Perdoe-me esta correspondência atrasada e improvisada, mas não pude deixar de te escrever nesta ocasião tão especial. Se você estivesse vivo, teríamos comemorado seu 100.º Aniversário no último dia 19 de Outubro com direito a muita música, poesia e whisky!
Sinceramente, Vinícius, o mês de Outubro deveria ser considerado como "O Mês do Poeta". Não apenas por tudo que você escreveu, mas principalmente por tudo que você viveu. Carlos Drummond de Andrade, seu colega de gauche profissão, disse, certa vez, que você não viveu como um homem, e sim como um verdadeiro Poeta. Frank Sinatra, em outra ocasião, disse que viver a vida do jeito que ele viveu já bastava. O mesmo podemos dizer de ti, pois os 67 anos que você viveu foram de tremenda intensidade.
Quando eu, este reles blogueiro que te escreve, era criança, sempre tive milhares de conflitos em torno do nome que recebemos. Não gostava de meu nome, achava-o feio. Talvez por ser incomum para meninos da minha época, ou por ser difícil para uma criança o pronunciar, provavelmente porque não conhecia ninguém que tivesse um nome tão diferente. E te confesso que a primeira aula sobre Diversidade que a vida me deu foi em relação ao nome Vinícius. Só na idade adulta entendi que nós, incautos de nome Vinícius somos privilegiados por sermos plurais. Afinal, você mesmo afirmou que se não foste tantos em um só, seu nome seria Vinício de Moral.
Vinícius & Baden Powell
Poeta camarada, sua obra continua sendo reverenciada como nunca nos dias de hoje. A Companhia das Letras reeditou seus livros com muito apuro e elegância. Seus discos foram remasterizados e reeditados em uma bela caixa com encartes riquíssimos em informação. Miguel Faria Jr. fez um documentário belíssimo sobre ti. José Castello escreveu uma biografia essencial sobre sua vida. Suas filhas Georgiana e Maria ficaram responsáveis pela divulgação de seu legado através da VM Cultural. O respeito pela sua poesia cresce cada vez mais. Por outro lado, o Brasil continua numa caretice sem tamanho, você acredita? Ainda existem pessoas que ficam escandalizadas com o fato de você ter se casado nove vezes. Alguns colegas seus de Música Popular acham que biografias não devem ser escritas se não houver "prévia autorização". Enfim, você precisaria de uns dois cachorros engarrafados para ter que suportar tanta cafonice. Ou, quem sabe, passar muitas tardes em Itapuã enquanto esta onda bizarra passa...
Vinícius & Tom Jobim
Sua família tem agido como guardiã sensata de seu trabalho. Graças a eles, novas gerações tem tido a oportunidade de ler e ouvir tudo o que você produziu. Apesar de seus livros constarem na lista dos vestibulares mais importantes e concorridos do país, não encontro pessoas no mundo acadêmico que estudam (ou queiram estudar) a sua obra. Muitos integrantes da dita "Academia" demonstram preconceito (velado) ao fato de você ter deixado de escrever poemas que figuravam nos livros para a elite letrada e ter se "debandado" para a turma do Samba e da Bossa Nova. É uma lástima que não possamos debater seu ofício até a exaustão em aulas, seminários, congressos, mesas de bar.
Vinícius & Toquinho
Poeta da pesada, não poderia existir um dia da semana mais perfeito para o seu 1.º Centenário do que um sábado. Isto quer dizer que aos sábados podemos celebrar casamentos e divórcios, renovar esperanças, brindar o "bom funcionamento" dos maridos perante suas esposas e por aí vai e, acima de tudo, propor um brinde à sua memória. Que nas noites de 19 de Outubro, os copos possam tilintar em sua homenagem, que sonetos de amor sejam lidos e escritos com ardor, que amores façam e se desfaçam para dar prosseguimento a este enorme ciclo que chamamos de vida. Que a sua Arca de Noé possa ser lida e ouvida por muitas crianças e adultos que já se apaixonaram ou ainda irão se apaixonar por sua poesia!
A partir do ano de 2013, o dia 27 de Outubro será conhecido como mais uma data na qual a música morreu mais um pouco. Foi um choque gigantesco para mim quando soube que Lou Reed deixou de estar entre nós. Uma perda irreparável para o Rock, para o Pop, para a música, para a Arte. Uma influência indiscutível para artistas do mundo inteiro. Um gênio e um chato de marca maior. Este foi Lewis Allan Reed durante 71 anos.
