21 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 12

NEY MATOGROSSO – O CAIR DA TARDE (1997)


                                                                            

                              
                
Em 1997 já era possível eleger qual tinha sido a voz mais ousada da música brasileira da segunda metade do século XX: seu nome era Ney Matogrosso. Em pouco mais de duas décadas e meia de atividades musicais, Ney já tinha feito um pouco de quase tudo – cantou música Pop à frente do grupo Secos & Molhados, virou um Homem de Neanderthal para, logo depois, ser um dos Bandidos mais ilustres da MPB. Anos depois, tornou-se em um irresistível Pescador de Pérolas uma década e meia depois ao interpretar os clássicos do cancioneiro brasileiro e fez projetos especiais memoráveis baseados no legado musical de Chico Buarque e Ângela Maria.


Entretanto, o projeto musical que Ney Matogrosso concretizou em 1997 era mais radical em relação a tudo que tinha feito até então. O Cair da Tarde seria um disco no qual Ney apenas interpretaria o repertório de Heitor Villa-Lobos. Porém, a proposta se completou com canções do maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um grande discípulo e admirador da obra de Villa-Lobos. Clássicos da Bossa Nova e da música e câmara, da MPB e de trilhas sonoras do Cinema Brasileiro ao lado de cirandas e das cirandas mais belas do folclore nacional, um repertório ousadíssimo e incomum para os fãs e seguidores do astro. Algo impensável de se cantar no Brasil do final da década de 1990, embalado pela vulgaridade musical do pagode romântico e de bundas televisivas que tremiam loucamente ao som de tchans ordinários e de boquinhas de garrafas assanhadas.


Ney Matogrosso convocou um time extraordinário de músicos para esta gravação: Leandro Braga (piano), Márcio Montarroyos (trompete), Zero (Percussão), Ricardo Silveira (violões e guitarras), Bruce Henry (baixo acústico) e Zé Nogueira (sopros) compuseram a banda de apoio de O Cair da Tarde. Em algumas faixas, o grupo Uakti (Marco Antônio Guimarães, Arthur Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos) fez participações especialíssimas com sua sonoridade regional e bastante peculiar. A obra de Tom Jobim e Villa-Lobos não recebeu um tratamento sinfônico e grandiloquente, típico da tradicional música de câmara, porém foi abordada com enorme reverência e delicadeza por Ney.



“Cair da Tarde” (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos) é o número de abertura do disco: o instrumental delicado do Uakti, somado ao trabalho fenomenal dos músicos da banda de apoio de Ney (com destaque para o piano de Leandro Braga e os sopros de Márcio Montarroyos), nos transporta para um belo recanto de uma floresta do Amazonas, com seus bichos soltos pela mata exótica e verdejante. As faixas seguintes, abordam a melancolia e as belezas de um Brasil que não existe mais, destruído pela insensibilidade humana e pela ganância dos homens. “Veleiros”, “Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos), “Prelúdio Número 3 [Prelúdio da Solidão] (Heitor Villa-Lobos & Hermínio Bello de Carvalho), “Modinha” e “Sem Você” (Antônio Carlos Jobim & Vinícius de Moraes) são exemplos deste fato.

Márcio Montarroyos


UAKTI

O Cair da Tarde surpreende os fãs de Ney Matogrosso e os ouvintes de Jobim e Villa-Lobos por apresentarem releituras intimistas de clássicos do cancioneiro brasileiro. “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos & Ferreira Gullar) e “Águas de Março” (Antônio Carlos Jobim) receberam releituras exuberantes e bastante distintas dos originais. “Pato Preto” (Antônio Carlos Jobim) fecha o disco, com esperança de trazer uma espécie de alento para o ouvinte, depois de ter sido exposto à tanta tristeza.


