28 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 13

JONI MITCHELL – THE HISSING OF SUMMER LAWNS (1975)


Joni Mitchell produzia intensamente durante a década de 1970 – oito álbuns em um espaço de 10 anos e que apresentam o que houve de melhor em toda a sua obra musical. Entre o reconhecimento pleno do público e a aclamação da crítica com o irretocável Court and Spark (1974) e o conceitual-existencial Hejira (1976), está um dos trabalhos mais belos, enigmáticos e profundos de Mitchell, o denso e ousado The Hissing of Summer Lawns. Lançado em novembro de 1975, este álbum completou quatro décadas de surgimento em 2015 sem muito alarde e ainda oferecendo um grande desafio para todos os que decidem ouvir e desvendar este verdadeiro clássico de Ms. Mitchell, pouquíssimo comentado por aí.


Um acontecimento que gostaria de compartilhar antes de começar a trazer algumas análises sobre o disco foi de que este foi o título de Joni que me deu mais trabalho para encontrar e adquirir. Minha coleção ficou incompleta por um bom tempo graças a este raro The Hissing of Summer Lawns, que deixou de ser uma raridade inalcançável para mim há cerca de uns dois anos graças a um santo vendedor de uma loja de discos da Galeria do Rock que conhecia a obra de Mitchell e me ajudou a ir em busca do clássico perdido. Se não fosse por aquele santo (e raro!) vendedor de discos – profissão que deve estar prestes a inexistir nos dias de hoje –, minha discografia de Joni Mitchell jamais estaria completa!


O álbum que Mitchell lançou em 1975 era, definitivamente, estranho e perde disparado em matéria de estranheza para Don Juan’s Reckless Daughter (1977) – a tradução livre do título The Hissing of Summer Lawns para o português seria algo como “O Sussurrar das Gramas Verdejantes do Verão”. Porém, as escolhas incomuns da artista não repercutem na falta de beleza das suas obras: é um disco belíssimo e que tem o poder de encantar o ouvinte já na primeira audição. Joni manteve a parceria com o baterista de Jazz John Guerin (seu namorado, na época), que já tinha dado certo não apenas em Court and Spark, como também no ótimo disco ao vivo Miles of Aisles, retrato sonoro da turnê que a autora de “Both Sides, Now!” fez com o grupo L.A. Express (grupo do qual Guerin fazia parte) no decorrer de 1974.


Além disto, Joni Mitchell contou com as valiosas colaborações de James Taylor (violão e backing vocais), da dupla Graham Nash – David Crosby (backing vocais), Robben Ford, Jeff Baxter e Larry Carlton (guitarras e violões), Victor Feldman e Joe Sample (teclados, piano Rhodes e piano acústico), dos baixistas Max Bennett e Wilton Felder, dos sopros de Chuck Findley e Bud Shank e da especialíssima aparição dos Drummers of Burundi. A produção, mais uma vez, foi fruto de mais uma colaboração entre a artista canadense e o engenheiro de som Henry Lewy, parceiro de trabalhos anteriores.


Sonoramente, Hissing manteve a equilibrada e ousadíssima fusão entre FolkJazzWorld Music e Rock que rendeu popularidade e respeito a uma das artistas femininas mais importantes da história da música. As 10 canções do disco não apenas revelam uma artista que estava no auge da forma enquanto cantora, compositora e instrumentista, mas também apontam o olhar sagaz e atento de Mitchell em relação ao mundo que ela via em 1975: o  tom mais confessional e várias referências pessoais, ostensivamente marcantes em álbuns como Clouds (1969), Blue (1971) e For the Roses (1972) saía de cena paulatinamente para dar espaço a uma poética marcada pelo que se convencionou como “filosofia social” e o sarcasmo explícito, já presente em algumas canções de Court and Spark (1974). No entanto, as mudanças musicais e líricas surgidas na obra de Joni Mitchell em meados dos anos 1970 não deixaram de lado a sensibilidade e a complexidade de seus versos, característica que sempre encantou e intrigou os críticos de música dos mais progressistas aos mais conservadores.


