16 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 20

TULIPA RUIZ – DANCÊ (2015)


Desde que ouvimos os anúncios de que o terceiro álbum de Tulipa Ruiz já estava a caminho, criou-se um tremendo frisson nas redes sociais em torno da questão da velha e batida questão “será que este álbum vai superar o anterior?” que estamos enfastiados em ter que ler e responder.
Para os ouvintes que agiram como abelhas atentas do pólen musical deixado por Tulipa após os cultuados álbuns Efêmera (2010) e Tudo Tanto (2012), não ficaram muito surpresos com os rumos musicais que a cantora decidiu trilhar em seu terceiro CD. O single “Megalomania” e o EP Tulipa Ruiz Remixes já eram pistas claríssimas de que a flor cantante iria fazer como David Bowie fez conosco em 1983 e iria literalmente colocar a gente para dançar…
Sejamos diretos ao assunto: Dancê (2015), como diz o título, é um CD para o ouvinte bater o pé, tirá-lo do chão, mexer a cabeça de um lado para o outro e sair dançando, embarcando na levada loucamente musical (Sorry, Ivete!) para a qual Tulipa nos convida, sem deixar de nos fazer refletir em uma série de coisas, tal qual em “Prumo”, faixa de abertura do disco, assinada por ela em parceria com Gustavo Ruiz:


Começou
Agora você vai tomar conta de si

Das tuas minhocas, caraminholas,
das encucações, dos teus pepinos
Das pérolas, das abobrinhas,
dos abacaxis, dos nós, dos faniquitos.

Se você está na dúvida se ouvir o CD realmente vale a pena ou não, Dona Tulipa e banda enviam um recado muito claro para os indecisos em “Reclame” (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Caio Lopes, Marcio Arantes e Luiz Chagas):


Trato azedume, mau-olhado, ‘quebrante’, vício
Trato treta de trabalho
Trabalho com amarração
Resolvo o seu problema com baralho, com pôquer, bingo
Pra bituca de cigarro eu tenho a solução
Trago seu amor de volta se me fizer uma visita
A gente faz uma combinação, você acerta e acredita
No duro, dá certo
Nunca houve reclame.

Enquanto bailamos entre sons de metais e brasa e acordes de guitarra capitaneados por Luiz Chagas e Gustavo Ruiz, Tulipa segue disparando seu arsenal de provocações aos ouvintes de Dancê. “Jogo do Contente”, outra parceria dela com Gustavo, traz uma sequência interessante de cutucadas àqueles que insistem em viver dentro de uma determinada zona de conforto:


Todo motivo te leva a querer
Todo querer te faz ter vontade
Toda vontade te faz ter impulso
Todo impulso sempre me estimula

Toda sequência tem uma rotina
Toda rotina te causa estrago
Todo estrago merece um conserto
Todo conserto te modifica.


“Proporcional” questiona, com bom humor, as diferenças entre as medidas das pessoas e aponta que não existem (ou deveriam existir) obstáculos entre as diferenças:


Cada um tem seu formato
Apertado, colado, justo
Largo, folgado, amplo, vasto
Cheio, graúdo, forte, farto
Esguio, fino, compacto.

Visto GG, você P
Você P, eu GG
Visto GG, você P
Você P, eu GG.


“Expirou”, mais uma parceria dos irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz, traz a nostalgia de eventos dos quais não tivemos a oportunidade de participar pelo simples fato de que ainda não vivíamos por estas bandas. Alguns exemplos: os barulhentos festivais da canção brasileira nos anos 1960 e 1970, São Francisco, Woodstock e a Swinging London, “Carcará”, “Aquele Abraço” e “Divino Maravilhoso”, os Novos Baianos, as Dunas da Gal, FA-TAL e Cantar, Itamar Assumpção e a Isca de Polícia, Grupo Rumo, Madame Satã são apenas alguns exemplos de coisas que nós, nascidos após 1975, faríamos de um tudo para ter ouvido e vivido na época de seu surgimento. Embalada pela guitarra mítica de Lanny Gordin (que acompanhou Gal Costa em sua também mítica turnê de 1971-72), Tulipa Ruiz saúda a alquimia dos mestres com o devido respeito:


Sinto falta de um tempo que ouvi dos amigos
Tava escrito num livro
Tocou numa vitrola
Foi dançado, cantado, recitado, falado
Publicado, sentido, decupado, contado
Mas eu não tava ali

Quando é que a saudade daquilo que a gente não viveu passa?
Se passa, parece que já foi, mas quando você vê volta
Volta porque tem a sua cara, tem a ver com a sua história.


