17 de novembro de 2015

TROVA # 58

O CÉU DOS MEUS SONS
(algumas palavrinhas sobre nossas experiências musicais: do LP ao streaming)



Para Márcia Rodrigues de Souza,
uma leitora devota e apaixonada da Arte da Crônica 
Para Neil Young,
com todo o meu carinho, pelos seus 70 anos de vida

"O caminho do céu 
No caminho do som 
O caminho do céu é 
No caminho do som 
O caminho do céu 
No caminho do som
O caminho do céu é 
No caminho do som 

(Me ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor) 
Voar, voar 
(Me ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor) 
Há uma alma na asa no ar 
(Me ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor) 
Cantar, cantar 
(Me ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor) 
Há uma asa na alma no ar 
(Me ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor) 

(Quem foi que disse que a mulher não voa?) 
(Quem foi que disse que a mulher não voa?) 
 Me ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor 
Me ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor 
Me ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor 

O caminho do céu 
No caminho do som 
O caminho do céu é 
No caminho do som 

(Quem foi que disse que a mulher não voa?) 
(Quem foi que disse que a mulher não voa?) 
Voar, voar 
Há uma alma na asa no ar 
Cantar, cantar 
Há uma asa na alma no ar
Me ensina a cantar, amor

O caminho do céu, o caminho do céu 
No caminho do som, no caminho do som 
O caminho do céu é 
No caminho do som"
(Péricles Cavalcanti - "O Céu & O Som" - 
canção gravada por Gal Costa em seu álbum Cantar, de 1974)


É muito comum dizer que nossas memórias são musicais. Posso precisar cada momento da minha vida com o disco que eu ouvia na época, relacionar com o aparelho de som que estava disponível para os meus ouvidos naquele tempo e por aí vai. Minha relação com versos e sons sempre foi intensificada pelas mais diversas formas de acesso à música: comecei a amar a música loucamente através de uma velha fita cassete gravada da saudosa Rádio Cidade do Rio de Janeiro que reproduzia os acordes de "Sweet Child O'Mine"; passei rapidamente pelo final da era dos Long Plays na década de 1990 quando ganhei um de presente de aniversário aos 12 anos de idade; enlouqueci de vez aos 13 quando um CD de Rod Stewart virou minha cabeça de tal jeito e me fez o colecionador insano de discos no qual me transformei.


Li um texto de Zélia Duncan certa feita no qual ela descreve suas paixões musicais e ela comentou sobre a importância dos encartes dos vinis e dos CDs para um ouvinte atento de música popular. Como bom curioso que sempre fui, eu sempre me interessei em saber quem eram os autores das canções, os músicos e produtores por trás dos clássicos, os responsáveis por trás dos astros e das estrelas da canção. Além de tudo, não podemos deixar de lado a importância do aspecto visual marcante da capa de um LP: como ignorar Simone seminua vestindo apenas um jeans azul em cima de uma cama com lençóis de cetim branco? Como esquecer do rosto angelical (e um tanto perturbador) de Barry Manilow em roupas brancas com aquele colar de pianista em ouro 24k no quarto de meu finado Tio Jorginho no antigo apartamento dos meus avós em Laranjeiras? Como não nos lembrarmos da garçonete com cara de louca servindo o café da manhã do Supertramp na capa e na contracapa de Breakfast in America? Ou como deixar passar por nossos olhos a imagem sensualíssima de Ney Matogrosso quase nu nadando pelas águas do pantanal mato-grossense? E o que podemos dizer da capa impactante do primeiro disco do Secos & Molhados, que chega a ser praticamente surrealista? Ah, e não podemos nos esquecer de Gal e a sua tanga lendária em Índia ou de Bethânia e o seu antológico arco de conchinhas que coroava a sua cabeça na imagem que ilustra a capa de Pássaro Proibido... 

