5 de setembro de 2016

TROVA # 84

MEU BLOCO NA RUA
(lutando pela democracia depois do golpe de 2016)

Dilma Rousseff - Brasília, 29 de agosto de 2016.
"Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval
(Sérgio Sampaio, 1972)


Nasci em 1981, durante o terceiro ano de governo do último general que governou o Brasil durante uma ditadura militar que censurou, torturou e matou aos borbotões. Minha família por parte de Pai, cujo patriarca era o Sr. Maurício (meu avô), era de militares da Aeronáutica. Eles sempre disseram que o período militar em Brasília foi uma “era de ouro” nos quesitos “autoridade” e “segurança”. Meus parentes por parte de Mãe foram beneficiados pelo ilusório “milagre econômico” semeado por Médici e seus comparsas: meu saudoso avô materno, Seu Adhemar, não tinha do que reclamar das benesses adquiridas pela classe média, que ascendeu economicamente durante os anos 1970.
Quando as Diretas Já tomaram o país de assalto, os milicos devolveram o poder da nação para os civis e o primeiro Presidente da República civil (embora apoiado pelos militares) retornou ao Palácio do Planalto depois de duas décadas, eu tinha entre 4 e 5 anos de idade, ou seja, ainda não tinha condições de opinar ou decidir sobre os rumos do país.


*

         Eu tinha oito anos em 1989. Lembro bastante das eleições presidenciais ocorridas naquele ano: eu era um menino carioca vivendo em Porto Alegre que saía para passear no Parque Farroupilha aos domingos e já percebia a popularidade de Lula, Brizola (Silvio Santos até...) e Fernando Collor nos debates da TV e nas propagandas eleitorais gratuitas e obrigatórias. A pior cicatriz da ditadura já se fazia presente em minha família e em vários núcleos familiares já naquela época: bastava iniciar o horário político e a TV era automaticamente desligada até o horário da novela das oito.
Política era definitivamente um assunto que não se discutia em casa, tampouco perto das crianças. O resultado de tamanha falta de politização foi a eleição de Collor para o período presidencial de 1990 a 1994, depois de uma campanha eleitoral agressiva, baixíssima e vergonhosa.

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         Em 1992, já de volta ao Rio de Janeiro, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e já nutria um interesse próprio pelas aulas de História. Durante meus momentos de tédio em sala de aula (hiperativo desde sempre, sempre foi um desafio focar minhas atenções única e exclusivamente na Professora), adorava ler as páginas do livro didático que descrevia os governos da República Velha, da Era Vargas, dos anos de chumbo, da redemocratização do país. Um detalhe chamava muita atenção: naquele volume estava escrito que Collor seria o Chefe de Estado da Nação por mais dois anos.
O país fervia em denúncias de corrupção diariamente e em torno das consequências geradas pelas medidas perversas de ajuste econômico – quem viveu o início da década de 1990 lembra bem a crise econômica sofrida por aqueles que perderam seus rendimentos na poupança, sequestrados pelo Governo Federal. Como se sabe, não foi aquele o destino selado do Presidente da República mais jovem a assumir o cargo até então.
Em outubro daquele ano, o Caçador de Marajás foi deposto por um impeachment gerado por inúmeras acusações, renunciou ao posto e saiu pela porta dos fundos do Planalto. Eu tinha 11 anos de idade enquanto assistia todo aquele circo midiático armado pela Globo e uma série de “caras pintadas” até certo manipuladas pelos interesses da vênus platinada e das elites brasileiras. Creio que foi naquele momento de minha vida em que realmente me interessei por algo relacionado às artes, à história e à política de meu país. Minha inocência dos anos de infância definitivamente começava a sair de cena...

