25 de novembro de 2013

TROVA # 26


 LUZES & SONS DA INSPIRAÇÃO


“New York
Concrete jungle where dreams are made of
There’s nothing you can’t do
Now you’re in New York
These streets will make you feel brand new
Big lights will inspire you
Hear it for New York
New York, New York…”
(Alicia Keys)


Ao Nilton e à Aninha, que aguentaram
as minhas crises de cansaço por toda Manhattan.


         A Paris deram o nome de “Cidade das Luzes”. No entanto, quando se coloca os pés em Nova York pela primeira vez, a impressão que temos é a de que todas as luzes do planeta migraram para o Atlântico Norte. A quantidade de apelos visuais feéricos e intermitentes de todos os tipos simplesmente não tem mais fim.

Em meio a tudo isto, somemos uma quantidade generosa de línguas e culturas distintas, uma bela constelação de teatros com astros e estrelas de todos os gostos, egos e tamanhos, uma variedade de lojas e outlets de todos os tipos e museus para todas (repetindo: todas!) as formas de Arte. E, lógico: para tudo isto há sons e versos que embalam a experiência inesquecível de passar pela Big Apple, a maçã proibida que provamos com gosto e prazer, por mais letal que o seu veneno possa lhes parecer.

Se você ainda não conhece esta grande metrópole, as canções que escolhemos para este TOP 10 afetivo vão te ajudar a compreender esta loucura um pouquinho melhor. Se você já conhece a cidade, escolha uma canção com a qual você se identificar ainda mais e embarque no navio da memória musical e resgate as suas melhores lembranças.


10 MOTIVOS MUSICAIS PARA VOCÊ
CARREGAR NYC NOS SEUS OUVIDOS 
E NO SEU CORAÇÃO:







10) M
adonna – “I Love New York






         Um dos momentos mais incendiários da Confessions Tour se dava quando a Rainha do Pop empunhava sua guitarra e tocava “I Love New York”. Ao bradar versos como “I don't like cities / But I like New York / Other places make me feel like a dork / Los Angeles is for people who sleep / Paris and London / Baby you can keep” ou o refrão-pop-chiclete “Other cities always make me mad / Other places always make me sad / No other city ever made me glad except New York / I love New York”, Madonna declara não apenas o seu amor pela Big Apple, como também fala de como esta cidade definiu suas ambições e seus anseios de conquistar o mundo com a sua verve Pop.

9) Sting – “Englishman in New York





         Este jazz composto por Sting na década de 1980 é um dos momentos mais significativos depois de sua saída do The Police. Nesta canção, o astro fala do choque cultural sofrido por um homem inglês na Big Apple (“I don't drink coffee I take tea my dear / I like my toast done on one side / And you can hear it in my accent when I talk / I'm an Englishman in New York”) e da importância de manter suas características mais marcantes de sua cultura, apesar de ter trocado a cinzenta Londres pela iluminada Nova York.

8) The Rolling Stones – “Shattered



 


         A partir da década de 1970, os EUA passaram a ter maior importância na vida e na obra dos Rolling Stones. Várias canções compostas pela dupla Mick Jagger – Keith Richards falavam de sexo, drogas, luxúria, amores partidos e outras desilusões... “Shattered”, última faixa de um dos maiores sucessos dos Stones, Some Girls (1978), traz um universo de “Love and hope and sex and dreams” e de “Pride and joy and greed and sex” em plena 7th Avenue. Além disso, Jagger canta o fato de que viver em uma cidade na qual a taxa de criminalidade crescia vertiginosamente no final dos anos 1970 não era tarefa das mais fáceis. “Shattered” é uma ode de amor à NYC às avessas, com todo o seu universo de desejo, cobiça e sedução – afinal, um dos versos finais deste clássico nos pede para “Go ahead, bite the big apple, don't mind the maggots”. Se Mick Jagger disse para que saboreemos a grade maçã sem se importar com os caroços, por que não fazê-lo?

