29 de setembro de 2014

TROVA # 37

AS FALHAS DO DISCURSO
(ou onde as pessoas perdem a vergonha na cara em relação às coisas que dizem por aí...)



          “Alguns cientistas acreditam que hidrogênio, por ser tão abundante, é o elemento básico do universo. 
Eu questiono este pensamento. Existe mais estupidez do que hidrogênio. Estupidez é o elemento básico do universo.”
Frank Zappa

Não existe nada neste universo que me deixe mais enfurecido do que as contradições discursivas das pessoas. Em outras palavras, não há nada que me deixe mais possesso do que pessoas que são descaradamente adeptas da filosofia hipócrita do “Faça o que digo, mas não faça o que faço!”... Ficou claro ou precisamos desenhar, Sr. Leitor? Melhor não tentar a segunda opção, pois sou péssimo desenhista...
Agir de maneira coerente no mundo de hoje é algo que dá muito trabalho se você é uma pessoa medíocre, confusa e/ou populista. Não dá para viver um discurso honesto e humanista se você é uma pessoa fria, calculista, egoísta e que contribui para a perpetuação do que o bom e velho Raul Seixas chama de “belo quadro social”. Tenho uma grande dificuldade em acreditar em pessoas que prometem mundos e fundos e realizam pouco (ou nada, ou quase nada) do que dizem ser e/ou fazer... Quando não desacredito, fico com os dois pés atrás, para variar um pouco de atitude. Inflexível? Com gente desta estirpe, não concedo um milímetro da minha compaixão...
As falhas do discurso são bem evidentes quando vislumbramos exemplos clássicos do cotidiano brasileiro, tais como: as plataformas discursivas e mercadológicas de nossos políticos, o blá-blá-blá dos religiosos (católicos e evangélicos, especialmente!), ou então os chamados “comunistas de cartão de crédito” que adoram defender ideais políticos de “esquerda” enquanto vestem Prada e Lacoste, usam perfume francês e andam com o carro mais descolado, para não citarmos outras falácias já bem conhecidas. O caso que mais me atinge, por razões evidentes (sim, eu trabalho com isto!), são as contradições que estão em torno do universo da Educação no Brasil.
Vejamos os casos mais clássicos... citar filósofos e pensadores do ramo da educação como se eles fossem papas no assunto com a intensidade das palavras desses ideólogos conservadores e não praticar 10% do que eles pregavam ou defender gestão participativa em escolas regulares públicas e privadas quando mal existe um conselho escolar que discute os rumos que cada unidade escolar deve tomar ou falar sobre a importância dos valores do educador sendo você um grande ditador administrativo ou aquele papo de coordenador pedagógico que adora mostrar serviço dizendo algo como “Pode me procurar se você tiver alguma dúvida ou problema...” e na hora em que o bicho pega responde com um clássico “Mas não podemos conversar outra hora?”  ou ainda adotar o discurso de que professores tem perfis diferenciados e experiências pessoais / profissionais distintas devem trabalhar com todas as faixas etárias (esta sem dúvida é a minha preferida!) sem reclamar das dificuldades que certamente virão pelo caminho... Blá, blá, blá...
A hipocrisia das pessoas adquire facetas e posturas interessantes quando estamos diante do caso do sistema educacional brasileiro. Recentemente eu tive acessos de riso (nervosos em primeiro plano; descontraídos, momentos depois) quando recebi um convite em uma rede social para participar de uma Festa Junina de um colégio para o qual trabalhei. Nenhum problema, afinal tem certas mágoas que resolvi deixar enterradas nos subterrâneos da memória. O problema é que eu fui desligado pela Orientação Pedagógica (oi?!) da referida instituição porque eu não tinha perfil para lidar com crianças, apesar de saber lidar bem com adolescentes. E ainda ouvi a pérola, momentos antes de ser desligado do quadro de funcionários: “Professor bom é aquele que sabe trabalhar bem com alunos do Maternal até os alunos da Universidade!”... Com a passagem do tempo, aprendi a trabalhar com adolescentes, com adultos, já tive o privilégio de dar algumas aulas para Universitários e já trabalhei com Educação Infantil sem grandes conflitos. E ainda dizem que “ninguém é insubstituível”?!
O que mais me desaponta em relação às constantes falhas do discurso é a falta de reconhecimento dos esforços gigantescos que fazemos para sermos profissionais e cidadãos dignos e honestos no mundo de hoje. As falhas de nossos políticos, de nossos conhecidos, de nossos comparsas cidadãos, de nossos colegas de trabalho, de quem educamos, de quem nos educa dão margem às contradições com o esforço de um “remador de Bem-Hur”, como diria o Mestre Nelson Rodrigues. Cabe aos (in)sensatos, nós que ainda acreditamos em honestidade e coerência, levar o mundo com um olhar mais paciente e sempre pronto para nos defender do absurdo. Em um país como o nosso, isto acontece incontáveis vezes por dia...
Enquanto isso, eu prefiro fazer como o Mestre Raul Seixas: "Eu que não me sento / No trono de um apartamento / Com a boca escancarada / Cheia de dentes / Esperando a morte chegar...". Afinal, já que o disco voador não vai vir mesmo, o jeito é viver em meio às falhas e às contradições de cada dia...