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Foi aos 21 anos de idade, ou seja, no início de minha vida adulta, que vi o projeto neoliberal elitista, excludente e arrogante de Fernando Henrique Cardoso e seus asseclas ser desprezado nas urnas para que um ex-operário e ex-sindicalista, um representante das camadas populares, chegar ao posto mais elevado da República Federativa do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva representava a possibilidade de termos um país mais justo e digno para todos, diminuindo as desigualdades sociais tão presentes na história nacional. Chico Buarque estava ao seu lado, junto com a nata da inteligência e da classe artística do território nacional. Eram tempos de glória e de euforia que não seriam abalados por nenhuma arbitrariedade.
No entanto, a euforia não iria durar para sempre: minha primeira decepção de peso com o governo Lula veio em 2005, quando os primeiros escândalos de corrupção vieram à tona. O PT, antes um partido livre de qualquer suspeita em termos de ética e honestidade, se transformou em um partido tão comum quanto todos os outros, deslumbrado com as delícias do poder e seduzido pelo canto da sereia da corrupção, do dinheiro fácil, do lucro instantâneo e da ganância absoluta. Como forma de protesto, fiquei sem exercer meu direito ao voto por mais de dez anos, justificando minhas ausências na zona eleitoral mais conveniente no dia das votações.
Descontente com a descaracterização do PT, que se aliou ao PMDB e as forças políticas de centro para chegar ao poder, não me animei muito quando soube que Dilma Rousseff, a herdeira política de Lula, tinha sido eleita Presidente do Brasil em 2010, apesar de sempre ter tido enorme admiração por sua biografia e sua trajetória política. Apesar dela ter sido a ministra mais firme e competente dos dois primeiros governos do PT. Apesar dela ter sido a primeira mulher a assumir o posto mais alto de uma República de um país machista, conservador, racista, homofóbico. Apesar dela ter combatido a ditadura militar e ter sido barbaramente torturada. Apesar dela ter sempre se destacado por possuir uma moral ilibada e inquestionável. Apesar de ela nunca ter pertencido ao grupo de notáveis do PT e por prometer o comando com mão de ferro e tolerância zero com desonestidade.

Laerte


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Meu retorno às urnas e à militância política se deu em 2014. O Brasil se via dividido entre um projeto político reacionário, machista e conservador representado por Aécio Neves e o PSDB de um lado e a continuidade uma política popular inclusiva, de tintas levemente neoliberais representada por Dilma e o PT. Entre a escolha de uma plataforma política que não me satisfazia por completo e o retorno de uma proposta elitista e retrógrada, fiz questão de viajar até o Rio de Janeiro para votar em Dilma Rousseff no segundo turno das eleições presidenciais.


Vibrei de alegria e alívio quando constatei que “Dilmãe” tinha sido reeleita com 54 milhões de votos. Entretanto, fiquei com receio ao ouvir o tom de ressentimento do candidato derrotado pelo PT e o tom odioso da grande mídia, disposta a varrer a ex-guerrilheira para debaixo do tapete da história através de uma campanha incansável de desconstrução: inaugurava-se, enfim, o terceiro turno das eleições de 2014. Este seria o mais longo e o mais cruel de todos. Como novos integrantes deste thriller político estavam a economia brasileira em estado de saúde periclitante e o Congresso Nacional mais conservador desde 1964. Anos difíceis estavam por vir, sem a prosperidade de três mandatos petistas anteriores. Seriam dias de luta, frustração e de muita resistência.

Dilma Rousseff - Brasília, 31 de agosto de 2016.

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O segundo mandato de Dilma Rousseff, como sabemos, foi infinitamente prejudicado pela oposição que teve o seu projeto político recusado nas urnas, por um Congresso Federal que temia as investigações sobre corrupção que Dilma sempre apoiou, por um Vice-Presidente que negou o apoio que sua companheira de chapa tanto necessitava, por uma crise econômica que não foi combatida com eficiência e por uma mídia tão golpista quanto os políticos desonestos e reacionários que exploram e roubam o Brasil há anos e anos.

Dilma Rousseff - Brasília, 31 de agosto de 2016.
Dilma foi covardemente deposta por um golpe parlamentar sacramentado em 31 de agosto de 2016, para que o governo golpista de Michel Temer pudesse, enfim, chegar ao poder. Era a consagração de um projeto político neoliberal, hipócrita e cínico, para desespero das camadas mais pobres da sociedade brasileira e felicidade das elites conservadoras que sempre sonharam em obter lucro fácil e imediato em cima de uma mão de obra barata. Temer e seus ministros fizeram pouquíssimo caso das manifestações a favor de Dilma Rousseff e/ou pela convocação de eleições diretas. A resposta dos setores ligados à esquerda se deu no dia 4 de setembro de 2016: mais de 100 mil pessoas foram para as ruas de São Paulo protestar contra o golpe parlamentar que rompeu com a democracia no Brasil.


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A partir do momento em que a normalidade democrática deixou de ser a regra e transformou-se em exceção, cabe a nós, que ainda acreditamos na importância do regime democrático e do voto popular (descaradamente desrespeitado por vários parlamentares), ir para a rua pedir para que a boa e velha honestidade retorne à rotina da sociedade brasileira. Ao colocar o nosso bloco na rua e fazer barulho pela convocação de novas eleições e pela retirada dos golpistas do Planalto, reafirmamos nosso desejo por democracia.


