2 de fevereiro de 2014

TROVA # 33

Rainha do Mar / Rainha da Canção
(Duas ou três coisinhas sobre Iemanjá)

 O choro de Iemanjá

 “Iemanjá andava infeliz,
 Feliz? Já nem lembrava-se desta sensação,
 Algo perturbava seu coração.

 Certo dia
 Iemanjá leu minha poesia,
 Porém fingiu que não entendia,
 Que não sentia,
 Mas eu sei que entendeu.

 Instantes depois ela começou a chorar,
 Sete dias sem parar,
 E assim formou-se o mar.”

(Jihad Velasco Traya)

Reza certa lenda de que quando o mundo tal qual conhecemos hoje estava prestes a ser feito, uma Rainha teve um papel decisivo neste processo. Iemanjá é tida como a representação do princípio feminino da criação do universo. Por ser mãe do universo e de todos os orixás, afirma-se que ela está na origem de todas as coisas. Sendo estes fatos verdadeiros ou não, o fato é de que estamos tratando de uma entidade muito poderosa e como este espaço não faz restrição a nenhum credo, por que não falarmos daquela que recebe tantas oferendas que ofertamos às aguas salgadas do mar?
Iemanjá, como sabemos, possui vários nomes: Marabô, Janaína, Dandalunda, Mucunã, etc. No entanto, nós preferimos chama-la apenas de Rainha do Mar. Seu principal elemento é a água, que simboliza as emoções humanas, por isso, é a presença que rege todos os mares. Se um dia quisermos que o mar leve todos os nossos os problemas, não deixamos de pedir para que Ela seja a responsável por tudo isso. Como escreveu o poeta e. e. cummings, “it’s always ourselves that we find at the sea” (nós sempre encontramos com nós mesmos no mar). Para encontrarmos a cada um de nós, não deixamos de ir ao encontro de Iemanjá.
A entidade era orixá dos Egbá, uma nação Iorubá que fica entre Ifé e Ibadar, na África. O nome de Iemanjá, de acordo com a cultura nagô, quer dizer “Mãe cujos filhos são peixes” (Yeyê = Mãe / Omo = Filhos / Ejá = Peixes) e protegia todos os que viviam às margens do rio Yemojá. No início do século XIX, devido às guerras entre nações iorubas, os Egbá foram obrigados a emigrar na direção oeste, o que significava que eles tinham que abandonar as imediações das águas do rio. Como não podiam levar as águas sagradas com eles, decidiram, assim, levar os objetos de adoração para saudar a Rainha do Mar. Daí o grito de saudação Odoiá, que quer dizer Mãe do Rio (odo = rio / iyá = mãe).


No Brasil, quando nos lembramos de Iemanjá, logo nos vem à mente a imagem de uma bela morena de seios fartos, longos cabelos negros, com pérolas caindo pelas mãos e uma sexualidade exuberante. Porém, a beldade passou por uns bons bocados até alcançar o poder pelo qual é tão referenciada. Por exemplo, enquanto os demais orixás tinham uma atribuição especial (Oxum tinha o zelo pela feminilidade, Ogum tinha o comando da guerra, Oxóssi era o responsável pela caça e a fortuna, Oxumaré comandava a chuva, Xangô tinha o poder dos trovões, Iansã tinha o poder dos raios, Nanã continha a sabedoria dos idosos e por aí vai...), Iemanjá era obrigada a ficar em casa a par de infinitas atribuições domésticas.
Enquanto trabalhava duro, reclamava aos borbotões nos ouvidos de Oxalá, enlouquecendo o marido em pouco tempo. Para poder curar o seu amado, a Rainha do Mar passou a tratá-lo com água fresca, pombos brancos, frutas frescas e outras especiarias. Daí o fato de muitos terem que fazer as chamadas oferendas para Iemanjá e lançá-las às aguas do mar.
Graças à cura de Oxalá, a Rainha do Mar passou a auxiliar Olodumaré na criação do mundo. Passou a governar os mares e logo tomou desgosto pela função, visto que muitos seres humanos tinham o péssimo hábito de lançar seu lixo às aguas do mar. Depois de reclamar de que sua casa vivia suja com a imprudência dos outros, Iemanjá ganhou o dom de devolver às praias tudo o que os humanos atirassem de ruim em seu reino – daí o surgimento das ondas, que trazem para a terra firma tudo o que não pertence ao mar. E assim se fez boa parte da história da humanidade de acordo com os orixás...

