10 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 37

JONI MITCHELL – COURT AND SPARK (1974)


1969 foi o ano que colocou Joni Micthell no mapa da música do planeta ao gravar seu segundo disco solo, o minimalista Clouds. Dois anos depois, Blue dava à autora de “Both Sides, Now!” o reconhecimento perante a crítica especializada. Dois anos depois, a bela loura de cabelos longos era uma cantora e compositora famosa, aclamada e reconhecida pela crítica e, apesar de cult, não era absurdamente popular.
No decorrer de 1973, Joni Mitchell estava em busca de novos rumos para a sua música: cansada das amarras da Folk Music, decidiu buscar no Rock, no Jazz e no próprio Folk a gênese para o seu sexto projeto fonográfico. Decidiu ouvir músicos de Jazz de primeira linha – em uma noite foi ouvir o conjunto LA Express ao vivo e se encantou com a sonoridade do baterista John Guerin e seus companheiros de palco. Guerin, um purista do Jazz, chegou a torcer o nariz para Joni em um primeiro momento para logo reconhecer o talento indiscutível da mocinha, de quem se enamorou tempos depois.

John Guerin & Joni Mitchell

Em Janeiro de 1974, Joni lançou o disco mais importante de toda a sua obra: Court and Spark não só agradou a crítica, como também foi seu o disco mais vendido de toda a sua carreira e considerado um dos melhores álbuns daquele ano. “Help Me” e “Free Man in Paris” se tornaram em sucessos radiofônicos instantâneos. A mistura bem dosada de estilos musicais foi o grande fator que fez com que a obra de Joni Mitchell fosse de encontro com o grande público. Logo em seguida, a canadense saiu em turnê com os músicos do LA Express, o que resultou em Miles of Aisles, um belo registro da passagem da tour por Los Angeles.



No entanto, enganam-se aqueles que acreditaram que os versos de Joni se tornaram açucarados para conquistar o apreço da crítica e do público. Na verdade, sua poética de nunca estivera tão ácida e crítica como naqueles tempos. Na faixa-título, ao falar sobre o amor e à impossibilidade de escapar das tentações do mundo material (Los Angeles), dizia Joni: “His eyes were the color of the sand / And the sea / And the more he talked to me / The more he reached me / But I couldn’t let go of L.A. / City of the fallen angels”.


Em “Free Man in Paris”, ao criar um personagem-narrador baseado no executivo da indústria fonográfica David Geffen, Joni Mitchell filosofava, sarcasticamente: “The way I see it he said / You just can’t win it / Everybody’s in it for their own gain / You can’t please ’em all / There’s always somebody calling you down / I do my best / And I do good business / There’s a lot of people asking for my time / They’re trying to get ahead / They’re trying to be a good friend of mine”.


Por fim, em “Trouble Child”, Mitchell dispara, sem a menor dó: “Well some are going to knock you / And some’ll try to clock you / You know it’s really hard / To talk sense to you / Trouble child /Breaking like the waves at Malibu”. O universo que se desvela através de cada uma das 11 canções do disco (10 de autoria de Joni, 1 cover) é composto de um certo pessimismo, de certeira desilusão perante as pessoas e o mundo e de a única solução restante é rir diante dos problemas e das adversidades – o cover de “Twisted” e a interpretação esquizofrênica de Joni para a composição de Annie Ross, Dave Lambert e Jon Hendricks dá a impressão de que a única coisa que nos resta é dar uma boa risada diante do caos iminente. Afinal, é melhor optar pelo riso sarcástico e crítico do que pelo choro desesperado que não acrescentaria nada ao nosso sofrer…


O lendário grupo L.A. Express, que acompanhou Joni em sua turnê de 1974

Vale um parágrafo com uma menção honrosa para o time de músicos primorosos reunidos por Joni Mitchell neste disco: além do talento indiscutível de John Guerin à frente da bateria e da percussão, Tom Scott ficou responsável por todos os sopros, Wilton Felder tocou baixo, Larry Carlton ficou com a guitarra elétrica, Joe Sample tocou o piano elétrico em “Raised on Robbery”, David Crosby fez backing vocais em “Free Man in Paris” e “Down to You”, Graham Nash também fez os seus backing vocais em “Free Man in Paris”, os guitarristas Wayne Perkins e Robbie Robertson fizeram participações especiais em “Car on a Hill” e “Raised on Robbery” e a própria Joni Mitchell fez boa parte das vozes, tocou violão, piano e o clavinet da faixa “Down to You”, além de outros músicos. Além disto, Mitchell dividiu a produção do disco com o engenheiro de som Henry Lewy, seu parceiro em vários de seus projetos no decorrer da década de 1970.


