12 de junho de 2016

TROVA # 73

O AMOR EM TEMPOS DE PÓLVORA



Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá
(Milton Nascimento & Caetano Veloso, 1978)


There is good and bad in ev'ryone
We learn to live, we learn to give
Each other what we need to survive together alive
(Paul McCartney, 1982)


Twister does anyone see through you
You're a twister, an animal
But you're so happy now
I didn't go along with you
(Dolores O'Riordan & Noel Hogan, 1995)


Se Gabriel García Márquez fosse ainda vivo e tivesse que escrever uma crônica sobre o dia 12 de junho de 2016, ele poderia colocar o título do texto que escrevo neste momento sem a menor sobra de risco. Acordei no dia de hoje com a determinação em escrever algo sobre o Dia dos Namorados, que é comemorado a cada décimo-segundo dia do sexto mês do ano. No entanto, meus planos foram mais uma vez por água abaixo.
Fiquei perplexo em saber que um atirador tinha entrado na Pulse, uma das boates gays mais famosas de Orlando (FL, EUA) e executou 50 pessoas covardemente, deixando vários feridos. Motivado por homofobia, incomodado com a possibilidade de poder fazer justiça de acordo com os seus sentimentos mais perversos, realizou um ato de pura psicopatia e tirou a vida de dezenas de pessoas que estavam ali para se divertir, para celebrar o seu amor e o seu orgulho em não ter que se curvar às convenções e instituições que ainda fiscalizam a vida sexual de cada um.


O que me deixou ainda mais chocado foi saber que ataques à mão armada como o que ocorreu nos Estados Unidos vitimam milhares de habitantes. Ou seja, a maioria dos norte-americanos está completamente acostumada em saber pelos telejornais, por exemplo, de que facínoras saem com armas em punho todo santo dia motivados por uma série de motivos escusos (religiosos, especialmente) para matar qualquer indivíduo que não esteja de acordo com seus princípios antidemocráticos. Nada tão surpreendente para quem viu e viveu eventos históricos sangrentos como a fatídica Maratona de Boston, o massacre de San Bernardino, a execução na Columbine High School, o assassinato de John Lennon por Mark Chapman, o desaparecimento violento de Martin Luther King e dos irmãos Kennedy, os famigerados ataques de 11 de setembro de 2001.
É fato público e notório de que os Estados Unidos da América, obcecados por normas e mais normas de segurança (vide a burocracia infernal que nós, estrangeiros, enfrentamos ao adentrar qualquer aeroporto norte-americano), padecem de uma doença social agudíssima. Para curá-la existe um remédio amargo para alguns e necessário para todos: o desarmamento do cidadão comum. Enquanto armas continuarem sendo vendidas a torto e a direito para qualquer um comprar, o sangue de inocentes continuará a ser derramado em vão.


Lembro de uma polêmica ocorrida com a cantora norte-americana Sheryl Crow na ocasião do lançamento de seu segundo álbum, em 1996. Vale lembrar que só a capa do disco já demonstrava que a mocinha não estava nem um pouco interessada em ser uma pop star fofa e querida como Alanis Morissette ou Mariah Carey. Em uma das faixas do disco, “Love is a Good Thing”, disse a bela Sheryl despreocupada com a opinião de cachorros grandes: “Watch out sister, watch out brother, / Watch our children while they kill each other / With a gun they bought at Wal-mart discount stores” [Se liga, irmã; se liga, irmão / Veja nossas crianças matando umas às outras / Com uma arma que eles compram nas lojas de descontos do Wal-mart]. A resposta dos comerciantes foi o boicote massivo dos CDs da artista de todas as maneiras possíveis. Por outro lado, o respeito dos fãs por Miss Crow ter colocado o dedo em uma ferida tão aberta do povo de seu país só aumentou...



Tenho a esperança de que Sheryl Crow não seja uma voz isolada a cantar a necessidade de atitudes mais humanas e sensatas. Afinal de contas, amar sem barreiras e distinções em tempos de pólvora está se tornando uma tarefa praticamente impossível. Creio no amor como uma maneira de amenizar a cultura do ódio extremista que permeia as relações dos seres humanos no século XXI. Assim, o amor entre iguais – algo intolerável para conservadores, fascistas e facínoras de todos os tipos – deixa de ser visto como uma mera “ditadura da minoria” e passa a ser visto como um direito adquirido e que merece ser respeitado. Minha voz não soa em vão. Ela há de encontrar outras para lutar para que mais ninguém seja penalizado por demonstrarmos o mais puro de nossos sentimentos, Afinal, já diziam os mestres: "qualquer maneira de amor vale a pena"...