*

Fevereiro é mês de Iemanjá. E creio que nenhuma orixá foi tão celebrada através de belas canções como a Rainha do Mar – Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro e Vinícius de Moraes que o digam... Confesso que fico impressionado com a enxurrada de homenagens à dona do Reino das Águas nas redes sociais todo dia 2 de fevereiro. Na verdade, fiquei encantado com o que já se produziu em termos de canção popular no que diz respeito à Iemanjá. E o mais impressionante para mim foi a diversidade de intérpretes destas canções tão belas: Mariene de Castro, Clara Nunes, Maria Creuza, Marisa Monte, Margareth Menezes, Gal Costa, Alcione, Rita Ribeiro (não adianta me dizer que hoje ela se chama “Rita Benneditto”, para mim ela vai ser sempre Rita Ribeiro! rsrs), Nana Caymmi, Maria Bethânia e por aí vai...
Por isso, vamos celebrar o legado de Iemanjá e pedir para que ela sempre nos proteja e abra os nossos caminhos. Odoiá!

10 ODES MUSICAIS À IEMANJÁ QUE VOCÊ PRECISA OUVIR:
 
Marisa Monte representando Iemanjá durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres (2012).

10) Gal Costa – Caminhos do Mar

“O canto vinha de longe
 De la do meio do mar
 Não era canto de gente
 Bonito de admirar”
 

9) Mariene de Castro – Prece de Pescador (Canto a Iemanjá)

“Mas se a tristeza tem dia
 Tua força me guia meu caminho é o mar
 E que me lancem as pedras
 Yemanjá faz areia pra não machucar”



8) Alcione – Brasil com Z é pra Cabra da Peste

“Padim Padre Ciço, faça chover alegria
 Pra que cada gota seja o pão de cada dia
 Jogo flores ao mar pra saudar Iemanjá
 E na lavagem do Bonfim, eu peço axé”
 


7) Maria Creuza – Maria Vai com As Outras

“Maria que não foi com as outras
Maria que não foi pro mar
No dia dois de fevereiro
Maria não bincou na festa de Iemanjá

Não foi jogar água de cheiro
Nem flores pra sua Orixá
A Iemanjá pegou e levou
O moço de Maria para o mar”
 


6) Monica Salmaso – Canto de Iemanjá

“Se você quiser amar
 Se você quiser amor
 Vem comigo a Salvador
 Para ouvir Iemanjá”
 


5) Maria Bethânia – Iemanjá, Rainha do Mar

“O que ela gosta?
 O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.”
 


4) Marisa Monte – Lenda das Sereias

“Ela mora no mar
 Ela brinca na areia
 No balanço das ondas
 A paz, ela semeia
 Ela mora no mar
 Ela brinca na areia
 No balanço das ondas
 A paz, ela semeia”
 

3) Família Caymmi – Dois de Fevereiro

“Dia dois de fevereiro
 Dia de festa no mar
 Eu quero ser o primeiro
 A saudar Iemanjá”
 


2) Rita Ribeiro – Rainha do Mar

“Minha sereia é rainha do mar
 Minha sereia é rainha do mar
 O canto dela faz admirar
 O canto dela faz admirar
 Minha sereia é moça bonita
 Minha sereia é moça bonita
 Nas ondas do mar
 Aonde ela habita”
 


1) Clara Nunes – Conto de Areia

“Quem foi que mandou
 O seu amor
 Se fazer de canoeiro
 O vento que rola das palmas
 Arrasta o veleiro
 E leva pro meio das águas
 de Iemanjá
 E o mestre valente vagueia
 Olhando pra areia sem poder chegar
 Adeus, amor”
 


25 de janeiro de 2014

TROVA # 32

Versos & Sons da Garoa
Canções que levaram São Paulo para os ouvidos (e para as memórias) das pessoas


“Garoa do meu São Paulo,
-Timbre triste de martírios-
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo,
-Costureira de malditos-
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...

