1 de novembro de 2015

TROVA # 56

A IRA SELVÁTICA DE KARINA BUHR

FOTO: Daryan Dornelles

Para Ká & Fabinho, com amor!

Sua dúvida é produto da sua escravidão
Mantenha então
Sua sanidade em defesa do seu estômago
Se você pensou que tinha solução

Mantenha então
Sua integridade indefesa
Porque o tempo vai passando
Suas qualidades vão sumindo

E os seus defeitos aparecendo cada vez mais
Cada vez mais
Cadáver
(Karina Buhr – “Cadáver” – sétima faixa de seu
segundo álbum solo, Longe de Onde, de 2011)


            Quando (ou)vi falar pela primeira vez em uma tal de Karina Buhr, pensei que ela era mais uma integrante daquela geração de músicos que fazia parte desta geração dos anos 2010. Em outras palavras, mais uma cantora que posava de cool sem produzir algo em termos musicais que estivesse à altura da pose das capas dos discos e das fotos das reportagens. Ao constatar que meus cunhados/amigos/irmãos Karina & Fabinho já haviam parado na contramão de Miss Buhr a ponto do pequeno rebento deles, Raulzito, achar a moçoila o máximo, cheguei à humilde conclusão de que a novidade tinha pintado em cheio na minha praia e só eu não havia parado para ouvir. Miss Buhr era papo firme, era chapa quente, uma brasa fumegante do tamanho de um vulcão!
            Lembro vagamente da primeiríssima vez em que vi Karina Buhr cantando: foi em uma participação em um show de Marina Lima no SESC Vila Mariana (SP) lá pelos idos quase esquecidos de 2011. Em meio a um cenário cinematográfico de Isay Weinfeld, a safra menos inspirada de Marina e a falta de voz da artista que tomou o país de assalto ao som de “Fullgás”, vi uma bela moça de cabelos cor de fogo surgindo de uma extremidade do palco para cantar ao lado da artista da noite. Da aparição de Karina eu não me esqueci, já da apresentação de Marina como um todo, é melhor deixar pra lá... Tempos depois, ouvi uma regravação de “Tão Fácil” (Marina Lima & Antônio Cícero) que eu achei tão interessante, mas tão interessante que eu decidi ficar de olhos bem abertos e com olhar bem atento e forte nesta baiana criada em Pernambuco e hoje radicada em São Paulo.


            Anos depois, fui conhecer o trabalho de Karina Buhr mais a fundo em seu habitat mais do que natural: o palco! O Centro Cultural São Paulo anunciou um show da artista no qual ela fazia um tributo ao Secos & Molhados para quem quisesse ouvir (não me lembro se foi de graça, ou se foi por um preço hiper camarada). Minha obrigação em estar lá era tripla: 1) Era um tributo ao Secos & Molhados, a banda do meu coração e meu objeto de pesquisa e de estudo por tantos e tantos anos; 2) A homenagem contrariava qualquer clichê em torno das mensagens oportunistas, óbvias e surradas que já fizeram ao grupo que revelou Ney Matogrosso para o Brasil e o mundo; 3) Era a oportunidade definitiva para conhecer o trabalho de uma artista nova, inquietante e a deixa perfeita para ir em busca de novos horizontes musicais.

Karina Buhr canta Secos & Molhados: um belo tributo

              Fiquei encantado com o resultado do que assisti no CCSP: Karina Buhr não apenas releu o repertório do primeiro disco do Secos & Molhados com muitíssima reverência e respeito, como também permitiu que seus músicos imprimissem suas personalidades em um trabalho tão marcante – o trompete de Guizado chega a ser tão marcante quanto a flauta de Sérgio Rosadas, músico que tocou nos dois primeiros álbuns do grupo. Além disso, a postura de palco de Karina, acalentada por anos e anos de trabalho com bandas de Recife (Eddie e Comadre Fulozinha) e como atriz do Grupo Oficina (idealizado e mantido pelo controverso e revolucionário diretor teatral José Celso Martinez Corrêa), é simplesmente arrebatadora: ela conseguiu ser não apenas uma seguidora do caminho aberto por Ney Matogrosso anos antes, como fez uma belíssima homenagem a um dos artistas mais importantes da música brasileira sem descaradamente imitá-lo. O encore do espetáculo contou com algumas belas canções do repertório de Miss Buhr: “Cara Palavra” e “Nassíria & Najaf” foram apresentados em meio a uma sinfonia ensurdecedora de cacófatos, gritos e distorções típicas de um show de Punk ambientado no velho e saudoso CBGB’s. E o melhor de tudo estava reservado para o final, quando a artista resolve envolver o seu pescoço em um fio de microfone, resultando em um dos atos performáticos mais insanamente loucos que eu já presenciara em vida.

