24 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 39

CAUBY PEIXOTO – CAUBY INTERPRETA ROBERTO (2009)


         A dupla Roberto & Erasmo é composta por dois dos compositores mais queridos da música de todo o Brasil: desde os anos 1960, são autores das canções mais amadas pelo público brasileiro em todos os tempos. Nara Leão e Maria Bethânia foram as primeiras intérpretes de peso do nicho da MPB que gravaram álbuns dedicados ao repertório gravado por Roberto Carlos. Nara fez uma releitura personalíssima do repertório do Rei. Bethânia, por sua vez, fez um álbum clássico, com direito a arranjos grandiloquentes de cordas e metais.



         Cauby interpreta Roberto, lançado por Cauby Peixoto no final de 2009, transita por estas duas tendências. Ao mesmo tempo que possui releituras nada convencionais do repertório de El Rey, há (bastante) espaço para arranjos de cordas, metais conduzidos por músicos competentíssimos – Hanilton Messias (piano e flauta), Ronaldo Rayol (violão e guitarra ), Eric Budney (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria) –, fazendo com que a voz de Cauby reverberasse com a intensidade de seu talento.



         A voz de Cauby Peixoto, apesar de não estar mais viçosa e com o mesmo brilho dos anos em que esteve no auge de sua carreira musical, ainda soava muito bem aos 78 anos de idade – ano em que gravou e lançou este disco. Senhor pleno de seu ofício, valorizou os tons graves em cada interpretação das canções de Roberto e Erasmo (de apelo extremamente popular) com enorme sutileza e elegância. “Proposta”, lançada por Roberto Carlos em 1973, abre o disco e atesta o talento e a vasta experiência de Cauby na arte da interpretação musical.


  “De Tanto Amor” (1971) recebeu uma releitura bastante “econômica”: sem arranjos de cordas ou metais e sem os vibratos e dós de peito tão característicos do intérprete de “Conceição”. A emoção da dor de versos como “Eu nada vou dizer, perdoa se eu chorar” está, justamente, no fato de ser entoada de maneira sincera e contida e Cauby o faz com uma precisão quase cirúrgica. É uma das melhores faixas de Cauby interpreta Roberto. Outra faixa na qual o talento de Cauby Peixoto se destaca foi para a releitura de “Olha” (1975), na qual o cantor é acompanhado apenas pelo piano de Keco Brandão. Sugestão do próprio Roberto Carlos para ser gravada por Cauby neste projeto, é outro momento de brilhantismo deste CD.


A terceira faixa do CD, “A Volta”, foi composta por Roberto e Erasmo para o repertório da dupla Os Vips em 1966 e gravada pelo Rei em seu disco de 2005, recebeu um arranjo sóbrio, bem ao estilo bossanovístico, algo não muito comum para Cauby. A quarta faixa do disco é “Sentado à Beira do Caminho”, gravada originalmente por Erasmo Carlos no final da década de 1960 e regravada pelo Tremendão ao lado de El Rey para o álbum Erasmo Carlos Convida... (1980). Levemente dramática e com arranjo de cordas, é a única canção não incluída nas tracklists de álbuns de Roberto. Certamente, uma das escolhas menos óbvias do repertório gravado por Cauby neste disco.


As demais canções escolhidas para Cauby interpreta Roberto são clássicos absolutos na voz de Roberto Carlos. A sexy e lasciva “Os Seus Botões” (1976) recebeu um belo arranjo de sax tenor de Ubaldo Versolato; “Música Suave” (1978), gravada originalmente com uma big band, ganhou contornos jazzísticos, típicos de uma gafieira elegante embalados pela interpretação sutil de Cauby; “Desabafo” (1979) se tornou em um tango argentino elegantíssimo, com um arranjo de cordas contundente de Cintia Zanco; “As Flores do Jardim da Nossa Casa” (1969), “À Distância” (1972) e “Não Se Esqueça de Mim” (1977), como não poderia ser diferente, ganharam releituras românticas, com violinos, cellos e violas para acentuar o trabalho competente da banda e da voz belíssima de Cauby Peixoto.


