31 de março de 2015

TROVA # 45

A FÚRIA E OS BEIJOS
(ou uma declaração de amor a todas 
as formas de amor na telenovela brasileira)

Nathália Timberg & Fernanda Montenegro: duas damas das artes cênicas brasileiras em cena do primeiro capítulo de Babilônia (2015).


OS BEIJOS

O beijo no sofá
O beijo no harém
Um beijo na estação de trem

O beijo de amor
O beijo sem tesão
O de reconciliação

O beijo das canções
O beijo das araras
O beijo de aflições e taras

O beijo que se dá
O beijo que se ganha
O beijo da mulher-aranha

Tem beijo devoção
Também beijo-troféu
O beijo-artigo-de-bordel

Um beijo após a missa
"me beija", diz a moça
Um beijo dado assim à força

Um beijo o que é real
O outro é sonhador
E beija o pôster do cantor

Um beijo sua mão
O outro o corpo inteiro
O time beija seu goleiro

De beijo no bebê
A mãe dá mais de cem
Mas beijo-crime também tem

Um beijo em paris
O beijo do cartaz
Um beijo o outro rapaz

O beijo no escuro
O beijo à meia-luz
O beijo nos pés de jesus

Um beijo e lambe a pele
Um morde e causa dor
O beijo diz como é que eu tô

O beijo da serpente
O beijo no asfalto
Um beijo no meio do mato

O beijo que oferece
O beijo que ofende
O beijo azul do happy end

O beijo da chegada
O beijo despedida
Um beijo com sabor de vida

Um beijo em sigilo
O beijo da novela
Os beijos que eu já dei nela

Um beijo
Os beijos

(Pedro Luís na voz e interpretação de Elba Ramalho)





Confesso publicamente: sou fã de telenovelas! Faço parte daqueles cidadãos que, quando podem, ligam a TV na Vênus Platinada às nove da noite ou corre para o YouTube ou no site do novelão do momento para rever cenas inesquecíveis ou para descobrir as últimas peripécias de personagens X, Y ou Z quando (eventualmente!) não consigo assistir determinado capítulo. As séries de TV estrangeiras me parecem até interessantes em alguns momentos, porém nada como um folhetim bem brasileiro para chamar a atenção de pessoas com déficit de atenção como YO - e neste quesito, a Rede Globo, com boa parte do seu elenco e de seus escritores, consegue resultados impressionantes...

Novela, invariavelmente, era assunto de família: não só porque minha Mãe, como toda housewife que dedica alguns de seus momentos de lazer ao exercício de ser telespectadora, como também meu Pai recentemente parava tudo para ver "as últimas tiradas do Félix (personagem inesquecível do Mateus Solano). A irmã mais velha de Meu Avô Adhemar, Tia Maria, era tão fã de folhetim que a televisão ficava ligada religiosamente no canal 4 a partir da novela das 6 até o fim do (antigo) novelão das oito da noite! Ai de quem falasse na hora da novela perto do Tio Luiz, seu esposo implacavelmente rabugento: era puto instantâneo... Como consequência, durante o jantar, não escapamos a perguntas antológicas que o Brasil teve de responder, por exemplo: "Quem é o assassino em série de A Próxima Vítima?", "Quem explodiu o shopping de Torre de Babel?", "Com quem a Viúva Porcina fica no final de Roque Santeiro?", "Quem será a próxima amante do fotógrafo Jorge Tadeu em Pedra Sobre Pedra?" e o clássico de Vale Tudo "Quem matou Odete Roitman?".

