18 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 33

ROXY MUSIC – SIREN (1975)


Em meados de 1975, o Roxy Music tinha se tornado em uma das bandas mais cultuadas do Reino Unido: quatro discos gravados graças à elegância e à liderança do vocalista e tecladista Bryan Ferry e de seus comparsas. A partir do terceiro disco, a força criativa do Roxy deixava de ser alvo de disputas entre Ferry e Brian Eno, quando o segundo resolveu sair da banda e investir em seu projeto solo.

Brian Eno (esq.) ao lado de Bryan Ferry (dir.)

As sessões de gravação do quinto álbum do Roxy Music foram realizadas entre junho e setembro de 1975 e contaram com a produção de Chris Thomas (Queen, Pink Floyd, Elton John, Pulp, Paul McCartney, The Pretenders, INXS, Sex Pistols). A imagem a ilustrar a capa do disco, para manter mais uma vez a tradição de belas mulheres que embelezam as capas dos trabalhos da banda (uma das taras e manias preferidas de Bryan Ferry que mais gostamos), é a da modelo texana bombshell Jerry Hall – naquele período, namorada de Ferry e futura Sra. Mick Jagger – caracterizada como uma bela e estonteante sereia. Nenhum título para este trabalho poderia ser mais apropriado: Siren (sereia, em português).

Ferry ao lado da estonteante Hall, a maior beleza que o Texas relegou ao mundo depois de Janis Joplin


As nove canções do álbum são uma espécie de ode coletiva à bela sereia presente em cada mulher. A canção que resume a proposta do disco é a sexy “Love is The Drug” (Bryan Ferry & Andy MacKay), faixa que abre o disco e foi um dos singles de maior sucesso da história do Roxy Music. A linha de baixo de John Gustafson ao se aliar a batida de Paul Thompson, aos sopros de Andy MacKay, às guitarras de Phil Manzanera, aos teclados de Eddie Jobson e à sensualidade indefectível de Bryan Ferry resultam em um dos hits mais provocantes de toda a história do Rock: o sentimento amoroso era mais do que uma mera obsessão, ele se transforma em um narcótico ou uma arma letal nas mãos do inimigo. A faixa fizera tanto sucesso que chegou a receber uma releitura de Grace Jones, anos depois.




As duas faixas seguintes de Siren foram justapostas sem intervalos entre as mesmas de forma que elas soassem como uma única canção: “End of The Line” (Bryan Ferry) destaca o violino de Eddie Jobson (substituto de Brian Eno) e “Sentimental Fool” (Bryan Ferry & Andy MacKay) aponta a fraqueza do elemento masculino diante da supremacia do poder feminino através de acordes que se assemelham ao explorado pelas bandas de rock progressivo. A quarta composição do disco, “Whirlwind” (Bryan Ferry & Phil Manzanera) é o número mais rápido do disco e coloca o talento vocal indiscutível de Ferry em evidência. “She Sells” (Bryan Ferry & Eddie Jobson) possui um acorde hipnótico de piano e uma letra que descreve uma relação amorosa pautada por imagens jornalísticas, eróticas e de altíssima voltagem. Já a faixa do álbum, a romântica “Could It Happen to Me?” (Bryan Ferry) evidencia o sax de MacKay em pouco mais de três minutos e meio.




O segundo hit single de Siren foi a sétima faixa do álbum, “Both Ends Burning” (Bryan Ferry). O épico de pouco mais de cinco minutos descreve o fogo incessante das paixões avassaladoras e tornou-se um dos maiores sucessos do Roxy Music. “Nightingale” (Bryan Ferry & Phil Manzanera) dá prosseguimento ao disco retratando uma relação singela entre um cantor e um rouxinol que o acompanha em meio à solidão. E, por fim, “Just Another High” encerra o quinto trabalho da banda ao descrever os descaminhos insanos do sentimento amoroso.