7) Frank Sinatra – “(Theme From) New York, New York






         Se todos os clichês em torno de Nova York se resumissem uma canção, a gravação que Frank Sinatra fez para a composição de John Kander e Fred Ebb é o melhor caso, uma espécie de “Corcovado” para os nativos da Big Apple. E não havia melhor voz para cantar este standard do que o velho Sinatra: no início da década de 1980, os velhos olhos azuis eram a “Voz da América”, por isso acordar na cidade que nunca que dorme e fazer parte dela era mais do que natural para uma das vozes mais importantes do século XX. Apesar de ser um clássico “batido” nos ouvidos de muitos seres humanos, “(Theme From) New York, New York” ainda consegue despertar a emoção de todos aqueles que vão passar uma temporada em NYC.


6) R.E.M. – “Leaving New York





         Faixa de abertura de um dos trabalhos mais injustiçados do R.E.M., Around The Sun (2004), “Leaving New York” é uma ode apaixonada do vocalista Michael Stipe à cidade. A sensação inicial quando ouvimos os primeiros versos (“It's quiet now / And what it brings / Is everything // Comes calling back / A brilliant night / I'm still awake //I looked ahead / I'm sure I saw you there // You don't need me / To tell you now / That nothing can compare”) é de que Stipe canta ao pé do ouvido da cidade que o acolheu (e ainda deve acolher) por tanto tempo. A cidade das luzes, a cidade que ele tinha que abandonar toda vez que ele abandonava a cidade temporariamente para sair em turnê com os seus colegas de banda, a cidade que foi ferida e marcada profundamente pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001... A cidade que Stipe sempre amou e há de amar. Um retrato sentimental, poético, triste, mas de uma beleza irrepreensível.

5) Billy Joel – “New York State of Mind





         Composta por Billy Joel, “New York State of Mind” apareceu pela primeira vez em Turnstiles (álbum lançado por Joel em 1976). Apesar de nunca ter sido lançada em single, a canção se tornou em uma das (favoritas) mais populares do repertório de seu criador, além de ter sido regravada por nomes de peso da música norte-americana como Barbra Streisand, Diane Schuur e Tony Bennett.
Tomando como ponto de vista o ônibus Greyhound que segue a linha que cruza o rio Hudson (que corta a cidade), Billy Joel fala do seu amor pela cidade como se Nova York fosse mais do que isso: as luzes, avenidas, estrelas de cinema, limusines, os jornais, a música, a beleza de Manhattan, a bela feiura de Chinatown, tudo isto faz da cidade um estado de espírito! Daí a vontade de celebrar o legado e a beleza de um lugar sem comparação...

4) Natalie Merchant – “Carnival




        
         Depois de largar o 10,000 Maniacs, Natalie Merchant deixou de ser uma cantora “bonitinha e fofinha” que estava à frente de uma banda de sucesso para capitanear sua carreira solo com unhas, dentes e muita ousadia. Tigerlily (1995) teve como carro-chefe “Carnival”, esta ode às ruas da Big Apple. O palco virtual desenhado por Natalie revela atores sociais que compõem a cena citadina, multidões, riqueza e pobreza, o luxo da Tiffany’s e o lixo da miséria social do Queens (por exemplo). Não se trata de um carnaval, mas de um “parque de diversões” no qual as entranhas de uma cidade se abrem e revelam a beleza e a pobreza presente em cada uma das duas faces da moeda. E, no final de cada refrão, Natalie pergunta se o que os olhos veem refletem cegueira, perdição, perplexidade, paralisia? Várias perguntas sem respostas e outras perguntas a serem feitas...

3) Lou Reed – “Walk On The Wild Side





         Lou Reed foi um dos cronistas mais frequentes de Nova York. No entanto, a memória do grande público somente se lembra dos versos, dos acordes e dos repetitivos “Dooo-dooo-dooos” de “Walk On The Wild Side”. Reed fotografa com precisão espetacular o submundo de sexo, drogas sob uma perspectiva incomum – junkies, gays, travestis em meio a tranquilizantes e sexo oral. Caminhar pelo lado selvagem era viver intensamente pela Big Apple. O fundador do Velvet Underground soube bem o que foi tudo isso...