Lembro claramente de ter visto novelas na TV desde quando me entendo por gente. Roque Santeiro, Vereda Tropical, Roda de Fogo, Fera Radical, Top Model, O Outro, Sassaricando, Vale Tudo, Bebê a Bordo, Que Rei Sou Eu?, O Salvador da Pátria, Tieta, Rainha da Sucata, O Dono do Mundo, Pedra Sobre Pedra, Lua Cheia de Amor, Pátria Minha, A Indomada, Perigosas Peruas, Deus nos Acuda, A Viagem, Quatro por Quatro, A Próxima Vítima, Suave Veneno e Torre de Babel são exemplos que eu lembro com clareza de capítulos na época em que foram ao ar! Não só por causa de cenas antológicas, como também por causa das trilhas sonoras que meus pais sempre tinham em LP ou em K7 para ouvir no carro - minha memória se tornou extremamente musical em sua grande parte por causa das novelas de TV e este patrimônio nenhum Downton Abbey, com todo o meu respeito, vai me trazer...

Entretanto, meu apetite pelos folhetins diminuiu um pouco quando entrei na idade adulta e constatei a falta de variações entre as tramas que surgiam na televisão - isso se não considerarmos a pobreza das novelas Made in Mexico, que beiravam os limites do absurdo e do bom gosto. Foram pouquíssimos os momentos em que parei diante da telinha para prestar atenção em uma telenovela e isso  acontecia quando havia vilanias memoráveis no vídeo, tais como a inesquecível Nazaré Tedesco de Renata Sorrah (Senhora do Destino), a malvada Bia Falcão encarnada por Fernanda Montenegro (Belíssima), a Flora e a Ângela Mahler interpretadas por Patrícia Pillar (A Favorita / O Rebu), a falsa boazinha Clara vivida por Mariana Ximenes (Passione), a antológica Carminha de Adriana Esteves (Avenida Brasil) e o pérfido e atormentado Félix (Amor à Vida). Os vilões pareciam ser personagens mais repletos de humanidade do que os ditos "mocinhos" da ficção, o que me dava uma irritação garantida, ao contrário das gargalhadas garantidas com as estripulias das maldades e trapalhadas dos que remavam contra a maré...

A Rede Globo de Televisão conseguiu revelar autores de telenovelas de grande competência e que fizeram do gênero uma verdadeira obra de arte. Silvio de Abreu, Janete Clair, Aguinaldo Silva, João Emanuel Carneiro, Licia Manzo e Gilberto Braga são alguns destes mestres que abordaram temáticas que, em alguns momentos, levaram o povo brasileiro a rever seus conceitos e parâmetros em relação a uma série de mitos que envolvem nossas relações. Afinal, a novela consegue ter o poder de discutir tabus que nem o cinema, nem a literatura, nem a filosofia, por exemplo, conseguiriam discutir com a mesma rapidez com mais de 200 milhões de brasileiros que estão com a televisão ligada às 21h30min!


Babilônia, novela da autoria de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, estreou em março de 2015 e tem tudo para já pertencer a uma galeria de clássicos do gênero: cenas fortes, um texto provocador e temas incendiários - hipocrisia, corrupção, prostituição, assassinato, ninfomania, adultério, estelionato e outros vícios que corrompem a alma do brasileiro... No entanto, escândalos foram criados em torno de uma das cenas mais leves e singelas da trama: o momento no qual as personagens de Fernanda Montenegro (Teresa Petrucelli) e Nathalia Timberg (Estela Marcondes), duas SENHORAS DE IDADE trocam um beijo apaixonado. A bancada evangélica no Congresso Federal, aliada aos seus rebanhos contidos nos templos espalhados pelo país, começou uma campanha ostensivamente agressiva de boicote contra a novela nas redes sociais e na Capital Federal.

Este episódio revela algumas questões bem interessantes: 1) Realmente, muitos políticos brasileiros encontram-se em um nível de pobreza intelectual, moral e ética tão grande para se preocuparem com uma novela da Rede Globo diante de tantos problemas GRAVES que existem no Brasil hoje; 2) Os eleitores (e fiéis e gaiatos inocentes) que compram a briga da ala mais conservadora do Congresso Federal desde 1964 refletem o quanto que precisam se informar a respeito de pautas tão antidemocráticas como esta, que colocam a democracia de nosso país em sério risco; 3) Um beijo pode ser algo definitivamente revolucionário, visto que incomoda tanta gente...

