25 de outubro de 2020

TROVA # 152

 

ONDE ESTÁ O DINHEIRO?

Diante dos recentes escândalos de corrupção no Brasil, é melhor não saber a resposta...

 


Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Eu vou procurar e hei de encontrar

E com o dinheiro na mão

Eu compro um vagão

Eu compro a nação

Eu compro até seu coração

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

No norte não está

No sul estará

Tem gente que sabe e não diz

Está tudo por um triz

E aí está o "X"

E não se pode ser feliz

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Eu vou procurar e hei de encontrar

E com o dinheiro na mão

Eu compro um vagão

Eu compro a nação

Eu compro até seu coração

(José Maria de Abreu, Francisco Mattoso & Paulo Barbosa na voz de Gal Costa, 1984)

 


No Brasil, como sabemos muito bem, honestidade nunca é regra: ela é exceção! Quando nos referimos à política deste país então, ela se transforma em um verdadeiro mito. Os exemplos de corrupção entre nossos governantes, infelizmente, são dos mais variados e das mais diversas tendências políticas – líderes de esquerda, muito menos de direita jamais podem se gabar de serem defensores de uma trajetória imune de escândalos.

No entanto, quem acompanha o noticiário de política no Brasil em 2020 não pode reclamar de que ele é tedioso. Em tempos de pandemia então, os níveis de revolta atingem níveis cada vez mais altos por meio de novidades que nenhum roteirista de séries sobre o assunto pode imaginar. Mesmo assim, pessoas que nunca tiveram seu nome associado a inquéritos policiais envolvendo dinheiro público ainda se chocam com a desfaçatez de quem deveria estar trabalhando pelo povo.

A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 comprovou algo que Nelson Rodrigues detectou com uma exatidão cirúrgica: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. O autor de Vestido de Noiva se referia ao século XX, que nos ofertou duas guerras mundiais e duas ditaduras para o Brasil. Se ele estivesse vivo em 2020, ele continuaria afirmando isso e muito mais, em estado de choque cada vez maior com o nível de imbecilidade de muitos brasileiros. 



Desde 2013, a polarização política que dividiu o país em campos opostos institucionalizou de vez a mentira como fato verídico, a moralidade cristã como máscara para os corruptos e o cinismo da mídia e do mercado financeiro como regra de praxe. Passamos a lidar com as Fake News, um nome mais bonitinho para as lorotas deslavadas que os políticos sempre atiraram pelos quatro ventos para continuar desfrutando das benesses do poder público. Reparem bem: quem fala de honestidade geralmente são os cidadãos mais desonestos! As pessoas que nunca tiveram nada a temer diante da justiça não precisam ficar berrando a sua honestidade em praça pública como duas vizinhas trocando confidências em um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro.

O “excelentíssimo” Presidente da República, um sub-Trump, uma imitação tosca do Presidente dos Estados Unidos (complexo de vira-lata?), adora se gabar em praça pública de que é honesto e de que não existe corrupção no seu governo. Todavia, até seus fãs mais entusiasmados sabem que Bolsonaro tem muito que explicar: além de inquéritos nos quais é investigado, o chefe maior da Nação possui três filhos envolvidos em investigações criminais, uma esposa que recebeu R$ 89 mil de um ex-assessor parlamentar, ex-mulheres envolvidas em transações financeiras suspeitíssimas, alguns Ministros de Estado acusados de crimes ambientais e de corrupção etc etc etc. Um grupo de gente que prega a honestidade em praça pública, cansando a paciência e a inteligência do contribuinte brasileiro e que sempre está a mercê do próximo escândalo.

Em 14 de outubro de 2020, tivemos mais um exemplo a ser lembrado como um dos mais significativos dessa era. O senador Chico Rodrigues (DEM-RR), um dos vice-líderes do Governo no Senado, foi flagrado com dinheiro desviado dentro de sua cueca. A imagem em si não traz necessariamente nenhuma novidade para os que se lembram de casos célebres de corrupção (quem se lembra de um assessor parlamentar de um Deputado do PT que foi flagrado com maços de dinheiro no meio das partes?), porém a novidade era que o Senador de Roraima guardava consigo uma vasta quantia na parte de trás da cueca. O constrangimento do vice-líder do Governo (que empregava um dos sobrinhos do Presidente da República em seu gabinete como assessor parlamentar) poderia ter se restringido ao pedido de que tirasse a bufunfa de onde não deveria estar, mas a vergonha ficou ainda maior ao se constatar que algumas cédulas estavam sujas das fezes do elemento. Uma imagem bem difícil de esquecer!




Chico Rodrigues, um canalha que não possui o menor parentesco com o nosso dramaturgo maior (deixemos isso bem claro!), foi afastado preventivamente pelo Ministro Luís Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal por 90 dias com a justificativa de que o senador não utilizasse o seu poder político para interferir nas investigações policiais. Enquanto o Senado se faz de rogado, foi preciso que uma decisão monocrática do STF garantisse o mínimo de tranquilidade para o processo. O Presidente da República fez questão de dizer que o referido senador não tinha nada a ver com o seu governo.

Lembrei de outra máxima de Nelson Rodrigues que cai como uma luva diante da barbárie que passamos a viver desde meados dos anos 2010: “Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.” Muitos de nós assistimos o Brasil se tornar cada vez mais autoritário com uma mudez gerada pelo estado de choque, perplexos com tanta baixaria. Diante dos recentes escândalos de corrupção no Brasil, é melhor não saber onde o dinheiro da corrupção está pelo motivo de que precisamos evitar pesadelos para que possamos dormir um pouco melhor.

Porém, é impossível ficar mudo diante da hipocrisia que tem se servido das declarações cínicas do Presidente da República. Os memes e as charges sobre o assunto retrataram o atual escândalo com perfeição. Os humoristas e os cronistas tiveram um riquíssimo material para suas colunas nos jornais. A população insatisfeita com tanta sujeira e impossibilitada de protestar publicamente para evitar aglomerações segue cada vez mais irada diante de tanto absurdo.

Se eu fosse o Presidente, iria rezar para que a tal vacina demore o máximo que puder, pois a primeira oportunidade que os opositores tiverem de ir para as ruas protestar contra tudo será muito bem-aproveitada. Enquanto isso não acontece, seguimos na espera, com nossa insatisfação cozinhando dentro de uma panela de pressão prestes a explodir...

19 de outubro de 2020

TROVA # 151

 

LEMBRANÇAS REGADAS A CAFEÍNA

A lição mais significativa em quase 40 anos de idade é a seguinte: seja bastante seletivo em relação a QUEM devemos convidar para tomar um café conosco. 

I had some dreams

They were clouds in my coffee…

(Carly Simon, 1972)

 

A planta mágica e milagrosa que conhecemos nos dias de hoje como CAFÉ surgiu há muitos anos atrás em Cafa e Enária, regiões da Etiópia. Tempos depois, a especiaria começou a ser cultivada no Iêmen, região do Oeste da Arábia com os nomes de “Kaweh”, “Kahwah” ou “Cahue” – os três com o mesmo significado: VINHO.

Da Antiguidade até o Século XXI, o café está para nós na mesma proporção que os longos cabelos estavam para Sansão. Atualmente, existem locais nos quais podemos degusta-lo dos modos mais diversos, com preços dos mais variados e das qualidades mais questionáveis também. Diante do que está posto, o fato é indiscutível: entre as nuvens mais espessas da memória, muitas das minhas lembranças foram regadas a doses generosas de café.


Patti Smith - New York, 2015 


Quando conheço experiências de outras pessoas pela vida afora que também foram regadas a café, surge em mim uma pontinha de identificação quase instantânea: Chico Buarque declarou que não consegue trabalhar em projeto nenhum sem cafeína por perto; Patti Smith escreveu um belo livro em 2015 no qual ela conta um pouco de suas andanças e leituras por vários lugares ao redor do mundo, nos brindando com passagens por cafeterias e polaroides de Nova York, Tóquio, Rockaway Beach, Tanger e até pela Guiana Francesa.


Carly Simon - Londres, 1972

De todos os episódios alheios dos famosos e cafés, o meu preferido ocorreu por volta de 1971. Pouco antes de se tornar reconhecida no mundo inteiro por causa do hit “You’re So Vain”, Carly Simon relatou em versos e sons a sua enorme frustração de um amor malsucedido por meio de uma visão surpreendente: seus sonhos de viver a plenitude do sentimento amoroso foram tão consistentes quanto uma imagem passageira de nuvens que estavam refletidas sob o café que estava tomando em uma viagem de avião. Tempos depois, a própria Carly confessou que o insight foi fornecido a ela por um de seus companheiros de banda na época, o pianista Billy Mernit, que pediu para que ela prestasse mais atenção naquela montagem quase absurda e ela entendeu que os sonhos amorosos que ela vivia eram tão consistentes quanto às nuvens que a “visitaram”.



   Minhas primeiras memórias da vida adulta regadas a café remontam a meados dos anos 2000. Naquela época, recém-instalado em São Paulo, minha amiga Ana Paula Raulickis resolveu criar um blog com o sugestivo nome de Caféina. Em cada dia da semana, uma pessoa escrevia um texto sob um pseudônimo e divulgava seus escritos pela Internet afora. Em silenciosa homenagem a Carly Simon, escolhi o codinome Mr. Simon para as minhas poucas postagens do finado blog – tempos depois, a página do Facebook tornou-se o veículo oficial das promoções do Cafeína, além de veículo de divulgação do meu Blog e dos eventos relacionados às noites de lançamento do meu primeiro livro e, evidentemente, de inúmeras declarações de amor ao café capitaneadas incansavelmente pela Ana. De qualquer maneira, foi graças ao Cafeína que eu criei coragem para investir na escrita, sem medo de certos julgamentos por parte dos outros.

O logo da página do Cafeína no Facebook

Antes de me aventurar pela escrita de vez, precisei abraçar uma profissão “oficial”, pois se existem instituições que sempre vencem a batalha do capital elas são os boletos de pagamento. Dar conta de jornadas de trabalho que se estendiam pelos três turnos e com pouco tempo de intervalo entre aulas e reuniões só era possível graças a generosas doses de café. Quando trabalhava com aulas particulares, tinha a vantagem de ter como local de trabalho o café Starbucks ou a Cristallo do Shopping Center 3, no coração da Avenida Paulista. Não foi uma vez ou duas que eu (estabanado profissional que sempre fui) derrubei doses inteiras do líquido mágico das arábias no meu ambiente de trabalho sem chegar a queimar ou sujar nenhum dos meus alunos.

Por outro lado, a cozinha da escola onde trabalho hoje em dia se transformou em um ponto de encontro de alguns colegas de trabalho sempre dispostos a fazer “terapia de grupo”. Falando em situações terapêuticas em grupo, outra prática excelente à qual eu passei a me dedicar com três ex-companheiras de trabalho (e que se tornaram amigas muito queridas) uma ou duas vezes ao ano era marcar encontros que duravam tardes a fio. Quando achamos o local ideal para as nossas sessões de “Badmouthing Café”, o já saudoso Coffeetown Tatuapé (administrado por uma ex-aluna minha muito querida e fechado de vez por culpa da pandemia do coronavírus), não haveria limites para a nossa diversão, generosamente regada a cafés e pedaços de bolo Red Velvet. Momentos como esses, guardados carinhosamente na memória dos meus poucos afetos, nos fazem acreditar que viver vale (muito) a pena.


(É muito importante abrir parênteses para fazer uma diferenciação entre os tipos de pessoas com as quais nos sentamos em mesas de bar e em mesas de café. No momento do porre, qualquer um que estiver por perto serve para afogarmos nossas mágoas em copos de cerveja e/ou caipirinha. O mesmo não se aplica aos seres humanos com quem dividimos o prazer pela cafeína, pois confidências das mais íntimas são trocadas entre um macchiatto e um espresso – se as intimidades vazarem na mesa de um bar o culpado deve ser o álcool, jamais a cafeína. Eu me lembro claramente do sabor dos drinks servidos no Café do Ponto da Rua Augusta: bebidas inesquecíveis ao lado de pessoas que fiz questão de esquecer para todo o sempre. Por isso, a lição mais significativa que os meus quase 40 anos de idade me deram em matéria de amizades foi ser bastante seletivo em relação a QUEM devemos convidar para tomar um café conosco.)

Uma imagem da exposição Cápsula do Tempo: Identidade e Ruptura no Vestir de Ney Matogrosso

Mas, por outro lado, é sempre fundamental resgatarmos algumas memórias repletas do amor e do carinho que só os nossos amigos, irmãos que escolhemos e que nos escolhem para a vida toda. Jamais me esqueci de uma tarde em Santo Amaro, extremo sul de São Paulo, na qual Rosana Barbosa e eu tomamos um generoso café na Kopenhagen depois de visitar a exposição Cápsula do Tempo: Identidade e Ruptura no Vestir de Ney Matogrosso, que reunia vários figurinos de palco de Ney em décadas de carreira pelos palcos do Brasil e do mundo. O achocolatado deles foi um verdadeiro prêmio para nós dois depois de horas de deslocamento de um lado para o outro da cidade.



Café Santo Grão - Foto: Nilton Serra

Outro evento inesquecível para nós aqui de casa foi quando nossos compadres Gabi e Luiz Medelo se deslocaram da Zona Oeste para a Zona Leste de São Paulo às 23h de um sábado para irmos juntos ao badalado Santo Grão, nos Jardins. Para exercitar o meu (desnecessário) pedantismo, decidi deixar o café de lado a princípio para pedir uma dose de Vinho do Porto e ficar bem esfuziante com a “ousadia”. A mesa inteira caiu na gargalhada diante de minha frustração ao descobrir o tamanho MINÚSCULO do cálice no qual a bebida foi servida. Ignorar uma dose de café dentro de um templo da cafeína soa quase como uma ofensa aos amantes do líquido mágico das arábias. Recolhida a revolta, pedi uma xícara de cappuccino e rumamos de volta à ZL para fechar a noite tomando Irish Coffee na antiga Cristallo do Tatuapé, engolida pelas crises econômicas dos anos 2010 e pelas recorrentes especulações imobiliárias.

Uma madrugada na cafeteria Cristallo, do Tatuapé - Foto: Nilton Serra


Uma lembrança que eu guardo com bastante carinho é da primeira da Maria, nossa afilhada. A partir de julho de 2014, foi fundamental que o ritmo de trabalho cada vez mais frenético e alucinante diminuísse para acompanhar o crescimento de uma menininha bastante esperada um pouco mais de perto, já que ela mora a mais de 100 km de distância de São Paulo. Em uma das nossas visitas a Campinas, meus compadres sempre nos ofereceram doses bem fortes de espresso naquelas canecas esmaltadas coloridinhas que alegram o visual de qualquer cozinha e de qualquer mesa de jantar. Maricota, no meu colo, não só ficava animada com as canequinhas, como também pediu a sua para “brincar” de tomar café com os Dindos. Ao me ver sorvendo meus goles do líquido milagroso das arábias, a pequerrucha passou a me imitar também, para total alegria de Tio Vini.

Em meio às incertezas constantes da possibilidade de vivermos a normalidade das cafeterias por causa de uma pandemia e da impossibilidade de abraçarmos quem a gente gosta, a única possiblidade de prazer gerado pela cafeína que me sobrou foi o café que eu tomava de tarde durante os capítulos de Brega & Chique no Canal Viva. Entre um gole e outro, muitas das minhas lembranças da vida antes do vírus retornam como cenas do filme da minha vida que parece um passado bastante longínquo.

Uma selfie durante o isolamento acompanhado de uma xícara de café... 


Porém, como a promessa de conversas íntimas, carinhos e afetos entre xícaras de café ainda é uma promessa dependente de uma vacina ou do bom senso das pessoas, o máximo a ser feito é ligar a câmera do celular para trocar confidências com quem te vê do outro lado da telinha ou reavivar um pequeno diário de lembranças regadas a cafeína...

8 de setembro de 2020

TROVA # 150

 

SETE DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?

Vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros?

              


 

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar

Livre para amar

Livre para amar

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Ir aonde quiser

Ir aonde quiser

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ser o que ele é

Ser o que ele é

(Gilberto Gil, 1976)

 

Estamos a dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200 anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.

Antigamente, a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas janelas abertas da Internet e dos meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?) condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.

Porém, é importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente, eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...

O atual Governo Federal, eleito na base das fake news e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou aos yankees uma base militar no Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres (Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais etc.) e favorecendo os mais ricos.

Outro motivo gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos situações tão absurdas assim...

A ocasião do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país, é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?

Por outro lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise, por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.




7 de setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil, devemos ser livres para ser e amar como quisermos...

30 de agosto de 2020

TROVA # 149

BREGA, CHIQUE e FUNDAMENTAL

O isolamento social se tornou menos chato graças à reprise de Brega & Chique no Canal Viva... 

Desde que a pandemia nos obrigou a ficar em casa por tempo indeterminado, passamos a trabalhar em modo remoto, deixamos de sair para nos divertir e viver os outros prazeres da vida lá fora. Desde que a vida dentro do confinamento se tornou uma realidade sem glamour nenhum e com um tédio persistente, tive que apelar para uma companheira que andava meio sumida por uns tempos: a TV.

Uma opção mais saudável para aguentar a nova rotina à qual fomos submetidos desde meados de março foi assistir às reprises de novelas antigas que o Canal Viva tem levado ao ar há 10 anos, para alegria deste velho noveleiro que vos escreve. Finalmente tinha encontrado uma alternativa mais saudável para o tédio e o desespero ao alternar a atenção dos telespectadores daqui de casa entre o Viva e a Globo News e dar conta da insanidade que impera do lado de fora da nossa casa.

Afinal de contas, é preciso deixar claro que minha infância não foi passada lendo livros como eu gostaria, muito menos brincando na rua com outras crianças da minha idade (sempre fui um antissocial de carteirinha). Eu passei “a aurora da minha vida” na frente da TV assistindo os infantis da época e prestando atenção nas novelas da Rede Globo. Passei anos da minha vida adulta renegando os folhetins da infância até compreender depois de muito tempo que eu não seria quem eu sou hoje se eu não tivesse assistido clássicos da nossa dramaturgia na época como Vale Tudo, Bebê a Bordo, Que Rei Sou Eu?, Tieta, Rainha da Sucata, Lua Cheia de Amor, Vamp, Deus nos Acuda, Quatro por Quatro, as segundas versões de Mulheres de Areia e A Viagem, além da clássica A Próxima Vítima (provavelmente a última novela que eu assisti na íntegra durante a época em que foi ao ar).

As novelas não apenas fazem parte da cultura popular do brasileiro, como também é a porta de entrada de muitos deles para conhecermos a obra de gigantes da Literatura: jamais teria tido acesso à obra de Jorge Amado, de Nelson Rodrigues ou de Eça de Queiroz se não fosse o trabalho da teledramaturgia brasileira. Eis um fato do qual nem eu, nem você que me lê podemos fugir e, sim, devemos encará-lo de frente, sem vergonha nenhuma e com uma bela dose de orgulho.

* 

Um dos maiores magos do gênero telenovela foi Cassiano Gabus Mendes, autor de clássicos como Beto Rockfeller (1968), Anjo Mau (1976), Marrom Glacê (1979), Elas por Elas (1982), Ti Ti Ti (1985), Que Rei Sou Eu? (1989) dentre outros. Uma de suas marcas registradas era a sátira de costumes: o autor fazia questão de criticar o que existe de mais mesquinho e superficial na nossa sociedade, expondo os personagens ao ridículo por meio de situações fúteis e até preconceituosas. Suas novelas atraíam diversas faixas do público, arrancando risadas de crianças e adultos.




A oportunidade de conhecer melhor o universo de Cassiano se deu graças ao Canal Viva, que começou a reprisar Brega & Chique (1987) desde fevereiro de 2020, para a alegria dos saudosos das novelas da década de 1980 – eu só tinha seis anos na época em que a novela foi ao ar entre abril e novembro de 1987, por isso eu só me lembro de uma mísera cena. A trama principal da novela (exibida às 7h da noite na antiga programação da Rede Globo) é bastante simples para os telespectadores acostumados com as novelas de hoje: Herbert Alvaray (Jorge Dória), um homem rico é casado com Rafaela (Marília Pêra) uma dondoca e pai de três filhos adultos, porém mantém uma segunda família em um bairro de subúrbio com uma segunda mulher, Rosemere (Glória Menezes), uma mulher doce e humilde, com quem Herbert teve uma filha. 



Prestes a falir, Herbert decide simular a própria morte (com o apoio de seu advogado, fiel escudeiro e confidente) para fugir de seus credores e foge para a Suíça, deixando a sua família na miséria e uma herança de 1 milhão de dólares para a amante, que fica rica da noite para o dia. Obrigada a se reinventar, sua primeira esposa decide alugar uma casa na mesma vila no bairro pobre onde a amante do marido vive. Sem saber do homem que partilhavam no passado, as duas não só passam a se conhecer, como também se tornam em grandes amigas. 


Somemos a esse caldo, a presença constante de Zilda (Nívea Maria) – amiga próxima família e também amante de Herbert – e de Montenegro (Marco Nanini), o fiel advogado, apaixonado por Rafaela Alvaray, primeira esposa de seu chefe. O quadro de personagens se completa com os demais moradores da vila onde as duas famílias moravam e mais um elemento surpresa: Cláudio Serra (Raul Cortez), a identidade falsa de Herbert Alvaray, refeito de uma cirurgia plástica meses depois de sua fuga, pronto para rever suas famílias e suas amantes, já que está irreconhecível para aqueles que o conheciam como o falecido marido de Rafaela.

A trama, bem típica dos folhetins que a Globo fazia nos anos 1980 e às vezes tenta refazer por meio de remakes que quase sempre deixam a desejar, se sustentou perante a audiência da época graças à direção do esfuziante Jorge Fernando e de um elenco espetacular encabeçado pela saudosa Marília Pêra, Glória Menezes, Marco Nanini, Jorge Dória, Raul Cortez, Nívea Maria, Marcos Paulo (Luís Paulo) e Dennis Carvalho (Baltazar), além da participação de veteranos e jovens talentos da época como Cássia Kiss, Patrícia Pillar, Cássio Gabus Mendes, Cristina Mullins, Célia Biar, Neuza Amaral, Tato Gabus Mendes, Patrícia Travassos, Jayme Periard e por aí vai. A produção marcava o retorno de Marília às novelas depois de mais de uma década afastada de produções desse tipo. O sucesso de Brega & Chique foi tão retumbante na época de sua exibição, em 1987, que chegou a bater os níveis de audiência de O Outro, novela da oito de Aguinaldo Silva que ia ao ar na mesma época.







Assistir as trapalhadas e peripécias de Rafaela Alvaray (minha personagem preferida da novela e que tirou várias gargalhadas minhas em dias nos quais o noticiário andava caudaloso) não foi apenas um verdadeiro antídoto para os horrores que ficaram do lado de fora da porta da nossa casa, como também me deu uma pontilha de orgulho de ter nascido no mesmo país que Marília Pêra, uma das artistas mais brilhantes que o mundo já conheceu. Sua interpretação para a perua que deixa de ser rica para se transformar em uma vendedora de marmitas é uma das melhores atuações já vistas na história da televisão brasileira. A Rosemere de Glória Menezes, pobretona que se transforma em uma noveau riche em estalar de dedos, é uma interpretação sutil e de uma inteligência que demonstra o porquê da esposa de Tarcísio Meira ser uma das maiores damas de nossa teledramaturgia. A personagem Zilda foge dos estereótipos das mocinhas ingênuas e de bom caráter que Nívea Maria sempre interpretou até então. Jorge Dória e Raul Cortez, respectivamente, fizeram de Herbert Alvaray / Cláudio Serra um vilão marcado por um mau-caratismo sedutor, levemente caricato e infinitamente ordinário, para deleite de suas amadas e do público. E, por fim, o pacato e apaixonado Alberico Montenegro é um exemplo extraordinário do quanto Marco Nanini era hilário antes do surgimento da TV Pirata e muito antes do remake de A Grande Família – a dupla que ele formava com Marília rendia as melhores cenas de Brega & Chique.







Dois elementos da novela de Cassiano Gabus Mendes merecem destaque: as imagens da abertura e os discos que compunham a trilha sonora nacional e internacional de Brega & Chique. A entrada dos créditos do elenco, autores e direção aparecia em meio a imagens de mulheres estonteantes (candidatas de Miss Brasil entre elas) desfilando seus looks duvidosos e elegantes disputando o mesmo homem para, no fim, revelar a nudez milenar do ator e modelo fotográfico Vinícius Manne ao som de “Pelado”, do Ultraje a Rigor (quem se lembra do refrão, hoje clássico: “Pelado pelado / nu com a mão no bolso”?) – por causa disso, a novela chegou a ser ter problemas com a Censura por revelar aquilo que há por debaixo das roupas que vestimos.




Já os discos que fizeram a trilha sonora da novela continham o que havia de melhor na música brasileira e internacional no ano de 1987: uma gravação inédita de Caetano Veloso na época (“Preciso Aprender a Só Ser”), além de sucessos de Fábio Jr., Erasmo Carlos, Leo Gandelman, Beto Guedes, Raul Seixas e da dupla Rita Lee & Roberto de Carvalho, para não citar outros. A versão internacional trazia uma versão de Boy George para “Everything I Own”, do Bread, além de sucessos de Genesis, Whitesnake, George Michael, Simply Red, Jimmy Cliff e Janet Jackson etc. A trilha estrangeira de Brega & Chique deve ter sido uma das trilhas de novela que eu mais devo ter ouvido na vida, já que meus pais tinham uma versão dela em fita cassete, cuja capa mostrava alguns dos melhores atributos de Vinícius Manne.



Entre os meses de março e setembro de 2020, Brega & Chique foi minha companheira inseparável das tardes regadas a um bom café ou das madrugadas (quando não conseguia assistir o capítulo da tarde, assistia à reprise que passava às 0h45). As comédias não nos ajudam a esquecer dos males de uma pandemia, mas certamente nos ajudam na medida em que nos trazem diversão e doses de ironia para nos fazer pensar e rir do quão ridículos nós (ainda) somos. Afinal de contas, é preciso rir em meio às lágrimas que temos vertido ultimamente...