28 de outubro de 2013

TROVA # 23

A ÚLTIMA TRANSFORMAÇÃO
DE LOU REED

Lou Reed em foto de Andy Warhol
Just a perfect day
you made me forget myself
 I thought I was someone else
 someone good
(“Perfect Day” – Lou Reed)


A partir do ano de 2013, o dia 27 de Outubro será conhecido como mais uma data na qual a música morreu mais um pouco. Foi um choque gigantesco para mim quando soube que Lou Reed deixou de estar entre nós. Uma perda irreparável para o Rock, para o Pop, para a música, para a Arte. Uma influência indiscutível para artistas do mundo inteiro. Um gênio e um chato de marca maior. Este foi Lewis Allan Reed durante 71 anos.

The Velvet Underground & Nico (1967)

         Lou não precisou de muita coisa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll. Seu disco de estreia à frente do Velvet Underground, o icônico The Velvet Underground & Nico (1967), é tão genial, mas tão genial, que se ouvirmos este disco em 2031, ele ainda vai estar milhares de anos à frente de seu tempo! Já seu segundo trabalho solo, Transformer (1972), é de uma perfeição tão absurda que não existem palavras para descrever esta obra-prima do Rock! Enquanto muitos precisaram de uma carreira sólida e extensa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll Hall of Fame, por exemplo, Lou Reed conseguiu isto com apenas DOIS álbuns!


Transformer (1972)

        

Mr. Reed on the stage



            Seus demais trabalhos nunca foram considerados “acessíveis” para o grande público, tal qual o incensado Transformer, produzido pela dupla dinâmica David Bowie – Mick Ronson. Discos como este figuram na lista interminável dos clássicos (Exile On Main Street, Talking Book, Harvest, The Rise And Fall of Ziggy Stardust & The Spiders From Mars...) que fizeram de 1972 um dos anos mais importantes da História do Rock. As 11 faixas, influenciadas diretamente pela magia glam de Bowie (mas sem deixar de ter o toque ácido do estilo poético de Reed), se tornaram parte das minhas relíquias musicais há anos. Guardo minha cópia da edição comemorativa deste disco ao lado de meus discos mais queridos em meu quarto. Ao pegar o disco e ter a certeza de que Lou Reed não está mais entre os terráqueos me dá uma tristeza sem tamanho.

“Satellite's gone up to the skies
 Things like that drive me out of my mind
 I watched it for a little while
 I love to watch things on TV”
Satellite of Love

Lou Reed, Mick Jagger e David Bowie em 1973


         Gênio para alguns e chato para outros, Lou Reed nunca se preocupou em ser uma unanimidade, herói, salvador da pátria musical ou qualquer coisa do tipo. Seus colegas de Velvet Underground viviam às turras com o vocalista excêntrico. Bowie - um admirador e parceiro de Reed - ficou anos sem falar com Lou por causa do ego gigantesco do autor de Transformer. Cometeu uma gafe enorme com Susan Boyle, quando esta gravou "Perfect Day", ao dizer que o trabalho de Boyle era um tremendo lixo (Susan foi às lágrimas e não foi por causa da beleza dos versos do clássico de 1972). Cancelou sua vinda à FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), em 2010, sem nenhum motivo aparente. No mesmo ano, fez uma apresentação controvertida de seu álbum mais insólito, Metal Machine Music (1975), no SESC Pinheiros (SP). Apesar de muitos não esperarem que ele tocasse “Vicious” ou a antológica “Walk On The Wild Side” no Bis, os ingressos se esgotaram em menos de UMA HORA! Infelizmente, não tive a honra de estar no Teatro Paulo Autran para ver Mestre Reed em ação, mesmo sabendo que teria sido uma verdadeira chatice...

“Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you're so vicious
Vicious, you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
Oh baby, you're so vicious”
Vicious

         
Lou Reed & David Bowie em 2008
         
          Outro exemplo de como Lou Reed não era algo de fácil apreensão para o grande público se deu na minha vida profissional. Certa vez, resolvi fazer uma atividade de Língua Inglesa baseada em “Perfect Day”, uma das baladas mais fantásticas de todos os tempos, para uma turma de alunos que cursavam o nível básico. Ser Professor de Inglês tem, dentre várias outras vantagens, a possibilidade de trabalharmos com o tipo de música que a gente gosta. Tudo transcorreu muito bem (Pre-Listening Task, While Listening Tasks, etc.) até a hora em que eu acabei de tocar a canção mais perfeita do Songbook de Reed. Meus alunos ficaram insatisfeitos (ou chocados, ou entediados, sei lá...) com a acidez dos versos do velho Lou (afinal, existe mais beleza do que tristeza em versos como "You're going to reap just what you sow", não é verdade?). Meus ex-pupilos se sentiram tão insatisfeitos que, na aula seguinte, uma aluna me deu uma sugestão de uma canção de LeAnn Rimes para uma próxima atividade... rsrsrsrsrs De meu herói musical, Lou Reed foi promovido a vilão das minhas aulas de Inglês!

“Yes I am mother nature's son
And I'm the only one
I do what I want and I want what I see
Could only happen to me”
I’m So Free

          A tarde de hoje ficou mais cinzenta por causa da última transformação de Lou Reed neste mundo. Que sua obra seja sempre relembrada e que sua influência sempre se dê entre nós, músicos ou não, roqueiros ou não, falantes de Inglês ou não, chatos ou não, gênios ou não. O autor de Transformer infelizmente nos fará falta, mas sua música é o passaporte para que possamos matar as saudades de mais uma Estrela que passou a brilhar em outros palcos...

Lou Reed (1942-2013) - R.I.P.

"Sunday morning
Wild side walking
Satellite of loving
All tomorrow's mournings"
(Alex Otaola)

15 de outubro de 2013

TROVA # 22


Três Verdades e Duas Ilusões sobre Marisa Monte
Marisa Monte em foto de Nilton Serra - São Paulo, Setembro/2013


Eu posso te fazer ouvir
Milhões de sinos ao redor
Eu posso te fazer canções
O amor soa em minha voz
Eu posso te fazer sorrir
Meus olhos brilham para ti
E os pés já sabem onde ir
Ninguém precisa decidir
Verdade - uma ilusão
Vinda do coração
Verdade - seu nome é mentira.”


(“Verdade, Uma Ilusão”, de Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes & Marisa Monte – na interpretação inesquecível de Marisa Monte)



      Marisa Monte habita minhas memórias musicais (e sentimentais) desde  os meus oito anos de idade. Eu era um menino carioca magrelo, sem  graça  que vivia em Porto Alegre (RS) por mero acidente de percurso e que cursava o terceiro ano do Ensino Fundamental quando ouvi esta voz pela primeira vez (ao contrário de qualquer menino da minha faixa etária, o que aumentava ainda mais o abismo social que me separava de meus coleguinhas de gaúchos na escola). Voltando ao tema da Trova de hoje: lembro-me claramente de quando ouvi “Bem Que Se Quis” na heroica Fiat 147 que meu Pai tinha. A voz de Marisa, para uma criança que mal ouvia música de qualidade, era um bálsamo para alguém que começava a se desenvolver suas percepções musicais.

    Minha adolescência foi regada pelos títulos mais Pop da discografia de Marisa Monte: Mais (1991), Verde Anil Amarelo Cor de Rosa & Carvão (1993), Barulhinho Bom (1996), somados ao seu antológico (e matador) disco de estreia, MM (1989), foram uma trilha sonora recorrente de uma era na qual se ouvia pouquíssima música brasileira no apartamento onde eu morava no subúrbio carioca que me pariu. A voz rara de Marisa sempre foi referência de mais refinado em termos de modernidade, tradição e bom gosto em matéria de canção brasileira. As interpretações que a bela morena fez para “Negro Gato” (Getúlio Cortês), “Comida” (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto & Marcelo Frommer), “Chocolate” (Tim Maia), “Beija Eu” (Marisa Monte, Arnaldo Antunes & Arto Lindsay), “Volte Para O Seu Lar” (Arnaldo Antunes), “Eu Não Sou Da Sua Rua” (Branco Mello & Arnaldo Antunes), “De Mais Ninguém” (Arnaldo Antunes & Marisa Monte), “Sou Seu Sabiá” (Caetano Veloso) e tantas outras são tão definitivas e marcantes que não sairão das memórias musicais de muitos brasileiros e estrangeiros que amam a música que se faz por aqui.