Garoa, sai dos meus olhos.”
(Mário de Andrade)

         Terra da garoa? Planalto de Piratininga? Paulicéia Desvairada? Túmulo do Samba? Selva de Pedra? Terra do café? Afinal de contas, o que é a cidade de São Paulo?!?!?!
São Paulo é tudo isso e muito mais: uma cidade que instiga sentimentos de todos os tipos: paixão, raiva, amor, ódio, desprezo, admiração, descuido, carinho... Desde que eu me entendo por adulto, eu tenho nutrido sentimentos positivos pela cidade que me oferece régua e compasso desde 2006. Trocar o sol e a irreverência do Rio de Janeiro pela garoa e a correria de São Paulo foi, sem dúvida nenhuma, a mudança mais radical que eu fiz em toda a minha vida – na verdade, foi o início oficial de minha jornada como adulto. Como tantos outros, sou Paulista de coração e com muito orgulho!
         Os sons que se ouvem por aqui ecoam pelo concreto que faz de São Paulo a cidade mais urbana do Brasil. As canções que se fizeram sobre o Planalto de Piratininga falam sobre como é viver em um espaço repleto de contradições, de semáforos, de opostos, de prédios e do trânsito mais insano da América do Sul. Em outras palavras, são versos e sons que retratam o que é viver em pleno caos urbano.
Em homenagem à nossa cidade, aqui vai uma lista de 10 canções sobre São Paulo das quais gostamos muito:

10) “Amanhecendo” (Billy Blanco)



         São Paulo não é como Nova York, que nunca dorme, mas é uma cidade que acorda cedo e dorme muito tarde. “Amanhecendo”, de Billy Blanco, retrata a típica pressa de todo paulistano. Se existe um estado de espírito que é constante de todo mundo que vive aqui é este nosso sentimento apressado de ser e viver perante às filas e à multidão.



9) “Deu Pane Em São Paulo” (Luiz Tatit)



         Luiz Tatit, cantor e compositor de São Paulo, é um dos músicos mais importantes do Brasil hoje. Fundou o grupo Rumo, fez uma carreira solo magistral e sempre retratou (com um humor bastante peculiar) a vida urbana da garoa. “Deu Pane Em São Paulo” é uma faixa de seu primeiro disco, Felicidade (1997), e conta com a participação de alguns de seus colegas do Rumo (Ná Ozzetti, Geraldo Leite, Hélio Ziskind) e nos avisa que Sampa em ritmo de folia, alegria e carnaval está em pleno estado de pane.


8) “Lampião de Gás” (Zica Bergami)


         Antes de Sampa se tornar esta grande metrópole de luzes e fumaça proveniente dos milhões de veículos que trafegam pelas ruas da cidade, muitos paulistanos inalavam o vapor que vinha dos lampiões a gás que existiam em suas casas antes do advento da energia elétrica. A valsa, de tom nostálgico, foi composta por Bergami em 1957 e foi gravada pela voz imortal de Inezita Barroso no ano seguinte. A letra fala de um endereço em um dos bairros mais tradicionais de São Paulo, o Bom Retiro, que foi cena de personagens e cenários bucólicos de uma cidade que hoje não existe mais.



7) “Paulista” (Eduardo Gudin & J. C. Costa Netto)


         A avenida mais charmosa do Brasil (e, provavelmente, do mundo inteiro!) está em São Paulo. Todo paulistano que se preze deve, nem que seja uma vez na vida, andar pela Av. Paulista e admirar seus prédios, semáforos, lojas, bancas de jornal, semáforos. Nesta avenida, vidas tomam seu rumo, negócios são feitos e desfeitos, além de amores que vem e vão. É este o enfoque que a canção de Gudin e Costa Netto traz através dos belos versos “Você sabe quantas noites / Eu te procurei / Nessas ruas onde andei? / Conta onde passeia hoje / Esse seu olhar / Quantas fronteiras / Ele já cruzou / No mundo inteiro / De uma só cidade”... Afinal de contas, não teve um compositor brasileiro que disse que “São Paulo é como o mundo todo”?


6) “Venha Até São Paulo” (Itamar Assumpção)


         Itamar Assumpção é um compositor de mão cheia! O “Jimi Hendrix da Vila Madalena” compôs várias odes musicais homenageando São Paulo. Esta que escolhemos foi gravada por ele e por Rita Lee em sua antológica trilogia Bicho de Sete Cabeças (1993) e convida o ouvinte para vir até São Paulo, abençoada por uma infinidade de santos, repleta de pressa e de gente de todas as origens e tribos. Assim, pode-se saber “o que é bom pra tosse”.


