16 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 23

TIM MAIA – RACIONAL (1975)


“Quero que tudo saia / como o som de Tim Maia”
(Caetano Veloso, 1983)


Muitos músicos brasileiros disputaram a alcunha de “o músico mais louco do Brasil”. Raul Seixas bem que tentou; Marcos Valle e Erasmo Carlos passaram longe; Sérgio Sampaio e Jards Macalé fizeram alguns esforços dignos; Arnaldo Baptista (se não fosse um caso clínico tão grave) foi o que chegou mais perto. No entanto, nenhum deles conseguiu bater a meta de loucuras artísticas de Tim Maia, o detentor do título: o Síndico redefiniu todos os limites de sensatez e independência artística com este álbum.


Em 1974, Tim Maia era um dos músicos mais consagrados da MPB: seus quatro primeiros discos – lançados pela Philips entre 1970 e 1973 – são registros do que se fez de melhor em termos de música Soul no Brasil. A fina flor do cancioneiro do Síndico se tornou a trilha sonora de muitos casais apaixonados e que gostavam de dançar por aí e fez do gordinho Sebastião Rodrigues Maia, ex-presidiário, ex-suburbano carioca, ex-companheiro de banda de Roberto e Erasmo um astro da canção brasileira. Em suma: Tim era um músico de sucesso, amado pelo público e sentindo os prazeres e armadilhas do sucesso.
No início de 1974, Tim saiu da Philips e foi contratado pela RCA a peso de ouro para que gravasse um álbum duplo (o Brasil queria abocanhar aquela tendência de mercado, pegando carona no sucesso dos vinis rechonchudos que Elton John e os Rolling Stones – para não citar outros – tinham lançado há pouco tempo). Porém, a relação conflituosa do astro brasileiro com as drogas e a bebida, somando-se às desilusões amorosas constantes, fez com que ele fosse em busca da paz e do conforto que nenhum narcótico conseguiria lhe oferecer. Ao ler um dos livros da seita Universo em Desencanto, Tim Maia decidiu que o caminho para se livrar de todos os conflitos que lhe desesperavam era se convertendo à seita de Manoel Jacintho Coelho, grão mestre daquele rebanho localizado em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.


De acordo com aqueles preceitos religiosos, o mundo estava magnetizado por forças maléficas. Para que encontrássemos a salvação (via imunização racional), era preciso acreditar na existência e no poder de um Racional Superior, abolir todas as cores do vestuário em prol do branco e se livrar de todos os excessos de uma vida materialista. Com isso, Tim abandonou as drogas e a bebida, emagreceu consideravelmente e cortou suas longas madeixas ao estilo Black Power, que eram a sua marca registrada. O resultado deste processo foi Racional, um álbum espetacular, com um artista no auge da sua forma vocal (graças ao fato de ter dado uma pausa na bebida e nas drogas), mas no apogeu de sua criatividade em relação ao discurso. “Bom Senso”, a terceira faixa do disco, é o melhor exemplo deste fato:



Já virei calçada maltratada
E na virada quase nada
Me restou a curtição

Já rodei o mundo quase mudo
No entanto num segundo
Este livro veio à mão

Já senti saudade
Já fiz muita coisa errada
Já pedi ajuda
Já dormi na rua

Mas lendo atingi o bom senso
Mas lendo atingi o bom senso
A imunização
Racional

Racional é um trabalho fenomenal no que diz respeito à qualidade musical: os músicos da banda (proibidos por Tim de consumir qualquer tipo de droga) produziram acordes memoráveis e repletos de groove ao lado de um band leader instintivo e de uma inteligência musical ímpar. Funk e Soul se irmanam intensamente com o canto do Síndico em uma simbiose jamais ouvida em seus discos da fase Philips. Por outro lado, o disco é repleto de letras panfletárias, de gosto explicitamente duvidoso e que revelam um esoterismo barato, beirando o tosco (4 das 9 faixas do álbum possuem o termo “racional” no título das canções e quase todas elas pedem para que os ouvintes leiam o livro da seita liderada por Manoel Jacintho Coelho).


