16 de janeiro de 2016

TROVA # 65

  
UM E-MAIL PARA O HOMEM DAS ESTRELAS

Em memória de David Bowie (1947-2016)


Dear Mr. Bowie,

Permita-me uma breve apresentação: meu nome é Vinícius. Sou professor de línguas. Brasileiro. Vivendo a plenitude de um inferno astral que precede os meus 35 anos de idade, como bom aquariano. Já escrevi um livro e mantenho este blog sobre música. Minha percepção sobre música e arte mudou quando eu comecei a assistir a antiga MTV brasileira em meados dos anos 1990 e via os seus videoclipes. Desde então, sempre fiquei de olho no que o senhor estava fazendo de bom. Até o momento em que decidi te escrever...


Queria ter te escrito no dia 8 de janeiro de 2016, dia do seu último aniversário para te parabenizar pelos seus 69 anos. Infelizmente não consegui, por algumas questões paralelas, indignas de serem expostas aqui. Vi uma foto sua no Instagram da Iman bem vestido, com um sorriso bem largo, terno elegante, radiante como nunca e vi o quanto o senhor estava feliz e contente por completar mais um ano de vida e por lançar seu vigésimo-quinto álbum de estúdio. Achei menor deixar minhas palavras para o dia em que completasses sete décadas de vida neste planeta azul. Mas o destino veio e nos deu uma rasteira daquelas, né?


No dia seguinte, depois de ouvir seu Blackstar, fui ao cinema e depois saí para almoçar em um restaurante indiano. Enquanto esperava na fila do almoço que parecia não terminar nunca, comentei com amigos a respeito da sua boa forma artística e que seu disco era lindo. Lindíssimo. Profundo. Sensível. Recebi um convite de meu brother Fábio Bridges para escrever sobre o seu disco e aceitei lisonjeado e desesperado com a responsabilidade gigantesca de escrever sobre um lançamento. Escrever bem sobre o Senhor não é tarefa das mais fáceis. Principalmente sendo um estudioso. Principalmente quando não é a primeira vez que você escreve sobre a obra de alguém importante e que você nutre um profundo respeito. Principalmente quando muito já foi dito e escrito sobre ti e a sua obra. Principalmente quando a gente é fã. No entanto, "Boys keep swinging, boys always work it out", como você dizia lá no Lodger...


Eis que acordo na segunda-feira, 11 de Janeiro de 2016, abro o feed de notícias das redes sociais e vejo uma noticia que supostamente seria um boato. Ao ler tudo e confirmar que tudo fora endossado por seu filho Duncan, não nos restava dúvidas: David Robert Jones perdera a batalha da vida para o câncer após um ano e meio de luta secreta sem trégua; nosso herói nos deixara. E nem sequer se despediu de todos nós. O choque foi imenso. O choro foi instantâneo. A dor era incalculável. As mensagens chegavam de vários lugares do mundo sem parar. Não conseguia sequer pensar e escrever direito. David Bowie estava morto depois de 69 anos de convivência neste planeta. Um golpe que nem que Ziggy Stardust teria pensado...


Foi na segunda-feira mais maldita de todos os tempos, ao ouvir Blackstar, que eu percebi junto com o resto dos fãs do planeta de que, na verdade, o homem que nunca nos dizia bye bye, fez uma tentativa e tanto de se despedir de todos nós. O vigésimo-quinto álbum de David Bowie era o seu canto de despedida do público que o amou por quase cinco décadas ininterruptas. Os dois videoclipes eram encenações de um drama pessoal, de uma tragédia anunciada. A morte ronda os clipes da faixa-título do CD e de "Lazarus" e faz as honras da casa. Percebemos a gravidade de tudo quando era tarde demais, mas sem deixar de concluir o gênio que havia por trás do artista que conseguiu fazer do seu sofrimento mais intenso uma verdadeira obra de arte. Você já estava in heaven com todas as suas cicatrizes invisíveis quando percebemos o chamado... Ao contrário do personagem bíblico, não tinha a menor possibilidade do seu renascimento no quarto dia... Como diria a sua canção, hoje: "Now my death is more than just a sad song" [Agora minha morte é mais do que apenas uma canção triste]...


