28 de maio de 2015

TROVA # 48

UMA FLOR QUE CANTA E DANÇA


Toda sequência tem uma rotina
Toda rotina te causa estrago
Todo estrago merece um conserto
Todo conserto te modifica.
(Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz)






Certas flores, quando entram em contato com a brisa do dia, dançam com a naturalidade com o vento. A flor que será o tema do nosso texto de hoje não apenas consegue dançar com as brisas, como também possui o talento irresistível do canto. Tulipa Ruiz é uma cantora de muita sorte: dona de uma voz invejável, com um timbre de alcance insólito. Além disto, é dotada de outros talentos que vão além do binômio cantora/compositora – é uma desenhista de mão cheia, para não citar outros exemplos.


O som de Tulipa chegou aqui em casa logo após o lançamento de seu primeiro CD, Efêmera (2010), que rendeu muito entusiasmo por parte das pessoas. Dois anos depois, o mundo inteiro se apaixonou por Tudo Tanto (2012), que fez de Tulipa Ruiz uma verdadeira estrela da canção dos anos 2010. Confesso que não me entusiasmei muito com o primeiro disco da flor cantante: cheguei até a receber um convite para ver uma apresentação da turnê de Efêmera no SESC Belenzinho, teatro que fica relativamente perto aqui de casa; no entanto, por motivos muito menos nobres, recusei um convite para ir ao show e ainda perdi a possibilidade de conseguir um autógrafo e de dar dois beijinhos na bela flor cantante.



Resolvi matar a curiosidade e fui ver Tulipa Ruiz ao vivo em um show da Tudo Tanto Tour no SESC Santana e confesso que não dei o devido valor para a jovem cantora que comandou um show excelente! À frente de uma banda afiadíssima (mano Gustavo Ruiz na guitarra e na produção musical, Luiz Chagas – seu pai e ex-escudeiro de Itamar Assumpção na lendária Isca de Polícia – na outra guitarra, Marcio Arantes no baixo e Caio Lopes na bateria), Tulipa se revelou como uma cantora extremamente madura e inteligente em suas interpretações ao vivo. Cumprimentei-a rapidamente após a apresentação, pegamos seu autografo (não me lembro se tiramos foto), mas ainda faltava algo maior para que eu fosse finalmente seduzido pela sua arte.



Minha paixão por Tulipa Ruiz se deu de vez com o lançamento de Dancê (2015), seu terceiro CD. Primeiramente porque ela teve peito o suficiente para dar um nome incomum para o seu disco. Segundo porque ela se utilizou de uma tática semelhante à de David Bowie em 1983: ao fazer todo mundo dançar, produziu canções de primeiríssima qualidade. Sua parceria musical com Gustavo Ruiz rendeu canções assumidamente Pop, porém inteligentes, com groove e com muito conteúdo.




E este conteúdo foi azeitado por músicos de primeiríssima qualidade: além da banda que já acompanha Tulipa, a presença de convidados especiais fizeram de Dancê um deleite para os amantes da boa música. João Donato canta e toca o piano Fender Rhodes em “Tafetá”, o grupo Metá Metá (que conta com os vocais inconfundíveis de Juçara Marçal) fizeram de “Algo Maior” um dos números mais marcantes do disco, Kassin empresta seus dotes de instrumentista e produtor em “Físico” e Lanny Gordin toca sua lendária guitarra em “Expirou”, nos ofertando um solo belíssimo.
  

Dancê leva Tulipa Ruiz para um outro patamar em relação às cantoras de sua geração. Suas canções inteligentes, repletas de influências da tradição da melhor MPB (quem conhece bem o trabalho de Gal Costa e acompanha a bela flor cantante sabe que Gracinha é uma de suas maiores influências musicais), fazem com que seus três discos sejam exemplos de uma bela obra em progresso. Melhor de tudo, é um disco que não apenas te faz dançar, mas que também te obriga a pensar e a ver algumas coisas de uma maneira diferente. Por isso, de acordo com a filosofia pregada por Tulipa, é dançando que se resolve os problemas desta vida!