Basicamente, a música era incrível, porém o discurso era (infelizmente) de baixa qualidade: apesar de Tim Maia ter largado o vício em comida, álcool e narcóticos, a religião revelara-se como mais uma de suas compulsões – a ferocidade de sua obsessão tinha um outro viés, tão devastador quanto o de alguém que necessitava largar o crack ou a heroína…
Um exemplo da fúria santa de Tim Maia: no auge de seu fervor esotérico, o autor de “Azul da Cor do Mar” e “Réu Confesso” decidiu assinar suas criações como “Tim Maia Racional” e exigiu que todos os músicos que trabalhavam com ele se convertessem ao Universo em Desencanto. A banda foi rebatizada de Seroma Racional e todos os instrumentos musicais deveriam ser pintados de branco. Ingestão de carne vermelha e praticar sexo sem o intuito de procriar estava completamente fora de cogitação. Tim finalmente atingira o ápice de sua maluquice enquanto membro da seita de Belford Roxo: as consequências de sua doideira não tardariam a aparecer…
Quando os executivos da RCA tomaram conhecimento das loucuras religiosas de Tim Maia, decidiram remover o contrato com o artista. Tim aceitou o rompimento com a condição de que levasse consigo todas as bases do disco duplo que já estavam gravadas e que se encontravam em poder da gravadora. Com o sinal verde dos homens de terno e gravata, o Síndico lançou seu quinto álbum de maneira independente através do selo SEROMA (cujo nome veio das primeiras sílabas de Sebastião Rodrigues Maia, nome de batismo do cantor) e fez história na música brasileira como um dos primeiros artistas do mainstream musical brasileiro a lançar um disco de forma autônoma em relação às grandes gravadoras. Racional chegou a ter duas sequências: Racional, Vol. 2 veio a público apenas em 1976, provavelmente porque havia uma enorme dificuldade de Tim para prensar e distribuir o disco. No final da década de 1990, depois que o Síndico já havia morrido, as master tapes de Racional, Vol. 3 foram encontradas e só chegaram aos ouvidos dos fãs em 2011, graças a uma iniciativa conjunta de Carmelo Maia (filho de Tim), Kassin e o falecido maestro/arranjador Lincoln Olivetti em uma parceria entre a Sony Music, a Vitória Régia (da família Maia) e a editora Abril.


Tim Maia pagou um preço altíssimo por sua vontade intensa de autonomia em relação ao mercado: Racional foi sumariamente ignorado pela crítica e pelo grande público na época – ironicamente, esta fase é uma das mais admiradas e veneradas pelos fãs do Síndico. Os shows começaram a ficar vazios e a minguar dramaticamente. A grana e o sucesso desapareceram em um estalar de dedos. No momento enquete o fracasso finalmente encontrara as portas de Tim, descobriu-se que Manoel Jacintho Coelho era um charlatão descompromissado com a fé alheia e interessado apenas em dividendos financeiros. Como consequências, o Síndico decidiu se “magnetizar” novamente e a obra religiosa de Sebastião Rodrigues Maia tornou-se eternamente amaldiçoada pelos olhos de seu criador e foi eternamente renegada enquanto ele esteve vivo.



Racional é o momento mais criativo e polêmico da discografia de Tim Maia. A viagem místico-musical do Síndico merece nossa audição, mas não deve ser levada a sério por se tratar da maior maluquice musical que um artista brasileiro realizara em vida. Tim não deve em nada a um pastor negro norte-americano em termos vocais, porém as letras paupérrimas que pregava a nossa leitura dos mais de 1000 livros da seita Universo em Desencanto. O disco traz um conceito confuso, mas a sobriedade vocal do maior artista negro da música brasileira o coloca também como a maior voz gospel surgida neste país: se os cantores evangélicos ou os padres que se arriscam como cantores que adoram pregar a chamada “palavra de Deus” buscassem inspiração no som produzido por Sebastião Rodrigues Maia, a qualidade do que se ouve por aí seria muito melhor – principalmente porque uma canção como “Imunização Racional (Que Beleza)” nós dá a impressão de que foi gravada anteontem. Este trabalho é a prova mais cabal que a loucura também consegue produzir coisas belas de se ver e também de se ouvir…

14 de março de 2017

TROVA # 114

UM MANTO AZUL & BRANCO PARA UMA NAÇÃO FERIDA


"Salve o samba, salve a santa, salve ela
Salve o manto azul e branco da Portela
Desfilando triunfal sobre o altar do Carnaval"

(Paulo César Pinheiro & Mauro Duarte na voz de Clara Nunes)