A penúltima faixa do disco, “Sweet Bird” ainda possui alguns traços de confissão e algumas referências extramusicais (no caso, a peça Sweet Bird of Youth, do dramaturgo norte-americano Tennesse Williams), porém os versos que Joni escrevia a partir de meados dos anos 1970 foram contagiados pelo seu olhar de uma cronista a fim de fazer uma filosofia dos costumes através do prisma da pintura:


“Sweet Bird you are
Briefer than a falling star
All these vain promises on beauty jars
Somewhere with your wings on time
You must be laughing
Behind our eyes”

A quarta faixa do álbum, “Don’t Interrupt the Sorrow”, também aponta a visão cáustica de uma habitante de Bel-Air através das rimas arquitetadas por Joni Mitchell com extremo apuro e riqueza:


“Truth goes up in vapors
The steeples lean
Winds of change patriarchs
Snug in your bible belt dreams
God goes up the chimney
Like childhood Santa Claus
The good slaves love the good book
A rebel loves a cause”

Entretanto, é em “Shades Of Scarlett Conquering” que observamos com mais atenção a influência das artes plásticas e do cinema na música de Joni Mitchell. Ao descrever a personagem Scarlett (uma referência direta a Gone with the Wind?) entre cores e alusões à sétima arte em meio a um arranjo de cordas melancólico, a artista tenta traçar um retrato detalhado da alma feminina dos tempos de outrora, com suas ambições e desejos em um mundo dominado por homens:


“Out of the fire like Catholic saints
Comes Scarlett and her deep complaint
Mimicking tenderness she sees
In sentimental movies
A celluloid rider comes to town
Cinematic lovers sway
Plantations and sweeping ballroom gowns
Take her breath away”

Sempre engajada em relação a cada detalhe relativo às suas obras, Joni Mitchell se responsabilizou também pela capa deste disco, baseada em mais uma de suas notáveis ilustrações e pinturas. Suas canções deste período sempre refletiram o olhar criativo de uma pintora que traça um retrato paisagístico, não necessariamente de uma poetisa que descreve estados de sentido. A faixa de abertura do disco, o rock-jazz matador “In France They Kiss on Main Street”, traça um olhar sobre os amores, paixões e os clichês da juventude dos anos 1950 de maneira muito afetiva e bem-humorada:

“Downtown
In the pinball arcade
With his head full of pool hall pitches
And songs from the hit parade
He’d be singing “Bye, Bye, Love”
While he’s snacking up the free play
Let those Rock ‘n’ Roll choir boys
Come and carry us away”

“In France They Kiss on Main Street” foi o único hit single de The Hissing of Summer Lawns. A canção chegou a desfrutar um relativo sucesso entre o final de 1975 e o início de 1976, teve um vídeo exibido no programa inglês Old Grey Whistle Test (com direito a uma apresentação elogiosa do host, Bob Harris) que deixa bem claro para o fã de Mitchell que sua música havia mudado para melhor:


Em meados da década de 1970, Joni se mudou para uma bela casa em Bel-Air, bairro chique de Los Angeles no qual já viviam várias celebridades do momento. A sagacidade de Mitchell se alimentava justamente dos clichês e da superficialidade das relações humanas que permeavam o high society de Beverly Hills. Os versos de “The Boho Dance”, por exemplo, salientam o não-lugar de uma artista sensível em meio ao universo frívolo dos ricos e famosos:


“Like a priest with a pornographic watch
Looking and longing on the sly
Sure it is stricken from your uniform
But you can’t get it out of your eyes
Nothing is capsulized in me
On either side of town
The streets were never really mine
Not mine these glamour gowns”