The Velvet Underground & Nico (1967)
Lou não precisou de muita coisa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll. Seu disco de estreia à frente do Velvet Underground, o icônico The Velvet Underground & Nico (1967), é tão genial, mas tão genial, que se ouvirmos este disco em 2031, ele ainda vai estar milhares de anos à frente de seu tempo! Já seu segundo trabalho solo, Transformer (1972), é de uma perfeição tão absurda que não existem palavras para descrever esta obra-prima do Rock! Enquanto muitos precisaram de uma carreira sólida e extensa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll Hall of Fame, por exemplo, Lou Reed conseguiu isto com apenas DOIS álbuns!
Transformer (1972)
Mr. Reed on the stage
Seus demais trabalhos nunca foram considerados “acessíveis” para o grande público, tal qual o incensado Transformer, produzido pela dupla dinâmica David Bowie – Mick Ronson. Discos como este figuram na lista interminável dos clássicos (Exile On Main Street, Talking Book, Harvest, The Rise And Fall of Ziggy Stardust & The Spiders From Mars...) que fizeram de 1972 um dos anos mais importantes da História do Rock. As 11 faixas, influenciadas diretamente pela magia glam de Bowie (mas sem deixar de ter o toque ácido do estilo poético de Reed), se tornaram parte das minhas relíquias musicais há anos. Guardo minha cópia da edição comemorativa deste disco ao lado de meus discos mais queridos em meu quarto. Ao pegar o disco e ter a certeza de que Lou Reed não está mais entre os terráqueos me dá uma tristeza sem tamanho.
“Satellite's gone up to the skies
Things like that drive me out of my mind
I watched it for a little while
I love to watch things on TV”
Satellite of Love
Lou Reed, Mick Jagger e David Bowie em 1973
Gênio para alguns e chato para outros, Lou Reed nunca se preocupou em ser uma unanimidade, herói, salvador da pátria musical ou qualquer coisa do tipo. Seus colegas de Velvet Underground viviam às turras com o vocalista excêntrico. Bowie - um admirador e parceiro de Reed - ficou anos sem falar com Lou por causa do ego gigantesco do autor de Transformer. Cometeu uma gafe enorme com Susan Boyle, quando esta gravou "Perfect Day", ao dizer que o trabalho de Boyle era um tremendo lixo (Susan foi às lágrimas e não foi por causa da beleza dos versos do clássico de 1972). Cancelou sua vinda à FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), em 2010, sem nenhum motivo aparente. No mesmo ano, fez uma apresentação controvertida de seu álbum mais insólito, Metal Machine Music (1975), no SESC Pinheiros (SP). Apesar de muitos não esperarem que ele tocasse “Vicious” ou a antológica “Walk On The Wild Side” no Bis, os ingressos se esgotaram em menos de UMA HORA! Infelizmente, não tive a honra de estar no Teatro Paulo Autran para ver Mestre Reed em ação, mesmo sabendo que teria sido uma verdadeira chatice...
“Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you're so vicious
Vicious, you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
Oh baby, you're so vicious”
Vicious
Lou Reed & David Bowie em 2008
Outro exemplo de como Lou Reed não era algo de fácil apreensão para o grande público se deu na minha vida profissional. Certa vez, resolvi fazer uma atividade de Língua Inglesa baseada em “Perfect Day”, uma das baladas mais fantásticas de todos os tempos, para uma turma de alunos que cursavam o nível básico. Ser Professor de Inglês tem, dentre várias outras vantagens, a possibilidade de trabalharmos com o tipo de música que a gente gosta. Tudo transcorreu muito bem (Pre-Listening Task, While Listening Tasks, etc.) até a hora em que eu acabei de tocar a canção mais perfeita do Songbook de Reed. Meus alunos ficaram insatisfeitos (ou chocados, ou entediados, sei lá...) com a acidez dos versos do velho Lou (afinal, existe mais beleza do que tristeza em versos como "You're going to reap just what you sow", não é verdade?). Meus ex-pupilos se sentiram tão insatisfeitos que, na aula seguinte, uma aluna me deu uma sugestão de uma canção de LeAnn Rimes para uma próxima atividade... rsrsrsrsrs De meu herói musical, Lou Reed foi promovido a vilão das minhas aulas de Inglês!