Se você se sentir incomodado com estas cenas, recomendamos que você saia à procura de ajuda especializada urgentemente. Homofobia tem cura! Montagem: Ana M. D. Oliveira



5 de junho de 2016

TROVA # 72

“RIO É AMOR”
(ou “Eu não sei dizer / nada por dizer”...)

Foto: Nilton Serra

Falam de Paris de LaFrance de L’Amour
Dizendo que lá tudo é bom
Mas é aqui que a gente sente
Neste Rio quente, quente
O verdadeiro hino do amor.
(“Rio é Amor”)

Brasil, quem te vê e te conhece
Nunca mais de ti se esquece,
E te traz no coração
(“Inspiração”)

(Canções de Bruno Marnet gravadas por Ângela Maria e interpretadas por Ney Matogrosso em seu espetáculo Estava Escrito [1995], em homenagem à bela Sapoti)


Depois de dez anos longe do Rio de Janeiro, cidade que me trouxe ao mundo, sempre sinto uma enorme alegria é uma pontinha de tristes quando faço o caminho do “retorno às origens”. Em primeiro lugar porque a Cidade Maravilhosa se tornou cada vez mais estranha para mim – apesar de toda a sua indiscutível beleza; em segundo lugar, porque vejo o Rio em um dos momentos mais críticos de toda a sua existência.
Foto: Nilton Serra

A felicidade de poder realizar o lançamento de meu primeiro livro nesta cidade é algo pelo qual ainda não sei descrever com exatidão. Poder compartilhar a fina flor do seu trabalho com os meus conterrâneos e cariocas de coração é simplesmente gratificante. Uma honra. Um bálsamo. Uma grande realização pessoal. Um desejo realizado. Porém, ao assistir o noticiário matutino nos informando o andar da carruagem pelos lados de cá, me deu uma preocupação enorme. Tudo bem que o que está sendo dito por aí era algo que já constatava pelos jornais e pelas redes sociais dos amigos e conhecidos, mas ver o discurso na prática foi (e tem sido) bem doloroso.

Foto: Nilton Serra

         A segurança pública nas ruas é praticamente inexistente – a Polícia anda tão desaparelhada ao ponto de membros da sociedade se verem obrigados a arrecadar dinheiro para comprar bicicletas para que os policiais possam ajudar a manter a ordem (isso porque estamos falando dos bairros mais centralizados). O sistema local de saúde ainda é o retrato do caos e do descaso dos poderosos com as camadas mais humildes da população carioca. Vários museus – e boa parte do patrimônio cultural da antiga Capital Federal – se encontram em um estado digno de pena enquanto o portentoso e belo Museu do Amanhã expõe as nossas contradições a céu aberto, ao lado da eternamente imunda Baía de Guanabara. Os servidores públicos e a Educação se encontram reféns de um Estado moral e financeiramente falido enquanto muitos se preparam para receber os Jogos Olímpicos de 2016: escolas ocupadas, servidores em greve e sem perspectivas de reajuste salarial enquanto muitos se preocupam em saber por onde anda a Tocha Olímpica...

Foto: Nilton Serra

         Em contrapartida, a ocupação das escolas estaduais e do palácio Gustavo Capanema tem nos demonstrado que a insatisfação dos cariocas com os rumos que a cidade e o país vem tomando é bem gritante. Os manifestantes declararam que não pretendem recuar não for solucionado enquanto o impasse em relação à educação, ao (brevemente) extinto Ministério da Cultura e ao Governo Federal ilegítimo de Michel Temer. Em meio ao luxo e ao lixo, aos que possuem muito e aos que mal conseguem se sustentar com o pouco que têm em mãos, palavras de ordem se encontram escritas e pichadas por muitos cantos da cidade. O Rio de Janeiro ainda é sinônimo de amor, apesar de tanto descaso de seus governantes em relação aos cariocas. Os hinos de amor se apresentam através de protestos políticos e que pedem mais carinho pela Cidade Maravilhosa amada por tantos...