O carnaval de 2017 finalmente acabou. Aqui na terra da garoa, começou com um final de semana de antecedência e acabou bem depois do domingo após a quarta-feira de cinzas com muito custo. Os festejos carnavalescos sempre foram negócio sério por aqui: o Nordeste ferve ao som do frevo e do axé, enquanto o Rio de Janeiro e São Paulo são animados pelos blocos de rua, bailes e os desfiles das escolas de samba, por exemplo. Apesar da seriedade, nunca fui um folião, digamos, característico: minha falta de apreço por multidões e meu gosto musical incomum me causavam um certo desprezo por esta época do ano.
Venho, com muito orgulho, de uma família de foliões. Meus pais são apaixonados pelos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro – meu pai, por exemplo, sempre ganha de presente de aniversário o CD com os sambas-enredo que vão cruzar a Sapucaí no ano seguinte todo mês de dezembro; facilitando muito a minha vida, pois o Sr. Orlando faz anos no último mês do ano, época na qual os meus neurônios já deixaram de funcionar normalmente. Meu avô materno sempre levava os filhos para assistir aos desfiles da janela do escritório dele na esquina da Av. Rio Branco na época em que o sambódromo nem sequer existia.
O samba sempre teve seus pés no protesto e nos ideais de libertação do indivíduo. Por isso, o carnaval não deixa de ser uma festa política e de celebração dos prazeres da carne sem restringir classes sociais, etnias ou sexualidade. Como consequência dos últimos acontecimentos no Brasil, os festejos de rua cresceram assombrosamente nos últimos anos. São Paulo, por exemplo, tem vivenciado o florescimento dos blocos carnavalescos e da irreverência dos foliões dispostos a festejar e a protestar contra o status quo. A diversidade, por outro lado, tem marcado as agremiações de rua do Rio de Janeiro, cantando e tocando canções do repertório clássico do samba até as eternas criações do rock ‘n’ roll a plenos pulmões.
Em meio à crise econômica e política que o Brasil tem vivido, a quantidade de pessoas indo às ruas protestar contra o governo golpista e ilegítimo foi tão expressiva que nem as principais redes de TV conseguiram esconder os gritos de “Fora Temer” em rede nacional. A disposição das pessoas para festejar em meio à crise é de fazer vista ao mundo inteiro. Enquanto a Terra da Garoa fervia com os blocos carnavalescos de todos os tipos – os Beatles, Rita Lee, Caetano Veloso, David Bowie, Gal Costa e Beth Carvalho foram alguns dos homenageados –, a Portela reinou soberana durante o carnaval da Cidade Maravilhosa depois de 47 anos sem levar o título para Madureira.
Apesar de não ser uma pessoa necessariamente religiosa, fiz meu pedido em oração para que os foliões fossem protegidos durante os festejos. Infelizmente, não foi o que ocorreu: os relatos de furtos e assaltos eram sem fim (um primo meu teve a infelicidade de ter DOIS celulares roubados no Rio de Janeiro!), as histórias de violência contra mulheres extrapolaram os limites do suportável – a cada três minutos, uma mulher foi agredida –, as ruas de São Paulo eram desocupadas com a truculência, a agressividade e a conivência de um prefeito que se diz preocupado com as belezas da cidade.
Em relação às violências sofridas pelas minorias, duas histórias ocorridas durante o período de carnaval me horrorizaram por completo. A primeira foi o habeas corpus concedido pelo STF ao goleiro Bruno, acusado e condenado de matar, esquartejar e ocultar o cadáver de Eliza Samúdio, mãe de seu filho. O fato de nossa Suprema Corte privilegiar ricos e poderosos já não me causa tanta espécie hoje em dia, porém a reverência de torcedores e clubes de futebol ao ex-craque do Flamengo me surpreenderam bastante: ele recebeu ofertas de clubes de futebol e pedidos de selfies com  torcedores e marias chuteiras (?!). A prova de que o brasileiro médio é fã de bandidos endinheirados como Bruno e Eike Batista é concreta, abençoada pelo GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) e digna da minha náusea mais intensa e sincera.
A segunda história que me tirou do sério foi o assassinato brutal da travesti Dandara dos Santos, espancada por vários homens. O fato da transexual ter entrado para as estatísticas, infelizmente, não me surpreendeu, pois vivemos sob a égide de uma barbárie permanente. O dado que me deixou perplexo foi que o crime foi filmado por um dos agressores: Dandara implorava pela vida, enquanto seus algozes não hesitavam em agredi-la mais e mais. Não bastava bater, era preciso agredir, assassinar e filmar para que houvesse uma prova de afirmação da homofobia travestida com a desculpa de que o homem heterossexual é superior aos que não estariam no mesmo patamar que o dele. A travesti foi tratada com a indiferença dos grandes meios de comunicação, não foi notícia nas primeiras páginas dos jornais, mas foi objeto de comoção daqueles que estão fartos de serem tratados com desdém pelas maiorias.
Quando Clara Nunes ganhou “Portela na Avenida” de presente do marido Paulo César Pinheiro e do violonista Mauro Duarte, ela ficou comovida com a comparação das alas da Portela com o manto azul e branco de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Minha esperança é que este manto sirva não apenas para dar a proteção necessária à escola de samba de Madureira, como também sirva para guardar nosso país tão ferido de valores, de respeito e de compaixão dos males dos reacionários de tocaia e de plantão...

2 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 22

MARINA LIMA - VIRGEM (1987)




Em 1987, o nome de Marina Lima já era mais do que consagrado no panteão da música brasileira. Sua parceria com seu irmão mais velho, o poeta e filósofo Antônio Cícero, lhe rendeu discos de sucesso e canções gravadas por nomes de peso como Gal Costa, Maria Bethânia e Zizi Possi. Além disso, Marina surgiu na virada da década de 1970 para a de 1980 e foi uma das grandes responsáveis pela inserção de elementos da Pop Music na música brasileira.



Virgem é o oitavo álbum de Marina e contou com a produção do saxofonista Leo Gandelman. A artista ficou a cargo da direção artística e Cícero foi responsável pela assessoria conceitual do trabalho. Os arranjos foram distribuídos entre a cantora, Nico Rezende e os músicos da banda que gravou o disco – William Magalhães, Sérgio dela Mônica, Torcuato Mariano, Renato Rocketh, Sidinho, Paulinho Guitarra e Carlos Maia.




A faixa que abre o disco é a balada de cunho filosófico "Pseudo-Blues", parceria de Nico Rezende e Jorge Salomão. Outra canção de destaque do repertório deste disco é "Doce Espera", assinada apenas por Marina. Originalmente gravada por Maria Bethânia em Dezembros (1986), Marina a retomou com direito a uma longa vinheta de introdução capitaneada por Leo Gandelman. Já a releitura lânguida para "Preciso Dizer Que Te Amo", parceria de Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza, ainda toca nas rádios brasileiras com frequência. Por fim, a regravação de "Hearts", de Jesse Barish (um dos ex-integrantes do Jefferson Airplane) é bastante arrojada e entoada com a energia marcante da autora de "Fullgás".



Marina assinou sozinha mais duas faixas do álbum: "Confessional" é uma ode amorosa a um amor impossível e é uma das canções mais apaixonantes de seu repertório - a versão de Karina Zeviani, gravada no belo disco-tributo Literalmente Loucas - As Canções de Marina Lima (Gravadora Joia Moderna) merece uma audição por ser tão lírica quanto a gravação de original de 1987. Já "Primeiro de Abril (Eu Negar?)", regravada pela própria autora em No Osso (2015), mostra as nuances da voz e do violão de uma das artistas mais inquietas que o Brasil já nos ofertou em matéria de música.




Dentre as demais parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero que se encontram em Virgem há o rock "Zerando", faixa dois do disco. O riff marcante da canção é uma das marcas registradas do repertório de Marina e é um dos lados B mais interessantes deste repertório. Já "Prestes a Voar" foi uma outra parceria dos irmãos Correia Lima que foi regravada no especial Acústico MTV, em 2003, com uma versão mais tocante do que a original, de 1987.




O grande sucesso de Virgem foi "Uma Noite e 1/2", de Renato Rocketh, que tocou incessantemente durante o verão da temporada 1987/1988. A letra sexy versava sobre a beleza dos corpos nas praias cariocas, falava em mulheres top less e em "bundinhas de fora" e rendeu um enorme sucesso à Marina. A faixa-título, uma das mais belas parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero, recebeu um belo videoclipe do Fantástico e é uma das canções mais frequentes em shows e turnês.



Os ouvintes que desconhecem a chama que emana do cancioneiro de Marina encontrará em Virgem uma excelente porta de entrada para um trabalho musicalmente sofisticado e poeticamente incomum - Cícero contou em uma entrevista de que o verso "os inocentes do Leblon / eles não sabem de você" é uma referência a um poema de Drummond. Além disto, eles poderão constatar que mulheres podem se revelar em verdadeiras esfinges ou fortalezas escondidas nas armadilhas do olhar doce, meigo e levemente desafiador que lhes fitam na capa do disco...


26 de fevereiro de 2017

TROVA # 113

FOSSA ENSOLARADA
(meu apreço e minha inveja do lendário Solar da Fossa)


     

       A partir da segunda metade da década de 1960, a expressão “estar na fossa” adquiriu um sentido distinto do original, ou seja, nada a ver com desilusão amorosa. Tudo isso ocorreu graças a um lendário casarão convertido em uma suntuosa pensão que abrigou a nata da arte, do pensamento da cultura do Brasil daquele período. A Pensão Santa Terezinha, mais conhecido como Solar da Fossa, foi moradia de artistas e intelectuais antenados e engajados do porte de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Ruy Castro, Naná Vasconcellos, Sueli Costa, Tim Maia, Maria Gladys, Aderbal Freire Filho, Jards Macalé, Antônio Pedro, Zé Kéti, Abel Silva e mitos outros antes de alcançarem o reconhecimento e a fama.

Paulinho da Viola em frente ao portão principal do Solar da Fossa na capa de seu disco de 1971

         Se eu pudesse pegar o Delorean dos meus sonhos e voltar ao ano de 1967, eu faria questão de passar uns dias no Solar da Fossa depois de negociar minha estadia por um precinho bem bacana com D. Jurema Cavalcanti, a administradora da pensão. Poderia tomar um copo de uísque e trocar algumas figurinhas com meu amado mestre Ruy Castro sobre música, literatura e jornalismo. Teria a chance de ouvir Caetano Veloso e Paulinho da Viola cantarem “Alegria, Alegria” e “Sinal Fechado”, dois clássicos da música brasileira pela primeira vez. Conheceria o talento imortal de Zé Rodrix, Tim Maia e de Guarabyra em início de carreira. Assistiria a um show gratuito de Naná Vasconcellos e seus batuques inconfundíveis no meio do quintal da pensão. Viveria o deslumbre das belezas juvenis de Gal Costa, Darlene Glória, Maria Gladys, Betty Faria e Ítala Nandi. E, por fim, poderia xeretar os relacionamentos amorosos nada discretos de Zé Kéti e Antônio Pedro durante o meu tempo livre.




      O principal celeiro da intelligentsia carioca da época foi eternizado pelo jornalista Toninho Vaz em Solar da Fossa: um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias, publicado em 2011 pela Editora Casa da Palavra. Neste livro, o biógrafo de Torquato Neto e Paulo Leminski conta como o lendário casarão de Botafogo se tornou tão conhecido através de centenas de depoimentos de ex-moradores (ilustres ou não) do Solar da Fossa. Uma leitura deliciosa, que acendeu ainda mais minha vontade de ter sido um jovem nos anos 1960 só para poder “estar na fossa”.


        Infelizmente, a história do Solar da Fossa teve os seus altos e baixos, tal qual a trama de qualquer novela global: as disputas judiciais entre Frederico Mello, o arrendatário do casarão e dos terrenos e os proprietários do imóvel renderam longas batalhas nos tribunais, deixando as vidas de várias pessoas em um limbo de incertezas. A guerra entre Mello, Jurema Cavalcanti, os moradores e os donos do imóvel se findou em 1971 quando a justiça determinou que todos deveriam ser despejados da pensão sob escolta policial.


         Pouco tempo depois, o Solar da Fossa foi demolido para dar início à construção do Shopping Rio Sul, um dos maiores templos de consumo da Zona Sul carioca. Era o encerramento de mais um capítulo das batalhas entre liberdade e capital, entre o conservadorismo da direita elitista e o sentimento libertador das esquerdas do período, entre a ditadura militar e a intelligentsia disposta a resistir contra o regime de exceção. A demolição do casarão e o não-tombamento pelo patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro é mais um exemplo de que nossa tradição em renegar nossa história é muito maior do que o instinto de preservá-la.



         Por outro lado, nem a ditadura, nem os paladinos do capitalismo, tampouco os militares xucros que comandaram o Brasil por mais de 20 anos conseguiram que a história do Solar da Fossa fosse legada ao esquecimento. Afinal, é impossível demolir os edifícios da memória de quem viveu um momento histórico tão significativo para a história da humanidade como foi a segunda metade da década de 1960. Para aqueles, a fossa sempre será libertadora e ensolarada...


23 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 21

NEIL YOUNG – TONIGHT’S THE NIGHT (1975)

Não creio na existência de alguém mais produtivo e criativo na história do Rock do que o Sr. Neil Percival Young: são mais de quarenta álbuns em cinco décadas de atividades musicais ininterruptas. Dentre os títulos mais expressivos de sua ampla discografia, estão os três álbuns que compõem a chamada Ditch Trilogy (em português: Trilogia do Fundo do Poço): o ao vivo Time Fades Away (lançado em 15 de outubro de 1973), o irrepreensível On the Beach (lançado em 16 de julho de 1974) e o sombrio Tonight’s the Night (lançado em 20 de junho de 1975).


Apesar de ter desfrutado de enorme (e surpreendente) sucesso com o belíssimo álbum Harvest (1972), Neil Young vivia momentos de profunda tristeza e desespero em meados dos anos 1970: seu relacionamento com sua namorada na época e mãe de seu primeiro filho, a atriz Carrie Snodgress, estava em frangalhos e próximo do fim; Danny Whitten, ex-guitarrista da Crazy Horse (banda que acompanha o cantor e compositor canadense nos palcos até hoje), morrera de uma overdose de heroína no início da década; Bruce Berry, roadie e amigo pessoal de Neil fora encontrado morto por abuso de drogas em junho de 1973, completando o círculo de tragédias pessoais que rondavam o artista. Em meio a tantas notícias ruins, o autor de “Heart of Gold” abusava dos limites de seu organismo ao consumir toda espécie de narcóticos para aliviar toda a dor e o sofrimento, enquanto compunha e produzia com um fervor impressionante.
Último dos três títulos da Ditch Trilogy a vir a público Tonight’s the Night, na verdade, foi o primeiro dos três álbuns a ser produzido. As sessões de gravação que geraram mais de 80% das canções do disco foram realizadas por Neil e os músicos do Santa Monica Flyers (Ben Keith – Guitarra / Nils Lofgren – Piano e Guitarra / Billy Talbot – Baixo / Ralph Molina – Bateria) em Hollywood entre agosto e setembro de 1973. As demais faixas foram gravas entre março de 1970 e dezembro de 1973 no Broken Arrow Ranch (propriedade particular de Young localizada em Redwood City, California, EUA) e em uma apresentação ao vivo feita em Nova York. No entanto, o álbum levou mais de um ano para ser lançado graças a uma decisão tomadas em conjunto por Neil Young e sua gravadora, a Reprise.
Os motivos que devem ter feito com que Tonight’s the Night levassem tanto tempo para ser lançado são plenamente compreensíveis: trata-se da coleção de canções mais pesadas (no sentido psíquico do termo) que um artista jamais poderia ter lançado. A ilustração da capa mostra um Neil Young morbidamente retratado em preto e branco, envolto em um mar de sombras com pouquíssimas (ou nenhuma) chances de encontrar a redentora luz no fim de um infindável túnel de sofrimento. Neil escreveu para este disco os retratos mais cruéis de sua desilusão com os dias pós-movimento hippie, nos quais o idealismo da Contracultura tornou-se uma utopia sem fim. As mortes dos amigos Whitten e Berry fizeram com que as letras fossem influenciadas pela depressão daquele que sobreviveu para testemunhar o desaparecimento repentino de seus pares.
Os versos de “Mellow my Mind”, canção gravada pelo grupo inglês Simply Red no final da década de 1990, resumem com perfeição o espírito depressivo de Tonight’s the Night:

I’ve been down the road
and I’ve come back
Lonesome whistle
on the railroad track
Ain’t got nothing on those feelings
That I had.



A canção que dá o nome ao sétimo álbum solo de Neil Young recebeu duas versões e são elas que aparecem como primeira e última faixas do disco. Neil faz uma ode para o recém-partido Bruce Berry, relatando um episódio típico da rotina corriqueira e cansativa da estrada:

Well, late at night
when the people were gone
He used to pick up my guitar
And sing a song in a shaky voice
That was real as the day was long.


A quinta faixa de Tonight’s the Night foi gravada de um trecho de um show de Neil Young com a Crazy Horse no lendário Fillmore East, casa de shows situada em Nova York, realizado em março de 1970. Neil divide os vocais de “Come on Baby, Let’s Go Downtown” com Danny Whitten (homenageado pelo compositor canadense em uma das mais belas faixas de Harvest, “The Needle and The Damage Done”), canção que expõe as mazelas do vício em drogas, ignorando qualquer possibilidade de diversão:

Sure enough,
They’ll be sellin’ stuff
When the moon begins to rise
Pretty bad when
you’re dealin’ with the man
And the light shines in your eyes.



Em meio à solidão inevitável de um sobrevivente que segue seu caminho sem encontrar nenhuma espécie de amor, Neil Young deixa bastante evidente a sua necessidade de falar, de forma que ele possa expor seus conflitos e encará-los frente a frente. “Speaking Out”, segunda faixa do álbum, trata justamente deste fato:

I’ve been a searcher, I’ve been a fool
But I’ve been a long time comin’ to you
I’m hopin’ for your love to carry me through
You’re holdin’ my baby, and I’m holdin’ you
And it’s all right.


No entanto, viver em um mundo completamente tomado pela dor e pela melancolia tornou-se uma tarefa extremamente dolorosa para Neil Young na primeira metade da década de 1970. “World on a String” e “Borrowed Tune” (terceira e quarta faixas de Tonight’s the Night) apontam a ausência de esperanças em um momento de plena exaustão, de crise desesperadora, na qual a música dos Rolling Stones serve de inspiração para combater a solidão reinante:

It’s not all right
to say goodbye,
And the world on a string
Doesn’t mean a thing.
(“World on a String”)


I’m singin’ this borrowed tune
I took from the Rolling Stones,
Alone in this empty room
Too wasted to write my own.
(“Borrowed Tune”)


“Lookout Joe”, gravada em dezembro de 1972, é um encontro de Neil Young com o grupo The Stray Gators, que participou das gravações de Harvest. As guitarras em fúria de Neil e de Ben Keith encontram os pianos do tecladista e arranjador Jack Nitzche, resultando em uma das melhores faixas de Tonight’s the Night. A letra elenca típicos personagens junkies em uma tragédia pós-hippie (“a hip drag queen”, “a side walkin’ streetwheeler”, “Millie from down in Philly” e “Bill from up the hill”) que parecem ter saído do universo de sexo, drogas e paranoias ilusórias tão bem cunhadas por Lou Reed em Transformer (1972). Se, em certos momentos, Reed optou por um olhar paródico-corrosivo do underground, Young estilhaça sem dó o saudosismo em acordes furiosos de guitarra:

Lookout Joe, you’re comin’ home
Old times were good times
Old times were good times.


Neil ao lado da Crazy Horse em 1975

Ao ouvirmos as canções do sétimo álbum de Neil Young, temos a impressão de que ele não apenas possuía o desejo de prestar um tributo aos que foram embora cedo demais por causa das drogas, como também era um pedido de socorro ou um alerta aos ainda presentes de que havia perigos implacáveis a nos espreitar. “Tired Eyes”, a penúltima faixa de Tonight’s the Night, versa sobre este conflito:

Well, it wasn’t
supposed to go
down that way
But they burned his brother,
you know,
And they left him lying
in the driveway.
They let him down with nothin’
He tried to do his best
but he could not.