Já a segunda faixa do disco, “The Jungle Line”, é uma homenagem ao pintor Henri Rousseau, um dos ícones do pós-impressionismo. Mitchell descreve o work in progress de um artista com inquietações tão genuínas quanto as dela e conta com a participação dos percussionistas Drummers of Burundi. A presença das batidas tão marcantes, semelhantes a um ritual tribal, deve ser fruto da influência sofrida por Joni e John Guerin ao Brasil durante o Carnaval de 1975 – o casal passou pelo Rio de Janeiro e pela Bahia e ficaram encantados com a cultura local. Os versos da canção refletem a agressividade do tribalismo de povos remotos, não muito diferente das selvas urbanas com as quais a artista também mantinha contato:

“In a low-cut blouse she brings the beer
Rousseau paints a jungle flower behind her ear
Those cannibals – of shock and jive
They’ll eat a working girl like her alive”

As canções de Hissing falam bastante de opressão feminina, de casos amorosos insólitos e malfadados, geralmente escondidos para debaixo do tapete ou passíveis de serem desvelados em meio à beleza verdejante da grama em pleno verão. “Edith and the Kingpin”, terceira faixa do álbum, tornou-se uma das canções mais conhecidas do repertório de Joni Mitchell, descreve a relação improvável de uma jovem, bela e inocente com um mafioso perigoso. Os opostos se atraem com tanta volatilidade que chega até a surpreender a descrição da própria Joni, cujos versos dizem, com precisão cinematográfica:


“Edith and the Kingpin
Each with charm to sway
Are staring eye to eye
They dare not look away”

A oitava faixa do disco, o medley que une “Harry’s House” (de Joni) a “Centerpiece”, canção de Jazz escrita por Harry Edison e Jon Hendricks em 1958, também revela um relacionamento tenso. A canção de Mitchell expõe o distanciamento entre os dois amantes, para que, logo em seguida, os versos do standard jazzístico adquiram uma acidez mortal na voz de uma cantora que sempre expôs suas paixões em forma de versos e sons. Embalada pelos solos de piano incandescente de Joe Sample, pelos sopros e pela bateria de Guerin, Joni Mitchell destila suas emoções sem o menor traço de censura:


“Yellow checkers for the kitchen
Climbing ivy for the bath
She lost in House and Gardens
He’s caught up in Chief of Staff
He drifts off into the memory
Of the way she looked in school
With her body oiled and shining
At the public swimming pool”
(Harry’s House)

“The more I’m with you pretty baby
The more I feel my love increase
I’m building all my dreams around you
Our happiness will never cease
Cause nothing’s any good without you
Baby, you’re my centerpiece”
(Centerpiece)

A crueldade maior operada pelo olhar sagaz de Joni Mitchell está registrada na faixa-título de seu álbum de 1975. “The Hissing of Summer Lawns” é uma parceria dela com John Guerin que versa sobre sexismo, luxúria, solidão obtidos através da dominação mantida pelo poder financeiro. O luxo e a riqueza podem garantir conforto e status (ou uma mulher-objeto, tal qual apontam os versos da canção), mas não necessariamente nos garantem um amor verdadeiro:


“He bought her a Diamond for her throat
He put her in a ranch house on a hill
She could see the valley barbeques
From her window sill
See the blue pools in the squinting sun
And hear the hissing of summer lawns”

A faixa que encerra The Hissing of Summer Lawns resume com a precisão desesperadora de um chiaroscuro a fúria do olhar panorâmico de Joni Mitchell sobre as relações humanas descritas por ela neste álbum tão complexo. “Shadows and Light” chega a soar como uma criação litúrgica, na qual as vozes que se ouvem são as da própria cantora e compositora multiplicadas com o intuito de simular um coro acompanhado por um órgão Fafisa. A canção chegou a dar nome a um de seus álbuns mais aclamados cinco anos depois, baseado na turnê do disco Mingus (1979). De certa maneira, os versos que encerram Hissing dão um bom resumo das dualidades que permeiam as 10 canções que se alternam em 40 e poucos minutos de duração ao álbum:


“Every picture has its shadows
And it has some source of light
Blindness blindness and sight
The perils of benefactors
The blessings of parasites
Blindness blindness and sight
Threatened by all things
Devil of cruelty
Drawn to all things
Devil of delight
Mythical devil of the ever-present laws
Governing blindness blindness and sight”


A crítica especializada não poupou críticas negativas a The Hissing of Summer Lawns na ocasião de seu lançamento, o que chegou a enfurecer Joni na época. Dentre os pontos negativos que chamaram a minha atenção, foi a espinafrada do renomado jornalista e escritor Stephen Holden que disse que este era um disco que deveria ser “lido” para que depois fosse finalmente “ouvido”. Se levarmos em consideração as considerações de Holden para um mero disco de música Pop, seu argumento estaria irrefutavelmente correto; porém, ao se tratar de uma artista extremamente inteligente e provocadora como Joni Mitchell, que nunca fez música para mero deleite e/ou entretenimento passageiro ou momentâneo – o que faz com que as afirmações do crítico caírem literalmente por água abaixo… Apesar da má recepção da crítica, Hissing chegou a ser indicado ao Grammy do ano seguinte por Melhor Perfomance Vocal Feminina.
Ao completar 40 anos de surgimento, The Hissing of Summer Lawns merecia um relançamento com versões remasterizadas ou uma edição especial com sobras de estúdio e/ou faixas demo, que, inclusive, estão disponíveis pelo YouTube para quem quiser ouvir. Seria interessante ouvir a própria Joni Mitchell dar um depoimento sobre um de seus discos mais estranhos e mais simbólicos de sua obra musical, no entanto o estado de saúde precário da artista (sabe-se que Joni teve um aneurisma cerebral e ficou entre a vida e morte no decorrer do primeiro trimestre de 2015 e é só!). Porém, como este é um genuíno Lado B de Ms. Mitchell, resolvemos resgatá-lo para que você, leitor, possa ouvi-lo e ficar tão intrigado quanto eu ao reouvir este disco para escrever estas tão suadas linhas.


Se você ainda não conhece este álbum, clique no link abaixo e faça uma boa viagem pelos recantos verdejantes e inquietos de Ms. Roberta Joan Anderson…


27 de dezembro de 2016

TROVA # 104

PARA GEORGE, COM AMOR




"It's a cruel world
We've so much to lose
And what we have to learn
We rarely choose"
(George Michael, 1996)


George Michael nos deixou no Natal de 2016. Discretamente, longe dos holofotes, sem muito alarde por parte de sua assessoria de imprensa. Misteriosamente. Milhões de fãs chocados, afinal, ele tinha apenas 53 anos de idade e estava trabalhando em um álbum de canções inéditas. Uma perda sem tamanho para a música, o ativismo LGBT e para as causas humanitárias do planeta.



George formou o duo Wham! ao lado de Andrew Ridgeley durante a primeira metade dos anos 1980

As lembranças mais doces da minha infância eram relacionadas aos sons que se ouviam dentro de casa. George Michael foi uma das trilhas sonoras mais marcantes, se não foi o mais impactante dos meus primeiros anos. "Careless Whisper" e “Wake Me Up, Before You Go-Go” eram figurinhas fáceis e tocavam bastante do toca-fitas do carro de meu Pai em meados da década de 1980. Até hoje eu me lembro do violão e da guitarra anos 1950 de Faith (1987), primeiro álbum solo de George. Meu avô adorava ouvir aquele disco nas manhãs de sábado, enquanto eu brincava na piscina, vivendo a felicidade dos meus 7, 8 anos de idade.






George Michael foi a grande novidade do universo Pop do final da década de 1980. Conseguiu fazer frente aos feitos de Prince, Madonna e Michael Jackson com sua música inteligente e seu visual retrô - casacos de couro, calça jeans, camiseta branca, topetes estilo Elvis com luzes, barba impecável e cerrada, um brinco dourado de crucifixo e um sex appeal de arrebatar multidões (homens e mulheres!). 




