3 de novembro de 2014

TROVA # 39

UMA LIÇÃO DE CORNOLOGIA COM O MESTRE MAIA
(ou amando e desamando intensamente ao som indefectível de Tim Maia)


  
As pessoas são falsas como pedras. Pensam que são superiores por estarem por cima da terra, mas esquecem que sempre tem alguém por cima delas.
(Tim Maia)

Além de ter sido o maior Mestre do Soul Brasileiro, Tim Maia se autoproclamou Mestre em Cornologia. Cantou a intensidade da cornitude mais desesperadamente do que Lupicínio Rodrigues, não tão tragicamente do que Waldick Soriano, mais debochadamente do que Roberto Carlos. Repreendeu alguns artistas de gerações posteriores a dele justificando que é preciso levar muito chifre nas ideias para que saibamos cantar a dor de corno com propriedade e respeito.
O Mestre Maia, ao contrário do seu indiscutível talento para a música, não era um hit nos assuntos amorosos. Brigava com suas esposas com a mesma voracidade com a qual bebia, comia, cheirava e fumava. Suas paixões e desilusões amorosas foram inspiração para compor e interpretar canções inesquecíveis e maravilhosas. Tim colocava tanto sentimento em suas interpretações que se tornou praticamente impossível para que nós, meros mortais, cantássemos qualquer coisa que ele já tenha cantado com um pingo de qualidade. É em momentos nos quais ouço seus discos que eu, mero aluno de canto, queria ter nascido negro e retinto quanto Macunaíma para que minha voz pudesse soar como a de Tim Maia.


Podemos enquadrar as canções de amor de Tim em três estágios de cornologia: o primeiro momento, o da pré-cornitude, consiste na descoberta do amor e no encantamento provocado pela mulher amada diante da comunhão de um sentimento supostamente em comum. Tudo soa perfeito no momento em que o amor aparece e faz do coração a sua morada. “Você”, hit icônico de Tim Maia gravado em 1971, reflete a plenitude deste encontro:

“De repente a dor
De esperar terminou
E o amor veio enfim

Eu que sempre sonhei
Mas não acreditei
Muito em mim

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez
Mas desta vez

Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor”


         No entanto, a desilusão amorosa surge tão rapidamente quanto à chegada das paixões avassaladoras e corroem a esperança no amor. É o momento da cornitude plena. O resultado se mostra através do ódio, do desespero fruto do abandono e do desejo insaciável de vingança. “Sofre”, lado B gravado por Tim Maia em 1972, se inicia com um trecho falado no qual o compositor expõe suas frustrações para depois expiar a sua dor, sem rodeios, sem meias-palavras. Um detalhe que não devemos deixar de compartilhar aqui é o de que este mesmo procedimento foi adotado pelo artista 11 anos depois em uma canção que se tornou o estandarte principal da cornologia: “Me Dê Motivo”, de Michael Sullivan e Paulo Massadas. Para Tim Maia, cornitude é um estado cíclico:


“Não vou mais chorar,
mas se eu chorar
vai ser baixinho
pra ninguém me ver
O quanto eu sofro,
pois amei você.

E vou seguir meu caminho triste
Como antes de te conhecer
Porém marcado,
humilhado, magoado.
Pode ver.

Você foi mulher
Se isso é ser mulher
Está enganada, pois não é não.
Isto foi pura podridão

Se valeu do sentimento puro
e belo que eu tinha por você
para fazer as suas crueldades e maldades
Sem perdão.

Agora Sofre
Sofre
Todo mal que cê me fez
Você bem cedo irá pagar!

Disse a todo mundo eu que era o mal
E, no entanto foi você quem riu.
E quem me fez penar!”


         Diante da dor inevitável e da solidão, não restam muitas opções para o pobre homem: ou ele vive em meio aos fantasmas do passado, ou ele decide sair em busca daquilo que tinha sido perdido. É o estágio da pós-cornologia! Ao se encontrar no meio deste estágio, Tim Maia não pensaria duas vezes: ele preferiria engolir o orgulho ao invés de amargar a ausência de uma companhia. “Réu Confesso”, samba-rock de 1973, é um pedido de desculpas à mulher amada. O autor diz que a culpa de todos os males do mundo se deve a ele mesmo e que é impossível viver sem a presença de sua amada:

“Venho lhe dizer
se algo andou errado
Eu fui o culpado,
rogo o seu perdão
Venho lhe seguir,
lhe pedir desculpas
Foi por minha culpa
a separação

Devo admitir
que sou réu confesso
E por isso eu peço,
peço pra voltar
Longe de você
já não sou mais nada
Veja é uma parada
viver sem te ver

