10 de setembro de 2017

TROVA # 136

ROGÉRIA:

DOS HOLOFOTES PARA AS ESTRELAS





Em memória de Rogéria (1943-2017)

“Em cima de Astolfo Barroso Pinto, a Rogeria é uma performance de uma atriz. Porque eu não penso que sou mulher. Por vezes, num devaneio, posso até pensar, mas caio em mim e tenho aquela consciência de que eu sou um ator gay que se veste de mulher porque tem talento para representar e simpatia e educação para com os outros (...)”
(Rogéria, 2016)



Sempre começamos uma semana com feriado prolongado com uma alegria sem fim: três dias úteis de trabalho, um feriado e uma ponte de feriado para incrementar o intervalo que vai da segunda a sexta é um alento para nós, trabalhadores exaustos da labuta implacável do ano letivo. No entanto, a euforia da espera pelo 7 de setembro se dissipou tristemente com a partida inesperada de Rogéria, a travesti da família brasileira, em 4 de setembro de 2017.

Elke Maravilha & Astolfo Barroso Pinto, que gostava de ser chamado de "Seu Rogéria".

Rogéria ocupava, para mim, o mesmo patamar que Elke Maravilha: ela é um tipo de ser humano extraordinário, que irradiava alegria, irreverência e elegância. Não deveria morrer jamais ou deveria envelhecer até os 100 anos ou mais para que o máximo de pessoas lhe conhecessem. Pioneira em um momento no qual o Brasil não estava sequer preparado para compreender a mínima noção de diversidade, Astolfo Barroso Pinto deixou o físico masculino de lado para viver sua feminilidade com toda a sua coragem e plenitude.

 


O preconceito que sofreu no início de sua trajetória, surpreendentemente, não veio da família (sua mãe foi de uma sensibilidade e de um apoio incomuns para uma mãe de transgênero naquela época): a repressão policial por ser travesti foi respondida à altura – na base da porrada, com muito sopapo e tapa na cara de meganha safado ou qualquer autor de bullying disposto a cercear a liberdade sexual dos outros. E fazia questão de deixar claro que era uma "bicha felicérrima" e que queria conquistar todas as faixas de público - das senhorinhas aos mais jovens – dispostos a alguns minutos de alegria e glamour.


Além de ser uma atriz excelente (chegou a fazer uma avó em uma telenovela, inclusive!) e uma showwoman espetacular, Rogéria tinha uma voz e uma afinação ótimas. Choro de rir até hoje ao rever sua participação especial como a irmã de Copélia (Arlette Salles) em um dos episódios da primeira temporada de Toma Lá, Dá Cá. Cantava os clássicos da música francesa e canções de musicais e cabarés com um toque camp muito peculiar, sem deixar de mostrar sua elegância e requinte em cada nota. Ela não deveria ter se restringido apenas aos shows de boates e tinha que ter gravado um disco com a fina flor do repertório dos seus shows.


Ouvir Dalida, Carmen Miranda ou Piaf na voz de Rogéria era um deleite para qualquer pessoa que adorasse música. Numa esquecida ocasião, fui ouvir um CD de Lana Bittencourt e levei um susto ao ver que a diva passional convidou Rogéria para um dueto em "Haja o que Houver", um samba-canção de Fernando César e Nazareno de Brito adorada pela comunidade LGBT. Surpreendentemente, as duas não só deram conta do recado, como protagonizaram um dos melhores momentos daquele disco.





Em uma noite de insônia, não me esqueço de estar zapeando pela TV e cair de paraquedas no Programa do Jô. Para meu deleite, vejo Rogéria à frente do sexteto de Jô Soares com um vestido longo e cabelos soltos como uma mistura de Marilyn Monroe e Rita Rayworth cantando "Ronda", um dos maiores clássicos da dor de corno da história de toda a música brasileira. Com o seu humor peculiar, a personagem criada por Astolfo Barroso Pinto interpretou os de Vanzolini da seguinte maneira: "Ah, se eu tivesse / Quem bem me quisesse / Esse alguém me diria / Desista, bicha louca: essa busca é inútil / E eu não desistia". O público explodia em emoção e gargalhadas para aplaudir a travesti da família brasileira de pé enquanto eu, estarrecido, voltava para a cama com o prazer de ter sido mordido pelo mosquito da insônia.




Quando fui assistir o documentário Divinas Divas, de Leandra Leal, na tela grande, fiquei apaixonado pelas histórias e pelas figuras de Jane di Castro, Divina Valéria, Brigitte de Búzios, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujikka de Halliday e Marquesa. No entanto, Rogéria era de todas a que eu admirava. Não só pela personalidade e pela trajetória, mas pelo fato de que ela era a única que fez parte da minha infância: nunca mais me esqueci daquela cena antológica da novela Tieta, na qual Ninette, exausta do assédio de Aminthas (personagem de Roberto Bonfim), dá um soco em seu algoz e revela que seu nome verdadeiro é Waldemar. Depois daquele soco, a minha infância deixou de ter a mesma inocência de antes: crianças de oito anos criadas por famílias tradicionais jamais sonhariam com a existência de travestis no mundo encantado das novelas de televisão. Ponto para Aguinaldo Silva por ter criado esta personagem antológica para tornar a trama original de Jorge Amado ainda mais explosiva.




Estava assistindo os capítulos da reprise de Tieta com a expectativa de ver a aparição esfuziante de Ninette por Santana do Agreste. Afinal, a novela de Aguinaldo Silva não se permitiu oxidar pelo passar do tempo: não apenas porque a qualidade do trabalho da teledramaturgia é excelente, mas principalmente porque a mentalidade do brasileiro comum não mudou tanto assim. A população brasileira tinha a obrigação de assistir novamente aquela antológica cena em que a personagem de Betty Faria dá uma aula de preconceito e diversidade sexual para o personagem de Cássio Gabus Mendes, diante do retrocesso nosso de cada dia e de tempos nos quais tudo e mais um pouco deve ser politicamente correto. Em tempos de tanta patrulha ideológica, muitos não deveriam entender o brilho de estrelas como Rogéria. É por isso, e por muitas coisas mais, que ela sempre foi e será muito necessária para a humanidade. Quando as ladies que estrelaram Divinas Divas cantavam e choravam "La Vie en Rose" em cima de seu caixão, cantei e chorei junto: afinal, Rogéria fazia parte da minha família de estrelas musicais a habitar o meu imaginário...




Dizer que Rogéria era uma estrela é simplesmente muito pouco. Rogéria brilhava como uma constelação inteira: era muito mais macho que muito macho que conta bravata por aí; era muito mais fêmea do que muita fêmea fazendo selfies e mostrando a bunda por aí só para revoltar as inimigas. Sua alegria de viver é a maior lição que recebemos para que façamos algo bem melhor de nós mesmos. Sem ressentimentos, sem mágoas, com coragem, com brilho e com toda a irreverência que nos cabe. A partir do mês de setembro, Astolfo Barroso Pinto deixa de brilhar sob as luzes de holofotes para ocupar o seu lugar junto de outras estrelas a nos iluminar por aí...




7 de setembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 41

CHICO BUARQUE – CARAVANAS (2017)




         O vocábulo caravana é originado do árabe e significa comboio de viajantes, peregrinos ou mercadores dispostos a percorrer grandes distâncias. Isto posto, cabe deixar claro que o mote utilizado por Chico Buarque para batizar o seu 23° álbum de estúdio é bastante peculiar: as nove canções de Caravanas fazem referência direta ou indiretamente a alguma espécie de viagem, seja esta literal ou simbólica.


         Caravanas é composto por nove canções: duas já gravadas por Chico Buarque em projetos alheios e sete inéditas. As referências musicais e literárias utilizadas por Chico para compor as novidades de seu repertório são bem distintas: “Tua Cantiga”, faixa de abertura do álbum e escolhida como o primeiro single do disco, é uma parceria do autor de “Meu Caro Amigo” com o pianista Cristóvão Bastos – com quem compôs e gravou “Todo Sentimento”, em 1987. A melodia de Cristóvão foi levemente inspirada em uma obra de Bach e nos velhos lundus que eram compostos na virada do século XIX para o início do século XX. Alvo de polêmicas devido ao verso “Largo mulher e filhos”, os versos da canção expõem um sujeito poético romântico, disposto a se aventurar por sua musa adorada.



         A segunda faixa do CD, “Blues pra Bia”, é outra caravana amorosa: o eu-lírico forjado por Chico compôs uma canção para outra musa: uma figura inacessível graças ao fato de se enamorar por... mulheres! Chico trata da homossexualidade de Bia sutil e delicadamente, algo impensável em termos de música brasileira décadas atrás – “(...) no coração de Bia / Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Para ela me enamorar”; uma novidade temática para um compositor acusado recentemente de machista e de não estar sintonizado com os tempos atuais.



         “A Moça do Sonho”, parceria de Chico com Edu Lobo, foi composta para a trilha sonora da peça Cambaio, cuja primeira montagem foi dirigida por João e Adriana e Falcão em 2001. Gravada por Maria Bethânia para seu álbum Maricotinha (2001), nunca tinha recebido a voz de Chico. A canção versa sobre uma figura feminina que habita os devaneios mais selvagens do sujeito poético. Uma caravana poética em busca do desejo: “Há de haver algum lugar / Um confuso casarão / Onde os sonhos serão reais / E a vida não / Por ali reinaria meu bem / Com seus risos, seus ais, sua tez / E uma cama onde à noite / Sonhasse comigo / Talvez”. “Jogo de Bola”, a quarta faixa de Caravanas, é mais uma das canções de Chico Buarque sobre uma de suas maiores paixões: o futebol! Falar sobre os prazeres surgidos das coisas mais simples da vida em tempos nos quais a indelicadeza se tornou uma constante no que diz respeito às relações humanas: “Salve o futebol, salve a filosofia / De botequim, salve o jogar bonito / O não ganhar no grito a simpatia / Quase amor / Da guria que antes do apito final / Vai sem aviso embora”.


Dois Chicos: o Buarque e o Brown

         Chico Buarque decidiu fazer conexões com as gerações mais jovens em seu 23° álbum de estúdio. A valsa “Massarandupió” é uma parceria de Mestre Buarque com o neto Chico Brown (filho de Helena Buarque com o músico Carlinhos Brown). Os versos do avô versando sobre o neto, que brincava nas areias da praia de Massarandupió quando menino foram o mote para uma das faixas mais belas de Caravanas. Já a conexão do autor de “Construção” com a neta Clara se deu com a regravação de uma das obras mais belas do cancioneiro buarqueano: “Dueto” foi gravada pela primeira vez para o álbum Com Açúcar, Com Afeto (1980), de Nara Leão e recebeu uma regravação, brejeira e com menções ao amor que existe nas mídias sociais.


Chico ao lado de sua neta Clara Buarque

         “Casualmente”, é uma parceria de Chico Buarque com o baixista Jorge Helder que tinha sido originalmente idealizada para a voz de Omara Portuondo, uma das maiores vozes de Cuba. Na impossibilidade da estrela principal de Buena Vista Social Club gravar a canção em questão, Chico decidiu retomar os trabalhos de composição para o repertório de Caravanas. A caravana em questão faz uma viagem sentimental à Cuba de tempos românticos, que jamais se materializarão novamente: “Não voltará nunca mais / A canção sentimental / Que casualmente em Havana escutei cantar / Uma mulher / Como já não verei / Outra vez nada igual”. Já a oitava faixa do disco, “Desaforos”, é um plácido recado aos tribunais das redes sociais, sempre dispostos a julgar e condenar qualquer um prestes a desafiar as convenções, o senso comum ou o “coro dos contentes”. O recado de Chico é sutil, porém certeiro e claro: “Alguém me disse / Que tu não me queres / E que até proferes desaforos pro meu lado / Fico admirado por incomodar-te assim / Jamais pensei / Que pensasses em mim”. Parece que, depois desta gravação, os detratores da Família Buarque terão muita artilharia para dedicar ao “mulato que [apenas] toca boleros”, petista e que viveria às custas dos incentivos da Lei Rouanet em um suntuoso apartamento em Paris.


Chico ao lado do baixista Jorge Helder,  seu parceiro musical em "Casualmente"

         A última canção do disco, “As Caravanas”, é uma crônica feroz da classe média carioca em um de seus momentos de maior pânico: a chegada de integrantes das comunidades “negras e imundas” nas praias “alvas e límpidas” da Zona Sul carioca em caravanas infindáveis. A alucinação gerada pela luz forte do sol é apenas um pretexto para justificar a sanha violenta de brancos dispostos a fazer uso dos dispositivos mais covardes para se sentir minimamente protegida ou uma fonte de alucinação de quem ouve vozes de negros escravizados em caravelas, reprimidos em transportes públicos sucateados que os levam para o idílio das praias do Leme ou de Copacabana.


         “As Caravanas” é uma das canções mais políticas do repertório de Chico Buarque, pois relata o sentimento mais torpe e medíocre da classe média brasileira a partir de um viés histórico, que muitos de nós acabamos por esquecer. Os versos de Chico ganharam um tom ainda mais forte graças aos arranjos de cordas de Luiz Cláudio Ramos e a participação de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho, fazendo beat box. É o fechamento de um dos melhores álbuns de Chico em mais de 20 anos.

Chico ao lado de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho


         Apesar de seus brevíssimos 28 minutos, Caravanas é um álbum que merece ser ouvido por ouvintes de todas as gerações para reconhecer o talento indiscutível de Chico Buarque como um dos maiores tradutores da nação brasileira em matéria de canção.


3 de setembro de 2017

TROVA # 135

UMA BONECA DE NATALIE MERCHANT

Natalie, 1995

“Blue like the winter snow in the full moon
Black like the silhouettes of the trees
Late blooming flowers lie frozen underneath the stars
I want you to remember me that way

Far away... I'll be gone, will you wait for me here
How long... I don't know, will you wait for me here

Still as the river grows in December
Silent and perfect blinding ice
Spring keeps her promises
No cold can keep her back
I want you to remember me that way

Far away... I'll be gone, will you wait for me here
How long... I don't know, but wait for me here
Follow... don't follow me
To where
To where I go

Far away... I'll be gone, will you wait for me here
How long... I don't know, will you wait for me here
Follow... don't follow me, to where I have gone
Follow... don't follow me, to where I have gone
Someday you'll take my place
And I'll wait
For you there”
(Natalie Merchant, 1998)

 
        
         Meninas que gostam de exercer seu instinto maternal veem nas bonecas o seu exercício mais perfeito. Pessoas em busca de um parceiro sexual encontram nas criaturas infláveis uma possibilidade e tanto para o prazer momentâneo. Apesar de gostar de presentear as meninas da família com os brinquedos que elas mais desejam, sempre fico com um pouco de frio na barriga ao olhar para algumas delas.

Uma boneca de Buenos Aires - Foto: Nilton Serra (2011)

Nunca fui fã de bonecas. Nem quando era criança e adorava meus brinquedos. Exceto as miniaturas de super-heróis e coisas do tipo, sempre achei réplicas de seres humanos algo meio assustador, mórbido até. A ponto de ter calafrios e pesadelos ao entrar dentro do Mercado de San Telmo, Buenos Aires, ao ver uma boneca de porcelana antiga de porcelana nas vitrines. A terra de Maradona e Evita quase se transformou em um filme de terror por alguns minutos se não fosse a minha capacidade de sair correndo dos lugares em situações de medo.


          No português do Brasil, boneca é sinônimo de menina ou mulher bonita, de travesti ou homossexual afeminado. A perversidade da língua me dava mais alguns motivos e tanto para odiar o objeto e o vocábulo. Todavia, o fato de eu ser chamado de “Tio Vini” com o passar dos anos e o meu amor pela música fizeram com que eu revisse meus conceitos.

*

         Tenho alguns discos que são tão íntimos, mas tão íntimos que literalmente passaram a fazer parte da minha vida. Minha relação com Ophelia (1998), o segundo álbum solo de Natalie Merchant, se tornou bastante intensa e me acompanha desde o final dos meus 17 anos de idade. Não apenas pelo talento comovente de Natalie para a música, mas pelo fato de ser um trabalho que versa sobre loucura, tristeza, abandono, morte e gratidão de uma maneira completamente anticonvencional de acordo com os padrões da música popular dos Estados Unidos.
         Dentre as faixas mais famosas de Ophelia, “Kind & Generous”, “Break Your Heart” e “Life is Sweet” se tornaram obrigatórias nas apresentações ao vivo de Natalie Merchant. Lados B como “My Skin” e “Thick as Thieves” não só se tornaram duas das favoritas do público, como também atestam que a canção popular pode ser tão complexa ou intrigante quanto qualquer poema publicado em um livro por aí... No entanto, a canção mais enigmática e sombria do álbum é “Frozen Charlotte”, faixa pontuada por um solo de guitarra lancinante de Don Peris e dos vocais de apoio de Karen Peris, do grupo Innocence Mission.


         “Frozen Charlotte” (ou Frozen Charlies, devido ao seu corte de cabelo Joãozinho) era como se chamava uma boneca de porcelana da era vitoriana consumida nos EUA entre a segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. A origem do nome se deve a um poema da época, que conta a história de uma menina chamada em Charlotte que se recusava a se agasalhar para sair para um passeio de trenó. Diante da sua imprudência, a menina congelou até a morte durante o passeio. A doce bonequinha seria uma natureza morta para ser consumida pelo público infantil.


         A canção de Natalie Merchant, até onde me parece, versa sobre um único tema: morte. Por isso, o desejo que todo ser vivo com o mínimo de ego possui é poder ser lembrado para a posteridade, deixar um legado ou uma boa lembrança nas memórias das pessoas que amou. No caso dos versos de “Frozen Charlotte”, o gelo possui um poder gigantesco de destruição ou, por ser sinal do inverno, é sinal de que um ciclo de vida possa estar chegando ao fim.


         Os versos sugerem uma conversa entre duas pessoas – uma mais velha e uma mais jovem (mãe e filha?). Enquanto a criança pede para seguir os passos inevitáveis da outra em direção ao abismo inevitável que todos nós teremos que seguir, a outra suplica para que a infante prossiga seu caminho e deixe a vida tomar o seu curso natural para que um dia as duas possam se encontrar no estágio seguinte do fim da existência de cada um.

*

Em 2017, graças a iniciativa da gravadora Nonesuch, uma das poucas empresas que ainda valorizam a arte musical nos EUA, Natalie Merchant reeditou sua discografia e alguns extras. Dentre o material bônus, Natalie gravou uma nova versão de “Frozen Charlotte” com um belíssimo arranjo de quinteto de cordas. A gravação original, que nunca tinha chamado tanto a minha atenção, passou a me dizer algo em matéria de emoção graças à sua segunda versão.  



Através de obra musical extraordinária, Natalie me ensinou que bonecas podem nos falar muito mais sobre a vida do que as vãs filosofias de vitrines de brinquedos podem nos ensinar... 


31 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 40

PATTI SMITH – HORSES (1975)


“Jesus died for somebody’s sins, but not mine.”
(Patti Smith, 1975)

Na primeira metade da década de 1970, Patricia Lee Smith era uma jovem de 20 e poucos anos que morava em Nova York e já tinha feito um pouco de tudo: posou nua para fotógrafos, atuou em uma peça de teatro, iniciou amizades e teve relacionamentos amorosos com o ator, roteirista e dramaturgo Sam Shepard e com Allen Lanier (tecladista do Blue Öyster Cult). Além disso, viveu e amou intensamente seu melhor amigo, o aspirante a artista plástico e (posteriormente) fotógrafo renomado Robert Mapplethorpe em lugares dos mais remotos da Big Apple – dentre estes, o lendário Chelsea Hotel, que já abrigou ilustres como Bob Dylan, Tom Waits, Janis Joplin, Leonard Cohen, Iggy Pop e Arthur C. Clarke. Enquanto não estava envolvida nas criações artísticas ao lado de Mapplethorpe, Patti escrevia poemas e críticas de música para as revistas Creem e Rolling Stone e ainda tinha acesso ao círculo restrito de “contatos” de Andy Warhol.

Patti ao lado de Robert Mapplethorpe

Patti Smith acreditava que seria revelada para o universo através da poesia ou via artes plásticas. No entanto, quando recebeu um convite para recitar seus poemas em público ao lado do guitarrista Lenny Kaye, viu que poderia escrever ser uma estrela do Rock sem deixar de fazer poesia. O duo Smith-Kaye logo se tornou um trio com a chegada do pianista e tecladista Richard Sohl, o que automaticamente trouxe uma delicadeza para a aspereza do som e fúria que Patti e Lenny geravam em cena. Pouco depois, vieram o baterista Jay Dee Daugherty e o baixista Ivan Kral para completar o grupo. Em pouco tempo, estes jovens eram tão requisitados pelas pessoas que iriam ao CBGB quanto os Ramones, os Talking Heads e o Blondie.

Patti ao lado de Sam Shepard

O sucesso de Patti Smith na cena novaiorquina fez com que o executivo Clive Davis prestasse mais atenção naquele som e contratasse aquela jovem de 28 anos petulante e repleta de cara de pau para gravar um disco em meados de 1975. Para a produção do disco, foi recrutado o cantor, compositor e ex-membro do Velvet Underground John Cale. Apesar de ter recebido críticas excelentes, a produção de Horses foi turbulenta, com desentendimentos constantes entre Patti e Cale. Era notável que o produtor e a artista eram representantes de duas forças completamente antagônicas, tais quais Vênus e Marte ou Apolo e Dionísio, o que não interferiu no fato do debut album de Patti Smith ser considerado sua obra-prima até hoje.

Patti ao lado de Bob Dylan

A imagem de capa do disco, clicada por Robert Mapplethorpe, merece um parágrafo à parte, por mostrar uma cantora que foge a todos os padrões de feminilidade e beleza: o cenário era o apartamento de cobertura de Sam Wagstaff, companheiro de Robert, no Greenwich Village, número 1 da Fifth Avenue, com Patti Smith vestindo uma camisa social branca com o paletó pendurado no ombro esquerdo, como uma versão punk e lésbica de Frank Sinatra. Por ser uma imagem tão autêntica e tão intensa no que diz respeito à integridade artística que Patti sempre ambicionou e o jogo de luz e sombras em preto e branco que Mapplethorpe sempre realizou enquanto fotógrafo, a capa de Horses tornou-se uma das mais emblemáticas de toda a história da música recente. A intelectual Camille Paglia declarou certa vez que aquela foto é uma das melhores imagens jamais feitas de uma mulher. No entanto, Patti escreveu em seu primeiro livro de memórias, Só Garotos, que a foto é fruto do amor dela e de Robert pela arte: “Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois”.





Horses possui apenas oito faixas e uma bonus track (uma releitura veloz e furiosa de “My Generation”, do The Who), que foi incorporada a uma reedição em CD a partir de 1996. No entanto, cada uma destas faixas revela não apenas a fúria, o lirismo e a imensa ousadia de Patti Smith, como também evidencia o talento indiscutível de Lenny Kaye, Richard Sohl, Jay Dee Daugherty e Ivan Kral como músicos. A faixa de abertura, o medley “Gloria” juntava trechos do poema “In Excelsis Deo”, de Patti com uma releitura frenética da canção de mesmo nome composta e gravada por Van Morrison e pelo The Doors anos antes. A faixa seria apenas mais uma canção de rock entoada por uma mulher se Smith não tivesse cantado literalmente que “Jesus died for somebody’s sins, but not mine” (Jesus morreu pelos pecados dos outros, mas não pelos meus). Na medida em que a voz deixa de sussurrar ao som do piano de Sohl para se tornar em gritos e berros do desejo uma vez escrito por Morrison, Patti retorna ao trecho mais controverso de seu poema e não deixava dúvidas de que veio para o mundo do Rock para fazer muito barulho e confusão.

Patti no colo de Clive Davis

O disco segue com “Redondo Beach”, um misto de Rock e Reggae baseado em um poema escrito por Patti Smith em 1971 e que foi musicado por Richard Sohl e Lenny Kaye anos depois. A canção narra uma briga de Patti com uma de suas irmãs mais novas, Linda, que, por sinal, jamais chegou a cumprir o destino trágico descrito pelos versos da older sister. Um fato interessante é que Morrissey chegou a gravar um cover inusitado deste clássico e que saiu no álbum Live at Earls Court (2005). Já “Kimberly” (Patti Smith, Allen Lanier & Ivan Kral), quinta faixa de Horses, é uma homenagem da cantora à sua irmã caçula e narra episódios ao som da batida sincopada de Jay Dee e da marcação do órgão Hammond B3 de Sohl.


Patti ao vivo em San Francisco - 1975

Uma das canções mais populares de Horses é a deliciosamente frenética “Free Money”, no qual Patti debocha descaradamente da importância do vil metal em meio aos delírios de uma sociedade pautada pelo consumo – e olha que ela já nos dizia isso desde os anos 1970. O que chega a ser mais surpreendente é que esta parceria de Smith e Lenny Kaye recebeu algumas releituras, inclusive uma feita por Sammy Hagar (segundo vocalista do Van Halen). O fato é que o espírito desta canção, por exemplo, fez de Patti Smith a madrinha do movimento Punk, amada por músicos das mais distintas tribos. Outro exemplo deste frenesi que era característico da música que se produzia em Nova York em meados dos anos 1970 é o insano medley “Land” (sétima faixa do disco), dividido em três partes: o poema “Horses” (Patti Smith), uma releitura de “Land of a Thousand Dances” (Chris Kenner & Fats Domino) e o poema “La Mer(de)” (Patti Smith). Os “puristas” do movimento debochavam dos versos smithianos, claramente influenciados por Jim Morrison, Bob Dylan e (principalmente!) Arthur Rimbaud; porém, o fato é que poucos tinham a competência de desconstruir uma artista de envergadura tão incomum – afinal de contas, Patti Smith conseguia ser mais agressiva do que Morrison, Hendrix e Dylan juntos…




“Birdland”, a terceira faixa do disco, tem uma influência mais jazzística graças ao dedilhar do piano de Richard Sohl. Enquanto a improvisação corria solta pelos Electric Lady Studios, Patti tentava evocar o espírito de Jimi Hendrix e se inspirava nas memórias de Wilhelm Reich escritas por seu filho Peter para atingir o grau máximo da sensibilidade. Já “Break it Up”, um dos momentos mais emocionantes de Horses, é uma parceria de Patti Smith com o guitarrista Tom Verlaine (Television). A inspiração para esta canção surgiu de um sonho da autora de Só Garotos com Jim Morrison – neste episódio, o eterno vocalista do The Doors aparece com asas angelicais, mas preso em um umbral de mármore que o impedia de voar. O pedido de Jim era simplesmente de que a moça saísse de seu estado de letargia e quebrasse o mármore para que, enfim, o cantor de “Light My Fire” pudesse seguir sua jornada rumo à eternidade: “Snow started falling / I could hear the angel calling / We rolled on the ground, he stretched out his wings / The boy flew away and he started to sing / He sang, “Break it up, oh, I don’t understand / Break it up, I can’t comprehend / Break it up, oh, I want to feel you / Break it up, don’t look at me”.


A faixa que encerra Horses, “Elegie”, é uma singela homenagem feita por Patti Smith e Allen Lanier para aqueles que já partiram desta vida. O mais interessante é que a canção se tornou um número cada vez mais emocionante na medida em que ele é tocado ao vivo e mostra Patti em meio a lamentos de dor e saudade para que, ao final, ela recite os nomes daqueles que nos deixam saudades. Em uma edição especial comemorativa de 30 anos de seu disco de estreia, que contém uma gravação de um show gravado em Londres, os nomes de Jimi Hendrix, Jim Morrison, Robert Mapplethorpe, Todd Smith (irmão da cantora) e Fred “Sonic” Smith (líder do MC-5 e marido da madrinha do Punk) e Richard Sohl (falecido aos 37 anos por um ataque do coração, em 1990) foram lembrados. Já na última noite de apresentações do lendário clube CBGB, Patti Smith fez questão de relembrar de todos os mitos do Punk Rock que já não estavam mais entre nós naquela fatídica noite de 2006 – os acordes de “Elegie” foram exatamente os últimos que ecoaram pelas paredes imundas do templo do Punk nova-iorquino antes de Hilly Kristal fechar as portas. Torna-se impossível não se emocionar com as perdas de Smith, visto que elas são perdas musicais que repercutem em cada um de nós…



Horses chegou aos 40 anos de idade no dia 13 de dezembro de 2015, com direito a uma turnê comemorativa de aniversário. Queria ter sido uma mosquinha para ter assistido e ver que Patti Smith poderia até ter envelhecido um pouquinho, mas sua música continua ousada e agressiva como sempre foi no decorrer destas últimas quatro décadas. Enquanto vou juntando dinheiro ou me conformando com frustração de ficar por estas bandas mesmo, o jeito é celebrar o legado atemporal deste disco maravilhoso…