2) Norah Jones – “Back to Manhattan”  





         Norah Jones é uma das cantoras mais influentes de sua geração. Quando gravou seu disco The Fall (2009), esta nativa da Big Apple já era uma artista mundialmente premiada e respeitada por uma obra musical relevante, consistente e ousada.
Back to Manhattan” é um dos poucos episódios de The Fall no qual Norah se dedicou ao gênero musical que a colocou no mapa musical do planeta, o Jazz. A letra fala dos mundos diversos que existem em NYC: de um lado a rispidez do Brooklyn; do outro, as luzes de Manhattan. O eu-lírico de Norah se divide entre estes dois universos, ciente da impossibilidade de se desfazer de suas raízes – “But Brooklyn holds you / And holds my heart too / What a fool I was to think / I could live in both worlds”. Uma bela canção de amor que se utiliza das contradições da Big Apple para existir e falar da inexistência de explicações para este mistério que é o sentimento amoroso.

1) Rosemary Clooney – “Take Me Back to Manhattan





         Ao andar pelos corredores sem fim do Metropolitan Museum, achei um CD organizado pelos curadores do Met com o melhor das canções feitas sobre a Big Apple. Não resisti, obviamente, e levei o tal CD comigo. A surpresa mais agradável foi ouvir uma gravação belíssima para “Take Me Back To Manhattan” (Cole Porter), feita por Rosemary Clooney (tia de George e uma das maiores lendas da música norte-americana).

         Na gravação feita por Clooney em seu álbum de 1993, Still On The Road, Nova York é a cidade ideal para ela (e para todos nós que amamos abeleza da cena urbana). No entanto, ao se ausentar de sua adorada cidade, ela pede (sem muito pudor) que seu verdadeiro desejo é de voltar para o seu adorado ninho, para o seu apartamento no centésimo andar, afinal as saudades de North, South, West e East Manhattan são maiores do que a vontade de conhecer o mundo.  Ouça o Jazz, a voz inesquecível de Rosemary Clooney e mergulhe no mar de afetividade que Cole Porter dedicou à cidade mais charmosa das Américas.


12 de novembro de 2013

TROVA # 25


UMA CARTA (IMAGINÁRIA) 

PARA JANIS JOPLIN


We miss you, Janis...


Dear Janis,



Antes de te perguntar se você está bem ou outras coisinhas de praxe, permita-me apresentar: meu nome é Vinícius (os que passam por aqui me conhecem apenas como Vinil), tenho 30 e poucos anos (apesar de alguns acharem que tenho mais anos do que aparento ter), sou Professor de Inglês, pesquisador nas horas (raramente) vagas e, de vez em quando, escrevo neste Blog. Não poderia deixar de te escrever no ano em que você teria feito 70 anos de vida se estivesse cantando por estas bandas terrenas. Além disto, escrever cartas está meio fora de moda, meio démodé, meio over, mas gosto de fazê-lo mesmo assim. Ainda acredito piamente na magia transformadora das palavras que chegam a nós através do correio, sabe? Coisas de gente velha, vai saber, né?

Família Joplin, Natal de 1967: Seth e Dorothy Joplin (pais de Janis), Laura e Michael Joplin (irmãos de Janis)

Como vão as coisas aí no reino dos céus? Será que o Diviníssimo e os arcanjos ainda conseguem tremer com o poder da sua voz toda vez que eu escuto os seus miados e grunhidos de "Ball & Chain"? Espero que sim... Eu ouço a sua música há mais de 15 anos e não consigo deixar de sentir o desespero que você sentia ao cantar "Turtle Blues", "Cry Baby", "Dear Landlord" ou "Work Me, Lord"? Afinal de contas, você deve ter sido a primeira mulher do Rock ‘n’ Roll que expressou seus sentimentos de maneira tão honestamente, tão abertamente, tão rasgadamente quanto um jeans velho, roto e surrado de muitas batalhas juvenis pelo mundo agora... Bessie Smith e Billie Holiday, por exemplo, teriam ficado ruborizadas com sua sinceridade.