Mateus Solano & Thiago Fragoso protagonizaram o primeiro beijo entre dois homens que a TV brasileira levou ao ar.



Em contrapartida à onda reacionária que atirou atrizes do porte de Fernanda e Nathália na fogueira sem a menor piedade e respeito, surgiu um contra-ataque de setores mais esclarecidos (na qual este humilde Blog se inclui) da sociedade brasileira em apoio à classe artística e à Babilônia. Gostaríamos de deixar claro apenas que não há a intenção de aniquilar a chamada "família tradicional" e sim de dar oportunidades para que outras modalidades de família possam ser legitimadas ao levarmos em conta uma série de direitos e deveres pelos quais todos possuímos. Novela é coisa de família, sim: da família que possui um pai é uma mãe, a que possui dois pais ou duas mães e por aí vai... Por isso, lutaremos para que possamos ver beijos para todas as pessoas na telinha da TV. Afinal, para cada encostar apaixonado de lábios, há o recuo da fúria dos hipócritas e oportunistas de plantão...


17 de março de 2015

TROVA # 44

UM CARTÃO DE ANIVERSÁRIO PARA ELIS REGINA


Alô, Alô, Elis querida: aqui quem fala é da Terra. Sim, pra variar, AINDA estamos em guerra...

Há muito tempo que eu estava a fim de te escrever. Como você mesma diria, sempre te achei o maior barato, bicho! Creio que desde que criei este Blog, que nasceu no trigésimo aniversário da sua partida deste plano, eu tive aquela vontade quase que escondida de te mandar este cartão de aniversário. Já escrevi um e-mail pro Vinícius de Moraes na ocasião do centenário dele, nada mais justo te escrever umas palavrinhas repletas de amor e carinho para comemorar o septuagésimo dia do seu nascimento, não é verdade?




Não lembro exatamente da data, mas tenho a certeza de que a primeira vez em que eu realmente prestei atenção na sua voz foi quando Tia Marlene, irmã do Vovô, deixou que um de seus LPs fossem passar uns tempos lá em casa há mais de 20 anos atrás - deve ter sido em 1992, quando eu tinha meus 11 anos de idade. Lado A, agulha encaixada na primeira faixa do vinil e você sai cantando "É pau, é pedra, é o fim do caminho..." pelos quatro cantos daquele apartamento de dois quartos na Ilha do Governador e me arrebata no seu "Dois pra lá, Dois pra cá". Que uísque com guaraná porra nenhuma, eu só queria deixar você literalmente deitar e rolar para poder cantar e dar risada com o seu Quaquaraquaquá! Meu amor pela sua voz, sua interpretação, sua garra e sua história de vida foi tão arrebatador que tornou-se uma referência imprescindível para qualquer coisa que eu faço. Afinal, o exercício do viver é nada mais, nada menos do que aprender a jogar, como disse a velha canção.



Podemos dizer que você foi a primeira cantora que anunciou a modernidade da canção com o seu "Arrastão" e os seus braços-hélices que não tinham medo de fazer com que você soasse como uma mistura insólita de Lennie Dale e Ângela Maria diante de milhões de telespectadores. Poucas cantoras conseguem interpretar clássicos da canção brasileira com tanta propriedade como você o fez com "Vida de Bailarina" e "Inútil Paisagem". "Atrás da Porta" se tornou, eu diria, a melhor canção sobre ressentimento e vingança jamais escrita e cantada por alguém graças à sua interpretação irretocável. Dom? Talento? Trabalho árduo? Obsessão pela perfeição? Ou tudo junto?