Graças a Court and Spark, Joni Mitchell finalmente se tornou uma unanimidade de toda a crítica especializada e da maioria do público. Dentre os famosos que se tornaram fãs incondicionais de seu trabalho está o guitarrista Jimmy Page, que disse, certa vez, que se emocionava ao ouvir o trabalho de Joni. No entanto, a própria artista contou um fato interessantíssimo que resolvemos compartilhar por aqui: quando resolveu tocar o disco recém-finalizado para ninguém menos que Bob Dylan, o autor de “Like a Rolling Stone” literalmente caiu no sono durante a audição do álbum, o que deve ter deixado David Geffen enfurecido.



O velho ranheta Dylan não deve ter achado o álbum uma obra-prima, mas o apreço do público e da crítica pelo disco fizeram de Court and Spark um dos discos essenciais em qualquer coleção de discos em língua inglesa…


6 de agosto de 2017

TROVA # 131

A MELODIA FINAL DO NEGRO GATO

Em memória de Luiz Melodia (1951-2017)


"Eu fico com essa dor
Ou essa dor tem que morrer
A dor que nos ensina
E a vontade de não ter
Sofrer de mais que tudo
Nós precisamos aprender
Eu grito e me solto
Eu preciso aprender

Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo enganado ou enganando meu viver
Pois quando estou amando é parecido com sofrer
Eu morro de amores
Eu preciso aprender"
(Luiz Melodia, 1978)


Dias cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical brasileira no dia 4 de agosto de 2017. 




A primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso – "Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo, adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença. 


Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73

A intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato, do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a chance de gravar seu primeiro álbum.









As dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz, Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.








Em pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20 discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus projetos musicais. 






O eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver engano"...


3 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 36

CAETANO VELOSO – VELÔ (1984)


Dentre todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me toca é Velô, lançado pelo filho mais ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como nunca tinha sido até então. 

A sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo e foi o produtor de Velô (junto de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.

Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa

A primeira canção de Velô é uma das obras mais importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de "Caetanos".





Três canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit "Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi  o tema de abertura da novela global A Gata Comeu (1985), um dos maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete", retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô, que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e pelo sax de Signeri:


"Feras lutam dentro da noite-normal
Todos os insetos, os do belo e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim

Ela loura e negra, querubim e animal
Burra, sábia, deusa, mulher, menino e mandarim
Mas se ela não quis meu sorvete
Por que gravá-la em videocassete (...)"

Show Velô - Foto de Thereza Eugênia



"Grafitti", parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero, versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos quatro cantos do planeta.




Velô possui duas canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso –  pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com muita sobriedade e lucidez: 


"Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal"



A segunda canção de cunho filosófico de Velô é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:



"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde possa o chão, minha alma salta
E ganha a liberdade na amplidão (...)"

A última canção de Velô, o samba-rap "Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira: 

Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)

"Flor do lácio, sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?"



A canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.

30 de julho de 2017

TROVA # 130

O ARAUTO DA LIBERDADE
(OU A NECESSIDADE DE RESPEITARMOS NEY MATOGROSSO)


“Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia”
(Caetano Veloso, 1983)


1) Uma provocação

         Às vésperas de completar 76 anos de idade (em 1° de agosto de 2017) e 45 de carreira musical (se levarmos em conta a primeira apresentação ao vivo do Secos & Molhados, em dezembro de 1972), Ney Matogrosso recebeu uma belíssima homenagem durante o 28º Prêmio da Música Brasileira, organizado pelo empresário José Maurício Machline. Em uma série de entrevistas concedidas pelo artista para divulgar o evento, Ney concedeu uma série de entrevistas para os principais veículos da imprensa nacional, incluindo a Folha de S. Paulo, que fez a seguinte chamada para a matéria ficar bem nos moldes de um bom “caça-clique”: “’Que gay o caralho! Eu sou um ser humano’, diz Ney Matogrosso”.