Miss Buhr e o microfone




Após o show, ativei o modo pesquisador que ainda existe dentro de mim e decidi sair em busca das gravações de Karina Buhr. Redescobri a tal gravação no tributo feito à Marina Lima e me encantei com Eu Menti pra Você (2010), seu primeiro disco. A capa do CD, revelando uma mulher com as mãos na testa com uma expressão de leve sarcasmo, sem traços de paixão, quebra com todo e qualquer horizonte de expectativas de qualquer ouvinte de MPB: ouvir logo de cara que a bela cantora é uma pessoa que mentiu despudoradamente para ti ou o clamor de uma canção de ninar que ordena que você durma antes de que você morra bombardeado por mísseis não são coisas lá muito simples de se dizerem por uma artista novata. Ao contrário, são coisas que surgem para quebrar as pernas de qualquer um que esperasse modéstia, delicadeza e simplicidade de um debut álbum de uma artista feminina: Karina estava lá para romper com aquela lógica, para nossa euforia.

Eu Menti pra Você (2010)

A poética de Karina Buhr é longe de ser alegre ou solar, tal qual alguns de seus colegas de geração. “Mira Ira”, oitava faixa do álbum, revela uma relação sentimental torta e ameaçada pelo que existe de mais primitivo e autêntico de nossos “pecados capitais”, a ira corrosiva que tem o poder de aniquilar o mais puro e belo dos sentimentos:


Tá tudo padronizado
no nosso coração
nosso jeito de amar pelo jeito
não é nosso não

Tá tudo padronizado

Me mira a ira
me mira mas me erra
mas minha mira me era confusa
mudando meu amor de endereço

Fria, não miro a ira
não miro mas te acerto no peito
quando mudo meu amor de endereço

Me mira a ira
me mira mas me erra no escuro
sentindo teu amor profundamente

Foto: Ana Tatsumi

            Outro momento delicioso de Eu Menti pra Você é justamente a faixa que encerra o disco: a lânguida “Plástico Bolha”, uma ode ao ócio, à liberdade e à preguiça em tempos de capitalismo insanamente selvagem e doentio, é uma das melhores gravações de Karina Buhr:


Hoje eu não tô afim de corre corre, confusão
Eu quero passar a tarde estourando plástico bolha
Mas você reagiu mal
Porque você não esperava
Mas eu te esperei e a gente se desesperou
Hoje eu não tô afim de corre corre, confusão
Eu quero passar a tarde estourando plástico bolha
Bolinha de fumaça, plástico bolha

Longe de Onde (2011)

            Consegui ouvir o segundo álbum de Karina Buhr, o incendiário Longe de Onde (2011), há pouquíssimo tempo, graças aos milagrosos serviços de streaming, que divulgam o que há de melhor em termos de música graças ao simples toque um smart phone. Fiquei literalmente impressionado com a ferocidade e alguns (leves) surtos de delicadeza que vinham dos versos e sons daquele disco. O sucessor de Eu Menti pra Você deixava mais do que claro que a mocinha estava longe de ser uma diva ou uma darling carente de carinho ou de um macho protetor – ao contrário, tornou-se mais do que evidente que Miss Buhr era uma mulher muito da perigosa e que ainda faria mais barulho por aí:


Cada fala
Cada palavra cala
E ganha um signovosignificado para mim
Desperta dor
Apaga dor
Vai embora
Fica
Meu amor
 

Foto: Ana Tatsumi

            Outras canções do disco como “Pra Ser Romântica” e “Amor Brando” são retratos de relações amorosas distantes da perfeição, descritas a partir de um destemido deboche. As interpretações de Karina Buhr são repletas de sentimento, porém com a clara noção de que a realidade amorosa não se faz da materialidade forjada pelo que vemos nas telas da TV ou do cinema:


Hoje eu dei
Pra ser romântica
Perto de você não me vejo só
De você quero distância
Bem pequenininha