P.S. # 1: Escrevi um texto sobre o Dancê para o Pequenos Clássicos Perdidos, do nosso querido mestre e guru Fábio Bridges. Para ler o texto, é só conferir o link a seguir: http://pequenosclassicosperdidos.com.br/2015/05/26/tulipa-ruiz-dance-2015/


P.S. # 2: Um mea culpa se faz necessário... Tive a terceira  oportunidade de ver Tulipa Ruiz cantando ao vivo em São Paulo foi na estréia da Dancê Tour, nos dias 22, 23 e 24/05/2015 no Teatro Paulo Autran, em pleno SESC Pinheiros (SP). Por motivos de força maior, tivemos que recusar os convites para uma das noites (que tínhamos conseguido quase que na base do tapa), para minha total desolação. Enquanto Tulipa e sua trupe não voltam para cá com a missão de fazer Sampa dançar, vou bailando ao som do CD mesmo... Este link dá uma prévia bem interessante do que foi a estréia do bailão da Tulipa: http://www.noize.com.br/um-novo-patamar-para-tulipa-ruiz


ALGUNS VERSOS QUE FAZEM DE DANCÊ UM CONVITE PARA O SEU PENSAMENTO:

Começou
Agora você vai tomar conta de si

Das tuas minhocas, caraminholas,
das encucações, dos teus pepinos
Das pérolas, das abobrinhas,
dos abacaxis, dos nós, dos faniquitos.
Prumo
Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz

Cada um tem seu formato
Apertado, colado, justo
Largo, folgado, amplo, vasto
Cheio, graúdo, forte, farto
Esguio, fino, compacto.

Visto GG, você P
Você P, eu GG
Visto GG, você P
Você P, eu GG
Proporcional
 Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz

Fino
Só você
Elegante
Sabe bem
Muito trato
Combinar
Na lapela
Tem o dom
Tem um padrão
Já que tem
Desenhado
Sabe usar
Tem casaco
Dégradé
Engomado
Tafetá
Tafetá
Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz – Part. Esp.: João Donato

Apaga, filtra, manera
Massageia o esqueleto
A cuca, a cabeça, a traqueia
Cotovelo do esqueleto
A lombriga, clavícula, pé e a costela do esqueleto

Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir
Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir

Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
E entra no estado zen.
Elixir
Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz

Trato azedume, mau-olhado, ‘quebrante’, vício
Trato treta de trabalho
Trabalho com amarração
Resolvo o seu problema com baralho, com pôquer, bingo
Pra bituca de cigarro eu tenho a solução
Trago seu amor de volta se me fizer uma visita
A gente faz uma combinação, você acerta e acredita
No duro, dá certo
Nunca houve reclame.
Reclame
Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Caio Lopes, Marcio Arantes & Luiz Chagas

Sinto falta de um tempo que ouvi dos amigos
Tava escrito num livro
Tocou numa vitrola
Foi dançado, cantado, recitado, falado
Publicado, sentido, decupado, contado
Mas eu não tava ali

Quando é que a saudade daquilo que a gente não viveu passa?
Se passa, parece que já foi, mas quando você vê volta
Volta porque tem a sua cara, tem a ver com a sua história.
Expirou
 Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz – Part. Esp.: Lanny Gordin

Todo motivo te leva a querer
Todo querer te faz ter vontade
Toda vontade te faz ter impulso
Todo impulso sempre me estimula
Jogo do Contente
Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz

Era pra ficar no chão
Deu pé, decolou
Era pra ter sido em vão
Como é que durou?
Era pra ficar ali e por aí caminhou

Era pra ser menos sério
Mais cara-de-pau
Era para ser só nuvem e precipitou
Podia não ter dado em nada
Então como é que virou?
Virou
Tulipa Ruiz, Felipe Cordeiro, Gustavo Ruiz, Manoel Cordeiro & Luiz Chagas – Part. Esp.: Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro

Tudo que eu gosto tá em você
É puramente físico
(...)

O formato do nariz
Osso pontudo do pescoço
Lóbulo da orelha
Desenho da sobrancelha
Pintas pela pele
Pelos, tornozelo
Dedo, nuca, calcanhar, cabelo
Da boca pra fora
Fora de fora pra dentro
(...)
Você veio assim sem defeito.
Físico
Tulipa Ruiz & Gustavo Ruiz – Part. Esp.: Kassin

Vai ter tempo de sobra
Mesmo sendo velho, sabe sobre tudo
Sempre pra valer
Volta e meia, cê volta
Nunca é tarde, pelas tantas recomeça
Vence em convencer
Não tem fim, nem começo
O agora é agora, voa
Já passou, olha, passou
E fica também na sua memória
Sempre você
O tempo e você.
Old Boy
Tulipa Ruiz