Ouvir música tornou-se um ritual sagrado para mim: o ato de permitir que os versos e sons de uma fita K7, um LP ou CD adentrassem o ambiente sem pedir licença tal qual a Irene do Manuel Bandeira sempre foi natural para mim. De preferência com um volume bem alto, para que eu pudesse escutar tudo enquanto estivesse fazendo outra coisa - estudando, lavando a louça, fazendo a barba, tomando banho, trabalhando em casa ou qualquer atividade profissional corriqueira. A casa de meu avô Adhemar na Ilha do Governador era um sonho para qualquer amante da boa música e confesso que foi lá onde praticamente aprendi a cultivar este ato. Lá havia um quarto de música onde poderíamos encontrar desde os discos de orquestra de Tommy Dorsey ou clássicos de Al Jolson e Willie Nelson até os discos de MPB e música romântica de minha avó Magaly - leia-se: da fina flor da MPB de Chico Buarque à breguice suprema do romantismo de Julio Iglesias! Como a casa era grande, eles viviam sozinhos e sempre havia os infinitos afazeres do dia-a-dia, era possível escutar o que eles estavam ouvindo da garagem de casa, o que eu achava ótimo, pois era um ambiente oposto à claustrofobia de dois quartos, sala, cozinha e banheiro onde eu vivi por anos e anos... Foi daquela casa que veio a minha primeira lição musical: se você realmente quer ouvir música, não pode ser feito em um volume baixo!


Para que a experiência musical ocorra de uma forma bacana, é preciso ter uma aparelhagem de som potente e que faça com que os acordes possam se propagar pelos cantos da casa como pássaros recém-libertos de gaiolas. Lembro de duas anedotas do universo da música encantadoras e impossíveis de serem ignoradas por aqui: a primeira é do Sr. Antônio Matogrosso Pereira, um militar de altíssima patente da Aeronáutica e pai de Ney Matogrosso, um dos artistas mais controversos e revolucionários da música brasileira. Quando Ney lançou seu primeiro disco e show solo (Água do Céu-Pássaro / Homem de Neanderthal), o fascínio do Sr. Matogrosso pela arte do filho famoso era tamanho que ele não admitia que ninguém ouvisse o LP em volume baixo para que ele se remetesse ao som ensurdecedor que ele tinha ouvido no teatro. 


A outra anedota é de Barbra Streisand, notoriamente conhecida pelo fato de não ouvir música em casa ou em praticamente lugar nenhum a não ser o estúdio de gravação. No início da década de 1970, Babs deixava de ser uma cantora com um repertório baseado exclusivamente em um repertório de musicais graças aos esforços do lendário produtor Richard Perry, que produziu um de seus melhores títulos de toda a sua discografia – Stoney End (1971). Para que houvesse tamanha modernização do som de Streisand, a Diva precisava nada mais, nada menos do que uma aparelhagem de som que tocasse os discos mais influentes da época. Em uma noite remota, Perry recebe uma ligação de Barbra pedindo que ele a ajudasse com a fiação do som estéreo desconectado e que a musa simplesmente não saberia o que fazer... Músicos que apreciam o prazer de ouvir música ainda são de uma enorme diferença no meio musical...


A experiência musical de qualidade pode ser qualquer coisa, menos barata. É cara, requer investimento em LPs, em CDs, em edições especiais dos artistas que a gente mais gosta e admira. Além disto, precisamos daquelas estantes de madeiras elegantes e suntuosas que tenham a capacidade de armazenar os nossos tesouros musicais mais valiosos - sonhar não custa nada, não é verdade? Não existe nada no mundo que me deixa com mais inveja do que alguém que tira uma foto na frente de um belo móvel com coleções e mais coleções de LPs e CDs devidamente enfileirados de acordo com o afeto musical do colecionador. Porém, quando pensamos nas vicissitudes que regem o cotidiano, chegamos à infeliz e nada romântica conclusão de que existe um problema crônico de espaço físico para o colecionador de música: como muitos de nós não somos ricos no sentido de pertencer às elites econômicas do Brasil, sempre estamos às voltas com o dilema do armazenamento. Eu, por exemplo, por ter um horror absoluto de perder meus CDs, cheguei à obsessiva tarefa de fazer backups dos arquivos em MP3 assim que eu comprava o disco na loja e chegava em casa.

VINIL em frente ao aparelho de som da família, em 1991.