“Elixir”, quarta faixa do disco, é um petardo para uma sociedade que acorda com Prozac e dorme com Rivotril e acredita que vive um fluxo extremamente natural de sua existência. Fruto de uma noite em claro da própria Tulipa, a canção nos indica o sonho dourado de muitos notívagos angustiados por aí:


Apaga, filtra, manera
Massageia o esqueleto
A cuca, a cabeça, a traqueia
Cotovelo do esqueleto
A lombriga, clavícula, pé e a costela do esqueleto

Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir
Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir

Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
E entra no estado zen.

Uma das faixas mais divertidas de Dancê é “Físico”, mais uma parceria de Tulipa e Gustavo assumidamente inspirada no hit “Physical”, eternizado por Olivia Newton-John em 1981. Para resgatar a sonoridade disco do início dos anos 1980, a trupe contou com a participação especial de Kassin, que tocou baixo, guitarras e sintetizadores. O desejo de Tulipa Ruiz, ao contrário do que sugere a tendência apontada pela estrela de Grease e por pessoas obcecadas em viver relações baseadas somente em atributos físicos, descreve alguém que vai além do que é obviamente esperado nas típicas atrações sexuais:


Tudo que eu gosto tá em você
É puramente físico
(…)

O formato do nariz
Osso pontudo do pescoço
Lóbulo da orelha
Desenho da sobrancelha
Pintas pela pele
Pelos, tornozelo
Dedo, nuca, calcanhar, cabelo
Da boca pra fora
Fora de fora pra dentro
(…)
Você veio assim sem defeito.


“Old Boy”, décima faixa do disco, fala sutilmente sobre a importância do viver com a certeza de que teremos um aprendizado em relação ao que foi vivido. Em outras palavras: uma bela canção sobre a morte, com versos singelos e uma interpretação sóbria de Tulipa:


Vai ter tempo de sobra
Mesmo sendo velho, sabe sobre tudo
Sempre pra valer
Volta e meia, cê volta
Nunca é tarde, pelas tantas recomeça
Vence em convencer
Não tem fim, nem começo
O agora é agora, voa
Já passou, olha, passou
E fica também na sua memória
Sempre você
O tempo e você.


O brilho de Dancê também está nos convidados especiais que participam do disco. A elegância e a jovialidade de João Donato fazem de “Tafetá” um dos momentos mais belos do disco. Balada ao estilo do balancê inconfundível do criador de “A Rã” sem deixar de incorporar o balancê frenético das produções musicais da flor cantante, a faixa é uma ode à beleza masculina capitaneada pelos vocais em canto e contracanto Donato e Tulipa, pontuados pelos metais, violão, percussão e pelo piano fender rhodes em menos de 4 minutos de duração:


Fino
Só você
Elegante
Sabe bem
Muito trato
Combinar
Na lapela
Tem o dom
Tem um padrão
Já que tem
Desenhado
Sabe usar
Tem casaco
Dégradé
Engomado
Tafetá


“Virou”, parceria de Tulipa Ruiz com Felipe Cordeiro, Gustavo Ruiz, Manoel Cordeiro e Luiz Chagas, é uma colaboração que contou com a participação de Felipe Cordeiro, dividindo os vocais com Tulipa e de Manoel Cordeiro (pai de Felipe) que tocou guitarra na faixa. Os versos do refrão já garantem a memorização do ouvinte já a partir das primeiras audições de uma das faixas mais alegres de Dancê:


Era pra ficar no chão
Deu pé, decolou
Era pra ter sido em vão
Como é que durou?
Era pra ficar ali e por aí caminhou

Era pra ser menos sério
Mais cara-de-pau
Era para ser só nuvem e precipitou
Podia não ter dado em nada
Então como é que virou?


