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17 de maio de 2021

TROVA # 166

“ASTRONAUTA DA SAUDADE”


 
 

Belezas são coisas acesas por dentro

Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento

(Jorge Mautner & Nelson Jacobina, 1974)



SAUDADE: palavra que traduz um sentimento agridoce de algo que já não temos mais conosco. Palavra muito difícil de ser traduzida para outros idiomas, bem difícil de explicação para quem não é nativo do idioma português. Dizem que a saudade é síndrome de quem vive no passado, enquanto a ansiedade é pavor do futuro e a depressão é o pânico do presente. Talvez faça sentido, porque sou alguém ansioso por natureza e já vivi episódios graves de depressão. E conheço várias pessoas que se encaixam nessa lógica.


Porém, não podemos nos esquecer jamais de que viver é um jogo muito mais complexo do que a lógica comum e é uma ação que requer, acima de tudo, CORAGEM. Coragem de se expor, coragem de tirar as palavras do pensamento e das conversas íntimas para leva-las para o papel e depois para o ciberespaço. Coragem de desafiar o senso comum imposto por um pensamento conservador e tacanho. Coragem de ser diferente em um contexto que exige que todo mundo seja e aja de maneira igual.


Apesar do que sugere o título do texto que você está lendo, estou longe de ser um entusiasta do que já passou. Guardo com carinho muitas lembranças de outrora, tenho outras memórias bem preservadas na gaveta do rancor. Tenho mais animação pelo futuro, considerando o que ele pode nos trazer de bom e não tão bom assim. Faço do meu presente a possibilidade de construir um futuro melhor para mim e para mais alguns. Escrevo tudo isso para dizer que não sinto uma ponta de saudade do passado que eu vivi, mas invejo profundamente o passado que eu não vivi. A juventude anárquica e desbundada dos anos 1960 e 1970 e muitos dos eventos político-culturais que foram promovidos para combater a caretice brasileira nossa de todo dia.

Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam apenas o seguinte: se o passado que me cabe e não me cabe mais são estrelas no espaço sideral, podem me chamar de “astronauta da saudade”, pois meus textos transitam por corpos celestes e resgatam as memórias boas que vivi e as lembranças que gostaria de ter tido. Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam também que sou um amigo da arte, da ciência e do conhecimento. Falo e escrevo sobre coisas “fora de moda”: “livros, discos, vídeos à mancheia” e outras coisinhas que o sujeito comum não gosta ou não aprecia mais. Sempre contra a corrente, contra o senso comum e a velha pasmaceira.


Cada texto que escrevo vai muito além do desejo de ser lido ou do mero instinto de me comunicar por meio de palavras para velhos conhecidos ou um leitor cujo rosto eu não conheço. Cada postagem em meu blog sempre foi uma maneira de procurara a beleza no presente com o auxílio da música. Em algumas ocasiões fui bem-sucedido, em outras nem tanto. No resumo de tudo, foi mantido o exercício da escrita como um ofício prazeroso e com a garantia de que erros e acertos estão devidamente registrados, apesar de levemente revisados.


Já que tornar público o que há de mais íntimo por parte do pensamento é o fato que está diante de seus olhos, aproveito para fazer um convite para você que chegou até aqui: ouça os textos, leia os discos e as canções que se encontram por aqui. O blog foi uma viagem e tanto. Quem sabe o livro seja também. Por isso, junte-se a mim e faça uma boa viagem pelas letras e sons que reuni aqui depois de tantos anos...

8 de outubro de 2017

TROVA # 139

A DEUSA DE CRISTAL & O ANJO DE FOGO
(uma semana com Ná Ozzetti e Alceu Valença)


         Não tenho tido muita disposição para comparecer a shows ultimamente. Quando penso na distância a percorrer até o local dos eventos, na falta de conforto dos locais e outras chatices mais, fico com a lembrança de que o sofá e a cama são os locais mais confortáveis durante qualquer final de semana. Todavia, há alguns artistas que me fazem burlar a chatice e deixar a preguiça de lado e sair de casa para vivenciar o evento in loco.

*

         Ná Ozzetti é uma dessas figuras. Desde o momento em que me mudei para a Terra da Garoa, no início de 2006, eu me sentia envergonhado por não conhecer a musicalidade da chamada “Vanguarda Paulistana”. Comecei a ouvir Itamar Assumpção, Luiz Tatit, Grupo Rumo, José Miguel Wisnik e outros para tentar entender um pouco mais sobre a música com gosto de concreto que se produzia na cidade que passei a chamar de minha. Não levei muito tempo para descobrir que os talentos da moça que possui o nome de batismo Maria Cristina Ozzetti são os que me encantaram desde o início da minha história de amor com São Paulo.


