O Brasil é um país de cantoras extraordinárias. E de atrizes
fantásticas. No entanto, pouquíssimas brasileiras conseguem compor estas
galerias com tanta presença e classe como conseguiu Marília Soares Marzullo Pêra. Para
mim, uma aquariana que fazia anos um dia antes do meu aniversário. Para nós,
singelos mortais, a grande atriz Marília Pêra. Para a classe artística, uma
verdadeira unanimidade. Para as artes do Planeta, uma das maiores artistas que
surgiram por aqui em todos os tempos. A partir de 5 de dezembro de 2015, mais
uma estrela a brilhar em uma galáxia bem distante, bem longínqua...
Meu último sábado que antecedia as férias de dezembro de um longo e
exaustivo ano começou com um gosto bem amargo. Ao acordar, por volta de 11
horas de manhã, soube que Marília Pêra tinha morrido, serena e discreta, aos 72
anos de idade, vítima de um câncer. Dentre inúmeras fotos que se repetiam pelas
redes sociais, pelas páginas de notícias da Internet e inúmeros flashes da Globo News, surgiam
homenagens, depoimentos e uma comoção coletiva diante da partida de uma das
artistas mais empenhadas que já conhecemos. A tristeza foi automática e
inevitável.
Comecei a me lembrar da única noite em que assisti Marília Pêra cantando
e atuando no teatro. Fiquei encantado quando a vi ao lado de Miguel Falabella
em uma montagem brasileira de Hello,
Dolly! em uma breve temporada pelo Teatro Bradesco. O que eu achei mais
encantador na versão nacional do texto da Broadway foi que ela conseguiu dar um
toque de humor e leveza extremamente autênticos à trambiqueira Dolly Levi, sem
deixar de descaracterizar o texto original. Não consigo esquecer dos figurinos,
da música e do belo sorriso que ela ostentava em cada troca de figurino, em
cada coreografia, em cada riso arrancado da plateia. Fiquei encantado com a energia
e a beleza daquele trabalho por dias. Taí os verdadeiros poderes de uma
estrela...
Marília Pêra na versão brasileira de Hello, Dolly! (2013), com direção de Miguel Falabella.
Feiticeira (1975)
Gosto bastante de Feiticeira, disco de Marília baseado em um show com roteiro de Fauzi Arap e Nelson
Motta em 1975, que foi um fracasso retumbante. Primeiro porque há a fina flor
do que existia (e ainda existe) de melhor na música brasileira da época naquele
disco: Lamartine Babo, Eduardo Dussek, Luhli & Lucina, Geraldo Azevedo, Walter
Franco, Jorge Mautner, Alceu Valença, Jards Macalé, etc. Segundo e melhor de
tudo: ao ouvirmos Marília Pêra em disco temos a noção de que estamos ouvindo um
espetáculo grandioso, pomposo, de grande envergadura em plena ação. Ouço
"Alô Alô Brasil" e minha imaginação já me remete a imensos cenários
em verde e amarelo, com bananas em riste, revelando o Brasil tão bem cantado
por Carmen Miranda, a Pequena Notável que ela homenageou diversas vezes nos
palcos deste país. "Bentevi" nos emociona pela beleza e nos dá
vontade de sair dançando com os braços abertos, chamando os pássaros para
conviver do mesmo espaço aberto e pedir para que eles nos levem voando ao léu,
livres e descompromissados. O "Samba dos Animais", “Estado de Choque”
e "A Natureza" por outro lado, ainda são de uma atualidade
impressionante... Um grande álbum de uma atriz que cantava muitíssimo bem!