No entanto, a participação especial mais intrigante de Dancê foi a do Metá Metá (Juçara Marcal – Voz, Kiko Dinucci – Guitarra, Marcelo Cabral – Baixo, Sergito Machado – Bateria, Thiago França – Sopros em “Algo Maior”, parceria de Tulipa Ruiz, com Gustavo Ruiz e Luiz Chagas. As vozes fortíssimas e distintas de Tulipa e Juçara resultam na sensação angustiante de uma tormenta que está a caminho, mas nunca chega – algo típico para uma interpretação de um grupo de balé contemporâneo, com coreografias típicas de Deborah Colker:


Tá pra nascer algo maior
que vá tirar do lugar as coisas que cismam em não andar
Tá pra nascer algo maior
que tudo o que você já viu, leu, sentiu, soube ou ouviu
Não sinta medo nem dó de ser feliz e se soltar,
de saber bem o que lhe convém
Tá pra nascer quem viva só,
pois de me, myself and I já basta eu, você e nada mais.

Ao ser encerrado com este épico de cinco minutos e trinta e nove segundos, Dancê deixa muito claro que Tulipa Ruiz não é uma cantora que segue os caminhos óbvios já traçados pelo Pop e pela MPB recentes. Também revela um grande disco, feito com inteligência acima do comum. E o melhor de tudo: ele consolida de vez a parceria Tulipa Ruiz – Gustavo Ruiz, que tem um potencial gigantesco para já constar no rol de parceiros célebres de nossa música como Marina Lima – Antonio Cícero (irmãos e parceiros, tal qual Tulipa e Gustavo), Roberto Carlos – Erasmo Carlos e tantas outras…



Enquanto isso, aproveite para afastar os móveis da sala, abrir um espaço bem amplo para que você dar o play e colocar Dancê para rodar na sua cabeça e sair bailando sem a menor vergonha de dançar alegremente. Se Tulipa nos diz que um bom estímulo pode nos trazer boas influências, deixe-se levar por este CD que, para nós, já nasceu clássico.


12 de fevereiro de 2017

TROVA # 111

1825 DIAS SEM WHITNEY HOUSTON


Em memória de Whitney Houston (1963-2012)

Foi numa madrugada de domingo, daquela de intervalos perturbadores entre uma cochilada e outra, nos quais o corpo mais se cansa do que descansa. Recebi a notícia em uma das vezes em que acordei: Whitney Houston já não estava mais entre nós. Uma das vozes mais belas do mundo tinha morrido aos 48 anos.



Tal qual vários artistas de sua geração, Whitney possuía a maldição autodestrutiva de todo artista: ao mesmo tempo em que ele pode originar e erguer as coisas mais belas em matéria de arte, ele também consegue ser extremamente eficiente em matéria de sabotagem própria. Tal qual Michael Jackson, Prince ou Amy Winehouse, Whitney Houston sucumbiu aos prazeres efêmeros das drogas e do alcoolismo e não sobreviveu aos dilemas existenciais de ser uma celebridade em uma terra que respira o sucesso a qualquer preço.




A voz potente de Whitney me pegou em cheio quando eu ainda era criança, lá pelos idos de 1989-1990, graças às trilhas sonoras das novelas da TV Globo. Tinha 11 anos de idade quando a filha de Cissy Houston tomou as paradas de sucesso do planeta de assalto com as canções de The Bodyguard ("O Guarda Costas"). Lembro bem de ver um sem-fim de reportagens sobre a estrela Pop do momento, além de revistas de meninas com traduções de "I Will Always Love You", de Dolly Parton, que tocou nos rádios e na MTV até cansar nossos olhos e ouvidos e fez com que o álbum com as canções do filme fosse o mais vendido de toda a história. Já a película em si era de uma pobreza dramatúrgica sem tamanho: Kevin Costner é tão expressivo quanto uma estátua de cera, porém os videoclipes nos quais a personagem Rachel Marron estava em ação mostrava o que Whitney Houston sabia fazer melhor: cantar!


