secos & Molhados fez sua primeira apresentação ao vivo lá nos fundos do Teatro Ruth Escobar (um local conhecido como Casa de Badalação & Tédio), apresentei meu trabalho final para a Universidade Estácio de Sá, que me aprovou com nota máxima.



Poucos meses depois, novos desafios me aguardavam. A vida de um professor recém-formado no Brasil é nada estimulante em termos profissionais e financeiros. Nem a chance de ouro de ter iniciado meu Mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense foi algo que me trouxe tanta animação assim. Lógico, ter sido aprovado em uma seleção concorridíssima em 11.º lugar com um histórico e uma pesquisa nada ortodoxos em uma instituição pública era algo certamente extraordinário. O problema era que Niterói e a UFF soavam provincianos demais para mim: eu me sentia como um eterno e incorrigível integrante de um exército de um homem só.



A explicação para isso era o fato de que, no momento em que ingressei na UFF, não havia mais pesquisadores que se preocupassem com o tema "Literatura & Música Popular". Com isso, fui fatalmente relegado à margem, como consequência, e com imenso orgulho e sem um pingo de modéstia. Afinal, lutar pela minha integridade intelectual sempre foi minha prioridade. Algo plenamente compatível com as canções do grupo que eu escolhi como objeto de pesquisa. Apesar de ter tido uma excelente Orientadora de Mestrado, meu instinto de sobrevivência dizia que eu sempre precisava ser independente, ir em busca de fontes, de fatos, como um bom pesquisador deve ser. Consegui duas entrevistas valiosíssimas para meu trabalho: Gerson Conrad conversou longamente comigo em outubro de 2005 e Luhli cedeu um maravilhoso depoimento em janeiro de 2006. Decididamente, eu tive de ser o verme a passear pela lua cheia contente e convencional da academia, no estilo mais low profile possível, visto que meus méritos não consistiam meramente de relações influentes ou de grande poder.



Os dois anos que se seguiram foram difíceis em termos profissionais e acadêmicos. Nenhuma das disciplinas que cursei no decorrer do Mestrado geraram trabalhos que me auxiliassem nas pesquisas que deveriam dar origem ao texto da Dissertação. De qualquer maneira foi ótimo pesquisar sobre a obra de Silviano Santiago, Phillip Roth, Jean-Paul Sartre e J. M. Coetzee, sobre o legado dos romances de Oswald, Flaubert e Jane Austen e investigar as relações entre Cinema e Literatura a partir das criações de Arnaldo Jabor e Nelson Rodrigues. No plano pessoal, um relacionamento que vivia uma crise que se parecia a um avião prestes a cair sobre duas Torres Gêmeas prestes a implodir com (quase) tudo ao redor. Uma grande mudança era necessária para que todos os bloqueios fossem, enfim, retirados do caminho.



Quando pisei em São Paulo no dia 14 de março de 2006 para ficar de vez, tinha apenas os 60 reais restantes da última parcela do meu seguro-desemprego no bolso. As únicas coisas que estavam certas em minha vida eram a matrícula trancada na UFF por seis meses, uma sacola repleta de livros para ler, uma pesquisa inacabada e um mar eterno de incertezas pela frente. Pelo menos, havia alguém para amar, uma nova família (que me recebeu de braços abertos) e novos amigos para dar apoio, além dos poucos que sobraram no Rio de Janeiro na torcida. Foi na Terra da Garoa, debaixo de muito custo, de algumas contribuições valiosíssimas (o arquivo da Folha de S. Paulo, a maior delas!) e de muitas noites sem dormir, que o texto, finalmente, começou a tomar corpo. 
No entanto, precisávamos de mais seis meses de prorrogação, desta vez com a aprovação do Colegiado da Pós-Graduação da UFF. Foi neste momento que pensei que não íamos chegar até o fim. Entretanto, chegamos! E, mais uma vez, iríamos fazer um passeio de luxo pela lua cheia dos contentes. Eu teria até março do ano seguinte para concluir as pesquisas, sendo que eu estaria em São Paulo e Matildes, minha santa Orientadora, no Rio de Janeiro. Santificados sejam os pacotes de SEDEX, que tanto nos auxiliaram em momentos de urgência e necessidade. Em nome de todas as pesquisas, AMÉM!
A primeira etapa dessa jornada chegou ao fim no dia 14 de abril de 2007. Depois de enfrentar seis horas de espera no Aeroporto de Congonhas (o país vivia o auge da crise dos aeroportos!) para fazer a ponte aérea, retornei para o Rio de Janeiro para, enfim, defender minha Dissertação de Mestrado. Pedi a benção para a estátua de Drummond em Copacabana na parte da manhã, pedi a proteção ao Dom Quixote que fica em frente ao prédio da Letras antes de subir para o quinto andar. E enfrentamos um atraso de quase uma hora, debates acalorados típicos das esquizofrenias do mundo acadêmico e ouvimos o veredicto da banca... outra nota 10! Com indicação para que a Dissertação fosse publicada, para minha plena felicidade.