TROVA # 36

A LIÇÃO DE PLANT
(ou a linha tênue do meu amor e do meu ódio por Robert Plant)


Já tentei odiar Robert Plant. Não consegui. O motivo? Uma banal implicância de fã xiita de Led Zeppelin: o fato dele se recusar a cantar os hits do Zep em uma turnê em parceria com Jimmy Page e/ou em uma possível reunião com o que sobrou da banda que levou "Black Dog" e "Stairway to Heaven" para os ouvidos do mundo inteiro...


Minha paixão pela figura e pela arte inconfundível e indefectível de Robert Anthony Plant vem desde a segunda metade da década de 1990. Enlouqueci com o som dos caras quando fui para a Faculdade de Letras, aos 19 anos de idade: comprei uma cópia usada de No Quarter (a primeira reunião bissexta de Page e Plant) e pirei com a reunião de guitarras com instrumentos marroquinos, um ensemble egípcio e uma orquestra inglesa. Tudo isto em um mesmo palco! Era algo muito insólito para 1994, na mesma época em que Kurt Cobain tinha dado um tiro não apenas em sua própria cabeça, mas na cachola do movimento grunge, na época em que o Pop precisava se reinventar, em uma era na qual velhos dinossauros como os Rolling Stones saíam novamente em turnês mundiais, lotando estádios e varrendo públicos do mundo inteiro. Era uma tentativa de Jimmy Page de reviver o Led Zeppelin. O guitarrista parcialmente conseguiu tal façanha ao se reunir com Robert Plant.





2007 trouxe uma novidade considerada impossível para os fãs mais esperançosos de Led Zeppelin. Page e Plant se uniram a John-Paul Jones e a Jason Bonham (filho de John, o MAIOR BATERISTA DE ROCK que já existiu em 2000 e poucos anos depois de Cristo!) para uma única apresentação do Led Zeppelin na recém-inaugurada 02 Arena, em Londres. O motivo não foi um presente aos fãs, muito menos um surto de camaradagem ou uma vontade de levantar cifrões por parte da banda (não podemos afirmar que este seja necessariamente o caso de Jimmy, mas isto vou deixar para depois...): a verdadeira razão foi uma homenagem que a banda fez a Ahmet Ertegun, um executivo egípcio que fundou a Atlantic Records, selo da Warner Music que colocou o Zep no mapa da música mundial. Por se tratar de um milagre que ocorreria em uma única noite, os ingressos acabaram em questão de minutos! Para que os que não puderam ter o privilégio de assistir a esta apresentação histórica, ficamos com o filme desta noite, que mostra o Led Zeppelin em pleno vapor de sua atividade.



Robert Plant, ao contrário de Jimmy Page, conseguiu reconstruir sua vida  profissional com o fim prematuro do Led Zeppelin. O vocalista deixou o luto pela morte do baterista John Bonham para trás e saiu em carreira solo. Fez discos de Pop Rock um tanto interessantes, gravou um disco maravilhoso e premiado com a cantora country Alison Krauss e, em seus trabalhos mais recentes, tem flertado com os sons e ritmos com a chamada World Music. Álbuns como Fate of Nations e Dreamland ganharam não apenas o respeito da crítica, como também a admiração do público em geral (não necessariamente fã do Zep).