“Yes I am mother nature's son
And I'm the only one
I do what I want and I want what I see
Could only happen to me”
I’m So Free
A tarde de hoje ficou mais cinzenta por causa da última transformação de Lou Reed neste mundo. Que sua obra seja sempre relembrada e que sua influência sempre se dê entre nós, músicos ou não, roqueiros ou não, falantes de Inglês ou não, chatos ou não, gênios ou não. O autor de Transformer infelizmente nos fará falta, mas sua música é o passaporte para que possamos matar as saudades de mais uma Estrela que passou a brilhar em outros palcos...
Lou Reed (1942-2013) - R.I.P.
"Sunday morning Wild side walking Satellite of loving All tomorrow's mournings" (Alex Otaola)
Marisa Monte em foto de Nilton Serra - São Paulo, Setembro/2013
“Eu posso te
fazer ouvir
Milhões de
sinos ao redor
Eu posso te
fazer canções
O amor soa em
minha voz
Eu posso te
fazer sorrir
Meus olhos
brilham para ti
E os pés já
sabem onde ir
Ninguém
precisa decidir
Verdade - uma
ilusão
Vinda do
coração
Verdade - seu
nome é mentira.”
(“Verdade, Uma Ilusão”, de Carlinhos
Brown, Arnaldo Antunes & Marisa Monte – na interpretação
inesquecível de Marisa Monte)
Marisa Monte habita minhas memórias musicais
(e sentimentais) desde os meus oito anos de idade. Eu era um menino carioca
magrelo, sem graça que vivia em Porto Alegre (RS) por mero acidente
de percurso e que cursava o terceiro ano do Ensino Fundamental quando ouvi esta
voz pela primeira vez (ao contrário de qualquer menino da minha faixa etária, o
que aumentava ainda mais o abismo social que me separava de meus coleguinhas de
gaúchos na escola). Voltando ao tema da Trova
de hoje: lembro-me claramente de quando ouvi “Bem Que Se Quis” na heroica Fiat
147 que meu Pai tinha. A voz de Marisa, para uma criança que mal ouvia música
de qualidade, era um bálsamo para alguém que começava a se desenvolver suas
percepções musicais.
Minha adolescência foi regada pelos títulos
mais Pop da discografia de Marisa
Monte: Mais (1991), Verde Anil Amarelo Cor de Rosa & Carvão
(1993), Barulhinho Bom (1996),
somados ao seu antológico (e matador) disco de estreia, MM (1989), foram uma trilha sonora
recorrente de uma era na qual se ouvia pouquíssima música brasileira no
apartamento onde eu morava no subúrbio carioca que me pariu. A voz rara de
Marisa sempre foi referência de mais refinado em termos de modernidade,
tradição e bom gosto em matéria de canção brasileira. As interpretações que a
bela morena fez para “Negro Gato” (Getúlio Cortês), “Comida” (Arnaldo Antunes,
Sérgio Britto & Marcelo Frommer), “Chocolate” (Tim Maia), “Beija Eu”
(Marisa Monte, Arnaldo Antunes & Arto Lindsay), “Volte Para O Seu Lar”
(Arnaldo Antunes), “Eu Não Sou Da Sua Rua” (Branco Mello & Arnaldo
Antunes), “De Mais Ninguém” (Arnaldo Antunes & Marisa Monte), “Sou Seu
Sabiá” (Caetano Veloso) e tantas outras são tão definitivas e marcantes que não sairão das
memórias musicais de muitos brasileiros e estrangeiros que amam a música que se
faz por aqui.
Os intervalos longos que Marisa Monte tirava
entre o lançamento de cada trabalho inédito – extremamente benéficos para sua
arte, diga-se de passagem – sempre me desapontou um pouco. A partir de 2000,
data do lançamento de seu maior sucesso comercial, Memórias, Crônicas & Declarações de Amor (Textos, Provas &
Desmedidos), Marisa já não era apenas uma cantora talentosíssima, como
também era detentora de uma marca que lhe deixava em evidência
para o grande público em momentos e de maneiras devidamente estratégicos. Seus
CDs começaram a ser lançados mundialmente, suas turnês deixaram de ser
nacionais e se converteram em World Tours
produzidas com pompa, circunstância, efeitos especiais, músicos de renome,
ingressos caríssimos e lotações esgotadas não importa onde a Bela esteja. Muitas de suas canções se
tornaram hits instantâneos graças ao
fato de terem figurado em trilhas sonoras de novelas da Rede Globo.