Um fato que ainda me surpreende em 2015 é justamente este revival da audição de Long Plays, algo que eu pensei que jamais acontecesse depois do surgimento do Compact Disc, do Napster e do MP3 e dos recentes serviços de streaming! Ironicamente, nunca se ouviram tantos vinis como na primeira década de 2010: pesquisas feitas no primeiro semestre de 2015 apontam que os norte-americanos consumiram mais LPs do que assistiram vídeos no YouTube ou no Vevo, por exemplo. Vitrolas portáteis, antes objetos de máxima expressão do que se entende por vintage, hoje são vendidas por pouco mais de 200 ou 300 reais. Já não podemos dizer a mesma coisa a respeito do preço dos LPs novinhos em folha: alguns chegam a custar cinco vezes mais do que um CD em período de lançamento, o que me deixa à margem de toda essa festança retrô que habita as casas de amigos, conhecidos e desafetos que cultivamos por aí. 120 reais em uma edição de Amy Winehouse em vinil? 100 reais por um LP do Secos & Molhados que eu já tenho em casa?! Não, obrigado! / No, thanks!


Uma das novidades mais interessantes que surgiram na relação entre o público consumidor de música e a arte que ainda se cultiva através de versos e sons, na minha modestíssima opinião, está nos serviços de streaming. Pagar por um serviço pelo qual você pode ter acesso a uma infinidade de títulos (além de raridades!) por um preço relativamente razoável é algo bastante prático e confortável para o pagante. É evidente que ouvir música pelo tablet ou pelo celular não é tão prazeroso quanto estar com o seu aparelho de som ligado; no entanto, a praticidade de podermos escutar o que quisermos a partir do simples toque do dedo na tela do smartphone vale qualquer desvantagem. Além disto, não é mais preciso sair fazendo upload de arquivos de musicas no seu celular de forma insana (além de ser chato, o iTunes oferece tudo, menos praticidade!), não há mais a necessidade de carregarmos uma penca de discos para o carro (a não ser se você tem bebês de colo que só ouvem discos bem específicos e raros) e tem o fator segurança em primeiro lugar: certa feita, levaram vários de nossos CDs mais queridos na triste ocasião de um furto ocorrido dentro do carro de minha mãe, na qual levaram tudo de valor que havia dentro do veículo.


Um dos fatores negativos que o streaming apresenta, na minha concepção, é a falta de vontade do ouvinte de ser um pesquisador nato de música ou, como diríamos vulgarmente, um "rato de livrarias, sebos e (das ainda sobreviventes) lojas de discos". Na medida em que os álbuns se encontram livremente dispostos em cada telefone celular, um pesquisador de música em potencial deixa de surgir no pedaço. Por outro lado, é um serviço muitíssimo mais econômico: onde eu encontraria a versão Deluxe de All Things Must Pass, primeiro (e monumental) álbum do ex-Beatle George Harrison, por menos de 50 reais? E a gravação antológica de "The In Crowd", do Ramsey Lewis Trio, que tocava incessantemente durante o Irrational Man, de Woody Allen? Ou um álbum raríssimo como o belo disco ao vivo que Aretha Franklin gravou em Paris em 1968 sem ter que revirar as lojas virtuais de cabeça para baixo? Ou então a discografia praticamente completa de Nina Simone, que custaria os olhos da cara em qualquer loja decente do ramo?!


Evidentemente, existem pessoas que não veem o streaming como algo realmente benéfico para a sociedade. O U2, por exemplo, alega que vários desses serviços não pagam direitos autorais adequadamente para os músicos. Neil Young, um eterno purista em termos de qualidade de som, proibiu a fina flor de seu catálogo de estar disponível no Spotify, na Apple Music e na Deezer e outros sem antes decretar com um pingo de dó: "streaming has ended for me". Depois do anúncio de Neil, tratei de sair correndo para o celular e redescobrir algumas pérolas daquele baú de pepitas que ele nos deu. Fui (re)ouvir Tonight's The Night e fiquei tão apaixonado por aquele disco que resolvi escrever sobre ele...



A boa música que vem do fone de ouvido, seja do celular, seja das caixas de som sempre tem algo a nos dizer. Ela pode nos levar para um paraíso repleto de versos e sons e nos fazer esquecer da mediocridade infeliz, tacanha e arrasadora que assola o cotidiano de cada um. O século XXI e as suas mais altas tecnologias nos renderam opções que nos permitem exercer a liberdade de ouvirmos o que quisermos sem termos que pensar ou pesquisar muito, o que, nestes tempos de modernidade líquida (pegando emprestado um termo de Zygmunt Bauman), não deixa de ser algo completamente ruim...