Nem ia imaginar
O sol, você como está
Nesse dia, esse viaduto lindo
Como calendário de verão
Do mês que a gente está
Na cidade que continua linda
Continua linda
Que continua linda
Continua linda


Eu já sinto um calor de amor
Quando você chega aqui
Tava tudo tão facinho, no rasinho
E eu sem me dar conta
Assim fui indo
Agora sinto um calor de amor
Quando você chega aqui
E eu te peço que
Se aproxime de mim um pouco
Mas não tanto
A ponto de eu sentir sua falta
Quando você for embora

            E eis que Karina Buhr me conquista de vez com o seu terceiro álbum. Selvática foi lançado no final de setembro de 2015 diante de uma polemica insana e ridícula diante da imagem da capa do disco, que mostra a artista sem camisa e com os seios à mostra. Independentemente de qualquer tipo de controvérsia que a imagem pudesse gerar, decidi que não haveria oportunidade mais perfeita de me apaixonar de vez pela cantora de cabelos de fogo quando fui para a noite de estreia da turnê no SESC Pompeia com a típica ansiedade que antecederia um show de Paul McCartney ou dos Rolling Stones, no início de outubro de 2015. Em um final de semana no qual Sampa estava repleta de atrações musicais imperdíveis (Ney Matogrosso, Elza Soares e Edson Cordeiro estavam fazendo seus shows no pedaço durante o mesmíssimo período) e diante da impossibilidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo, foi uma tarefa árdua ir em apenas uma única apresentação das duas que Karina fez para lançar o CD.

Flyer de divulgação dos shows da abertura da turnê Selvática

Meu choque inicial já se deu quando descobri que a banda que acompanharia Karina naquela noite era composta de dois guitarristas consagrados e pelos quais tenho profunda admiração: Fernando Catatau (que eu já conhecia de trabalhos com estrelas de primeira grandeza de nossa música como Vanessa da Mata) e o mestre Edgard Scandurra (que já tocou pelo Brasil afora com o Ira e possui uma longa parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes). O segundo impacto – ainda mais profundo – se deu quando vi que Scandurra ia dar seu expediente a menos de 1m de distância deste que vos escreve estas linhas tortas e irregulares. E o que dizer de Karina herself? Creio que ela é a presença de palco mais impactante que já vi desde que assisti Ney Matogrosso cantar em um palco pela primeiríssima vez.




O palco de Karina Buhr é um espaço plenamente dionisíaco: ela encarna todas as perversões e deboches que estão contidos em seus versos sem se importar com modas ou tendências, o que lhe rendeu um público devoto e profundamente respeitoso. Ela não tem o menor medo de soar insípida ou inodora como qualquer Pop Star. Não tem a ambição de se parecer com as Primas Donnas clássicas da MPB que acreditam que o stage floor é um chão sagrado, tal qual o de uma cantora de ópera. O local musical de Miss Buhr pertence à ordem do profano, por isso, infinitamente imprevisível e perigoso.

É um fuzil? Não, é apenas o pedestal do microfone...


Por isso, cada apresentação ao vivo de Karina Buhr é uma oportunidade e tanto para que possamos afirmar o nosso gesto de contrariedade a uma série interminável de medidas conservadoras e retrógadas adotadas pelo Congresso Nacional (restrição de direitos das mulheres, de homossexuais, dentre outros absurdos). “Selvática”, a canção que dá nome ao terceiro álbum da artista, é uma tentativa de reescrever a história feminina a partir de uma releitura do livro do Gênesis, da Bíblia Sagrada:


Refaço! Rechaço!
Não lhe devemos nada
não nos verás na escuridão como capacho
nos temporais amargos
dias penumbrosos anoitecidas
Não moveras do corpo um pelo
a tempestade é vencida

Selváticas, por amor ensandecidas.
Não as tocarão manadas apedrejantes.
Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas
cavalgam amazonas delirantes.
Guerreira que bebe sangue
arco e flecha do Daomé
viço do bicho, ebó de mangue
jurema da favela
óleo de palma pra ela
alma na planta do axé

O eclipse perdurará
acharás palha no agulheiro e transmutarás
Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás
com o cipó da própria raiz segura
costura de árvores nas alturas
não espirrarás tua violência amanhecida
tantas vezes na aprovação da multidão
tua sanha virará só coração
sem arranhão, nem ferida
Choro trufado, pedregoso
umedece o olho arranhando
refinando a vista embargada
guerrilheira curda vitoriosa
nas curvas das serras teimosas
Mulheres, conforme a espécie na guerra
esbravejam a dor da Terra em uivos
lhes crescem pupilas ruivas
uvas bacantes semeadas
oliveiras palestinas suculentas
avisam: já não há quem possa