No decorrer desses 20 e poucos anos que eu me encanto pelo valor inestimável do Brilhante que é o seu canto, passei a ter uma ideia bem clara das duas décadas mais turbulentas da história brasileira recente: a de 1960 e a de 1970. Não creio que alguém cantou as contradições do Brasil com tanta veemência e sinceridade como você o fez. E para isso, tu juntaste gente da pesada para a sua turma: Antônio Carlos Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Fátima Guedes, Renato Teixeira, Guilherme Arantes, Sueli Costa, Ivan Lins & Vitor Martins, João Bosco & Aldir Blanc, dentre tantos outros gênios. Guria, tu não perdeste tempo!!!




Artistas como você não existem iguais pelos seguintes motivos: 1) Porque "cantora" é um termo muito injusto para descrever você, pois você via o ato de cantar como uma espécie de devoção, um sacerdócio para que, através de cada acorde, de cada nota, se fizesse das tripas sentimento; 2) Porque você é tão autêntica, mas tão autêntica que eu tenho dúvidas de que nasça uma mulher neste país que tenha mais personalidade do que a tua! Digo tudo isso utilizando o Presente do Indicativo porque concordo plenamente com o que disse o Nelson Motta sobre você e as "colegas" das novas gerações: "Toda vez que eu ouço uma nova cantora, eu tenho certeza de que Elis Regina canta ainda melhor". Sábio Nelsinho: ele deixa claro para todos que todas as cantoras do Brasil devem pensar mais de mil vezes antes de gravar algo que já tenha recebido a voz de Elis Regina...





Infelizmente tu partiste num rabo de foguete ou talvez em um trem azul para virar a maior de todas as nossas estrelas lá no céu há mais de 30 anos. Não ouviste boa parte da música que se fez nos anos 1980, não assististe a democratização do Brasil, não recebeste o reconhecimento necessário em vida por tudo o que fizeste pela nossa música. Sempre me pergunto o que Elis Regina diria ou estaria pensando nos dias de hoje em meio a tudo que vivemos em nosso país hoje. Talvez você apenas cantasse aqueles versos da "Cartomante": "Nos dias de hoje é bom que se proteja / Ofereça a face pra quem quer que seja / Nos dias de hoje esteja tranquilo/ Haja o que houver pense nos seus filhos // Não ande nos bares, esqueça os amigos / Não pare nas praças, não corra perigo / Não fale do medo que temos da vida / Não ponha o dedo na nossa ferida".








Para celebrar os 70 anos de teu surgimento, minha cara Elis Regina, quero me lembrar da sua risada, das suas opiniões inteligentes e da falta gigantesca que você faz para a Cultura Brasileira! Graças a você, aprendemos que viver é realmente um barato! Por isso, como a nossa esperança é equilibrista, tal qual você detectou através da obra de João e Aldir, é imprescindível que o show de todo o artista tenha que continuar! E se depender de mim, sempre haverá espaço para a sua voz enquanto voz eu tiver...

Com todo o carinho e a admiração do mundo do seu querido

Vinil

31 de dezembro de 2014

2014 | 2015


É a terceira vez que escrevo posts como este. E ainda sem acreditar que mais um ano se passou e consegui manter o Trovas de Vinil como meu Blog, minha terapia, meu espaço para expor meus pensamentos, minhas ideias, como eu consigo ver e compreender o mundo.

Em quase três anos de existência, foram quase 9000 visualizações divididas em 43 posts sobre um tema em comum: MÚSICA! É ela quem nos move, é ela que nos motiva, é ela que nos inspira, é por ela que estamos aqui!

Gostaria de agradecer todos vocês que leram, que compartilharam, que curtiram a página no Facebook e deram toda a força. O apoio de cada leitor é fundamental para que este projeto faça sentido. No entanto, há três pessoas muito queridas que merecem o mais do que sincero reconhecimento e carinho:

Nilton Serra: o criador da página do Blog no Facebook e que trouxe novos leitores para as loucuras que compartilhamos por aqui... A você quero expressar também minha gratidão e o meu carinho por isto é por tudo o mais...