Foto: Nilton Serra

Bem, parece que o Cristo Redentor não tem encontrado muitos motivos para ficar de braços abertos para nós. No entanto, as belezas da Cidade Maravilhosa estão protegidas pelos artistas eternizados em forma de estátua – Drummond e Braguinha estão em Copacabana para nos alumiar com a sua irreverência e sua poesia; Clarice Lispector e Tom Jobim podem ser (re)encontrados no Leme e em Ipanema para que possamos lhes pedir a bênção e proteção. Fazer este périplo era uma obrigação para um escritor amador e em início de carreira como eu.

Nós & Clarice

         Passar um final de semana prolongado no Rio de Janeiro em um momento tão crítico para lançar um livro sobre um grupo que é a maior representação de liberdade em forma de música é de uma ironia tremenda. Na verdade (e digo isso sem a menor pretensão), é algo necessário em meio ao “purgatório da beleza e do caos” gigantesco que muitos cariocas estão vivendo. Tenho a esperança de que as canções do Secos & Molhados sejam um alento e um incentivo não apenas para que a crença na luta por dias melhores ainda esteja viva, como também possibilite o simples prazer de fazer algo de bom para os outros...

Foto: Nilton Serra

PAUSA PARA O COMERCIAL:

Nosso livro no Moviola Bistrô
Foto: Vinícius Rangel

Se você quiser adquirir o livro “O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: poesia, performance e política na música brasileira” (Ed. Terceira Margem), é só entrar em contato comigo por e-mail (vinnieprof@gmail.com) ou ligar para o Moviola Bistrô – Rua das Laranjeiras 280 – Lojas B e C – Tel. (21) 2285-8339 / 3040-2800 – e encomendar o seu exemplar.

Lançamento do Livro O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: poesia, performance e política na música brasileira no Rio de Janeiro 
Foto: Nilton Serra

16 de maio de 2016

TROVA # 71

A LIÇÃO DO PROFESSOR
(ou o que aprendemos com Cauby Peixoto)

Cauby Peixoto (1931-2016)

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei o calmante, o excitante
E um bocado de gim

Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei

Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim

Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim

Mas não bisei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis Bêbados e febris
A se rasgar por mim

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim...

(Chico Buarque de Hollanda
na voz imortal e inconfundível de Cauby Peixoto)


Segunda-feira, 16 de maio de 2016. Fui acordado através de um sobressalto em um dia chuvoso e de nuvens negras. Fui avisado que Cauby Peixoto já não estava mais entre nós, os mortais. Uma tristeza instantânea toma conta de mim. Mais uma semana começava. A diferença é que, desta vez, não teremos mais o canto indefectível do Professor para nos ensinar o que é cantar com intensidade, elegância e vontade. Isso vai ser duro, muito duro.

A eterna classe do Professor 

Assisti Cauby Peixoto cantar ao vivo duas vezes. Dois eventos inesquecíveis para mim, apaixonado por música que sempre fui. Vi ele fazer a fina flor do repertório de Frank Sinatra no SESC Belenzinho em 25/01/2011, aniversário de São Paulo. Detalhe: no original e com um inglês PER-FEI-TO! Vestido em um terno de strass azul e preto é acompanhado por uma banda mais do que classuda, eu me perguntei o porquê de ter implicado tanto com a voz que me dava calafrios na adolescência, com aqueles vibratos e aquele "dó de peito" vigoroso. 

Cauby em 1989 - Acervo: Estadão 

Cauby me ensinou que a elegância é o pré-requisito principal para que você pise os seus dois pés em um palco e cante para uma multidão. Não me refiro apenas ao vestuário, mas principalmente ao respeito com o qual o Professor sempre ofertou aos seus músicos e, especialmente, ao público. A vida podia ser muito mais bonita através do colorido dos refletores e Mr. Peixoto fazia questão de extravasar sua alegria de estar ali. Não pela fama, não pelo dinheiro, não pelo ego, mas principalmente pelo prazer de exercer o seu com mais precioso: o de cantar.