Não há dúvidas de que O Cair da Tarde é o projeto musical mais audacioso da carreira de Ney Matogrosso. Apesar de ser um disco bastante radical, já vendeu mais de 70 mil cópias, um marco para a carreira de Ney. Por outro lado, há alguns fatos importantes sobre este disco que são dignos de registro:


·        Turnê – Ney Matogrosso não saiu em turnê com este disco. Segundo o artista, ele queria colocar uma ilha dentro de um lago em pleno palco, com o Uakti de um lado e a banda de apoio do outro. O altíssimo custo da empreitada fez com que Ney desistisse da ideia, para tristeza de seus fãs, que até hoje imaginam como teria sido este espetáculo;
·        Capa do Disco – A capa de O Cair da Tarde traz a foto de um besouro que pertence ao acervo científico do Museu Nacional, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É a única imagem da discografia de Ney Matogrosso que não traz uma pose do cantor ou qualquer ilustração que fizesse alusão ao artista;
·        Temática – Antes de Maria Bethânia ter feito bastante sucesso com o repertório do CD e show Brasileirinho, Ney Matogrosso foi uma das primeiras vozes do alto escalão a lançar seu olhar para um Brasil menos conhecido por parte dos ouvintes de MPB.


O Cair da Tarde não é apenas um dos trabalhos mais expressivos da obra de Ney Matogrosso, como também é um dos momentos mais belos da história da música brasileira. Um disco que deve ser ouvido no volume máximo a partir das 17h30 de cada tarde, para que o ouvinte possa se despir de sua máscara urbana insensível e opressora para poder viver a experiência indescritível de viver um Brasil que só existe nas obras de Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.


18 de dezembro de 2016

TROVA # 103

A ARTE DE SORRIR 




"Você verá que é mesmo assim
Que a história não tem fim

Continua sempre que você responde "sim"

À sua imaginação

À arte de sorrir cada vez que o mundo diz não"
(Guilherme Arantes, 1983)

A vida tem me ofertado uma série de "nãos" nos últimos dois anos. Daqueles bem grandes, em letras garrafais, típicos de serem expostos em outdoors em praça pública. Às vezes me revoltei, em outras me deprimi. Em nenhuma, baixei a cabeça e deixei de me levantar e seguir lutando. Afinal de contas, se chorei ou se sorri, o importante é que muitos "nãos" eu vivi...



Chorar de pena de si próprio é aceitável. Porém, a sua lágrima pode ser o troféu do inimigo, por isso, evito o choro em público a qualquer custo. Depois do susto da queda, é preciso praticar a arte do sorriso: na impossibilidade de sorrir de felicidade, vamos sorrir nem seja de raiva, de ódio ou pelo puro exercido do sarcasmo nosso de cada dia. Levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima e seguir lutando.


Não creio em perfis de sucesso. Creio no resultado de muito trabalho, persistência e excelência naquilo que se faz. Creio em episódios bem-sucedidos, em circunstâncias distintas - isto é, o velho "estar no lugar certo e na hora certa". Não creio em resultados obtidos por meio de bajulação ou "puxasaquice", creio em competência. Minhas crenças não me oferecem um lugar confortável no meio acadêmico, tampouco no mercado de trabalho. Infelizmente, eu preciso pagar um preço alto por ser íntegro e coerente com os meus princípios. Eis o maior "não" que a vida me dá.

As pessoas acostumadas com a importância do sucesso e da felicidade em suas vidas arrotam meias-verdades e frases feitas por aí como se tivessem o maior conhecimento filosófico possível. Pessoas obcecadas por princípios éticos e justos são sempre aquelas que leem mais, que pesquisam mais, que questionam mais, que incomodam mais. Os "bem-sucedidos" de acordo com as leis do mercado de um mundo capitalista são os oportunistas limitados que creem em perfis de sucesso. Os incompreendidos e marginalizados pela sociedade são os que não se enquadram nas caixinhas que aprisionam toda espécie de pensamento.