Além de um dos maiores álbuns do Roxy Music, Siren é considerado uma das obras fundamentais do Rock ‘n’ Roll. Após a turnê deste clássico, os membros da banda decidiram investir em um hiato que durou pouco mais de três anos. Bryan Ferry investiu em sua carreira solo e lançou três álbuns antológicos – Let’s Stick Together (1976), In Your Mind (1977) e The Bride Stripped Bare (1978). Ao ouvirmos e reouvirmos este trabalho conjunto de Ferry, Andy MacKay, John Gustafson, Eddie Jobson, Phil Manzanera e Paul Thompson, constatamos que qualquer banda que queira se aventurar a fazer música de qualidade deveria se espelhar em cada pequeno clássico perdido do Roxy Music antes de empinar seus instrumentos musicais e montar uma aura de artista cool.



Por isso e tudo o mais, aperte o play, pois não há amor mais intenso do que a paixão musical por esta belíssima sereia…



9 de julho de 2017

TROVA # 128

DIVINAS, DIVAS & REVOLUCIONÁRIAS
(Por que todo mundo deveria assistir o documentário Divinas Divas, de Leandra Leal?)




"Cansado de tanto amar
Eu quis um dia criar
Na minha imaginação
Uma mulher diferente
De olhar e voz envolvente
Que atingisse a perfeição"
(Nelson Gonçalves)


"Tá pensando que travesti é bagunça?"
(Luana Muniz)


"Eu sou a travesti da família brasileira."
(Rogéria)


O dicionário nos diz que as criaturas divinas são aquelas relativas ou fruto de um ou mais deuses. Se estamos diante de uma diva, estamos diante de uma deusa, uma divindade feminina. Em sua primeira incursão como diretora o cinema, Leandra Leal não só nos conta como e porque se tornou atriz, como nos provou que divinas divas existem então estão muito longe do alcance de cada brasileiro que não foi agraciado com as forças dos deuses (ou deusas).




Divinas Divas conta a história de sucesso e lutas de oito travestis – Rogéria, Jane di Castro, Divina Valéria, Brigitte de Búzios, Eloína dos Leopardos, Camille K, Fujikka de Halliday e Marquesa – a partir da ótica de uma menina que foi criada nas coxias do lendário Teatro Rival e que se tornou atriz e gestora de um dos centros culturais mais importantes do Rio de Janeiro. As Ladies do filme começaram sua carreira no palco do mesmo Rival que um dia pertenceu a Américo Leal (avô de Leandra), numa época em que travesti, segundo a heteronormatividade, era sinônimo de bagunça, anormalidade e imoralidade para o senso comum.




O filme de Leandra faz um retrato comovente das oito Divas, sem pieguice, com emoção e muito humor, mostrando o lado humano, o lado artístico e as lutas que cada uma delas tiveram de enfrentar para poderem ser transexuais em um país profundamente hipócrita e conservador como o Brasil. Através da película e dos depoimentos das artistas, de seus parentes e da voz da diretora em off, temos a compreensão de que ser travesti não é tão sujo, bizarro ou anormal quanto nos ensinaram nos lares de antigamente. Além disso, Divinas Divas deixa claríssimo para cada um dos espectadores de que questões de gênero precisam ser discutidas não apenas nas escolas, como em todas as esferas do espaço público urgentemente. Afinal de contas, a expectativa de vida da população transexual não passa da média de 35 anos de idade e as histórias destas lendas da noite vão muito além de meros desejos de libertação: são vitórias de oito criaturas que furaram o cerco da caretice e puderam fazer um balanço de suas vidas.




Enquanto assistia Divinas Divas, um outro filme foi se fazendo na minha cabeça, lá nos recantos escuros, quase perdidos da memória. Voltei ao início da década de 2000, quando ainda era um jovem morador do subúrbio do Rio de Janeiro e assisti pela primeira vez um show de travestis no Posto 4 do calçadão da Praia de Copacabana. Em um espetáculo improvisado, duas Ladies imitavam Gal Costa e Maria Bethânia cantando "Sonho Meu", de Dona Ivone Lara, para aplausos dos presentes e com direito a entrevistas ao final do número. Lógico, com direito ao humor camp bem típico de eventos deste tipo. Aquela noite de domingo marcou o início da minha saída de uma redoma careta e tacanha na qual fui educado.