O encerramento de Cauby interpreta Roberto se dá com uma das canções mais emblemáticas do repertório de Roberto Carlos: “O Show Já Terminou” (1973) poderia ser uma marca tão registrada de Cauby (“O show já terminou / vamos voltar à realidade / Não precisamos mais / usar aquela maquiagem”) quanto “Bastidores” – composta por Chico para a voz de sua irmã, Cristina Buarque – sempre o foi. A produção sóbria de Thiago Marques Luiz faz justiça às canções da dupla mais românticas do Brasil e ao talento de uma das vozes mais belas que o mundo já conheceu: a de Cauby Peixoto.




Cauby interpreta Roberto merece ser ouvido e (re)descoberto por ouvintes e estudiosos da música brasileira. É um álbum que jamais sairá dos autofalantes daqui de casa, muito menos de minha memória afetiva. Uma pena que o show deste trabalho nunca gerou um DVD para que um registro audiovisual atestasse a prova de que Cauby Peixoto era um artista extraordinário... 


20 de agosto de 2017

TROVA # 133

MÊS DO GOSTO E DO DESGOSTO
(amando e odiando o mês de agosto)



“Esse papo já tá qualquer coisa
Você já tá pra lá de Marrakesh
Mexe qualquer coisa dentro, doida
Já qualquer coisa, doida, dentro mexe
Não se avexe não, baião de dois
Deixe de manha, 'xe de manha, pois
Sem essa aranha, sem essa aranha, sem essa aranha!
Nem a sanha arranha o carro
Nem o sarro arranha a Espanha
Meça: tamanha!
Meça: tamanha!
Esse papo seu já tá de manhã!

Berro pelo aterro
Pelo desterro
Berro por seu berro
Pelo seu erro
Quero que você ganhe
Que você me apanhe
Sou o seu bezerro gritando mamãe!
Esse papo meu tá qualquer coisa
E você tá pra lá de Teerã!”
(Caetano Veloso, 1975)



Dizem que o mês de agosto é o mais interminável de todo ano. Mês do cachorro louco, de início de semestre em escolas de idiomas (universo do qual eu faço parte há mais de 10 anos), com ausência de feriados, do retorno às aulas. Temporada de cansaço acumulado, de angústias rebocadas e de algumas esperanças pelo caminho. 31 dias que, aparentemente, nunca chegam ao fim.


É no decorrer deste mês que ilustres leoninos e virginianos comemoram os dias dos seus anos. Caetano Veloso, Madonna, Elba Ramalho e Ney Matogrosso fazem aniversário em agosto. Estes quatro artistas sempre estiveram presentes nos meus ouvidos e nos momentos mais marcantes na existência destas retinas ainda não muito fatigadas. Em 2017, por outro lado, vieram me lembrar que Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, não está mais entre nós há exatos 30 anos. Há três décadas que a poesia no Brasil não pode contar com o seu maior poeta para tentar entender esta enorme contradição chamada "sentimento do mundo". O que o Poeta de Itabira teria a nos dizer nos dias de hoje?


A partir de agosto deste ano, descobri que ainda há espaço para desafios na minha vida profissional: iniciei meus trabalhos como Professor da Rede Pública na Cidade de São Paulo, depois de 16 anos de vida profissional e de 13 com registro em carteira. Ser um docente de crianças e adolescentes no ensino público é muito mais do que um mero professional challenge: é trabalhar com uma quantidade limitada de recursos com um público extremamente carente de tudo o que se possa imaginar. É preciso rever expectativas, revisitar conceitos, deixar outros preconceitos de lado, ter a corrente sanguínea de uma barata. Lições de ouro já valiosamente aprendidas no oitavo mês do ano de 2017.


Os noticiários internacionais nos mostraram que o ódio racial não é apenas uma constante na Alemanha de Hitler ou na França segregacionista de Le Pen. Li e assistir com imenso horror as notícias e protestos de ódio racial ocorridos em Charlottesville, EUA. A ideologia rota e imunda da "supremacia branca" tão bem defendida (e aplicada por nazistas e fascistas) em pleno século XXI com o aval do Presidente Trump é um dos maiores sintomas do retrocesso mundial que o terceiro milênio tem vivenciado nos últimos meses. Tenho em comum o mesmo desejo que o Cazuza: "eu queria ter uma bomba, um flirt paralisante qualquer" para poder fazer com que a justiça dos homens valesse alguma coisa...