Como eu andava de relações cortadas com Plant até recentemente por causa do fato dele ter esnobado Page e John-Paul Jones em uma possível reunião da banda, dei umas férias para os seus discos e vídeos disponíveis na Internet. Graças ao Vio Ray, meu admirado Professor de Canto que compartilhou um vídeo de Robert Plant no Facebook, refiz as pazes com a obra deste cantor lendário. É fato que a voz dele não alcança mais aqueles agudos insólitos de "Black Dog" e "Whole Lotta Love", mas o brilho dos graves e de alguns agudos continuam. A intensidade das interpretações e o fraseado de Robert continuam mais fortes do que nunca estiveram. E, no alto de seus sessenta e poucos anos, Robert ainda arranca suspiros de minha gente...


Poucos dias depois de ver o vídeo de Plant no YouTube (santa Internet!), soube que havia um disco gravado e que estava para ser lançado. Lullaby... and the Ceaseless Roar, gravado em pareceria com os Sensational Space Shifters é um tremendo petardo musical: ritmos de matrizes africanas  são justapostos a blues, rock, bluegrass, folk e (por quê não dizer?) Pop, resultando em uma massa sonora densa e de grande complexidade. A voz de Robert Plant continua trazendo efeitos lancinantes e hipnóticos para aqueles que ainda sentem prazer em ver um CD na loja, comprá-lo e ouvi-lo no seu PC ou no seu aparelho de som. Isto sem mencionarmos a capa do álbum, que traz uma concha envolta em um fundo cinzento e nebuloso. Ouça a Lullaby de Plant e dos Space Shifters, mas não deixe de apertar os cintos para esta viagem musical turbulenta.


Lullaby... and the Ceaseless Roar foi o motivo necessário para que eu declarasse trégua a Robert Plant. Decidi, inclusive, jogar fora uma carta imaginária que eu iria enviar à eterna voz do Led Zeppelin que pensei em postar aqui. Primeiramente: o disco é maravilhoso; Segundo: porque não senti saudades do Zep (caso eu sinta, posso ver e/ou ouvir Celebration Day no aparelho de som e/ou no aparelho de DVD); Terceiro e mais importante: porque a beleza da voz de Plant é atemporal e ele faz questão de olhar para o futuro e não se vangloriar dos feitos do passado. Afinal, como tudo nesta vida, precisamos olhar para a frente e não precisamos revirar os baús e arquivos em busca de feitos brilhantes (certo, Jimmy Page?).




Valeu pela lição, Robert Plant. Queria cantar e/ou compor tão bem como vc. Se eu tivesse um centésimo do seu talento, eu certamente seria um músico de verdade... ;-)


5 MOMENTOS SOLO DE ROBERT PLANT QUE NÃO NOS DÃO A MENOR SAUDADE DO LED ZEPPELIN:


1) 29 Palms

2) Sea of Love

3) Song to the Siren

4) If I were a Carpenter

5) I Believe

E não deixe de conferir a participação de Plant no Tonight Show with Jimmy Fallon:

http://consequenceofsound.net/2014/09/led-zeppelins-robert-plant-conquers-jimmy-fallon-with-two-song-performance-watch/

6 de agosto de 2014

TROVA # 35


DAVID BOWIE É… SOM & VISÃO
(UM MINI-DIÁRIO DE VISITAS DA PASSAGEM DA
EXPOSIÇÃO DAVID BOWIE IS... POR SÃO PAULO)

 


 

Antes da Visita

            Em meados do 1.º Semestre de 2013, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo anunciou que a exposição David Bowie is... viria para o Brasil. Diretamente do Victoria & Albert Museum, de Londres, a mostra sobre Bowie impressionou público e crítica por ser uma retrospectiva extensa dos figurinos, videoclipes, fatos e curiosidades em torno do velho camaleão. Não pude me conter de tanta felicidade e anunciei aos quatro ventos pelas redes sociais de que Bowie estava a caminho do Brasil...


            Para a felicidade geral dos fãs e especialistas em Cultura Pop, o David Bowie Archive concedeu acesso ilimitado para que o Victoria & Albert fizesse um apanhado generoso da vida e obra de um dos artistas mais revolucionários de toda a História das Artes. As influências, as ideias, as imagens icônicas, as fases musicais, os figurinos, os manuscritos, os instrumentos musicais, além de suas  expressivas incursões no cinema: todo o universo de David Bowie para entendidos e não-entendidos no assunto em questão estava a caminho de São Paulo. Haja vista que o astro desmentiu todos os rumores de que se apresentaria ao vivo para divulgar o álbum The Next Day (2013), David Bowie is... não deixava de ser uma espécie de consolo para o grande público.

