"Music is my happiness, my joy, and when my body wasn't right I couldn't get into my music without being healed, without being healthy."
(Sharon Jones)
Nunca escondi minha predileção pelos artistas negros. Não
apenas por eles carregarem anos e anos de experiência, luta e sofrimento no
canto, como também pelo fato de que a extensão vocal deles coloca muito
branquelo no chinelo. Se você canta "bem", você canta como uma lenda
do Jazz, do Blues ou do Soul, estilos
musicais inventados e reinventados por ex-escravos.
Sharon Lafaye Jones, mais conhecida como Sharon Jones, foi
uma lenda do canto. Antes de ter sido consagrada como artista, trabalhou como
agente penitenciária em um presídio nos EUA. Aprendeu a cantar na velha e
infalível "escola" de 11 entre 10 negros na terra do Tio Sam: nas
igrejas! Cantava Soul. Lançou seu
primeiro disco depois de completar 40 anos de idade.
Sharon era um monstro em cima do palco: cantava, grunhia,
dançava (sozinha ou com os fãs que chamava ao palco), se chacoalhava ao som do Soul que cantava e respirava. Herdeira
de Aretha Franklin e tinha influência descaradíssima de Tina Turner. Cantava
com uma energia e atitude impressionantes, colocando muita menininha Pop Star de 20 e poucos anos no
chinelão. Ao saber que tinha um câncer pancreático e que a luta seria longa e
difícil, Sharon Jones passou a levar a máxima "faça este show como se
fosse o último" ao pé da letra.
Conheci o som de Ms. Jones à frente dos The Dap-Kings na
época do lançamento do quarto disco deles: I Learned the Hard Way (2010). Graças ao Pequenos Clássicos Perdidos de Fábio
Bridges, este verdadeiro agitador cultural das searas internéticas, pude ter a
oportunidade de conhecer melhor o trabalho do grupo que acompanhou Amy
Winehouse em Back to Black (2006). Mark Ronson, que não era nem bobo nem
nada, viu o excelentíssimo conjunto de apoio de Sharon Jones como o trampolim
perfeito de Amy para o sucesso. "Rehab", "Wake up Alone" e
"You Know I'm no Good" não teriam sido os hits que foram sem aqueles músicos tão brilhantes. E, arrisco
dizer, a influência de Lady Sharon teve um peso marcante: o que era retrô se
tornou vintage...
Sharon nos deixou em 18 de novembro de 2016, aos 60 anos de
idade. Em plena atividade, em constante ebulição, em um momento no qual o mundo
carece de vozes fortes e marcantes em um mundo cada vez mais caduco e
conservador, ouvir a Soul Music de
Sharon Jones & The Dap-Kings não é apenas ouvir música de qualidade, é
também um ato político: diante da onda reacionária e racista que cresce a olhos
vistos, é uma cantora de enorme representatividade para os negros, para as
minorias e para aqueles que ainda de importam com princípios humanitários e
expressões artísticas de tamanha autenticidade.
Descanse em paz, Lady Sharon! Muito obrigado por ter lutado
até o fim! O mundo sentirá muito a sua falta...
“As mulheres tem
servido por todos esses séculos como espelhos que possuem o poder mágico e
delicioso de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural.”
(Virginia
Woolf– A Room of One’s Own)
Se
realizarmos uma pesquisa a respeito de como a música brasileira tem retratado a
figura da mulher no decorrer dos anos, vamos chegar à conclusão lógica, clara e
evidente de que a fala feminina ela é, na verdade, uma extensão do pensamento
masculino: a Amélia de Mário Lago sempre será querida pelo público por ser a
fêmea “de verdade” que lava, passa e faz as vontades e desejos de seu macho; a
Marina de Caymmi, coitadinha, nem poderia sequer utilizar uma maquiagem para se
sentir mais bela, visto que a noção de beleza é definida pelo macho que canta.
Erasmo
Carlos, em uma de suas mais belas canções, não apenas pediu inspiração, como
também deu uma pequena voz àquelas que não podiam se expressar. Chico Buarque,
travestido de mulher em versos, conseguiu traduzir uma parcela dos desejos e
contradições da “alma feminina”. Rita Lee, quando era a mulher mais importante
da música popular deste país, soube dar voz a uma série de questões que
vivíamos na ordem do dia para aquelas que sempre foram reprimidas sumariamente
por aqueles que amaram.