Pensando bem, Whitney Houston tinha um outro talento indiscutível: ela conseguia arranjar confusão tão bem quanto cantava. Os episódios de manchetes nos jornais por causa de abuso de drogas, álcool, de canos em aparições públicas e barracos com o ex-marido Bobby Brown fizeram a festa dos tabloides e dos programas de celebridades - com direito a um reality show estrelado pelo marido que renovou os limites do mau gosto. Sem esquecer de somar algumas pitadas de arrogância e uma vontade sem fim de dizer que está tudo bem para Deus e o mundo. Vergonha? Vontade de tapar o sol com a peneira? Ou os dois? Só ela poderia saber...




Os anos 1990 acabaram para mim ao som das músicas de My Love is Your Love (1998), que ganhei de presente em um dos meus aniversários. Whitney aparece linda e loira na capa do disco, cantando como nunca. A diva procurou se reconectar com o universo da música Pop ao gravar com nomes de peso como Mariah Carey, Missy Elliot e Lauryn Hill para continuar, digamos, na crista da onda daquele momento. E, com o seu talento indiscutível, conseguiu. "It's Not Right, But It's Okay", "If I Told You That" e "I Learned From the Best" foram a trilha sonora do final de uma década de brilho e sucesso para Whitney e de anos de tédio e amargura para mim.






Os anos 2000 não foram muito agradáveis para a estrela: os escândalos sucessivos e o consumo de drogas começaram a afetar sua forma física e a arranhar sua carreira musical. As vendas caíram e as turnês apontaram a decepção dos fãs e o desgaste de Whitney Houston perante o público. O brilho da estrela começava a se apagar. O novo milênio começava a ficar órfão de grandes vozes e de talentos genuínos. As pessoas teriam uma voz a menos para poder acreditar de que este mundo seria um lugar melhor de se habitar.






Em um universo musical cada vez mais fake e plastificado, a voz poderosa de Whitney Houston faz uma falta sem tamanho. Sua partida trágica de nosso convívio - ela morreu afogada em uma banheira de um hotel em Los Angeles por causa de abuso de drogas e álcool - e seus dramas pessoais que se tornaram públicos compuseram uma aura extremamente negativa de uma das vozes mais belas que o mundo já ouviu. Depois de viver 1825 dias sem a voz de Whitney entre nós, vejo que ela ainda é referência para muitos artistas a se aventurarem pelo mundo musical. Que ela sempre seja lembrada pelo seu talento...



9 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 19

THE ROLLING STONES – STICKY FINGERS (1971)


A virada da década de 1960 para a de 1970 não trouxe boas vibrações para os Rolling Stones: a morte de Brian Jones, a participação da banda no famigerado festival de Altamont que resultou na morte trágica de um fã do grupo, as disputas financeiras com o ex-empresário Allen Klein que se transformavam em batalhas judiciais intensas e o fim do contrato com a gravadora Decca chegava ao fim de forma amarga e turbulenta. Até o final de 1969, a banda não possuía controle pleno sobre o seu trabalho e vivia com as finanças no vermelho. Keith Richards poderia, enfim, viver a plenitude de seu amor pela explosiva e junkie Anita Pallenberg com direito a todos os narcóticos que quisessem. Mick Jagger deixara Marianne Faithfull para trás para se casar com a exuberante Bianca Pérez-Mora de Macías (futuramente: Bianca Jagger) pouco tempo depois, decidira se aventurar como ator de cinema e dava início à sua egotrip eterna. Tais fatos fizeram com que o futuro da banda fosse considerado como incerto naqueles tempos.

Keith & Anita

Jagger & Richards na virada da década 
Mick & Bianca

O mundo se surpreendeu completamente com o surgimento de Sticky Fingers em 23 de abril de 1971. O álbum não apenas garantiu a redenção musical dos Rolling Stones, como também trouxe a banda com toda a pompa e circunstância para a década mais insana da história dos músicos. Além disto, estamos diante de uma das dez obras-primas do Rock ‘n’ Roll e os Stones são autores de duas destas pedras fundamentais: este disco e o lendário Exile on Main St. (1972), o rosário de todas as obsessões sexuais e lisérgicas de Jagger e Richards. O impacto profundo se dava com a capa do álbum – uma imagem em close-up de um jeans masculino com um órgão sexual proeminente, mais uma das criações escandalosas de Andy Warhol. A primeira edição em vinil deste clássico (hoje em dia, uma raridade!) continha um zíper que, infelizmente, danificava a qualidade do bolachão. Os conservadores de plantão acharam um horror, o que fez com que a capa do disco fosse censurada em países como a Espanha, que colocou uma ilustração no lugar da foto do jeans controverso.