            A partir do final de dezembro de 2013, a imprensa cultural e as redes sociais ferviam em torno do nome de Bowie. Minha paixão pelo astro ficou tão evidente nestes últimos meses que várias pessoas do meu círculo de contatos (amigos, alunos, colegas de trabalho...) associavam os posts no Facebook a mim quando o assunto era o evento sediado pelo MIS-SP. O jeito era esperar até o primeiro final de semana no qual a mostra estaria em São Paulo para poder visitar o velho Camaleão Inglês.


1.º Dia de Visita


            Depois de esperar alegremente pela queridíssima Marie Silvie para seguirmos de carona elegante da Barra Funda até o Jardim Europa, sabia que o tempo de espera pela exposição David Bowie is... não seria longo! Fomos surpreendidos pelo tamanho da fila que estava formada para o evento, visto que não passava das três da tarde de um sábado de verão – as pessoas poderiam estar em um shopping, em um restaurante, tomando sol na piscina, jogando conversa fora na frente da TV, mas preferiram visitar a mostra de David Bowie, para nossa completa surpresa.

            Depois de tirar fotos com a foto da entrada da exposição, uma longa fila para deixar os pertences no guarda-volumes, outra fila nas escadarias do MIS para ver Bowie. Como era sábado, dia de folga e como o “anfitrião” merecia o nosso sacrifício, 40 minutos de espera e um desaforo de um imbecil que estava na fila do bebedouro não tiraram o meu bom humor e a minha excitação. Quando finalmente entramos na primeira galeria do Museu, tenho a surpresa agradável de que necessitamos de um aparelho que capta o som de cada um dos aparelhos de TV presentes na mostra. Depois disto, estaríamos devidamente prontos para adentrar no universo camaleônico...


            E o início se deu com “Space Oddity” e a fascinação de David Bowie pelos mistérios do espaço sideral, com direito a influencias de Stanley Kubrick e o belíssimo macacão de vinil de Kansai Yamamoto para certificar de que David Robert Jones nunca pertenceu a este planeta.  Depois desta entrada memorável, estávamos prontos para conhecermos/reencontramos os manuscritos, as capas dos discos mais importantes, os livros lidos por Bowie em sua juventude e os figurinos que lhe tornaram um verdadeiro astro das artes deste planeta.

 
 
            As vestes de Ziggy Stardust, a camisa e as calças do Thin White Duke, o figurino de Jareth (de Labyrinth), os rabiscos de “Rebel, Rebel” e “Starman”, a capa polêmica (e censurada!) de Diamond Dogs (1974), a inacreditável maquete do palco da Diamond Dogs Tour (inspirado em Metropolis, de Fritz Lang), trechos da trilogia Low - Heroes - Lodger (1977-1979), a apresentação antológica de “The Man Who Sold The World” no Saturday Night Live em 1979, imagens do longa The Rise and Fall of Ziggy Stardust ... and The Spiders from Mars e da turnê Glass Spider, com direito à comoção de “Rock ‘n’ Roll Suicide” e os excessos de coreografias para as canções do controvertido álbum Never Let Me Down (1987) – tudo isto convivia com todo a força do som e da fúria que David Bowie inventou para si e que influenciou tantos artistas de gerações posteriores como Madonna, Morrissey e Lady Gaga (para não citarmos outros). Os fãs saíam estupefatos com a força do conjunto da obra de um artista singular. Os não-fãs saíam admirados com a originalidade de um dos homens que traçaram o mapa da Cultura Pop por mais de três décadas de atividades ininterruptas.
 

 
            Não é nem preciso dizer que o autor destas linhas não tinha a menor vontade de abandonar o Museu da Imagem e do Som. Abandonei o templo camaleônico, não sem antes de adquirir souvenirs da mostra: um DVD do filme Labyrinth, dois broches para decorar o meu crachá do trabalho, e quatro ímãs de geladeira para embelezar os espaços de minha convivência mais intensa – o meu ambiente de trabalho e o lugar onde moro. Tinha uma ecobag linda com uma imagem icônica do Bowie que eu queria muito levar para casa, mas levar tamanha bagatela para casa pela modesta quantia de R$ 70,00 era um desaforo que o meu bolso infelizmente não podia permitir. Fui jantar depois em uma padaria na Rua Estados Unidos feliz e contente, como se tivesse visto David Bowie in person...