A diferença de George para os pares de sua geração? Em um ÚNICO álbum, ele compunha letras bastante densas para canções que iam do R&B e Pop típico dos anos 1980 ("Monkey") ao Jazz ("Kissing a Fool"), sem deixar de passar por baladas açucaradas ("One More Try") e pelos remixes típicos de santuários bate-estacas ("I Want Your Sex"). Faith resistiu ao passar dos anos e se tornou um dos discos mais vendidos da história da música, com videoclipes belíssimos – o clipe extraordinário de "Father Figure", que narra a saga amorosa de uma top model e um yellow cab driver, por exemplo, não sai da minha cabeça até hoje -  e que fizeram do jovem Georgios Kyriacos Panayiotou (o verdadeiro nome do astro) um ícone da música popular.






Quando Listen without Prejudice, Vol. 1 (o segundo volume foi cogitado, mas nunca lançado) veio a público, em 1990, eu tinha 9 anos de idade. Apesar de várias canções daquele disco tocado nas rádios, na MTV e em trilhas sonoras de novela da Globo, George Michael entrou em uma guerra intensa com a sua gravadora na época, a Sony Music, que achou as canções daquele disco um tanto "elaboradas" demais para o gosto popular. Por outro lado, George estava lutando arduamente para quebrar a imagem do "machão-hétero-comedor" que tinha se popularizado a partir do sucesso de Faith.






As brigas judiciais entre George Michael e a Sony Music renderam uma série de capítulos amargos para ambas as partes. O astro foi obrigado a lançar dois discos pela gravadora (um de inéditas, outro com um apanhado de sua carreira musical) para que a disputa finalmente se encerrasse. Enquanto os tribunais trabalhavam no caso, George foi investindo em projetos paralelos: o EP Five Live foi resultado de uma colaboração do cantor com o grupo Queen e com a participação especial de Lisa Stansfield. Além disso, várias participações em discos-tributos e álbuns com renda revertida para pesquisas de cura da AIDS. 



Eu tinha 12 anos na época em que George Michael assumiu temporariamente o lugar do récem-falecido Freddie Mercury e fez um trabalho esplêndido com o Queen. Havia uma grande esperança de que o grupo retornasse aos discos e aos palcos com um novo vocalista, que teria grandes chances de fazer um excelente trabalho. George, inteligentemente, recusou o convite. Primeiro, porque sabia do risco e da responsabilidade de assumir o posto de alguém insubstituível. Segundo, porque ele tinha coisas a dizer. Estava mais velho, mais calejado com as rasteiras da vida, mais experiente com a dor de ser alguém famoso.



Ao lado de Elton John durante o funeral da Princesa Diana, em 1997

Quando Older foi lançado, em meados do primeiro semestre de 1996, eu tinha 15 anos. Finalmente ficou claro para o resto do planeta o que já era para lá de óbvio para alguns: George Michael era homossexual. Suas canções atingiram o ápice do tom confessional, pois falavam de dor, de abandono, de sofrimento, de tesão, de fama e tantas outras coisas. Além disso, George experimentou diálogos da música Pop com o Funk, o R&B e o Jazz sem se esquecer das baladas certeiras, mas com uma diferença marcante: a presença de cordas e metais em várias das faixas do disco. A influência da música de Antônio Carlos Jobim, morto na época das gravações, foi provavelmente uma razão. Já a inspiração para o tom poético denso das letras se deve à morte de seu companheiro da época Anselmo Feleppa, um estilista brasileiro morto em consequência da AIDS.