Como diria o velho (e sábio) Caetano Veloso: "uma canção me consola". No nosso caso: várias canções nos consolam e tive a prova disso em dois shows incríveis que pude assistir. O primeiro deles, Trinca de Ases, contou com um Valete, a Dama Sofisticada de nossa música e o Rei Buda Nagô máquina de mil e um ritmos brasileiros. Gilberto Gil, Nando Reis e Gal Costa fizeram da minha noite de 5 de agosto repleta de som e da doce fúria dos Deuses da Música. Uma master class de ritmo, irmandade artística e de musicalidade em um país marcado por uma série de excessos.



O segundo show também não deveu em nada em relação ao anterior. Depois de décadas apurando meus olhos e ouvidos musicais, tomei coragem para sair em uma noite de sábado chuvosa e feia como um cão para assistir a uma apresentação ao vivo de Zé Ramalho em Santo André. Em quase duas horas, Mestre Ramalho cantou a fina flor de seu repertório para uma multidão de admiradores de seu indefectível trabalho. Enquanto Zé cantava clássicos como "Avôhai", "Admirável Gado Novo", "Banquete de Signos" e "Chão de Giz", não deixava de me perguntar o porquê de nunca ter assistido a um show seu antes. Ainda bem que o mês de agosto nos trouxe oportunidades musicais de ver a vida com mais poesia...




Enquanto o mês de agosto de 2017 não chega ao fim, temos mais 11 dias pela frente. Até lá, teremos que conviver com mais um dos desmandos do governo golpista que decidiu reduzir em 10 reais o reajuste do salário mínimo e esperar ansiosamente o lançamento de Caravanas, 23º álbum de estúdio de Chico Buarque. Não tenho do que reclamar do oitavo mês do ano até aqui. Na verdade, tenho muito mais para agradecer. Apesar do mês que parece nunca ter fim...


17 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 38

MARISA MONTE – MM (1989)


         Marisa de Azevedo Monte era uma menina graciosa de 21 anos quando desistiu de ser cantora lírica em Roma para se aventurar pelos territórios da música popular. A infância e a adolescência sempre foram marcadas pela música: seu pai, o engenheiro Carlos Saboia Monte foi um dos diretores da Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro. Além disso, Marisa estudou piano, canto e bateria. Aos 12 anos, participou de uma montagem de Rocky Horror Show dirigida por Miguel Falabella.
         Ao retornar de Roma para a Cidade Maravilhosa, Marisa Monte procurou o produtor e compositor Nelson Motta para montar o seu primeiro espetáculo solo. O repertório escolhido pelos dois era bastante abrangente – de Mutantes a Carmen Miranda, passando por Peninha, Luiz Gonzaga, Kurt Weill, Candeia e Waldick Soriano. A turnê, batizada de Veludo Azul, fez com que Marisa cantasse por várias cidades do Brasil durante o ano de 1988, com direito a aparição na mídia da época e o respeito da crítica. Inclassificável, os meios de comunicação a tacharam como uma artista “eclética”, por ter dificuldade em assimilar a diversidade que sempre foi a marca do trabalho da filha de Carlos e Sylvia Monte.


         Os convites das gravadoras para a realização do disco de estreia não faltaram. Depois de várias propostas rejeitadas, Marisa Monte decidiu assinar com a EMI. Com exceção de uma faixa, MM foi gravado ao vivo durante uma apresentação ao vivo em maio de 1988, sem retoques ou recursos de retoques na voz. Uma medida bastante incomum em termos de marketing estratégico de lançamentos de novos artistas, diga-se de passagem.


      MM é composto de 12 canções – 11 regravações e uma adaptação de um sucesso italiano para o português: Nelson Motta adaptou a letra de “E Po' Che Fa”, do italiano Pino Daniele, para o português. “Bem Que Se Quis” se tornou o primeiro sucesso de Marisa Monte e foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras do ano de 1989 e foi tema da personagem de Lúcia Veríssimo na novela O Salvador da Pátria, da TV Globo. A faixa de abertura é uma versão pungente de “Comida”, de Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Marcelo Frommer, uma das canções mais emblemáticas do repertório dos Titãs. Do universo do Rock nacional, Marisa regravou “Ando Meio Desligado”, de Rita Lee e dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista, um dos números mais importantes do repertório dos Mutantes.