 



Depois da Visita

            Como fui visitar a mostra do MIS-SP no primeiro final de semana, vários conhecidos meus conferiram a mostra e compartilharam suas impressões nas redes sociais. Alguns se lembraram carinhosamente de mim durante suas visitas ao velho camaleão inglês, principalmente, pelo fato de que eu procuro tocar David Bowie sempre que posso (seja na sala de aula, seja compartilhando vídeos no Blog e/ou no Facebook).

            Além disto, tive a oportunidade de participar de algumas conversas bem interessantes sobre David Bowie. Alguns diziam que não entendiam o fato da mostra ter se concentrado tanto nos figurinos do artista – procurava justificar dizendo que a essência incomum do tema da mostra residia no fato de que a som e visão precisam caminhar juntos para que possamos entender a complexidade da arte do velho camaleão. Outros vinham conversar comigo e não escondiam a surpresa diante do fato de Bowie ser um artista tão completo. E o melhor de tudo: ganhei de presente de aniversário o livro-catálogo da mostra David Bowie is... com direito às imagens e textos de especialistas sobre um dos artistas mais inventivos dos últimos tempos. Minha biblioteca de música ficou muito mais rica e colorida com o presentaço que ganhei!


            Pensei, no calor de minha inocência daquele rapaz de 19 anos de idade, que iria visitar o Bowie tantas vezes enquanto ele estivesse no MIS-SP como se fosse uma Beatlemaníaca que assistir A Hard Day’s Night ou Help! de oito a dez vezes. Afinal, para um indivíduo que vive e trabalha na Zona Leste de São Paulo, uma ida semanal ao Jardim Europa não é algo tão simples de se fazer quando há tantas responsabilidades rotineiras pela frente (este Blog querido e empoeirado, dentre elas!). O Museu da Imagem e do Som de São Paulo registrou recordes e mais recordes de público por causa de David Bowie (foi a segunda mostra mais visitada em todo o histórico do museu). Até o final desta temporada histórica, o velho Vinil não vai deixar de assinar o seu modesto nome na lista das multidões que foram venerar a arte indefectível do Velho Camaleão...

            Apesar de (quase) todo o legado do David Bowie Archive estar relegado a um “museu de grandes novidades”, o som e a visão de David Bowie jamais demonstra sinais de envelhecimento! Simplesmente porque são atemporais e, principalmente, porque previram a beleza e a frieza das relações humanas em tempos de, como diria Zygmunt Bauman, plena liquidez. No entanto, a densidade de artistas do quilate de David Robert Jones foram os grandes diferenciais para que possamos viver o tempo presente com mais encanto e lucidez...  
 

2.º Dia de Visita


            Os astros gostam de fazer ironias com algumas pessoas e devo confessar que estou no TOP 10 das pessoas que mais recebem brincadeirinhas deste tipo. Depois de uma série de encontros e desencontros, lá estava Vinil velho de guerra na fila para a penúltima noite de exibição da mostra David Bowie Is... Ao contrário dos 40 minutos da primeira visita, tivemos que esperar um pouco mais de QUATRO HORAS para poder rever David Bowie em som e visão. Sim, sou louco! Mas não poderia deixar de perder a oportunidade de rever meu camaleão preferido pela última vez...

            Desta vez, meu foco estava voltado para algumas coisas específicas: queria revisitar a parte da exposição dedicada aos “Sons de Berlim”, os ternos que Bowie usou para cantar “Young Americans” e “Life on Mars?” e para encarnar o Thin White Duke, a sala oval que tocava os vídeos de “Rock ‘n’ Roll Suicide” (com direito a lágrimas que escorriam livremente) e trechos da turnê Diamond Dogs em um caleidoscópio de imagens e sons inebriantemente ensurdecedores. Valeu a pena ficar um pouco mais de 240 minutos em fila esperando por Bowie. Especialmente porque o MIS-SP, editou um catálogo exclusivo da mostra que passou por São Paulo que foi adquirido sem pestanejar, além da possibilidade de poder tirar fotos (sem flash!) dos manuscritos, figurinos e outros instrumentos que fizeram de David Robert Jones um dos arautos mais incontestes de toda a história da Arte.

            Saí exausto do Jardim Europa, porém renovado de uma maneira como se tivesse assistido a David Bowie no Morumbi, no Maracanã, em Wembley ou (por que não ousar dizer?) na minha sala de estar com toda a beleza que os padrões de alta definição de imagem e som poderiam me proporcionar. Que adolescente nunca sonhou com uma experiência de tamanha magnitude? Eu tive, no alto dos meus 33 anos de adolescência...