Ouvi Older praticamente sem parar durante o verão de 1997. Enquanto George estabelecia sua imagem como um ícone gay, aquele CD continha canções que eram declarações de plena liberdade de corpo, de espírito, de sexualidade, de tantas outras coisas. “Fastlove, Pt.”1 até hoje me causa espécie pela quantidade de tesão e voyeurismo envolvidos em cada take daquele videoclipe e pela cena antológica de ver o Pop Star dançando debaixo de vários chuveiros sem o menor "medo do que suas fãs heterossexuais poderiam achar".






Nem preciso dizer aqui que Older é o meu trabalho preferido de George Michael. Por sua ousadia, por sua sofisticação, por sua coragem em dizer aquilo tudo em uma época na qual ser homossexual (ainda) era uma verdadeira sina. Apesar do disco foi um tremendo sucesso na Europa e na América do Sul – os norte-americanos reagiram friamente, visto que uma onda de boybands e novas Pop Stars femininas estava passando pelas terras de Uncle Sam –, George não fez uma turnê mundial do CD...






Os meios de comunicação não demoraram nem um pouco para explorar a vida sexual de George Michael com todo o sensacionalismo possível. Um episódio ocorrido com o Pop Star por volta de 1998 foi matéria de inúmeros tabloides: George foi flagrado fazendo sexo em um policial à paisana em um banheiro público de um parque. Após o fim da tempestade, era preciso divulgar o CD duplo Ladies & Gentlemen - The Best of George Michael, no entanto o astro decidiu fazer um videoclipe brilhante para a canção "Outside", no qual vários casais eram flagrados pela polícia praticando relações sexuais em público. Ver George Michael dançando vestido de policial, com direito a um cassetete na mão e zombando da repressão foi uma tirada bastante bem-humorada e uma crítica feroz às instituições como todo. Os canais da MTV exibiram o vídeo à exaustão (com cortes, diga-se de passagem), mas não havia problema: a Music Television não teria sido o que foi sem os clipes de George Michael! 

k.d. Lang, George Michael, Mick Hucknall e David Bowie






Ao invés de lançar um registro oficial de sua apresentação no programa MTV Unplugged, que trazia versões desplugadas de seus sucessos e gravações inéditas, George Michael se juntou ao renomado produtor musical Phil Ramone e lançou o belíssimo álbum de covers Songs From the Last Century em 1999. Fiquei boquiaberto para a versão jazzy de "Roxanne", o cartão de entrada de Sting à frente do lendário grupo The Police para o mundo da música. Já a releitura que George fez para "Wild is the Wind" é uma das gravações mais belas que eu já ouvi na minha vida, superando as versões de Frank Sinatra, David Bowie e da incomparável Nina Simone. A gravação de "Brother, Can You Spare a Dime?" é surpreendente para alguém que reinava as ondas do rádio e da MTV com o que havia de mais chiclete em termos de música Pop. É um dos discos mais belos já gravados por uma voz masculina na história da música do planeta, infelizmente ignorado por muitos. 





A partir da década de 2000, George Michael perdeu a criatividade musical de seus melhores anos. Patience (2003) está longe do nível de sofisticação de seus trabalhos anteriores. Twenty-Five (2006) foi um trabalho de revisão de seus primeiros 25 anos de carreira e foi promovido por uma turnê extensa por vários países do mundo. Symphonica (2014) continha os melhores momentos da turnê que George levou para os palcos entre 2011 e 2013. Um trabalho belíssimo de intérprete, que mostra a versatilidade e a sensibilidade de um grande cantor.





Os últimos anos não foram nada generosos para George: lutou intensamente contra a dependência química, contra internações por pneumonia, aumento de peso e crises de depressão. Foi um enorme benfeitor de causas humanitárias, atuou como voluntário de maneira anônima e nunca hesitou em doar quantias generosas para qualquer pessoa necessitada de algo. Era um grande ser humano. Um artista bastante sensível e criativo. George Michael brilhou pelas ondas do rádio, pelas TVs e pelos palcos enquanto pôde... A partir de 25 de dezembro de 2016, ele voltou a brilhar no céu!



Farewell, George! Thank you for your timeless music...