Leia mais sobre Tonight's the Night, de Neil Young, no Pequenos Clássicos Perdidos:

8 de novembro de 2015

TROVA # 57

ENTRE LUZES & SOMBRAS
Uma carta-crônica de amor para 
os 72 anos de Joni Mitchell


“Every picture has its shadows
And it has some source of light
Blindness blindness and sight
The perils of benefactors
The blessings of parasites
Blindness blindness and sight
Threatened by all things
Devil of cruelty
Drawn to all things
Devil of delight
Mythical devil of the ever-present laws
Governing blindness blindness and sight

Suntans in reservation dining rooms
Pale miners in their lantern rays
Night night and day
Hostage smile on presidents
Freedom scribbled in the subway
It's like night night and day
Threatened by all things
God of cruelty
Drawn to all things
God of delight
Mythical god of the everlasting laws
Governing day day and night

Critics of all expression
Judges in black and white
Saying it's wrong saying it's right
Compelled by prescribed standards
Or some ideals we fight
For wrong wrong and right
Threatened by all things
Man of cruelty-mark of Cain
Drawn to all things
Man of delight-born again born again
Man of the laws the ever-broken laws
Governing wrong wrong and right
Governing wrong wrong and right
Wrong and right”


(Joni Mitchell - "Shadows and Light" - canção que encerra seu álbum de 1975, The Hissing of Summer Lawns, e dá nome ao seu segundo álbum ao vivo, de 1980.)

Dear Joni,

Mais um 7 de novembro chegou para ti e eu não consegui te escrever com a antecedência que eu gostaria. Tal qual o poema escrito por um poeta brasileiro a Mário Andrade há exatos 70 anos atrás, queria te escrever uma crônica tão bela e digna de suspiros, que te deixaria tão estupefata quanto eu fico ao ouvir a sua música. Porém, há dois problemas bem sérios aí: 1) crônica não deve ser um gênero literário tão benquisto aí pelos lados do hemisfério norte, ainda mais em Português; 2) quisera eu escrever tão bem assim como o Carlos Drummond de Andrade.


2015 tem sido um ano bem difícil para ti e para os que amam o legado de Joni Mitchell. Estávamos felizes em te ver dando entrevistas aqui e ali falando sobre sua música, fazendo fotos históricas para a coleção de Yves Saint-Laurent, quando chegou a notícia de que você fora hospitalizada e estaria inconsciente. Tempos depois, soubemos que se tratava de um aneurisma e de que era bem grave. Passado o susto, fostes reconduzida à merecida paz de seu lar driblando toda a imprensa e os paparazzi, enquanto os fãs rezavam por sua rápida e plena recuperação. Aparentemente tem dado certo: as poucas notícias que surgem por aqui, ali e acolá apontam que a batalha pela vida está longe de acabar.


Como você desceu aos infernos devido a uma traição de seu cérebro privilegiado, My Beloved Joni, esta carta-crônica de amor também precisava ser feita "da impureza do minuto" não para celebrar o seu legado diante de seu corpo sem vida, mas diante de seus olhos ainda abertos (mesmo que eles não consigam ler em Português), para que você não se esqueça do quanto que a sua música é significativa para muitos de nós que ainda acreditamos em opções inteligentes de "entretenimento musical", digamos assim... Dentre os poucos e fiéis leitores que temos por aqui, talvez tenhamos ameaças de benfeitores ou bênçãos de parasitas (tal qual você mesma nos diz desde 1975), ou simplesmente nada disso, sempre haverá um ou outro que acha a sua arte tão intrigante e significativa quanto eu. E é isso o que importa.


Uma das tarefas mais desafiadoras e caras que eu já tive enquanto colecionador de discos e amante de música foi conseguir reunir sua discografia de estúdio completa. Primeiro porque aqui no Brasil, qualidade em termos musicais é algo que está bem restrito. Segundo porque CDs importados são caríssimos! O último item que faltava para completar minha coleção era o relativamente obscuro The Hissing of Summer Lawns, achado depois de muitíssimo custo. Minhas cópias de Hejira, Shadows and Light, Ladies of the Canyon e Miles of Aisles vieram de países diferentes e percorreram milhares e milhares de milhas nas minhas malas para estarem aqui comigo. Guardo minhas edições de Both Sides, Now! e Travelogue com o carinho típico que decicamos às joias preciosas não só por terem sido um absurdo de caro, mas pelo fato de que são alguns dos produtos (leia-se: resultado final, não no sentido da mercadoria!) mais belos que já tive em mãos... A justificativa para isso? Amor pela sua música!