        
5) “São, São Paulo” (Tom Zé)


         Tom Zé é o único tropicalista em atividade neste país. Digo isto porque ele é o artista que leva a bandeira da Tropicália para onde quer que ele vá, sem deixar de soar saudosista e/ou datado. “São, São Paulo”, composta em 1968, é de uma atualidade impressionante: fala de violência urbana, de pessoas que se amam “com todo ódio” e “se odeiam com todo amor”. Apesar de todos as imperfeições e de toda a injustiça social, é impossível não levar São Paulo no lado esquerdo do peito, tal qual o sábio tropicalista nos diz...


4) “Ronda” (Paulo Vanzolini)


         A região central da cidade de São Paulo guarda bares e inferninhos nos quais as paixões acontecem e as desilusões amorosas se materializam. Nem sempre são tramas com finais felizes, são melodramas que inspirariam qualquer episódio de A Vida Como Ela É..., de Nelson Rodrigues. A referida canção de Paulo Vanzolini nos apresenta alguém em busca de um amor perdido que é encontrado na boemia e na farra de um bar na Avenida São João, reduto boêmio de Sampa. Um clássico urbano com as tintas negras das páginas de jornal que vive para sempre nas memórias afetivas de muitos de nós...


3) “Saudosa Maloca” (Adoniran Barbosa)



         Adoniran Barbosa era um artista único no planeta. E paulistano! Nenhum compositor retratou a vida urbana paulistana com tanta perfeição, irreverência e inteligência melhor do que ele. “Saudosa Maloca”, de 1955, retrata uma São Paulo que deixava de existir em prol de uma vida urbana dominada por arranha-céus que atestam o vigor do progresso. A escolha de palavras feitas por Adoniran reproduz a fala do paulistano da época – um misto de Jeca Tatu com imigrante italiano... Um clássico da canção brasileira que já foi regravado por vários bambas da MPB!



2) “Lá Vou Eu” (Rita Lee & Luiz Sérgio Carlini)


         Rita Lee Jones, em seus dias de glória e inspiração, era uma compositora inteligente, ferina e que fazia de sua melancolia, seu deboche e sua irreverência sua matéria-prima de uma obra musical de altíssima qualidade. “Lá Vou Eu”, parceria de Rita com o guitarrista Luiz Sérgio Carlini, traz um olhar de uma pessoa que vê o mundo e pensa na vida do alto de uma janela de apartamento. Um Lado B da Rainha do Rock Brasileiro que deve ser entoado a plenos pulmões todo dia...


1) “Sampa” (Caetano Veloso)


         Quando Caetano Veloso veio a São Paulo pela primeira vez, não conseguiu entender a “poesia concreta” das esquinas de São Paulo. No entanto, entendeu que a boemia que pulsa na esquina da Av. Ipiranga com a Av. São João era de uma intensidade única e compreendeu que os contrastes que regem o Planalto de Piratininga são o seu verdadeiro charme. “Sampa”, gravada pelo Mano Caetano em 1978, é uma das canções mais pedidas pelos fãs do velho baiano em seus shows. Simplesmente pelo fato de ser de uma poesia sincera, atraente, honesta e com gosto de concreto!



*

         Flashback: quando São Paulo completou 450 anos de idade, lembro-me de uma polêmica que fez de Rita Lee o Judas do aniversário da cidade. Lembro-me de que Madame Lee tinha dito que paulistano não sabia fazer festa e tinha criticado a decoração que Marta Suplicy (prefeita de São Paulo, na época) tinha escolhido para a Av. 23 de Maio: cinza! Eu estava na estreia nacional da turnê que Rita começava naquele ano e afirmo, com todas as letras: ela não disse nada além daquilo!

Pensando bem a respeito do que Rita Lee disse em 2004, cinza é a cor que retrata muitíssimo bem a embriaguez de garoa e gás carbônico que se chama São Paulo. Entretanto, se passearmos por São Paulo em uma bela tarde de sol, podemos verificar que há outras cores que dialogam com a massa cinzenta da Terra da Garoa...

