22 de dezembro de 2015

TROVA # 62

CHICO BUARQUE ENTRE A TELONA DO CINEMA & A TELA DA TV

(5 motivos para ir ao cinema assistir Chico – Artista Brasileiro e 5 motivos para esperar este filme sair em DVD)



A música brasileira tem recebido documentários maravilhosos sobre vários de nossos artistas. Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Tom Jobim, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Raul Seixas, Jorge Mautner, Luhli & Lucina, Elza Soares, a Era dos Festivais e a Tropicália foram homenageados com toda a pompa e circunstância necessária e merecida por cineastas jovens e experientes. Fiquei bem animado quando soube que Miguel Faria Jr. tinha feito um documentário sobre Chico Buarque e resolvi ir ao cinema assim que as férias batessem a minha porta.

Miguel Faria Jr. & Chico Buarque

Documentários não atraem um público muito extenso: geralmente, em menos de um mês, eles não ocupam mais as salas principais de cinema no Brasil. A preferência do público por blockbusters como Harry Potter, The Lord of The Rings ou Star Wars em tempos nos quais MPB não é mais consumida por um grande número de pessoas é avassaladora. Como consequência, a oferta de cinemas que exibiam o documentário de Miguel Faria Jr. era bem reduzida em uma cidade grande como São Paulo (4 cinemas ao todo!) em pleno final de dezembro.
 Ingressos comprados, assentos tomados, quase prontos para o início de mais uma experiência cinematográfica, exceto... a falta de educação de mais da metade do público da sala de cinema, que foram ao Cine Belas Artes para ver o Pop Star Chico Buarque, não o artista Chico Buarque, o escritor Chico Buarque, o homem público Chico Buarque. Órfãos de turnês extensas do cantor e compositor de "A Banda", mais da metade das pessoas que estavam ali se comportavam como se estivessem em uma casa de shows: falando alto, comentando o filme como se fosse uma partida de futebol ou a novela da Rede Globo. Se houvesse um garçom, bebidas seriam requisitadas em um pronto estalar de dedos e os meus instintos mais antissociais e psicopatas poderiam aflorar dentro de uma sala do Cine Belas Artes. Fui contido. Ainda bem.

Estes motivos seriam suficientes para que eu esperasse Chico – Artista Brasileiro sair em DVD e eu pudesse assistir cada detalhe na santa tranquilidade do meu HD e no silêncio do meu quarto. No entanto, resolvi enumerar alguns motivos, digamos, mais técnicos para justificar minha falta de vontade de voltar a assistir esta película no cinema:

1) A pobreza de depoimentos da família de Chico Buarque
Apesar do documentário focar na trajetória artística de Chico, há um pecado mortal em não termos nenhuma espécie de testemunho de sua ex-mulher, Marieta Severo, e de suas filhas e de seus netos. A única presença familiar que concedeu depoimento para Chico – Artista Brasileiro foi de Miúcha, sua irmã mais velha.


2) A ausência sentida de vários parceiros e intérpretes de Chico
Como Francis Hime, Luiz Cláudio Ramos e Paulo Pontes foram esquecidos / ignorados em uma ocasião tão simbólica? Nara Leão, Bibi Ferreira e Maria Bethânia - intérpretes significativas da obra de Chico – mal aparecem no filme; Elis Regina, Gal Costa, Fafá de Belém, Elza Soares, Simone, Cauby Peixoto, Marisa Monte, Cida Moreira e outras foram sumariamente ignoradas.

3) A presença desnecessária de certas interpretações da obra de Chico
Em primeiro lugar, não consigo conceber o porquê de uma cantora de nacionalidade portuguesa ter que interpretar a obra de um artista brasileiro com tanta cantora brasileira de calibre e envergadura dando sopa por aí! A presença de Carminho em DOIS números do documentário de Miguel Faria Jr. é completamente desnecessária: as canções de Chico se tornam em dois lamentos lusitanos sofridos, que nos faz ter saudades de Amália Rodrigues. A escolha de Moyséis Marques e Péricles para interpretar dois dos sambas mais importantes do repertório buarqueano - "Mambembe" e "Estação Derradeira" - ao sabermos que existem sambistas experientes como Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira foi, no meu ver, leviana.

Milton Nascimento ao lado da cantora portuguesa Carminho


4) Os inevitáveis cortes no documentário
Fiquei bem triste ao saber que Laila Garin tinha gravado uma versão para "Bastidores", uma das canções mais belas de Chico. Uma baixa dessas diante de dois números com Carminho é, no mínimo, de gosto duvidoso...