Temos feito alguns esforços para divulgar sua obra para além de Blue, álbum que muitos consideram como a sua obra-prima. Já escrevi dois textos sobre seus discos em colaboração especial para o Pequenos Clássicos Perdidos, o que me deu uma enorme satisfação. Primeiro, porque a gente pode escrever sobre o que mais gostamos; segundo, porque podemos abordar discos mais obscuros e sem o menor tipo de restrição, pois o editor do Blog é, além do cara mais legal e antenado do planeta, uma pessoa democrática e aberta para todas as tendências da boa música; terceiro motivo: através das pesquisas para cada disco que escrevemos, descobrimos um pouco da inquietude de uma das artistas mais provocantes do século XX.


Que em meio a esta infinidade de sombras, Joni, você tenha encontrado a luz e a paz necessária para aproveitar o sossego de sua aposentadoria dos discos e dos palcos. Meu único lamento é de não ter nascido uns trinta anos antes para poder ter ido a um show seu. Como eu nasci em 1981, peguei o bonde bem adiantado. Aproveitei a chance e mandei importar o DVD do Shadows and Light diretamente dos States para o Brasil para poder te ver no auge da forma, da beleza e da criatividade. Deu um trabalhão para poder assistir o vídeo do show, mas consegui depois de muita insistência... A foto não é das melhores, mas foi tirada com carinho!


E que você possa ter, My Dearest Joni Mitchell, razões para cantar e (quem sabe?) compor. O mundo sente falta de mulheres sensíveis, sofisticadas e inteligentes como você.

Um beijo do seu fã brasileiro
Vinil

Leia os textos escritos para o Blog Pequenos Clássicos Perdidos:

Court & Spark (1974) – 



1 de novembro de 2015

TROVA # 56

A IRA SELVÁTICA DE KARINA BUHR

FOTO: Daryan Dornelles

Para Ká & Fabinho, com amor!

Sua dúvida é produto da sua escravidão
Mantenha então
Sua sanidade em defesa do seu estômago
Se você pensou que tinha solução

Mantenha então
Sua integridade indefesa
Porque o tempo vai passando
Suas qualidades vão sumindo

E os seus defeitos aparecendo cada vez mais
Cada vez mais
Cadáver
(Karina Buhr – “Cadáver” – sétima faixa de seu
segundo álbum solo, Longe de Onde, de 2011)


            Quando (ou)vi falar pela primeira vez em uma tal de Karina Buhr, pensei que ela era mais uma integrante daquela geração de músicos que fazia parte desta geração dos anos 2010. Em outras palavras, mais uma cantora que posava de cool sem produzir algo em termos musicais que estivesse à altura da pose das capas dos discos e das fotos das reportagens. Ao constatar que meus cunhados/amigos/irmãos Karina & Fabinho já haviam parado na contramão de Miss Buhr a ponto do pequeno rebento deles, Raulzito, achar a moçoila o máximo, cheguei à humilde conclusão de que a novidade tinha pintado em cheio na minha praia e só eu não havia parado para ouvir. Miss Buhr era papo firme, era chapa quente, uma brasa fumegante do tamanho de um vulcão!
            Lembro vagamente da primeiríssima vez em que vi Karina Buhr cantando: foi em uma participação em um show de Marina Lima no SESC Vila Mariana (SP) lá pelos idos quase esquecidos de 2011. Em meio a um cenário cinematográfico de Isay Weinfeld, a safra menos inspirada de Marina e a falta de voz da artista que tomou o país de assalto ao som de “Fullgás”, vi uma bela moça de cabelos cor de fogo surgindo de uma extremidade do palco para cantar ao lado da artista da noite. Da aparição de Karina eu não me esqueci, já da apresentação de Marina como um todo, é melhor deixar pra lá... Tempos depois, ouvi uma regravação de “Tão Fácil” (Marina Lima & Antônio Cícero) que eu achei tão interessante, mas tão interessante que eu decidi ficar de olhos bem abertos e com olhar bem atento e forte nesta baiana criada em Pernambuco e hoje radicada em São Paulo.