E o mundo, crente que senhor vivia o ápice dos seus golden years, se surpreendeu com a sua partida repentina em um rabo de foguete para desbravar os céus que ansiosamente te aguardavam para saber se realmente existe vida em Marte ou não. Afinal, tu foste, na verdade, um invasor do espaço, uma rock 'n' rolling bitch que veio para mudar os rumos da música, do comportamento e tudo que estivesse em volta. Cair aqui na Terra só para fazer alguns shows e discos por cinco aninhos em um planeta condenado com a possibilidade de fazer isso por quase cinquenta?! E ainda com o bônus de conhecer gente legal, provar de todos os clichês do trinômio sexo, drogas & Rock 'n' Roll com bastante intensidade? E ainda por cima ser casado com a modelo negra mais linda do mundo?! O senhor vai ter milhares de histórias para contar aí para as estrelas e fazer com que elas fiquem freaking out no seu moonage daydream, aposto...



A música de qualidade se tornou aquilo que o Senhor profetizava com o seu "DJ", de 1979: muita coisa boa veio daquilo que tocava nos seus discos, na sua trilogia de Berlim arrasadora, no seu convite irresistível para sair dançando, afinal nós ficamos face a face com o homem que vendeu o mundo por mais de 40 anos. O planeta Terra fica sem o mais elegante dos roqueiros ingleses, menos criativo, como uma slow burn permanente. Ficaremos uma verdadeira mess sem a sua honorável presença, mas teremos o seu legado para nos ajudar com a dor da sua ausência e para nós lembrarmos de que não estamos sozinhos. Sonho com um dia andar pela Av. Paulista, sempre tomada por covers de Elvis e Michael Jackson, tomada por covers do senhor, sabe? Quem sabe daqui a 30 anos vemos imitações distintas de David Bowie espalhados pela mais paulistana das avenidas? Seria uma bela utopia...
  

Decidimos que não vamos ficar apenas de luto pela sua partida prematura, Mr. Bowie. Temos feito várias comemorações, celebrando sua obra musical e cinematográfica. People on the streets, mas não para dizermos que estamos under pressure. Estamos nas ruas, nas praças, nos cinemas, nas livrarias e demais esferas do espaço público dançando com os nossos sapatos vermelhos imaginários para disseminar sua sound & vision pelos quatro cantos e agradecermos ao senhor por tudo que fizestes pela mentalidade deste planeta. A terra é azul e não havia nada a ser feito, o mundo era careta e muitos esforços foram feitos para que ele se tornasse melhor. Sua contribuição foi fundamental para que isso acontecesse...

Não quero mais me alongar, Sr. Bowie. Sei que o senhor deve ter milhares e milhares de correspondências para responder, por causa da sua mudança de endereço e ainda deves ser um absolute beginner na arte dos e-mails interestelares. Que tal aproveitar um pouco do seu tempo também para cantar a noite todinha, como em Lady Stardust? As estrelas ficariam loucas com o seu charme inconfundível. Ou então, fazer como o Thin White Duke e sair lançando dardos nos olhos apaixonados das stars? Elas nem sentiriam, eu te garanto... Agora o senhor vai ser o starman oficial a nos esperar aí no céu, pronto a fundir com as cucas dos presentes e dos que estarão por vir. Quando tiveres um tempinho e se puderes, é lógico, responda este carinhoso e-mail. Ou, se rolar uma permissão por parte do divino e ele te disser algo como: "Wake up you sleepy head / Put on some clothes, shake up your bed" para fazer uma visita por aqui, estaremos esperando com todo o carinho.


Descanse por ora, Mr. Bowie. Sua agonia foi longa. Seu sofrimento deve ter sido intenso. Como o bluebird de "Lazarus", estás finalmente livre de tudo isso. Turn and face the strange. Vai ser difícil para ti, tem sido difícil para nós, para sua família deve ter sido de uma dificuldade que não podemos calcular. O senhor foi o herói de muitos dos nossos dias e não apenas de um dia só. Muito obrigado por tudo!