5) O incentivo à "Chicolatria"
Chico - Artista Brasileiro, apesar de possuir momentos de puro humor, peca por, indiretamente, incitar a clássica "Chicolatria" por parte daqueles que se interessam pelas peripécias do Sr. Buarque. Ele é digno de nossa admiração e de nosso respeito, não de nossa idolatria cega, tal qual da metade das pessoas que estavam na sala de cinema na noite em que eu estava lá...

Entretanto, as duas longas horas do filme de Miguel Faria Jr. possuem alguns aspectos encantadores, que valem a ida ao cinema e não poderíamos deixar de apontar aqui. Vamos enumerar um por um?

1) A quebra de alguns mitos populares em torno da figura de Chico Buarque
Sempre fomos levados a crer que Chico era um homem tímido, que detesta fazer shows e etc e tal. Não necessariamente: conhecido pelos familiares como "showboy" quando criança, o Sr. Buarque realmente não é muito dado a longas temporadas para promover seus discos. Além do mais, o extremo humor é muito mais aparente do que a aparente timidez do artista.


2) Alguns números musicais do documentário
Miguel Faria Jr. conseguiu fazer algumas escolhas bastante acertadas para as interpretações que aparecem em Chico - Artista Brasileiro: Ney Matogrosso fez uma releitura emocionante de "As Vitrines" (inédita na sua voz até a realização desta película); Mônica Salmaso fez uma interpretação pungente de "Mar & Lua"; Mart'nália & Adriana Calcanhotto protagonizaram com perfeição o roteiro amoroso meio tortuoso, meio bem-humorado de "Biscate" ao sugerir uma relação entre duas mulheres; Laila Garin me emocionou ao retratar a mãe cruel de "Uma Canção Desnaturada".

Ney Matogrosso em uma das interpretações mais bonitas de toda a sua carreira...

3) As imagens de arquivo
Rever algumas imagens de arquivo e assistir outras raridades, tais como as fotos da montagem censurada de Calabar - O Elogio da Traição, imagens de D. Maria Amélia Buarque de Hollanda indo cumprimentar o filho famoso no palco no auge da era dos festivais ou algumas raríssimas filmagens de Chico durante o seu exílio em Roma já valeram a película de Miguel Faria Jr.


4) Um breve olhar sobre o Chico Buarque escritor
Os momentos do filme de Miguel Faria Jr. nos quais Chico comenta o ofício tardio da Literatura (ele começou a escrever seu primeiro romance, Estorvo, em 1989) e a repercussão diante de seus romances é algo infinitamente interessante. Alguns trechos de suas longas narrativas foram barrados pela já saudosa voz de Marília Pêra. Vale a pena conhecer esta faceta menos óbvia do Sr. Buarque...


5) A busca pelo irmão alemão
Um dos tabus mais latentes dos Buarque de Hollanda foi o fato de que o patriarca da família, o lendário historiador, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo Sérgio Buarque de Hollanda teve um filho com uma alemã durante a sua breve estadia em Berlim durante o período compreendido entre 1929-1930. Sérgio Günther (1930-1981), o irmão alemão de Chico Buarque, foi objeto de buscas do irmão brasileiro famoso e inspiração para o quinto romance de Chico. Miguel Faria Jr. nos mostra o processo de investigação para o encontro do paradeiro de Günther, que era cantor e apresentador de TV, com direito a um clipe do filho desaparecido do autor de Raízes do Brasil cantando para a TV alemã nos anos 1960. O que mais me impressionou foi a semelhança entre pai e filho, para deleite dos investigadores e de todos nós, espectadores.


Entre as perdas e ganhos de Chico – Artista Brasileiro, ficamos no zero a zero. Como critério de desempate, sugiro que as salas de cinema sejam a segunda opção para um provável DVD com extras e envolto em um belo package elegante, bem como merece a obra do Sr. Buarque. Assim, poderemos deleitar a beleza de sua poesia no melhor canto jamais inventado: no conforto e no sossego de nosso lar. Afinal, sem a presença de ninguém para perturbar a sua experiência fílmica, a tela do HD sempre será uma opção mais cômoda e reconfortante.