Fábio Bridges: não sou Roberto, ele não é Erasmo... mas posso dizer que este aqui é amigo de fé e irmão camarada! Abrir as portas do Pequenos Clássicos Perdidos, o Blog de música mais bacana desta Internet, para que este reles mortal escreva algumas contribuições por lá é uma honra sem tamanho. E ainda divulga o nosso Blog, via links, na página principal do P.C.P.! :-) Obrigado por tudo, amigo! E como diz o Inimitável: "São tantas emoções!"...

Rosana Barbosa: em um ano em que pensei em parar de escrever, as palavras de carinho de alguém que a gente gosta e admira muito não funcionam apenas como conforto em meio a tempestades, elas são o incentivo para que possamos ir em frente! Sem as suas boas energias, Amore, eu não teria ido adiante. Espero que em 2015, este espaço possa trazer coisas que você curta ler - sim, prometo mais música brasileira... A você, Rô, envio, muito mais do que um "Muito Obrigado!", mas envio a certeza de que este espaço não irá ter férias tão cedo...

2014 não foi um ano fácil na vida pessoal. Foi um ano profissional bastante turbulento. No entanto, chegamos ao final com a certeza da sobrevivência e a promessa de vários projetos que estão a caminho no início de 2015...

Saudações a todos,
Vinil

P.S.: Como diria Mestre Chico, o Buarque, "olha o que é que eu fiz..."


30 de dezembro de 2014

TROVA # 43

O BANQUETE DE FAMINTOS DE 
NATALIE MERCHANT



It’s really wonderful to be able to be nobody, and then have a moment when I can be somebody, and then go right back to being nobody again.

I don’t want to live in a culture of despair, I’d like to live in a culture of hope.

I think of myself as a musician and not a celebrity. Celebrity status is smoething you have to deliberately pursue – I couldn’t imagine myself seeking that.

Natalie Merchant



Existem, neste mundo, três tipos de artistas da canção: 1) Os que te fazem acreditar em um mundo melhor; 2) Os que te fazem um ser humano melhor; 3) Os que te motivam a viver melhor no decorrer das insanidades do dia-a-dia. Natalie Merchant é uma das poucas pessoas que conseguem a realizar estas três façanhas comigo há pouco mais de 20 anos.


Eu devia ser mais um daqueles adolescentes sem graça e sem algo de especial que estava prestes a iniciar o último ano do Ensino Fundamental quando ouvi o cover que o 10,000 Maniacs tinha feito para "Because the Night" (parceria bissexta de Patti Smith e Bruce Springsteen) no rádio no início de 1994. Eu tinha acabado de completar 13 anos de idade e meus ouvidos ficaram completamente vidrados naquela voz com aquela interpretação dramática e agridoce daquela "menininha" de vestidinho preto, cabelo estilo Joãozinho e sapatos de bailarina que tinha saído de Jamestown, New York, para as ondas das rádios do planeta. Era, nada mais, nada menos do que um dos trechos mais eletrizantes do especial MTV Unplugged que finalmente levou os Maniacs ao estrelato antes de Natalie deixar a banda, meses depois.



Anos mais tarde, já adepto da TV a cabo e seguidor frenético da MTV Brasil, vi um vídeo de 4 minutos no qual Miss Merchant perambulava aparentemente sem rumo pelas ruas da cidade de New York com uma câmera fotográfica nas mãos, além de zilhões de ideias e desejos a serem soltos e registrados por aí. Natalie se apresentava como uma flanéur em pânico (sem deixar de manter uma certa postura de deboche perante ao mal-estar da civilização) pelas ruas de Manhattan em seu primeiro clipe solo. Era "Carnival", uma de suas obras-primas...