Você deve estar perguntando algo como: "Por que raios este cara do Brasil resolveu me escrever esta porra de carta depois de tantos anos que eu morri, caralho?". Sim, com estas palavras! Não vivi o seu tempo, tampouco com você, mas sei o quanto você era uma menina encrenqueira, desbocada e que tinha um certo medo de se afeiçoar àqueles que te admiravam. É de se entender... Eu quis te escrever na ocasião do seu aniversário, mas 19 de Janeiro não é uma data muito favorável para quem ouve música brasileira – é o aniversário de nascimento de Nara Leão, como também é a mesma data na qual perdemos Elis Regina, colegas brasileiras suas aí no Olimpo. Hoje tenho um motivo mais nobre: o sistema deu a prova final de que A-DO-RA o seu charme, My Darling! Fizeram uma estrela para você na Calçada da Fama de Hollywood, dá para acreditar?!

A estrela de Janis na Calçada da Fama de Hollywood
Já sei que você deve estar dizendo para si mesma algo como: "Porra, cara! Os caras cagaram para mim a vida inteira e resolvem me fazer uma homenagem de peso décadas depois de eu estar morta, cara?!" Ah, Janis! Por que não try just a little bit harder, como você mesma disse e cantou desbragadamente? Antes tarde do que nunca, não é verdade? E, falemos francamente antes que você pegue as minhas linhas e jogue-as no lixo: isto ocorreu porque você estava muito à frente do tempo no qual você viveu! Muitas feministas de plantão e que queimaram sutiãs na fogueira dos 1960s não tiveram o mesmo alcance que você teve. Por tu teres sido a primeira grande estrela do Rock ‘n’ Roll, sempre recusaste toda e qualquer forma de glamour, afinal isto era coisa para outras stars do seu tempo como Grace Slick, Mama Cass ou Nico! A sua coragem em desafiar padrões de estética musical e de beleza feminina era maior do que a vontade de querer ser bonitinha, gracinha e de acordo com os padrões do tal do American Way of Life! Bem que você tentou, little girl blue... mas não conseguiu! O seu grande talento era ser mais um no meio dos caras e fazer mais barulho do que uma horda de machos juntos em uma mesma mesa de bar com direito a litros e litros de Southern Comfort! O sistema não iria te deglutir tão facilmente, certo?

Janis Joplin, Paul Morrisey, Andy Warhol & Tim Buckley em 1968

Para uma mulher com tanta energia, criatividade, sensibilidade e insegurança como você, Janis, é lógico que Port Arthur, uma cidadezinha medíocre e tacanha no meio do Texas seria muito pouco para o seu talento gigantesco. É evidente que San Francisco, com todo o seu pioneirimo, tinha mais condições de compreender a complexidade do seu brilho... Afinal, ninguém na Costa Oeste dos EUA queria saber se você era o cara mais feio do campus, não é verdade?


Venhamos e convenhamos... nenhuma estrela brilhou com a mesma intensidade do que a sua na Costa Oeste dos States. Quando o mundo começou a ouvir os sons e a psicodelia do Big Brother & The Holding Company, muitos queriam saber quem era o "negão" que estava por trás do microfone... Adoraria ter visto a cara de tacho das pessoas ao saberem que o tal cara era uma pequenina pérola branca de voz negra Made in Texas. Cheap Thrills se tornou, aos poucos, um clássico obrigatório em qualquer coleção particular dos amantes da boa música graças ao seu canto incomum, aos seus grunhidos lancinantes, ao seu feeling... Clássicos da canção norte-americana ficaram belamente irreconhecíveis depois que Miss Joplin pôs a sua voz neles. Veja o caso de "Summertime", de "Maybe" e "Little Girl Blue". Quem são as pessoas que se lembram de outras interpretações destes clássicos sem pensar na sua voz, Janis? Quem?