Karina
Buhr é uma das poucas artistas femininas dispostas a reescrever a história da
figura feminina na música brasileira: seus discos, seus desenhos e seus poemas
clamam pela defesa das mulheres em geral, em um mundo ideal no qual a igualdade
de direitos deveria valer para ambos os sexos. No entanto, o Brasil ainda
necessita de manifestos feministas em pleno século XXI para entender o quanto a
luta por direitos iguais ainda é necessária e relevante. Selvática,
terceiro álbum de Karina, é muito mais do que um simples disco: trata-se de um
manifesto que afirma a necessidade do empoderamento da figura feminina em meio
à cena contemporânea. A ideia em relação ao conceito deste trabalho surgiu a
partir da leitura de uma passagem do livro do Gênesis, da Bíblia (um livro
machista, deixemos bem claro), que fala a respeito da criação dos animais
selváticos (cobras, insetos e outros bichos peçonhentos) – as mulheres em
geral, por serem criaturas ligadas ao pecado e por serem supostamente
traiçoeiras e dotadas de fragilidade, também deveriam ser consideradas como
selváticas. A artista justifica que sua proposta reside no fato de que é
preciso reescrever uma história pautada em silêncio e opressão, visto que os
fatos históricos foram escritos e proclamados pelos homens.
A
comoção em torno do álbum começou a tomar conta das redes sociais em setembro
de 2015 quando a capa do disco foi divulgada na página mantida por Karina Buhr
no Facebook. A imagem –
que mostra a cantora sem camisa (o que implica os seios à mostra) é
caracterizada como uma guerreira do Daomé, com colar, pulseiras e um punhal já
demonstrando estar preparada para o combate – foi censurada com a alegação de
nudez explícita. O que o Sr. Mark Zuckerberg – e a ala conservadora que tem
tido voz e espaço neste país ignora solenemente – é o fato de que o
adjetivo selvático significa algo próprio das selvas, que nasce e/ou
se cria por lá. A postura, infelizmente, não surpreendeu Buhr, que afirmou ao
portal G1 no auge da polêmica: “Achava que o Facebook poderia tirar a foto,
bloquear meu perfil ou até a página, como já aconteceu outras vezes, por
exemplo, com o fanzine digital ‘Sexo Ágil’, que faço desde 2012 e onde sempre
tem peitos. Mas não deixaria de postar a capa do meu disco, nem méis desenhos,
nem nada, por conta disso”.
Se
Karina Buhr tivesse que atender às expectativas de seus censores (machos,
machistas e feminazis exercendo o pior de seu patrulhismo ideológico, político
e estético), como ela deveria retratar o conceito de um ser selvagem ou
silvestre? Vestindo roupas de Christian Dior para agradar aos que teriam se
sentido supostamente agredidos por um par de belos seios?! Enquanto a patrulha
em torno dos corpos femininos tomava conta das redes em nome da tradição, dos
bons costumes em prol de uma suposta vaidade da artista, outros decidiram
repostar e recriar a controvertida foto em seus perfis como um ato de protesto,
o que rendeu um efeito instantâneo: a curiosidade em torno do CD aumentou de
maneira impressionante, apesar da onda hipócrita e reacionária constante…
Antes
de tecermos quaisquer considerações acerca das canções do disco, é importante
dizer que Karina Buhr contou com um time de músicos de primeiríssima categoria
para as gravações de Selvática: Bruno
Buarque (bateria, MPC e percussão), MAU (baixo), André Lima (teclados), Guizado
(Trompete), Fernando Catatau e Edgard Scandurra (guitarras). O CD ainda contou
com as participações especiais de Manoel Cordeiro (guitarra), Laura Lavieri
(vocais), Victor Rice (violoncelo) e da aparição das vozes selváticas de Denise
Assunção e Elke Maravilha. A produção do álbum ficou a cargo de Buarque, MAU,
Lima e Rice, que gravaram as faixas entre os meses de junho e julho de 2015.