A BANCA: Pascoal Farinaccio (UFF), Matildes Demetrio dos Santos (UFF - Orientadora) e Carmen Lúcia Negreiros de Figueiredo (Uerj)

Sabia que o abismo que separaria a transformação de meu Mestrado em Livro era imenso. Primeiro porque eu tinha a plena consciência de que havia inúmeras correções a serem feitas no texto. Em segundo lugar, porque não tinha conseguido aproveitar todas as minhas fontes de pesquisa. Terceiro, e pior de tudo: sou um perfeccionista obsessivo e incorrigível, extremamente atento a detalhes e sofro demais quando vejo qualquer traço de imperfeição! A correção do texto era algo que teria que ser feita em algum momento, mas eu precisaria de bastante tempo para poder me refazer das dolorosas batalhas que me levaram até a defesa da Dissertação...


O período de férias que eu me concedi foi de uns dois anos até, finalmente, chegar ao texto final da Dissertação, um volume monstruoso de quase 400 páginas. Diploma de Mestre obtido, 10 cópias nas mãos, hora de presentear os mais próximos com a promessa do remoto livro. Rosana Barbosa, Matildes Demetrio, Herom Vargas, Emílio Carrera e Zélia Duncan foram algumas das pessoas que receberam seus presentes com as suas devidas dedicatórias. Porém, achei que precisava presentear uma pessoa, e eu o fiz em 14 de março de 2009, no dia exato que marcava meu terceiro aniversário de chegada em São Paulo: fiquei felicíssimo de ter conseguido arrancar um sorriso aberto de Ney Matogrosso ao entregar o resultado de minhas pesquisas em suas mãos. Contei brevemente o périplo percorrido até chegar naquele camarim com aquelas tortuosas páginas e ele ficou impressionado com o quanto o meio acadêmico ainda consegue ser careta... Foi o máximo de interação que eu, um tímido ocasional e incorrigível, consegui me permitir com uma das pessoas mais admiradas por mim...

Ao lado de um sorridente Ney Matogrosso, em 14 de março de 2009.
Acabei tirando férias dos meus mascarados por algumas temporadas, mas nunca conseguia fazer isso por muito tempo. Sempre havia alguma coisa que me remetia a eles: Matildes me convidou para um dia maravilhoso de palestras na UFF e lá fui eu mais uma vez voando para o Rio de Janeiro falar sobre o Secos & Molhados para alunos de Graduação em 2008. Um contato do professor Herom Vargas, interessado em conhecer meu trabalho em janeiro de 2009, fez com que eu me entusiasmasse com as pesquisas novamente. Um ou outro livro que abordava o legado e a loucura dos anos 1970 sempre vinha a público para me atormentar e me lembrar de que era preciso atualizar a versão final do texto. Fui investindo nestas atualizações até o final de 2014, quando concluí a versão final do que se transformou no livro. 