A partir de então, passei a olhar com mais atenção cada um dos passos musicais de Natalie Merchant. No Natal de 1998, tive a oportunidade de pedir um dos discos que mudaram minha percepção em termos de música: Tigerlily, o primeiro álbum solo de Merchant. Na época em que ainda existiam lojas de discos no centro do Rio de Janeiro (não essas megastores ou meras seções de CDs e DVDs nas livrarias!), passei a pedir a meus pais que sempre me dessem CDs de Natalie de presente de Natal - certas vezes eu ganhava dinheiro para que eu mesmo comprasse um presente de minha livre escolha e o tão aguardado álbum de inéditas chegava em minhas mãos geralmente todo dia 30 de Dezembro. Com o lançamento de Ophelia, seu segundo CD solo, tornei-me um verdadeiro fã e seguidor de sua obra.




A sonoridade pop que fez de Miss Merchant uma verdadeira estrela durante sua passagem pelo 10,000 Maniacs não estava em plena evidência em Tigerlily e saiu completamente de cena a partir de Ophelia. Enquanto cantora e compositora, Natalie queria arriscar novas sonoridades, traçar caminhos musicais mais sofisticados, quebrar as amarras impostas pelo pop-rock da revista Billboard ou pela revista Rolling Stone. O preço pago pela artista foi justamente o afastamento das paradas de sucesso e, consequentemente, do grande público - seu primeiro disco chegou a vender milhões de cópias, ao contrário de seu sucessor.


Em um era em que Britneys e Aguileras queriam ser princesinhas no reinado de Madonna na corte das Boy-Bands (ah, os nefastos anos 1990...), Tigerlily era um Pop inteligente demais para 1995. Ophelia era um mergulho profundo demais em uma sociedade a qual sempre privilegiou o espetáculo per se, ainda mais em 1998! Como resposta ao mergulho (Pessoano demais? Shakespeariano demais?) de Natalie em projetos musicais muito densos, a Elektra - selo da Warner Records que produzia e distribuía seus discos nos EUA e pelo resto do mundo - decidiu lançar Natalie Merchant Live in Concert em CD, DVD e Home Video (as imagens deste show são uma raridade hoje em dia, visto que estão fora de catálogo!).



O registro audiovisual de duas noites de shows da Ophelia Tour apresenta uma artista ousada e intensa, com um repertório que foge da obviedade das paradas de sucesso do final da década de 1990. O palco era o local no qual os sentimentos mais obscuros de Natalie (raiva, ódio, euforia, medo...) se concretizavam, para estupefação e deleite do público ao ver uma moça aparente tão recatada e reservada se transformar em uma megera indomada em cena. As escolhas artísticas acertadas - sem abrir concessões ao mercado fonográfico, como fizeram algumas colegas de sua geração - de Miss Merchant lhe renderam pleno respeito da crítica especializada e a intensa admiração de um público restrito e fidelíssimo.


Em 2000, Natalie decidiu trilhar um caminho ainda mais radical: saiu em turnê pelos EUA para divulgar um setlist composto única e somente de canções tradicionais do folk norte-americano e sem lançar nenhum disco de inéditas. A pesquisa e a (indiscutível) qualidade do repertório infelizmente não foram suficientes para que a Elektra lançasse aquele projeto em CD - isto foi feito pela própria Natalie Merchant três anos mais tarde com o lançamento do antológico The House Carpenter's Daughter.





No início da primeira década do novo milênio, a Elektra solicitou mais um disco de inéditas de Merchant e ficou acordado que as gravações teriam início em New York City. Natalie dividiria a produção com o renomado T-Bone Burnett (Robert Plant & Alisson Krauss, O' brother where ar'thou?) e as gravações teriam início em 15/06/2001 e seriam concluídas até o dia 9 de setembro do mesmo ano. Motherland seria reconhecido como um dos trabalhos mais contundentes e engajados de Natalie Merchant (e da música americana de todos os tempos) se o atentado às torres gêmeas do World Trade Center não tivesse se consumado 48h depois do fim do processo de criação do projeto.