André Lima, Karina
Buhr, Bruno Buarque, MAU e Victor Rice (sentido horário)
A faixa de abertura,
“Dragão”, ajuda o ouvinte a ser inserido no contexto do disco. Como uma fera
que chega sorrateiramente diante de sua presa, o discurso de Karina nos envolve
em um belo reggae que nos diz que “a tristeza é amiga da onça, / que ensina a
enfrentar leões”, dentre os milhares que devem ser combatidos pelo dia-a-dia.
No entanto, a temporária calmaria era um passo em falso para o ouvinte menos
avisado de Selvática, visto que a segunda faixa do álbum é o rock “Eu sou um Monstro”, fala de
clichês femininos e da necessidade da mulher de abandonar o estado de apatia em
um universo majoritariamente misógino e que consegue abalar as estruturas
emocionais de qualquer indivíduo através dos versos diretos de Buhr e da
guitarra incendiária de Edgard Scandurra:
Mulher, tua apatia
te mata Não queira de graça O que você nem dá pra você, mulher
Hoje eu não quero
falar de beleza Ouvir você me chamar de princesa Eu sou um monstro
(…)
O peso da agressividade
do primeiro single de Selvática
abre espaço para a terceira canção do disco, “Conta Gotas” (Karina Buhr &
Guizado), que se destaca pelos solos lancinantes do trompete de Guizado, que
interagem com a poesia cortante de Karina, que revela a típica tristeza
proveniente de lágrimas derramadas, lástimas ditas de maneira veloz e
imperdoável e pensamentos a voar livremente diante de uma relação amorosa
supostamente marcada pela infelicidade constante. Já a faixa seguinte, a
desaforada “Pic Nic” (com destaque para os riffs
nervosos de guitarra de Fernando Catatau, integrante do grupo Cidadão
Instigado), é uma nota raivosa, irreverente e debochada ao universo
pequeno-burguês e suas mediocridades, com seus ímpetos de ganância (um cacoete
masculino?) e seu elenco de indivíduos supostamente descartáveis. Eis os versos
de Buhr, repletos de sarcasmo e deboche:
Não me importa de
onde vem o dinheiro dele
Vai ter churrasco
não sei onde botou o gelo ele
Tem pó de serra,
cerveja em cima da mesa
Tem pés em baixo da
minha mesa
Não tem graça, não
tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não
tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não
tem graça, toalha de picnic
Não quero saber
porque você veio
Nem de sua cerveja,
seu gelo, sua ganância
Eu também prefiro
coisas
Eu também prefiro
coisas
Eu também prefiro
coisas
Eu também prefiro
coisas
Seu filho ri
enquanto o meu chora
Você chama o
psicólogo
Eu jogo você fora
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Agora, chame o
psicólogo!
Corre, pega o gelo
Corre, frita a carne
Corre, não reclama
Corre, não faz drama
Corro pra minha vida
Acordo pra corrida
Corro pro salário
Seu esquema otário
(…)
A quinta e a sexta
faixas de Selvática são os dois números mais fortes e ligeiros
do disco. “Esôfago”, de Karina Buhr, fala da violência doméstica sofrida por
milhares e milhares de mulheres que nunca tiveram a oportunidade de ter seus
males reparados por uma sociedade misógina e injusta. “Cerca de Prédio”,
parceria de Buhr com Cannibal (baixista e vocalista da banda punk Devotos),
versa sobre a especulação imobiliária e do clima sufocante que tomou conta dos
grandes centros urbanos. Os versos da canção refletem a impossibilidade do
indivíduo de se reconhecer em meio à cidade que o reprime e não o acolhe:
Não te reconheço,
minha cidade
Não deixe, não se
abandone
Com promessa de
felicidade
O asfalto quente
consome
Carnaval eu volto
Me espera
Com tanto pé de
planta
Você de primavera
Cidade ouve seu
grito
Dia de hoje um corte
bruto
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Não te reconheço,
minha cidade
Não deixe, não se
abandone
Com promessa de
felicidade
O asfalto quente
consome
Quando der eu volto,
me espera
Me leve pro seu
mundo
Um poço de calma
Que alivia a alma
Entristece coração
O tempo faz isso com
a gente
O tempo faz isso com
a gente
Move montanhas
diálogos
Muda o compasso com
os passos
Planta dos pés no
chão
queimando cansaço
Algumas coisas
mudaram
Grades, janelas
Acho que a casa é
aquela
Agora é amarela
Planto meus pés na
cidade
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Os três números
seguintes do terceiro álbum de Karina Buhr são os momentos mais poéticos e
reflexivos do disco. “Vela e Navalha” e “Rimã” vão da descrição hábil de uma
bela guerreira ao momento de plena devoção à natureza que nos regenera é que
merecia maior respeito por parte dos humanos.