Longe de você
já não sou mais nada
Veja é uma parada
viver sem te ver
Perto de você
eu consigo tudo
Eu já vejo tudo
peço pra voltar

Devo admitir
que sou réu confesso
E por isso eu peço,
peço pra voltar

Longe de você
já não sou mais nada
Veja é uma parada
viver sem te ver
Perto de você
eu consigo tudo
Eu já vejo tudo
peço pra voltar”


         Através de Tim Maia, podemos aprender um pouquinho sobre os três estágios básicos da ciência da cornologia. Diante de um universo amoroso em pleno desencanto (sem nenhuma referência à seita da qual ele fazia parte em meados da década de 1970), é impossível não cantá-lo com todo o soul e o groove que possa existir no mundo. Afinal de contas, já que o sofrimento é inevitável, que o cantemos de forma digna, visto que só existe dignidade na cornitude!



         Salve, Tim Maia! Obrigado por mais esta grande lição, caro amigo!

13 de outubro de 2014

TROVA # 38

O JOGO PERIGOSO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
(ou "Vote em Mim!")


A cada quatro anos votamos para Presidente da República. Desde que a Ditadura Militar foi extinta e a democracia voltou para a pauta política do Brasil aos poucos, não temos outra saída a não ser "participar da festa da democracia". Desde a reimplantação do regime democrático neste país há quase três décadas, elegemos um morto que nos trouxe um vice-presidente oligárquico e incompetente, um Casanova lunático e que foi derrubado após dois anos de um governo corrupto e que massacrou os Trabalhadores, um sociólogo que colocou a economia brasileira dentro de um certo eixo em quatro anos de governo (mas que cometeu o erro fatal de ser reeleito através de uma compra de votos e teve que enfrentar uma das crises econômicas mundiais mais agudas da História - e como havíamos nos alinhado desastrosamente a um único país, todo o reflexo se deu nas nossas casas) e que ordenou que esqueçamos tudo o que ele tinha escrito em anos e anos de carreira e militância acadêmica, um ex-metalúrgico messiânico e que chegou ao poder através da aliança com setores duvidosos do Poder e procurou governar para ricos e pobres (e cometeu o deslize de dizer que "não sabia" dos escândalos de corrupção em seu governo) e a Primeira Mulher a ocupar o Posto político mais alto da República Brasileira.
O Brasil mudou um pouco nestes anos de democracia ainda infantil e cambaleante. A corrupção, em parte, deixou de ser algo ignorado pela sociedade e passou a ser julgada e condenada pela burocrática e ineficiente Justiça brasileira. A miséria, antes uma constante entre milhares de brasileiros, passou a ser erradicada por programas governamentais que passaram a fazer algo pelos estratos sociais menos favorecidos da população. As minorias deixaram de ser integralmente achincalhadas para receber um pouco de consideração e respeito de muitos (não de todos, ainda...). A Classe Média, eterna reclamona, passou a viver melhor e a ter mais poder de consumo (nunca se viajou tanto para Miami e Orlando, não é mesmo?). No entanto, existe UM fenômeno que não mudou: a burrice e o egoísmo das elites brasileiras, que não reconhece os avanços feitos pelos últimos 12 anos de governo democrático. Além de desprezar (e até zombar!) dos programas sociais do atual governo, tem o poder perverso de influenciar as mentalidades daqueles que não possuem a capacidade e/ou senso crítico para enxergar os pontos positivos e insistem na maximização dos negativos.
Um dos pontos mais salientados pela "Direita" é a corrupção do Partido dos Trabalhadores. Ponto condenável, desprezível e importante de ser discutido pela sociedade brasileira SE o Partido da Social Democracia Brasileira não tivesse também sido acusado de escândalos causados por Partidários corruptos. Infelizmente, a corruptela brasileira não foi inventada em 1995 ou em 2004, ela SEMPRE fez parte da vida política brasileira. O pior é saber que não existe um verdadeiro exame histórico e um senso mais crítico por parte daqueles que criticam o governo feito pelo PT. As falhas indubitavelmente existem, mas a opção que se apresenta não é tão íntegra e imaculada do que a opção que aí está! Veja o histórico de escândalos abafados por Aécio Neves nos anos mais recentes e tire suas conclusões. Trocar seis por meia dúzia é facílimo quando a opção que se apresenta é tão duvidosa e inócua quanto a que ocupa o Palácio do Planalto. Entretanto, trocar seis por um três é um retrocesso político, social e histórico.