         A terceira faixa do disco é uma regravação de “Chocolate”, uma das canções mais interessantes do repertório de Tim Maia, por quem Marisa Monte sempre considerou como uma de suas principais influências. O jingle de Tim, uma declaração de amor a um dos doces mais adorados pelos seres humanos, foi uma oportunidade e tanto para que Marisa fizesse um protesto a favor da liberação das drogas através dos versos, inclusos por ela:

“Não quero pó
Não quero rapé
Não quero cocaína
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
(Legalize marijuana!)
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber”


         Do mundo do samba, Marisa Monte resgatou três clássicos do gênero: “Preciso Me Encontrar”, uma das criações mais célebres de Candeia, foi um enorme sucesso na voz de Cartola. “Lenda das Sereias, Rainha do Mar” foi um dos temas de samba-enredo mais populares da história do Carnaval carioca. Por fim, “South American Way” (Al Dublin & Jimmy McHugh) é um dos números mais significativos do repertório que fez de Carmen Miranda uma das maiores lendas do showbiz internacional.
         O trunfo principal de MM é a diversidade de ritmos (Rock, Soul, Samba...). A regravação do Forró “O Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em ritmo de Reggae e a versão espetacular de “Negro Gato” (Getúlio Côrtes) em uma levada Blues com pitadas de Samba evidenciam o quanto Marisa Monte é uma cantora versátil, ousada e marcante. Já as três faixas finais do disco são releituras de clássicos da canção em língua inglesa: “I Heard It Through The Grapevine” (Barrett Strong & Norman Whitfield), um dos números mais importantes do repertório de Marvin Gaye; “Bess, You Is My Woman Now”, um dos números mais belos da ária Porgy & Bess, dos irmãos Gershwin, contou com a participação especial do grupo Nouvelle Cuisine; “Speak Low” (Kurt Weill & Ogden Nash), a única faixa gravada em estúdio, é uma homenagem ao estilo de cantar de João Gilberto.


         O disco de estreia de Marisa Monte é o retrato fiel do talento de uma das artistas mais talentosas da música brasileira. Um trabalho que merece ser reouvido para que sempre possamos nos lembrar da beleza do canto de uma das sereias mais belas do Brasil...   


13 de agosto de 2017

TROVA # 132

A CANTILENA DOS MORALISTAS


“Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho, a te abraçar

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti”
(Chico Buarque & Cristóvão Bastos, 2017)


A partir da década de 1990, Chico Buarque começou a dividir suas atenções entre a música e a literatura. Enquanto o ambiente literário ganhou obras ficcionais de fôlego como Estorvo (1991), Leite Derramado (2009) e O Irmão Alemão (2014), o ambiente musical nacional passou a sentir falta do filho mais ilustre do historiador Sérgio Buarque de Hollanda. Por isso, toda vez que Chico anuncia um novo disco, há uma comoção generalizada: os fãs mais ferrenhos se ouriçam, a grande mídia se assanha e os detratores separam as armas para atirar pedras em um dos alvos preferidos dos reacionários nestes últimos 50 anos.


 Fiquei bastante tocado com a primeira pista do que Mestre Buarque tinha aprontado para Caravanas, seu 23.º álbum de estúdio: “Tua Cantiga”, parceria com Cristóvão Bastos, é um lundu repleto de versos no qual um homem não mede esforços, nem escrúpulos para fazer tudo o que for preciso para estar ao lado da mulher amada. Uma canção romântica, com inspiração em Shakespeare, com o lirismo de Vinícius de Moraes e o cinismo típico das obras de Nelson Rodrigues.