Tá pra nascer algo maior
que vá tirar do lugar as coisas que cismam em não andar
Tá pra nascer algo maior
que tudo o que você já viu, leu, sentiu, soube ou ouviu
Não sinta medo nem dó de ser feliz e se soltar,
de saber bem o que lhe convém
Tá pra nascer quem viva só,
pois de me, myself and I já basta eu, você e nada mais.
Algo Maior
Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz & Luiz Chagas – Part. Esp.: Metá Metá





18 de maio de 2015

TROVA # 47

SÃO PAULO – HAVANA

 

"Mamãe, eu quero ir a Cuba

Quero ver a vida lá

La sueño una perla encendida

Sobre la marMamãe eu quero amar

A ilha de xangô e de yemanjá

Yorubá igual a bahia

Desde Célia Cruz

Cuando eu era un niño de jesus

E a revolução

Que também tocou meu coração

Cuba seja aqui

Essa ouvi dos lábios de peti

Desde o cha-cha-cha

Mamãe eu quero ir a Cuba

E quero voltar"

(Caetano Veloso - "Quero ir a Cuba")



Ao fazermos uma pesquisa bem rápida pela Internet em maio de 2015, descobrimos que uma passagem de voo saindo de São Paulo para Havana custaria cerca de 2000 reais. Isto porque (ainda?!) não existem voos diretos para a ilha de Che e Fidel. Uma das agruras de ser professor e aspirante a Doutorando é ter a constante impossibilidade de utilizar o cartão de crédito e fazer as malas em meados de maio, por isso, a única alternativa que nos sobra é quando artistas cubanos brindam o Brasil com a sua presença, o seu talento, seus sopros e a sua irresistível batucada.

Desde que li a biografia de Carmen Miranda tão bem escrita pelo Master Ruy Castro, na qual ele descreve como as lendárias orquestras cubanas seduziram os Estados Unidos, fiquei com vontade de conhecer Havana. Meu passaporte estava garantido para a noite do dia 16 de Maio de 2015, quando a Buena Vista Social Club, um dos grupos cubanos mais importantes do mundo, veio para uma turnê pelo Brasil. 


Para ver e ouvir ao vivo a orquestra que revelou para o planeta os talentos de Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rubén González, Pío Leiva e a incomparável Omara Portuondo tocar boleros, salsas, tumbas e guajiras ao vivo, fizemos uma comemoração um tanto incomum para a tarde de sábado, enquanto esperávamos o show: a partir de uma postagem no Facebook, dissemos (jocosamente, em tom de pura brincadeira) de que iríamos para Cuba na noite daquele sábado. Só não mencionamos que, na verdade, foi La Isla Bonita que veio a nosotros.

A viagem para a Cuba levaria algumas horas, pois são vários os km que separam a Zona Leste do HSBC Brasil, local da apresentação da Buena Vista Social Club. O melhor de tudo era que não teríamos que enfrentar a chatice insuportável de terminais de embarque e desembarque de aeroportos internacionais, alfandegários insuportáveis, filas intermináveis, tampouco o sobe e desce insuportável dos voos (inter)nacionais - os que me conhecem um pouquinho sabem que eu detesto viagens de avião. No entanto, tínhamos pela frente a odisseia do trânsito de São Paulo, com suas marginais e suas pontes estaiadas, flanelinhas ousados e estacionamentos inflacionados, além do porre insuportável do público e do staff das casas de shows, locais onde o público está muito mais a fim de beber, comer, conversar ou fazer qualquer outra coisa que não seja curtir a música e os garçons pululam à sua frente com lanternas e máquinas de cartão de crédito desesperados para que o cliente pague a conta antes de abandonar o recinto.

A chatice se esvai quase completamente quando as luzes se apagam e o pianista da Buena Vista Social Club adentra o palco e dá início a um solo virtuoso e arrepiante, digno de um Herbie Hancock, de Horace Silver ou de um Chucho Valdés. Logo depois, os demais músicos entram no palco e dão continuidade ao recital de quase duas horas de duração de muita batucada, sopros, romantismo e muita emoção. Alguns dos integrantes remanescentes do grupo que foi eternizado pelas lentes cinematográficas de Wim Wenders continuam na ativa, enquanto jovens músicos agregam o melhor de seus talentos para uma das melhores bandas do mundo.