Apesar do Brasil ter eleito Dilma Rousseff como a "Primeira Presidenta do Brasil", sempre existiu um machismo gigantesco em torno de sua figura. Os adjetivos utilizados pelos detratores da Autoridade Máxima da Nação são dignos de nojo. Sempre prestei atenção em sua figura austera e firme desde a época em que aquela Senhora se escondia por detrás das lentes de seus óculos enquanto foi Ministra dos Governos Lula. Seu passado enquanto guerrilheira durante os primeiros anos de Ditadura Militar é recorrentemente lembrado com muito orgulho e sofrimento - sua administração foi a única que teve a coragem de instaurar uma comissão investigativa dos crimes cometidos pelos militares durante os anos de repressão. Mesmo assim, não foram poucos os que se opuseram à intitulada "Comissão da Verdade". Muitos (ex-)combatentes da ativa tremeram nas bases quando foram questionados em relação aos malfeitos cometidos durante o regime de exceção. Abrir a cortina do passado e recolher a poeira ardilosa que foi jogada para debaixo dos tapetes da tortura foi uma tarefa que nenhuma administração teve a bravura de realizar.
Além disto, os escândalos de corrupção que envolvem/envolviam o PT foram investigados e punidos durante a Era Dilma. Os casos que (ainda) envolvem os governos do PSDB em São Paulo e Minas Gerais (dois redutos clássicos dos tucanos) estão longe de serem solucionados. As políticas sociais foram o eixo central dos programas de governo de Lula e de sua sucessora - o Bolsa-Familia, o Luz para Todos, o Ciência sem Fronteiras, o PRONATEC e o Minha Casa, Minha Vida foram programas que trouxeram muitos benefícios para as camadas menos favorecidas da sociedade brasileira. Nunca tivemos índices de fome e pobreza tão baixos desde 2003. Universidades públicas foram criadas em locais mais remotos para que surgissem outras alternativas para que aqueles que jamais pudessem estudar em uma faculdade pública pudessem ter a chance de terem um Diploma (e maiores oportunidades de trabalho) nas mãos. Enquanto isto, a USP padece nas mãos dos políticos do PSDB - a melhor Universidade do Brasil está com suas finanças no vermelho, passou por um período de greve enorme entre o primeiro e o segundo semestre de 2014, além de outros problemas estruturais gravíssimos...
As políticas dedicadas às minorias poderiam ir melhor. Nossa dívida com os negros começou a ser melhor paga a partir das administrações do PT - as cotas raciais, apesar de serem plenamente controversas, deram oportunidades para muitos afro-descendentes. A Lei Maria da Penha, por outro lado, está além de uma realidade que saiu do papel. No entanto, as medidas de favorecimento para a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) estão longe de estarem concretizadas. A bancada conservadora no Congresso e na Câmara impede que direitos básicos desta minoria como a Lei que criminaliza a Homofobia seja votada, assinada e posta em prática. Se os petistas tiverem mais quatro anos em Brasília, terão que saldar este débito com muitos de nós. Se os tucanos retornarem ao Planalto, um enorme retrocesso em relação às políticas sociais entrará em curso, visto que, para Aécio Neves e seus correligionários, o Estado não deve intervir em questões sociais como estas, para não irmos além através de outros exemplos...
As elites, os trabalhadores e a Classe Média não possuem o direito de reclamar dos governos do PT. Dizem ser contra a corrupção petista, mas esquecem do quanto se favoreceram econômica e socialmente das administrações de Lula e Dilma. Os bancos, por exemplo, nunca lucraram TANTO em sua história. O IPI reduzido para os automóveis foi uma medida e tanto para que muitos tivessem um carro novo na garagem todo ano. Parece-me, portanto, que os setores mais abastados da sociedade brasileira, imbuídos de seu mais genuíno egoísmo, não querem dividir o bolo com os nossos "companheiros" nordestinos porque eles aceitam a Bolsa-Família. Demonizam as regiões Norte-Nordeste porque eles reconhecem a mão estendida pelas políticas sociais que mudaram o Brasil para melhor. Isto é, no mínimo, desesperador, pois revela um racismo e um preconceito em níveis que demonstram o quanto o Brasil é um país dividido e, infelizmente, retrógrado!
Se Dilma Rousseff for reeleita por mais quatro anos, gostaria que ela fosse uma Presidente tal qual foi descrita por Rita Lee em "Vote em Mim", canção lançada por Rita e Roberto de Carvalho em seu LP de 1982. A canção que fecha o primeiro lado do LP de Ritz retrata uma chefe da nação que pretende presidir nossos corpos, governando e anarquizando a partir de uma plataforma "do Prazer total", fazer comícios no hospício e jorrar petróleo por quaisquer orifícios. Tudo sem um pingo de demagogia, o que torna o jogo mais honesto, porém mais perigoso!