Chifres de marfim nascem devagar
a empurrar entremeando os cabelos
Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes
estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs
Vãs as imagens delas
conforme a sua semelhança
bailarão lança e festança
extirparão o sumo da memória criminosa
refarão a história e a prosa
de tuas eternas inquisições de fogueiras
em beiras de abismos baderneiras flamejantes
ciganas a postos abafarão os berreiros constantes
em fogosas rosas gigantes
filhos meus, os seus e os nossos

Selváticas, elas não necessitam seu elogio
Ela transgride sua orientação

Refeito o começo bíblico
não ferirás nenhum corpo por ser feminino
com faca, ou murro, ou graveto
eu te prometo
sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto
Super heróis de tuas vítimas estancadas
agora és delas a espada e não o algoz

Selvática, ela come a selva de fora
ela vem da selva de dentro!
Selvática, ela pare a própria hora
ela bale em pensamento!
E no final ideal não terás domínio
algum sobre mulher alguma!
No final ideal não terás domínio
sobre mulher alguma!

Quatro momentos de "Selvática" por Vinil


Saí do SESC Pompeia tão acachapado com a bravura, a ousadia e a despretensão artística de Karina Buhr – algo que, repito, não se vê na maioria das grandes cantoras deste país – e me tornei um fã confesso desta baiana arretada a partir daquela noite. Aproveitei a oportunidade para finalmente adquirir os CDs de Miss Buhr e parar de vez na contramão da mocinha que alega que é má pelo fato de ter mentido para mim, para você e mais uma pá de gente que ouve os discos dela. Meu coração musical se tornou mais dionisíaco graças a ira selvática tão necessária que, por fim, me mirou e me acertou em cheio...

Algumas linhas sobre Selvática escritas pelo autor deste Blog para o Pequenos Clássicos Perdidos. Acesse o link:

Site oficial de Karina Buhr:
http://www.karinabuhr.com.br

27 de setembro de 2015

TROVA # 55


UM BELO ENCONTRO FAMILIAR
 
Pepeu Gomes & Baby do Brasil:
o reencontro musical de um dos casais mais importantes da música brasileira

"Eu queria tanto
Voar com você 
Eu queria tanto, tanto, tanto 
Encontrar você, Prá fazer um auê com você

Cai, cai aqui na  minha mão
Eu não vou deixar cair, não
Homem asa, meu balão 

Você voa no céu feito gaivota
Você  é um passarinho
Cê mergulha no céu prá Terra o seu ninho
E realizou o antigo desejo do homem voar 
Com a sabedoria dos pássaros
Você é o dono do mundo

Eu bem queria estar aí com você
Mas me contento em vibrar
E te espero rezando [orando] ansiosa
Por uma descida tranquila, vitoriosa
E depois me encontrar com você e fazer um auê"  
(Baby Consuelo / Baby do Brasil – “Um Auê com Você” –
quinta faixa de seu disco Canceriana Telúrica, de 1981 / 
sétima faixa do CD/DVD A Menina Ainda Dança (Baby Sucessos), de 2015)


A minha chegada aos 30 anos de idade me fez um sujeito bem mais crítico do que o habitual. Na véspera de completar 35, confesso que a minha rabugice pode atingir níveis que podem enfurecer os integrantes do "coro dos contentes" ou da "banda dos contentes" (para pegar emprestado dois termos utilizados por Torquato Neto e Erasmo Carlos) no que diz respeito ao gosto musical da massa ou em relação ao que está "na moda".  Acho preferível não citar mais nomes do que os que já citei nas minhas redes sociais de forma que este espaço esteja preservado do ódio e da discórdia alheia. No entanto, tem um evento que eu não posso deixar de citar, pois ele é a origem das nossas reflexões e afetividades presentes neste texto: a quinta edição do festival Rock in Rio, que completou 30 anos em 2015 e aconteceu entre os dias 18 e 27 de setembro.