E com tanto talento que você tinha, ainda havia espaço para uma enorme insegurança... Em "Work Me, Lord", por exemplo, você dizia que se sentia inútil neste mundinho de Deus... Pergunto a ti: como assim, garotinha triste? Se você tivesse ideia do quanto o seu legado passou a significar para as pessoas, você certamente não teria cantado esta canção tão lindamente... Se você tivesse visto a beleza dos seus olhos azus quando você cantou "Maybe" no programa do Ed Sullivan, em 1969, você teria tido mais compaixão por si mesma... E se você tivesse se comportado um pouquinho melhor quando você visitou o Rio de Janeiro, quem sabe a Cidade Maravilhosa teria sido uma rehab melhor para ti...


Os seus "Kozmic Blues" estavam muito a frente do seu tempo, Janis. E se o tempo tivesse sido um pouquinho mais generoso com você, Pearl teria sido apenas o início de uma fase musical mais consistente e madura. A Full Tilt Boogie era tecnicamente melhor do que o Big Brother e a Kozmic Blues Band. Infelizmente o passar dos anos não foi nem um pouco favorável para ti.

Janis em foto de Richard Avedon

De qualquer maneira, eu gostaria muito de ter te conhecido, Janis Joplin. De verdade! Não apenas porque você foi uma garotinha triste e agressiva a vida inteira, mas porque você ainda é uma das minhas principais influências para a música e para o viver. Espero que o seu sofrimento tenha se dissipado junto com a dose fatal de heroína que se diluiu nas suas veias e te levou de vez em 1970. Deus não te deu uma "Mercedes Benz", mas te ofertou com a vida eterna - seja nos arquivos de jornais, de revistas, de canais de TV ou nas nossas memórias. Parabéns pela sua Estrela na Calçada da Fama! Você precisou de uma eternidade (e não de um carro alemão ou outras garantias baratas) e de uma obra musical eterna para obtê-la.


Por tudo isto, aceite este e-mail (ainda que imaginário) com todo o carinho do


Vinil

Leia também:
http://www.blogsdoalem.com.br/janis/
http://www.newyorker.com/online/blogs/culture/2013/10/my-big-sister-janis-joplin.html

1 de novembro de 2013

TROVA # 24

UM E-MAIL PARA O POETINHA



Vinícius de Moraes (1913-1980)

 
Vinícius de Moraes: Meu Caro Poetinha,

 
Perdoe-me esta correspondência atrasada e improvisada, mas não pude deixar de te escrever nesta ocasião tão especial. Se você estivesse vivo, teríamos comemorado seu 100.º Aniversário no último dia 19 de Outubro com direito a muita música, poesia e whisky!


Sinceramente, Vinícius, o mês de Outubro deveria ser considerado como "O Mês do Poeta". Não apenas por tudo que você escreveu, mas principalmente por tudo que você viveu. Carlos Drummond de Andrade, seu colega de gauche profissão, disse, certa vez, que você não viveu como um homem, e sim como um verdadeiro Poeta. Frank Sinatra, em outra ocasião, disse que viver a vida do jeito que ele viveu já bastava. O mesmo podemos dizer de ti, pois os 67 anos que você viveu foram de tremenda intensidade.
 
 

 
Quando eu, este reles blogueiro que te escreve, era criança, sempre tive milhares de conflitos em torno do nome que recebemos. Não gostava de meu nome, achava-o feio. Talvez por ser incomum para meninos da minha época, ou por ser difícil para uma criança o pronunciar, provavelmente porque não conhecia ninguém que tivesse um nome tão diferente. E te confesso que a primeira aula sobre Diversidade que a vida me deu foi em relação ao nome Vinícius. Só na idade adulta entendi que nós, incautos de nome Vinícius somos privilegiados por sermos plurais. Afinal, você mesmo afirmou que se não foste tantos em um só, seu nome seria Vinício de Moral.