         Quando li a tal chamada, levei um susto e fui ler a tal entrevista antes de tomar qualquer conclusão ou juízo de valor – objetivo principal de qualquer coisa que o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) possui em seus jornais físicos e virtuais. Em palavras um tanto descuidadas, Ney Matogrosso respondeu se ele se considerou, em algum momento, representante de uma minoria dizendo o seguinte:

“Eu não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim: falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo, ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas, defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos aos guetos.
Me enquadrar como o “gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto de terceiro lugar”.



Ney Matogrosso foi hippie, isto é, vem da geração da contracultura: sempre rejeitou rótulos, limitações, imposições, qualquer coisa que cerceasse o seu desejo de ser livre. Nunca comprou nenhum peixe vendido pelo sistema apenas para agradar a sociedade. O que ele quis deixar muito claro em sua entrevista para a Folha de S. Paulo era justamente isso: a recusa em ser enquadrado sob qualquer rótulo, de forma que não fosse tachado ou limitado a uma ideia só ("cantor das minorias"). Infelizmente, nem todos entenderam assim... 


2) A revolta da turminha do lacre

Em primeiro lugar, vamos definir quem faz parte da turminha do lacre: são artistas LGBT surgidos na segunda metade da década de 2010 que não possuem a menor vergonha em desafiar padrões de gênero e tem feito bastante sucesso com as gerações mais jovens que saíram do armário. Adoram falar alto e ouvir pouco (ou quase nada!), acham Beyoncé e Elza Soares mulheres que “empoderam” (a palavrinha da moda!) seus pares e sempre curtem dar um pitaco em como devemos nos posicionar enquanto membros da causa cor de rosa.
Artistas como Liniker & Os Caramellows e a dupla As Bahias & A Cozinha Mineira são exponentes bastante talentosos dessa turma. Inspirados nas atitudes desse pessoal, a turminha em questão adora reverenciar o que é “lacre” (ou seja: tudo o que é ousado e que está, segundo Valesca Popozuda, “lacrando o cu das inimigas”). Se você diz ou faz algo que não é “lacrativo”, “fechativo” ou “bapho” (com “PH” mesmo!), você é digno de um “pisa menos”, de um “tombamento” e dizeres do tipo.
Eis a questão: quando a controvertida chamada para a entrevista de Ney chegou aos olhos de um dos exponentes dessa turma – um cantor em início de carreira cujo nome me recuso a citar não por questões de querer poupá-lo, mas porque qualquer menção ao nome do indivíduo é forma de publicidade indireta para o trabalho daquele ingrato –, a revolta de uma geração que lê mal, se posiciona mal e obcecada por “dar um close”, fez uma postagem arrasando com Ney Matogrosso em uma rede social. Disse o cidadão:

“É inconcebível ler a frase ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!). Vinda de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público”, comentou. (...) Um artista genial que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. (…) E em tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon”.

Diante da sucessão de enganos a respeito de Ney Matogrosso, é preciso deixar algumas coisas bastante claras:

a)  Apesar de sempre ter se recusado a fazer militância no sentido tradicional da coisa, Ney Matogrosso é um dos homens que mais batalharam pelo desenvolvimento da causa LGBT no Brasil: desafiou a ditadura e a censura durante os governos Médici e Geisel, seja à frente do lendário grupo Secos & Molhados ou em bem-sucedida carreira solo, ao quebrar padrões de gênero com coreografias e figurinos extravagantes, se maquiando e rebolando em pura demonstração de deboche, insubmissão e irreverência. Deixo para a turminha do lacre um trecho de uma entrevista para O GLOBO, na qual Ney deixa isso muito claro:

“O GLOBO: Quarenta anos depois dos Secos & Molhados, a gente chega a um momento da música brasileira em que os artistas não escondem sua sexualidade, e isso abriu uma discussão enorme sobre a questão de gênero. Você se reconhece no trabalho desses artistas?
NEY MATOGROSSO: Me reconhecer, não, porque eles são eles. Mas a verdade é que quem derrubou a porta fui eu. E o resto é consequência. Porém, não espero que ninguém fique batendo cabeça para mim. Não fiz nada além de atender à necessidade de me impor sobre uma mentalidade muito atrasada, muito estreita”;

b)  A carreira de Ney Matogrosso nunca se apoiou na causa LGBT. Pelo contrário: a causa LGBT sempre necessitou (e fez amplo uso!) do legado de Ney para poder se desenvolver no Brasil;
c)  Um artista que sempre se assumiu como homossexual e está há quase cinco anos dizendo que “Todo mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual” não é alguém que está desatento aos sinais de nosso tempo. O talento de Ney Matogrosso está longe de ser ou estar “cristalizado”: ele está há quase meia década percorrendo as casas de espetáculo do Brasil com o show Atento aos Sinais, um dos mais bem-sucedidos de sua carreira;



Ney Matogrosso no encerramento do Festival de Inverno de Bonito em 29/07/2017 - Foto: Rodrigo Motta

d)  Se artistas como Liniker e As Bahias conseguem “ botar a cara no sol” hoje em dia, elas deveriam agradecer a Ney Matogrosso por ter “dado a cara a tapa” há quase cinco décadas por fazer o que faz nos discos, nos palcos e nos programas de televisão. Não reconhecer isso não é simplesmente uma mera demonstração de petulância, é uma demonstração de burrice.

Show Destino de Aventureiro (1984)

3) As nuances do oportunismo

As redes sociais ferveram com a provocação de Ney e a revolta do integrante da “turminha do lacre”. Textos de opinião defendendo e enxovalhando Ney Matogrosso sem dó surgiram com uma avalanche. Infelizmente, o “embate” entre os defensores e os detratores de um dos maiores artistas da música brasileira deixou uma série de questões bastante caras:

a) A militância LGBT, infelizmente, precisa ser menos radical e sair do estratagema de que “todo bom gay é aquele que levanta bandeira” e não permitir que os haters determinem regras de como todos deveriam agir. Pelo conjunto da obra, Ney Matogrosso está acima de qualquer questão em relação à causa e muita gente ainda não entendeu isso;
b) O episódio serviu como uma luva para ajudar na divulgação do recente álbum do aspirante ao lugar insubstituível de Ney Matogrosso na música brasileira. Oportunismo barato e grotesco: se utilizar do nome de outra pessoa para criar polêmica com a justificativa de que faz muito pela causa LGBT é sinônimo de falta de ética, de canalhice. Comparar a declaração de Ney com uma suposta declaração de Madonna (“Mulher é o caralho!”) é demonstração de maniqueísmo, de falta de instrução.


Ney Matogrosso é o arauto da liberdade (diretamente ou não) de muitos integrantes da população LGBT no Brasil. Fez uso de um discurso libertário, ousado e irreverente para lutar por um pouco mais de igualdade. Dizer se é gay ou não, usar um rímel e delineador em um rosto com um bigode estilo “Freddie Mercury” é fazer muito pouco, quase nada para que um dia gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros adquiram direitos iguais. O intérprete de “Sangue Latino” não está observando atentamente os sinais de nosso tempo do alto de sua cobertura no Leblon: ele está em todos os cantos deste país cantando e dançando, longe do universo de um grupo reduzido de pessoas só sabem “evacuar regras para a vida alheia”.
Por isso e por muito mais que devemos agradecer ao Ney por tanto que ele fez pelos LGBTs, pelos amantes de música popular e pelo Brasil por estar fazendo o que faz com o mesmo primor de sempre. Muito obrigado por tudo, Ney! Eu sei que você não liga para essa gente careta e covarde. A partir de hoje, passarei a fazer o mesmo...
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