Por isto que elencados aqui e tudo o mais, faço deste post uma conclamação, um pedido para que deixemos os discursos tradicionais midiáticos, o machismo e os demais preconceitos de lado para que a Mulher mais importante do Brasil entre 2010 e 2014 dê continuidade ao seu projeto de mudanças por mais quatro anos. Fazer com o Futuro brasileiro seja melhor do que o Presente é algo que, de certa maneira, foi concretizado. Analisem as propostas que aí estão e faça uma escolha ajuizada... Se isto não for possível, ouça Rita Lee e veja, através dela, qual seria a melhor opção para o Brasil! Talvez dê certo...



Antes que eu me esqueça: eu acredito em você, Dilma Rousseff! Voto "13" depois de anos longe das urnas para que você consiga fazer as reformas das quais o Brasil tanto precisa...

29 de setembro de 2014

TROVA # 37

AS FALHAS DO DISCURSO
(ou onde as pessoas perdem a vergonha na cara em relação às coisas que dizem por aí...)



          “Alguns cientistas acreditam que hidrogênio, por ser tão abundante, é o elemento básico do universo. 
Eu questiono este pensamento. Existe mais estupidez do que hidrogênio. Estupidez é o elemento básico do universo.”
Frank Zappa

Não existe nada neste universo que me deixe mais enfurecido do que as contradições discursivas das pessoas. Em outras palavras, não há nada que me deixe mais possesso do que pessoas que são descaradamente adeptas da filosofia hipócrita do “Faça o que digo, mas não faça o que faço!”... Ficou claro ou precisamos desenhar, Sr. Leitor? Melhor não tentar a segunda opção, pois sou péssimo desenhista...
Agir de maneira coerente no mundo de hoje é algo que dá muito trabalho se você é uma pessoa medíocre, confusa e/ou populista. Não dá para viver um discurso honesto e humanista se você é uma pessoa fria, calculista, egoísta e que contribui para a perpetuação do que o bom e velho Raul Seixas chama de “belo quadro social”. Tenho uma grande dificuldade em acreditar em pessoas que prometem mundos e fundos e realizam pouco (ou nada, ou quase nada) do que dizem ser e/ou fazer... Quando não desacredito, fico com os dois pés atrás, para variar um pouco de atitude. Inflexível? Com gente desta estirpe, não concedo um milímetro da minha compaixão...
As falhas do discurso são bem evidentes quando vislumbramos exemplos clássicos do cotidiano brasileiro, tais como: as plataformas discursivas e mercadológicas de nossos políticos, o blá-blá-blá dos religiosos (católicos e evangélicos, especialmente!), ou então os chamados “comunistas de cartão de crédito” que adoram defender ideais políticos de “esquerda” enquanto vestem Prada e Lacoste, usam perfume francês e andam com o carro mais descolado, para não citarmos outras falácias já bem conhecidas. O caso que mais me atinge, por razões evidentes (sim, eu trabalho com isto!), são as contradições que estão em torno do universo da Educação no Brasil.
Vejamos os casos mais clássicos... citar filósofos e pensadores do ramo da educação como se eles fossem papas no assunto com a intensidade das palavras desses ideólogos conservadores e não praticar 10% do que eles pregavam ou defender gestão participativa em escolas regulares públicas e privadas quando mal existe um conselho escolar que discute os rumos que cada unidade escolar deve tomar ou falar sobre a importância dos valores do educador sendo você um grande ditador administrativo ou aquele papo de coordenador pedagógico que adora mostrar serviço dizendo algo como “Pode me procurar se você tiver alguma dúvida ou problema...” e na hora em que o bicho pega responde com um clássico “Mas não podemos conversar outra hora?”  ou ainda adotar o discurso de que professores tem perfis diferenciados e experiências pessoais / profissionais distintas devem trabalhar com todas as faixas etárias (esta sem dúvida é a minha preferida!) sem reclamar das dificuldades que certamente virão pelo caminho... Blá, blá, blá...
A hipocrisia das pessoas adquire facetas e posturas interessantes quando estamos diante do caso do sistema educacional brasileiro. Recentemente eu tive acessos de riso (nervosos em primeiro plano; descontraídos, momentos depois) quando recebi um convite em uma rede social para participar de uma Festa Junina de um colégio para o qual trabalhei. Nenhum problema, afinal tem certas mágoas que resolvi deixar enterradas nos subterrâneos da memória. O problema é que eu fui desligado pela Orientação Pedagógica (oi?!) da referida instituição porque eu não tinha perfil para lidar com crianças, apesar de saber lidar bem com adolescentes. E ainda ouvi a pérola, momentos antes de ser desligado do quadro de funcionários: “Professor bom é aquele que sabe trabalhar bem com alunos do Maternal até os alunos da Universidade!”... Com a passagem do tempo, aprendi a trabalhar com adolescentes, com adultos, já tive o privilégio de dar algumas aulas para Universitários e já trabalhei com Educação Infantil sem grandes conflitos. E ainda dizem que “ninguém é insubstituível”?!
O que mais me desaponta em relação às constantes falhas do discurso é a falta de reconhecimento dos esforços gigantescos que fazemos para sermos profissionais e cidadãos dignos e honestos no mundo de hoje. As falhas de nossos políticos, de nossos conhecidos, de nossos comparsas cidadãos, de nossos colegas de trabalho, de quem educamos, de quem nos educa dão margem às contradições com o esforço de um “remador de Bem-Hur”, como diria o Mestre Nelson Rodrigues. Cabe aos (in)sensatos, nós que ainda acreditamos em honestidade e coerência, levar o mundo com um olhar mais paciente e sempre pronto para nos defender do absurdo. Em um país como o nosso, isto acontece incontáveis vezes por dia...
Enquanto isso, eu prefiro fazer como o Mestre Raul Seixas: "Eu que não me sento / No trono de um apartamento / Com a boca escancarada / Cheia de dentes / Esperando a morte chegar...". Afinal, já que o disco voador não vai vir mesmo, o jeito é viver em meio às falhas e às contradições de cada dia...