Eu me orgulho de pertencer ao segundo grupo. Com muitos "nãos", com poucos sons de "sim" e inúmeras respostas dizendo "talvez" ou "quem sabe?". Repito: o preço é alto. O retorno e a recompensa são poucos. Por outro lado, ter minha liberdade de pensamento e a independência intelectual preservadas são duas coisas para as quais não há preço algum. Em meio à dor da negação e o livre trânsito por portas que se fecham e portais que se abrem, é importante sorrir. Apesar da incerteza, mesmo com a temporária escuridão, sigamos sorrindo e cantando. Afinal, esta é a maior arte a ser desenvolvida por cada um de nós...


14 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 11

PATTI SMITH – BANGA (2012)


Patti Smith é, sem a menor sombra de dúvidas, a mulher mais inteligente que já surgiu no universo do Rock ‘n’ Roll. Não canta como Janis Joplin ou Tina Turner; não tem o glamour punk/new-wave de Debbie Harry, não é tão agressiva e/ou arrogante como Joan Jett e tampouco faz parte da tendência diva-oportunista-rebolativa-comercial de Madonna, Taylor Swift, Beyoncé ou Barbra Streisand.
Avessa a estratégias de marketing que ditam as regras do mainstream fonográfico, Smith foi uma poetisa que adentrou os portões do Olimpo do Rock por mero acaso e que se manteve distante dos clichês regidos pelo trinômio Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll.


Oriunda de uma família de classe média baixa dos EUA sempre foi uma mulher simples e fiel a seus princípios morais e às suas referências artísticas (Arthur Rimbaud, Allen Ginsberg, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Bob Dylan são algumas das principais). Ao mesmo tempo em que se aventurou pela música, esta senhora que completará 70 anos de idade em 30 de dezembro de 2016 sempre publicou livros de poemas (Auguries of Innocence, de 2005 é o mais recente) e, em 2010, publicou Just Kids (em português: Só Garotos), livro que conta as suas memórias ao lado de seu grande amigo, o fotógrafo e artista plástico Robert Mapplethorpe (1946-1989).


Sua discografia, no entanto, merece comentários mais extensos do que meras menções neste post: seu an-to-ló-gi-co (sim, separado por sílabas!) disco de estreia, Horses (1975), é um dos discos mais importantes dos últimos tempos e seus demais álbuns – Radio Ethiopia (1976), Easter (1978), Wave (1979), Dream of Life (1988), Gone Again (1996), Peace & Noise (1997), Gung Ho (2000), Trampin’ (2004) e Twelve (2007)– são provas definitivas de como a aliança entre poesia, Rock, atitude, humildade e engajamento é algo que faz de Patti um verdadeiro clássico, porém, às vezes, perdido: infelizmente são poucos os brasileiros que conhecem o poder de fogo que Patti Smith lança através de suas performances gravadas em discos e livros.


Banga é o 13.º álbum lançado por Mrs. Smith (incluindo coletâneas e trabalhos de canções inéditas). Concebido entre viagens de Patti pelo mundo, é um trabalho que dialoga diretamente com Just Kids, pois os dois projetos revelam ao grande público o universo particular de Patricia Lee Smith: seus amores, seus ideais artísticos, sua íntima relação com Mapplethorpe, seus olhares sobre o que aconteceu no mundo nos últimos cinco anos, sua saudade dos que já se foram deste mundo… (Amy Winehouse, Johnny Depp, Maria Schneider, Nikolai Gogol, Américo Vespúcio e Andrei Tarkovsky são alguns dos homenageados por Patti Smith no disco.