    Os intervalos longos que Marisa Monte tirava entre o lançamento de cada trabalho inédito – extremamente benéficos para sua arte, diga-se de passagem – sempre me desapontou um pouco. A partir de 2000, data do lançamento de seu maior sucesso comercial, Memórias, Crônicas & Declarações de Amor (Textos, Provas & Desmedidos), Marisa já não era apenas uma cantora talentosíssima, como também era detentora de uma marca que lhe deixava em evidência para o grande público em momentos e de maneiras devidamente estratégicos. Seus CDs começaram a ser lançados mundialmente, suas turnês deixaram de ser nacionais e se converteram em World Tours produzidas com pompa, circunstância, efeitos especiais, músicos de renome, ingressos caríssimos e lotações esgotadas não importa onde a Bela esteja. Muitas de suas canções se tornaram hits instantâneos graças ao fato de terem figurado em trilhas sonoras de novelas da Rede Globo.


*

    A partir dos fatos enumerados até aqui, podemos elencar três verdades e duas ilusões que percebo em torno de Marisa Monte. Vamos às verdades:


1)    Marisa Monte é a cantora brasileira de maior alcance internacional hoje em dia: graças à EMI, seus CDs podem ser achados nas maiores cidades do planeta. O prestígio conquistado no decorrer de duas décadas de atividades musicais é correspondente ao respeito que os gringos possuem pela Bossa Nova. Além disto, Marisa já gravou com nomes de peso da cena musical internacional – David Byrne e Julieta Venegas, dentre os mais badalados.

2)    Marisa Monte é uma cantora moderna, porém atada à tradição: o trunfo e a fraqueza de Marisa residem justamente neste fato. Suas referências musicais principais (Portela, Jorge Ben, Titãs, Tim Maia, Paulinho da Viola, Roberto & Erasmo, Tropicália) lhe fazem uma artista que atualiza a produção dos medalhões da música brasileira para as gerações mais jovens. Já suas parcerias (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Nando Reis e alguns outros) lhe trazem um nível considerável de estabilidade musical, mas não lhe permite maiores possibilidades de inovação e renovação no panorama da música popular brasileira pelo simples fato de que as canções gravadas por Marisa são essencialmente radiofônicas.

3)    Marisa Monte não segue a cartilha das celebridades: apesar de ser uma personalidade de altíssima popularidade, de possuir uma imagem icônica (seus cabelos negros, longos e cacheados são sua marca visual registrada) e de ser profundamente respeitada por seus colegas de profissão e adorada por seus fãs, Marisa está longe de ser uma celebridade. Pouco se sabe sobre sua vida amorosa, seus filhos e de seu infinito particular. Sabemos pouquíssimo de seu paradeiro quando não está em turnê, para desespero dos paparazzi e das revistas de fofocas. Diante disto tudo, merece o respeito do respeitável público por não expor suas intimidades ao spotlight, como muitos globais existentes no pedaço...

 
Os cabelos negros, longos e cacheados são a marca registrada de Marisa Monte.




E vamos às ilusões:


1)   Marisa Monte pode até ser popular, mas seus shows não são: os CDs da musa possuem uma vendagem altamente expressiva – a ponto de permitir a façanha de lançar dois trabalhos consecutivos: Infinito Particular e Universo Ao Meu Redor (2006). Entretanto, o mesmo não pode ser dito de suas apresentações ao vivo: devido à alta oferta e procura de shows, a filha do Sr. Carlos Monte deixou de se apresentar em locais pequenos e passou a lotar grandes casas de espetáculo e com direito a lotações esgotadas e (possíveis) datas extras, para alegria dos patrocinadores e das elites que possuem bala na agulha e apreciar a arte de Marisa Monte a poucos metros de distância. Lamento este fato, pois suas canções possuem uma linguagem de fácil apreensão e muitos outros poderiam desfrutar de música qualidade se tivessem a oportunidade de ver a bela cantora atuar em locais mais populares.
Marisa Monte: Prima Donna? Popular? Diva?