            Anos depois, fui conhecer o trabalho de Karina Buhr mais a fundo em seu habitat mais do que natural: o palco! O Centro Cultural São Paulo anunciou um show da artista no qual ela fazia um tributo ao Secos & Molhados para quem quisesse ouvir (não me lembro se foi de graça, ou se foi por um preço hiper camarada). Minha obrigação em estar lá era tripla: 1) Era um tributo ao Secos & Molhados, a banda do meu coração e meu objeto de pesquisa e de estudo por tantos e tantos anos; 2) A homenagem contrariava qualquer clichê em torno das mensagens oportunistas, óbvias e surradas que já fizeram ao grupo que revelou Ney Matogrosso para o Brasil e o mundo; 3) Era a oportunidade definitiva para conhecer o trabalho de uma artista nova, inquietante e a deixa perfeita para ir em busca de novos horizontes musicais.

Karina Buhr canta Secos & Molhados: um belo tributo

              Fiquei encantado com o resultado do que assisti no CCSP: Karina Buhr não apenas releu o repertório do primeiro disco do Secos & Molhados com muitíssima reverência e respeito, como também permitiu que seus músicos imprimissem suas personalidades em um trabalho tão marcante – o trompete de Guizado chega a ser tão marcante quanto a flauta de Sérgio Rosadas, músico que tocou nos dois primeiros álbuns do grupo. Além disso, a postura de palco de Karina, acalentada por anos e anos de trabalho com bandas de Recife (Eddie e Comadre Fulozinha) e como atriz do Grupo Oficina (idealizado e mantido pelo controverso e revolucionário diretor teatral José Celso Martinez Corrêa), é simplesmente arrebatadora: ela conseguiu ser não apenas uma seguidora do caminho aberto por Ney Matogrosso anos antes, como fez uma belíssima homenagem a um dos artistas mais importantes da música brasileira sem descaradamente imitá-lo. O encore do espetáculo contou com algumas belas canções do repertório de Miss Buhr: “Cara Palavra” e “Nassíria & Najaf” foram apresentados em meio a uma sinfonia ensurdecedora de cacófatos, gritos e distorções típicas de um show de Punk ambientado no velho e saudoso CBGB’s. E o melhor de tudo estava reservado para o final, quando a artista resolve envolver o seu pescoço em um fio de microfone, resultando em um dos atos performáticos mais insanamente loucos que eu já presenciara em vida.

Miss Buhr e o microfone




Após o show, ativei o modo pesquisador que ainda existe dentro de mim e decidi sair em busca das gravações de Karina Buhr. Redescobri a tal gravação no tributo feito à Marina Lima e me encantei com Eu Menti pra Você (2010), seu primeiro disco. A capa do CD, revelando uma mulher com as mãos na testa com uma expressão de leve sarcasmo, sem traços de paixão, quebra com todo e qualquer horizonte de expectativas de qualquer ouvinte de MPB: ouvir logo de cara que a bela cantora é uma pessoa que mentiu despudoradamente para ti ou o clamor de uma canção de ninar que ordena que você durma antes de que você morra bombardeado por mísseis não são coisas lá muito simples de se dizerem por uma artista novata. Ao contrário, são coisas que surgem para quebrar as pernas de qualquer um que esperasse modéstia, delicadeza e simplicidade de um debut álbum de uma artista feminina: Karina estava lá para romper com aquela lógica, para nossa euforia.

Eu Menti pra Você (2010)

A poética de Karina Buhr é longe de ser alegre ou solar, tal qual alguns de seus colegas de geração. “Mira Ira”, oitava faixa do álbum, revela uma relação sentimental torta e ameaçada pelo que existe de mais primitivo e autêntico de nossos “pecados capitais”, a ira corrosiva que tem o poder de aniquilar o mais puro e belo dos sentimentos:


Tá tudo padronizado
no nosso coração
nosso jeito de amar pelo jeito
não é nosso não

Tá tudo padronizado

Me mira a ira
me mira mas me erra
mas minha mira me era confusa
mudando meu amor de endereço

Fria, não miro a ira
não miro mas te acerto no peito
quando mudo meu amor de endereço