Um forte abraço, com todo o amor, o carinho e a admiração do
Vinil


LEIA OS TEXTOS ESCRITOS SOBRE OS DISCOS DE DAVID BOWIE PARA O PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS:

[Blackstar] (2016)

Live in Santa Monica ’72 (2008)

Let’s Dance (1983)

Young Americans (1975)

Diamond Dogs (1974)

The Rise and Fall of Ziggy Stardust from Mars (1972)

4 de janeiro de 2016

TROVA # 64


UM E-MAIL PARA UMA VOZ INESQUECÍVEL

Em memória de Natalie Cole (1950-2015)



Dear Natalie Cole,

Meu nome é Vinícius, me chamam de Vini ou Vinnie, por estas bandas eu sou o Vinil que é dono destas humildes Trovas. Sou apaixonado por versos e sons e mantenho um Blog como uma maneira de me comunicar com os outros através da nossa tão amada música. Sou brasileiro, com orgulho ferido e com um amor inabalável pelos sons do meu país e pela música do mundo, especialmente dos EUA, país que te deu régua e compasso, tal qual falamos por aqui.


Em meio a tanta gente boa que nos deixou em 2015, tivemos mais uma baixa lastimável! Você nos deixou discretamente no último dia do ano, enquanto celebrávamos os 365 dias que iam embora e esperávamos os 366 bissextos que estavam por chegar, vítima de uma hepatite C e de um transplante de rim, depois de anos e anos de luta contra a doença. O universo te concedeu apenas 65 anos entre nós. Em um mundo cada vez mais carente de belas vozes, sua partida tão precoce é muito, muito sentida...


Natalie, eu me lembro de ouvir sua voz lindíssima quando estava entrando na adolescência, por causa de sua regravação de "Unforgettable", tema de uma das personagens da novela "O Dono do Mundo", de Gilberto Braga. Eu devia ter uns 10 anos de idade e fiquei encantado com aquela melodia tão doce, romântica e adoravelmente nostálgica - isto lá pelos idos de 1991/1992 era sinônimo de "música de velho" durante o auge dos movimentos musicais de Seattle. A trilha sonora que ouvíamos no carro do Rio para Santos, onde meu Pai morou por alguns anos durante o início da década de 1990, eram as fitas K7 com as trilhas sonoras de novela. Sua voz, Ms. Cole, estava lá. A de seu pai também. E foi deste jeito que eu fui iniciado à música de primeiríssima qualidade.


Minha Tia Marlene adorava ouvir a sua voz. Ela tinha alguns de seus CDs, que volta ouvia quando eu ia visitá-la em seu apartamento da Tijuca em meados dos anos 1990. Fecho os olhos e ainda me lembro dos acordes da orquestra tocando "Take a Look" e "Cry Me A River" ecoando pelos cômodos daquele modesto apartamento. Quando ouço essas gravações de anos e anos atrás, me aproximo daqueles que não estão mais aqui para apreciar os clássicos da música. Isso ajuda a amenizar um pouquinho a velha saudade que temos daqueles que já se foram...


E devo a ti, Natalie Cole, o fato de ter conhecido a obra de seu Pai, Nat King Cole, um dos maiores gênios da música deste planeta. Se eu pudesse ter tido um encontro face to face contigo, eu gostaria de te agradecer pelos três discos belíssimos nos quais você reverencia o legado de um dos pilares da música norte-americana, sua referência musical primeira, seu Mestre maior, nossa referência de bom gosto. Trazer a música de Nat King Cole para os barulhentos anos 1990 e a nefasta década de 2000 com reverência e respeito é uma tarefa que só poderia ser executado por uma portadora de um DNA musical, ou seja, pela herdeira musical de um dos maiores nomes do jazz norte-americano.