Sticky Fingers foi um álbum que marcou uma série de marcos iniciais para os Rolling Stones: não se trata apenas do primeiro álbum de inéditas da banda na década de 1970, como também foi o primeiro trabalho que contou com a participação plena do guitarrista Mick Taylor (substituto de Brian Jones), o primeiro álbum no qual Mick Jagger apareceu nos créditos tocando guitarra e violão, o primeiro trabalho a exibir o logo que se tornou a marca registrada da banda (a boca e a língua de Mick Jagger estilizadas por John Pasche) e o foi o primeiro produto da Rolling Stones Records, selo fundado por Jagger, Richards e cia via Atlantic Records. A gênese deste disco começou alguns anos antes de 1971: parte das canções foram gravadas no lendário Muscle Shoals Sound Studio em 1969 – templo sagrado de mestres do Soul americano como Aretha Franklin localizado no coração do Alabama – outras foram gravadas no Olympic Studios e no Trident Studios, em Londres e as restantes foram criadas no The Rolling Stones Mobile Studio em Stargroves, propriedade de Jagger e Richards no interior do Reino Unido entre o final de 1969 e 1970. A produção deste clássico ficou a cargo de Jimmy Miller, parceiro musical das pedras rolantes até a primeira metade dos anos 1970.


Apesar das crises internas intensas, a forma musical dos Rolling Stones era invejável durante aquele período. Keith Richards e Mick Taylor conseguiram um entrosamento intenso, Charlie Watts e Bill Wyman eram a cozinha mais elegante e completa do Rock ‘n’ Roll e Mick Jagger estava no auge de sua forma vocal. O time de músicos convidados para tocar em Sticky Fingers é digno de dar inveja a qualquer banda iniciante: Bobby Keys e Jim Price nos metais, Ian Stewart, Billy Preston e Jack Nitzsche no piano e no órgão Hammond B-3, Ry Cooder na guitarra slide, Rocky Dijon nas congas e o arranjo de cordas do maestro Paul Buckmaster. As dez canções do disco são uma espécie de prenúncio do rosário de loucuras e obsessões que fariam de Exile on Main St. um dos cinco discos mais importantes de toda a história da música. “Wild Horses” e “Moonlight Mile”, por exemplo, são as melhores baladas que Jagger e Richards já compuseram e falam de amor e dor em seu estado bruto:


“I know I dreamed you a sin and a lie
I have my freedom but I don’t have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let’s do some living after we die”
(Wild Horses)


“The sound of strangers sending nothing to my mind
Just another mad mad day on the road
I am just living to be lying by your side
But I’m just about a moonlight mile on down the road”
(Moonlight Mile)

“Dead Flowers” é um country rock vingativo e é um dos melhores números ao vivo dos Rolling Stones até os dias de hoje. A letra, entoada sarcasticamente por Mick Jagger e presença constante nos setlists da banda até hoje, deve ter sido dedicado a Marianne Faithfull. “Sister Morphine” foi originalmente gravada por Marianne em 1968 e teria sido supostamente mais uma parceria de Mick Jagger e Keith Richards. No entanto, o relato de um junkie à beira da alucinação decorrente de uma suposta overdose não seria mero fruto do talento indiscutível da interpretação da ex-namorada do vocalista dos Stones. Anos depois, os créditos de composição passaram a apontar Jagger, Richards e Faithfull como os autores de uma das canções mais pungentes de todo o repertório stoniano:


“Take me down, little Susie, take me down
I know you think you’re the queen of the underground
And you can send me dead flowers every morning
Send me dead flowers by the US Mail
Send me dead flowers to my wedding
And I won’t forget to put roses on your grave”
(Dead Flowers)


“Well it just goes to show
Things are not what they seem
Please, Sister Morphine
Turn my nightmares into dreams
Oh, can’t you see I’m fading fast?
And that this shot may be my last”
(Sister Morphine)