 

1 de agosto de 2014

TROVA # 34


O Plural (Perdido) de Gal Costa

A felicidade de encontrar um CD raro da musa tropicalista durante minhas férias de verão em São Luís do Maranhão

Gal Costa, Plural (1990)




“Gal dolce still nuovo é a minha dita dicha

Ser plural é detonar toda raiz e detonar-se enquanto raiz

E subdividir-se e multiplicar-se”

(Waly Salomão – Rio de Janeiro, 13 de Julho de 1989)


Um dos meus passatempos preferidos quando viajo de férias é visitar alguma livraria e/ou sebo pela qual estou de passagem. Isto me dá a oportunidade de conhecer um pouquinho melhor a cultura local, como também me dá a oportunidade de garimpar raridades musicais que se encontram indisponíveis dentro do eixo Rio-São Paulo, onde me criei e ainda vivo.

Em São Luís do Maranhão não foi muito diferente de minhas experiências anteriores. Ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico da capital maranhense, avistar um sebo cuja área nos permitia acesso a um restaurante de comida típica com ar condicionado era adentrar um verdadeiro oásis, visto que o calor do verão já tinha me cozinhado consideravelmente. Como não tenho vocação para carne de sol (apesar de ser bem moreno), resolvi me apressar e seguir rumo ao restaurante. Depois de alguns minutos já me sentia à vontade para explorar o que o sebo Poeme-se tinha para me oferecer.

Quando o funcionário do sebo me informou que eu poderia me aproximar das estantes de CDs para verificar o que eles possuíam no acervo, fui tomado de uma súbita felicidade misturada com curiosidade e excitação. Música internacional, música clássica, música maranhense, música brasileira... Resolvi me ater à última seção para ver se encontrava algo que realmente valesse a pena. Letra A, letra B, C, D, E, F e nada interessante... Eis que chego à letra G e me deparo com mais uma raridade musical, talvez uma das joias mais raras da MPB: o álbum Plural, lançado por Gal Costa em 1990!

E por que raios este CD ainda é uma pérola rara? Primeiramente porque recebeu pouquíssimas edições; Segundo, porque já tinha perdido as esperanças de ter uma cópia original na minha coleção de Gal porque as ofertas por este disco ultrapassavam a faixa dos 400 reais no Mercado Livre; Terceiro e mais importante de tudo, porque o preço oferecido por esta raridade era irresistível: R$12! Vinil não poderia ter ficado mais feliz diante de situação tão inusitada...

*

Gal & Waly

Produzido pelo renomado saxofonista Leo Gandelman, Plural foi o reencontro da parceria Gal Costa – Waly Salomão depois de quase 20 anos sem trabalhar juntos (a última parceria da dupla tinha sido justamente o inesquecível show / disco FaTal: Gal a Todo Vapor, que revolucionou a música brasileira entre 1971 e 1972). O repertório, selecionado pelo poeta baiano, vai de canções de Caetano Veloso – “Nua Ideia (Leila XII) (parceria com João Donato e tema dos personagens de Antônio Fagundes e Cláudia Raia na novela Rainha da Sucata)” e “A Verdadeira Baiana” –, criações inéditas da emergente Axé Music, até parcerias inusitadas de Arnaldo Antunes & Jorge Benjor (“Cabelo”) e João Bosco, Waly e Antônio Cícero (“Holofotes”), passando por clássicos icônicos da canção brasileira – “Fon Fon” (João de Barro & Alberto Ribeiro) e “Alguém me Disse” (Jair Gouveia & Evaldo Amorim) – e standards da canção norte-americana – “Begin the Beguine” (Cole Porter) e “I Didn’t Know What Time It Was” (Richard Rodgers & Lorenz Hart).

O resultado final desta seleção reflete a multiplicidade de estilos e tendências que Gal conseguiu aglutinar em seu canto – daí o título do disco, que resultou em um dos shows mais populares de toda a carreira da artista. Depois de ter amargado um de seus maiores fracassos com o show e disco Lua de Mel como o Diabo Gosta, em 1987, a eterna Musa Tropicalista conseguiu ressurgir para os olhares do público e da crítica com todo o brilho e a pompa merecida!


Gal Costa em cena durante o show Plural



*

Gal Costa no Rio de Janeiro em Maio de 1991.