15 de dezembro de 2015

TROVA # 61

ELES & EU
(meu relato de minhas idas e vindas com o grupo Secos & Molhados)

O grupo Secos & Molhados (da esquerda para a direita): Gerson Conrad, Ney Matogrosso & João Ricardo

"Um grito de estrela
vem do infinito
E um bando de luz
repete o grito
Todas as cores
e outras mais
Procriam flores
astrais

O verme passeia
na lua cheia
"
("Flores Astrais" - João Ricardo & João Apolinário – canção do segundo álbum do Secos & Molhados, de 1974)



2015 foi um ano de início de novos ciclos, como também de conclusão de outras de minhas jornadas profissionais. A que encerro neste ano é, sem dúvida, a minha empreitada mais apaixonada, mais empenhada e a qual me rendeu muito do que sou hoje. A partir de 15 de dezembro de 2015 deixo de ser um mero escritor amador que enche inúmeras páginas com palavras supostamente vãs para tentar ser mais um a "encher de mais confusão as prateleiras", como cantava Caetano Veloso lá pelos idos do final da década de 1990. O assunto? Música, evidentemente! O tema? O lendário grupo Secos & Molhados, objeto de meu Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, de minha Dissertação de Mestrado e de tantos anos de pesquisas.



Minha história oficial com os meus três mascarados começou oficialmente há quinze anos, quando meus estudos na Faculdade de Letras ainda estavam lá no início. Encantado com os estudos de Literatura e inebriado pelos prazeres do texto, ouvia repetidamente os dois primeiros do Secos & Molhados já tentando desvendar as relações enigmáticas entre a poesia de Vinícius e Pessoa com a voz e a postura cênica infinitamente abusada de Ney Matogrosso. E ficava intrigado com as afirmações do meu pai, que deviam ser o total lugar-comum da época, que não variavam muito entre: "Os caras do Secos & Molhados? Tudo veado!"...

No final de 2003, precisava cumprir com uma obrigação burocrática imposta pela Universidade: dar cabo de um projeto de pesquisa e apresentá-lo para uma banca composta por três professores da Faculdade de Letras. Estes créditos respondiam pelo nome de "Monografia", o que hoje chamamos de Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, vulgo TCC. Na impossibilidade de dar conta de um trabalho ousado demais – modéstia à parte – sobre teatro contemporâneo (minhas ambições acadêmicas hercúleas já eram bastante criticadas naquela época), resolvi começar a investigar mais sobre os três mascarados alados que há tanto me intrigavam. No dia 17 de dezembro de 2003, 31 anos depois que o Secos & Molhados fez sua primeira apresentação ao vivo lá nos fundos do Teatro Ruth Escobar (um local conhecido como Casa de Badalação & Tédio), apresentei meu trabalho final para a Universidade Estácio de Sá, que me aprovou com nota máxima.



Poucos meses depois, novos desafios me aguardavam. A vida de um professor recém-formado no Brasil é nada estimulante em termos profissionais e financeiros. Nem a chance de ouro de ter iniciado meu Mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense foi algo que me trouxe tanta animação assim. Lógico, ter sido aprovado em uma seleção concorridíssima em 11.º lugar com um histórico e uma pesquisa nada ortodoxos em uma instituição pública era algo certamente extraordinário. O problema era que Niterói e a UFF soavam provincianos demais para mim: eu me sentia como um eterno e incorrigível integrante de um exército de um homem só.



A explicação para isso era o fato de que, no momento em que ingressei na UFF, não havia mais pesquisadores que se preocupassem com o tema "Literatura & Música Popular". Com isso, fui fatalmente relegado à margem, como consequência, e com imenso orgulho e sem um pingo de modéstia. Afinal, lutar pela minha integridade intelectual sempre foi minha prioridade. Algo plenamente compatível com as canções do grupo que eu escolhi como objeto de pesquisa. Apesar de ter tido uma excelente Orientadora de Mestrado, meu instinto de sobrevivência dizia que eu sempre precisava ser independente, ir em busca de fontes, de fatos, como um bom pesquisador deve ser. Consegui duas entrevistas valiosíssimas para meu trabalho: Gerson Conrad conversou longamente comigo em outubro de 2005 e Luhli cedeu um maravilhoso depoimento em janeiro de 2006. Decididamente, eu tive de ser o verme a passear pela lua cheia contente e convencional da academia, no estilo mais low profile possível, visto que meus méritos não consistiam meramente de relações influentes ou de grande poder.



Os dois anos que se seguiram foram difíceis em termos profissionais e acadêmicos. Nenhuma das disciplinas que cursei no decorrer do Mestrado geraram trabalhos que me auxiliassem nas pesquisas que deveriam dar origem ao texto da Dissertação. De qualquer maneira foi ótimo pesquisar sobre a obra de Silviano Santiago, Phillip Roth, Jean-Paul Sartre e J. M. Coetzee, sobre o legado dos romances de Oswald, Flaubert e Jane Austen e investigar as relações entre Cinema e Literatura a partir das criações de Arnaldo Jabor e Nelson Rodrigues. No plano pessoal, um relacionamento que vivia uma crise que se parecia a um avião prestes a cair sobre duas Torres Gêmeas prestes a implodir com (quase) tudo ao redor. Uma grande mudança era necessária para que todos os bloqueios fossem, enfim, retirados do caminho.