No entanto, é a nona
faixa de Selvática, “Alcunha de Ladrão”, que expõe o talento
genuíno de Buhr para escrever versos. Ao relatar o cotidiano cruel de um ser marginalizado
pelo chamado “avanço social”, a autora de Desperdiçando Rima consegue retratar
com clareza algumas das principais mazelas do Brasil – a fome, a miséria, a
desigualdade social, a repressão policial, o descaso das autoridades perante os
excluídos:
Solução às vezes
nenhuma
Ou vês alguma saída
Se não tem esperança
sobra
Quando tem ela pede
comida
Sofrida a boca
esquece
Do barulho do
estômago aflito
Que o bico seca sem
água
Que exige e consegue
viver
Que não quer mas
precisa, de fome,
Pensar rápido,
roubar e correr
Não era esse o seu
ofício
Nem o que sonhava
pra si
Mas a fome não mede
o porvir
E exige na pança o
peso
Se ileso consegue
fugir
Não entende como
passou
Só sabe que
precisava
Não teme quase nada
Suas asas que seguem
inteiras
Pairam na beira do
perigo
Não tem vicio
praticamente
não sente arrepio na
vista
não tem quase medo
de nada
mas teme ainda a
polícia
“Desperdiço-te-me”,
penúltima canção do disco, é um belo texto sobre paixão e desilusão amorosa.
Tal qual uma Carolina buarqueana que vê algo de essencial passar diante de seus
olhos tristes sem esboçar quaisquer reações, a Karina Buhr destes versos também
se revela como uma mulher dominada pela apatia infeliz de um sentimento
avassalador, que vence sua presa pelo cansaço:
Quando você botou o
dedo
No meu coração
Abriu um rio
Abri meus olhos
Vi que a sala estava
escura
Que brilhava a pele
dura
De paixão
Hoje desperdiço-me
Sentada nesse jardim
vendo a vida passar
por mim assim
Hoje desperdiço-me
Vendo um pedaço da
vida
passar por mim e ir
E não faço nada pra
conter
O desvio de poder
sobre mim
Que passou de miim
pra você
Quando te vi pela
segunda vez
Então
desperdiço-te-me
Nesse cansaço da
vida
que passa por mim
Selvática chega ao fim
com a canção-manifesto que dá nome a esta coleção de 11 canções
irrepreensíveis. Karina Buhr se propõe a reescrever a história das mulheres a
partir do momento presente, resgatando o instinto guerreiro contido em cada
indivíduo do sexo feminino que tenha sido vítima de misoginia, de agressão ou
de qualquer desmando gerado pelo sexo oposto, abrindo caminho para a liberdade
de um sexo tido como inferior ou supostamente frágil:
Refaço! Rechaço! Não lhe devemos nada não nos verás na escuridão como capacho nos temporais amargos dias penumbrosos anoitecidas Não moveras do corpo um pelo a tempestade é vencida
Selváticas, por amor ensandecidas. Não as tocarão manadas apedrejantes. Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas cavalgam amazonas delirantes. Guerreira que bebe sangue arco e flecha do Daomé viço do bicho, ebó de mangue jurema da favela óleo de palma pra ela alma na planta do axé
A partir da primeira feitiçaria
atirada por Karina aos seus ouvintes sem sinal de dó, surgem duas vozes
selváticas que irão corroborar a história a ser reescrita. Denise Assunção
(irmã do Nego Dito Itamar Assumpção) reencarna as guerreiras africanas
selváticas e lança suas profecias em formas de versos, gritos e uivos
desesperadores:
O eclipse perdurará acharás palha no agulheiro e transmutarás Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás com o cipó da própria raiz segura costura de árvores nas alturas não espirrarás tua violência amanhecida tantas vezes na aprovação da multidão tua sanha virará só coração sem arranhão, nem ferida Choro trufado, pedregoso umedece o olho arranhando refinando a vista embargada guerrilheira curda vitoriosa nas curvas das serras teimosas Mulheres, conforme a espécie na guerra esbravejam a dor da Terra em uivos lhes crescem pupilas ruivas uvas bacantes semeadas oliveiras palestinas suculentas avisam: já não há quem possa
Denise
Assunção e Karina Buhr na choperia do SESC Pompeia Foto: Nilton Serra