2)   Marisa Monte não é Diva: acreditem se quiser, mas a voz que canta “Verdade, Uma Ilusão” não é uma Prima Donna. Marisa pode parecer distante de seu público no início de um espetáculo, mas, aos poucos, baila e interpreta canções dramaticamente, permite-se acolher pelo público para o qual canta e chega até a contar anedotas e curiosidades que se escondem por trás das canções entre um número e outro. Ao dar início a uma sessão de Bis, pede para que todos cantem juntos sem soar fake ou arrogante. A interação artista – público é carinhosa e genuína. Um exemplo deste fato está na experiência narrada por Nilton Serra, um genuíno admirador do trabalho de Marisa, em um show feito em São Paulo, em Setembro de 2013. Veja só:


“E no bis, Marisa Monte volta somente com sua guitarra, cantando "Amor I love You" dedicada à São Paulo. O público, por sua vez, fazia backing vocal. "Adoro quando um homem na plateia canta a parte do Arnaldo [Antunes]. Alguém sabe?" Escolhido o homem, ele começa com uma voz grave:


 "... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!".


 Muito aplaudido, ela retoma a canção e pergunta ao rapaz: "a quem você dedica esta canção?"; e ele: "ao Márcio, meu namorado" e a plateia vem abaixo em meio a delírios e aplausos. Um show magnífico, com um final pra lá de especial.”


Divas, mestras absolutas na arte do distanciamento detestariam o público das apresentações de Marisa Monte. Os pagantes-sortudos portadores de cartões de crédito, iPhones, contas no Instagram, et caterva possuem a oportunidade de interagir com uma Falsa Prima Donna. Para a alegria de alguns, para as verdades de muitos, para a ilusão de muitos outros (infelizmente)...

*

         Dentre verdades e ilusões em torno de sua figura, Marisa Monte sempre nos traz a referência de como a música no Brasil e de uma qualidade extraordinária. Não precisamos saber do que tais verdades e ilusões se tratam, basta ter ouvidos abertos e (tal qual sugere a canção de um de seus espetáculos mais poéticos), deixar que Ela deixe você sorrir...

30 de setembro de 2013

TROVA # 21


A MÁGICA MTV BRASIL

 



 

“Every little thing she does is magic

Everything she do she turns me on

Even though my life before was tragic

Now I know my love for her goes on …”

(Sting, à frente do The Police – 1981)

 

No início da década de 1990, briguei com unhas e dentes pelo que Sting, em férias do The Police, pedia no início do famoso hit do Dire Straits: “I want my MTV!”. A partir de outubro de 2013, serei mais um dentre vários órfãos da MTV Brasil. A Music Television brasileira foi mais do que um mero canal de TV ou puro entretenimento para este que vos escreve. Ela teve um papel decisivo na minha educação musical e na minha formação cultural. Graças a ela, tive a oportunidade de fugir do marasmo medíocre e fatal da TV aberta e ter a oportunidade de ver os integrantes do Olimpo musical nacional e internacional em plena atividade.
 

Por outro lado, é também preciso deixar a hipocrisia e o saudosismo para trás: a MTV Brasil dos últimos tempos estava profundamente decadente, cambaleava morbidamente em praça pública, tal qual um Michael Jackson de This Is It ou um Elvis Presley com vários quilos acima do peso. Sua programação não tinha mais o brilhantismo e a inteligência do que víamos nos anos 1990/2000. Os VJs que estavam a cargo da programação não possuíam o mesmo carisma daqueles que um dia revolucionaram a maneira de se fazer TV neste país. Além disto, a propagação viral da Internet, das redes sociais e do You Tube fez com que a nossa Music Television deixasse de ser um celeiro que revelava novos talentos e que consolidava a imagem e o som dos grandes astros nas retinas e ouvidos do grande público jovem brasileiro.
 

Também não podemos nos esquecer da presença sadia do canal no comportamento dos jovens que a assistiam com programas e vinhetas de cunho informativo e educativo – as campanhas de combate à AIDS, as campanhas de conscientização política e a memorável campanha “Desligue a TV e vá ler um livro!” foram alguns dos pontos marcantes da minha memória televisiva emetivesca. E quem não se lembra de programas bárbaros como o Barraco MTV, o Disk MTV, o Top 20 Brasil, o MTV Non Stop, o MTV No Ar, o Supernova, o TVLeeZão, Os Piores Clipes do Mundo, o Furo MTV, o Pé na Cozinha e as cerimônias do Video Music Brasil? Ou do programa que Thunderbird (entre as suas milhares de idas e vindas) comandou em 2003, no qual DOIS novos VJs foram escolhidos? Meus dedos da mão direita também terão uma enorme dificuldade de esquecer o número "25" no dial do controle remoto...
 

