14 de dezembro de 2020

TROVA # 156

 MINHA AMADA CECILINHA

Uma crônica para homenagear a Santa Protetora dos Músicos

Foto: Nilton Serra


    Já advirto ao leitor destas mal traçadas linhas: esta crônica não é sobre Cecília Meirelles. Também não é sobre Cecilia Bartoli, a soprano italiana que encanta qualquer leigo em matéria de música clássica. Quem sabe até poderia ser sobre Cecília Meirelles, uma das maiores expressões brasileiras em matéria de poesia em Língua Portuguesa. Poderia ser sobre a canção “Cecília”, uma das canções mais belas (e desconhecidas) do repertório de Chico Buarque de Hollanda. Talvez esta homenagem seja sobre nossa afilhada, uma menininha de seis anos que tem uma personalidade tão marcante que renderia uma crônica bem legal. Todavia, nenhuma delas é a musa do texto de hoje.




         Para os que me conhecem bem, Cecilinha é Santa Cecília, não o famoso bairro que fica na região central de São Paulo e que é adorado por nove entre dez jovens descolados, mas a Santa mesmo. Nascida em Roma, Itália, por volta do ano 150 D.C., Santa Cecília era filha de uma família nobre. Cristã, decidiu fazer voto de castidade para vivenciar o amor divino típico dos mártires que se sacrificam pela fé. Em uma era na qual a fé em Cristo era sinônimo de perseguição, foi condenada à tortura. Seu martírio levou muito mais do que se esperava, pois a jovem manteve sua fé inabalável e enfrentou seu destino trágico. Condenada à morte por uma machada no pescoço, Cecília recebeu um golpe fatal, porém ainda chegou a sobreviver por mais três dias e chegou a conversar e dar conselhos para aqueles que vinham rezar por ela. Seu ofício final foi o de cantar até não ter mais forças e morrer como uma das principais mártires da Igreja Católica.


         Desde então, Santa Cecília se tornou conhecida não apenas como mártir, mas principalmente como a Santa Padroeira dos Músicos, cujo dia é comemorado no dia 22 de novembro. Apesar de não ser músico profissional e de não tocar nenhum instrumento musical (fiz aulas de canto por um ano), devo muito do que sou profissionalmente à música. Por outro lado, minha vida acadêmica e profissional está intimamente ligada a versos e sons: eu me tornei Professor de Inglês motivado pelo que ouvia no rádio e conduzi minha vida acadêmica pesquisando o que havia de melhor da música brasileira. No entanto, dois episódios ocorridos comigo no dia 22 de novembro fizeram com que eu concluísse de uma vez por todas de que havia uma luz a guiar o meu caminho de um lugar o qual eu jamais poderia enxergar.


         O primeiro deles aconteceu em 2010. Paul McCartney estava prestes a começar uma turnê brasileira depois de quase duas décadas sem tocar por estas bandas. Tentei comprar ingressos para o show de 21 de novembro, domingo, mas, como existem tantos Beatlemaníacos por aqui quanto membros de torcida organizada, as entradas se esgotaram antes de um mero estalar de dedos. Faltando poucos dias para a apresentação, Macca anunciou que faria um show extra na segunda-feira, 22 de novembro de 2010. Diante da oportunidade de ouro, convoquei uma amiga e partimos em retirada para o Estádio do Morumbi e conseguimos três ingressos de pista para o segundo show da turnê Up and Coming.

Foto: Nilton Serra


         Segundo o relato de alguns amigos que foram ao show de 21 de novembro, Paul fez um belíssimo show para um Morumbi lotado e ensolarado. Tudo indicava uma semana sem catástrofes climáticas. Porém, segunda-feira, essa eterna bagunceira dos ânimos e dos humores do ser humano, nos reservava surpresas eletrizantes: São Pedro, em um péssimo dia, se revoltou e enviou uma tempestade daquelas em cima da Cidade de São Paulo! Mas foi uma chuva daquelas de parar a cidade inteira. Saí mais cedo do trabalho e fui para o estádio com seis horas de antecedência com o coração na boca e preocupado com a possibilidade de não chegar no local da apresentação. 