O ápice do show é quando é anunciada a entrada de Omara Portuondo, belíssima e encantadora no alto de seus 84 anos de idade, cantando em tons agudos como pouquíssimas cantoras conseguiriam. Dotada de uma energia e de um carisma contagiantes, Dona Omara arrancou gritos e aplausos entusiasmadíssimos, dignos de uma Pop Star adolescente. Sua conclamação para que o público batesse palmas e cantasse junto com ela era tamanha, que, várias pessoas resolveram se levantar de seus assentos e dançar com seus pares ou sozinhos, embalados pelo som e pela batucada cubana.




Em menos de duas horas, São Paulo já era Havana, Havana já era São Paulo. Findo o show, tudo o que tínhamos que fazer era juntar o que restou de nossas energias, abandonar o sonho musical de romantismo e sons exuberantes e retornar às nossas rotinas de sons urbanos, com sabor de concreto.


1 de abril de 2015

TROVA # 46

DEZ MENTIRAS MUSICAIS PARA O 
PRIMEIRO DE ABRIL DE 2015


APRIL FOOL

Come - be my April Fool
Come - you're the only one
Come - on your rusted bike
Come - we'll break all the rules

We'll ride like writers ride
Neither rich nor broke
We'll race through alleyways
In our tattered cloaks so

Come - be my April Fool
Come - we'll break all the rules

We'll burn all of our poems
Add to God's debris
We'll pray to all of our saints
Icons of mystery
We'll tramp through the mire
When our souls feel dead
With laughter we'll inspire
Then back to life again

Come - be my April Fool
Come - you're the only one

Be my April Fool
You're the only one

Come
Come - be my April Fool
Come
Come - we'll break all the rules
(Patti Smith, 2012)


10) Angela Rô Rô e Zizi Possi realizam um grande projeto juntas, consistindo em um disco de estúdio e em um DVD ao vivo!


9) Elton John abandona o piano e resolveu adotar a guitarra como seu instrumento musical;



8) Ney Matogrosso esquece das mágoas com o passado e resolve voltar para o Secos & Molhados para uma reunião de comemoração;


7) Madonna desiste da maquiagem, dos figurinos sexy e da postura "forever young" para se apresentar ao vivo com camisetas Hering brancas e calças jeans surradas;


6) Maria Bethânia resolveu cortar os cabelos no estilo chanel, surpreendendo os fãs e o grande público;


5) Mick Jagger proclamou que só pratica relações sexuais de agora em diante caso exista AMOR; 


4) Chico Buarque é o mais novo cabo eleitoral do PSDB a partir de 2015;


3) Keith Richards e Joni Mitchell largaram o cigarro depois de várias idas aos Narcóticos Anônimos;


2) Caetano Veloso resolveu vestir as sandálias da humildade e jurou que não vai se pronunciar mais sobre estética e política em público;


1)David Bowie está planejando uma turnê mundial para o verão norte-americano e vai celebrar os 40 anos de Young Americans e Station to Station ao vivo pelos palcos.


31 de março de 2015

TROVA # 45

A FÚRIA E OS BEIJOS
(ou uma declaração de amor a todas 
as formas de amor na telenovela brasileira)

Nathália Timberg & Fernanda Montenegro: duas damas das artes cênicas brasileiras em cena do primeiro capítulo de Babilônia (2015).


OS BEIJOS

O beijo no sofá
O beijo no harém
Um beijo na estação de trem

O beijo de amor
O beijo sem tesão
O de reconciliação

O beijo das canções
O beijo das araras
O beijo de aflições e taras

O beijo que se dá
O beijo que se ganha
O beijo da mulher-aranha

Tem beijo devoção
Também beijo-troféu
O beijo-artigo-de-bordel

Um beijo após a missa
"me beija", diz a moça
Um beijo dado assim à força

Um beijo o que é real
O outro é sonhador
E beija o pôster do cantor

Um beijo sua mão
O outro o corpo inteiro
O time beija seu goleiro

De beijo no bebê
A mãe dá mais de cem
Mas beijo-crime também tem

Um beijo em paris
O beijo do cartaz
Um beijo o outro rapaz

O beijo no escuro
O beijo à meia-luz
O beijo nos pés de jesus

Um beijo e lambe a pele
Um morde e causa dor
O beijo diz como é que eu tô

O beijo da serpente
O beijo no asfalto
Um beijo no meio do mato

O beijo que oferece
O beijo que ofende
O beijo azul do happy end

O beijo da chegada
O beijo despedida
Um beijo com sabor de vida

Um beijo em sigilo
O beijo da novela
Os beijos que eu já dei nela

Um beijo
Os beijos

(Pedro Luís na voz e interpretação de Elba Ramalho)