         Assisti Ná cantando pela primeira vez em um show de Luiz Tatit. Ao interpretar “Minta” (Luiz Tatit & Ricardo Breim) acompanhada apenas pelo piano de Marcelo Jeneci, fiquei petrificado na plateia do SESC Vila Mariana: aquela voz não era uma voz qualquer, era um canto límpido, cristalino, quase lírico, um instrumento musical raríssimo. Ficou lógico e evidente que Lady Ozzetti era a voz mais bonita que São Paulo ofertou ao universo.


         Tempos depois, vi em um cartão desses que uso como marcador de livros de que Ná Ozzetti faria um espetáculo exclusivamente com canções do repertório de Carmen Miranda. Creio que Balangandãs deve ter sido um dos shows que eu mais assisti nestes meus 30 e poucos de retinas não tão fatigadas assim. Ná, em um vestido preto e pulseiras de continhas coloridas, interpretava o repertório da Pequena Notável com toda a brejeirice, a malícia e a doçura que a Brazilian Bombshell ofertou em cada nota que cantou pelos quatro cantos do mundo.


O que mais me cantava é o fato de Lady Ozzetti, uma cantora que já gravou canções profundamente “cerebrais” (seja as do Grupo Rumo, seja as canções de Dante Ozzetti, Tatit, Wisnik ou Itamar) nunca ter cedido a quaisquer pressões de um mercado fonográfico perverso e ser dona de uma discografia muito elegante e independente de qualquer tendência mercadológica. Um feito que pouquíssimas cantoras deste país podem se orgulhar...


Fui assistir Ná Ozzetti em um show que ela dividia com José Miguel Wisnik no início de outubro de 2017 no Teatro do SESC Belenzinho. Apesar de não ter ficado tão animado com a voz e algumas canções de Zé Miguel, eu fiquei ainda mais encantado com a voz de Lady Ozzetti, que conseguia tirar as notas mais insólitas e as interpretações mais belas daquele cancioneiro que, em alguns momentos, me parecia intransponível para os meus ouvidos. Por essas e muitas outras que eu vejo a figura frágil de Ná como a de uma Deusa de Cristal, de cordas vocais perfeitas.


*

         Alceu Valença é outra dessas criaturas. Ele já me fez sair do conforto absoluto do meu lar em pleno Sábado de Carnaval só para sair atrás de seu trio elétrico, o Bicho Maluco Beleza. Outra vez, quebrei minha rotina semanal de trabalho só para assistir um show seu de voz e violão na primeira fila de um Teatro Bradesco meio vazio – privilégio de poucos, devo confessar. Passei uma noite inesquecível ao lado de amigos ao som do show comemorativo de 20 anos de O Grande Encontro, espetáculo no qual Alceu dividia o palco com seus comparsas Elba Ramalho e Geraldo Azevedo. Suas canções fazem parte de meu imaginário desde o momento em que me entendo como ouvinte de música brasileira.



         Se existe alguém que transborda a alegria de estar no palco, este ser humano atende pelo nome de Alceu Valença. Sua comunicação e a interação com o público são de uma perfeição sem tamanho: os espectadores, em plena catarse, cantam, pulam, dançam, fazem os movimentos que ele pede. Todo local do espetáculo de Alceu se transforma em uma miniatura das ruas do Carnaval de Recife, para a felicidade geral de toda a massa que possui um ingresso nas mãos.


         A noite de 6 de outubro de 2017 não prometia muito em termos de qualquer coisa: tinha tido uma semana de trabalho extremamente cansativa e estava numa indisposição que parecia não ter fim. No entanto, os ingressos comprados para uma apresentação de Alceu na Casa Natura Musical, 20 minutos de onde moro, me tiraram de casa quase que na base do fórceps.


Ao fazer novas amizades na boca do palco minutos antes do show, tive a certeza de que aquela noite seria mais uma daquelas para serem guardadas no lado esquerdo do peito. Em Anjo de Fogo, Alceu Valença passeou não apenas pelo que existe de melhor nos ritmos nordestinos, como também trouxe as pérolas mais bonitas de seu cancioneiro. A Belle de Jour se encontra com Morena Tropicana em meio à Solidão da lua cheia Como Dois Animais. Um Cavalo de Pau faz a Anunciação das paixões que vêm de dentro para fora do palco e se transformam no que existe de mais belo em matéria de canção. Tudo isso e mais um pouco ocorre no palco de Alceu, para sua consagração e para a realização do público.



*


Os contatos imediatos com a Deusa de Cristal e com o Anjo de Fogo são flechadas certeiras para que os nervos de aço deste que vos escreve se recuperem de um cotidiano de sala de aula e continue a buscar inspiração para ter o que dizer na página em branco do computador. Se os médicos pudessem recomendar música como antídoto para os males do dia-a-dia, deveriam escolher os trabalhos de Ná Ozzetti e Alceu Valença para seus pacientes. Se os ouvidos dos doentes não forem moucos, a cura virá como consequência.