Entre Fabíola Bueno e Nilton Serra, o autor da maioria das imagens que estão na postagem de hoje.

Era dia de Santa Cecília e, sem que eu me desse conta, o aguaceiro resolveu dar uma trégua no Morumbi minutos antes de Paul McCartney entrar no palco. Para compensar os ânimos, Macca abriu o show tocando “Magical Mystery Tour”, dos Beatles (canção que eu jamais imaginei ouvir ao vivo na vida), alegrando o público já nos primeiros segundos da segunda apresentação de sua turnê por São Paulo. Dez anos depois, ao me lembrar daquele dia, constatei que Cecilinha sempre protege os músicos e os amantes de versos e sons como este aqui que vos escreve.



O segundo episódio no qual Santa Cecília apareceu na minha vida se deu quatro anos do show de Paul McCartney. Estávamos na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, para o batizado de nossa primeira afilhada. Por questões profissionais, não tínhamos muita opção a não ser postergar a cerimônia para o feriadão da terceira semana de novembro de 2014, já que a distância entre a capital e Rio Preto é de mais de 400 km. Na manhã de sábado, 22 de novembro, descobrimos que estávamos no dia da padroeira dos músicos e que o nome da pimpolha que estava prestes a ser batizada era Maria Cecília. Por maior que fosse a coincidência, já era mais do que tempo de retribuir as graças alcançadas. Afinal, a vida não é feita de acasos e sempre precisamos retribuir o carinho que recebemos...

O primeiro altar de Cecilinha: o RÁDIO!

Alguns anos depois, ganhei uma imagem de Santa Cecília de aniversário de meus pais. Vivia uma fase feliz na minha vida, tinha acabado de me mudar para um apartamento novo e estava às voltas com móveis e eletrodomésticos novos. Não pensei duas vezes antes de escolher um altar, diria, “um tanto peculiar”, para a santinha: ela passou a ficar em cima do meu antigo rádio, abençoando meu lar ao lado de todos os músicos que desfilavam pelo aparelho de som. 


Porém, a vida gosta de armar algumas surpresas para a gente: Cecilinha ficou soberana de versos e sons em cima do meu antigo aparelho de som até o dia em que o rádio quebrou de vez. Enquanto me acostumava ao meu apartamento novo, segundo em menos de dois anos, e com a bagunça de uma mudança e da falta de espaço, mal sabia onde guardava vários dos meus pertences. Certo dia, em um surto de arrumação, quis colocar minha imagem de Santa Cecília em um local seguro, pois receberíamos visitas para um dia de domingo. Acreditem se quiser, mas toda criança que vem nos visitar fica encantada pelo meu escritório: não apenas por causa dos livros, mas por causa das miniaturas e trecos mil que coleciono e se acumulam no caos.

Por motivos de superproteção, guardei minha amada Cecilinha em um lugar secreto da estante. Lugar esse tão secreto, mas tão secreto que eu nem conseguia mais me lembrar. Eu andava tão estressado nos últimos três meses do ano de 2019 que eu mal imaginava para onde minha imagem de Santa Cecília poderia ter ido. Fiquei triste, frustrado, arrasado e cheguei a procurar outras imagens da santinha para substituir a que meus pais me deram de presente. Nenhuma delas à altura da beleza da original, diga-se de passagem.