         Depois de ter tido feito o que deveria para poder chamar aquela raridade minha e só minha, aproveitei a chance para almoçar no restaurante anexo ao sebo. Com direito a doses generosas de Guaraná Jesus (a coisa mais importante do Maranhão, depois de Alcione!) evidentemente... Com a minha meta de raridades batida por ora, já estava preparado para poder percorrer as ruas do Centro Histórico de São Luís do Maranhão, fazer um passeio de barco para Alcântara (não, estou mentindo!) e passar uma temporada inesquecível de cinco dias nos Lençóis Maranhenses.

         A trilha sonora daqueles dias lindos no verão maranhense? Gal Costa, claro... Se Gracinha pudesse cantar algo sobre este momento, ela até cantaria algo como “Alguém me disse que Vinil anda novamente / de novo amor, nova paixão, todo contente”; afinal de contas, motivos não me faltavam para tal...

2 de fevereiro de 2014

TROVA # 33

Rainha do Mar / Rainha da Canção
(Duas ou três coisinhas sobre Iemanjá)

 O choro de Iemanjá

 “Iemanjá andava infeliz,
 Feliz? Já nem lembrava-se desta sensação,
 Algo perturbava seu coração.

 Certo dia
 Iemanjá leu minha poesia,
 Porém fingiu que não entendia,
 Que não sentia,
 Mas eu sei que entendeu.

 Instantes depois ela começou a chorar,
 Sete dias sem parar,
 E assim formou-se o mar.”

(Jihad Velasco Traya)

Reza certa lenda de que quando o mundo tal qual conhecemos hoje estava prestes a ser feito, uma Rainha teve um papel decisivo neste processo. Iemanjá é tida como a representação do princípio feminino da criação do universo. Por ser mãe do universo e de todos os orixás, afirma-se que ela está na origem de todas as coisas. Sendo estes fatos verdadeiros ou não, o fato é de que estamos tratando de uma entidade muito poderosa e como este espaço não faz restrição a nenhum credo, por que não falarmos daquela que recebe tantas oferendas que ofertamos às aguas salgadas do mar?
Iemanjá, como sabemos, possui vários nomes: Marabô, Janaína, Dandalunda, Mucunã, etc. No entanto, nós preferimos chama-la apenas de Rainha do Mar. Seu principal elemento é a água, que simboliza as emoções humanas, por isso, é a presença que rege todos os mares. Se um dia quisermos que o mar leve todos os nossos os problemas, não deixamos de pedir para que Ela seja a responsável por tudo isso. Como escreveu o poeta e. e. cummings, “it’s always ourselves that we find at the sea” (nós sempre encontramos com nós mesmos no mar). Para encontrarmos a cada um de nós, não deixamos de ir ao encontro de Iemanjá.
A entidade era orixá dos Egbá, uma nação Iorubá que fica entre Ifé e Ibadar, na África. O nome de Iemanjá, de acordo com a cultura nagô, quer dizer “Mãe cujos filhos são peixes” (Yeyê = Mãe / Omo = Filhos / Ejá = Peixes) e protegia todos os que viviam às margens do rio Yemojá. No início do século XIX, devido às guerras entre nações iorubas, os Egbá foram obrigados a emigrar na direção oeste, o que significava que eles tinham que abandonar as imediações das águas do rio. Como não podiam levar as águas sagradas com eles, decidiram, assim, levar os objetos de adoração para saudar a Rainha do Mar. Daí o grito de saudação Odoiá, que quer dizer Mãe do Rio (odo = rio / iyá = mãe).


No Brasil, quando nos lembramos de Iemanjá, logo nos vem à mente a imagem de uma bela morena de seios fartos, longos cabelos negros, com pérolas caindo pelas mãos e uma sexualidade exuberante. Porém, a beldade passou por uns bons bocados até alcançar o poder pelo qual é tão referenciada. Por exemplo, enquanto os demais orixás tinham uma atribuição especial (Oxum tinha o zelo pela feminilidade, Ogum tinha o comando da guerra, Oxóssi era o responsável pela caça e a fortuna, Oxumaré comandava a chuva, Xangô tinha o poder dos trovões, Iansã tinha o poder dos raios, Nanã continha a sabedoria dos idosos e por aí vai...), Iemanjá era obrigada a ficar em casa a par de infinitas atribuições domésticas.
Enquanto trabalhava duro, reclamava aos borbotões nos ouvidos de Oxalá, enlouquecendo o marido em pouco tempo. Para poder curar o seu amado, a Rainha do Mar passou a tratá-lo com água fresca, pombos brancos, frutas frescas e outras especiarias. Daí o fato de muitos terem que fazer as chamadas oferendas para Iemanjá e lançá-las às aguas do mar.
Graças à cura de Oxalá, a Rainha do Mar passou a auxiliar Olodumaré na criação do mundo. Passou a governar os mares e logo tomou desgosto pela função, visto que muitos seres humanos tinham o péssimo hábito de lançar seu lixo às aguas do mar. Depois de reclamar de que sua casa vivia suja com a imprudência dos outros, Iemanjá ganhou o dom de devolver às praias tudo o que os humanos atirassem de ruim em seu reino – daí o surgimento das ondas, que trazem para a terra firma tudo o que não pertence ao mar. E assim se fez boa parte da história da humanidade de acordo com os orixás...