Vinícius & Baden Powell


Poeta camarada, sua obra continua sendo reverenciada como nunca nos dias de hoje. A Companhia das Letras reeditou seus livros com muito apuro e elegância. Seus discos foram remasterizados e reeditados em uma bela caixa com encartes riquíssimos em informação. Miguel Faria Jr. fez um documentário belíssimo sobre ti. José Castello escreveu uma biografia essencial sobre sua vida. Suas filhas Georgiana e Maria ficaram responsáveis pela divulgação de seu legado através da VM Cultural. O respeito pela sua poesia cresce cada vez mais. Por outro lado, o Brasil continua numa caretice sem tamanho, você acredita? Ainda existem pessoas que ficam escandalizadas com o fato de você ter se casado nove vezes. Alguns colegas seus de Música Popular acham que biografias não devem ser escritas se não houver "prévia autorização". Enfim, você precisaria de uns dois cachorros engarrafados para ter que suportar tanta cafonice. Ou, quem sabe, passar muitas tardes em Itapuã enquanto esta onda bizarra passa...


Vinícius & Tom Jobim


Sua família tem agido como guardiã sensata de seu trabalho. Graças a eles, novas gerações tem tido a oportunidade de ler e ouvir tudo o que você produziu. Apesar de seus livros constarem na lista dos vestibulares mais importantes e concorridos do país, não encontro pessoas no mundo acadêmico que estudam (ou queiram estudar) a sua obra. Muitos integrantes da dita "Academia" demonstram preconceito (velado) ao fato de você ter deixado de escrever poemas que figuravam nos livros para a elite letrada e ter se "debandado" para a turma do Samba e da Bossa Nova. É uma lástima que não possamos debater seu ofício até a exaustão em aulas, seminários, congressos, mesas de bar.

Vinícius & Toquinho


Poeta da pesada, não poderia existir um dia da semana mais perfeito para o seu 1.º Centenário do que um sábado. Isto quer dizer que aos sábados podemos celebrar casamentos e divórcios, renovar esperanças, brindar o "bom funcionamento" dos maridos perante suas esposas e por aí vai e, acima de tudo, propor um brinde à sua memória. Que nas noites de 19 de Outubro, os copos possam tilintar em sua homenagem, que sonetos de amor sejam lidos e escritos com ardor, que amores façam e se desfaçam para dar prosseguimento a este enorme ciclo que chamamos de vida. Que a sua Arca de Noé possa ser lida e ouvida por muitas crianças e adultos que já se apaixonaram ou ainda irão se apaixonar por sua poesia!


Saravá, Poetinha! Feliz Aniversário!
São os votos muito carinho do xará




Vinícius

28 de outubro de 2013

TROVA # 23

A ÚLTIMA TRANSFORMAÇÃO
DE LOU REED

Lou Reed em foto de Andy Warhol
Just a perfect day
you made me forget myself
 I thought I was someone else
 someone good
(“Perfect Day” – Lou Reed)


A partir do ano de 2013, o dia 27 de Outubro será conhecido como mais uma data na qual a música morreu mais um pouco. Foi um choque gigantesco para mim quando soube que Lou Reed deixou de estar entre nós. Uma perda irreparável para o Rock, para o Pop, para a música, para a Arte. Uma influência indiscutível para artistas do mundo inteiro. Um gênio e um chato de marca maior. Este foi Lewis Allan Reed durante 71 anos.

The Velvet Underground & Nico (1967)

         Lou não precisou de muita coisa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll. Seu disco de estreia à frente do Velvet Underground, o icônico The Velvet Underground & Nico (1967), é tão genial, mas tão genial, que se ouvirmos este disco em 2031, ele ainda vai estar milhares de anos à frente de seu tempo! Já seu segundo trabalho solo, Transformer (1972), é de uma perfeição tão absurda que não existem palavras para descrever esta obra-prima do Rock! Enquanto muitos precisaram de uma carreira sólida e extensa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll Hall of Fame, por exemplo, Lou Reed conseguiu isto com apenas DOIS álbuns!