Sticky Fingers possui um dos lados B mais importantes da carreira dos Rolling Stones: “Sway”, segunda faixa do disco. O solo de guitarra de Mick Taylor e o arranjo de cordas de Paul Buckmaster resulta em uma das gravações mais intensas de toda a história do Rock, com direito a uma letra inspiradíssima. “I Got the Blues” é um dos números mais emocionantes já gravados pela banda, com direito a um solo belíssimo de Billy Preston e com apoio elegante dos metais de Bobby Keys e Jim Price. A regravação de “You Gotta Move” (número de blues composto por Fred McDowell e Gary Davis que já fazia parte do repertório da banda desde o final da década anterior) destaca a sintonia existente entre Jagger e Richards:


“Did you ever wake up to find
A day that broke up your mind
Destroyed your notion of circular time
It’s just that demon life has got you in its sway
It’s just that demos life has got you in its sway”
(Sway)


“As I stand by your flame
I get burned once again
Feelin’ low down, I’m blue
As I sit by the fire
Of your warm desire
I’ve got the blues for you, yeah”
(I Got the Blues)


“You may be high
You may be low
You may be rich, child
You may be poor
But when the Lord gets ready
You gotta move”
(You Gotta Move)

Os números mais rápidos do disco foram justamente os mais populares de Sticky Fingers. “Can’t You Hear Me Knocking”, jam session de pouco mais de sete minutos e uma das canções preferidas do lendário diretor Martin Scorsese (um dos momentos mais eletrizantes de Casino se dá com os golpes certeiros de NIcky Santoro, personagem de Joe Pesci, nos elementos mais suspeitos de Las Vegas), é o momento mais estridente do disco. Os vocais lancinantes de Jagger, os riffs arrasadores de Keith, as congas furiosas de Dijon e os solos melodiosos e hipnóticos de Taylor e Bobby Keys foram os elementos que fizeram desta gravação um verdadeiro clássico.
“Bitch”, por sua vez, é mais uma grande canção sobre os desencantos amorosos com direito aos metais incendiários de Keys e Jim Price. E o que podemos dizer de “Brown Sugar” além do fato dela ser uma das canções mais perfeitas sobre sexo, drogas e Rock ‘n’ Roll já feitas em toda a história da música?


“Can’t you hear me knockin’, ahh, are you safe asleep?
Can’t you hear me knockin’, yeah, down the gas light street, now
Can’t you hear me knockin’, yeah, throw me down the keys
Alright now
Hear me ringing big bell tolls
Hear me singing soft and low
I’ve been begging on my knees
I’ve been kickin’, help me please
Hear me prowlin’
I’m gonna take you down
Hear me growlin’
Yeah, I’ve got flat-ten feet now, now, now, now
Hear me howlin’
And all, all around your street now
Hear me knockin’
And all, all around your town”
(Can’t You Hear Me Knocking)


“Sometimes I’m sexy, move like a stud
Kicking the stall all night
Sometimes I’m so shy, got to be worked on
Don’t have no bark or bite, alright
Yeah when you call my name
I salivate like a Pavlov dog
Yeah when you lay me out
My heart is bumpin’ louder than a big bass drum, alright”
(Bitch)


“Drums beating, cold English blood runs hot
Lady of the house wonderin’ where it’s gonna stop
House boy knows that he’s doing alright
You shoulda heard him just around midnight
Brown sugar
How come you taste so good, now?
Brown sugar
Just like a young girl should, now”
(Brown Sugar)

Sticky Fingers recebeu críticas moderadas e gerou opiniões diversas dos jornalistas musicais da época. Com o passar dos anos, todos foram unânimes ao perceberem que estamos diante de um dos discos mais coesos e coerentes de toda a história dos Rolling Stones. No entanto, o álbum alcançou os primeiros lugares das paradas de sucesso no Reino Unido e nos Estados Unidos em maio de 1971 e se mantém como um dos mais vendidos por eles até hoje. A banda lançou um de seus maiores sucessos pouco tempo depois de ter feito uma apresentação lendária no Marquee Club de Londres no decorrer de uma turnê de despedida do Reino Unido – os músicos ingleses decidiram deixar a terra de Elizabeth II alegando não ter condições de pagar os impostos exorbitantes que a Coroa Inglesa cobrava.