*

Fevereiro é mês de Iemanjá. E creio que nenhuma orixá foi tão celebrada através de belas canções como a Rainha do Mar – Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro e Vinícius de Moraes que o digam... Confesso que fico impressionado com a enxurrada de homenagens à dona do Reino das Águas nas redes sociais todo dia 2 de fevereiro. Na verdade, fiquei encantado com o que já se produziu em termos de canção popular no que diz respeito à Iemanjá. E o mais impressionante para mim foi a diversidade de intérpretes destas canções tão belas: Mariene de Castro, Clara Nunes, Maria Creuza, Marisa Monte, Margareth Menezes, Gal Costa, Alcione, Rita Ribeiro (não adianta me dizer que hoje ela se chama “Rita Benneditto”, para mim ela vai ser sempre Rita Ribeiro! rsrs), Nana Caymmi, Maria Bethânia e por aí vai...
Por isso, vamos celebrar o legado de Iemanjá e pedir para que ela sempre nos proteja e abra os nossos caminhos. Odoiá!

10 ODES MUSICAIS À IEMANJÁ QUE VOCÊ PRECISA OUVIR:
 
Marisa Monte representando Iemanjá durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres (2012).

10) Gal Costa – Caminhos do Mar

“O canto vinha de longe
 De la do meio do mar
 Não era canto de gente
 Bonito de admirar”
 

9) Mariene de Castro – Prece de Pescador (Canto a Iemanjá)

“Mas se a tristeza tem dia
 Tua força me guia meu caminho é o mar
 E que me lancem as pedras
 Yemanjá faz areia pra não machucar”



8) Alcione – Brasil com Z é pra Cabra da Peste

“Padim Padre Ciço, faça chover alegria
 Pra que cada gota seja o pão de cada dia
 Jogo flores ao mar pra saudar Iemanjá
 E na lavagem do Bonfim, eu peço axé”
 


7) Maria Creuza – Maria Vai com As Outras

“Maria que não foi com as outras
Maria que não foi pro mar
No dia dois de fevereiro
Maria não bincou na festa de Iemanjá

Não foi jogar água de cheiro
Nem flores pra sua Orixá
A Iemanjá pegou e levou
O moço de Maria para o mar”
 


6) Monica Salmaso – Canto de Iemanjá

“Se você quiser amar
 Se você quiser amor
 Vem comigo a Salvador
 Para ouvir Iemanjá”
 


5) Maria Bethânia – Iemanjá, Rainha do Mar

“O que ela gosta?
 O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.”
 


4) Marisa Monte – Lenda das Sereias

“Ela mora no mar
 Ela brinca na areia
 No balanço das ondas
 A paz, ela semeia
 Ela mora no mar
 Ela brinca na areia
 No balanço das ondas
 A paz, ela semeia”
 

3) Família Caymmi – Dois de Fevereiro

“Dia dois de fevereiro
 Dia de festa no mar
 Eu quero ser o primeiro
 A saudar Iemanjá”
 


2) Rita Ribeiro – Rainha do Mar

“Minha sereia é rainha do mar
 Minha sereia é rainha do mar
 O canto dela faz admirar
 O canto dela faz admirar
 Minha sereia é moça bonita
 Minha sereia é moça bonita
 Nas ondas do mar
 Aonde ela habita”
 


1) Clara Nunes – Conto de Areia

“Quem foi que mandou
 O seu amor
 Se fazer de canoeiro
 O vento que rola das palmas
 Arrasta o veleiro
 E leva pro meio das águas
 de Iemanjá
 E o mestre valente vagueia
 Olhando pra areia sem poder chegar
 Adeus, amor”