Não me lembro de absolutamente nada do primeiro festival, que fez jus ao nome. Eu tinha 4 anos de idade quando ocorreu a primeira edição e 10 na época da segunda. Fui à terceira edição, em 2001, mas acho este assunto indigno de citar por aqui. Meu pai me contava que os shows do Queen, de James Taylor e de Rod Stewart em 1985 foram eventos memoráveis e inesquecíveis. Sei que George Michael e os Guns 'n' Roses passaram por aqui em 1991. Tudo o que sei foi o que eu vi nas inúmeras reprises de reportagens da Globo e afiliadas, ou seja, minha memória e a minha vivência correspondem exatamente ao que a televisão me contou. No entanto, o que os reclames do plim-plim não me contaram tão bem assim foi a respeito da importância de algumas atrações nacionais que fizeram do Rock in Rio um evento histórico: não me refiro às bandas do chamado BRock, mas aos artistas que fizeram com que ele surgisse e acontecesse com toda a sua plenitude: Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Rita Lee e o ex-casal Baby do Brasil (na época, Baby Consuelo) e Pepeu Gomes.


O que exatamente não me contaram? Que estes artistas não só quebraram as barreiras que separavam o Rock da velha e tradicional MPB, como também foram mais autênticos do que algumas das bandas que "fizeram história" na nossa versão de Woodstock de décadas atrás. Com a exceção de Rita Lee, que se recusa a retornar aos palcos (não apenas ao Rock in Rio, como também não se interessa mais em fazer turnês até o presente momento), todos os artistas que citei voltaram para a Cidade do Rock para um revival. O encontro mais esperado para muitos foi o de Baby e Pepeu, que não trabalhavam mais juntos há algum tempo. Em uma onda de tributos forçados (e desnecessários, por que não dizer?) de bandas jurássicas, a retomada da dupla Baby do Brasil e Pepeu Gomes soou como uma novidade interessante e (até) inesperada para muitos: infelizmente não tenho ouvido muito do lendário guitarrista por aí; já em relação a ela, soube que ela retornou triunfalmente ao universo da canção popular em uma turnê revivendo seus grandes sucessos depois de anos de pregação evangélica intensa e fervorosa. O responsável pela reunião destes dois gênios foi o guitarrista e cantor Pedro Baby, quarto filho deles, que já acompanhou artistas lendários de nossa música como Gal Costa e Marisa Monte pelos palcos do país e do mundo.


Em 1985, Baby e Pepeu soavam como ousados, despojados e bizarros demais para aqueles tempos com indistinções de gênero, culto ao corpo (quem não lembra de Baby Consuelo lindamente grávida no palco, esbanjando liberdade tal qual uma Leila Diniz em Ipanema?), aqueles cabelos coloridos e aquela postura de "não estou nem aí" quando ela cantava "Barrados na Disneylândia", no qual ela relatou um caso verídico hilário na terra de Uncle Sam. O Brasil ainda estava saindo das amarras de pouco mais de 20 anos de Ditadura Militar: o casal egresso dos Novos Baianos vendia discos enlouquecidamente e era sinônimo de sucesso no dial das rádios nacionais. No entanto, tenho a ligeira e infeliz sensação de que a história do Rock in Rio é contada apenas a partir dos feitos das bandas do chamado "Rock Brasileiro": porque Paula Toller (de quem eu até gostava) é comportadinha demais, porque a rebeldia do Cazuza à frente do Barão Vermelho é até aceitável, porque o som dos Paralamas é cool o suficiente para animar as festinhas e bailinhos e porque a Blitz se encaixava muito melhor no chamado "Padrão Globo de Qualidade" do que o casal Baby-Pepeu suas cabeleiras tingidas e seu papo interessante de masculino-feminino cósmico como a toda natureza...




Fiquei animado quando soube que o ex-casal (eles se separaram no final da década de 1980, com um saldo de seis filhos, várias parcerias musicais lindíssimas e um legado irrepetível) iria se reunir no palco, reeditando a parceria de outros tempos no Palco Sunset, menor e dedicado às estrelas menos "badaladas" (?!) e aos chamados “encontros musicais”. Em meio a uma série de parcerias forçadas e angariadas graças a uma série de jogadas de marketing (sem citar nomes, pois as inimizades são semeadas muito mais facilmente do que as amizades, repito!), o reencontro da popstora Baby do Brasil e com o lendário guitarrista Pepeu Gomes foi natural, autêntico e soou como se eles nunca tivessem deixado de fazer um som juntos. Pedro Baby foi mais do que um diretor musical e agiu como um discípulo de um legado musical com respeito e a reverência de um guitar hero.
 