O que eu achava mais encantador nas poucas vezes em que vi seus shows pela TV ou pelo YouTube eram a sua elegância e o seu sorriso. Isso sem mencionar a beleza e a extensão da sua voz. E só fui saber depois da sua partida deste plano que você regravou Neil Young, Sting e Caetano Veloso, para minha plena surpresa. E graças aos serviços de streaming, consegui me lembrar da sua regravação de "Criminal", de Fiona Apple, uma das compositoras de que eu mais gosto e da qual as pessoas não costumam lembrar muito. E como não esquecer o seu dueto memorável com Frank Sinatra no primeiro CD Duets, que o artista dono dos olhos azuis mais musicais do planeta nos ofertou em 1993? Cantar os irmãos Gershwin através da sua voz aveludada foi um rito de iniciação perfeito para a nata da canção norte-americana. Devo esta a Sinatra, assim como devo a ti.


Descanse em paz, Natalie Cole! Que os anjos te recebam cantando tão belamente quanto você cantou para todos nós! E quando este mundo estiver tão triste e pesaroso de se viver, eu terei o meu pensamento mais profundo na beleza da sua voz: assim eu terei a certeza mais profunda de que ainda há beleza nas coisas que fazemos, vivendo em um tipo de sonho. Daqueles que só uma voz inesquecível sabe nos conduzir, sem ter vontade de acordar...

Unforgettable... With Love (1991)


 

Stardust (1996)

Still Unforgettable (2008)


Um beijo musical do seu admirador brasileiro 
Vinil


31 de dezembro de 2015

2015 | 2016



E chegamos a mais um final de ano. 2015 foi, sem a menor sombra de dúvida, o nosso ano mais produtivo: o blog Trovas de Vinil teve um total de mais de 13 mil visualizações a partir de 63 crônicas musicais, sendo que 20 destes textos foram inéditos. 

Isto se deve a algo que vai além de uma mera realização pessoal, mas a uma vontade de tornar este espaço algo cada vez mais interessante para quem o lê. E é por isso que eu gostaria de agradecer a cada um de vocês que visualizaram, leram, comentaram e compartilharam estes escritos por aí. 

Além disto, 2015 foi um ano crucial para minha história: finalmente consegui lançar meu primeiro livro! O Doce & O Amargo do Secos & Molhados é mais do que um mero produto de 15 anos de pesquisas dedicadas à música popular, ele é a realização de um sonho antigo de suma importância para mim! 



Que em 2016 a música continue nos unindo e mantendo a vontade que existe em cada um de fazer um mundo melhor. Que no próximo possamos continuar falando sobre todos os tipos de música de qualidade e que nos tocam profundamente. Desejo do fundo do meu coração que os próximos 365 dias não passem tão rápido como os de 2015, tal qual nos aludem os versos inteligentíssimos de Rita Lee:



Feliz Ano Novo!

Um abraço do
Vinícius
(Vinil)

30 de dezembro de 2015

TROVA # 63


 ELZA SOARES DA VIDA


"Desde que me entendo por gente
Elza Soares da vida
Dar armas brancas, químicas, quentes
Música é a preferida
Eu disse
Dar armas brancas, químicas, quentes
Música é a preferida

Desde que me entendo por gente
Eu sambo, eu faço o que gosto
My soul is black, meu sangue é quente
Eu quando gosto, me enrosco
Eu disse
My soul is black, meu sangue é quente
Eu quando gosto, me enrosco

Desde que me entendo por gente
Difíceis momentos tristes
Vivus vi veri vici noutros continentes
Eu sei que o amor resiste
Eu disse
Vivus vi veri vici noutros continentes
Eu sei que o amor resiste.
"

("Elza Soares" - Itamar Assumpção - Canção que o Nego Dito escreveu para a musa de Garrincha e que é a última faixa de Pretobrás II: Maldito Vírgula [2010]).


Elza Soares é uma daquelas atrações musicais brasileiras que já deveriam ser classificadas como verdadeiras instituições. Daquelas que deveriam ser tombadas pelo patrimônio histórico da humanidade. Por sua história, por seu tempo de atividade, além de seu talento. São mais de 50 anos de música, 78 anos confessos de idade, 85 de acordo com alguns jornalistas e 350 anos segundo as minhas prerrogativas - porque se a gente envelhecesse a cada golpe fatal que a vida nos oferece, Elzinha teria uma lista infinita de dores e amores para nos ofertar...