Não me esqueço do primeiro videoclipe que assisti quando sintonizava (com muita dificuldade) o canal 24 UHF da TV do meu antigo quarto: “Every Little Thing She Does Is Magic”, do The Police. Enquanto Sting, Andy Summers e Stewart Copeland dançavam como três patetas enlouquecidos, eu tive a oportunidade descobrir que a mágica de cada clipe, de cada vinheta, de cada VJ estava nas pequenas coisinhas. Coisinhas estas que me livraram da solidão típica de qualquer adolescente excêntrico. Não, Xuxa não foi minha babá eletrônica. Sim, a MTV (parcialmente) me educou e me moldou no decorrer dos meus “anos de formação”.
 
 
Modéstia a parte, posso afirmar sem a menor vergonha e com muito orgulho que se não fosse pela MTV Brasil eu jamais teria conhecido os integrantes do The Police (que habitavam minha imaginação desde a tenra infância) em plena atividade, ou não teria vivido o retorno triunfal de Madonna ao mundo Pop com o incensado Ray of Light (1998), os Rolling Stones convertidos em gigantes e dominando uma Nova York com som e luxúria no vídeo de “Love Is Strong” (do antológico Voodoo Lounge, de 1994) ou a reaparição do Blondie depois de quase duas décadas de inatividade com No Exit (1999). Bandas emblemáticas do BritPop e dos EUA como Blur, Oasis, Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers teriam passado incólumes por meus olhos e ouvidos. R.E.M. e 10,000 Maniacs, duas das referências musicais mais importantes para mim, foram apresentados a mim via Music Television. Mestres da música brasileira como Caetano Veloso, Rita Lee (com ou sem Os Mutantes e/ou Roberto de Carvalho), Tom Zé, Itamar Assumpção, Cazuza, Barão Vermelho, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Gilberto Gil, Marina Lima, Cássia Eller, Gal Costa, Nando Reis, Zélia Duncan, Pitty, Zeca Baleiro, Planet Hemp, Chico Science, Fernanda Abreu e tantos outros seriam destituídos de qualquer significado para mim se eu não tivesse brigado pela minha MTV. Gigantes do Rock ‘n’ Roll como os Beatles (juntos ou solo), Led Zeppelin, Janis Joplin, The Black Crowes, Bob Dylan, Queen, Deee-Lite, Talking Heads, Radiohead, Metallica, Bom Jovi, Deep Purple, Black Sabbath (com ou sem Ozzy Osbourne), Garbage, Portishead, Lou Reed, Iggy Pop, Peter Gabriel, Eric Clapton e tantos outros não teriam sequer tamanho de um Gulliver sem a presença de seus videoclipes na TV. O mesmo teria acontecido se artífices do Pop do porte de Alanis Morissette, kd Lang, Prince, Annie Lennox (à frente ou não do Eurythmics), Stevie Wonder, Sheryl Crow, Mariah Carey, Human League, Shakira, Whitney Houston, Janet e/ou Michael Jackson, George Michael, Paula Cole, Fiona Apple, Jamiroquai, Beyoncé e tantos outros não estivessem na programação da MTV um dia. O que teria sido de mim sem a elegância de David Bowie, Bryan Ferry e Natalie Merchant?


Se eu não tivesse tido contato com estes nomes via MTV Brasil, eu jamais saberia distinguir o luxo do lixo em matéria de música popular. Em meio a uma era na qual a Internet, os downloads, o Google e o YouTube não tinham popularidade ou sequer existiam, a Music Television brasileira desempenhou um papel cultural fundamental para pessoas que dependiam das antenas UHF, da TV a cabo e da agilidade do Video Cassette.