A coleção de 12 canções que compõe Banga fala das mais variadas formas de viagem – relatos de um explorador (“Amerigo” – em homenagem a Américo Vespúcio), voos literários e cinematográficos (“April Fool” e “Tarkovsky” – tributos ao escritor russo Nikolai Gogol e ao cineasta russo Andrei Tarkovsky), ondas devastadoras (“Fuji San” – Rock composto para homenagear o povo japonês, seriamente abalado pelo terremoto e pelo tsunami que se abateu sobre o seu território em 2011), baladas em homenagem a uma menina tristonha e a um ícone da sétima arte (“This is the girl” e “Maria” foram compostas para homenagear a cantora Amy Winehouse e a atriz Maria Schneider, mortas em 2011), um mosaico de sons e outro caleidoscópio de imagens (“Mosaic” – que narra uma viagem de Patti pela Turquia), uma ode ao astro de cinema e uma lullaby song para o querido afilhado (“Nine é uma homenagem a Johnny Depp; já “Seneca” é um mini-diário de aventuras e conquistas poético-musicais dedicado a Seneca Sebring), o projeto transcendental de um velho italiano e o protesto do velho roqueiro canadense (o épico “Constantine’s Dream” – de mais de 10 minutos – descreve um sonho que Patti teve em 1988 e uma belíssima releitura de “After the Gold Rush”, de Neil Young, resgatando o lamento de 1970 para as gerações que sofrem com os autoritarismos da espécie humana em pleno século XXI)…


Estes pares todos entremeados pelo latido intermitente de um cão (“Banga” é o nome do cão do romance russo Magarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov) vindo diretamente da ficção para nos avisar: “Believe or Explode!” (Creia ou Exploda!).


Concebido após o lançamento de seu livro de memórias, Banga foi gravado no Electric Lady Studios (construído e popularizado por Hendrix) e é mais uma colaboração de Patti, seus já habituais parceiros musicais (o guitarrista Lenny Kaye, o baterista Jay Dee Daugherty e o baixista e tecladista Tony Shanahan), alguns convidados especiais (Johnny Depp toca bateria e guitarra na faixa-título; já Tom Verlaine, guitarrista do Television e velho amigo de Smith, participa de “Nine”) e membros da família (Jackson Smith e Jesse Paris Smith, frutos do casamento de Patti com o guitarrista do MC-5, Fred “Sonic” Smith, tocam, respectivamente, guitarra e piano em algumas faixas deste trabalho).


Há pessoas (eu me incluo nesta lista!) que acreditam que Banga é o melhor trabalho lançado por Patti Smith desde Easter. Existem outros que dizem que este está entre os melhores discos lançados em 2012. Trata-se de um disco com referências poéticas mais evidenciadas pela própria autora no encarte deste trabalho e que deixa a ferocidade do discurso punk em segundo plano. De fato, é um disco que não carrega a agressividade tão característica de trabalhos anteriores como Radio Ethiopia e os gêmeos Gone Again e Peace & Noise, mas ainda mantém Patti como um baluarte do Rock mundial e pode tornar seu legado musical ainda mais perceptível para os jovens do século XXI que deveriam conhecê-la e/ou ouvi-la com mais frequência.

É preciso dizer que o primeiro disco de inéditas de Patti Smith nos anos 2010 não deixa de ser um grande disco de Rock. Afinal, ouvir música inteligente em tempos não tão inspirados como os nossos é mais do que uma necessidade: é uma obrigação para o bem-estar dos seus ouvidos... Como diria o mote deste disco: “Believe or Explode”!


12 de dezembro de 2016

TROVA # 102

FORTALEZAS FEMININAS


Dizem que a mulher é o sexo frágil
Mas que mentira absurda
(Erasmo Carlos, 1981)


O mundo do cinema foi abalado recentemente por uma revelação bombástica do cineasta italiano Bernardo Bertolucci: a atriz Maria Schneider, que tinha estrelado o filme cult O Último Tango em Paris ao lado de Marlon Brando, tinha sido estuprada por seu colega de elenco graças a uma orientação do diretor. A suposta verdade que Schneider transmitia ao ser violada por um Brando com as mãos lambuzadas de manteiga era uma dor verdadeira e fruto de uma indignação sem tamanho com Marlon e, principalmente, com Bertolucci.

Marlon Brando & Maria Schneider

A confissão do crime do cineasta italiano não só abalou Hollywood, como também deixou o mundo do cinema em polvorosa. Maria Schneider jamais se recuperou do trauma e se tornou em uma viciada em drogas, com vários episódios de crises depressivas e de overdoses. Entretanto, Maria fez de sua dor e de sua depressão estandartes para que ela se tornasse uma verdadeira defensora ferrenha dos direitos das mulheres no meio cinematográfico.