Estes são dias de resistência, dias de combate, dias de luta. Cabe a todos nós que acreditaram no projeto político e na idoneidade de Dilma Rousseff defender a Constituição com unhas e dentes, apesar da truculência da Polícia e do Estado. Estarei nas ruas para brigar por isso...



4 de setembro de 2016

TROVA # 83

AS LIÇÕES DO MESTRE
(o que Chico Buarque me ensinou sobre a política do Brasil)


A minha tristeza não é feita de angústias
A minha tristeza não é feita de angústias
A minha surpresa

A minha surpresa é só feita de fatos
De sangue nos olhos e lama nos sapatos
Minha fortaleza

Minha fortaleza é de um silencio infame
Bastando a si mesma, retendo o derrame
A minha represa
(Chico Buarque & Ruy Guerra, 1973)

Dormia a nossa Pátria Mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações
(Chico Buarque, 1984)

 
 

     Foi em 2000, ano em que ingressei na Faculdade de Letras, que comecei a me interessar de vez pelos clássicos da MPB e descobri a obra de Chico Buarque de Hollanda. Graças à minha avó, D. Magaly, garimpei uma coletânea de Chico em seu quarto de som e minha maneira de olhar o Brasil e o mundo se modificou por completo. Ao ler sobre a biografia do filho de Sérgio Buarque de Hollanda e a importância de seu papel durante os anos de chumbo, constatei o quanto que este já fez e ainda faz por nossas artes e por nosso país ao ser reconhecido como um dos maiores estandartes de resistência contra a ditadura militar.



Em matéria de canção popular, nenhum artista escreveu melhor o Brasil “em versos e trovas” dos anos 1960 até agora do que Chico Buarque. Sua obra musical, suas peças teatrais e sua obra ficcional revelam um homem talentoso, íntegro, coerente e engajado com o processo de redemocratização do país e com os direitos básicos e essenciais dos pobres e necessitados. Uma referência artística, intelectual e moral para mim e para muitos. Um inimigo público de fôlego daqueles que odeiam o povo e a democracia. Não me encantam os seus belos olhos azuis (que realmente são lindos!), ou a sua voz “horrorosa” (discordo!), mas a beleza de seu caráter e talento. Chico foi um dos artistas que me inspiraram a fazer o que mais gosto na vida: escrever sobre literatura e música popular.


*
A campanha presidencial de 2014 me rendeu inúmeras inimizades através das redes sociais. Nenhuma postagem me rendeu tamanhas críticas e agressões gratuitas quanto um meme que colocava Chico Buarque e alguns intelectuais em oposição a Alexandre Frota, Lobão e outros notáveis defensores do antipetismo. Era uma provocação gratuita, dando a entender que apenas os que votavam no projeto de Dilma eram inteligentes e tinham bom gosto musical, por exemplo. Recebi desaforos de dar nojo por defender Chico pelo simples fato dele ser um militante de esquerda.


A internet se tornou um palco político e instrumento de guerra virtual e ver Chico Buarque ser enxovalhado em praça pública como um judas tem sido uma gigantesca ofensa pessoal. Falem mal de Ney Matogrosso perto de mim, falem mal de Maria Bethânia, condenem Caetano, Gil e Gal Costa, mas jamais ataquem a honra e a integridade de Chico em minha presença. Não por mera “chicolatria” e sim por causa do meu imenso respeito e admiração por ele, além do meu desprezo incansável por qualquer forma de injustiça.
Chico Buarque me ensinou três lições básicas: 1.ª) a palavra é algo de suma importância para a arte da escrita e da canção; 2.ª) coerência política é um princípio inquestionável, por isso, jamais devemos abrir mão dela; 3.ª) coragem é fundamental para tudo que se faz.



Um exemplo de como eu fiz uso da terceira lição para minha própria vida foi quando driblei temporariamente minha timidez e (depois de algumas aulas de canto e poucos ensaios) me apresentei cantando para um público aproximado de 50 pessoas em junho de 2014. Procurei várias facetas das canções de Chico para a ocasião: o amante, o lírico, o compositor que traduz a sensibilidade feminina, o malandro, o político... Foi bem legal “brincar” de cantor de palco por apenas uma noite, pois escolhi a obra de um dos artistas mais completos e engajados de nossa canção popular.