Obrigados a deixar o país, Jagger, Richards, Taylor, Wyman e Watts seguiram rumo à França para poder reerguer não só as finanças, mas o que sobrou da identidade do grupo. A lendária mansão de Villa Nellcôte seria o QG dos Stones até o final de 1972, com direito a todas as loucuras que estivessem ao alcance deles. Em outras palavras, nenhum dos integrantes do grupo teve a oportunidade de vivenciar o sucesso de sua obra-prima até então devido ao fato de terem seguido em um exílio voluntário.


Em 2015, os Stones nos legaram várias versões deluxe de Sticky Fingers, com direito a uma versão remasterizada deste clássico, além de outtakes e trechos de duas apresentações feitas entre 13 e 14 de março de 1971 em Londres e em Leeds. Dentre os números que ficaram de fora do disco original, está uma versão de “Brown Sugar” datada de 1970 com a participação de Eric Clapton na slide guitar, uma versão estendida de “Bitch” e uma versão eletroacústica de “Dead Flowers” (muitíssimo parecida com a versão que a banda apresenta em suas apresentações até os dias de hoje). A reedição deste álbum não só afirma a perenidade e a importância desta obra fundamental, como também mantém os Rolling Stones como uma das bandas mais importantes de Rock clássico que já surgiu em todos os tempos.


Por isso e muito mais que não está escrito aqui, deixe-se levar pelos dedos grudentos e musicais dos Rolling Stones, afaste o seu sofá e aproveite este momento para cantar e dançar com toda a fúria e o amor que só eles conseguiram expressar nos sulcos de um vinil. Este clássico se renova cada vez mais na medida em que você vibrar ao som de cada nota estridente tocada pelas rolantes do Rock. Divirta-se!


7 de fevereiro de 2017

TROVA # 110

ONDAS DE ÓDIO, MAROLAS DE INTELIGÊNCIA


Em memória de Dona Marisa Letícia Lula da Silva (1950-2017)



Lies, dripping off your mouth like dirt
Lies, lie in every step you walk
Lies, whispered sweetly in my ear
Lies, how do I get out of here
Why, why you have to be so cruel
Lies, lies, lies, I ain't such a fool
(Mick Jagger & Keith Richards, 1978)


Existem momentos nos quais a barbárie e os sentimentos negativos em relação à política brasileira são tão grandes que apenas uma frase surge para mim diante dos fatos mais recentes: a humanidade é o projeto mais fracassado deste planeta, sem chances de salvação.


A pior consequência do conservadorismo que tomou conta do cotidiano nacional é a polarização política para cada acontecimento (inter)nacional: tudo se tornou uma questão partidária, com discussões acaloradas e agressões gratuitas, dependendo do teor de seu posicionamento. Minha reação em relação à onda de ódio é um misto de silêncio, tristeza e indignação, além de uma vergonha alheia sem tamanho.


O episódio mais recente destas ondas de ódio aconteceu com a família mais odiada do país, a do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marisa Letícia, a esposa de Lula, sofreu um AVC em 24 de janeiro de 2017 e foi levada às pressas para o Sírio Libanês, um dos hospitais mais caros do Brasil. A antiga Primeira Dama passou 10 dias em coma induzido até ter sua morte cerebral e falecer na noite de 2 de fevereiro de 2017. Durante este período de agonia, o festival de boçalidades atingiu os níveis do insuportável: uma tomografia de Marisa foi divulgada sem autorização, alguns médicos chegaram a clamar pela morte da esposa de Lula e uma médica do hospital divulgou um boletim médico da paciente sem autorização. As redes sociais ferveram com palavras de ordem desejando o pior. O sadismo estava sendo praticado por profissionais de saúde, as últimas pessoas no planeta que deveriam adotar tamanha maldade. O GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) estava em festa com a morte da companheira do maior líder sindical da história deste país...