TROVA # 36

A LIÇÃO DE PLANT
(ou a linha tênue do meu amor e do meu ódio por Robert Plant)


Já tentei odiar Robert Plant. Não consegui. O motivo? Uma banal implicância de fã xiita de Led Zeppelin: o fato dele se recusar a cantar os hits do Zep em uma turnê em parceria com Jimmy Page e/ou em uma possível reunião com o que sobrou da banda que levou "Black Dog" e "Stairway to Heaven" para os ouvidos do mundo inteiro...


Minha paixão pela figura e pela arte inconfundível e indefectível de Robert Anthony Plant vem desde a segunda metade da década de 1990. Enlouqueci com o som dos caras quando fui para a Faculdade de Letras, aos 19 anos de idade: comprei uma cópia usada de No Quarter (a primeira reunião bissexta de Page e Plant) e pirei com a reunião de guitarras com instrumentos marroquinos, um ensemble egípcio e uma orquestra inglesa. Tudo isto em um mesmo palco! Era algo muito insólito para 1994, na mesma época em que Kurt Cobain tinha dado um tiro não apenas em sua própria cabeça, mas na cachola do movimento grunge, na época em que o Pop precisava se reinventar, em uma era na qual velhos dinossauros como os Rolling Stones saíam novamente em turnês mundiais, lotando estádios e varrendo públicos do mundo inteiro. Era uma tentativa de Jimmy Page de reviver o Led Zeppelin. O guitarrista parcialmente conseguiu tal façanha ao se reunir com Robert Plant.





2007 trouxe uma novidade considerada impossível para os fãs mais esperançosos de Led Zeppelin. Page e Plant se uniram a John-Paul Jones e a Jason Bonham (filho de John, o MAIOR BATERISTA DE ROCK que já existiu em 2000 e poucos anos depois de Cristo!) para uma única apresentação do Led Zeppelin na recém-inaugurada 02 Arena, em Londres. O motivo não foi um presente aos fãs, muito menos um surto de camaradagem ou uma vontade de levantar cifrões por parte da banda (não podemos afirmar que este seja necessariamente o caso de Jimmy, mas isto vou deixar para depois...): a verdadeira razão foi uma homenagem que a banda fez a Ahmet Ertegun, um executivo egípcio que fundou a Atlantic Records, selo da Warner Music que colocou o Zep no mapa da música mundial. Por se tratar de um milagre que ocorreria em uma única noite, os ingressos acabaram em questão de minutos! Para que os que não puderam ter o privilégio de assistir a esta apresentação histórica, ficamos com o filme desta noite, que mostra o Led Zeppelin em pleno vapor de sua atividade.



Robert Plant, ao contrário de Jimmy Page, conseguiu reconstruir sua vida  profissional com o fim prematuro do Led Zeppelin. O vocalista deixou o luto pela morte do baterista John Bonham para trás e saiu em carreira solo. Fez discos de Pop Rock um tanto interessantes, gravou um disco maravilhoso e premiado com a cantora country Alison Krauss e, em seus trabalhos mais recentes, tem flertado com os sons e ritmos com a chamada World Music. Álbuns como Fate of Nations e Dreamland ganharam não apenas o respeito da crítica, como também a admiração do público em geral (não necessariamente fã do Zep).