Me mira a ira
me mira mas me erra no escuro
sentindo teu amor profundamente

Foto: Ana Tatsumi

            Outro momento delicioso de Eu Menti pra Você é justamente a faixa que encerra o disco: a lânguida “Plástico Bolha”, uma ode ao ócio, à liberdade e à preguiça em tempos de capitalismo insanamente selvagem e doentio, é uma das melhores gravações de Karina Buhr:


Hoje eu não tô afim de corre corre, confusão
Eu quero passar a tarde estourando plástico bolha
Mas você reagiu mal
Porque você não esperava
Mas eu te esperei e a gente se desesperou
Hoje eu não tô afim de corre corre, confusão
Eu quero passar a tarde estourando plástico bolha
Bolinha de fumaça, plástico bolha

Longe de Onde (2011)

            Consegui ouvir o segundo álbum de Karina Buhr, o incendiário Longe de Onde (2011), há pouquíssimo tempo, graças aos milagrosos serviços de streaming, que divulgam o que há de melhor em termos de música graças ao simples toque um smart phone. Fiquei literalmente impressionado com a ferocidade e alguns (leves) surtos de delicadeza que vinham dos versos e sons daquele disco. O sucessor de Eu Menti pra Você deixava mais do que claro que a mocinha estava longe de ser uma diva ou uma darling carente de carinho ou de um macho protetor – ao contrário, tornou-se mais do que evidente que Miss Buhr era uma mulher muito da perigosa e que ainda faria mais barulho por aí:


Cada fala
Cada palavra cala
E ganha um signovosignificado para mim
Desperta dor
Apaga dor
Vai embora
Fica
Meu amor
 

Foto: Ana Tatsumi

            Outras canções do disco como “Pra Ser Romântica” e “Amor Brando” são retratos de relações amorosas distantes da perfeição, descritas a partir de um destemido deboche. As interpretações de Karina Buhr são repletas de sentimento, porém com a clara noção de que a realidade amorosa não se faz da materialidade forjada pelo que vemos nas telas da TV ou do cinema:


Hoje eu dei
Pra ser romântica
Perto de você não me vejo só
De você quero distância
Bem pequenininha

Nem ia imaginar
O sol, você como está
Nesse dia, esse viaduto lindo
Como calendário de verão
Do mês que a gente está
Na cidade que continua linda
Continua linda
Que continua linda
Continua linda


Eu já sinto um calor de amor
Quando você chega aqui
Tava tudo tão facinho, no rasinho
E eu sem me dar conta
Assim fui indo
Agora sinto um calor de amor
Quando você chega aqui
E eu te peço que
Se aproxime de mim um pouco
Mas não tanto
A ponto de eu sentir sua falta
Quando você for embora

            E eis que Karina Buhr me conquista de vez com o seu terceiro álbum. Selvática foi lançado no final de setembro de 2015 diante de uma polemica insana e ridícula diante da imagem da capa do disco, que mostra a artista sem camisa e com os seios à mostra. Independentemente de qualquer tipo de controvérsia que a imagem pudesse gerar, decidi que não haveria oportunidade mais perfeita de me apaixonar de vez pela cantora de cabelos de fogo quando fui para a noite de estreia da turnê no SESC Pompeia com a típica ansiedade que antecederia um show de Paul McCartney ou dos Rolling Stones, no início de outubro de 2015. Em um final de semana no qual Sampa estava repleta de atrações musicais imperdíveis (Ney Matogrosso, Elza Soares e Edson Cordeiro estavam fazendo seus shows no pedaço durante o mesmíssimo período) e diante da impossibilidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo, foi uma tarefa árdua ir em apenas uma única apresentação das duas que Karina fez para lançar o CD.

Flyer de divulgação dos shows da abertura da turnê Selvática

Meu choque inicial já se deu quando descobri que a banda que acompanharia Karina naquela noite era composta de dois guitarristas consagrados e pelos quais tenho profunda admiração: Fernando Catatau (que eu já conhecia de trabalhos com estrelas de primeira grandeza de nossa música como Vanessa da Mata) e o mestre Edgard Scandurra (que já tocou pelo Brasil afora com o Ira e possui uma longa parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes). O segundo impacto – ainda mais profundo – se deu quando vi que Scandurra ia dar seu expediente a menos de 1m de distância deste que vos escreve estas linhas tortas e irregulares. E o que dizer de Karina herself? Creio que ela é a presença de palco mais impactante que já vi desde que assisti Ney Matogrosso cantar em um palco pela primeiríssima vez.