Quando pisei em São Paulo no dia 14 de março de 2006 para ficar de vez, tinha apenas os 60 reais restantes da última parcela do meu seguro-desemprego no bolso. As únicas coisas que estavam certas em minha vida eram a matrícula trancada na UFF por seis meses, uma sacola repleta de livros para ler, uma pesquisa inacabada e um mar eterno de incertezas pela frente. Pelo menos, havia alguém para amar, uma nova família (que me recebeu de braços abertos) e novos amigos para dar apoio, além dos poucos que sobraram no Rio de Janeiro na torcida. Foi na Terra da Garoa, debaixo de muito custo, de algumas contribuições valiosíssimas (o arquivo da Folha de S. Paulo, a maior delas!) e de muitas noites sem dormir, que o texto, finalmente, começou a tomar corpo. 
No entanto, precisávamos de mais seis meses de prorrogação, desta vez com a aprovação do Colegiado da Pós-Graduação da UFF. Foi neste momento que pensei que não íamos chegar até o fim. Entretanto, chegamos! E, mais uma vez, iríamos fazer um passeio de luxo pela lua cheia dos contentes. Eu teria até março do ano seguinte para concluir as pesquisas, sendo que eu estaria em São Paulo e Matildes, minha santa Orientadora, no Rio de Janeiro. Santificados sejam os pacotes de SEDEX, que tanto nos auxiliaram em momentos de urgência e necessidade. Em nome de todas as pesquisas, AMÉM!
A primeira etapa dessa jornada chegou ao fim no dia 14 de abril de 2007. Depois de enfrentar seis horas de espera no Aeroporto de Congonhas (o país vivia o auge da crise dos aeroportos!) para fazer a ponte aérea, retornei para o Rio de Janeiro para, enfim, defender minha Dissertação de Mestrado. Pedi a benção para a estátua de Drummond em Copacabana na parte da manhã, pedi a proteção ao Dom Quixote que fica em frente ao prédio da Letras antes de subir para o quinto andar. E enfrentamos um atraso de quase uma hora, debates acalorados típicos das esquizofrenias do mundo acadêmico e ouvimos o veredicto da banca... outra nota 10! Com indicação para que a Dissertação fosse publicada, para minha plena felicidade.

A BANCA: Pascoal Farinaccio (UFF), Matildes Demetrio dos Santos (UFF - Orientadora) e Carmen Lúcia Negreiros de Figueiredo (Uerj)

Sabia que o abismo que separaria a transformação de meu Mestrado em Livro era imenso. Primeiro porque eu tinha a plena consciência de que havia inúmeras correções a serem feitas no texto. Em segundo lugar, porque não tinha conseguido aproveitar todas as minhas fontes de pesquisa. Terceiro, e pior de tudo: sou um perfeccionista obsessivo e incorrigível, extremamente atento a detalhes e sofro demais quando vejo qualquer traço de imperfeição! A correção do texto era algo que teria que ser feita em algum momento, mas eu precisaria de bastante tempo para poder me refazer das dolorosas batalhas que me levaram até a defesa da Dissertação...


O período de férias que eu me concedi foi de uns dois anos até, finalmente, chegar ao texto final da Dissertação, um volume monstruoso de quase 400 páginas. Diploma de Mestre obtido, 10 cópias nas mãos, hora de presentear os mais próximos com a promessa do remoto livro. Rosana Barbosa, Matildes Demetrio, Herom Vargas, Emílio Carrera e Zélia Duncan foram algumas das pessoas que receberam seus presentes com as suas devidas dedicatórias. Porém, achei que precisava presentear uma pessoa, e eu o fiz em 14 de março de 2009, no dia exato que marcava meu terceiro aniversário de chegada em São Paulo: fiquei felicíssimo de ter conseguido arrancar um sorriso aberto de Ney Matogrosso ao entregar o resultado de minhas pesquisas em suas mãos. Contei brevemente o périplo percorrido até chegar naquele camarim com aquelas tortuosas páginas e ele ficou impressionado com o quanto o meio acadêmico ainda consegue ser careta... Foi o máximo de interação que eu, um tímido ocasional e incorrigível, consegui me permitir com uma das pessoas mais admiradas por mim...