Como eu andava de relações cortadas com Plant até recentemente por causa do fato dele ter esnobado Page e John-Paul Jones em uma possível reunião da banda, dei umas férias para os seus discos e vídeos disponíveis na Internet. Graças ao Vio Ray, meu admirado Professor de Canto que compartilhou um vídeo de Robert Plant no Facebook, refiz as pazes com a obra deste cantor lendário. É fato que a voz dele não alcança mais aqueles agudos insólitos de "Black Dog" e "Whole Lotta Love", mas o brilho dos graves e de alguns agudos continuam. A intensidade das interpretações e o fraseado de Robert continuam mais fortes do que nunca estiveram. E, no alto de seus sessenta e poucos anos, Robert ainda arranca suspiros de minha gente...


Poucos dias depois de ver o vídeo de Plant no YouTube (santa Internet!), soube que havia um disco gravado e que estava para ser lançado. Lullaby... and the Ceaseless Roar, gravado em pareceria com os Sensational Space Shifters é um tremendo petardo musical: ritmos de matrizes africanas  são justapostos a blues, rock, bluegrass, folk e (por quê não dizer?) Pop, resultando em uma massa sonora densa e de grande complexidade. A voz de Robert Plant continua trazendo efeitos lancinantes e hipnóticos para aqueles que ainda sentem prazer em ver um CD na loja, comprá-lo e ouvi-lo no seu PC ou no seu aparelho de som. Isto sem mencionarmos a capa do álbum, que traz uma concha envolta em um fundo cinzento e nebuloso. Ouça a Lullaby de Plant e dos Space Shifters, mas não deixe de apertar os cintos para esta viagem musical turbulenta.


Lullaby... and the Ceaseless Roar foi o motivo necessário para que eu declarasse trégua a Robert Plant. Decidi, inclusive, jogar fora uma carta imaginária que eu iria enviar à eterna voz do Led Zeppelin que pensei em postar aqui. Primeiramente: o disco é maravilhoso; Segundo: porque não senti saudades do Zep (caso eu sinta, posso ver e/ou ouvir Celebration Day no aparelho de som e/ou no aparelho de DVD); Terceiro e mais importante: porque a beleza da voz de Plant é atemporal e ele faz questão de olhar para o futuro e não se vangloriar dos feitos do passado. Afinal, como tudo nesta vida, precisamos olhar para a frente e não precisamos revirar os baús e arquivos em busca de feitos brilhantes (certo, Jimmy Page?).




Valeu pela lição, Robert Plant. Queria cantar e/ou compor tão bem como vc. Se eu tivesse um centésimo do seu talento, eu certamente seria um músico de verdade... ;-)


5 MOMENTOS SOLO DE ROBERT PLANT QUE NÃO NOS DÃO A MENOR SAUDADE DO LED ZEPPELIN:


1) 29 Palms

2) Sea of Love

3) Song to the Siren

4) If I were a Carpenter

5) I Believe

E não deixe de conferir a participação de Plant no Tonight Show with Jimmy Fallon:

http://consequenceofsound.net/2014/09/led-zeppelins-robert-plant-conquers-jimmy-fallon-with-two-song-performance-watch/

6 de agosto de 2014

TROVA # 35


DAVID BOWIE ÉSOM & VISÃO
(UM MINI-DIÁRIO DE VISITAS DA PASSAGEM DA
EXPOSIÇÃO DAVID BOWIE IS... POR SÃO PAULO)

 


 

Antes da Visita

            Em meados do 1.º Semestre de 2013, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo anunciou que a exposição David Bowie is... viria para o Brasil. Diretamente do Victoria & Albert Museum, de Londres, a mostra sobre Bowie impressionou público e crítica por ser uma retrospectiva extensa dos figurinos, videoclipes, fatos e curiosidades em torno do velho camaleão. Não pude me conter de tanta felicidade e anunciei aos quatro ventos pelas redes sociais de que Bowie estava a caminho do Brasil...


            Para a felicidade geral dos fãs e especialistas em Cultura Pop, o David Bowie Archive concedeu acesso ilimitado para que o Victoria & Albert fizesse um apanhado generoso da vida e obra de um dos artistas mais revolucionários de toda a História das Artes. As influências, as ideias, as imagens icônicas, as fases musicais, os figurinos, os manuscritos, os instrumentos musicais, além de suas  expressivas incursões no cinema: todo o universo de David Bowie para entendidos e não-entendidos no assunto em questão estava a caminho de São Paulo. Haja vista que o astro desmentiu todos os rumores de que se apresentaria ao vivo para divulgar o álbum The Next Day (2013), David Bowie is... não deixava de ser uma espécie de consolo para o grande público.