Elke Maravilha, a segunda voz
selvática a aparecer, relembra as mulheres que foram levadas às inquisições por
feitiçaria ou qualquer outro tipo de pecado. Ela nos avisa que os fatos
históricos serão reescritos de forma que as cicatrizes indeléveis gravadas em
vários corpos femininos sejam finalmente esquecidas – independentemente da
aprovação dos homens:
Chifres de marfim nascem devagar a empurrar entremeando os cabelos Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs Vãs as imagens delas conforme a sua semelhança bailarão lança e festança extirparão o sumo da memória criminosa refarão a história e a prosa de tuas eternas inquisições de fogueiras em beiras de abismos baderneiras flamejantes ciganas a postos abafarão os berreiros constantes em fogosas rosas gigantes filhos meus, os seus e os nossos
Selváticas, elas não necessitam seu
elogio Ela transgride sua orientação
A profecia de Elke, concluída com uma
gargalhada típica de uma bruxa horripilante, dá espaço para a conclusão do
manifesto de Karina Buhr, que lança mão da prosódia religiosa e finalmente
sentencia para concluir, no dizer da filósofa brasileira Márcia Tiburi, esse “heavy metal-macumba feminista, esse
deboche bíblico-diabólico, tentando entender o teratológico gênero musical que
só a Karina podia inventar para reunir bruxas, fadas, amazonas, iluminadas e
guerreiras, perdidas e vitoriosas”:
Refeito o começo bíblico não ferirás nenhum corpo por ser feminino com faca, ou murro, ou graveto eu te prometo sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto Super heróis de tuas vítimas estancadas agora és delas a espada e não o algoz
Selvática, ela come a selva de fora ela vem da selva de dentro! Selvática, ela pare a própria hora ela bale em pensamento! E no final ideal não terás domínio algum sobre mulher alguma! No final ideal não terás domínio sobre mulher alguma!
Karina Buhr reescrevendo a história
das mulheres na canção brasileira a partir do livro do Gênesis Foto: Vinil
É importante acrescentar que este
álbum possui um sem-número de simbolismos que não caberiam em nossa
análise. No entanto, é importante citar uma aqui, a partir de um post feito na
página de Karina Buhr no Facebook, poucos dias após o lançamento do CD: no caso,
foi feita a lembrança em relação aos Bereber, um povo bárbaro e selvagem
baseado em uma cultura essencialmente matriarcal, surgido há mais de dois mil
anos. Estes indivíduos ocupam a região de Magreb, que fica entre a Argélia, a
Tunísia e o Marrocos e preveem ser chamados de “Amazigh”, que significa em
português, “pessoas livres”. As mulheres desse povo longínquo são
caracterizadas pela beleza e pela força, além de sempre conseguirem manejar
armas brancas com notável destreza e de estarem sempre vestidas com muitas
pulseiras, colares e outros tipos de ornamento. Sua rainha mais importante
viveu por volta do ano 600 e tinha o dom da profecia: foi batizada como Dihya,
mulher-luz e rainha dos selvagens, conhecida por todos os seus
como Kahina, nome utilizado para denominar todas as sacerdotisas e
feiticeiras. Na língua de Camões, este nome ficou conhecido como Karina…
Se os reacionários de plantão tivessem
ouvido o disco com atenção e fizessem um mínimo de pesquisa pelo próprio Google
ou Facebook antes de
julgar o conteúdo pela capa, teriam chegado à óbvia conclusão de que a imagem
da capa de Selvática não é
apenas um mero convite à afronta ou uma mera demonstração de egolatria, mas um
manifesto corajoso muitíssimo bem fundamentado, algo que não se vê na música
brasileira há muito tempo.
Por isso, aproveite a chance e
deixe-se enfeitiçar por este manifesto em prol da liberdade chamado Selvática,
um disco que já nasce com a pecha de clássico – em nome das mulheres, em nome
da igualdade, em nome da poesia e da música de boa qualidade!