Minha primeira memória da musa mais célebre de Garrincha data dos meus primeiros anos da Faculdade de Letras, quando eu era um jovem encantado com a MPB de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Ouvi a gravação antológica de "Língua", de Caetano, e fiquei embasbacado com aquela voz rouca, que perguntava o que nossa língua portuguesa queria e podia fazer por nós. A cada ganido, grito rouco e pinote dela eu tinha a plena certeza de que Elza Soares devia ter vindo de outro planeta. O da fome, como ela disse pra Ary Barroso, lá no início de sua carreira:

"- De que planeta você está vindo, minha filha?! - indagou Ary [Barroso], assustado.
- Do planeta fome!
Como que entendendo o recado, ele parou de rir e anunciou que Elza Soares cantaria "Lama". De Paulo Marques e Ailce Chaves. O conjunto atacou a introdução - fá sustenido. Orós encarou a garota e sorriu. Ela respondeu com a mesma alegria e pôs-se a cantar, botando na voz te a a sua força interior, suas angústias, sonhos e esperanças. Muitos espectadores puseram-se de pé para aplaudi-la. Ary se impressionou com seu dinamismo e potencial vocal. Chegou à segunda pede com redobrado vigor. Decidiu, também, exibir seu lado de atriz, da menina que pedia esmola nas calçadas da Central chorando para conseguir os trocados da passagem.

Mais palmas surgiram de todos os cantos do auditório. Ao final da interpretação, aplausos entusiasmados e pedidos de bis. Elza foi aclamado como a grande vencedora da noite e repetiu a canção. Ary abraçou-a e beijou-a. Teria que voltar à emissora bom-dia seguinte para receber o prêmio."

LOUZEIRO, José. "Elza Soares: Cantando Para Não Enlouquecer". São Paulo: Ed. Globo, 1997, p.47.





Presenciei pela primeira vez o vigor de Elza Soares em cena lá pelos idos de 2004 ou 2005 quando fui ver uma apresentação de Vivo Feliz no Teatro Rival. Antes de surgir em cena, fomos surpreendidos com o palco escurecido, os músicos paralisados e Elza cantando uma versão lancinante de "O Meu Guri" (Chico Buarque) à capella. Pouco depois, ela surgia em cena, deslumbrante em seu vestido curto, sua peruca black power e cantando, ganindo e sambando loucamente em cima de seu salto plataforma 15. O que foi mais arrebatador foi o momento no qual a cantora deixou de necessitar do microfone para cantar e deixou o aparato no chão e cantou para a multidão sem a necessidade de poses ou artifícios. Nada tinha sido mais digno de coragem para mim até aquele momento...



Alguns anos depois, já devidamente adaptado a São Paulo, soube em meados de 2007 que Elza iria gravar um DVD ao vivo no SESC Vila Mariana. Ficamos tão felizes com a possibilidade de assistir a um novo espetáculo que ainda por cima daria seria eternizado em imagem e som diretamente da primeira fila que mal podíamos conter a excitação. No entanto, fomos surpreendidos com a infeliz notícia de que o show e a gravação seriam cancelados devido ao fato de que Elza Soares teve que ser internada às pressas pra tratar de um problema de coluna grave. O evento foi remarcado para uma data a qual infelizmente não poderíamos comparecer. O resultado final foi Beba-Me, um dos espetáculos mais belos de toda a carreira de uma das cantoras mais importantes da música brasileira. Fiquei muito desapontado de não ter presenciado aquele momento...