Confesso publicamente: sou fã de telenovelas! Faço parte daqueles cidadãos que, quando podem, ligam a TV na Vênus Platinada às nove da noite ou corre para o YouTube ou no site do novelão do momento para rever cenas inesquecíveis ou para descobrir as últimas peripécias de personagens X, Y ou Z quando (eventualmente!) não consigo assistir determinado capítulo. As séries de TV estrangeiras me parecem até interessantes em alguns momentos, porém nada como um folhetim bem brasileiro para chamar a atenção de pessoas com déficit de atenção como YO - e neste quesito, a Rede Globo, com boa parte do seu elenco e de seus escritores, consegue resultados impressionantes...

Novela, invariavelmente, era assunto de família: não só porque minha Mãe, como toda housewife que dedica alguns de seus momentos de lazer ao exercício de ser telespectadora, como também meu Pai recentemente parava tudo para ver "as últimas tiradas do Félix (personagem inesquecível do Mateus Solano). A irmã mais velha de Meu Avô Adhemar, Tia Maria, era tão fã de folhetim que a televisão ficava ligada religiosamente no canal 4 a partir da novela das 6 até o fim do (antigo) novelão das oito da noite! Ai de quem falasse na hora da novela perto do Tio Luiz, seu esposo implacavelmente rabugento: era puto instantâneo... Como consequência, durante o jantar, não escapamos a perguntas antológicas que o Brasil teve de responder, por exemplo: "Quem é o assassino em série de A Próxima Vítima?", "Quem explodiu o shopping de Torre de Babel?", "Com quem a Viúva Porcina fica no final de Roque Santeiro?", "Quem será a próxima amante do fotógrafo Jorge Tadeu em Pedra Sobre Pedra?" e o clássico de Vale Tudo "Quem matou Odete Roitman?".

Lembro claramente de ter visto novelas na TV desde quando me entendo por gente. Roque Santeiro, Vereda Tropical, Roda de Fogo, Fera Radical, Top Model, O Outro, Sassaricando, Vale Tudo, Bebê a Bordo, Que Rei Sou Eu?, O Salvador da Pátria, Tieta, Rainha da Sucata, O Dono do Mundo, Pedra Sobre Pedra, Lua Cheia de Amor, Pátria Minha, A Indomada, Perigosas Peruas, Deus nos Acuda, A Viagem, Quatro por Quatro, A Próxima Vítima, Suave Veneno e Torre de Babel são exemplos que eu lembro com clareza de capítulos na época em que foram ao ar! Não só por causa de cenas antológicas, como também por causa das trilhas sonoras que meus pais sempre tinham em LP ou em K7 para ouvir no carro - minha memória se tornou extremamente musical em sua grande parte por causa das novelas de TV e este patrimônio nenhum Downton Abbey, com todo o meu respeito, vai me trazer...

Entretanto, meu apetite pelos folhetins diminuiu um pouco quando entrei na idade adulta e constatei a falta de variações entre as tramas que surgiam na televisão - isso se não considerarmos a pobreza das novelas Made in Mexico, que beiravam os limites do absurdo e do bom gosto. Foram pouquíssimos os momentos em que parei diante da telinha para prestar atenção em uma telenovela e isso  acontecia quando havia vilanias memoráveis no vídeo, tais como a inesquecível Nazaré Tedesco de Renata Sorrah (Senhora do Destino), a malvada Bia Falcão encarnada por Fernanda Montenegro (Belíssima), a Flora e a Ângela Mahler interpretadas por Patrícia Pillar (A Favorita / O Rebu), a falsa boazinha Clara vivida por Mariana Ximenes (Passione), a antológica Carminha de Adriana Esteves (Avenida Brasil) e o pérfido e atormentado Félix (Amor à Vida). Os vilões pareciam ser personagens mais repletos de humanidade do que os ditos "mocinhos" da ficção, o que me dava uma irritação garantida, ao contrário das gargalhadas garantidas com as estripulias das maldades e trapalhadas dos que remavam contra a maré...