Foto: Mayra Peres Lima

A coragem tem sido o traço que Chico Buarque mais tem nos legado nestes anos mais recentes: enfrentou seus algozes de tendências fascistas na imprensa e nas ruas e não deixou de apoiar Dilma, Lula e o PT nem mesmo quando a base governista se esfacelava a olhos vistos e os ataques ao Governo Federal se intensificavam nas vésperas do Golpe de 2016. Driblou a turba fascista com classe e a malandragem digna de um Garrincha. Mesmo quando milhares de pessoas foram às ruas como massa de manobra de uma mídia irresponsável contra Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Mesmo quando uma parcela significativa dos intelectuais e da classe artística foi covardemente atacada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira. Mesmo nos momentos nos quais artistas foram abertamente comparados a vagabundos dependentes da Lei Rouanet.



Foi por tudo isso que eu não me surpreendi quando soube que Chico foi para Brasília com o intuito de assistir o discurso histórico de Dilma Rousseff na ocasião do julgamento do impeachment no Senado Federal na manhã de 29 de agosto de 2016. Afinal, tratava-se de um gesto solidário e coerente com as suas (e nossas) convicções sociopolíticas. Ele não estava lá para fazer “um samba bem pra frente” ou para pedir pela enésima vez que lhe afastassem o velho cálice repleto de sangue inocente. Ele estava na Capital Federal para assistir os últimos estertores da democracia que ele ajudou a reestruturar há mais de três décadas. Dilma foi agredida tal qual uma das personagens buarqueanas mais célebres, a Geni: levou pedras por ter desafiado os interesses das elites e dos corruptos, por ser uma mulher à frente de vários homens, por seus erros e por seus acertos políticos, pelo antipetismo fascista.



Consumado o golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff do poder em 31 de agosto de 2016, precisamos andar com a cabeça pelas tabelas de tão aflitos que andamos com o golpe fatal que nossa democracia sofreu. Voltamos a andar olhando pro chão e para os lados, preocupadíssimos com a repressão da polícia nas manifestações contra os golpistas que usurparam o poder sem a chancela do voto popular. Além disso, temos que manter muito cuidado e o bico calado pois o homem vem aí com medidas impopulares e perversas, tais como a reforma da previdência e a “modernização” da CLT, além de outros crimes hediondos contra o povo. Enquanto buscamos abrigo em uma bela canção e aguentar o tranco com dignidade, lutamos para que o estandarte do sanatório geral passe logo de uma vez por nós: afinal, um novo capítulo da História do Brasil precisa ser inaugurado com fatos mais justos e dignos da grandeza de nossa gente...


*
Obrigado por tudo, querido Chico!
Você é mais do que meu caro amigo.
Você é a bússola e o alento daqueles que escolheram o lado mais justo da História. Afinal de contas, a coisa por aqui voltou a ficar preta. Haja mutreta para engolirmos esta situação e segurar este maldito rojão...


21 de agosto de 2016

TROVA # 82



A CINDERELA DO ESPORTE
(alguns bons motivos para jamais nos esquecermos da RIO 2016)




I've paid my dues
Time after time.
I've done my sentence
But committed no crime.
And bad mistakes
I've made a few.
I've had my share of sand kicked in my face
But I've come through.

(And I need just go on and on, and on, and on)

We are the champions, my friends,
And we'll keep on fighting 'til the end.
We are the champions.
We are the champions.
No time for losers
'Cause we are the champions of the world.

I've taken my bows
And my curtain calls
You brought me fame and fortune and everything that goes with it
I thank you all
But it's been no bed of roses,
No pleasure cruise.
I consider it a challenge before the whole human race
And I ain't gonna lose.

(And I need just go on and on, and on, and on)

We are the champions, my friends,
And we'll keep on fighting 'til the end.
We are the champions.
We are the champions.
No time for losers
'Cause we are the champions of the world.