As internações recentes deixaram claro que o estado físico de Elza Soares tinha sido deveras abalado pelas batucadas da vida afora. Sua voz ainda era a mesma, porém as dores nas costas lhe obrigavam a fazer seus shows sentada, o que lhe impedia de sambar freneticamente em cima de um salto 15. Mesmo assim, fomos assistir a uma apresentação da Diva Negra ao lado do violonista João de Aquino no saudoso Teatro Fecap lá pelos idos de 2010 ou 2011. O cansaço extremo de um professor horista, extenuado em ter que trabalhar por horas e horas durante a semana inteira e no dia do show (um sábado) não me permitiu que eu aproveitasse o show do jeito que eu deveria: dormi em alguns trechos, tomado pela mais absoluta exaustão. Se arrependimento matasse, minhas cinzas já estariam voando por aí há bastante tempo...



Foi em 2015 que finalmente reencontrei Elza Soares. E este reencontro foi de uma maneira tão ocasional e tão avassaladora que não posso deixar de descrever tamanho impacto. No início de outubro de 2015, envolto em milhares de obrigações profissionais, soube que o show baseado no CD A Mulher do Fim do Mundo estrearia em São Paulo no mesmo final de semana em que eu teria que me ausentar da cidade. Ao retornar para Sampa e ver trechos das apresentações que tinha perdido no YouTube, vi que Elza ainda conseguia arrebatar plateias inteiras com o simples e atômico impacto de sua voz ao nos pedir, clamar, implorar para que ela continuasse a cantar.




Ouvi o CD e fiquei impactado com a modernidade, a ousadia e coragem que emanam daquela mulher de 78 anos. A Mulher do Fim do Mundo fez com que os mais tradicionalistas torcessem o nariz, mas encantou milhares de outros e (até onde bem sei...) tem vendido bastante. Elza Soares tem feito shows em casas lotadas e eu tive a honra indiscutível de vê-la cantar no início de dezembro de 2015, no Teatro do SESC Pompeia: nunca tinha visto nenhuma artista ser aplaudida tantas vezes em cena aberta. Ah, um detalhe importante: de pé! Outro detalhe fundamental: ela consegue manter seu domínio pleno em cena sentada no topo de um trono, como uma rainha ao cantar e vislumbrar seu próprio universo em decomposição e desespero.


O que explica o sucesso avassalador deste projeto de Elza Soares? Primeiramente porque é o retorno de uma das artistas mais revolucionárias da música brasileira aos palcos e ao disco. Em segundo lugar, A Mulher do Fim do Mundo é um disco arrojado, urbano, fortíssimo e que atira as verdades na cara do ouvinte sem um pingo de dó. Terceiro e mais importante de tudo: Elza não tem o menor pudor em expor seus sentimentos mais intensos em praça pública, o que nos conecta ao nosso fosso emocional mais profundo. É por isso e tudo o mais que a aplaudimos sempre que possível. Entusiasticamente. E de pé!






Ver e ouvir a eterna musa de Garrincha cantando intensamente, lançando mão de suas químicas quentes e de suas armas brancas em um universo de estrelas Pop de brilho efêmero e fabricado é ter a concreta esperança de que ainda existe salvação no meio musical brasileiro. Em um ano de perdas tão lastimáveis como foi o ano de 2015, ver Elza Soares cantando por aí é um ganho impressionante. Sem tamanho. Do tamanho do mundo que encaminhamos para o fim. Do tamanho do amor pelas coisas que ainda resiste...

LEIA MAIS SOBRE O CD A MULHER DO FIM DO MUNDO,
DE ELZA SOARES, PARA O BLOG PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS:


OUÇA CD A MULHER DO FIM DO MUNDO,
DE ELZA SOARES, NA ÍNTEGRA:

22 de dezembro de 2015

TROVA # 62

CHICO BUARQUE ENTRE A TELONA DO CINEMA & A TELA DA TV

(5 motivos para ir ao cinema assistir Chico – Artista Brasileiro e 5 motivos para esperar este filme sair em DVD)



A música brasileira tem recebido documentários maravilhosos sobre vários de nossos artistas. Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Tom Jobim, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Raul Seixas, Jorge Mautner, Luhli & Lucina, Elza Soares, a Era dos Festivais e a Tropicália foram homenageados com toda a pompa e circunstância necessária e merecida por cineastas jovens e experientes. Fiquei bem animado quando soube que Miguel Faria Jr. tinha feito um documentário sobre Chico Buarque e resolvi ir ao cinema assim que as férias batessem a minha porta.