7 de janeiro de 2014

TROVA # 31

ALGUMAS NOITES AO SOM DE
 ARETHA FRANKLIN
 
Aretha Franklin: The Queen of Soul

Ser uma cantora é um dom natural. Isso significa que eu estou usando para o mais alto grau possível o dom que Deus me deu para usar. Estou feliz com isso.
(Aretha Franklin)



      Houve uma época em que meus finais de noite não variavam muito. Ao final de meu expediente como Professor de Inglês em uma escola em um dos extremos da Zona Sul de São Paulo, depois de todas as minhas aulas do dia, era necessário fazer as típicas tarefas burocráticas que compõem a nossa rotina de trabalho. Graças à Internet (esta santa maravilha do mundo moderno) e ao YouTube (santo remédio para os carentes de memórias musicais e referenciais artísticas femininas que vão além da Miley Cirus, Beyoncé, Katy Perry, Selena Gomez, Lady GaGa ou outro artifício Pop feminino), eu podia executar esta (árdua) tarefa ao som de uma das melhores autoridades no quesito CANTO em todos os universos: Aretha Franklin!


         Aretha Louise Franklin é uma dessas cantoras que não se fazem mais nos dias de hoje. Seu canto começou a se desenvolver na Igreja Batista na qual seu pai, C. L. Franklin era reverendo, a partir dos 10 anos de idade. Aos 14, gravou seu primeiro disco. Aos 19, já era uma das estrelas mais jovens da Columbia Records. Aos 25, já era proclamada The Queen of Soul e já tinha garantido seu lugar na história da música do planeta. Aos 45, foi a PRIMEIRA MULHER a ser nomeada para o Rock ‘n’ Roll Hall of Fame.

Aretha foi a primeira mulher a ser nomeada para o
Rock 'n' Roll Hall of Fame.

         Aretha Franklin é uma unanimidade para estrelas das mais diversas no mundo da música: de Annie Lennox a Mariah Carey, de George Michael a Adam Lambert, a Rainha do Soul é referência máxima de excelência e integridade artística. Sua flexibilidade vocal de mezzo soprano, sua inteligência interpretativa e seu repertório clássico são exemplos do que existe de melhor em termos de ARTE. Não é a toa que outras pessoas que queiram se aventurar no mundo da música queiram buscar um pouquinho do brilho de Tia Aretha, não?


*
 
O retrato de uma Rainha quando jovem.
         Ouvir a voz da Rainha do Soul ao final de uma noite de trabalho intenso não faz apenas o meu viver mais digno de ser vivido. Tal experiência me conduz de volta aos idos de 1994 e 1995, quando meu avô Adhemar ainda era vivo. Visitar sua casa aos domingos não era apenas uma garantia de comer o feijão inesquecível de minha avó Magaly, como também garantia o meu direito absoluto de ouvir música de excelente qualidade. Lembro-me muitíssimo bem quando uma série de CDs da Sony Music intitulada Golden Collection adentrou uma das casas da rua Pinto Alpoim, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro: dentre estes tesouros, sucessos de Tony Bennett, Doris Day, Johnny Mathis e, evidentemente, Aretha Franklin em sua fase Columbia!


         Quando ouço a orquestra introduzir “Take a Look”, de Clyde Otis e a voz (sofrida) de Aretha suplicando logo de cara os versos “Take a look at the mirror / Look at yourself / But don’t you look too close / ‘Cause you just might see / The person you hate the most… (Olhe para o espelho / Veja a ti mesmo / Mas não olhe muito perto / Pois você pode até ver / A pessoa que você mais odeia)”, sinto um arrepio gigantesco e nunca entendi o porquê de tamanha sensação. Ao revisitar a letra de Otis, constatei que ela perguntava a Nosso Senhor a razão dos homens agredirem deliberadamente uns e outros – seja fisicamente, seja através das palavras – enquanto o ódio não se tornar a única recompensa a recebermos...


         As gravações dos anos clássicos da fase Columbia consistem em interpretações maravilhosas do cancioneiro clássico norte-americano. Por exemplo, o disco que Aretha gravou em homenagem a Dinah Washington no início de 1964 é de uma beleza absurda só pelas releituras de “Unforgettable” (Irving Gordon) e “Cold, Cold Heart” (Hank Williams). Nesta época, standards da autoria de Hoagy Carmichael, Irving Berlin, Sammy Cahn, Burt Bachrach, Johnny Mercer, Oscar Hammerstein II, Harold Arlen, Cole Porter e outros foram gravados pela jovem Aretha Franklin. Todas estes clássicos foram inclusos em um box maravilhoso chamado Take a Look – Aretha Franklin complete on Columbia, com a qual eu sonho ter em minha coleção em um belo dia. Além disto, há um álbum antológico lançado por Aretha em maio de 1965 chamado Yeah!!!, no qual a filha do reverendo Franklin revira clássicos do Jazz como "Love for Sale" (Porter) do avesso. Uma pérola, um achado, uma raridade que merece ser ouvida!