Logo depois, surgiu outra memória, esta da infância: me lembrei da primeiríssima vez em que eu vi Rogéria na TV. Foi lá pelos idos de 1989/1990, enquanto assistíamos Tieta todas as noites no horário nobre da TV Globo. O soco que Ninette/Waldemar desfere na cara do personagem de Roberto Bonfim era muito mais do que uma resposta de uma travesti na cara de um machão babaca: era um golpe dado na face obscura do preconceito. Graças a uma alma bastante caridosa, a cena da novela a qual me refiro está no YouTube para que todos possamos nos lembrar de um dos momentos mais interessantes de nossa teledramaturgia.


As Ladies do filme são um exemplo de entretenimento que pouco se pratica hoje em dia. Ao interpretar o repertório de Divas do passado como Emilinha, Marlene, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Maria Callas, Billie Holiday, Edith Piaf, Dalida, Barbra Streisand, Liza Minnelli ou Diana Ross as rainhas do rádio, dos palcos e do cinema adquiriam uma dimensão espetacular, de celebração da beleza e do glamour de ser uma alma feminina dentro de um corpo masculino. Ao pisarem naquele espaço sagrado que é a ribalta, Rogéria, Jane, Valéria, Brigitte, Eloína, Camille, Fuiikka e Marquesa tinham consciência não apenas disso, como também não deixavam de satirizar sua condição com muito luxo e bom humor.



As quase duas horas de Divinas Divas passam por nós como o brilho intenso de um cometa. As Ladies não só nos dão uma lição de vida gigantesca, como nos mostram o quanto a vida pode ser boa se você encontra um caminho marcado pela integridade e a coerência com a sua identidade, com quem você é. Uma aula de tolerância e diversidade que deveria ocupar o horário nobre da TV aberta não apenas para que as pessoas deixem a caretice e o preconceito de lado, como também possam conhecer o talento indiscutível de oito grandes artistas.

6 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 32

MARIA ALCINA – ESPÍRITO DE TUDO (2017)



Ninguém me salva
Ninguém me engana
Eu sou alegre
Eu sou contente
Eu sou cigana
Eu sou terrível
Eu sou o samba
(Caetano Veloso, 1968)


         Depois de meio século, a obra musical de Caetano Veloso ainda surpreende o público devido a sua atualidade e o seu poder inabalável de provocação. Arauto maior da Tropicália, o filho mais ilustre de Dona Canô foi um dos grandes responsáveis pela modernização da música brasileira a partir do final da década de 1960 e sempre atrai novas faixas de público para suas apresentações ao vivo e jovens sempre dispostos a conhecer seus discos.


Foto: Alexandre Eça

         As canções de Caetano Veloso encontraram nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia suas intérpretes mais frequentes e famosas no decorrer dos últimos cinquenta anos. Por isso, trata-se de um enorme desafio para qualquer cantora de música brasileira se aventurar em um repertório tão marcante. Todavia, Maria Alcina não se fez de rogada e fez uso de sua experiência de mais de quatro décadas no meio musical para gravar Espírito de Tudo, um álbum no qual ela regravou 10 canções de Caetano.

Foto: Murilo Alvesso

         O nome deste trabalho de Maria Alcina foi retirado de um dos versos de “Gênesis”, canção composta por Caetano para os Doces Bárbaros, em 1976. Produzido por Thiago Marques Luiz, o CD foi gravado entre março e abril de 2017, contou com a direção musical de Rovilson Pascoal e seguiu uma linguagem musical mais ligada ao Rock e ao eletrônico. A banda que acompanhou Alcina merece uma menção honrosa: além de Rovilson (guitarras e synth), Ricardo Prado (baixo e teclados) e Arthur Kunz (bateria e programações) foram os três mosqueteiros que deram vida a estre projeto. Os músicos ainda contaram com a participação do baterista Gustavo Souza e da percussionista Michelle Abu em algumas faixas. Não menos importante é a rápida e marcante contribuição do lendário diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, na introdução de “Tropicália”.



         O repertório de Espírito de Tudo consegue a tarefa inglória de abranger cinco décadas do cancioneiro de Caetano Veloso. Da década de 1960, “Tropicália” e “A Voz do Morto” integram o disco; dos anos 1970, temos “Gênesis” e “Os Mais Doces Bárbaros” – compostas para o repertório do grupo Os Doces Bárbaros (formado por Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia em 1976); “Língua”, “O Estrangeiro” e “Fora da Ordem” foram compostas para o repertório das décadas de 1980 e 1990; “Rock ‘n’ Raul”, “Rocks” e “A Cor Amarela” figuram nos trabalhos lançados por Caê nos anos 2000.