Como resolução principal para 2015, decidi que não apenas iria retirar meus escritos das pastas e das gavetas, como também iria viver um ritmo profissional mais brando, com finais de semana livres e mais qualidade de vida. Isso implicava trabalhar menos, como também iria acarretar ganhos financeiros menores. Não me arrependo nem um pouco. Pude revisar as provas do livro e suas infindáveis idas, vindas e tormentas com a atenção devida e projetar uma parte do futuro. E sonhar com o dia de poder sair assinando livros para as pessoas e compartilhar o conhecimento com todos os que quiserem comprar O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: Poesia, Performance e Política na Música Brasileira. Afinal de contas, o que realmente vale no tocante a qualquer jornada intelectual é poder repartir o pouco que sabemos com os nossos semelhantes...          

Mais uma vez me vejo rodeado de uma série de atos simbólicos: lançar meu primeiro livro logo após a comemoração do centenário de Frank Sinatra, a alguns metros de distância do Teatro Ruth Escobar, na mesmíssima cidade que revelou o Secos & Molhados para o universo, quase 12 anos depois de apresentar a primeira versão de meu trabalho de conclusão de curso definitivamente deve ser sinal de bons fluidos. Um ciclo se fecha, outro está a caminho. O que nos espera, não sabemos. O que desejo? Que seja bom para todos nós, tão divertido quanto “O Vira” que até hoje faz crianças, adultos e velhinhos dançarem por aí sem temer o medo de qualquer noção de ridículo. Que cative as almas dos leitores e ouvintes, tal qual meus olhos e ouvidos foram cativados por aquela magia fantástica dos meus queridos mascarados. E que seja leve, como uma leve pluma que pousa alegremente sobre os corações da gente. 


21 de janeiro de 2012

TROVA # 2*

A MAGIA DO SECOS & MOLHADOS**

* Quando era adolescente, lá pelos idos da década de 1990, era o típico jovem “aborrecente” que só ouvia música em inglês. No entanto, apenas três artistas chamavam minha atenção naquela época: Rita Lee, Ney Matogrosso e Maria Bethânia – artistas que não tinham surgido na minha geração, mas que me diziam muito. No ano em que iniciei a Faculdade de Letras, resolvi prestar mais atenção na banda que projetou Ney para os quatro cantos deste planeta. Descobri o Secos & Molhados e me tornei não apenas fã, como pesquisador deste fenômeno meteórico que foi sinônimo de ousadia, liberdade e música de primeiríssima qualidade. Concluí a graduação, a pós-graduação (não, necessariamente!) e minha paixão por este grupo continua... Por isso, não poderia deixar de fazer meu tributo ao Secos & Molhados e o que este grupo significou/significa para mim.

** Este texto foi publicado há exatamente cinco anos no site oficial de Ney Matogrosso. Na época, eu estava em fase de conclusão de minha Dissertação de Mestrado sobre o Secos & Molhados e fiz um breve perfil do grupo que tomou o Brasil inteiro de assalto entre 1973 e 1974. A versão que aqui apresento foi devidamente atualizada de acordo com o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Nada foi acrescentado ao conteúdo do texto. Afinal de contas, time que está ganhando não deve ser alterado, não é verdade?

Aquelas noites de dezembro de 1972 jamais teriam sido as mesmas se um grupo musical composto por três rapazes não tivesse se apresentado na Casa de Badalação & Tédio, uma espécie de anexo do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Surgia, naquele palco, ao lado de João Ricardo e Gerson Conrad, uma criatura bem estranha: um rapaz bigodudo requebrando provocativamente, com uma voz incomum e insólita para alguém do sexo masculino, vestido com uma calça de cetim e uma grinalda na cabeça, bastante maquiado e repleto de purpurina. Não parecia nem homem nem mulher, nem rumbeira nem cigana, nem animal nem ser humano. Era Ney Matogrosso que vinha a público com todo o seu fogo cênico e desaforado, acalentado por anos e anos de teatro.
Graças ao empenho do empresário Moracy do Val, que decidira contratar o grupo assim que o assistiu pela primeira vez, a temporada de shows no Ruth Escobar rendeu uma série de apresentações em outros locais, transformando o Secos & Molhados em uma sensação das noites paulistanas como num passe de mágica. Poucos meses depois de sua estreia nos palcos, o grupo entrou no estúdio Prova (SP) para as gravações de seu primeiro disco. Entre maio e junho de 1973, o álbum foi gravado.