            A partir do final de dezembro de 2013, a imprensa cultural e as redes sociais ferviam em torno do nome de Bowie. Minha paixão pelo astro ficou tão evidente nestes últimos meses que várias pessoas do meu círculo de contatos (amigos, alunos, colegas de trabalho...) associavam os posts no Facebook a mim quando o assunto era o evento sediado pelo MIS-SP. O jeito era esperar até o primeiro final de semana no qual a mostra estaria em São Paulo para poder visitar o velho Camaleão Inglês.


1.º Dia de Visita


            Depois de esperar alegremente pela queridíssima Marie Silvie para seguirmos de carona elegante da Barra Funda até o Jardim Europa, sabia que o tempo de espera pela exposição David Bowie is... não seria longo! Fomos surpreendidos pelo tamanho da fila que estava formada para o evento, visto que não passava das três da tarde de um sábado de verão – as pessoas poderiam estar em um shopping, em um restaurante, tomando sol na piscina, jogando conversa fora na frente da TV, mas preferiram visitar a mostra de David Bowie, para nossa completa surpresa.

            Depois de tirar fotos com a foto da entrada da exposição, uma longa fila para deixar os pertences no guarda-volumes, outra fila nas escadarias do MIS para ver Bowie. Como era sábado, dia de folga e como o “anfitrião” merecia o nosso sacrifício, 40 minutos de espera e um desaforo de um imbecil que estava na fila do bebedouro não tiraram o meu bom humor e a minha excitação. Quando finalmente entramos na primeira galeria do Museu, tenho a surpresa agradável de que necessitamos de um aparelho que capta o som de cada um dos aparelhos de TV presentes na mostra. Depois disto, estaríamos devidamente prontos para adentrar no universo camaleônico...


            E o início se deu com “Space Oddity” e a fascinação de David Bowie pelos mistérios do espaço sideral, com direito a influencias de Stanley Kubrick e o belíssimo macacão de vinil de Kansai Yamamoto para certificar de que David Robert Jones nunca pertenceu a este planeta.  Depois desta entrada memorável, estávamos prontos para conhecermos/reencontramos os manuscritos, as capas dos discos mais importantes, os livros lidos por Bowie em sua juventude e os figurinos que lhe tornaram um verdadeiro astro das artes deste planeta.

 
 
            As vestes de Ziggy Stardust, a camisa e as calças do Thin White Duke, o figurino de Jareth (de Labyrinth), os rabiscos de “Rebel, Rebel” e “Starman”, a capa polêmica (e censurada!) de Diamond Dogs (1974), a inacreditável maquete do palco da Diamond Dogs Tour (inspirado em Metropolis, de Fritz Lang), trechos da trilogia Low - Heroes - Lodger (1977-1979), a apresentação antológica de “The Man Who Sold The World” no Saturday Night Live em 1979, imagens do longa The Rise and Fall of Ziggy Stardust ... and The Spiders from Mars e da turnê Glass Spider, com direito à comoção de “Rock ‘n’ Roll Suicide” e os excessos de coreografias para as canções do controvertido álbum Never Let Me Down (1987) – tudo isto convivia com todo a força do som e da fúria que David Bowie inventou para si e que influenciou tantos artistas de gerações posteriores como Madonna, Morrissey e Lady Gaga (para não citarmos outros). Os fãs saíam estupefatos com a força do conjunto da obra de um artista singular. Os não-fãs saíam admirados com a originalidade de um dos homens que traçaram o mapa da Cultura Pop por mais de três décadas de atividades ininterruptas.
 

 
            Não é nem preciso dizer que o autor destas linhas não tinha a menor vontade de abandonar o Museu da Imagem e do Som. Abandonei o templo camaleônico, não sem antes de adquirir souvenirs da mostra: um DVD do filme Labyrinth, dois broches para decorar o meu crachá do trabalho, e quatro ímãs de geladeira para embelezar os espaços de minha convivência mais intensa – o meu ambiente de trabalho e o lugar onde moro. Tinha uma ecobag linda com uma imagem icônica do Bowie que eu queria muito levar para casa, mas levar tamanha bagatela para casa pela modesta quantia de R$ 70,00 era um desaforo que o meu bolso infelizmente não podia permitir. Fui jantar depois em uma padaria na Rua Estados Unidos feliz e contente, como se tivesse visto David Bowie in person...