Pai & Filho tomados por uma emoção indescritível
Baby: uma "popstora" de cabelo lilás...

A estrutura do show apresentado por Baby e Pepeu na quinta edição do Rock in Rio foi uma versão compacta (porém não menos tocante) do tocante show Baby Sucessos, que foi a ressureição musical de uma das cantoras mais importantes e talentosas que o Brasil (e o planeta) já viu em atividade. Como o espetáculo – que saiu em CD e DVD no início deste ano com a graça de todas as divindades envolvidas (Aleluia, Senhor!) – tratava-se de uma homenagem ao homem que foi o parceiro musical de várias das canções daquele setlist, não houve nenhum favorecimento de nenhuma das partes. Senti uma lágrima fugindo de meu olho quando o cantor de "Masculino e Feminino" foi conduzido ao Sunset antes do terceiro número da apresentação do Rock in Rio, ovacionado pelos presentes e chorando de emoção pelo reconhecimento mais do que merecido. E ele foi tão grato, mas tão grato a todo o amor que recebeu e emendou com o explosivo riff de "Tinindo Trincando", uma das melhores canções dos Novos Baianos, grupo que revelou o casal para os quatro cantos do Brasil.

Pepeu: uma das maiores lendas da guitarra do mundo...
Em um evento no qual artistas (inter)nacionais não possuem a mesma envergadura de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, ver os dois em um palco menor em plena luz do dia, sem efeitos de iluminação e tudo o mais foi, de certa maneira, um enorme desperdício. A emoção, os scats ma-ta-do-res de Baby, os duelos de guitarra entre pai e filho, os metais em fúria absoluta, o baixo eficientíssimo de Betão Aguiar e a percussão excelente marcada por dois percussionistas e um baterista da pesada fariam um estrondo incalculável naquele palco principal gigantesco. "Seus Olhos", "Telúrica", "Tinindo Trincando", "A Menina Dança" e "Todo Dia era Dia de Índio" foram sucessos que não apenas levantaram o público ao ponto de eles se sentirem tão empolgados como se estivessem em um show de Ivete Sangalo, como não deviam em absolutamente nada ao que se apresentou no outro local de apresentações. De qualquer maneira, foi um evento inesquecível, memorável, antológico e marcou meu dia de telespectador de tal maneira que não vou me esquecer tão cedo.
Uma foto minha tirada da TV, com muito amor...



Além disto tudo, é importante deixar claro que um festival que se diz de Rock quer fazer história na base do capitalismo mais deslavado e deselegante – patrocínio do Itaú, amostras de lama do local da primeira edição vendidas a quase R$ 200, dentre outras explorações das quais preferimos não saber, funcionários dormindo no chão e em colchões improvisados de papelão enquanto certas estrelas da música bebem do champagne mais caro do planeta –, lendas do Pop e do Rock nacionais capitaneando fazer tributos manjados (Sorry, Cássia Eller: te amo de montão, mas te ver como musa caça-níquel é algo que me dói um bocado...) e cantando os sucessos mais óbvios, artistas internacionais que retornam ao Brasil pela segunda, terceira vez (ok, eu gostei de ver o Sir Elton John, respeito bastante os caras do System of a Down e me emocionei ao ver o Rod Stewart em um palco brasileiro depois de 20 anos) serem infinitamente mais valorizados do que alguns artistas nacionais, presenciar aquele público da Cidade do Rock pedir a saída de uma Presidente eleita democraticamente foi extremamente decepcionante. Por outro lado, ver Baby do Brasil rodando seu tutu de bailarina roxo da cor de seus cabelos loucamente ao lado de um Pepeu Gomes elegante vestido com chapéu e óculos com a classe de um Deus da Guitarra (me lembrei daqueles chapéus lindos do Hendrix quando o vi entrar no palco) por pouco mais de uma hora pela TV foi um momento renovador para mim. Ou pegando as palavras emprestadas de Baby mais uma vez, em uma canção que ela gravou no ano em que eu nasci, foi um auê para mim: consegui voar através daqueles versos e sons com a sabedoria dos pássaros que se encantam livres com a beleza do que se ouve e vê em um belo encontro familiar. Só posso agradecer a Baby, Pepeu e família com este humilde texto, já que não posso enviar o beijo e o abraço para cada um deles...