A voz de Natalie jamais se mostrará tão politicamente ativa como em 2001 - "This House is on Fire" versa sobre conflitos armados, o imperialismo e a tirania da segunda era Bush; a faixa que deu nome ao CD é um hino pacifista comovente, além de um pedido de paz em um mundo que é sumaria e paulatinamente destruído a cada dia; "Saint Judas" é o inventário do racismo oriundo de um regime político escravocrata e excludente; "Golden Boy" recria a saga de um jovem assassino que pode ter saído de Columbine High School ou de We Need to Talk About Kevin, de Lionel Shriver; "Tell Yourself" é uma ode à beleza que existe fora dos padrões da ditadura da estética imposta pelo American Way of Life, uma conclamação à auto-estima de meninas que não se enquadram nos pressupostos de beleza que colonizam os imaginários das pessoas que habitam o norte das Américas.





O público cativo de Natalie Merchant se encantou por Motherland. Dois casos deste fato foram os seguintes: David Letterman, de tão estupefato com a voz e a performance de "Just Can't Last", pediu que Natalie e a banda voltassem para tocar na noite seguinte da fatídica apresentação de 12 de novembro de 2001. Todos voltaram na noite seguinte para tocar "Build a Levee" na noite seguinte, para deleite da equipe do programa e do público em geral. Elton John, na época do lançamento do disco, cansou de fazer elogios sucessivos a Motherland e disse que era o melhor trabalho que Natalie já tinha feito até então. Era fato evidente que a voz de Miss Merchant estava mais amadurecida e tinha conquistado mais tons graves, por exemplo. Suas interpretações se tornaram mais pungentes e inesquecíveis (como não se encantar com "I'm not Gonna Beg", que teria sido composta para Aretha Franklin?). No entanto, suas mensagens de cunho político e pacifista foram neutralizadas pela paranoia que se apoderou dos EUA após os ataques de 11 de Setembro de 2001: declarar abertamente que o lar americano estava em chamas ou de que o sofrimento simplesmente não iria perdurar ("Just Can't Last") foi um pouco demais para uma nação cujo orgulho estava seriamente ferido por aeronaves suicidas. Um detalhe interessante sobre o quanto a paranoia e a maluquice estavam atingindo níveis surreais: a arte original - capa e fotos de encarte do CD - foram descartadas e substituídas por uma bucólica foto da cantora sentada ao lado de uma árvore com uma cesta de frutas no colo - ou seja, uma imagem completamente desprovida de quaisquer conotações políticas. O disco infelizmente não teve altos índices de vendagem e Natalie foi dispensada da Elektra pouco tempo depois.





A consequência mais duradoura do afastamento de Natalie Merchant de uma grande gravadora foi justamente o fato de ficarmos sem ouvir qualquer espécie de material inédito por mais de uma década. Por outro lado, Natalie pode concretizar projetos pessoais musicais que jamais conseguiria dar cabo em uma grande gravadora: The House Carpenter's Daughter foi um deles. O CD de raridades contido em Retrospective (1995-2005) é uma pepita ofertada aos fãs de Merchant. O casamento e a maternidade longe dos holofotes em um país no qual os paparazzi registram cada movimento das pessoas famosas foi outro.



O exílio da artista dos palcos e dos discos foi importante para que ela conseguisse se reinserir no mundo musical com um dos projetos musicais mais ambiciosos de todos os tempos. Leave Your Sleep, um CD duplo com 26 canções baseadas em poemas escritos para crianças. Christina Rossetti, Ogden Nash, e. e. cummings e outros artífices da Literatura tornaram-se co-autores de 26 canções que encantaram pequenos e adultos. A semestre deste projeto se deu graças à maternidade: em 2003, Merchant deu luz à Lucía, sua única filha. No afã de alfabetizar a menina, Natalie resolveu dar voz a textos poéticos que estavam distantes da memória das pessoas ao expandir seu número de leitores ao fazer destes ouvintes de poemas musicados.