João Ricardo (violão) e Ney Matogrosso durante ensaio para um show do Secos & Molhados
A capa do primeiro disco do Secos & Molhados foi fotografada e produzida por Antônio Carlos Rodrigues, que, ao tomar conhecimento do nome do grupo, decidiu criar uma mesa de jantar com produtos perecíveis normalmente vendidos em um armazém (um nome genérico para secos e molhados). Porém, o prato principal do banquete consistia simplesmente das cabeças de Ney Matogrosso, João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias (baterista que não aceitou integrar o grupo).
Ao lançar o álbum, a gravadora Continental produziu apenas 1.500 cópias do primeiro trabalho do Secos & Molhados. No entanto, a aparição do grupo em rede nacional na estreia do programa Fantástico, da Rede Globo, provocou uma enorme curiosidade por parte do grande público em relação à novidade que surgia. Em aproximadamente uma semana, os 1.500 discos já tinham sido vendidos. Os executivos da indústria fonográfica se viram obrigados a derreter vinis de outros artistas que não vendiam tanto para fabricar mais álbuns do Secos & Molhados, uma vez que faltava matéria-prima disponível para prensar mais discos. Enquanto isso, as rádios tocavam sucessos como “O Vira” (João Ricardo – Luhli), “Sangue latino” (João Ricardo – Paulinho Mendonça) e “Rosa de Hiroshima” (Gerson Conrad – Vinícius de Moraes).
Os shows de lançamento do primeiro disco foram no Teatro Itália, em setembro de 1973, rendendo uma série de lembranças inesquecíveis para os que estiveram lá para assistir o grupo nos palcos. A partir daí, Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso começaram a se apresentar por todo o Brasil, causando frenesi por onde passavam. Um exemplo deste fato se deu no Rio de Janeiro em novembro do mesmo ano, numa temporada no Teatro Tereza Rachel: o assédio dos fãs era tão grande que filas e filas se formavam na expectativa de ver o Secos & Molhados no palco!
Era evidente que uma manifestação tão rica e intensa como o Secos & Molhados incomodava a ditadura militar que castigava o Brasil no início da década de 70. O incômodo não se justificava por algo político sem querer ser (o Secos não era um grupo politicamente engajado), mas por possuir uma irreverência que afrontava a moralidade de muitas famílias brasileiras. Abordar a falta de liberdade e expor a sexualidade incomum (até então) provocava a inquietação nas altas patentes do governo. Entretanto, censurar um fenômeno maciço de crítica e público era tarefa impossível.
A aparição de Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso no Rio de Janeiro foi tão bem-sucedida que eles foram convidados para uma temporada de um mês no Tereza Rachel, com direito a uma censora dentro do camarim de Ney o tempo todo. O sucesso foi tamanho que eles decidiram fazer um show de encerramento no Ginásio do Maracanãzinho, em 13 de fevereiro de 1974. Muitos acharam o convite um absurdo, pois nenhuma atração brasileira tinha tido a oportunidade de se apresentar naquele palco apenas com seu próprio espetáculo. Outros temiam que Ney fosse agredido pelo público. Havia expectativas de que não haveria pessoas suficientes para preencher o local.