 

Astrid Fontenelle: a cara da MTV Brasil
Enquanto muitas pessoas do meu círculo de amizades e contatos profissionais assistiam avidamente as atrações que agitaram o Rock In Rio 2013, eu preferi ficar na solidão do meu quarto assistindo o canto do cisne da MTV Brasil desenterrar imagens de arquivo em sessões de retrospectiva enquanto antigos (ex-)VJs se revezavam na tarefa de relembrar 23 anos de trajetória televisiva. Ao rever pessoas como Astrid Fontenelle, Gastão Moreira, Cuca Lazarotto, Luiz Thunderbird, Sabrina Parlatore, Edgard Piccoli, Soninha Francine, Fábio Massari, Marina Person, João Gordo e Chris Couto no vídeo, foi inevitável sentir um gosto de decepção e saudade. Decepção porque a tentativa brasileira de fazer uma MTV à brasileira, no final das contas, deixou de dar certo. Saudade porque todos sabemos que, a partir de 01 de Outubro de 2013, a MTV feita no Brasil passa a ser uma mera sucursal da original norte-americana, para tristeza de muitos parceiros da minha geração (que viveu o ápice da MTV, no decorrer dos anos 1990).
 

Graças às fitas VHS (hoje mofadas, provavelmente!) que foram convertidas em arquivos do YouTube, podemos assistir a mágica da MTV Brasil na Internet. Assim, podemos resgatar um pedaço de um momento marcante daquela programação incomum, anárquica e (às vezes) bizarra, como também, retomar flashes da nossa própria juventude sem evitar o saudosismo inútil e a lembrança de uma era memorável da televisão brasileira que, por forças do destino, atingiu o estágio final do seu ciclo.

Cheers!


 

27 de julho de 2013

TROVA # 20

700 e poucos dias sem
Amy Winehouse

         


 If you don't throw yourself into something, you'll never know what you could have had.” 
("Se você não mergulha de cabeça em algo, você jamais irá saber o que poderia ter tido.")
Amy Winehouse

*

          A mídia do Reino Unido deve estar vivendo um marasmo profundo quando não há nenhum acontecimento novo e recalcitrante por parte da Família Real para expor em suas vitrines famintas. Lógico, claro, evidente: a Pop Star que mais ofereceu material quentinho e barulhento para os tabloides nos últimos tempos não dá as caras neste plano há mais de 700 dias, para desespero daqueles que adoram ver sangue impresso em páginas de jornal (ou nas searas internetescas!), ou para ser mais direto ao assunto, que se divertem em ver o circo alheio pegar fogo...
          Amy Winehouse fez tanto barulho nos tabloides, na música e na vida que deixaria até Janis Joplin (uma arruaceira de boca cheia) ruborizada. Seus escândalos, barracos e bebedeiras foram tantos que, infelizmente, a música (seu principal talento) ficou em segundo plano nos últimos anos de sua breve vida. Por isso, a saudade que sentimos é da música, do canto singular e do breve legado de uma das cantoras mais incríveis dos últimos tempos.

*

          23 de Julho de 2011... Estava voltando de Curitiba para São Paulo depois de participar em um congresso de Literatura Comparada quando ligo a Internet 3G de meu telefone celular e descubro (através de uma piada infame que me recuso a citar aqui!) que o óbvio tinha acontecido: Amy Winehouse tinha morrido em sua casa em Londres. Apesar de ter consciência de que Amy não iria durar muito por aqui, a notícia me chocara bastante. Há muito tempo que a estrela não conseguia fazer um show completo sem cambalear em cena aberta, para expectativas de fãs, detratores e da imprensa.
          O mais surpreendente para mim foi que Amy Winehouse estava ensaiando um retorno triunfal aos palcos quando Dona Morte foi mais rápida e resolveu buscá-la aos 27 anos de idade. Chegou a fazer uma turnê pelo Brasil no início de 2011, mas não chegou a empolgar seu público – segundo relatos de alguns amigos que testemunharam este fato ao vivo (confesso abertamente que não quis ver a decadência inevitável da Pop Star ao vivo), a apresentação de Amy em São Paulo foi de uma pobreza lancinante, ao contrário da de Janelle Monáe, que se apresentou no mesmo palco naquela mesmíssima noite. Gravou um dueto belíssimo com Tony Bennett, porém a gravação que ambos fizeram de “Body And Soul” só veio a público quando a convidada de Bennett não estava mais entre nós. Tentativas foram feitas, mas o destino de um suicida cumpriu seu caminho...
          Amy era uma suicida com todas as letras pelo simples fato de que este mundo era pesado demais para ela. Sua voz, embebida em álcool e drogas de todos os tipos, revelava um sofrimento gigantesco – família desestruturada, os conflitos causados pela fama repentina, o casamento fracassado com Blake Fielder-Civil –, com o qual muitos ouvintes se identificaram de tal maneira, que fez com que seus discos fossem vendidos assustadoramente. Infelizmente, fama, sucesso e talento não foram suficientes para que Miss Winehouse permanecesse no mundo dos vivos