Leave Your Sleep foi o retorno de Natalie Merchant ao mundo da música depois de sete anos sem lançar álbuns com gravações inéditas e após nove sem apresentar canções de sua autoria para o público. Contratada pela Nonesuch Records, selo musical especializado em Jazz e Folk, Merchant obteve a liberdade pela qual sempre lutou no decorrer de toda a sua carreira: gravar canções que dialogam com os mais diversos estilos musicais (Rock, Folk, Jazz, Bluegrass, etc.) não apenas com acompanhamento musical simples, como também com direito a orquestras sinfônicas que enriquecem o trabalho da canção popular, dando à musicalidade de Natalie novos caminhos a serem percorridos.
        



O período compreendido entre 2010 e 2014 serviu não apenas para que Miss Merchant divulgasse este trabalho monumental, como também foi importante para que a artista pudesse, enfim, garimpar o que existia de mais genuíno e autêntico em seus arquivos e/ou voltasse a compor letra e música para novas canções. Treze anos após a gravação e o lançamento de Motherland, já era o momento de Natalie Merchant trazer mais uma coleção de material inédito.




As dez canções que fariam parte do projeto The Hunger Banquet (O Banquete dos Famintos) foram gravadas em estúdio no final de 2013. Porém, ao saber que a trilogia Jogos Vorazes (The Hunger Games), de Suzanne Collins, era um dos maiores sucessos editoriais na mesma época em que o CD seria lançado, Merchant decidiu deixar o título de seu trabalho de lado e intitulou sua coleção de inéditas apenas com o nome de Natalie Merchant. Apesar do tema das novas criações da autora de "Carnival" e "Life is Sweet" delimitarem as propostas de um projeto específico - o banquete para aqueles que sentiriam fome de viver, de sentir, de comer... - as canções não deixam de trabalhar velhos temas já abordados pela obra da cantora, tais como: repressão x libertação ("Ladybird", "Giving up Everything"), conflitos globais ("It's A-Coming", "Go Down, Moses"), morte, ciúme e finitude ("Maggie Said", "Seven Deadly Sins" e "The End"), fama, glória e ostracismo ("Lulu"), egoísmo e indignação perante o status quo ("Texas" e "Black Sheep"). Tratava-se de uma espécie de recomeço para uma artista que retornava à cena do música Pop depois de uma praticamente uma década e meia, ou talvez, uma retomada da crítica a valores humanos tão presentes em Motherland, a partir de letras simples e diretas como as de Tigerlily e de arranjos que combinam ora tons menores tais quais os de The House Carpenter's Daughter, ora épicos e grandiloquentes como os de Ophelia e Leave Your Sleep. Em suma: Natalie Merchant resume, em 10 canções inéditas, tudo o que uma artista conseguiu realizar em carreira solo desde 1995!



Natalie Merchant anuncia um banquete de famintos em seu disco homônimo e deixa em aberto a possibilidade para que nos saciemos através de um disco de gravações emocionantes, pungentes e marcantes - "Lulu" tornou-se uma das obras-primas de todo o repertório de Natalie. A cada trabalho que lança, vemos não apenas uma mulher que aceitou envelhecer graciosamente (Natalie surpreendeu seus fãs ao deixar de fingir seus cabelos de perto a partir de 2012, deixando seus cabelos naturalmente grisalhos) em um mundo musical no qual senhoras de fibra e de cabelos brancos como Patti Smith e Emmylou Harris são exceções à regra principal de que o Pop jamais envelhece - vide a obsessão infinita de Madonna em parecer jovem à beira dos 60 anos de idade. Envelhecer, produzir e declarar independência musical na era do iTunes é sinal de muita coragem e ousadia: Miss Merchant o possui, como uma bela matrona italiana prestes a nos servir um banquete para cada um de nós, famintos por boa música.