Foto: Vinícius Rangel

O elemento mais encantador do resultado final do CD é que a voz grave e potente de Maria Alcina consegue dar uma dimensão ainda mais forte aos versos críticos de obras-primas como “Fora da Ordem”, “Tropicália”, “O Estrangeiro” e “Rock ‘n’ Raul”. Outro trunfo de Espírito de Tudo é a escolha de canções nada óbvias do repertório de Caetano como as pouco conhecidas “Rock ‘n’ Raul” e a deliciosa “A Cor Amarela” – gravadas pelo autor, respectivamente, nos álbuns Noites do Norte (2000) e Zii & Zie (2009). Cada canção na voz de Alcina se transforma em um verdadeiro carnaval regado a plumas, paetês e irreverência entoados por um dos registros graves mais belos da música brasileira – as releituras de “Língua” e de “Rocks”, repleta de batidas eletrônicas e sons furiosos de guitarra são dois exemplos disto.


No entanto, o momento mais emocionante do CD Espírito de Tudo ficou reservado para a última faixa. A versão de Alcina para “A Voz do Morto”, canção que Caetano Veloso compôs sob encomenda de Aracy de Almeida é repleta de emoção e de referências a bardos do movimento tropicalista – a mesma Aracy se encontra com Chacrinha, Dercy Gonçalves, Elke Maravilha e Grande Otelo na pele de Macunaíma nas plumas e na voz da intérprete de “Fio Maravilha” e “Kid Cavaquinho”.



50 anos após o surgimento da Tropicália e 45 anos depois do mundo ter conhecido uma das vozes graves mais marcantes do planeta, Maria Alcina conseguiu fazer um disco vibrante e atual. Tropicalista, mas com direito a plumas, paetês e a irreverência típicas de uma das maiores artistas do Brasil.


Foto e Montagem: Murilo Alvesso

2 de julho de 2017

TROVA # 127

OS DESÍGNIOS TORTOS DE DEUS
(o Brasil está como está graças aos desígnios divinos ou está de vez nas mãos do demônio?)

Leopoldo Méndez (1948)

Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha

Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

(...)

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Prá só dizer "sim, sim"

Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair

Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Confia em mim
Brasil!
(Cazuza, George Israel & Nilo Romero)


         Fiquei mais de um mês sem poder escrever por causa de uma tendinite silenciosa que apareceu no meu pulso esquerdo. Não sentia dor, apenas um incômodo constante depois de fazer um exame de rotina. No entanto, fui obrigado a seguir as ordens do médico e ficar bem longe do computador tomava remédios e mais remédios para poder me recuperar logo.
         Enquanto “fiquei de molho” e distante do Blog, uma avalanche de acontecimentos fizeram da política brasileira um mar de lama jamais visto em tempos. Como a escrita é uma maneira de expor não apenas os pensamentos, mas também de externar todo o nojo que sentimos dessa pândega na qual Brasília se tornou. Ou até uma maneira de encontrar um remédio ou um alento para o horror do noticiário...

*

Os executivos da JBS – um dos maiores conglomerados do Brasil – fizeram um acordo de delação premiada denunciando Michel Temer, Aécio Neves (uma versão de Carlos Lacerda do século XXI) e Rodrigo Rocha Loures (deputado e homem de confiança do Presidente da República) por crimes de corrupção. A hecatombe era evidente: ninguém no universo político, nem por parte do GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) esperava por tamanha revelação dos bastidores do governo.
         A indignação de muitos brasileiros e do próprio GAFE, estupefato por ter recebido esta bomba inesperada em mãos, foi instantânea. O “digníssimo” Presidente da República negou a veracidade dos crimes, enquanto Aécio Neves viu, em questão de dias, seu mandato suspenso, sua irmã e seu primos atrás das grades. No entanto, os parcos resultados de que justiça seria feita e a promessa de que apelariam para a Suprema Corte nacional em busca de proteção era evidente. No final de junho, a chapa Dilma-Temer, acusada de abuso eleitoral (e com provas robustas de irregularidades) foi absolvida em um espetáculo de hipocrisia no Tribunal Superior Eleitoral; A família de Aécio Neves ficou livre da cadeia e o golpista-mor pode retomar o exercício de seu trabalho no Senado; Já Rocha Loures, mais conhecido como o “Deputado da Mala” foi libertado para cumprir seu cárcere em domicílio.
         Diante do que aí está, só há uma conclusão a ser feita: o crime compensa, principalmente se você tem bons contatos no Poder Judiciário! Detalhe sórdido: a maioria das pessoas não se indignam contra as provas robustas contra estes criminosas, mas estão prontas para entrar em pé de guerra com quem quer que seja quanto o assunto está relacionado às convicções de o Ex-Presidente Lula teria um apartamento no Guarujá que foi fruto de propina...