A Rede Globo de Televisão conseguiu revelar autores de telenovelas de grande competência e que fizeram do gênero uma verdadeira obra de arte. Silvio de Abreu, Janete Clair, Aguinaldo Silva, João Emanuel Carneiro, Licia Manzo e Gilberto Braga são alguns destes mestres que abordaram temáticas que, em alguns momentos, levaram o povo brasileiro a rever seus conceitos e parâmetros em relação a uma série de mitos que envolvem nossas relações. Afinal, a novela consegue ter o poder de discutir tabus que nem o cinema, nem a literatura, nem a filosofia, por exemplo, conseguiriam discutir com a mesma rapidez com mais de 200 milhões de brasileiros que estão com a televisão ligada às 21h30min!


Babilônia, novela da autoria de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, estreou em março de 2015 e tem tudo para já pertencer a uma galeria de clássicos do gênero: cenas fortes, um texto provocador e temas incendiários - hipocrisia, corrupção, prostituição, assassinato, ninfomania, adultério, estelionato e outros vícios que corrompem a alma do brasileiro... No entanto, escândalos foram criados em torno de uma das cenas mais leves e singelas da trama: o momento no qual as personagens de Fernanda Montenegro (Teresa Petrucelli) e Nathalia Timberg (Estela Marcondes), duas SENHORAS DE IDADE trocam um beijo apaixonado. A bancada evangélica no Congresso Federal, aliada aos seus rebanhos contidos nos templos espalhados pelo país, começou uma campanha ostensivamente agressiva de boicote contra a novela nas redes sociais e na Capital Federal.

Este episódio revela algumas questões bem interessantes: 1) Realmente, muitos políticos brasileiros encontram-se em um nível de pobreza intelectual, moral e ética tão grande para se preocuparem com uma novela da Rede Globo diante de tantos problemas GRAVES que existem no Brasil hoje; 2) Os eleitores (e fiéis e gaiatos inocentes) que compram a briga da ala mais conservadora do Congresso Federal desde 1964 refletem o quanto que precisam se informar a respeito de pautas tão antidemocráticas como esta, que colocam a democracia de nosso país em sério risco; 3) Um beijo pode ser algo definitivamente revolucionário, visto que incomoda tanta gente...

Mateus Solano & Thiago Fragoso protagonizaram o primeiro beijo entre dois homens que a TV brasileira levou ao ar.



Em contrapartida à onda reacionária que atirou atrizes do porte de Fernanda e Nathália na fogueira sem a menor piedade e respeito, surgiu um contra-ataque de setores mais esclarecidos (na qual este humilde Blog se inclui) da sociedade brasileira em apoio à classe artística e à Babilônia. Gostaríamos de deixar claro apenas que não há a intenção de aniquilar a chamada "família tradicional" e sim de dar oportunidades para que outras modalidades de família possam ser legitimadas ao levarmos em conta uma série de direitos e deveres pelos quais todos possuímos. Novela é coisa de família, sim: da família que possui um pai é uma mãe, a que possui dois pais ou duas mães e por aí vai... Por isso, lutaremos para que possamos ver beijos para todas as pessoas na telinha da TV. Afinal, para cada encostar apaixonado de lábios, há o recuo da fúria dos hipócritas e oportunistas de plantão...


17 de março de 2015

TROVA # 44

UM CARTÃO DE ANIVERSÁRIO PARA ELIS REGINA


Alô, Alô, Elis querida: aqui quem fala é da Terra. Sim, pra variar, AINDA estamos em guerra...

Há muito tempo que eu estava a fim de te escrever. Como você mesma diria, sempre te achei o maior barato, bicho! Creio que desde que criei este Blog, que nasceu no trigésimo aniversário da sua partida deste plano, eu tive aquela vontade quase que escondida de te mandar este cartão de aniversário. Já escrevi um e-mail pro Vinícius de Moraes na ocasião do centenário dele, nada mais justo te escrever umas palavrinhas repletas de amor e carinho para comemorar o septuagésimo dia do seu nascimento, não é verdade?