*

         Já a fase Atlantic deu à Aretha o definitivo reconhecimento que fez da filha do reverendo Franklin uma lenda do soul. As gravações incendiárias de “Chain of Fools”, “Bridge Over Troubled Water”, “Amazing Grace”, “I Never Loved A Man (The Way I Loved You)”, “(You Make Me Feel) A Natural Woman”, “Do Right Woman, Do Right Man”, “The Weight”, “Think”, “I Say A Little Prayer” e “Respect” são lendárias e inesquecíveis, de uma autenticidade e de uma intensidade que faria qualquer um do signo de escorpião ficar ruborizado com a eletricidade envolvida em cada nota, em cada acorde, em cada vocalize, em casa vibrato.

Lady Soul (1968) é um trabalho ESSENCIAL de Aretha Franklin! Se você ainda não o ouviu, faça-o o quanto antes...

         Há dois acontecimentos interessantíssimos sobre Lady Soul que a jornalista Sheila Weller conta em seu delicioso livro Girls like Us. Na década de 1960, pelo menos, Aretha Franklin era extremamente criteriosa na escolha de seu repertório. Vários compositores queriam que a Rainha do Soul imortalizasse uma de suas canções nos sulcos de vinil que soam e ressoam pelas casas de tanta gente. Paul McCartney enviou, certa vez, uma canção belíssima para que Aretha gravasse. Era um belíssimo spiritual, daqueles típicos para serem cantados em igrejas, com direito a órgãos Hammond B3 e corais de negros ao fundo para oferecer o suporte necessário para os vocais incendiários da Rainha. Apesar de ter gravado a canção dos Beatles, a cantora não permitiu que a gravação fosse comercializada até o início de 1970. O mundo conheceu a tal parceria Lennon-McCartney na gravação que figura no algum This Girl's In Love with You e no derradeiro álbum dos Beatles – o título da canção? “Let It Be”!


        A fama de exigente que Aretha ostentava chegou a deixar compositores do porte de Carole King e Gerry Goffin inseguros em relação à qualidade de seu trabalho. Certa vez, Gerry encontrou Jerry Wexler (produtor de Franklin durante a fase Atlantic) na Grand Central Station de Nova York em um belo dia nos anos 1960 e pediu para que eles compusessem uma canção chamada “You Make Me Feel Like A Natural Woman”. Três semanas depois, Goffin e King, temerosos diante da fama da Diva, estavam no escritório de Wexler na gravadora com a canção em mãos para que ela fosse gravada por Aretha, que adorou a canção do casal. Gravada em 1967 e lançada em single em setembro do mesmo ano, “Natural Woman” se tornou em uma das marcas registradas do canto de Aretha Franklin e já foi regravada inúmeras vezes.





*

         Seja na Columbia, seja na Atlantic (fases de Aretha das quais conheço bem), meus finais de noite se tornaram bem mais agradáveis enquanto fazia meu diário de classe, arrumava meus livros e meus cacarecos que levo para as minhas aulas. Como tenho a honra de trabalhar em um local no qual as salas de aula são equipadas com excelentes equipamentos de som, não havia sensação melhor de deixar o som de “Chain, Chain, Chain (Chain, Chain, Chain) / Chain of Fools” ressoar pelos corredores da escola depois de todos os meus alunos terem ido embora para casa ao final de cada batalha diária. Foram momentos de nostalgia e alegria que deixaram a minha rotina muito mais interessante e rica em qualidade musical. Tudo isso graças ao talento indiscutível de Aretha Franklin.


Aretha em foto de 1980.

         Entre a dor, a tristeza, o ódio, a desilusão, o amor e o fervor, Aretha Franklin é sempre a opção mais inteligente entre as vozes negras norte-americanas. Vale a pena ouvir o canto desta mulher, para que acreditemos no quanto que a música ainda tem o poder de transformar o estado de espírito das pessoas...


Cantando para Barack Obama durante a posse do primeiro mandado do primeiro presidente negro da história dos EUA.