*

         Enquanto o Governo Federal tenta de tudo para se manter impune às tempestades, São Paulo e Rio de Janeiro, as duas principais cidades do país, padecem nas mãos de seus governos locais. Em uma única noite, Sampa teve o esfacelamento de um de seus maiores eventos culturais: a Virada Cultural, foi descentralizada e levada para pontos remotos da cidade, gerando uma quantidade ínfima de público. Enquanto isso, uma das ações policiais mais desastrosas atuou na Cracolândia e fez com que aquele enorme centro de consumo de drogas a céu aberto fosse fragmentado e expandido para outros pontos da cidade. Enquanto a Marcha para Jesus levou milhares de fiéis acendiam uma vela para Deus e outra para o Diabo, ao pedirem a proteção de Michel Temer e suas reformas, a Parada do Orgulho LGBT carregou outros milhares pedindo por direito e por respeito.
         A Cidade Maravilhosa, por sua vez, padece nas mãos de um Prefeito saído da bancada evangélica do Congresso Nacional. Dentre os casos de nepotismo e de favorecimento às instituições evangélicas (quem precisa de financiamento para um filme sobre o Bispo Edir Macedo, gente?!), Marcelo Crivella anunciou cortes no financiamento público do Carnaval do Rio de Janeiro, para desespero da Liga das Escolas de Samba, que apoiou o ex-Senador em sua campanha eleitoral. A decisão foi tomada com a desculpa da necessidade de um “corte de gastos” quando, na verdade, há uma revisão de prioridades da Prefeitura do Rio: investir no marketing pessoal do chefe do Poder Executivo local em prol das “manifestações do demônio”. A consequência direta é o provável cancelamento dos Desfiles da Sapucaí em 2018.
         Diante do que aí está, só há uma pergunta a ser feita: valeu mesmo a pena para o eleitorado das duas maiores cidades do Brasil eleger políticos que não dizem políticos? Ter raposas em peles de cordeiro fazendo tudo do bom e do melhor para o empresariado e para as oligarquias religiosas como protesto aos candidatos do PT na chefia do executivo local é o preço pelo qual todos nós teremos de pagar?

*


         Por fim, a declaração mais estapafúrdia do digníssimo Presidente nestes últimos tempos foi a de que desconhecia os desígnios de Deus e não sabia como tinha ido parar na cadeira mais importante da nação brasileira. Apesar da piada pronta e do mundo inteiro saber que Temer só foi parar onde parou por causa da eficiência de um golpe parlamentar, creio que, se Nosso Senhor possui misericórdia do povo brasileiro, ele não permitiria que fôssemos castigados com tanta desfaçatez diante dos crimes políticos cometidos aqui. Ou os desígnios de Deus são tortos demais para nossa vã inteligência ou o demônio finalmente chegou ao comando dos rumos desta triste nação para dar cabo do “grande acordo nacional”...


28 de junho de 2017

TROVA # 126

O SAMBA BONITINHO E ORDINÁRIO DE MALLU MAGALHÃES


Maria Luiza de Arruda Botelho Pereira de Magalhães, nome de peso, de presença, daqueles de dar dificuldade na hora de assinar um RG. Um belo nome. O nome de batismo da sobrinha que nunca tive e provavelmente nunca virei a ter. Nome típico daquelas ricaças paulistanas quatrocentonas, que não precisam fazer esforço para viver bem. No entanto, esta filha de uma boa família decidiu por se aventurar pela música e adotou o nome artístico de “Mallu Magalhães”.
Quando a bonitinha Mallu (com dois “L” mesmo!) iniciou suas aventuras no universo musical, foi um sucesso com a molecada: cantava uma musiquinha de acordo com os seus pares – jovial, descompromissada, sem conteúdo complexo. Fator de inovação: a mocinha se lançou pela Internet, algo ainda incomum entre os artistas brasileiros na época. Ponto a favor: recebeu um incentivo de milhões de um Papai travestido de fada madrinha disposto a investir na carreira musical da fedelha.