Ao lado de um sorridente Ney Matogrosso, em 14 de março de 2009.
Acabei tirando férias dos meus mascarados por algumas temporadas, mas nunca conseguia fazer isso por muito tempo. Sempre havia alguma coisa que me remetia a eles: Matildes me convidou para um dia maravilhoso de palestras na UFF e lá fui eu mais uma vez voando para o Rio de Janeiro falar sobre o Secos & Molhados para alunos de Graduação em 2008. Um contato do professor Herom Vargas, interessado em conhecer meu trabalho em janeiro de 2009, fez com que eu me entusiasmasse com as pesquisas novamente. Um ou outro livro que abordava o legado e a loucura dos anos 1970 sempre vinha a público para me atormentar e me lembrar de que era preciso atualizar a versão final do texto. Fui investindo nestas atualizações até o final de 2014, quando concluí a versão final do que se transformou no livro. 


Como resolução principal para 2015, decidi que não apenas iria retirar meus escritos das pastas e das gavetas, como também iria viver um ritmo profissional mais brando, com finais de semana livres e mais qualidade de vida. Isso implicava trabalhar menos, como também iria acarretar ganhos financeiros menores. Não me arrependo nem um pouco. Pude revisar as provas do livro e suas infindáveis idas, vindas e tormentas com a atenção devida e projetar uma parte do futuro. E sonhar com o dia de poder sair assinando livros para as pessoas e compartilhar o conhecimento com todos os que quiserem comprar O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: Poesia, Performance e Política na Música Brasileira. Afinal de contas, o que realmente vale no tocante a qualquer jornada intelectual é poder repartir o pouco que sabemos com os nossos semelhantes...          

Mais uma vez me vejo rodeado de uma série de atos simbólicos: lançar meu primeiro livro logo após a comemoração do centenário de Frank Sinatra, a alguns metros de distância do Teatro Ruth Escobar, na mesmíssima cidade que revelou o Secos & Molhados para o universo, quase 12 anos depois de apresentar a primeira versão de meu trabalho de conclusão de curso definitivamente deve ser sinal de bons fluidos. Um ciclo se fecha, outro está a caminho. O que nos espera, não sabemos. O que desejo? Que seja bom para todos nós, tão divertido quanto “O Vira” que até hoje faz crianças, adultos e velhinhos dançarem por aí sem temer o medo de qualquer noção de ridículo. Que cative as almas dos leitores e ouvintes, tal qual meus olhos e ouvidos foram cativados por aquela magia fantástica dos meus queridos mascarados. E que seja leve, como uma leve pluma que pousa alegremente sobre os corações da gente. 


7 de dezembro de 2015

TROVA # 60

A FEITIÇARIA INCOMPARÁVEL DE MARÍLIA PÊRA


Em memória de Marília Pêra (1943-2015)



O Brasil é um país de cantoras extraordinárias. E de atrizes fantásticas. No entanto, pouquíssimas brasileiras conseguem compor estas galerias com tanta presença e classe como conseguiu Marília Soares Marzullo Pêra. Para mim, uma aquariana que fazia anos um dia antes do meu aniversário. Para nós, singelos mortais, a grande atriz Marília Pêra. Para a classe artística, uma verdadeira unanimidade. Para as artes do Planeta, uma das maiores artistas que surgiram por aqui em todos os tempos. A partir de 5 de dezembro de 2015, mais uma estrela a brilhar em uma galáxia bem distante, bem longínqua...


Meu último sábado que antecedia as férias de dezembro de um longo e exaustivo ano começou com um gosto bem amargo. Ao acordar, por volta de 11 horas de manhã, soube que Marília Pêra tinha morrido, serena e discreta, aos 72 anos de idade, vítima de um câncer. Dentre inúmeras fotos que se repetiam pelas redes sociais, pelas páginas de notícias da Internet e inúmeros flashes da Globo News, surgiam homenagens, depoimentos e uma comoção coletiva diante da partida de uma das artistas mais empenhadas que já conhecemos. A tristeza foi automática e inevitável.




Comecei a me lembrar da única noite em que assisti Marília Pêra cantando e atuando no teatro. Fiquei encantado quando a vi ao lado de Miguel Falabella em uma montagem brasileira de Hello, Dolly! em uma breve temporada pelo Teatro Bradesco. O que eu achei mais encantador na versão nacional do texto da Broadway foi que ela conseguiu dar um toque de humor e leveza extremamente autênticos à trambiqueira Dolly Levi, sem deixar de descaracterizar o texto original. Não consigo esquecer dos figurinos, da música e do belo sorriso que ela ostentava em cada troca de figurino, em cada coreografia, em cada riso arrancado da plateia. Fiquei encantado com a energia e a beleza daquele trabalho por dias. Taí os verdadeiros poderes de uma estrela...