We are the champions, my friends,
And we'll keep on fighting 'til the end.
We are the champions.
We are the champions.
No time for losers
'Cause we are the champions.
(Freddie Mercury, 1977)


         O mês de agosto de 2016 tem nos trazido boas notícias também. Há duas semanas que o Rio de Janeiro tem vivido dias de glória com a trigésima-primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Sem grandes tragédias até aqui (pelo menos as não noticiadas pela mídia), o que é bastante louvável para uma cidade que estava à beira do colapso nas vésperas da abertura das Olimpíadas.
         Pensei em boicotar os Jogos, com raiva profunda do Governo do Estado e da Prefeitura do Rio de Janeiro, que faliram as finanças do Estado em prol do evento e fazendo pouco dos cariocas, que sempre batalharam tanto em meio à violência, a beleza e o caos. Pensei no boicote por estar profundamente revoltado com a situação política gravíssima de nosso país, que não quer lidar com o fato de que houve sim, de fato, um golpe político que dizimou a democracia e o mandato de uma presidente eleita. No entanto, foi preciso levar em consideração que há muitos outros que não possuem culpa da tragicomédia chamada Brasil – sim, me refiro aos atletas: eles não merecem nosso boicote...
         Apesar de não ser um entusiasta da prática pessoal dos esportes (mais uma prova de que eu sou a ovelha negra da família, pois tenho um irmão Professor de Educação Física e minha mãe virou maratonista de energia inesgotável após os 50 anos de idade, só para citar dois exemplos), acho bastante admirável ver a disposição de alguns seres humanos em superar seus próprios limites físicos como uma missão de vida, em busca novos recordes, fazendo algo amado por todos os torcedores. A atividade desportiva torna-se uma escolha do lado esquerdo do peito, cujo retorno financeiro nem sempre corresponde à quantidade de privações que muitos fazem para poder treinar e competir pelos quatro cantos do mundo. Usian Bolt, Michael Phelps e Simone Biles, estrelas do atletismo da natação e da ginástica olímpica, fizeram história, viraram lendas e não meras atrações do noticiário semanal.

Usian Bolt
Michael Phelps
Simone Biles

         A cerimônia de abertura dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro foi um evento emocionante, com bastante música e mostrando para o mundo inteiro o que os brasileiros sabem fazer de melhor – dentre as coisas boas e algumas atrações de gosto bem duvidoso. Vibrei de alegria ao ver o Presidente Interino Golpista Michel Temer levar uma vaia que faria Nelson Rodrigues ruborizar de vergonha alheia dentro do Maracanã e (consequentemente) diante do mundo inteiro. A emoção de ver a tocha olímpica sendo carregada pelo estádio pelos atletas mais significativos da história de nosso esporte (Gustavo Kuerten – tênis, Hortência Marcari – basquete e Vanderlei Cordeiro de Lima – atletismo) valeu cada momento e me fez esquecer temporariamente dos absurdos que ocorreram enquanto o símbolo maior da Olimpíada passava pelas ruas do país.

Gustavo Kuerten
Hortência Marcari
Vanderlei Cordeiro de Lima

         Tem sido doloroso para mim, carioca de nascimento e paulista de coração, ficar longe do Rio de Janeiro em um dos momentos mais célebres de toda a sua trajetória. Nossos atletas têm escrito páginas belíssimas da história do esporte brasileiro através de garra e superação. Rafaela Silva, judoca negra, pobre, injustiçada, lésbica e distante dos padrões de beleza internacionais, foi a primeira judoca brasileira a conquistar uma medalha de ouro, revelando todo um passado de sofrimento e frustração e como fomos injustos com ela diante de sua eliminação nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Thiago Braz da Silva (salto com vara) conseguiu pular mais alto do que todos e se consagrou como o melhor de todos. Isaquías Queiroz dos Santos remou dentro de sua canoa como se fosse a última coisa a ser feita na vida e conquistou três medalhas olímpicas – único brasileiro a conseguir tal marca em uma única edição dos jogos. Robson Conceição derrotou um lutador cubano e leva o ouro olímpico pelo boxe. Alison Cerutti e Bruno Schmidt, aliando técnica e gigantismo, se tornaram campeões olímpicos de vôlei de praia depois de partidas eletrizantes. Arthur Zanetti subiu ao pódio pela ginástica olímpica e levou a prata. E o que dizer de Maicon Andrade, um ex-pedreiro e ex-garçom que conquistou o bronze no tae-kwon-do e da espetacular seleção brasileira de vôlei masculino que arrebatou o segundo ouro depois de quatro finais olímpicas consecutivas?! Outros exemplos não faltam e, ainda bem, não nos faltarão... 