*
A partir dos fatos enumerados até aqui,
podemos elencar três verdades e duas ilusões que percebo em
torno de Marisa Monte. Vamos às verdades:
1)Marisa Monte
é a cantora brasileira de maior alcance internacional hoje em dia: graças à
EMI, seus CDs podem ser achados nas maiores cidades do planeta. O prestígio
conquistado no decorrer de duas décadas de atividades musicais é correspondente
ao respeito que os gringos possuem pela Bossa Nova. Além disto, Marisa já
gravou com nomes de peso da cena musical internacional – David Byrne e Julieta
Venegas, dentre os mais badalados.
2)Marisa Monte
é uma cantora moderna, porém atada à tradição: o trunfo e a fraqueza de
Marisa residem justamente neste fato. Suas referências musicais principais
(Portela, Jorge Ben, Titãs, Tim Maia, Paulinho da Viola, Roberto & Erasmo,
Tropicália) lhe fazem uma artista que atualiza a produção dos medalhões da
música brasileira para as gerações mais jovens. Já suas parcerias (Arnaldo
Antunes, Carlinhos Brown, Nando Reis e alguns outros) lhe trazem um nível
considerável de estabilidade musical, mas não lhe permite maiores
possibilidades de inovação e renovação no panorama da música popular brasileira
pelo simples fato de que as canções gravadas por Marisa são essencialmente radiofônicas.
3)Marisa Monte
não segue a cartilha das celebridades: apesar de ser uma personalidade de
altíssima popularidade, de possuir uma imagem icônica (seus cabelos negros,
longos e cacheados são sua marca visual registrada) e de ser profundamente
respeitada por seus colegas de profissão e adorada por seus fãs, Marisa está
longe de ser uma celebridade. Pouco se sabe sobre sua vida amorosa, seus filhos
e de seu infinito particular. Sabemos
pouquíssimo de seu paradeiro quando não está em turnê, para desespero dos paparazzi e das revistas de fofocas.
Diante disto tudo, merece o respeito do respeitável público por não expor suas
intimidades ao spotlight, como muitos
globais existentes no pedaço...
Os cabelos negros, longos e cacheados são a marca registrada de Marisa Monte.
E vamos às ilusões:
1)Marisa Monte pode até ser popular, mas seus shows
não são:
os CDs da musa possuem uma vendagem altamente expressiva – a ponto de permitir
a façanha de lançar dois trabalhos consecutivos: Infinito Particular e Universo
Ao Meu Redor (2006). Entretanto, o mesmo não pode ser dito de suas
apresentações ao vivo: devido à alta oferta e procura de shows, a filha do Sr.
Carlos Monte deixou de se apresentar em locais pequenos e passou a lotar
grandes casas de espetáculo e com direito a lotações esgotadas e (possíveis)
datas extras, para alegria dos patrocinadores e das elites que possuem
bala na agulha e apreciar a arte de Marisa Monte a poucos metros de distância.
Lamento este fato, pois suas canções possuem uma linguagem de fácil apreensão e
muitos outros poderiam desfrutar de música qualidade se tivessem a oportunidade
de ver a bela cantora atuar em locais mais populares.
Marisa Monte: Prima Donna? Popular? Diva?
2)Marisa Monte não é Diva: acreditem se quiser, mas a voz que canta
“Verdade, Uma Ilusão” não é uma Prima
Donna. Marisa pode parecer distante de seu público no início de um
espetáculo, mas, aos poucos, baila e interpreta canções dramaticamente,
permite-se acolher pelo público para o qual canta e chega até a contar anedotas
e curiosidades que se escondem por trás das canções entre um número e outro. Ao
dar início a uma sessão de Bis, pede para que todos cantem
juntos sem soar fake ou arrogante. A
interação artista – público é carinhosa e genuína. Um exemplo deste fato está
na experiência narrada por Nilton Serra, um genuíno admirador do trabalho de
Marisa, em um show feito em São Paulo, em Setembro de 2013. Veja só:
“E no bis, Marisa Monte volta
somente com sua guitarra, cantando "Amor I love You" dedicada à São
Paulo. O público, por sua vez, fazia backing
vocal. "Adoro quando um homem na plateia canta a parte do Arnaldo
[Antunes]. Alguém sabe?" Escolhido o homem, ele começa com uma voz grave:
"...
tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe
escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor
amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho
tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava
enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu
encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um
luxo radioso de sensações!".