 



Depois da Visita

            Como fui visitar a mostra do MIS-SP no primeiro final de semana, vários conhecidos meus conferiram a mostra e compartilharam suas impressões nas redes sociais. Alguns se lembraram carinhosamente de mim durante suas visitas ao velho camaleão inglês, principalmente, pelo fato de que eu procuro tocar David Bowie sempre que posso (seja na sala de aula, seja compartilhando vídeos no Blog e/ou no Facebook).

            Além disto, tive a oportunidade de participar de algumas conversas bem interessantes sobre David Bowie. Alguns diziam que não entendiam o fato da mostra ter se concentrado tanto nos figurinos do artista – procurava justificar dizendo que a essência incomum do tema da mostra residia no fato de que a som e visão precisam caminhar juntos para que possamos entender a complexidade da arte do velho camaleão. Outros vinham conversar comigo e não escondiam a surpresa diante do fato de Bowie ser um artista tão completo. E o melhor de tudo: ganhei de presente de aniversário o livro-catálogo da mostra David Bowie is... com direito às imagens e textos de especialistas sobre um dos artistas mais inventivos dos últimos tempos. Minha biblioteca de música ficou muito mais rica e colorida com o presentaço que ganhei!


            Pensei, no calor de minha inocência daquele rapaz de 19 anos de idade, que iria visitar o Bowie tantas vezes enquanto ele estivesse no MIS-SP como se fosse uma Beatlemaníaca que assistir A Hard Day’s Night ou Help! de oito a dez vezes. Afinal, para um indivíduo que vive e trabalha na Zona Leste de São Paulo, uma ida semanal ao Jardim Europa não é algo tão simples de se fazer quando há tantas responsabilidades rotineiras pela frente (este Blog querido e empoeirado, dentre elas!). O Museu da Imagem e do Som de São Paulo registrou recordes e mais recordes de público por causa de David Bowie (foi a segunda mostra mais visitada em todo o histórico do museu). Até o final desta temporada histórica, o velho Vinil não vai deixar de assinar o seu modesto nome na lista das multidões que foram venerar a arte indefectível do Velho Camaleão...

            Apesar de (quase) todo o legado do David Bowie Archive estar relegado a um “museu de grandes novidades”, o som e a visão de David Bowie jamais demonstra sinais de envelhecimento! Simplesmente porque são atemporais e, principalmente, porque previram a beleza e a frieza das relações humanas em tempos de, como diria Zygmunt Bauman, plena liquidez. No entanto, a densidade de artistas do quilate de David Robert Jones foram os grandes diferenciais para que possamos viver o tempo presente com mais encanto e lucidez...  
 

2.º Dia de Visita


            Os astros gostam de fazer ironias com algumas pessoas e devo confessar que estou no TOP 10 das pessoas que mais recebem brincadeirinhas deste tipo. Depois de uma série de encontros e desencontros, lá estava Vinil velho de guerra na fila para a penúltima noite de exibição da mostra David Bowie Is... Ao contrário dos 40 minutos da primeira visita, tivemos que esperar um pouco mais de QUATRO HORAS para poder rever David Bowie em som e visão. Sim, sou louco! Mas não poderia deixar de perder a oportunidade de rever meu camaleão preferido pela última vez...

            Desta vez, meu foco estava voltado para algumas coisas específicas: queria revisitar a parte da exposição dedicada aos “Sons de Berlim”, os ternos que Bowie usou para cantar “Young Americans” e “Life on Mars?” e para encarnar o Thin White Duke, a sala oval que tocava os vídeos de “Rock ‘n’ Roll Suicide” (com direito a lágrimas que escorriam livremente) e trechos da turnê Diamond Dogs em um caleidoscópio de imagens e sons inebriantemente ensurdecedores. Valeu a pena ficar um pouco mais de 240 minutos em fila esperando por Bowie. Especialmente porque o MIS-SP, editou um catálogo exclusivo da mostra que passou por São Paulo que foi adquirido sem pestanejar, além da possibilidade de poder tirar fotos (sem flash!) dos manuscritos, figurinos e outros instrumentos que fizeram de David Robert Jones um dos arautos mais incontestes de toda a história da Arte.

            Saí exausto do Jardim Europa, porém renovado de uma maneira como se tivesse assistido a David Bowie no Morumbi, no Maracanã, em Wembley ou (por que não ousar dizer?) na minha sala de estar com toda a beleza que os padrões de alta definição de imagem e som poderiam me proporcionar. Que adolescente nunca sonhou com uma experiência de tamanha magnitude? Eu tive, no alto dos meus 33 anos de adolescência...