Marília Pêra na versão brasileira de Hello, Dolly! (2013), com direção de Miguel Falabella.

Feiticeira (1975)

Gosto bastante de Feiticeira, disco de Marília baseado em um show com roteiro de Fauzi Arap e Nelson Motta em 1975, que foi um fracasso retumbante. Primeiro porque há a fina flor do que existia (e ainda existe) de melhor na música brasileira da época naquele disco: Lamartine Babo, Eduardo Dussek, Luhli & Lucina, Geraldo Azevedo, Walter Franco, Jorge Mautner, Alceu Valença, Jards Macalé, etc. Segundo e melhor de tudo: ao ouvirmos Marília Pêra em disco temos a noção de que estamos ouvindo um espetáculo grandioso, pomposo, de grande envergadura em plena ação. Ouço "Alô Alô Brasil" e minha imaginação já me remete a imensos cenários em verde e amarelo, com bananas em riste, revelando o Brasil tão bem cantado por Carmen Miranda, a Pequena Notável que ela homenageou diversas vezes nos palcos deste país. "Bentevi" nos emociona pela beleza e nos dá vontade de sair dançando com os braços abertos, chamando os pássaros para conviver do mesmo espaço aberto e pedir para que eles nos levem voando ao léu, livres e descompromissados. O "Samba dos Animais", “Estado de Choque” e "A Natureza" por outro lado, ainda são de uma atualidade impressionante... Um grande álbum de uma atriz que cantava muitíssimo bem!





Marília Pêra era uma grande estrela de musicais e foi uma das pioneiras do gênero no Brasil. Conseguia cantar magistralmente Dalva de Oliveira, Lamartine Babo, Carmen Miranda com a mesma naturalidade que interpretava uma Maria Callas ou a obra de Ary Barroso. Sua voz mansa e discreta fora de cena contrastava com a sua presença histriônica e marcante quando estava em cima do palco. Em alguns momentos, chegava até a assustar os menos acostumados com o seu estilo. Em outros, encantava profundamente as plateias que a assistiam. A interpretação de "120, 150, 200 km/h", de Roberto & Erasmo, é um exemplo clássico do quanto os opostos colidem de maneira um tanto, digamos, surpreendente...


Se pudesse resumir tudo o que Marília Pêra foi em apenas uma única imagem, não hesitaria em dizer que ela era uma bela feiticeira. Não daquelas feiosas que fazem coisas malévolas e que trazem o mal, mas daquelas que só semearam o que existe de melhor nos seres humanos. Suas feitiçarias lhe permitiriam que ela se transformasse em quem ela pudesse, viver as vidas que ela quisesse por duas horas ou mais. Assim, nós, mortais e comuns, tentamos ir em busca de sentido e compreensão para o que há de mais indecifrável: a vida...

Marília como a personagem Juliana na minissérie O Primo Basílio (1988), baseada no romance de Eça de Queirós, uma de suas performances mais aclamadas e inesquecíveis.

LEIA MAIS SOBRE MARÍLIA PÊRA:


27 de novembro de 2015

TROVA # 59

A NAVE MUSICAL DE GAL COSTA
(ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ESTRATOSFÉRICA, O SHOW)


Não sou mais tola
Não mais me queixo
Não tenho medo
Nem esperança 

Nada do que fiz
Por mais feliz
Está à altura
Do que há por fazer 

E se me entrego às imagens do espelho sob o céu
Não pense que me apaixonei por mim
Bom é ver-se assim
De fora de si 

Eu viveria tantas mortes
 E morreria tantas vidas
 E nunca mais me queixaria
Nunca mais
(Antonio Cicero & Arthur Nogueira – “Sem Medo Nem Esperança”, faixa de abertura do CD/SHOW Estratosférica, de Gal Costa)


Existem poucas cantoras da chamada "MPB" que me encantem tanto nos tempos de hoje como Gal Costa. Compreendi uma boa parcela da preciosidade de seu canto e da sofisticação de sua voz depois que troquei o Rio por São Paulo, ou seja, depois dos meus 25 anos de idade, momento em que atingi o primeiro estágio da maturidade. Meus difíceis primeiros anos na Selva de Pedra do Planalto de Piratininga foram embalados pela presença doce da arte de Gracinha com Índia, Fa-Tal, Gal Tropical e o lendário disco que tem "Divino, Maravilhoso" e "A Coisa Mais Linda que Existe". Meu mundo se tornou bem melhor por causa dela.