A história de Maria Schneider é mais um capítulo dramático do quanto a repressão do universo machista, misógino e cruel pode fazer mal para muitas mulheres. No entanto, ela não foi a única que fez de sua dor e sofrimento um instrumento de contestação e resistência contra aqueles que sempre ditaram as regras do jogo. Exemplos de fortalezas femininas que se levantaram contra o ódio sexista devem ser lembrados e homenageados sempre que possível. Eu, como um aberto defensor do feminismo e esperançoso na necessidade de equiparação entre homens e mulheres, também me aproprio da luta destas guerreiras e aproveito para reverenciar algumas delas...




Virginia Woolf ao lado de seu pai, Sir Leslie Stephen

Uma das fortalezas femininas que sempre renderam minha admiração é a escritora inglesa Virginia Woolf. Terceira filha do casal Leslie e Julia Stephen e casada com o editor Leonard Woolf, Virginia sofreu horrores por ter sido estuprada por um de seus meios-irmãos, pela perda precoce da mãe e por nunca ter ido à Universidade – “privilégio” concedido aos homens da família Stephen.

Leonard Woolf & Virginia Woolf
Virginia aproveitou a impossibilidade de ir à Cambridge e passava horas e horas estudando na extensa biblioteca do Pai, um grande intelectual da Inglaterra Vitoriana. Não foi apenas uma das maiores revolucionárias da Literatura do século XX, como também se projetou como uma das intelectuais mais importantes de todos os tempos. A Room of One’s Own (1929) é um de seus ensaios mais importantes e é uma das bíblias do feminismo.

Rita Lee e o primeiro filho, Beto Lee, em 1977

Uma das passagens mais comoventes do livro de memórias de Rita Lee é justamente o momento no qual ela nos conta sobre um aborto realizado em 1977. Ritz nos deixa claro que não era nenhuma alegria ter que realizar um procedimento daquele porte. No caso da Rainha do Rock Brasileiro, era uma decisão necessária, pois ela tinha acabado de sair de uma gravidez de altíssimo risco e de uma passagem pela cadeia.
Aposto que o episódio será mais um argumento para que as camadas mais conservadoras da sociedade brasileira se mobilizem contra a legalização do aborto com a desculpa esfarrapada do histórico de porralouquices de Rita Lee, ignorando toda as questões relacionadas à cultura do estupro, que sempre permeou nossa vida social. Rita não hesitaria em dar de ombros para os conservadores e mostrar-lhes a bunda; afinal de contas, o pioneirismo maior da velha “Ovelha Negra” foi de subverter as regras masculinas ao fazer Rock em um país no qual os machos eram aqueles que empunhavam guitarras em riste e encaravam o microfone diante de plateias imensas.

Maria Bethânia, Doutora Maricotinha ou Doutora Honoris Causa pela UFBA

Um dos fatos mais surpreendentes do ano de 2016 aqui no Brasil foi a escolha da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em conceder o título de Doutora Honoris Causa à Maria Bethânia pelo conjunto da obra. Dona de uma carreira musical de mais de cinco décadas, Bethânia foi pioneira em integrar música, poesia e dramaticidade em seus trabalhos musicais. E uma das primeiras artistas da canção popular em receber tamanha honraria. Doutora Maricotinha, emocionada, fez um belo discurso no momento da entrega do título e passou a ocupar um lugar em uma galeria geralmente dominada por homens.
Outra pioneira que merece não apenas o meu aplauso, como também minha gigantesca admiração, é Patricia Lee Smith, mais conhecida entre nós como Patti Smith. Matriarca do Punk, poetisa intensa, prosadora inteligentíssima, uma mulher de um histórico de vida extraordinária. Mostrou para o mundo que as mulheres que fazem Rock’n’Roll não precisam ser belas, maquiadas e repletas de glamour. A beleza não é fruto de sua maquiagem ou do seu penteado, e sim resultado de sua inteligência.