*
          2006... Recém-chegado a São Paulo, depois de trocar o doce sabor das maresias cariocas pela garoa paulistana, vejo uma reportagem na qual Caetano Veloso faz elogios rasgados a uma cantora jovem, com 23 anos de idade na época. Resolvi baixar Back to Black no PC (tempo de vacas anoréxicas, nas quais não tinha dinheiro para comprar nem a versão simples, tampouco a Deluxe Edition desta pérola musical...) e fiquei espantado com o resultado que Amy Winehouse conseguiu em seu segundo CD. Ao ouvir cada música deste disco incrível, pensei que finalmente tinha conhecido a Janis Joplin da minha geração.
          Pena que a minha inocência de 25 anos de idade não me fez enxergar logo de cara que Amy Winehouse, por ser a Janis Joplin de minha geração, não iria ficar aqui por muito tempo...


*
          Natal de 2011... Depois de adquirir as Deluxe Editions de Frank (2003) e Back to Black (2006), ganho de presente Lioness: The Hidden Treasures (2011), álbum póstumo de Amy. O baú de Miss Winehouse guardava pérolas improváveis para os ouvidos de fãs e curiosos, tais como: as primeiras versões de “Tears Dry On Their Own” e “Wake Up Alone”, uma versão graciosa de “The Girl From Ipanema” que ficou de fora da seleção oficial de seu primeiro álbum e, surpreendentemente, um registro desesperado de “A Song For You”, de Leon Russell – será que ela previa o próprio futuro ao cantar versos como “I’ve been so many places in my life and time / “I’ve sung a lot of songs, I’ve made some bad rhyme (‘Estive em tantos lugares no decorrer da vida / Cantei muitas canções, fiz algumas rimas ruins’)” em pleno dissabor perante a vida que devia estar chegando ao fim?!
Sim, havia coisas que valiam a pena dentro daquele baú. Porém, nada (repetindo: nada!) que tivesse a consistência de um aguardado terceiro álbum de inéditas de Amy Winehouse. Auxiliado pelos produtores Mark Ronson e Salaam Remi, Mitch Winehouse (pai de Amy) raspou as sobras do tacho dos arquivos e fez o inventário musical da filha caçula, com direito a todo o oportunismo que a ocasião promete.


  *
Maio de 2012... Patti Smith, uma de minhas musas e referências principais de Arte nos dias de hoje, lança novo disco. Banga, retorno de Mrs. Smith ao disco depois de oito anos sem material autoral inédito, traz “This Is The Girl”, canção escrita em homenagem a Amy Winehouse. Os versos de Patti, repletos de emoção, nos trazem a memória de alguém que se foi cedo demais... Depois de 700 e poucos dias sem a música de Amy, um relato da saudade amargada por cada um que aprecia a boa música de um talento único...
           




THIS IS THE GIRL
(Patti Smith & Tony Shanahan)

This is the Girl
For whom all tears fall
This is the Girl
Who was having a ball
Just a dark smear masking the eyes
Spirited away hurrying inside

This is the Girl
That crossed the bind
This is the song about smouthering vine
Twisted as laurels to crown her head
Raised as a reef upon her bed

This is the Girl
This the blind that turned in wine
This is the wine of the house it is said
This is the Girl who Yearned to be heard
So Much for cradling a smouldering bird

This is the Girl x2

This is the Girl
For whom all tears fall
This is the Girl
Who was having a ball
This is the Girl
For whom all tears have shead
This is the Wine of the House it is said

This the blind that turned in wine
This is the wine of the house it is said
This is the Girl who Yearned to be heard
So Much for cradling a smouldering bird

This is the Girlx x3



WINEHOUSE'S TOP 5:


1. Rehab



2. You Know I'm No Good


3. Help Yourself


4. Wake Up Alone (Original Version)


5. Tears Dry On Their Own


e uma participação inesquecível em um show dos Rolling Stones!