O palco de Karina Buhr é um espaço plenamente dionisíaco: ela encarna todas as perversões e deboches que estão contidos em seus versos sem se importar com modas ou tendências, o que lhe rendeu um público devoto e profundamente respeitoso. Ela não tem o menor medo de soar insípida ou inodora como qualquer Pop Star. Não tem a ambição de se parecer com as Primas Donnas clássicas da MPB que acreditam que o stage floor é um chão sagrado, tal qual o de uma cantora de ópera. O local musical de Miss Buhr pertence à ordem do profano, por isso, infinitamente imprevisível e perigoso.

É um fuzil? Não, é apenas o pedestal do microfone...


Por isso, cada apresentação ao vivo de Karina Buhr é uma oportunidade e tanto para que possamos afirmar o nosso gesto de contrariedade a uma série interminável de medidas conservadoras e retrógadas adotadas pelo Congresso Nacional (restrição de direitos das mulheres, de homossexuais, dentre outros absurdos). “Selvática”, a canção que dá nome ao terceiro álbum da artista, é uma tentativa de reescrever a história feminina a partir de uma releitura do livro do Gênesis, da Bíblia Sagrada:


Refaço! Rechaço!
Não lhe devemos nada
não nos verás na escuridão como capacho
nos temporais amargos
dias penumbrosos anoitecidas
Não moveras do corpo um pelo
a tempestade é vencida

Selváticas, por amor ensandecidas.
Não as tocarão manadas apedrejantes.
Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas
cavalgam amazonas delirantes.
Guerreira que bebe sangue
arco e flecha do Daomé
viço do bicho, ebó de mangue
jurema da favela
óleo de palma pra ela
alma na planta do axé

O eclipse perdurará
acharás palha no agulheiro e transmutarás
Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás
com o cipó da própria raiz segura
costura de árvores nas alturas
não espirrarás tua violência amanhecida
tantas vezes na aprovação da multidão
tua sanha virará só coração
sem arranhão, nem ferida
Choro trufado, pedregoso
umedece o olho arranhando
refinando a vista embargada
guerrilheira curda vitoriosa
nas curvas das serras teimosas
Mulheres, conforme a espécie na guerra
esbravejam a dor da Terra em uivos
lhes crescem pupilas ruivas
uvas bacantes semeadas
oliveiras palestinas suculentas
avisam: já não há quem possa

Chifres de marfim nascem devagar
a empurrar entremeando os cabelos
Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes
estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs
Vãs as imagens delas
conforme a sua semelhança
bailarão lança e festança
extirparão o sumo da memória criminosa
refarão a história e a prosa
de tuas eternas inquisições de fogueiras
em beiras de abismos baderneiras flamejantes
ciganas a postos abafarão os berreiros constantes
em fogosas rosas gigantes
filhos meus, os seus e os nossos

Selváticas, elas não necessitam seu elogio
Ela transgride sua orientação

Refeito o começo bíblico
não ferirás nenhum corpo por ser feminino
com faca, ou murro, ou graveto
eu te prometo
sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto
Super heróis de tuas vítimas estancadas
agora és delas a espada e não o algoz

Selvática, ela come a selva de fora
ela vem da selva de dentro!
Selvática, ela pare a própria hora
ela bale em pensamento!
E no final ideal não terás domínio
algum sobre mulher alguma!
No final ideal não terás domínio
sobre mulher alguma!

Quatro momentos de "Selvática" por Vinil


Saí do SESC Pompeia tão acachapado com a bravura, a ousadia e a despretensão artística de Karina Buhr – algo que, repito, não se vê na maioria das grandes cantoras deste país – e me tornei um fã confesso desta baiana arretada a partir daquela noite. Aproveitei a oportunidade para finalmente adquirir os CDs de Miss Buhr e parar de vez na contramão da mocinha que alega que é má pelo fato de ter mentido para mim, para você e mais uma pá de gente que ouve os discos dela. Meu coração musical se tornou mais dionisíaco graças a ira selvática tão necessária que, por fim, me mirou e me acertou em cheio...

Algumas linhas sobre Selvática escritas pelo autor deste Blog para o Pequenos Clássicos Perdidos. Acesse o link:

Site oficial de Karina Buhr:
http://www.karinabuhr.com.br