FOTO: Marco Aurélio Olímpio 


Na única vez em que me aventurei em cantar para um grupo de pessoas - em junho de 2014 -, tive a coragem absurda em cantar uma das canções mais importantes do repertório de Cauby Peixoto. "Bastidores" foi escrita por Chico Buarque para sua irmã Cristina a cantasse. Apesar dela ter gravado o presente do irmão notável, foi através de Cauby que os versos de Chico se eternizaram. A versão do Professor se tornou uma das cinco gravações mais importantes não apenas de sua carreira, como da história da música brasileira. Este é o dom de um artista extraordinário: fazer com que a obra se torne uma marca-registrada tão autêntica, ao ponto de acreditarmos piamente que Mestre Buarque compôs uma de suas obras-primas sob medida para o intérprete de "Conceição".

Os mínimos detalhes da elegância de Cauby 

Resolvi ler a biografia de Cauby escrita pelo Rodrigo Faour e que estava encostada em uma das estantes aqui de casa há anos. Fiquei impressionado com a história monumental de uma das vozes mais importantes de nossa música. Conheceu a glória e o ostracismo. Apesar do luxo e do glamour, veio de berço humilde. Cantava em várias línguas diferentes. Seu repertório ia do bolero e baladas dramáticas a rocks, serestas e jazz. Não tinha preconceito em relação a repertório - sua única condição era de que a música fosse de boa qualidade. Gravou projetos especiais dedicados ao legado de Nat King Cole, de Roberto & Erasmo, da Bossa Nova, de Baden Powell, dos Beatles e de Frank Sinatra. 

Fafá & Cauby 

Estive na primeira fila do saudoso Teatro FECAP em 09 de abril de 2011 para assistir um show comemorativo de 60 anos de carreira de Cauby Peixoto. Não era preciso nem dizer que estava me sentindo um verdadeiro "pinto no lixo" em poder ver o Professor exercendo sua arte tão de perto. A cada salva de palmas que o público lhe ofertava, Cauby olhava para Ronaldo Rayol - violonista diretor musical de seu show - com um olhar de menino alegre e feliz por ter feito um gol de placa e dizia frases do tipo: "Que lindo, Ronaldo! Eles gostaram, viu só?". Aplausos não faltaram para o Mestre, que foram retribuídos com beijos, palmas e sorrisos do astro para cada um dos presentes na plateia.

Fafá & Cauby
Elis & Cauby
Ângela & Cauby

Cauby Peixoto fez inúmeros amigos e parcerias de trabalho: cantou com nomes dos mais diversos do porte de Leny Eversong, Roberto Carlos, Alcione, Emílio Santiago, Elis Regina, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Agnaldo Rayol, Vânia Bastos, Chico Buarque, Lucinha Lins, Paulinho da Viola, Daniela Mercury, Agnaldo Timóteo, Gal Costa, Supla, Fafá de Belém, Caetano Veloso, além de ter feito vários shows e três discos belíssimos com sua grande parceira de disco e palco, Ângela Maria. Gravou 48 álbuns e deixou um disco inédito em mais de sessenta anos de música brasileira. Na última década de atividade musical, Cauby estava em uma produtividade inacreditável: lançou um 10 CDs, 2 DVDs, vivia em turnês pelo país e se apresentava religiosamente toda segunda-feira no Bar Brahma.




A esquina mais charmosa de São Paulo perde o seu brilho com a ida de Cauby para o reino das estrelas celestes. A Gardênia está azul de tristeza. Conceição não poderá mais viver pelo fatídico morro a sonhar. Meu arrependimento em voltar correndo para o seu lar - o lendário Bar Brahma - e não mais encontrá-lo vestido com brilhos e belamente pintado e vestido é do tamanho da grandiosidade do seu canto. No entanto, o Professor cumpriu sua missão: sua voz e sua elegância não estarão mais diante de nossos olhos, mas diante do coração de cada um de quem bateu palmas para um dos maiores artistas do mundo.



Salve, Professor! Faremos o possível para que novas gerações aprendam com o seu legado insubstituível. Que o seu corpo descanse em paz e o seu canto ecoe para onde você for...