22 de agosto de 2015

TROVA # 54

O REINO SAGRADO DE MARIA BETHÂNIA


Há canções e há momentos
Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar
Ela vai ao infinito
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na plateia e na voz
(“Canções & Momentos”, de Milton Nascimento,
composta especialmente para a voz de Maria Bethânia)


Quando Deus e os orixás pensaram nas constelações de estrelas cantantes que iriam arrebatar os palcos do Brasil, eles devem ter tido um trabalho gigantesco para elaborar uma Estrela (sim, com "e" maiúsculo!) do quilate da moça que assina como Maria Bethânia Viana Telles Velloso - para nós apenas Maria Bethânia, para outros Berré, para alguns Mary Beth, para quase todos: Diva! Eu precisei de mais de dois anos de atividades como blogueiro semi-profissional (uma palavra mais gentil para qualificar o meu amadorismo) para poder anotar algumas coisinhas sobre esta Senhora. Não porque palavras me faltam, pois já escrevi sobre Ela em outras ocasiões, mas principalmente porque me faltava a devida vontade e ânimo para escrever sobre uma das cantorias mais admiradas deste país.


Minha relação com a arte de Maria Bethânia começou, por mero acaso, quando ainda era um jovem rapaz que vivia no apartamento de dois quartos dos meus país na Ilha do Governador. Devia ter uns 13 ou 14 anos quando descobri na estante que pertencia ao Sr. Orlando e D. Elizabeth uma versão em LP de Mel, álbum que deu a irmã de Caetano Veloso o apelido de Abelha Rainha graças à popularidade da caribenha faixa-título, assinada por Caetano e Waly Salomão: "Ó abelha rainha / Faz de mim / Um instrumento de teu prazer / Sim, e de tua glória, de tua glória...". Na capa do disco, uma dedicatória de meus tios paternos Silvio e Dagmar aos meus pais datada de 1979, ano em que meus pais decidiram oficializar sua caminhada de tantos anos juntos um do outro. Ao descobrir aquele vinil, colocar aquela agulha para riscar os sulcos pretos e ouvir a voz de Bethânia saudar as soberanas dos apiários ao som de um slide de guitarra caribenha, descobri inconscientemente uma maneira de me reconectar com fatos da minha história que se deram antes de eu nascer.


Por outro lado, pouco depois que descobri aquele LP na casa dos meus pais, outro vinil de Maria Bethânia chegava na casa da irmã do Sr. Orlando. Só que este iria atingir minha sensibilidade de tal maneira que eu nunca mais iria me recuperar daquele impacto. Era o final de 1993 e Bethânia estava lançando um dos trabalhos mais importantes de sua carreira: As Canções que Você Fez Pra Mim, totalmente baseado em canções escritas por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. O tratamento classe A que ela deu às canções de Roberto e Erasmo, ao lado de suas interpretações apaixonadas do cancioneiro do Rei não poderia ter resultado em outra coisa a não ser sucesso. Naquela época, ainda poderíamos ouvir trechos de "Fera Ferida" na abertura de uma novela da Globo, de mesmo nome. Enfim, era o auge de uma artista da MPB que vendia milhares de cópias de seus discos em tempos nos quais música sertaneja de péssimo gosto era o que dava o tom nas rádios da época, por exemplo. A partir daquele acontecimento, decidi ficar de olhos bem abertos para os passos musicais que a irmã de Caetano Veloso estava dando desde então.


Mel abriu as portas para a descoberta dos discos antológicos que Bethânia gravou nos anos 1970. Aqueles clássicos foram uma enorme revelação musical para mim: aqueles arranjos requintados e primorosos (capitaneados, em grande parte, por Perinho Albuquerque, produtor dos baianos) revelavam uma cantora que não possuía uma técnica de canto tão profissional (tenho um problema meio sério com as respirações de Mary Beth em vários daqueles discos), mas apontavam uma artista que exercia o seu ofício com a paixão e a intensidade pouco vista em muitas colegas de MPB. Rosa dos Ventos: um show encantado (1971), apesar de ser um disco que não chega a reproduzir a metade do impacto das canções do espetáculo, redefiniu os conceitos da relação da cantora com o showbiz ao misturar poesia e música no palco através de intensa dramaticidade. A tua presença... (1970), Drama: Anjo Exterminado (1972), Pássaro Proibido (1976), Pássaro da Manhã (1977) e o indefectível Álibi (1978) foram os discos de estúdio que fizeram de Maria Bethânia uma das mulheres que mais venderam discos neste país. Os álbuns ao vivo Drama, 3.° Ato: Luz da Noite (1973) e A Cena Muda (1974) são retratos sonoros belíssimos da fúria passional que tomava conta da irmã mais nova de Caetano Veloso quando ela subia no palco. A parceria da artista com Chico Buarque em uma mítica temporada no Rio de Janeiro e a sua participação no grupo Os Doces Bárbaros, somadas à sua extensa discografia - concebida desde a década de 1960 - lhe renderam uma legião considerável de fãs ardorosos, enquanto sua fama de geniosa, temperamental e indomável reproduzia em vida a postura intensa que se via no palco.