26 de julho de 2013

TROVA # 19

EU QUERIA SER MICK JAGGER!



The past is a great place and I don't want to erase it or to regret it, but I don't want to be its prisoner either.”
O passado é um lugar bacana e eu não quero apaga-lo ou me arrepender dele, mas não quero ser seu prisioneiro de forma alguma.
Mick Jagger

          Sim, eu confesso: se eu pudesse ser uma Estrela do Rock ‘n’ Roll para ser durante um dia, não pensaria duas vezes em dizer que queria ser Mick Jagger! Por quê? Ora essa, resposta facílima: porque Sir Mick é embebido em juventude (seguindo os preceitos do bom e não tão velho estatuto do Rock), é energético dentro e fora dos palcos, é dramático e sarcástico ao mesmo tempo, é o mais jurássico das estrelas roqueiras sem ser empoeirado, já dormiu com Deus e o mundo, etc. etc. etc... Ou seja, ele É sexo, drogas e Rock 'n' Roll: apenas isso!
          Muitos dos que me conhecem sabem que Mick Jagger é o meu stone preferido. Sonhava em ter aqueles cabelos lisos e ligeiramente longos, tais quais ele tinha na época de Exile On Main Street (1972), evidenciando aquela boa e velha androginia no final dos anos 1990 (meus heróis não morreram de overdose, mas são os mesmos da geração dos meus pais!) ou me mover pelos palcos e pela vida com aquele rebolado... Sim, eu confesso, eu confesso...
          No entanto, a partir de 26 de Julho de 2013, Michael Philip Jagger conseguiu mais um motivo para que eu o inveje ainda mais: chegou aos 70 anos de idade com uma energia de fazer inveja a muitos rapazes da minha faixa etária. Quem estava no Hyde Park, em Londres, no início de Julho de 2013, viu e ouviu Mick à frente de dois concertos históricos da banda de Rock mais importante em atividade. Os sortudos que foram aos shows dos Rolling Stones na turnê que varreu os EUA durante o primeiro semestre de 2013, também viram que a energia de Sir Mick parece inesgotável! A pergunta que todos, perplexos, fazemos é: como ele consegue?
          Mick é filho de um Professor de Educação Física. Sempre fez exercícios, foi competitivo e sempre se esforçou para ser o melhor naquilo com o se envolve. Além disso (dizem as lendas), não foi tão junkie como Richards, Jones ou Wood. Sempre se fez de “louco”, mas foi o mais sábio de todos os roqueiros de sua geração e não se deixou sucumbir completamente pelos alucinógenos. Sua performance esfuziante nos palcos não era movida a mera cocaína ou demais estimulantes, é fruto de um físico mantido a exercícios constantes, para inveja e desespero de quem não consegue tal determinação e/ou biótipo. Além disso, sempre teve olhos de lince para os negócios - daí explica-se o fato dos Rolling Stones serem não apenas um baluarte do Rock, como também o fato de serem uma marca rentável e que move milhões e milhões de verdinhas... E disso, tio Mick gosta tanto quanto a cópia da costela de Adão! 
          Tem outro elemento que diferencia Jagger de seus companheiros de geração: este rapaz de sete décadas sempre foi movido a uma insatisfação constante – não me refiro apenas a “Satisfaction”, o major hit dos Rolling Stones –, com o amor (dois casamentos desfeitos, sete filhos), com a política (não é um liberal convicto, mas é um crítico feroz dos conservadores), com os costumes (faz questão de não se enquadrar com os limites impostos pela masculinidade tradicional), com o próprio Rock (é dono de uma extensa discografia - tanto a frente dos Stones, quanto em carreira solo). Este aspecto faz com que o frontman da banda mais festejada do Rock ‘n’ Roll se destaque em relação a outros rivais do mundo da música como Bono Vox, Steven Tyler, Robert Plant e tantos outros...
          Por estas e tantas outras, um brinde a Mick Jagger! Que o Mestre possa nos surpreender por outros 70 anos ou mais!
          Cheers from Brazil, Sir Mick!

Confira os links abaixo sobre os 70 anos de Mick Jagger: