O Trovas
de Viniljá teve mais de 70.000 visualizações! Atingimos a marca no
final da manhã de 5 de maio de 2017.
É uma honra sem tamanho saber que os textos que levo ao ar
são visualizados não apenas pelos amigos, como também por pessoas que eu não
conheço. Principalmente por se tratar de um projeto tão pessoal e tão querido
por mim. Gostaria de agradecer a todos que leem, que comentam e que
compartilham nossos textos pelas redes sociais.
E gostaria de aproveitar para falar de dois projetos
"paralelos" que eu gostaria de apresentar para os que ainda não os
conhecem: o primeiro deles é o meu livro O Doce & O Amargo do Secos & Molhados, que publiquei no final de 2015. Neste
trabalho, baseado em minha Dissertação de Mestrado, fiz uma análise da
trajetória e das canções do lendário grupo Secos & Molhados a partir de um
levantamento histórico da canção brasileira contemporânea. Conheça um pouco
mais sobre o meu livro através da página do Facebook: https://www.facebook.com/odoceeoamargodossecosemolhados/?ref=bookmarks
O segundo projeto do qual eu gostaria que vocês conhecessem é
Mutações, livro de estreia de Renata Emily Fonseca
Rodrigues, cujo prefácio é de minha autoria. Neste livro, a autora (que é a
irmã que a vida me deu), reuniu textos poéticos, aforismos e crônicas e breves
contos sobre o cotidiano dos seres humanos em pleno século XXI. Renata Emily tem
muito a nos dizer. Conheça mais sobre a obra na página do Facebook: https://www.facebook.com/mutacoes2016/
Recados dados, pessoal! Espero que vocês continuem curtindo nosso Blog e se interessem pelas duas leituras que apresentei aqui para vocês.
Em um de seus sucessos mais expressivos na década de 1970, Rita
Lee dizia que “um tal de Raul Seixas vem de disco voador”. Se levássemos em
conta a música, a aparência, o estilo e a ambição de Raul dos Santos Seixas,
poderíamos ter certeza de que Ritz estava nos dizendo a mais pura verdade. No
entanto, os fatos dizem o contrário… Em seu primeiro sucesso, “Let Me Sing, Let
Me Sing” dizia, descaradamente, miusturando Rock e Baião:
“Não vim aqui tratar dos seus problemas
O seu Messias ainda não chegou
Eu vim rever a moça de Ipanema
E vim dizer que o sonho
O sonho terminou
Eu vim rever a moça de Ipanema
E vim dizer que o sonho
O sonho terminou”
Pelo simples fato de não se tratar de um mero Messias do Rock,
Raul também avisava que não estava aqui para agir e cantar como as belas
cigarras, que encantam e seduzem a todos:
“Tenho 48 quilos, certo?
48 quilos de baião
Num vou cantar como a cigarra canta
Mas desse meu canto eu não lhe abro mão
Num vou cantar como a cigarra canta
Mas desse meu canto eu não lhe abro mão”
Quando Mestre Raul começou a tocar incessantemente entre nós a partir
de 1973, já pudemos ver de cara que o baiano fã de Elvis Presley não tinha
vindo para este mundo de estrelas musicais a passeio. Raulzito veio para fazer
muito, mas muito barulho! Deixou para trás uma respeitada carreira de produtor
musical, para dar início a uma carreira individual vitoriosa e brilhante. O
título de sua estreia musical:Krig-Ha, Bandolo(título retirado de uma história de quadrinhos) quer
dizer, nada mais nada menos do que, “Cuidado, lá vem o inimigo!”. Na foto da
capa do disco, vemos um cantor que contraria toda a lógica do star system da
Música Brasileira de 1973 – Raul se mostra magro, esquelético, de olhos
entreabertos (efeitos da cannabis?), uma tatuagem na mão e um cordão dourado no
centro do peito.
Definitivamente, Raul Seixas veio para ser um inimigo: da moral
tradicionalista que regia o Brasil dos militares, dos bons costumes que nossos
pais pregavam e nos obrigavam a seguir, ao bom gosto musical, dos velhos e
novos baianos e sua música que deixava de ser contracultura para ser apropriada
pelo sistema em meados da década de 1970.
Consequentemente, Raul Seixas se tornou um dos inimigos musicais
mais perseguidos da ditadura militar entre 1973 e 1975 não pelo fato de assumir
um discurso político, mas por assumir uma postura cáustica, irreverente e
libertária perante o Brasil e o mundo que vivíamos nos anos 1970. Por outro
lado, Raulzito se tornou o Rockstar
brasileiro mais importante de nosso país graças à autenticidade de seu talento,
de uma obra musical que se consolidou ao longo de duas décadas de sucesso e,
principalmente, à sua estreia arrebatadora em disco.
Krig-Ha, Bandolose inicia com uma belíssima introdução: Raulzito
cantando “Good Rockin’ Tonight”, sucesso de Elvis Presley, deliciosamente
desafinado aos nove anos de idade, revelando uma ambição de ser um astro que
não se vê mais por aí em pleno século XXI. Para os que pensavam que estávamos
ouvindo um disco de Rock, a faixa que
se segue é um tapa muito bem dado nos ouvidos de pouca imaginação: “Mosca na
Sopa” é um ponto de umbanda misturado com Rockabilly com um refrão tão
empolgante e de uma ousadia tão gigantesca (Quem mais pensaria em misturar
Macumba com Rock em 1973? Quem?!). Já avisava o baiano, com seu sotaque
arrastado:
“Eu sou a mosca que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar”
Raul Seixas não queria ser uma unanimidade. Queria conquistar o
mundo com suas ideias, com seu ideal, com sua sociedade alternativa. Queria ser,
como diz um de seus maiores clássicos, uma “Metamorfose Ambulante” ao invés de
‘ter aquela velha opinião formada sobre tudo’. Queria provocar a moral e os
bons costumes do Brasil de 1973 com a sua “Dentadura Postiça” ao anunciar que
‘Vai subir / O preço do horror’. Queria nos avisar, via “As Minas do Rei
Salomão”, que ‘Do passado me esqueci / No presente me perdi’ e que ‘Se chamarem
diga que eu saí’.
Em “Al Capone”, avisa personalidades de peso como Frank Sinatra,
Jesus Cristo, Júlio César e o velho mafioso de Chicago que em algum momento a
picaretagem tem o seu fim, afinal, o velho Raulzito (que iria anunciar em pouco
menos de uma década que tinha nascido há 10 mil anos atràs) era o astrólogo que
conhecia os percalços da ‘história do princípio ao fim’. Na belíssima “Cachorro
Urubu”, concluía que ‘A história é a mesma / Aprendi na quaresma / Depois do
Carnaval / A carne é algo mortal / Com multa de avançar sinal’. E já em
“Rockxixe”, enfim, avisava, sem a menor dó dos medíocres:
“Você é forte, mas eu sou muito mais lindo
O meu cinto cintilante, a minha bota, o meu boné
Não tenho pressa, tenho muita paciência
Na esquina da falência que eu te pego pelo pé”
Apesar de se revelar uma persona um tanto complexa de se
compreender, Raulzito conseguia ter os seus momentos de lirismo e romantismo.
Em “A Hora do Trem Passar”, ele suplica à mulher amada: ‘Diga meu amor, pois eu
preciso escolher / Apagar as luzes, ficar perto de você’. Em “How Could I
Know?”, pergunta, em inglês: ‘Como eu iria saber / que os meus olhos podiam ver
no escuro?’, contrariando todas as expectativas de que era impossível
distinguir o joio do trigo em tempos de trevas e escuridão.
No entanto, a canção mais emblemática de Raul Seixas foi
escolhida para ser a última canção deKrig-Ha, Bandolo. “Ouro de Tolo” é uma crítica monumental ao pequeno
burguês que sonhava com o sabor artificial do bolo solado do Milagre Econômico
brasileiro, que esconde injustiças sociais, econômicas através de um viés
político autoritário. Raulzito alega que deveria estar contente em meio ao seu
Corcel 73, ao seu emprego que lhe faz um cidadão responsável, por ter tido
sucesso, por deixar de passar fome no Rio de Janeiro, por ter o domingo para
passear no zoológico e outras pequenices que fazem a vida de qualquer
burguesia.
Eterno insatisfeito, porém, Raul acha que ‘vencer na vida’,
seguindo a cartilha do sistema, é uma piada de péssimo gosto, por ser
decepcionante, limitado, medíocre. Afinal de contas, nós, humanos, somos
grandessíssemos idiotas que usam apenas 10% de nossas cabeças e que sendo
doutores, padres ou policiais que contribuem para um ‘belo quadro social’ que
não existe, que é falido desde a sua instituição via argumentos falaciosos.
Diante da mediocridade que nos ronda, o que não precisamos fazer para nos
livrar de uma existência comum. Deixemos a resposta para Mestre Raul:
“Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador”
Para Raul Seixas, a fuga desta realidade absurda era o disco
voador que, como o Godot de Samuel Beckett, nunca veio. Para a nossa
felicidade, já que os extraterrestres deixaram Raulzito conosco cantando e
tocando até o final da década de 1980, quando a Morte veio lhe buscar depois de
anos e anos de abusos de álcool e drogas. No entanto, a mulher misteriosa com a
foice na mão não nos levou a música.
Por tudo isto, o momento pede que revisitemosKrig-Ha, Bandoloe possamos entender mais uma vez o porquê de Raul
Seixas ser um dos artistas mais geniais do planeta.
Quer queira,
quer não, o Brasil parou no dia 28 de abril de 2017. A greve geral,
originalmente convocada pelas centrais sindicais, teve a adesão de professores
das redes pública e privada, metroviários, condutores e cobradores de ônibus e
outros grupos de trabalhadores. O GAFE tentou desqualificar e descaracterizar o
movimento através de uma cobertura jornalística parcial e descaradamente
tendenciosa. O alto empresariado, as elites e os pobres de direita se sentiram
aviltados por terem tido o seu direito de ir e vir abalado por “baderneiros
defensores do Lula”. A classe política governista minimizou os protestos, mas
se manteve em pânico ao constatar que aproximadamente 35 milhões de brasileiros
literalmente cruzaram os braços.
Para mim, a fala mais estarrecedora sobre a greve geral foi
a do Prefeito de São Paulo e de um de seus subprefeitos. Ambos qualificaram os
manifestantes de “vagabundos”, alegando que sexta-feira é dia de trabalho, ameaçaram
os servidores públicos municipais e cortaram o ponto dos funcionários que não
compareceram aos seus postos de trabalho naquele dia. Exemplo este seguido pelo
Presidente da República, Michel Temer, em relação aos funcionários públicos
federais, cujo dia também foi descontado – afinal de contas, o melhor dia para
realizar uma greve deveria ser o domingo, pois, assim, não atrapalha o direito
alheio de ir e voltar para onde desejasse. O povo lhes informou, sem o menor
pesar, de que domingo é o dia das elites protestarem; a classe trabalhadora
batalha por seus direitos durante a semana mesmo.
No entanto, a mais genuína prova de vagabundagem não vem
daqueles que cruzaram os braços e foram às ruas protestar contra as reformas
trabalhista e previdenciária propostas pelo Governo Temer: os verdadeiros
desocupados são os representantes da elite e do empresariado, donos das grandes
corporações que devem bilhões de reais à Previdência Social e demais órgãos
oficiais ao sonegarem encargos e tributos que resolveriam os problemas econômicos
do país em um estalar de dedos. A ganância, a arrogância, a avareza e a
hipocrisia destas pessoas nos obrigam a pagar taxas cada vez mais exorbitantes,
pois elas se recusam em dividir as fortunas e os lucros de seus dividendos com
o restante da sociedade. Com isso, a paciência dos contribuintes é carcomida e
incendiada pelo cinismo de fazer inveja ao próprio Tio Patinhas.
Os 4% de aprovação de Temer na Presidência da República
evidenciam que o povo está farto da hipocrisia e da ganância de uma classe
política que tem feito pouquíssimo para solucionar as questões endêmicas do
Brasil. Some-se a este caldeirão fumegante 14 milhões de desempregados e uma
grande mídia irresponsável e tendenciosa, a quem “carinhosamente” chamamos de
GAFE. A revolta das pessoas nas ruas e nas redes sociais protestando,
atravancando vias públicas e proferindo palavras de ordem para quem quiser
ouvir é genuína, pois só a classe trabalhadora sabe o preço e a dor da ausência
de direitos trabalhistas. Por outro lado, a reação dos policiais diante dos
protestos (não-)pacíficos foi agressiva e truculenta, como sempre: milhares de
cassetetes em riste, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram
utilizados para reprimir os manifestantes de maneira vil e covarde.
A imprensa estrangeira, ao contrário do GAFE, não escondeu a
greve geral para debaixo do tapete dos fatos e acontecimentos do dia. A
comunidade internacional tomou conhecimento não apenas da crise política que
tem assolado o Brasil há anos, como também da revolta dos “vagabundos” que incendiaram
as principais ruas, estradas e avenidas do Brasil. Afinal, ainda persiste a
esperança de que o incêndio promovido pelo povo seja uma resposta à altura do
retrocesso pelo qual ele passa e sente na pele.
Foi em um domingo,
véspera de feriado, após o almoço de família. Tomei conhecimento de que
Belchior tinha desaparecido de vez de nossas vidas. Estava em sua casa em uma bela
e pacata cidade no interior do Rio Grande do Sul. Seu coração velho de guerra e
combatente por mais de 70 anos de sonho de sangue e de América do Sul parou de
bater enquanto o poeta da canção ouvia música clássica. De nada adiantarão as
campanhas na Internet ou o amor verdadeiro dos fãs para que ele volte. De nada
adiantará as reportagens sensacionalistas dos programas de TV ou a proliferação
de comunidades nas redes sociais. E muito menos adiantarão as pichações clamando
a sua volta legítima para o convívio dos brasileiros e a saída de um presidente
ilegítimo do poder. Aquele rapaz latino-americano com pouco dinheiro no bolso
não irá mais voltar.
Antes de desaparecer da vida artística
e dos olhos do grande público, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle
Fernandes foi um dos nomes mais importantes da música brasileira da década de 1970
para cá. Foi gravado por nomes da mais alta estirpe da MPB – Elis Regina,
Roberto Carlos, Vanusa, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Zélia Duncan foram alguns
dos artistas que gravaram suas canções. Álbuns como Anunciação
(1976) e Coração Selvagem (1977) se
tornaram não apenas verdadeiros clássicos, como também eram itens básicos de
qualquer boa discografia de MPB.
Belchior é uma falha gravíssima no meu
departamento de ouvinte e pesquisador de música brasileira. Nunca fui um fã
ávido ou ouvi seus trabalhos com atenção por pura falta de vergonha na cara ou
da oportunidade de alguém que me dissesse: “Escute este disco aqui, pois ele vai
fazer a sua cabeça”. Ele sempre esteve onipresente nas coisas que eu aprendi
através de meus amados discos – o Trovador do Ceará sempre esteve nos meus
ouvidos através das interpretações de Ney e de Roberto, de Elba, Vanusa ou
Zélia, mas principalmente nas gravações eternas de Elis, a Pimentinha mais
ousada, intensa e desaforada que o universo já teve notícia.
Ao descobrir o álbum Falso Brilhantecintilando
de maneira triunfal na discoteca de minha avó, D. Magaly, fiquei tão encantado
com a voz de Elis Regina e a poética rascante de Belchior que o tal CD passou
um bom tempo tocando só para mim lá em casa. Tempos depois, comprei uma cópia
remasterizada do álbum de Elis e devolvi o “emprestado” para minha avó; afinal,
a boa arte não deve ser um privilégio exclusivo dos sortudos: ela deve ser
compartilhada, ouvida e amplificada no mais alto volume possível para que
muitos conheçam o que os brasileiros sabem fazer melhor: música!
O Trovador do Ceará não foi apenas
aclamado como um grande poeta da canção brasileira: depois de passar pelas
faculdades de medicina e filosofia, ele viveu como um Rimbaud. Veio do Ceará
para São Paulo em busca de melhores oportunidades no universo da música e
sofreu intensamente com as exigências mercantilistas da fama e da celebridade
em um contexto capitalista. Escreveu canções sobre a ditatura militar que ele
tanto sentiu na pele, outras de fortíssima crítica social, belas declarações de
amor e misturou Edgar Allan Poe e Luiz Gonzaga com Beatles e Bob Dylan. Provocou
um supostamente antiquado Caetano Veloso em meados dos anos 1970 em “Apenas Um
Rapaz Latino-Americano” e foi convocado para o embate pelo sempre debochado Raul
Seixas em “Eu Também Vou Reclamar”. Largou a fama e uma carreira de sucesso na
década de 2000, vagou entre o Brasil e Uruguai, acumulou dívidas babilônicas
(afinal, nunca ligava para o vil metal que ele tanto criticava) e viveu em um
anonimato praticamente absoluto até o fim de seus dias.
A saída de cena de Belchior trouxe
enorme comoção de artistas, fãs e amantes de música brasileira. Além disto,
surgiram os relatos de que o artista inquieto e bastante criativo durante seus
últimos tempos – trabalhava em uma tradução de A Divina Comédia, de Dante Alighieri e compunha novas canções sem
parar. Motivado pela revolta de um Brasil assolado pelas consequências de um
golpe de estado parlamentar, o Trovador do Ceará planejava voltar aos palcos e
fazer de sua arte um instrumento para combater as injustiças de nossos homens.
Infelizmente, Belchior não conseguiu realizar o retorno triunfal
que tanto planejava. Como ele teve o poder de influenciar as gerações
posteriores a dele, deixou uma legião de admiradores que jamais permitirá que
canções como “Medo de Avião”, “Paralelas”, “Como Nossos Pais”, “Apenas Um Rapaz
Latino-Americano”, “A Palo Seco” e “Velha Roupa Colorida” caiam no
esquecimento. Algo bastante justo para artistas de sua grandeza. Quem sabe assim
aquela voz grave e roufenha se torna mais presente no cotidiano deste que vos
escreve e aquece este coração velho de guerra?
Os
jovens que acreditam que Lady Gaga inventou as regras para fazer um disco
megalomaníaco certamente não ouviram este disco de David Bowiecom a devida atenção! Se é que ouviram
ou sabem da importância de Bowie para a música do planeta…Diamond Dogs, lançado pelo astro inglês em 24 de abril
de 1974, não é apenas uma das maiores pirações musicais de Bowie, mas também se
trata de um dos discos mais comentados de toda a história da música!
Antes
de apontar os mitos e os fatos em torno deste clássico que completa 40 anos
neste mês de abril, é preciso pensar o seguinte: qual era a pele que revestia o
camaleão em 1974?
Bowie
tinha “assassinado” Ziggy Stardust em cima do palco do Hammersmith Odeon, em
julho de 1973. Gravou um delicioso disco de covers (Pin-Ups) para
tentar se livrar do alienígena-personagem que encarnara com tamanha perfeição.Hunky DoryeThe Man who Sold The Worldjá tinham se tornado figuras de um passado
distante. Dentro de dois anos criaria e encarnaria o retorno de “The Thin White
Duke” e em menos de um ano deixaria as vestimentas de roqueiro para trás para
viver um elegante Soulman que faria o
som e a imagem do Plastic Soul deYoung Americans (1975).
No
entanto, qual foi a personagem escolhida por Bowie entre o período de 1973 e
1974? “Halloween Jack”, um cara bem legal que habita a apocalíptica e decadente
Hunger City, tema deDiamond Dogs.
Na
verdade, Jack não era nada mais, nada menos do que um espectro de Ziggy: o
corte de cabelo (com direito ao mullet
irreconhecível), a maquiagem, o olhar desafiador eram exatamente os mesmos que
Bowie lançava mão dois anos antes. Qual foi a jogada de mestre de Bowie para
que o assassinato de Ziggy Stardust realmente fizesse sentido: um álbum
conceitual!
A ideia
inicial de David Bowie era fazer uma espécie de Opera Rock de 1984, obra-prima do escritor George
Orwell. No entanto, a esposa de Orwell negou os direitos ao Camaleão inglês,
que decidiu fazer uma alegoria das ideias do escritor em seu disco. Além disto,
Bowie dispensou todos os seus colegas do “The Spiders from Mars” antes da
gravação de Diamond
Dogs.
Os fãs
e os críticos sentiram grande falta do genial Mick Ronson, que tinha um estilo
único ao dedilhar as cordas de uma guitarra, além de ser um instrumentista de
mão cheia. A sonoridade do álbum ficou bastante crua no que diz respeito aos
acordes de guitarra, apesar de Bowie se revezar entre guitarras, saxofones e
teclados moog e mellotron e dos arranjos de cordas de Tony Visconti para a faixa
“1984”. As influências do som dos Rolling Stones, para a felicidade dos amantes
do bom Rock, ainda estavam lá (os riffs de guitarra da faixa-título e de
“Rebel Rebel” refletem este fato com perfeição). No lugar das visões oníricas
de “Ziggy Stardust” e “Aladdin Sane”, visões niilistas do caos urbano e das
paranóias humanas (insufladas pelos abusos de cocaína cometidos por David Bowie
himself)…
Para
dar a imagem definitiva do habitante mais ilustre da Hunger City que se esvai
em genocídio, enquanto o Big Brother observa todos os acontecimentos com o seu
olhar atento, o artista plástico Guy Peellaert pintou uma criatura híbrida para
a imagem da capa do disco: um cão com a genitália à mostra que tinha o rosto de
Halloween Jack! O choque, obviamente, não se deu com o fato do cachorro
estampar o rosto de David Bowie, mas aconteceu pelo fato de que havia um órgão
sexual visível para quem visse a capa deDiamond Dogs. A
capa, obviamente, foi censurada. As fotos da sessão que mostra Bowie segurando
um cão enfurecido e prestes a atacar o primeiro indivíduo que estivesse ao
alcance de suas mandíbulas nem sequer foram utilizadas para o mesmo fim do
trabalho de Peelaert. Enquanto isso, cópias da edição original do discosão vendidas por quantias altíssimas
no mercado negro.
A turnê
resultante do disco teve início em julho de 1974 e rendeu o primeiro álbum ao
vivo de Bowie,David Live(1974). A Hunger City foi recriada nos
palcos com direito a um cenário baseado em Metropolis,
do diretor alemão Fritz Lang. Foi, sem dúvida, a turnê mais ambiciosa de David
Bowie até o momento. Músicos de primeira qualidade como o maestro e pianista
Michael Kamen (e diretor musical do show), o tecladista Mike Garson, o
guitarrista Earl Slick, o baixista Herbie Flowers, o baterista Tony Newman e o
saxofonista David Sanborn, dentre outros, foram convocados para aDiamond Dogs Tour.
Os
shows da turnê foram o marco da transição do arauto do Glam Rock para o Soulman
esquelético e branco que sacudiu o planeta com uma música negra de altíssima
qualidade. A foto que ilustra a capa traz um Bowie magérrimo, vestido com um
belo terno azul bebê e que não lembra em nada a imagem de Ziggy Stardust. O
alienígena, enfim, estava morto!
Menos
de um ano depois deDiamond Dogs, a
música de David Bowie tinha sofrido uma mutação tão radical quanto as trocas de
pele de seu criador. A partir deste disco conceitual, o astro inglês estava
pronto para viver intensamente uma mudança radical na música que estava fazendo
a partir de 1974-1975. O resultado disto? O antológicoYoung Americans,
que daria um novo direcionamento para a música de um dos artistas mais geniais
de todos os tempos...