Miguel Faria Jr. & Chico Buarque

Documentários não atraem um público muito extenso: geralmente, em menos de um mês, eles não ocupam mais as salas principais de cinema no Brasil. A preferência do público por blockbusters como Harry Potter, The Lord of The Rings ou Star Wars em tempos nos quais MPB não é mais consumida por um grande número de pessoas é avassaladora. Como consequência, a oferta de cinemas que exibiam o documentário de Miguel Faria Jr. era bem reduzida em uma cidade grande como São Paulo (4 cinemas ao todo!) em pleno final de dezembro.
 Ingressos comprados, assentos tomados, quase prontos para o início de mais uma experiência cinematográfica, exceto... a falta de educação de mais da metade do público da sala de cinema, que foram ao Cine Belas Artes para ver o Pop Star Chico Buarque, não o artista Chico Buarque, o escritor Chico Buarque, o homem público Chico Buarque. Órfãos de turnês extensas do cantor e compositor de "A Banda", mais da metade das pessoas que estavam ali se comportavam como se estivessem em uma casa de shows: falando alto, comentando o filme como se fosse uma partida de futebol ou a novela da Rede Globo. Se houvesse um garçom, bebidas seriam requisitadas em um pronto estalar de dedos e os meus instintos mais antissociais e psicopatas poderiam aflorar dentro de uma sala do Cine Belas Artes. Fui contido. Ainda bem.

Estes motivos seriam suficientes para que eu esperasse Chico – Artista Brasileiro sair em DVD e eu pudesse assistir cada detalhe na santa tranquilidade do meu HD e no silêncio do meu quarto. No entanto, resolvi enumerar alguns motivos, digamos, mais técnicos para justificar minha falta de vontade de voltar a assistir esta película no cinema:

1) A pobreza de depoimentos da família de Chico Buarque
Apesar do documentário focar na trajetória artística de Chico, há um pecado mortal em não termos nenhuma espécie de testemunho de sua ex-mulher, Marieta Severo, e de suas filhas e de seus netos. A única presença familiar que concedeu depoimento para Chico – Artista Brasileiro foi de Miúcha, sua irmã mais velha.


2) A ausência sentida de vários parceiros e intérpretes de Chico
Como Francis Hime, Luiz Cláudio Ramos e Paulo Pontes foram esquecidos / ignorados em uma ocasião tão simbólica? Nara Leão, Bibi Ferreira e Maria Bethânia - intérpretes significativas da obra de Chico – mal aparecem no filme; Elis Regina, Gal Costa, Fafá de Belém, Elza Soares, Simone, Cauby Peixoto, Marisa Monte, Cida Moreira e outras foram sumariamente ignoradas.

3) A presença desnecessária de certas interpretações da obra de Chico
Em primeiro lugar, não consigo conceber o porquê de uma cantora de nacionalidade portuguesa ter que interpretar a obra de um artista brasileiro com tanta cantora brasileira de calibre e envergadura dando sopa por aí! A presença de Carminho em DOIS números do documentário de Miguel Faria Jr. é completamente desnecessária: as canções de Chico se tornam em dois lamentos lusitanos sofridos, que nos faz ter saudades de Amália Rodrigues. A escolha de Moyséis Marques e Péricles para interpretar dois dos sambas mais importantes do repertório buarqueano - "Mambembe" e "Estação Derradeira" - ao sabermos que existem sambistas experientes como Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira foi, no meu ver, leviana.

Milton Nascimento ao lado da cantora portuguesa Carminho


4) Os inevitáveis cortes no documentário
Fiquei bem triste ao saber que Laila Garin tinha gravado uma versão para "Bastidores", uma das canções mais belas de Chico. Uma baixa dessas diante de dois números com Carminho é, no mínimo, de gosto duvidoso...