Patti gravou 11 discos, publicou 15 livros de poesia e 2 excelentes livros de memórias. Seu disco de estreia, Horses (1975), é uma verdadeira aula de poesia, rebeldia e Rock ‘n’ Roll. Influenciou vários músicos de sua geração e de outras que surgiram. Seus livros de prosa receberam vários prêmios literários e foram aclamados pela crítica especializada. Não me surpreendi quando ela foi escolhida por Bob Dylan para receber o Prêmio Nobel de Literatura em seu nome e cantar um de seus clássicos diante de um teatro lotado. Nervosa, Patti Smith errou a letra duas vezes e pediu desculpas para os presentes e nos ofertou com uma das interpretações mais belas em décadas de atividades.


Patti durante a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de 2016

O Pop também nos revelou a maior fortaleza feminina do mundo da música. Madonna está no mundo musical há mais de três décadas, sempre se reinventando em termos de imagem e som. Aclamada pelos fãs, odiada por setores da crítica musical e pelos conservadores de plantão e incompreendida por uma vasta parcela da intelectualidade e de seus pares na música, Madge se manteve como referência de qualidade e longevidade.


Ao aceitar o prêmio de Mulher do Ano de 2016 da Revista Billboard, Madonna falou não apenas daqueles que lhe deram inspiração, mas também falou a respeito das limitações sofridas pelo fato de ser uma mulher em universo musical predominantemente masculino: Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry, Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras, mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não aja como se você tivesse uma opinião que vá contra o status quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e definitivamente não tocará nas rádios.





Além disto, Madonna fala da importância de estar viva e da necessidade das novas gerações de mulheres de se espelharem em outras pioneiras para continuar seguindo na sua trajetória de fortalezas femininas: “Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui. Michael se foi; Tupac se foi; Prince se foi; Whitney se foi; Amy Winehouse se foi; David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas e todo dia eu agradeço por isso. O que eu gostaria de dizer para todas as mulheres que estão aqui hoje é: mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque eles valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para as inspirem, apoiem e instruam”.



O discurso de Madonna, infelizmente, faz bastante sentido em um contexto no qual as mulheres são constantemente criticadas e cerceadas pelos homens. Elas recebem salários inferiores do que os dos homens. São, muitas vezes, chefiadas, assediadas e injustiçadas pelo sexo oposto. Por isso, lembrar de algumas referências de fortalezas femininas é algo fundamental para que acreditemos que um dia a igualdade entre os sexos possa ser uma realidade e não mero fruto de nossas imaginações.


7 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 10

GILBERTO GIL – EXPRESSO 2222 (1972)


Existe um profissional da canção brasileira que representa tudo que há de mais criativo na música deste país: seu nome é Gilberto Passos Gil Moreira. Com mais de 50 anos de atividades musicais, Gil é uma verdadeira máquina de ritmos da canção nacional: transita por diversos universos musicais com bastante naturalidade, possui parceiros dos mais variados e é detentor de uma obra extensa, multifacetada e reconhecida no Brasil e no mundo inteiro.


Porém cabe aqui uma questão importante: por onde andava Gilberto Gil em 1972?


Em 14 de janeiro de 1972, Gilberto Gil retornava ao Brasil depois de um exílio forçado pela ditadura militar brasileira de quase três anos em Londres. Ao contrário de Caetano Veloso – seu companheiro musical, de exílio e andanças tropicalistas –, Gil retornou da Inglaterra com várias ideias musicais para o seu primeiro disco brasileiro depois de anos ausente. Sua condição de exilado, por incrível que pareça, lhe trouxe benefícios: a ausência do Brasil lhe obrigou a entrar em contato com o que existia de melhor na cena da música internacional. Por outro lado, o filho de D. Claudina finalmente pôs em prática a partir de sua temporada londrina toda a ousadia em termos de invenções musicais da época do Tropicalismo.