Muito aplaudido, ela retoma a canção e
pergunta ao rapaz: "a quem você dedica esta canção?"; e ele: "ao
Márcio, meu namorado" e a plateia vem abaixo em meio a delírios e
aplausos. Um show magnífico, com um final pra lá de especial.”
Divas,
mestras absolutas na arte do distanciamento detestariam o público das apresentações
de Marisa Monte. Os pagantes-sortudos portadores de cartões de crédito, iPhones, contas no Instagram, et caterva
possuem a oportunidade de interagir com uma Falsa Prima Donna. Para a alegria de alguns, para as verdades de muitos,
para a ilusão de muitos outros (infelizmente)...
*
Dentre verdades e ilusões em torno de
sua figura, Marisa Monte sempre nos traz a referência de como a música no
Brasil e de uma qualidade extraordinária. Não precisamos saber do que tais
verdades e ilusões se tratam, basta ter ouvidos abertos e (tal qual sugere a
canção de um de seus espetáculos mais poéticos), deixar que Ela deixe
você sorrir...
No início da década de 1990, briguei
com unhas e dentes pelo que Sting, em férias do The Police, pedia no início do
famoso hit do Dire Straits: “I want
my MTV!”. A partir de outubro de 2013, serei mais um dentre vários órfãos da
MTV Brasil. A Music Television brasileira foi mais do que um mero canal de TV
ou puro entretenimento para este que vos escreve. Ela teve um papel decisivo na
minha educação musical e na minha formação cultural. Graças a ela, tive a
oportunidade de fugir do marasmo medíocre e fatal da TV aberta e ter a
oportunidade de ver os integrantes do Olimpo musical nacional e internacional
em plena atividade.
Por outro lado, é também preciso
deixar a hipocrisia e o saudosismo para trás: a MTV Brasil dos últimos tempos
estava profundamente decadente, cambaleava morbidamente em praça pública, tal
qual um Michael Jackson de This Is It
ou um Elvis Presley com vários quilos acima do peso. Sua programação não tinha
mais o brilhantismo e a inteligência do que víamos nos anos 1990/2000. Os VJs que estavam a cargo da programação
não possuíam o mesmo carisma daqueles que um dia revolucionaram a maneira de se
fazer TV neste país. Além disto, a propagação viral da Internet, das redes sociais e do You Tube fez com que a nossa Music
Television deixasse de ser um celeiro que revelava novos talentos e que
consolidava a imagem e o som dos grandes astros nas retinas e ouvidos do grande
público jovem brasileiro.
Também não podemos nos esquecer da
presença sadia do canal no comportamento dos jovens que a assistiam com
programas e vinhetas de cunho informativo e educativo – as campanhas de combate
à AIDS, as campanhas de conscientização política e a memorável campanha
“Desligue a TV e vá ler um livro!” foram alguns dos pontos marcantes da minha
memória televisiva emetivesca. E quem
não se lembra de programas bárbaros como o Barraco MTV, o Disk MTV, o Top 20
Brasil, o MTV Non Stop, o MTV No Ar, o Supernova, o TVLeeZão, Os Piores Clipes
do Mundo, o Furo MTV, o Pé na Cozinha e as cerimônias do Video Music Brasil? Ou do programa que Thunderbird (entre as suas milhares de idas e vindas) comandou em 2003, no qual DOIS novos VJs foram escolhidos? Meus dedos da mão direita também terão uma enorme dificuldade de esquecer o número "25" no dial do controle remoto...
Não me esqueço do primeiro videoclipe
que assisti quando sintonizava (com muita dificuldade) o canal 24 UHF da TV do
meu antigo quarto: “Every Little Thing She Does Is Magic”, do The Police.
Enquanto Sting, Andy Summers e Stewart Copeland dançavam como três patetas
enlouquecidos, eu tive a oportunidade descobrir que a mágica de cada clipe, de
cada vinheta, de cada VJ estava nas
pequenas coisinhas. Coisinhas estas que me livraram da solidão típica de
qualquer adolescente excêntrico. Não, Xuxa não foi minha babá eletrônica. Sim,
a MTV (parcialmente) me educou e me moldou no decorrer dos meus “anos de
formação”.