Transformer (1972)

        

Mr. Reed on the stage



            Seus demais trabalhos nunca foram considerados “acessíveis” para o grande público, tal qual o incensado Transformer, produzido pela dupla dinâmica David Bowie – Mick Ronson. Discos como este figuram na lista interminável dos clássicos (Exile On Main Street, Talking Book, Harvest, The Rise And Fall of Ziggy Stardust & The Spiders From Mars...) que fizeram de 1972 um dos anos mais importantes da História do Rock. As 11 faixas, influenciadas diretamente pela magia glam de Bowie (mas sem deixar de ter o toque ácido do estilo poético de Reed), se tornaram parte das minhas relíquias musicais há anos. Guardo minha cópia da edição comemorativa deste disco ao lado de meus discos mais queridos em meu quarto. Ao pegar o disco e ter a certeza de que Lou Reed não está mais entre os terráqueos me dá uma tristeza sem tamanho.

“Satellite's gone up to the skies
 Things like that drive me out of my mind
 I watched it for a little while
 I love to watch things on TV”
Satellite of Love

Lou Reed, Mick Jagger e David Bowie em 1973


         Gênio para alguns e chato para outros, Lou Reed nunca se preocupou em ser uma unanimidade, herói, salvador da pátria musical ou qualquer coisa do tipo. Seus colegas de Velvet Underground viviam às turras com o vocalista excêntrico. Bowie - um admirador e parceiro de Reed - ficou anos sem falar com Lou por causa do ego gigantesco do autor de Transformer. Cometeu uma gafe enorme com Susan Boyle, quando esta gravou "Perfect Day", ao dizer que o trabalho de Boyle era um tremendo lixo (Susan foi às lágrimas e não foi por causa da beleza dos versos do clássico de 1972). Cancelou sua vinda à FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), em 2010, sem nenhum motivo aparente. No mesmo ano, fez uma apresentação controvertida de seu álbum mais insólito, Metal Machine Music (1975), no SESC Pinheiros (SP). Apesar de muitos não esperarem que ele tocasse “Vicious” ou a antológica “Walk On The Wild Side” no Bis, os ingressos se esgotaram em menos de UMA HORA! Infelizmente, não tive a honra de estar no Teatro Paulo Autran para ver Mestre Reed em ação, mesmo sabendo que teria sido uma verdadeira chatice...

“Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you're so vicious
Vicious, you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
Oh baby, you're so vicious”
Vicious

         
Lou Reed & David Bowie em 2008
         
          Outro exemplo de como Lou Reed não era algo de fácil apreensão para o grande público se deu na minha vida profissional. Certa vez, resolvi fazer uma atividade de Língua Inglesa baseada em “Perfect Day”, uma das baladas mais fantásticas de todos os tempos, para uma turma de alunos que cursavam o nível básico. Ser Professor de Inglês tem, dentre várias outras vantagens, a possibilidade de trabalharmos com o tipo de música que a gente gosta. Tudo transcorreu muito bem (Pre-Listening Task, While Listening Tasks, etc.) até a hora em que eu acabei de tocar a canção mais perfeita do Songbook de Reed. Meus alunos ficaram insatisfeitos (ou chocados, ou entediados, sei lá...) com a acidez dos versos do velho Lou (afinal, existe mais beleza do que tristeza em versos como "You're going to reap just what you sow", não é verdade?). Meus ex-pupilos se sentiram tão insatisfeitos que, na aula seguinte, uma aluna me deu uma sugestão de uma canção de LeAnn Rimes para uma próxima atividade... rsrsrsrsrs De meu herói musical, Lou Reed foi promovido a vilão das minhas aulas de Inglês!

“Yes I am mother nature's son
And I'm the only one
I do what I want and I want what I see
Could only happen to me”
I’m So Free

          A tarde de hoje ficou mais cinzenta por causa da última transformação de Lou Reed neste mundo. Que sua obra seja sempre relembrada e que sua influência sempre se dê entre nós, músicos ou não, roqueiros ou não, falantes de Inglês ou não, chatos ou não, gênios ou não. O autor de Transformer infelizmente nos fará falta, mas sua música é o passaporte para que possamos matar as saudades de mais uma Estrela que passou a brilhar em outros palcos...

Lou Reed (1942-2013) - R.I.P.

"Sunday morning
Wild side walking
Satellite of loving
All tomorrow's mournings"
(Alex Otaola)