Desde que comecei a escrever os textos do Trovas de Vinil, ela passou a ser uma presença constante, uma figurinha mais do que carimbada. Ou mais do que isso: passou a ser a inspiração de vários dos meus sentimentalismos musicais que eu tentei verter em forma de crônica. Vibrei intensamente com a indescritível estranheza áspera de Recanto, álbum e show que trouxe Gracinha de volta para os braços do público depois de anos fora dos palcos e dos discos. No entanto, fiquei ainda mais animado com a leveza e a ousadia de Estratosférica, CD lançado por Gal no primeiro semestre de 2015 e que reúne veteranos e músicos menos conhecidos dos ouvintes da dita "música brasileira tradicional". Kassin, Moreno Veloso e Marcus Preto conseguiram fazer com que Gal Costa soasse irrepreensivelmente contemporânea para aqueles que ouviriam sua voz ao fim da primeira metade dos anos 2010 sem que ela soasse modernosamente pretensiosa ou excessivamente revisionista. As canções não reuniam a aspereza radical de seu trabalho anterior: havia uma alegria colorida ensolarada ausente na escuridão de poucos anos antes. Enquanto os puristas e críticos mais chatinhos resolveram cair de pau na nave musical de Lady Gal, decidi voar pelos céus de brigadeiro que a eterna musa tropicalista resolvera abrir para nós sem um pingo de medo e com a plena esperança de reencontrá-la onde ela reina com toda a graça: nos palcos...



Depois de uma tentativa frustrada no início de 2015, finalmente conseguimos assistir uma belíssima apresentação do recital Espelho D'Água no local mais apropriado para cultuarmos a arte da eterna musa das lendárias dunas de Ipanema: o Teatro J. Safra, devidamente acomodado na primeira fila da sala de espetáculos, sem a interferência de garçons, lanternas, garrafas de cerveja ou fãs desejosos em tirar selfies (existe breguice maior a ser cometida em um show, gente?) de frente para o artista que se apresenta em cena aberta. Seguindo às preciosas orientações de Marcus Preto em relação à direção artística e de repertório, Gal Costa reuniu alguns lados B de seus discos ("Caras e Bocas", "Tuareg", "Passarinho") e algumas inéditas para o show, no qual era acompanhada somente por Guilherme Monteiro na guitarra e no violão. As apresentações, que ocorreram entre meados de 2014 e meados de 2015, foram não apenas uma oportunidade para que público e artista revisitassem um legado de décadas, como também serviu para que esperássemos com ansiedade o que Gracinha iria aprontar nos palcos com a estreia da turnê Estratosférica.


Pouco tempo depois de nos sentirmos arrebatados pelo belo recital, estivemos frente a frente rapidamente com a eterna musa do Tropicalismo em uma noite de autógrafos do CD em julho de 2015. Gal foi de uma atenção e de uma simpatia tão grande conosco que foi impossível não esconder o meu sorriso largo, torto e imperfeito de ter trocado algumas palavras com ela, ganhar um autógrafo e tirar uma foto para eternizar esse momento tão especial para nós.



A estreia da turnê coincidiu com um marco histórico pessoal de extrema importância para Gal Costa: o primeiro show foi no mesmo final de semana em que a artista completou 70 anos de idade. A comemoração se deu em cima do palco, celebrando o amor pela música e cinco décadas de uma carreira dedicada ao que existe de melhor em matéria de canção neste país. Em outras palavras, a festa de Gracinha tornou-se de todos os que admiram o seu trabalho e a sua trajetória pelas artes do Brasil. Pronta para voar intensamente, a nave pousaria em São Paulo para uma única noite depois de passar por Salvador, Goiânia, Rio de Janeiro e outras cidades. Para que o evento se tornasse algo extremamente forte, expressivo e simbólico, o setlist de Estratosférica contou com uma entrada triunfal: a já antológica "Sem Medo Nem Esperança", composta por Arthur Nogueira e Antonio Cicero ("Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo / Nem esperança // Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura do que há por fazer"...), se funde com o lendário rock "Mal Secreto" (Jards Macalé & Waly Salomão), já cantado por Gal durante a inesquecível temporada de FA-TAL: Gal a Todo Vapor ("Não choro / Meu segredo é que sou / Rapaz esforçado / Fico parado, calado, quieto / Não corro / Não choro / Não converso / Massacro meu medo / Mascaro minha dor / Já sei sofrer"). Minha surpresa ao ver nos vídeos gentilmente compartilhados pelos fãs de Gracinha pelo YouTube e pelo Facebook que nossa musa estava em uma excelente forma e deixando muita popstar a ver navios.