Expresso 2222 foi lançado em julho de 1972 e marca não apenas o retorno de Gilberto Gil ao seu país de origem, como também a evolução de seu projeto musical. Um time excelente de músicos foi convocado por Gil e pelo produtor Guilherme Araújo para dar forma a este disco antológico: Lanny Gordin ficou responsável pela guitarra (e às vezes pelo baixo), Bruce Henry pelo baixo, Tutty Moreno pela bateria e percussão e Antônio Perna Fróes comandou os teclados (piano e celeste) – além das participações especialíssimas de Gal Costa e Caetano Veloso.



Este álbum de Gil se caracteriza pelo hibridismo musical, alia a nostalgia ao futuro, a tradição com a modernidade, além de conter o canto alegre e espontâneo de um dos cantores mais originais do universo. Por isso, resolvemos dividir a análise deste disco em três grupos: canções tradicionais, canções inéditas e a faixa-título.
No grupo das canções tradicionais reunidas estão “Pipoca Moderna” (Caetano Veloso / Sebastião Biano), “O Canto da Ema” (Alventino Cavalcante / Ayres Viana / João do Vale), “Chiclete com Banana” (Gordurinha / Almira Castilho), “Sai do Sereno” (Onildo Almeida) e “Cada Macaco No Seu Galho (Chô Chuá)” (Riachão). Apesar de ter optado por obras que pertencem ao cancioneiro nordestino tradicional, Gil optou por não gravar meros covers, mas em realizar verdadeiras releituras dos clássicos com a linguagem do Pop Rock dos anos 1970. As participações de Gal Costa (“Sai do Sereno”) e Caetano Veloso (“Cada Macaco No Seu Galho”) confirmam a vontade de Gilberto Gil em reler canções de maneiras bastante modernas para o período. Afinal, os “velhos baianos” ainda eram exemplos de modernidade musical lá pelos idos de 1972.
Já o grupo de canções inéditas compostas por Gil especialmente para Expresso 2222 traz seis canções: “Back in Bahia”, “Ele e Eu”, “O Sonho Acabou”, “Oriente”, “Vamos Passear no Astral” e “Está Na Cara, Está Na Cura”. As três primeiras são belíssimas crônicas poéticas que abordam a saudade dos tempos do exílio em Londres, a alegria em retornar à tão amada Bahia e, concluem, lucidamente que “o sonho acabou” e “quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”. Sim, Gil sabia que, apesar de ter reconquistado a liberdade, muitas coisas haviam mudado no Brasil em 1972. E como proceder diante da rigidez dos novos tempos? Se seguirmos os passos ditados pela voz que canta em “Oriente”, devemos nos orientar, determinar, (re)considerar novas opções sempre com um sorriso estampado de forma que possamos dar “continuidade” ao “sonho de Adão”. As demais canções deste grupo (“Vamos Passear no Astral” e “Está Na Cara, Está Na Cura”) também refletem a preocupação de Gil em se voltar para o misticismo como uma maneira de buscar conforto aos sobressaltos do espírito.
Enfim, chegamos à faixa-título do disco: “Expresso 2222” não é apenas uma das canções mais populares de Gilberto Gil, como também é um de seus hinos mais significativos. É uma canção sem idade não só porque quer se projetar para além do ano 2000 que, em 1972, parecia tão distante para os seres humanos, mas principalmente porque resume em um pouco mais de dois minutos uma mensagem de esperança e crença no futuro. Quando ouvimos Gil cantar sobre seu mítico ônibus fazendo de seu violão e de sua voz duas armas brancas de versos, sons e ritmos inconfundíveis, descobrimos a presença de um embaixador da alegria tão risonho e sorridente que chega a ser impossível não deixar de sorrir, cantar alto, bater palmas, ou tudo isso junto.
Por tudo isto e tudo mais que Gilberto Gil fez pela música do planeta é que devemos ouvir Expresso 2222. Mestre Gil ainda tem muito a ensinar para os jovens de hoje, não por ser ousado, inteligente, alegre e irreverente. Simplesmente porque Gil é sinônimo de moderno e, por isso, um verdadeiro clássico!