Rafaela Silva
Thiago Braz da Silva
Isaquías Queiroz dos Santos
Robson Conceição
Alison Cerutti e Bruno Schmidt
Arthur Zanetti

Maicon Andrade
O espetacular trabalho do vôlei masculino do Brasil


         Houve alguns exemplos emocionantes de humanismo através da capacidade única do esporte em unir as pessoas. Duas ginastas, uma da Coréia do Norte e outra da Coréia do Sul (duas irmãs divididas por conflitos políticos), fizeram questão de postar juntas em uma selfie. Uma iraniana, residente na Bélgica, fez o que pode para lutar pelos direitos das mulheres de seu país ao reivindicar o direito de que a entrada dos estádios seja permitida para indivíduos de ambos os sexos. Marta e suas companheiras intrépidas da Seleção Brasileira de Futebol feminino lutaram por uma medalha como se estivessem dentro de uma batalha campal, ganhando a admiração e o respeito de muitos de nós. E um fato importantíssimo para as minorias: os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro entram para a história por ter sido o evento esportivo no qual houve a maior quantidade de esportistas que “saíram do armário” e tornaram pública a sua homossexualidade. Sinal de que os eventos esportivos, redutos do machismo e da homofobia, também fazem parte da mudança dos tempos...

A selfie das coreanas
A iraniana corajosa
O escrete feminino
O amor de duas pessoas que se amam
         Mesmo diante das dificuldades e das inegáveis falhas do evento, os cariocas se revelaram como anfitriões alegres irreverentes e infinitamente dispostos em celebrar as maravilhas do esporte. Em certos momentos, até demais: muitos reclamaram com razão do barulho ensurdecedor das torcidas que ocuparam as arenas olímpicas e os estádios, afinal o comportamento de nossas torcidas, essencialmente futebolísticas, não estão acostumadas com um comportamento mais moderado em modalidades que exigem mais concentração dos atletas, tais como o golfe, o atletismo e o tênis, para não citar outros. Ainda é preciso aprender a seguinte lição: torcer para o seu desportista ou time favorito também requer boa educação e respeito, exigindo a consciência do momento mais adequado para vaiar e aplaudir.
         Por outro lado, também não podemos esquecer dos tristes episódios ocorridos antes e durante a Rio 2016. Ainda não consigo me conformar com a onça assassinada durante a passagem da tocha pelo estado do Amazonas. Nem com a onda de protestos contra Temer e a Globo sumariamente abafados pelos policiais, impedindo a liberdade de expressão de vários brasileiros. E como lidar com o “piti” homérico de Renaud Lavillenie, o atleta de salto com vara que perdeu o ouro para Thiago Braz, e comparou a torcida brasileira com os nazistas que vaiaram o americano Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936? E com a falta de respeito do judoca egípcio que se recusou a cumprimentar o adversário iraniano depois de perder uma luta? E como suportar com a arrogância de Neymar e seus coleguinhas da Seleção Brasileira de Futebol que entram em campo muito mais preocupados com seus egos, salários astronômicos e patrocínios escandalosos enquanto as meninas do futebol são altamente desvalorizadas pelo mercado e machistas de plantão? E como compreender a falsa denúncia do nadador norte-americano Ryan Lochte e seus amigos à polícia carioca alegando roubo em um claro episódio de bandidagem e não de molecagem? A violência, aliás, continuou a dar as caras pelo Rio de Janeiro, mesmo diante da importância do evento, e não ao vitimar um soldado da Força Nacional, morto “ao defender os interesses da pátria brasileira”. Infelizmente o fair play passou longe destes casos, o que é digno de vergonha alheia.

A onça assassinada
Renaud Lavillenie
Neymar e sua turminha
Ryan Lochte

         Quando a segunda-feira do dia 22 de agosto se iniciar, nós nos lembraremos de que o Rio de Janeiro, depois de se sagrar campeão em um evento que mobilizou diversos países do mundo, estará longe de viver dias de “bed of roses” ou “pleasure cruise” descritos por Freddie Mercury à frente do Queen. O Rio deixará de ser a Cinderela do esporte mundial para voltar a ser a velha gata borralheira violentada por bandidos traficantes e que vestem terno e gravata em busca de votos para continuar saqueando os cofres públicos. A Força Nacional, os turistas, os atletas estrangeiros e a imprensa internacional se distanciarão como o “Raio Bolt”, enquanto nós teremos de nos voltar para as agruras de um Estado falido, que não paga seus policiais e vive uma crise sem precedentes em termos de segurança pública. A realidade retornará à rotina dos cariocas. Cabe a cada um de nós (eu me incluo, evidentemente!) sair em busca da autoestima e lutar para que a “Cidade Maravilhosa” continue a fazer jus à sua enorme beleza.