Gerson Conrad, Ney Matogrosso e João Ricardo em ação...
A receptividade dos mexicanos também foi muito positiva. Em pouco tempo, a postura ousada e provocante do Secos & Molhados deixou o país em polvorosa, com direito a uma foto deles na capa da famosa revista norte-americana Billboard. Segundo os membros do grupo, empresários norte-americanos, fascinados com o impacto visual provocado pela maquiagem de Ney, João e Gerson, convidaram-nos para apresentações nos Estados Unidos. Ney Matogrosso relatou, certa vez, que um destes executivos lhe propôs a abandonar o Secos & Molhados e fazer uma carreira solo na terra do Tio Sam com um repertório mais pesado e mantendo sua indefectível presença de palco. A possibilidade de se transformar em uma versão glitter e caricatural de Carmen Miranda em um território cuja língua jamais dominara não o animou, para o alívio de muitos brasileiros...
Em pouco mais de um ano, o primeiro LP do Secos & Molhados vendeu cerca de um milhão de cópias, concorrendo com o maior vendedor de discos do Brasil em todos os tempos, Roberto Carlos. Pela primeira vez em sua história, o “Rei” se viu obrigado a dividir seu trono com corujas, pirilampos, sacis e fadas.
O sucesso do primeiro LP do Secos & Molhados foi tamanho que a gravadora Continental precisou derreter vinis de outros artistas para fabricar LPs deste fenômeno de vendas.
          Ao retornarem do México, iniciaram-se as sessões de gravação do disco sucessor ao álbum das cabeças cortadas. As turbulências internas entre os integrantes do Secos & Molhados provocaram rumores de sua dissolução antes do início das gravações. Ney Matogrosso já tinha optado por abandonar o grupo, decisão que só seria oficialmente tomada assim que o segundo disco fosse para as lojas. João Ricardo assumiu a produção do trabalho, função que antes cabia a Moracy do Val, que, nesta altura dos acontecimentos, não era mais empresário do Secos. As gravações do segundo álbum do Secos & Molhados se deram em meio a uma atmosfera de desentendimentos, disputas e crises.
Previa-se que o lançamento do segundo disco do Secos & Molhados seria o principal acontecimento fonográfico de 1974, mas as notícias da separação de seus integrantes chegaram aos jornais antes da primeira semana de agosto. Muitos compraram o novo álbum com um sabor de tristeza ao saber que Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso já não eram mais um único grupo. Os três decidiram sair em carreira solo a partir da dissolução do fenômeno: Gerson Conrad se uniu a Paulinho Mendonça (co-autor de “Sangue latino” e “Delírio...”, do segundo disco) gravou um álbum em parceria com a cantora e atriz Zezé Motta no ano seguinte e depois fez um trabalho solo em 1981 (Rosto marcado); João Ricardo se dividiu em projetos solo e em formações alternativas do Secos & Molhados; Ney Matogrosso, por sua vez, seguiu em carreira solo e estreou em 1975 com o show Homem de Neanderthal e o disco Água do Céu-Passaro.
Contrariando todas as previsões, o Secos & Molhados não só conseguiu a façanha de ser a primeira atração nacional a lotar o Maracanãzinho (20 mil pessoas foram assisti-los e eles ainda deixaram outras milhares de pessoas do lado de fora!), como teve a sua apresentação transmitida pela Rede Globo para todo o Brasil. Tal acontecimento rendeu em uma das noites mais importantes da História da Música Popular Brasileira e foi fundamental para que o grupo seguisse rumo a uma turnê de duas semanas pelo México, tempos depois. Em 1980, foi lançado o LP Secos & Molhados Ao vivo no Maracanãzinho, com supervisão de Gerson Conrad e com os melhores momentos daquele show. Este trabalho nunca foi lançado oficialmente em CD por não possuir uma boa qualidade técnica e problemas de som.
Brigas e farpas à parte, a carreira do Secos & Molhados marca um dos momentos mais importantes da música popular brasileira. Seus discos e suas apresentações ao vivo renderam legiões de fãs e admiradores até os dias de hoje. Falar sobre a magia em torno do Secos & Molhados não é apenas se referir à trajetória de nossas artes, mas é também recorrer à memória coletiva de muitos brasileiros.

Acessem:

A fonte original deste texto, retirada do site oficial de Ney Matogrosso - http://www2.uol.com.br/neymatogrosso/show01_t01.html
O link de minha Dissertação de Mestrado, O Doce & O Amargo do Secos & Molhados, defendida a ferro e fogo por mim, em 2007 - http://www.bdtd.ndc.uff.br/tde_arquivos/23/TDE-2009-07-27T143936Z-2143/Publico/Vinicius%20Silva-Dissert.pdf

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