A nave musical capitaneada por Gal, Guilherme Monteiro (guitarra), Pupillo (bateria e direção musical), Fábio Sá (baixo) e Maurício Fleury (teclados) não perde altitude com a presença de peso de "Jabitacá" (Júnio Barreto, Lirinha & Bactéria), "Não Identificado" (Caetano Veloso) e "Namorinho de Portão" (Tom Zé). Já as inéditas "Ecstasy" (João Donato & Thalma de Freitas) e "Casca" (Alberto Continentino & Jonas Sá) conferem arrojo e modernidade para o repertório de uma das cantoras mais modernas do país. Antes do número seguinte, a pungente "Dez Anjos" (Milton Nascimento & Criolo), problemas de som da guitarra de Guilherme obrigam a bela Gracinha a interromper o espetáculo, enquanto os técnicos resolviam o problema. O público, ao invés de ser presenteado com um típico e autêntico piti de uma grande estrela da canção, foi presenteado com (sim, acredite!) uma PIADA contada por Gal Costa. O talento de piadista da filha de D. Mariah está longe de ser o mesmo que ela possui para o canto, entretanto a intenção em suavizar um momento tão tenso em uma apresentação ao vivo contando um fato tão tosco e pitoresco foi de uma simplicidade tão grande que rendeu ainda mais a minha admiração.

O roteiro do show ainda nos trouxe surpresas regadas a canções inéditas na voz de Gal e lados A e B que foram excelentemente repaginados para a versão ao vivo de Estratosférica. O resgate de canções de discos menos clássicos como "Cabelo" (Arnaldo Antunes & Jorge Benjor) e "Arara" (Lulu Santos) foram surpreendentes até para os fãs mais radicais do trabalho de Gracinha. A inclusão de "Cartão Postal" e de "Os Alquimistas estão chegando os Alquimistas", duas das faixas mais belas dos discos mais importante de Rita Lee e Jorge Benjor - Fruto Proibido (1975) e A Tábua de Esmeralda (1974) - no setlist nos deu a impressão de que estas canções sempre fizeram parte do repertório mais clássico de uma das cantoras mais importantes do Brasil. Já a presença da infinitamente tristonha "Três da Madrugada" (Torquato Neto & Carlos Pinto) e da singela "Sim, Foi Você" (Caetano Veloso) renderam os momentos mais poéticos da apresentação. Por fim, a sequência que une as releituras bluesy com sotaque eletrônico de "Como 2 e 2" (Caetano Veloso) e "Pérola Negra" (Luiz Melodia) é arrebatadora ao ponto de deixar o público com a respiração entrecortada.

Quando damos por conta de que o show chegava ao fim, mais de noventa minutos já tinham se passado sem que a gente desse por conta de tal fenômeno. Gal e seus navegantes estratosféricos saíam para detrás do palco e já preparavam a nave para que ela decolasse novamente. A bela setentona retornou ao palco e cantou "Meu Nome é Gal" (Roberto Carlos & Erasmo Carlos), a canção que se tornou em sua marca registrada definitiva há mais de quatro décadas. A turma que fazia a cabeça de Gracinha em 2015 ainda possui alguns nomes davam o tom em 1969 - Caetano, Gil, Jorge Benjor, Tom Zé, Roberto, Erasmo e alguns outros nomes ainda estão por lá, no entanto a nave musical de Gal Costa pousou por outras paragens, tais quais as de Milton Nascimento, João Donato, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Guilherme Monteiro, Pupillo e alguns outros... Tal qual a Gracinha recém-egressa da Bossa Nova é que tinha caído de cabeça no movimento tropicalista, a Gal Costa recém-chegada ao clube dos setentões ilustres da música brasileira ainda possui a crença na importância do amor para que as coisas da vida lhe fizessem sentido. O tal "rapaz" que ela procurava para corresponder o seu amor anos atrás foi encontrado. Ele lhe ama incondicionalmente há mais de quatro décadas: seu nome é público. Em alguns momentos, o dito cujo pode não possuir a "cultura" necessária para compreender os meandros e sutilezas de uma artista, mas nunca duvidou do sentimento e da importância da filha de D. Mariah para as artes do planeta.



E, enfim, a nave musical de Gal Costa voou com destino a outra galáxia para animar outros terráqueos que ainda se encantarão com o seu canto límpido e cristalino. Apesar de termos sentido falta de outras canções no setlist ("Vaca Profana" e "Átimo de Som", por exemplo) o show Estratosférica foi um evento notável e digno para que não possamos esquecer que Gracinha ainda é uma das cantoras mais importantes do Brasil. E, se depender da vitalidade que temos visto pelos palcos afora, teremos muito o que dizer acerca da arte de Maria da Graça Costa Penna Burgos... para a plena alegria dos amantes da boa música!


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