Confesso publicamente que pertenci a esta legião de fãs devotos de Maria Bethânia por algum tempo, por sempre achar que ela fosse o tipo de artista que melhor traduzia minhas paixões, meus sentimentos e minha maneira de ver o mundo. Fiz alguns amigos bem queridos graças ao "elo bethânico" que nos reunia e arranjei brigas das mais variadas e surreais pela Internet afora no embate Elis X Bethânia (uma atualização da guerra Emilinha X Marlene para os anos mais recentes). No entanto, quando comecei a ler nas entrelinhas que havia uma diferença entre a pessoa e a artista - algo natural em qualquer um que se aventura pelos palcos do planeta -, meu endeusamento por Mary Beth se tornou limitado a quase zero.


Havia (e ainda há) uma série de coisas que me incomoda(va) em relação às escolhas artísticas de Maria Bethânia: 1) Seus espetáculos, perfeitamente adequados para teatros, sempre são realizados em casas de shows no eixo RJ-SP por preços astronômicos e que não valem a qualidade do que se vê: não digo isso porque os eventos de Bethânia são ruins, mas não dá pra dizer que um show no qual você tenta ouvir um texto de Pessoa ou Lispector com um garçom passando na sua frente ou com pessoas tilintando copos e garrafas de cerveja na mesa do lado foi um acontecimento maravilhoso (a artista deveria se preocupar com a qualidade do espetáculo que é visto pelos seus fãs ao escolher o seu local de trabalho!); 2) A falta de renovação de repertório em seus shows é algo que cansa os desejosos por novidades: ouvir "Explode Coração", "Negue", "O que é, o que é?" ou "Pedrinha de Aruanda" com os mesmos arranjos é algo que já me cansou há algum tempo; 3) Sua postura levemente arrogante, enquanto artista, é outra coisa que me irrita profundamente: sua (quase) obsessão que é cantora e não intérprete, colocando a segunda categoria como algo mais importante do que a primeira é descaradamente pretensioso. Os "pitis" (chiliques, ataques de pelanca, barracos, rebus) ocorridos em entrevistas e shows são até cômicos para nós, os "Senhores" que assistem os seus espetáculos, mas não devem ser nem um pouco engraçados para quem faz parte da Entourage da Diva. Isso sem mencionar em detalhes as patadas públicas dirigidas à Gal Costa, algumas dignas de vergonha alheia.



2015 marca o quinquagésimo aniversário de um dos acontecimentos culturais mais importantes do século XX no Brasil: a substituição de Nara Leão por Maria Bethânia no elenco do musical engajado Opinião, no qual a cena era dividida com João do Vale e Zé Kéti. Na ocasião da passagem por Sampa de um show comemorativo de 50 anos deste fato, Abraçar e Agradecer, decidi que aquele era o momento certo para refazer minhas pazes com Mary Beth e fui vê-la no palco depois de quase dez anos. Sua beleza, sua intensidade e seu talento continuam irretocáveis com o passar do tempo. As "manias" foram perdoadas por mim diante de um show tão belo. A admiração pela artista continua e continuará até onde eu deixar de me entender como um ser humano. No entanto, compreendi que não existe artista que domine tão bem a potencialidade cênica de um show de música brasileira como Bethânia. O palco é o local onde ela pousa soberana, seu reino musical sagrado, seu espaço pleno da apoteose de seu dom.




O reino de Maria Bethânia é tão intrigante quanto o de Hamlet: apesar de sabermos que há algo destoante da beleza que existe por detrás, não podemos dizer que ele é belo e deixa de nos encantar. Que ela, ao contrário do herói trágico de William Shakespeare, consiga nos encantar por muitos anos, trazendo o que existe de melhor em sua profissão.