Eu me lembro de ter visto/ouvido a enfant terrible nos tempos em que a MTV Brasil agonizava em praça pública e achei de uma enorme chatice. E senti que a Music Television não iria muito adiante ao eleger uma canção do nível de “Tchubaruba” como “revelação de 2008” e fazer tamanha concessão ao mercado. A televisão passou a ficar mais tempo em stand-by por causa da qualidade da música que não me agradava.


Mallu Magalhães voltou a chamar minha atenção na terceira semana de junho de 2017. Ao lançar um novo álbum, a moça estava em campanha promocional de seu disco nos programas de rádio, Internet e TV quando deu um piti homérico no programa diário da apresentadora Fátima Bernardes: a mocinha estava iniciando um dos números de seu repertório quando resolveu dedicar a canção para aqueles que diziam que “branco não pode cantar samba”. A reação dos internautas foi imediata – acusaram a jovem artista de “racismo reverso”, aquele que afirma que o branco é a principal vítima de ataques racistas da comunidade negra. Uma parcela da crítica musical simpática à moçoila saiu em defesa de Mallu em nome do velho discurso meritocrático reducionista e perverso, dizendo que não devemos criticá-la por causa de suas conquistas extraordinárias. A cereja do bolo dos defensores da Sra. Marcelo Camello é o suposto fato dela incomodar muita gente por ser supostamente talentosa e bem-sucedida. Taí uma prova de que o jabá continua a ter um peso enorme até entre os críticos que se declaram como “independentes”...
Vamos aos fatos: o samba é a maior expressão de um povo que foi afastado de sua terra, de seu continente para servir uma penca de homens brancos que eram detentores de dinheiro, maldade e poder. Cada batucada carrega a ancestralidade do sofrimento e da luta do povo negro que lutou por sua sobrevivência e pelos seus direitos em uma sociedade desigual. Todo artista brasileiro não-negro que entoou um samba tinha ou tem consciência desta questão: Noel Rosa, Vinícius de Moraes e Chico Buarque, por exemplo, sempre souberam que tamanha arte nunca se aprende no colégio; Nara Leão, Clara Nunes e Beth Carvalho sempre tiveram uma enorme reverência pelos povos negros; Maria Bethânia e Gal Costa, baianas de nascimento, possuem toda a autoridade para cantar o que existe de melhor lá na Bahia.









Por isso, vejo com enorme desprazer o piti de Mallu Magalhães, visto que o sempre foi uma realidade concreta. Acho difícil alguém da classe social e do histórico artístico de Mally ter noção do histórico de lutas e resistência que fizeram do samba um dos maiores estandartes de toda uma nação. Tratam-se de batucadas repletas de oportunismo, com tintas de puro modismo e uma enorme vontade de ser cult. É preciso muito arroz com feijoada para ter o estofo de uma Marisa Monte, Roberta Sá ou Maria Rita, que fazem batucada sem uma ponta de proselitismo.  



         Desejo que a bela Maria Luiza, bonitinha (mas ordinária!), possa ter aprendido com a lição de suas contemporâneas como Pitty e Anitta e entenda o seu lugar de fala como artista depois deste mico homérico e do linchamento virtual que ainda está sofrendo. Não porque eu a quero bem, mas principalmente porque eu tenho pavor de ter o sentimento amargo da vergonha alheia. Diante disto, sigamos com o bonde! Afinal de contas, temos muitas cantoras muito mais talentosas e que sabem fazer uma batucada de uma responsa sem fim...

19 de maio de 2017

RECESSO

Olá a todos,
Por motivos médicos, o blog Trovas de Vinil ficará fora do ar por algumas semanas.
Espero retornarmos em breve com novas crônicas musicais e novos textos sobre os discos que tanto amamos.
Saudações musicais do
VINIL