5) O incentivo à "Chicolatria"
Chico - Artista Brasileiro, apesar de possuir momentos de puro humor, peca por, indiretamente, incitar a clássica "Chicolatria" por parte daqueles que se interessam pelas peripécias do Sr. Buarque. Ele é digno de nossa admiração e de nosso respeito, não de nossa idolatria cega, tal qual da metade das pessoas que estavam na sala de cinema na noite em que eu estava lá...

Entretanto, as duas longas horas do filme de Miguel Faria Jr. possuem alguns aspectos encantadores, que valem a ida ao cinema e não poderíamos deixar de apontar aqui. Vamos enumerar um por um?

1) A quebra de alguns mitos populares em torno da figura de Chico Buarque
Sempre fomos levados a crer que Chico era um homem tímido, que detesta fazer shows e etc e tal. Não necessariamente: conhecido pelos familiares como "showboy" quando criança, o Sr. Buarque realmente não é muito dado a longas temporadas para promover seus discos. Além do mais, o extremo humor é muito mais aparente do que a aparente timidez do artista.


2) Alguns números musicais do documentário
Miguel Faria Jr. conseguiu fazer algumas escolhas bastante acertadas para as interpretações que aparecem em Chico - Artista Brasileiro: Ney Matogrosso fez uma releitura emocionante de "As Vitrines" (inédita na sua voz até a realização desta película); Mônica Salmaso fez uma interpretação pungente de "Mar & Lua"; Mart'nália & Adriana Calcanhotto protagonizaram com perfeição o roteiro amoroso meio tortuoso, meio bem-humorado de "Biscate" ao sugerir uma relação entre duas mulheres; Laila Garin me emocionou ao retratar a mãe cruel de "Uma Canção Desnaturada".

Ney Matogrosso em uma das interpretações mais bonitas de toda a sua carreira...

3) As imagens de arquivo
Rever algumas imagens de arquivo e assistir outras raridades, tais como as fotos da montagem censurada de Calabar - O Elogio da Traição, imagens de D. Maria Amélia Buarque de Hollanda indo cumprimentar o filho famoso no palco no auge da era dos festivais ou algumas raríssimas filmagens de Chico durante o seu exílio em Roma já valeram a película de Miguel Faria Jr.


4) Um breve olhar sobre o Chico Buarque escritor
Os momentos do filme de Miguel Faria Jr. nos quais Chico comenta o ofício tardio da Literatura (ele começou a escrever seu primeiro romance, Estorvo, em 1989) e a repercussão diante de seus romances é algo infinitamente interessante. Alguns trechos de suas longas narrativas foram barrados pela já saudosa voz de Marília Pêra. Vale a pena conhecer esta faceta menos óbvia do Sr. Buarque...


5) A busca pelo irmão alemão
Um dos tabus mais latentes dos Buarque de Hollanda foi o fato de que o patriarca da família, o lendário historiador, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo Sérgio Buarque de Hollanda teve um filho com uma alemã durante a sua breve estadia em Berlim durante o período compreendido entre 1929-1930. Sérgio Günther (1930-1981), o irmão alemão de Chico Buarque, foi objeto de buscas do irmão brasileiro famoso e inspiração para o quinto romance de Chico. Miguel Faria Jr. nos mostra o processo de investigação para o encontro do paradeiro de Günther, que era cantor e apresentador de TV, com direito a um clipe do filho desaparecido do autor de Raízes do Brasil cantando para a TV alemã nos anos 1960. O que mais me impressionou foi a semelhança entre pai e filho, para deleite dos investigadores e de todos nós, espectadores.


Entre as perdas e ganhos de Chico – Artista Brasileiro, ficamos no zero a zero. Como critério de desempate, sugiro que as salas de cinema sejam a segunda opção para um provável DVD com extras e envolto em um belo package elegante, bem como merece a obra do Sr. Buarque. Assim, poderemos deleitar a beleza de sua poesia no melhor canto jamais inventado: no conforto e no sossego de nosso lar. Afinal, sem a presença de ninguém para perturbar a sua experiência fílmica, a tela do HD sempre será uma opção mais cômoda e reconfortante.