A saída para os conflitos e o sofrimento, de acordo com Neil Young, consiste em colocar o pé na estrada, fugir das tentações e sair em busca do tão cobiçado conforto nos braços da pessoa amada ou na independência tão desejada. “New Mama”, “Roll Another Number” e “Albuquerque” são exemplos dos quais Neil parece ir em busca de um idílio em meio à loucura inevitável:

New Mama’s got a sun in her eyes
No clouds are in my changing skies
Each morning when I wake up to rise
I’m livin’ in a dreamland.
(“New Mama”)


It’s too dark
to put the Keys
in my ignition,
And the mornin’ sun is yet
to climb my hood ornament.
But before too long I might
see those flashing red lights
Look out, mama,
‘cause I’m comin’ home tonight.
(“Roll Another Number”)



I’ve been flyin’
down the road
And I’ve been starvin’ to be alone,
And independent from the scene
that I’ve known
Albuquerque.
(“Albuquerque")



O disco se encerra com a segunda versão de “Tonight’s the Night”, que chega a ser ainda mais pesada do que a versão da abertura. Podemos interpretar esta escolha de Neil como um exemplo de que a vida é feita de círculos que repetem a mesma série de conflitos e fantasmas a nos assombrar intensamente. O testemunho musical oferecido por Neil Young aponta um beco com pouquíssimas saídas, entretanto ainda existe beleza em meio a dor e ao sofrimento que brotam das trevas e da escuridão.



Para que você, leitor e ouvinte, possa desfrutar de tudo isto, ouça abaixo Tonight’s the Night e embarque na noite sem fim de Neil Percival Young, um dos músicos mais brilhantes da história do Rock.



19 de fevereiro de 2017

TROVA # 112

TEMPESTADES & FORTALEZAS


Para Ciça Carvalho, uma das fortalezas que me inspiram

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
(Clarice Lispector)


         Desde que a vida começou a me ensinar as lições mais amargas da existência que eu ouço o velho e surrado ditado: “Após a tempestade, vem a bonança”. Apesar de sempre carregar uma pontinha de otimismo dentro de mim, sempre odiei chuvas – as verdadeiras e as simbólicas. O desconforto se sente no corpo e na alma, todavia só construímos nossas fortalezas depois de muitas crises e sem direito a sombrinha ou guarda-chuva para nos reconfortar.


  Tempestades são cursos intensivos de aprendizagem e autoconhecimento, pois nos ensinam a juntar os cacos de mundos que são desfeitos com a agressividade do vento e dos raios. Tempestades nos fazem aprender sobre a importância da dor e do sofrimento para cada um de nós. Tempestades são dolorosamente necessárias, pois são instrumentos de amadurecimento.


        As intempéries doem simplesmente pelo fato de que não possuem tempo determinado para acabar: podem durar minutos, horas, dias, anos ou uma vida inteira. No entanto, sempre haverá o momento no qual o frio passa e o céu se abre para que tudo se renove, se transforme e novos caminhos se abram. Nem sempre as trilhas são lógicas. As trilhas nunca são em linha reta. Porém, elas nunca falham. E, por isso, devemos sempre agradecer aos astros por cada coisa boa e ruim que nos acontece.


   Sempre me julguei uma pessoa forte. No entanto, ao tomar conhecimento da vida de uma de minhas amigas, concluí de que preciso de muito arroz, feijão e experiência de vida para ter metade da força que ela tem. Minha amiga é uma verdadeira fortaleza: sempre disposta a superar seus próprios limites, é corajosa, determinada, guerreira e dona de uma gargalhada inconfundível. Mãe coragem, profissional dedicada e sempre aberta ao aprendizado. Vítima do mal que assola milhares de brasileiras, foi vítima de violência de um antigo companheiro. Tem expiado a dor e a decepção se mostrando ainda mais forte por dentro, mesmo que fragilíssima por fora e sem se esquecer de seu belo sorriso. E ainda consegue tempo para participar de uma bateria de um bloco de Carnaval.


       Já que falei de festividades, os dias de fevereiro são geralmente de bastante celebração por causa do Carnaval que arrasta milhões de pessoas para as ruas de todo o Brasil. Ótima oportunidade não apenas para deixar nossos dilemas de lado, como também é um momento e tanto para exorcizar nossos demônios e protestar contra o que existe de mais torto em matéria de política neste país. E, em meio ao calor acachapante do verão brasileiro, a chuva que cai nas nossas costas é sinal de refresco e de purificação.



   Este Vinícius que vos escreve, hoje tão avesso aos excessos carnavalescos (calor e muita gente não me fazem bem!), pede ao Rei Momo para que muitas pessoas se animem a pular, dançar e cantar o Carnaval a São Pedro para que muita chuva seja enviada para as terras de cá. Afinal de contas, promessas de vida são precisas para que as fortalezas humanas floresçam e resistam diante das tempestades que vem por aí...