A grande doença intelectual dos tempos sórdidos e líquidos que vivemos consiste na falta de leitura, de profundidade de pensamento provocados por noções toscas de interpretação de texto de uma parcela gigantesca das pessoas. O Brasil, em tempos de crise política, social e econômica, não é diferente. E por quais motivos não hesito em afirmar tudo isto: pela polêmica infeliz que os radicais de esquerda criaram com “Tua Cantiga”, acusando Chico de machista. Mais um capítulo chato da série “A Cantilena dos Moralistas”.
É com imenso choque que presencio posts assinados por algumas mulheres vociferando que Chico é um monstro justamente por causa do verso da canção que diz que o sujeito lírico não pensaria em “largar mulher e filhos” para correr atrás da mulher amada. As mesmas mulheres que, meses antes, devem ter ido ao cinema suspirar loucamente e pagar pau para o mesmo Chico Buarque em um documentário de Miguel Faria Jr. como se o monstro de olhos azuis fosse uma espécie de Justin Bieber da terceira idade? As mesmas pessoas que devem ter assistido ao filme Vinícius, do mesmo Faria Jr., e ter se encantado com os nove casamentos do Poetinha?


Não é a primeira vez que acusam o mesmo Chico Buarque de machista. Na época em que lançou Meus Caros Amigos (1976), alguns grupos feministas encontraram uma postura sexista em “Mulheres de Atenas” (parceria de Chico com Augusto Boal), pois as “Helenas” da canção não condiziam com a figura da mulher liberta do sutiã, dos dogmas sexuais e dos homens que a reprimiram séculos e séculos afora. Pura falta de interpretação de texto e de conhecimento de noções básicas de história. A justificativa das críticas à canção de Caravanas (2017) é o fato de que este tipo de amor não representa mais as mulheres do século XXI. Afinal, a leitura de nomes clássicos como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir sempre vai bem, viu?


Ora, é importante irmos aos fatos: Chico Buarque não está preocupado em fazer com que as pessoas se sintam representadas em suas canções. Este moralismo torto, típico das esquerdas mais radicais, gosta de problematizar tudo e mais um pouco não abriria o bico se o fato do marido largar “mulher e filhos” estivesse em um romance de Jorge Amado ou em uma das novelas da Rede Globo. Desde que o mundo é mundo, o adultério sempre existiu. O mesmo deve se dizer em relação a famílias desfeitas e grupos familiares chefiados pela figura da mãe ou avó, por exemplo. Todavia, a patrulha de tudo e de todos insiste em nos dizer como devemos agir ou não... Já que o assunto “Chico Buarque” é algo que sempre tem um retorno garantido, se falarmos mal, a quantidade de likes e clicks aumentaria em escala exponencial.


Já nos diz o velho e certeiro ditado, livremente adaptado por este que vos escreve: “Pau que bate em Chico, também bate no Seu Francisco”. Como ele não está nem um pouco interessado no que os tribunais das redes sociais têm a dizer sobre ele, só nos resta dar sonoras gargalhadas e ouvir incessantemente a bela cantiga de Mestre Buarque enquanto ele não aporta pelos palcos do Brasil que ele tanto cantou em forma de canção...

Chico Buarque e o baixista Jorge Helder durante as gravações do álbum Caravanas (2017)
LINKS:


10 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 37

JONI MITCHELL – COURT AND SPARK (1974)


1969 foi o ano que colocou Joni Micthell no mapa da música do planeta ao gravar seu segundo disco solo, o minimalista Clouds. Dois anos depois, Blue dava à autora de “Both Sides, Now!” o reconhecimento perante a crítica especializada. Dois anos depois, a bela loura de cabelos longos era uma cantora e compositora famosa, aclamada e reconhecida pela crítica e, apesar de cult, não era absurdamente popular.
No decorrer de 1973, Joni Mitchell estava em busca de novos rumos para a sua música: cansada das amarras da Folk Music, decidiu buscar no Rock, no Jazz e no próprio Folk a gênese para o seu sexto projeto fonográfico. Decidiu ouvir músicos de Jazz de primeira linha – em uma noite foi ouvir o conjunto LA Express ao vivo e se encantou com a sonoridade do baterista John Guerin e seus companheiros de palco. Guerin, um purista do Jazz, chegou a torcer o nariz para Joni em um primeiro momento para logo reconhecer o talento indiscutível da mocinha, de quem se enamorou tempos depois.

John Guerin & Joni Mitchell

Em Janeiro de 1974, Joni lançou o disco mais importante de toda a sua obra: Court and Spark não só agradou a crítica, como também foi seu o disco mais vendido de toda a sua carreira e considerado um dos melhores álbuns daquele ano. “Help Me” e “Free Man in Paris” se tornaram em sucessos radiofônicos instantâneos. A mistura bem dosada de estilos musicais foi o grande fator que fez com que a obra de Joni Mitchell fosse de encontro com o grande público. Logo em seguida, a canadense saiu em turnê com os músicos do LA Express, o que resultou em Miles of Aisles, um belo registro da passagem da tour por Los Angeles.



No entanto, enganam-se aqueles que acreditaram que os versos de Joni se tornaram açucarados para conquistar o apreço da crítica e do público. Na verdade, sua poética de nunca estivera tão ácida e crítica como naqueles tempos. Na faixa-título, ao falar sobre o amor e à impossibilidade de escapar das tentações do mundo material (Los Angeles), dizia Joni: “His eyes were the color of the sand / And the sea / And the more he talked to me / The more he reached me / But I couldn’t let go of L.A. / City of the fallen angels”.


Em “Free Man in Paris”, ao criar um personagem-narrador baseado no executivo da indústria fonográfica David Geffen, Joni Mitchell filosofava, sarcasticamente: “The way I see it he said / You just can’t win it / Everybody’s in it for their own gain / You can’t please ’em all / There’s always somebody calling you down / I do my best / And I do good business / There’s a lot of people asking for my time / They’re trying to get ahead / They’re trying to be a good friend of mine”.


Por fim, em “Trouble Child”, Mitchell dispara, sem a menor dó: “Well some are going to knock you / And some’ll try to clock you / You know it’s really hard / To talk sense to you / Trouble child /Breaking like the waves at Malibu”. O universo que se desvela através de cada uma das 11 canções do disco (10 de autoria de Joni, 1 cover) é composto de um certo pessimismo, de certeira desilusão perante as pessoas e o mundo e de a única solução restante é rir diante dos problemas e das adversidades – o cover de “Twisted” e a interpretação esquizofrênica de Joni para a composição de Annie Ross, Dave Lambert e Jon Hendricks dá a impressão de que a única coisa que nos resta é dar uma boa risada diante do caos iminente. Afinal, é melhor optar pelo riso sarcástico e crítico do que pelo choro desesperado que não acrescentaria nada ao nosso sofrer…


O lendário grupo L.A. Express, que acompanhou Joni em sua turnê de 1974

Vale um parágrafo com uma menção honrosa para o time de músicos primorosos reunidos por Joni Mitchell neste disco: além do talento indiscutível de John Guerin à frente da bateria e da percussão, Tom Scott ficou responsável por todos os sopros, Wilton Felder tocou baixo, Larry Carlton ficou com a guitarra elétrica, Joe Sample tocou o piano elétrico em “Raised on Robbery”, David Crosby fez backing vocais em “Free Man in Paris” e “Down to You”, Graham Nash também fez os seus backing vocais em “Free Man in Paris”, os guitarristas Wayne Perkins e Robbie Robertson fizeram participações especiais em “Car on a Hill” e “Raised on Robbery” e a própria Joni Mitchell fez boa parte das vozes, tocou violão, piano e o clavinet da faixa “Down to You”, além de outros músicos. Além disto, Mitchell dividiu a produção do disco com o engenheiro de som Henry Lewy, seu parceiro em vários de seus projetos no decorrer da década de 1970.


Graças a Court and Spark, Joni Mitchell finalmente se tornou uma unanimidade de toda a crítica especializada e da maioria do público. Dentre os famosos que se tornaram fãs incondicionais de seu trabalho está o guitarrista Jimmy Page, que disse, certa vez, que se emocionava ao ouvir o trabalho de Joni. No entanto, a própria artista contou um fato interessantíssimo que resolvemos compartilhar por aqui: quando resolveu tocar o disco recém-finalizado para ninguém menos que Bob Dylan, o autor de “Like a Rolling Stone” literalmente caiu no sono durante a audição do álbum, o que deve ter deixado David Geffen enfurecido.



O velho ranheta Dylan não deve ter achado o álbum uma obra-prima, mas o apreço do público e da crítica pelo disco fizeram de Court and Spark um dos discos essenciais em qualquer coleção de discos em língua inglesa…