Minha Cecilinha ficou brincando de pique-esconde, fazendo a Lindoneia desaparecida por quase três meses comigo. Seu “sumiço” chegou a virar piada aqui em casa, com direito a algumas especulações acerca de seu paradeiro: 1) Cecilinha tinha sido levada por acidente, possibilidade que eu prontamente descartei; 2) Tinha guardado a Cecilinha por acidente nas milhares de caixas que ainda sobraram da mudança; 3) Cecilinha se revoltou porque não havia mais rádio em casa, se revoltou com a minha bagunça e simplesmente teria ido embora em sinal de protesto! Hipóteses completamente descartadas no início de janeiro de 2020, quando ela foi encontrada em uma das prateleiras dos meus livros de música. Ela surgiu reluzente e levemente empoeirada, mas pronta para assumir seu posto definitivo: o novo aparelho de som (bem melhor do que o anterior!) que compramos para a nova casa...

A lição que eu tirei depois das “férias” da minha amada Cecilinha foi bem clara: sempre deixe ela próxima do rádio, para que ela esteja sempre a postos para proteger não apenas os músicos, como todos os artistas e os amigos da arte que são de boa índole e bom coração. Além disso, eu sempre posso recorrer a ela no momento em que eu necessitar de cuidados mais específicos ou apenas quando estiver com vontade de conversar com ela. Se ela iluminou o meu caminho mais de uma vez, não custa deixar ela bem perto do canto mais atraente da casa: aquele que sempre tem uma boa música para a gente ouvir.


         O bom de revirar as caixas que ainda sobraram da mudança foi poder achar uma imagem de São Francisco de Assis, vulgo Chiquinho, o outro santinho daqui de casa. Cecilinha ganhou um parceiro e tanto nas preces e nas conversas íntimas que temos com eles. Eis uma dupla e tanto: enquanto uma protege os músicos, o outro é o protetor dos animais e da ecologia: eis uma parceria de muito sucesso...



9 de dezembro de 2020

TROVA # 155

ME & MR. LENNON

Algumas memórias pessoais regadas ao legado de John Lennon

Strawberry Fields (2012) - Foto: Nilton Serra

 

People say I'm lazy

Dreaming my life away

Well they give me all kinds of advice

Designed to enlighten me

When I tell them that I'm doing fine watching shadows on the wall

‘Don't you miss the big time boy, you're no longer on the ball?’

(John Lennon, 1980)

 

 

         Quando John Lennon foi alvejado pela arma de fogo de um facínora em frente ao Dakota Building, no coração de Nova York, eu ainda não tinha nascido. Lennon foi morto na noite de 8 de dezembro de 1980. Eu nasci em 23 de janeiro de 1981 e “(Just Like) Starting Over” estava em primeiro lugar nas paradas de sucesso das rádios no mundo inteiro. Por culpa de uma margem de erro infeliz, não pude ter a honra de habitar o mesmo universo de um dos artistas mais importantes de todos os tempos. Eis mais um item a ser incluído no ranking das minhas invejas musicais...




         Dentre os Beatles, John Lennon foi o primeiro que atravessou minha vida. Eu tinha de 12 para 13 anos quando uma de minhas tias-avós nos emprestou um LP que continha os maiores sucessos dos Fab Four e outro que era a coletânea Shaved Fish (1975), que continham as gravações mais importantes dos primeiros 6 anos de carreira solo de John. Em poucos dias, canções como “Instant Karma”, “#9 Dream”, “Whatever Gets You Thru the Night”, “Mind Games”, “Give Peace a Chance” e a incansável “Imagine” passaram a fazer parte do que eu mais ouvi em quase 4 décadas de vida. Isso porque eu não mencionei “Merry Xmas (War is Over)”, composta por Lennon e Yoko Ono (sua eterna companheira na vida e na arte), uma das canções natalinas mais tocantes de todos os tempos – sim, eu ouço essa canção todo final de ano no modo repeat com a eterna vontade de renovação das esperanças para o ano seguinte. Um dia ainda há de dar certo...






Na mesma época, dezembro de 1993, consegui ouvir Double Fantasy (1980), último disco que Lennon lançou em vida e com aquela capa deslumbrante mostrando John e Yoko na capa, apaixonados e felizes. Esse LP que apareceu lá em casa, emprestado por não sei quem, também fez de mim um fã do eterno Beatle . A aparição desse disco na mesma época que minha tia emprestou os outros vinis são exemplos de situações que somente o destino consegue oferecer uma explicação. Para minha alegria, ele ficou lá em casa por um bom tempo, período suficiente para que eu decorasse os versos de canções como “Woman”, que eu sei de cor até hoje.



         Para mim, todo mês de dezembro está associado à figura de John Lennon. Não somente por causa dos Beatles, ou de Shaved Fish ou Double Fantasy ou por causa das lembranças de seu destino insólito que as reportagens especiais resgatam todo final de ano. Nessa época do ano, prefiro deixar de lado o tradicional catálogo de canções natalinas para ouvir os clássicos que John deixou para nós e sair cantando “So this is Christmas / and what have you done? / Another year over/ And a new one just begun...” por aí sem pudor nenhum.

       Outros episódios marcantes da minha vida adulta estão intimamente atrelados ao legado de John Lennon. O primeiro deles foi no final de 2005 quando eu precisei apresentar um seminário em meu último curso na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde fazia meu Mestrado em Letras. Um dos capítulos mais interessantes de Paixões – amores e desamores que mudaram a História, da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, era justamente sobre o relacionamento de John e Yoko, marcado por turbulências de todo o tipo – drogas, ciúmes, choques de ego, traições, idas e vindas e coube a mim a tarefa de fazer a apresentação daquele livro. A coincidência absurda foi justamente que a minha participação no seminário ocorreu no dia 8 de dezembro de 2005, data que marcava o 25.º aniversário de John Lennon: lá estava eu a falar sobre um dos meus artistas preferidos no meio acadêmico. Foi uma conjunção de astros bem interessante e que rendeu conversas bem bacanas sobre o livro de Rosa e o legado de Lennon.

Outro momento marcante na minha vida também foi regado à música de John. Quando me mudei do Rio para São Paulo em março de 2006, precisei me adaptar rapidamente a uma nova cidade, com uma nova rotina e um emprego difícil. A trilha sonora daqueles dias desafiadores era o álbum Imagine (1971), um dos maiores sucessos comerciais de toda a carreira de Lennon, que eu tinha em MP3. Faixas como “It’s So Hard”, “Gimme Some Truth” e “How?” ajudaram a alegrar meus dias de cão, nos quais eu mal tinha dinheiro para pegar o ônibus.




Em 2012, já vivendo uma fase financeira bem melhor, aproveitei um feriado prolongado em meados de novembro para visitar Nova York, uma das cidades mais incríveis do planeta. Não é preciso ser um conhecedor profundo da vida e obra de John Lennon para saber que a sua imagem pós-Beatles se confundia com a Big Apple, lugar que ele escolheu como lar durante os seus últimos anos de vida. Assim que pisei em terras norte-americanas, fiz questão de passear pelo Central Park, onde John e Yoko caminhavam com bastante frequência, no meu primeiro dia nos EUA. Logo depois, aproveitei para fazer uma parada na frente do Dakota e tirar algumas fotos no Strawberry Fields, memorial em homenagem a John, não muito distante de lá. Quem diria que aquele menino de 12 para 13 anos que descobriu a música de John Lennon graças a três LPs emprestados chegaria tão perto de lugares por onde passou um dos maiores ídolos da história da música?


Dakota Building (2012) - Foto: Nilton Serra

O ano de 2020 traz uma marca melancólica para os admiradores de John Lennon: se estivesse vivo, o ex-Beatle teria completado 80 anos de idade no dia 9 de outubro. E o dia 8 de dezembro marca o 40.º aniversário da noite em que começamos a chorar e a amargar sua partida precoce. Antes de morrer, Lennon vivia uma nova fase a todo vapor: retornava à carreira artística depois de 5 anos longe dos holofotes, estava feliz com o álbum que acabara de lançar em parceria com Yoko Ono e planejava uma turnê mundial.

Graças aos esforços de Yoko e de Sean Lennon (filho do casal), o legado do ex-Beatle se mantém vivo nas memórias e nos corações de muitos fãs ao redor do mundo inteiro. E eu me incluo orgulhosamente entre esses admiradores... Como ele cantou muito bem: “And we all shine on / Like the moon and the stars and the sun”. Que possamos viver cantando e brilhando como a lua, as estrelas e o sol. Sem medo de sermos julgados e sem medo de sermos felizes...      


    

 

22 de novembro de 2020

TROVA # 154

O DIA DA INFÂMIA

Como comemorar o Dia da Consciência Negra depois de vermos mais um corpo negro sendo abatido por brancos em rede nacional?

 



Lord have mercy on this land of mine

We all gonna get it in due time

'Cause I don't belong here

I don't belong there

I've even stopped believing in prayer

(Nina Simone, 1964) 

 


            O ano de 2020 estava bem propício para o Dia da Consciência Negra no Brasil: depois de mais de cinco décadas, os Estados Unidos foram varridos por uma convulsão político-social por causa do assassinato brutal de George Floyd. Os norte-americanos (e o resto do mundo) ficaram perplexos e revoltados ao ver um homem negro sendo assassinado por asfixia por policiais brancos em rede mundial. Cansados da perpetuação de tantos corpos afro-americanos dizimados por aqueles que possuem o privilégio de cor em uma sociedade racista, os movimentos negros, aliados aos progressistas, foram às ruas de várias cidades norte-americanas clamando por justiça.

            A conta para tanto descaso foi cobrada com juros altíssimos: custou a reeleição de Donald Trump. O magnata, sempre acostumado a vencer seus oponentes usando métodos nada ortodoxos, amargou uma derrota fragorosa nas urnas para o democrata Joe Biden, que não só se aliou ao movimento #BlackLivesMatter, como escolheu uma mulher negra e filha de imigrantes – Kamala Harris – para ser sua vice-presidente. O Brasil assistiu com atenção aos resultados do pleito eleitoral norte-americano: para os progressistas, a derrota de Trump significaria o início do fim do surto extremista que invadiu a política nacional; para os bolsonaristas, significaria não apenas o desespero, como a elaboração de uma estratégia narrativa para justificar uma provável derrota de seu “mito” nas urnas em 2022.

            Feito este breve retrospecto, retornemos à nossa infame realidade: somos um país composto por 54% de negros. Somos um país que não oferece igualdade salarial para brancos e negros. Somos um país que possuem poucos negros nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas e no Parlamento. No entanto, apesar da quantidade expressiva de ataques do atual Governo Federal às conquistas da comunidade afrodescendente brasileira e apesar de tantos negros assassinados no país por violência policial (para não citar outros casos), estávamos prontos para passar o dia 20 de novembro de 2020 refletindo a respeito da importância dos negros para o Brasil. Porém, tudo mudou quando recebemos uma notícia na madrugada do Dia da Consciência Negra – João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, foi brutalmente espancado até a morte em um supermercado da rede Carrefour por dois seguranças brancos na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

      Em poucos minutos, o 20 de novembro de 2020 deixou de ser o Dia da Consciência Negra, com reflexões edificantes sobre igualdade racial, colorismo ou os desmandos da branquitude. A data se converteu no Dia da Infâmia: os noticiários pipocando análises relevantes, alguns preconceitos gritantes, causando o horror de viver em um país profundamente racista e desigual. A crônica que eu estava me prometendo para o dia 22 de novembro, dia de Santa Cecília (Padroeira dos Músicos), minha Santinha de devoção, vai ter que esperar. Cecilinha sabe que a angústia precisava ser expiada por meio das teclas do computador e ela vai me entender por isso...



A morte brutal de João Beto, como muitos o chamavam, em pleno Dia da Consciência Negra, serviu não apenas para reacender a revolta de muitos que se sentem injustiçados, como também reabriu a ferida causada pela perda de tantos outros que morreram em vão por conta da irresponsabilidade de homens brancos.

Os que não se esquecem da barbárie diária que mata um negro a cada 23 minutos no Brasil vão se lembrar de Ágatha Félix, menina de oito anos, morta em 20/09/2019 por uma bala disparada da arma de um Policial Militar;


Ou vão relembrar de Miguel Otávio, de 5 anos, morto em 02/06/2020, ao cair de um prédio em Recife (PE) por culpa da negligência da patroa branca de sua mãe, que se recusou a cuidar do menino enquanto a empregada saía para passear com o pet da família;


 

Ou não vão se esquecer de João Pedro, baleado em uma ação policial no dia 18/05/2020 em São Gonçalo (RJ), região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro;




Ou podem mencionar o caso brutal do homicídio do músico Evaldo Rosa, cujo carro foi alvejado por 80 tiros disparados em uma desastrosa operação do Exército Brasileiro em 08/04/2019;





Ou até se relembrar do caso hediondo de Cláudia Silva Ferreira, vítima de uma operação militar da PM do Rio de Janeiro – a moça, além de baleada, foi arrastada por uma viatura policial pelas ruas do subúrbio carioca até a morte.



Os casos, infelizmente, são vários. A incompetência do Estado é a mesma. As autoridades mais importantes do Brasil de 2020 (no caso o Presidente e o Vice-Presidente da República) negam a existência do racismo e minimizam a dor de muitos que já perderam seus entes queridos por conta de um racismo estrutural que sempre corroeu a credibilidade das instituições. Como comemorar o Dia da Consciência Negra depois de vermos mais um corpo negro sendo abatido por brancos em rede nacional? Como comemorar o Dia da Consciência Negra, feriado que deveria ser nacional, mas é sempre refutado por achar que deveríamos ter o “dia da consciência humana”?




A resposta do movimento negro diante do assassinato brutal de João Alberto foi instantânea: manifestações públicas se seguiram de protestos e quebradeiras de supermercados Carrefour, cuja rede é reincidente em casos de racismo – dentre os casos mais recentes, há o de uma funcionária demitida por denunciar um caso de injúria racial. Automaticamente, a mídia brasileira (majoritariamente branca) se apressou em classificar os manifestantes que participaram dos protestos contra o racismo como “vândalos” e “arruaceiros”, uma ironia infeliz, pois os mesmos setores da imprensa brasileira viam os manifestos norte-americanos que varreram as ruas dos EUA como “legítimos”. Eis mais um sinal do quanto que o Brasil precisa de muitos momentos de reflexão como o “Dia da Consciência Negra” para desconstruirmos uma série de estereótipos.





Apesar dos retrocessos, a Avenida Paulista amanheceu com a inscrição “# VIDAS PRETAS IMPORTAM” no trecho que cobre o MASP sentido Consolação. Não é necessariamente uma revolução, mas já é o início de um movimento bastante objetivo: não aceitaremos mais injustiças contra corpos negros em silêncio! A reles crônica que você lê aqui hoje é mais um manifesto contra as injustiças raciais que são recorrentes no cotidiano brasileiro. E tenta ser uma breve homenagem a Zumbi, a João Alberto, Miguel, João Pedro, Evaldo, Ágatha, Cláudia e tantos outros cujos nomes não podemos esquecer jamais!

 

ALGUNS LINKS PARA VOCÊ NÃO ACHAR QUE EU ESTOU PROPAGANDO FAKE NEWS POR AÍ:

·        https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295

·        https://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2020/11/no-brasil-nao-existe-racismo-fala-de-mourao-e-a-mais-racista-das-frases.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

·        https://www.conjur.com.br/2020-nov-20/carrefour-historico-agressoes-casos-injuria-racial


14 de novembro de 2020

TROVA # 153

O INVASOR DA DESESPERANÇA

Algumas razões para elegermos Guilherme Boulos para a Prefeitura de São Paulo

 



E foste um difícil começo

Afasto o que não conheço

E quem vem de outro sonho

Feliz de cidade

Aprende de pressa a chamar-te

De realidade

Porque és o avesso

Do avesso, do avesso, do avesso…

(Caetano Veloso, 1978)

 

     Todo ano “par” reserva emoções intensas para todos os que se interessam por política no Brasil. Eu me incluo nesse grupo com toda a tranquilidade, já que escolhi São Paulo (maior colégio eleitoral do país) como meu lar há mais de uma década e os pleitos daqui sempre reservam discussões acaloradíssimas. Com a pandemia do coronavírus, as eleições municipais de 2020 foram adiadas em mais de um mês, a maioria dos debates políticos foram cancelados e as campanhas políticas tiveram de mobilizar os meios virtuais para evitar aglomerações.

         Confesso que minhas esperanças por uma renovação em matéria de política foram abaladas quando a cidade de São Paulo trocou um democrata de centro-esquerda (Fernando Haddad) por um lobista que se dizia trabalhador (João Doria) em 2016. Foram aniquiladas de vez quando o Brasil permitiu que um projeto mal-acabado de ditador (a versão brasileira de Donald Trump) subisse a rampa do Palácio do Planalto em 2018. A esperança de que, um dia, tivéssemos políticos dispostos a governar junto com o povo deu lugar para um pessimismo com tintas depressivas, já que a maioria das opções que nos sobraram era uma galeria de tipos grotescos e reacionários, expondo o que existe de pior no pensamento conservador. No entanto, parte de meu sentimento desesperançoso mudou quando soube que Guilherme Boulos, ex-líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), se aliou a Luiza Erundina (Deputada Federal e ex-Prefeita de São Paulo) para uma chapa com o intuito de concorrer às eleições para a Prefeitura da capital paulista pelo PSOL em 2020.


Guilherme Boulos ao lado de Luiza Erundina em 13/11/2020 - Foto: Tatiana Santiago (G1) 


Professor de Filosofia com experiência em escola pública, militante da causa de uma habitação digna para os mais pobres, único dos candidatos que mora em um bairro periférico de São Paulo (Campo Limpo) e uma das figuras mais jovens da política brasileira, Guilherme Boulos sempre foi criticado por seus opositores, que insistiam em lhe impor a pecha de “invasor” de propriedades privadas, além de outros estigmas que ele comprovou não serem verdadeiros. Com apenas 17 segundos de propaganda eleitoral, não tinha as vantagens de seus concorrentes: fez uso de uma campanha intensa pela Internet por meio de memes, postagens irreverentes e bem-humoradas nas redes sociais, sem apelar para o grotesco que sempre deu o tom de alguns de seus concorrentes. Buscou o apoio e a experiência de Erundina, primeira Prefeita que a Pauliceia elegeu, para expor suas propostas de governo. Foi aguerrido nos debates políticos, enfrentando jornalistas nada simpáticos à sua presença, seus adversários e as fake news.

Além disso, o companheiro de Erundina teve a coragem e a enorme ousadia de iniciar e encerrar sua campanha ao primeiro turno das eleições municipais com duas lives de quase 24 horas que mostrou o cotidiano do homem por trás do candidato desde o início da manhã até o fim de um dia de trabalho, mostrando o corpo-a-corpo com os eleitores e revelando alguns momentos de sua intimidade. O resultado dessas estratégias de campanha foi uma arrancada surpreendente de Boulos para o segundo lugar nas intenções de voto, aterrorizando seus adversários e intrigando os analistas políticos. Tudo isso com muita leveza, irreverência e inteligência típicas do povo brasileiro.



Aliás, é preciso deixar claro que o brasileiro, em linhas gerais, sempre foi bem-humorado e irreverente. Os memes que se produzem são uma prova claríssima disso. Em matéria de política, então, a irreverência do eleitor poderia níveis inacreditáveis. Quando o lendário Macaco Tião se revelou como uma revelação e chegou ao segundo lugar na disputa para a Prefeitura do Rio de Janeiro, eu tinha sete anos de idade. Eu estava com oito quando vi Enéas Carneiro revolucionar o Horário Político, chatíssimo por natureza, proferir “Meu nome é Enéas!” para compensar o seu espaço mínimo de programação, que não chegava aos cinco segundos.

         Por outro lado, os artífices da política brasileira sempre fizeram dela um espaço sisudo e nem um pouco irreverente. Debates políticos, apesar de alguns episódios hilários, sempre foram o palco principal dos temperamentos odiosos dos eleitos por meio do voto direto. Mais do que isso, há ainda algo bem pior: as relações frágeis da nossa democracia recém-nascida evidenciavam o caráter mais obscuro de nossa gente, chegada aos níveis mais diversos de corrupção. Aos onze anos de idade, assisti a deposição do primeiro Presidente da Nova República por meio de um golpe midiático espetacular que se travestiu de caras pintadas nas ruas. Entre a adolescência e o início da minha vida adulta, vi o Presidente que criou o Plano Real governar por dois mandatos presidenciais apesar dos escândalos comprovados da compra da emenda de sua reeleição no Congresso Nacional.

         Aos dezessete anos, no final da adolescência, votei pela primeira vez para Presidente da República, com a esperança de que iria eleger um ex-metalúrgico para a cadeira mais ilustre do Brasil, fato que ocorreu apenas 4 anos depois. Por um brevíssimo tempo, achei que a política seria um sinônimo de esperança para, enfim, sanarmos as diferenças sociais que sempre separam ricos de pobres, da classe média de indivíduos miseráveis. Fui enganado: os primeiros escândalos de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores não só me deixou frustrado em relação aos meus votos, como também me afastou da política e do direito ao voto por mais de dez anos – sempre aproveitei o fato de ter me mudado para outro Estado para justificar minha ausência.

         Em 2014, na iminência da reeleição de Dilma Rousseff – primeira mulher eleita Presidenta da República Federativa do Brasil –, decidi exercer meu direito ao voto e voltei ao Rio de Janeiro para votar em Dilma. Sempre achei que sua plataforma política necessitava de revisões, de posicionamentos mais críticos, de menos concessões aos barões da política tradicional, porém há um fato inegável: é sempre mais confortável fazer oposição a um governo alinhado a ideais democráticos do que com tecnocratas neoliberais e projetos de ditadores obcecados em cortar gastos públicos e fazer um Estado Mínimo para a população e um Estado Máximo para os altos escalões do governo e suas famílias parasitárias.




Mesmo se o candidato do PSOL para a Prefeitura de São Paulo não atingir seu objetivo principal, é indiscutível que sua campanha fez história: renegou o ódio e a arrogância típicos da maioria dos políticos tradicionais, mobilizou um número enorme de simpatizantes via Internet e tentou fazer política com irreverência e olho-no-olho. Se Guilherme Boulos invadiu alguma coisa durante a campanha eleitoral foi a desesperança do paulistano, que está exausto de ver sua cidade entregue à sujeira. às enchentes, às negociatas com as máfias dos transportes, ao descaso com os servidores públicos municipais, dentre tantas mazelas. Seu projeto de governo talvez não seja o mais perfeito para a cidade, mas, para aperfeiçoá-lo, Boulos se mostra altamente disposto a ouvir as vozes de quem acreditou nele: o povo.

Por isso, espero que as urnas ouçam a voz do povo. Guilherme Boulos está plenamente disposto a construir uma cidade melhor para a próxima década. Ao lado de Luiza Erundina e ao lado do povo, fazendo a política como ela realmente deve ser feita: para todos e não para os mais abastados. Talvez este seja o caminho para um “sonho feliz de cidade”, do jeito que Caetano cantou em uma de suas canções mais emblemáticas.