A cegueira das pessoas que odeiam o PT – mais um dos trunfos desta mídia conservadora, subserviente e cínica que o Brasil possui – fez com que as pessoas ignorassem a desgraça e o sofrimento de um senhor de idade que é obrigado a conviver sem a companheira de mais de 40 anos de vida em comum. Não cabe debate político ou palavras de ordem em momentos de sofrimento de nossos (ex-)chefes de Estado: o espírito republicano, democrático e a compaixão pelo próximo devem substituir o ódio e as desavenças políticas. Vários integrantes da classe política brasileira entenderam a importância de bandeiras brancas em episódios tão trágicos – Lula recebeu visitas de seus aliados políticos no hospital (Dilma Rousseff, Olívio Dutra, Gleisi Hoffman e outros correligionários), como também recebeu condolências de vários adversários políticos, dentre estes uma comitiva do Presidente Michel Temer.


No entanto, de todos aqueles que foram prestar solidariedade a Lula, a visita que mais me surpreendeu foi a do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Inimigos políticos, boxeadores de lados opostos do ringue no qual a política brasileira se tornou, não se falavam há anos. A maior lição de espírito republicano, por incrível que pareça, veio de um político do PSDB: na dor e na desgraça, não existem convicções políticas, o mais importante é a solidariedade. A Internet foi levada à loucura com o encontro de FHC com Lula: como um homem que foi casado com uma das intelectuais mais importantes do país foi se solidarizar com a dor de um marido de uma ex-babá e humilde dona de casa?! Fernando Henrique amargou o fato de ter sobrevivido à morte de Ruth Cardoso e recebeu o afeto e as condolências de seu maior adversário político.


Dona Marisa Letícia nunca recebeu o respeito e o prestígio de Dona Ruth Cardoso: foi ridicularizada, difamada e atacada das maneiras mais torpes durante os oito anos do governo Lula por nunca ter assumido nenhuma tarefa durante os dois mandatos do marido. Decidiu ser dona de casa, a companheira e o esteio do ex-Presidente, mas nunca recebeu o status de “bela, recatada e do lar” da esposa de Michel Temer. Na intimidade da família Lula, quem dava as cartas e era a líder de todos era Marisa: dona de personalidade forte, não tinha meias palavras, era uma mulher muito franca e simples. Costurou a primeira bandeira do PT e levou várias mulheres do ABC às ruas em plena ditadura para que Lula fosse libertado pelos militares de uma pena injusta. Acusada e ré em um dos processos da Operação Lava Jato, sofreu com a perseguição política ao seu clã e teve sua intimidade devassada pelo juiz Sérgio Moro, que autorizou a divulgação de escutas telefônicas sem permissão do Supremo Tribunal Federal.




Apesar da dor e do sofrimento da perda de sua companheira de mais de quatro décadas, Lula fez um discurso eloquente no velório de Marisa Letícia. Deixou claro que a perseguição política que ele e sua família sofreram contribuíram para o AVC da esposa. As críticas das subcelebridades e oportunistas de plantão nos forneceram mais provas de que o ser humano é o projeto mais fracassado de que se tem notícia. O professor e filósofo Leandro Karnal (UNICAMP) resumiu com perfeição o que penso a respeito das pessoas que desejam a morte de outros sem a menor parcela de escrúpulo:


“Atacar ou ter felicidade pela morte de um ser humano é uma prova absoluta de que a dor e o ressentimento podem enlouquecer alguém. Se você sente felicidade pela morte de um inimigo, guarde para si. Trazer à tona torna pública sua fraqueza, sua desumanidade. Acima de tudo, mostra que este inimigo tinha razão ao dizer que você era desequilibrado. Contestem, debatam, critiquem: mas enderecem tudo isto a quem possa revidar. Por enquanto temos apenas um homem que perdeu sua companheira, filhos órfãos e netos sem a avó. Entre os vivos, surgem divergências e debates. Diante da morte, impõe-se silêncio e respeito. (...)”.




         Quando eu vejo o noticiário diário, sinto que há uma enorme onda de ódio ao lado de marolinhas de inteligência. A apatia da classe média que se vestiu de verde e amarelo nas ruas diante da nomeação de um membro do PSDB e ex-advogado do PCC (uma das organizações criminosas mais poderosas do país) é tão grande que eu me pergunto onde as panelas que batiam foram parar. Será que elas não são necessárias ou será que, segundo a nossa ex-Primeira Dama, elas foram enfiadas em algum local indigno de publicação?