15 de maio de 2016

TROVA # 70

A ANORMALIDADE NECESSÁRIA DE MARIA ALCINA


De normal batam os outros
É preciso ter coragem
Venha a nós o vosso reino
Quem não pode se sacode
Eu aceito só metade
E a família como vai?
(Arnaldo Antunes – “De Normal”, canção que deu o nome para o álbum De Normal Bastam os Outros, lançado por Maria Alcina no final de 2013)


Ainda me emociono bastante quando vejo determinados artistas do mundo da música que conseguem realizar seu ofício com extrema paixão. O público deixa de ser uma simples horda de pessoas que pagaram por um ingresso que lhe garante uma hora e meia ou duas de simples entretenimento. O palco deixa de ser um mero local de trabalho para se transformar em um santuário musical que reflete nossos desejos e sensações mais genuínas. Todos os presentes se tornam cúmplices de uma estrela que deseja fazer daquela noite um evento memorável. A isto damos o nome de arte.

Maria Alcina no SESC Belenzinho - SP,  18/02/2016
Foto: Nilton Serra

Maria Alcina é uma tradução e tanto para o que foi descrito acima. Tive a oportunidade singular de presenciar seu retorno definitivo ao mainstream com o CD e DVD De Normal Bastam os Outros, lançados entre 2013 e 2015. Quem pensa que os seus shows são um mero desfile de irreverência, confete e serpentina está plenamente enganado. Por trás de toda a purpurina e maquiagem pesada, há uma cantora de voz potente é poderosíssima, dona de um timbre vocal único e que consegue imprimir tratamentos distintos a canções da dupla João Bosco / Aldir Blanc como o antológico samba “Kid Cavaquinho” e o chocante blues “O Chefão”. Seu estilo inconfundível, nem um pouco sintonizado com os arroubos das Divas da MPB, é o diferencial de Alcina em um país de cantoras tão talentosas e bem-dotadas de talento.


De acordo com o produtor musical Thiago Marques Luiz, Maria Alcina é uma “artista singular que o Brasil entende e desentende, lembra d esquece, mas jamais deixa de aplaudir”. Descaradamente influenciada por Carmen Miranda, sua música faz uma conexão do presente com o passado, sem nenhuma presença de nostalgia. Sua arte é pautada em viés carnavalizante, cuja marca registrada é a sua voz bem-humorada e a sua personalidade esfuziante que tem cativado os brasileiros desde a sua consagração com “Fio Maravilha”, do Festival Internacional da Canção de 1972, ou de álbuns mais recentes como Confete & Serpentina (2009).




O que mais me impressionou a respeito da presença de palco de Maria Alcina foi justamente a sua brejeira simplicidade – típico de qualquer bela mineira de Cataguases – perante os músicos que a acompanhavam em cena, em relação ao público e até com as funcionárias da comedoria do SESC Belenzinho (o local do show), que ela fez questão de convidar ao palco para dançar junto dela ao som de “Prenda o Tadeu”, para delírio de todos os presentes. Além disso, o repertório do CD e DVD De Normal Bastam os Outros – composto por nomes de peso como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Karina Buhr e Anastácia – consegue dialogar com canções já clássicas do repertório de Alcina como “Fio Maravilha”, “Doida, Bonita e Gostosa” e “Bacurinha”. Não se trata apenas de uma grande cantora comemorando 40 anos de carreira musical, e sim o retorno de uma grande artista ao spotlight depois de algum tempo longe de seu público.



Karina Buhr & Maria Alcina no Theatro Net Rio - RJ, 10/06/2014
Foto: Mauro Ferreira

Injustiçada pela censura e pelo ostracismo das décadas de 1980 e 1990, Maria Alcina conseguiu se manter viva enquanto artista graças aos programas de auditório e de sua vontade incessante de querer cantar onde houvesse trabalho. Graças à Internet, às redes sociais (a cantora de “Kid Cavaquinho” pode ser facilmente encontrada no Facebook e no Instagram), à memória musical coletiva de seus fãs e dos esforços hercúleos do produtor musical Thiago Marques Luiz, o devido reconhecido foi concedido a um dos nomes mais inquietos da música brasileira.




Alcina é uma cantora que olha para a frente sem deixar de reverenciar o que foi produzido de melhor no passado. Resgatar o repertório de Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola em tempos nos quais muitos pouco conhecem o básico do cancioneiro popular brasileiro é mais do que um ato de reverência: é um serviço de utilidade pública! Em uma era na qual o “politicamente correto” e a “falsa inocência” na música brasileira, a anormalidade do canto de Maria Alcina é fundamental para o Brasil de hoje.