Modéstia a parte, posso afirmar sem a
menor vergonha e com muito orgulho que se não fosse pela MTV Brasil eu jamais
teria conhecido os integrantes do The Police (que habitavam minha imaginação
desde a tenra infância) em plena atividade, ou não teria vivido o retorno
triunfal de Madonna ao mundo Pop com
o incensado Ray of Light (1998), os
Rolling Stones convertidos em gigantes e dominando uma Nova York com som e
luxúria no vídeo de “Love Is Strong” (do antológico Voodoo Lounge, de 1994) ou a reaparição do Blondie depois de quase
duas décadas de inatividade com No Exit
(1999). Bandas emblemáticas do BritPop
e dos EUA como Blur, Oasis, Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers teriam
passado incólumes por meus olhos e ouvidos. R.E.M. e 10,000 Maniacs, duas das
referências musicais mais importantes para mim, foram apresentados a mim via
Music Television. Mestres da música brasileira como Caetano Veloso, Rita Lee
(com ou sem Os Mutantes e/ou Roberto de Carvalho), Tom Zé, Itamar Assumpção,
Cazuza, Barão Vermelho, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Os Paralamas do Sucesso,
Titãs, Gilberto Gil, Marina Lima, Cássia Eller, Gal Costa, Nando Reis, Zélia
Duncan, Pitty, Zeca Baleiro, Planet Hemp, Chico Science, Fernanda Abreu e
tantos outros seriam destituídos de qualquer significado para mim se eu não
tivesse brigado pela minha MTV. Gigantes do Rock
‘n’ Roll como os Beatles (juntos ou solo), Led Zeppelin, Janis Joplin, The
Black Crowes, Bob Dylan, Queen, Deee-Lite, Talking Heads, Radiohead, Metallica,
Bom Jovi, Deep Purple, Black Sabbath (com ou sem Ozzy Osbourne), Garbage, Portishead,
Lou Reed, Iggy Pop, Peter Gabriel, Eric Clapton e tantos outros não teriam
sequer tamanho de um Gulliver sem a presença de seus videoclipes na TV. O mesmo
teria acontecido se artífices do Pop
do porte de Alanis Morissette, kd Lang, Prince, Annie Lennox (à frente ou não
do Eurythmics), Stevie Wonder, Sheryl Crow, Mariah Carey, Human League,
Shakira, Whitney Houston, Janet e/ou Michael Jackson, George Michael, Paula
Cole, Fiona Apple, Jamiroquai, Beyoncé e tantos outros não estivessem na
programação da MTV um dia. O que teria sido de mim sem a elegância de David
Bowie, Bryan Ferry e Natalie Merchant?
Se eu não tivesse tido contato com
estes nomes via MTV Brasil, eu jamais saberia distinguir o luxo do lixo em
matéria de música popular. Em meio a uma era na qual a Internet, os downloads, o Google
e o YouTube não tinham popularidade
ou sequer existiam, a Music Television
brasileira desempenhou um papel cultural fundamental para pessoas que dependiam
das antenas UHF, da TV a cabo e da agilidade do Video Cassette.
Astrid Fontenelle: a cara da MTV Brasil
Enquanto muitas pessoas do meu
círculo de amizades e contatos profissionais assistiam avidamente as atrações que
agitaram o Rock In Rio 2013, eu preferi ficar na solidão do meu quarto
assistindo o canto do cisne da MTV Brasil desenterrar imagens de arquivo em sessões
de retrospectiva enquanto antigos (ex-)VJs
se revezavam na tarefa de relembrar 23 anos de trajetória televisiva. Ao rever
pessoas como Astrid Fontenelle, Gastão Moreira, Cuca Lazarotto, Luiz
Thunderbird, Sabrina Parlatore, Edgard Piccoli, Soninha Francine, Fábio Massari, Marina Person, João Gordo e Chris Couto no vídeo, foi inevitável sentir um
gosto de decepção e saudade. Decepção
porque a tentativa brasileira de fazer uma MTV à brasileira, no final das
contas, deixou de dar certo. Saudade porque
todos sabemos que, a partir de 01 de Outubro de 2013, a MTV feita no Brasil
passa a ser uma mera sucursal da original norte-americana, para tristeza de
muitos parceiros da minha geração (que viveu o ápice da MTV, no decorrer dos
anos 1990).
Graças às fitas VHS (hoje mofadas, provavelmente!) que foram convertidas em arquivos
do YouTube, podemos assistir a mágica
da MTV Brasil na Internet. Assim,
podemos resgatar um pedaço de um momento marcante daquela programação incomum,
anárquica e (às vezes) bizarra, como também, retomar flashes da nossa própria
juventude sem evitar o saudosismo inútil e a lembrança de uma era memorável da
televisão brasileira que, por forças do destino, atingiu o estágio final do seu
ciclo.