Não lembro exatamente da data, mas tenho a certeza de que a primeira vez em que eu realmente prestei atenção na sua voz foi quando Tia Marlene, irmã do Vovô, deixou que um de seus LPs fossem passar uns tempos lá em casa há mais de 20 anos atrás - deve ter sido em 1992, quando eu tinha meus 11 anos de idade. Lado A, agulha encaixada na primeira faixa do vinil e você sai cantando "É pau, é pedra, é o fim do caminho..." pelos quatro cantos daquele apartamento de dois quartos na Ilha do Governador e me arrebata no seu "Dois pra lá, Dois pra cá". Que uísque com guaraná porra nenhuma, eu só queria deixar você literalmente deitar e rolar para poder cantar e dar risada com o seu Quaquaraquaquá! Meu amor pela sua voz, sua interpretação, sua garra e sua história de vida foi tão arrebatador que tornou-se uma referência imprescindível para qualquer coisa que eu faço. Afinal, o exercício do viver é nada mais, nada menos do que aprender a jogar, como disse a velha canção.



Podemos dizer que você foi a primeira cantora que anunciou a modernidade da canção com o seu "Arrastão" e os seus braços-hélices que não tinham medo de fazer com que você soasse como uma mistura insólita de Lennie Dale e Ângela Maria diante de milhões de telespectadores. Poucas cantoras conseguem interpretar clássicos da canção brasileira com tanta propriedade como você o fez com "Vida de Bailarina" e "Inútil Paisagem". "Atrás da Porta" se tornou, eu diria, a melhor canção sobre ressentimento e vingança jamais escrita e cantada por alguém graças à sua interpretação irretocável. Dom? Talento? Trabalho árduo? Obsessão pela perfeição? Ou tudo junto?





No decorrer desses 20 e poucos anos que eu me encanto pelo valor inestimável do Brilhante que é o seu canto, passei a ter uma ideia bem clara das duas décadas mais turbulentas da história brasileira recente: a de 1960 e a de 1970. Não creio que alguém cantou as contradições do Brasil com tanta veemência e sinceridade como você o fez. E para isso, tu juntaste gente da pesada para a sua turma: Antônio Carlos Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Fátima Guedes, Renato Teixeira, Guilherme Arantes, Sueli Costa, Ivan Lins & Vitor Martins, João Bosco & Aldir Blanc, dentre tantos outros gênios. Guria, tu não perdeste tempo!!!




Artistas como você não existem iguais pelos seguintes motivos: 1) Porque "cantora" é um termo muito injusto para descrever você, pois você via o ato de cantar como uma espécie de devoção, um sacerdócio para que, através de cada acorde, de cada nota, se fizesse das tripas sentimento; 2) Porque você é tão autêntica, mas tão autêntica que eu tenho dúvidas de que nasça uma mulher neste país que tenha mais personalidade do que a tua! Digo tudo isso utilizando o Presente do Indicativo porque concordo plenamente com o que disse o Nelson Motta sobre você e as "colegas" das novas gerações: "Toda vez que eu ouço uma nova cantora, eu tenho certeza de que Elis Regina canta ainda melhor". Sábio Nelsinho: ele deixa claro para todos que todas as cantoras do Brasil devem pensar mais de mil vezes antes de gravar algo que já tenha recebido a voz de Elis Regina...





Infelizmente tu partiste num rabo de foguete ou talvez em um trem azul para virar a maior de todas as nossas estrelas lá no céu há mais de 30 anos. Não ouviste boa parte da música que se fez nos anos 1980, não assististe a democratização do Brasil, não recebeste o reconhecimento necessário em vida por tudo o que fizeste pela nossa música. Sempre me pergunto o que Elis Regina diria ou estaria pensando nos dias de hoje em meio a tudo que vivemos em nosso país hoje. Talvez você apenas cantasse aqueles versos da "Cartomante": "Nos dias de hoje é bom que se proteja / Ofereça a face pra quem quer que seja / Nos dias de hoje esteja tranquilo/ Haja o que houver pense nos seus filhos // Não ande nos bares, esqueça os amigos / Não pare nas praças, não corra perigo / Não fale do medo que temos da vida / Não ponha o dedo na nossa ferida".








Para celebrar os 70 anos de teu surgimento, minha cara Elis Regina, quero me lembrar da sua risada, das suas opiniões inteligentes e da falta gigantesca que você faz para a Cultura Brasileira! Graças a você, aprendemos que viver é realmente um barato! Por isso, como a nossa esperança é equilibrista, tal qual você detectou através da obra de João e Aldir, é imprescindível que o show de todo o artista tenha que continuar! E se depender de mim, sempre haverá espaço para a sua voz enquanto voz eu tiver...

Com todo o carinho e a admiração do mundo do seu querido

Vinil