Nós dois ao lado de Maria Alcina após seu show no SESC Belenzinho - SP,  18/02/2016

13 de maio de 2016

TROVA # 69


"PERDOAI-OS, PAI: ELES SÓ SABEM O QUE FAZEM"... 
COM 54 MILHÕES DE VOTOS




para Angela Rô Rô e Dilma Rousseff, duas mulheres brasileiras injustiçadas pela lei dos homens do Brasil


"Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem
Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem
Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem
Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem

Eu quero uma cruz de pinho selvagem
Alguma bebida pra me dar coragem
Meu sangue ser água, matar minha sede

Que todos recusem carinho pra mim
Mas nunca se esqueçam, eu nunca padeço
Mas nunca se esqueçam de mim
Mas nunca se esqueçam de mim"

(Angela Rô Rô & Sérgio Bandeyra – 
"Perdoai-os, Pai", faixa que abre o álbum Escândalo!, lançado por Rô Rô em 1981)




Até a manhã de 12 de maio de 2016, dia em que o Brasil foi duramente atingido por um golpe democrático e saiu do Estado Democrático de Direito para o Estado de Direito Mínimo, os defensores da Direita defendiam o fato de que tudo de ruim que acontecia neste país era culpa da Presidente Dilma e do Partido dos Trabalhadores.

A partir da consagração do golpe de Estado, a justificativa para o ataque dos simpatizantes é a de que os 54 milhões de votos concedidos à Dilma legitimaram Michel Temer como o atual Presidente da República. 

Diante disso, cabe esclarecer alguns fatos:

1) Os 54 milhões de votos foram para o programa de governo defendido por Dilma Rousseff, não pelo seu então Vice-Presidente;

2) Os 54 milhões de votos foram dados para quem se expôs publicamente diante de debates, horário eleitoral obrigatório, de adversários políticos despreparados e desequilibrados, sob a chancela e o apoio de uma mídia partidária, pertencente a oligarquias interesseiras, que não se isenta da realidade dos fatos e acontecimentos;

3) Os 54 milhões de votos foram dados para quem se comprometeu na execução de programas sociais que amenizassem a desigualdade social que sempre assolou este país;

4) Os 54 milhões de votos foram dados à primeira mulher que fora designada ao cargo político mais importante da nação, dona de uma reputação moral irrepreensível, avessa a conchavos políticos típicos de integrantes do seu partido ou de integrantes da base aliada; 

5) Os 54 milhões de votos foram dados a uma chapa política composta por uma Presidente e um Vice-Presidente que deveriam ter trabalhado juntos pelos interesses comuns da sociedade brasileira, não para que ele conspirasse contra à sua companheira de governo;

6) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a alguém que tem em um político arrogante, desonesto e asqueroso como Eduardo Cunha como homem de confiança. Esperava-se do Vice-Presidente que realizasse a articulação política do governo com a oposição de forma limpa e honesta;

7) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a alguém que pertence a uma tradição política neoliberal, que exclui os pobres do chamado "progresso da nação". Dilma foi a eleita com a promessa de que iria fazer um governo para todos - não conseguiu, por ter cometido erros graves e por ter sido vítima de um golpe de estado -, algo que nunca foi prioridade para o PMDB;

8) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a um estadista que desrespeita a Educação, a Cultura, as minorias (mulheres, negros, LGBTs...), as empresas estatais e a segurança pública descaradamente ao nomear o seu Ministério;

9) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a um estadista que concede foro privilegiado a SETE investigado pela Operação Lava-Jato. Todos os petistas que foram réus em processos de corrupção foram julgados e implacavelmente condenados, ao contrário dos aliados tucanos, do DEM e de outros partidos da antiga oposição;


10) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a quem foi declarado "ficha-suja" e inelegível por oito anos, segundo o TSE. Tal qual foi muitíssimo bem dito pelas redes sociais, se quiséssemos um bandido na cadeira presidencial, estes votos seriam dados ao Sr. Aécio Neves, não para a Sra. Dilma Rousseff.



Vinícius Rangel Bertho da Silva
Professor, pesquisador e autor do livro "O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: poesia, performance e política na música brasileira" (Ed. Terceira Margem, 2015).