Marília Pêra era uma grande estrela de musicais e foi uma das pioneiras
do gênero no Brasil. Conseguia cantar magistralmente Dalva de Oliveira,
Lamartine Babo, Carmen Miranda com a mesma naturalidade que interpretava uma
Maria Callas ou a obra de Ary Barroso. Sua voz mansa e discreta fora de cena
contrastava com a sua presença histriônica e marcante quando estava em cima do
palco. Em alguns momentos, chegava até a assustar os menos acostumados com o
seu estilo. Em outros, encantava profundamente as plateias que a assistiam. A interpretação
de "120, 150, 200 km/h", de Roberto & Erasmo, é um exemplo
clássico do quanto os opostos colidem de maneira um tanto, digamos,
surpreendente...
Se pudesse resumir tudo o que Marília Pêra foi em apenas uma única
imagem, não hesitaria em dizer que ela era uma bela feiticeira. Não daquelas
feiosas que fazem coisas malévolas e que trazem o mal, mas daquelas que só
semearam o que existe de melhor nos seres humanos. Suas feitiçarias lhe
permitiriam que ela se transformasse em quem ela pudesse, viver as vidas que
ela quisesse por duas horas ou mais. Assim, nós, mortais e comuns, tentamos ir
em busca de sentido e compreensão para o que há de mais indecifrável: a vida...
Marília como a personagem Juliana na minissérie O Primo Basílio (1988), baseada no romance de Eça de Queirós, uma de suas performances mais aclamadas e inesquecíveis.
(Antonio Cicero & Arthur Nogueira –
“Sem Medo Nem Esperança”, faixa de abertura do CD/SHOW Estratosférica, de Gal Costa)
Existem poucas cantoras da chamada "MPB" que me encantem tanto
nos tempos de hoje como Gal Costa. Compreendi uma boa parcela da preciosidade
de seu canto e da sofisticação de sua voz depois que troquei o Rio por São
Paulo, ou seja, depois dos meus 25 anos de idade, momento em que atingi o
primeiro estágio da maturidade. Meus difíceis primeiros anos na Selva de Pedra
do Planalto de Piratininga foram embalados pela presença doce da arte de
Gracinha com Índia, Fa-Tal, Gal Tropical e o lendário disco que tem "Divino,
Maravilhoso" e "A Coisa Mais Linda que Existe". Meu mundo se
tornou bem melhor por causa dela.
Desde que comecei a escrever os textos do Trovas de Vinil, ela passou a ser uma presença constante, uma
figurinha mais do que carimbada. Ou mais do que isso: passou a ser a inspiração
de vários dos meus sentimentalismos musicais que eu tentei verter em forma de
crônica. Vibrei intensamente com a indescritível estranheza áspera de Recanto, álbum e show que trouxe
Gracinha de volta para os braços do público depois de anos fora dos palcos e
dos discos. No entanto, fiquei ainda mais animado com a leveza e a ousadia de Estratosférica, CD lançado por Gal no
primeiro semestre de 2015 e que reúne veteranos e músicos menos conhecidos dos
ouvintes da dita "música brasileira tradicional". Kassin, Moreno
Veloso e Marcus Preto conseguiram fazer com que Gal Costa soasse
irrepreensivelmente contemporânea para aqueles que ouviriam sua voz ao fim da
primeira metade dos anos 2010 sem que ela soasse modernosamente pretensiosa ou
excessivamente revisionista. As canções não reuniam a aspereza radical de seu
trabalho anterior: havia uma alegria colorida ensolarada ausente na escuridão
de poucos anos antes. Enquanto os puristas e críticos mais chatinhos resolveram
cair de pau na nave musical de Lady Gal,
decidi voar pelos céus de brigadeiro que a eterna musa tropicalista resolvera
abrir para nós sem um pingo de medo e com a plena esperança de reencontrá-la
onde ela reina com toda a graça: nos palcos...
Depois de uma tentativa frustrada no início de 2015, finalmente
conseguimos assistir uma belíssima apresentação do recital Espelho D'Água no local mais apropriado para cultuarmos a arte da
eterna musa das lendárias dunas de Ipanema: o Teatro J. Safra, devidamente
acomodado na primeira fila da sala de espetáculos, sem a interferência de
garçons, lanternas, garrafas de cerveja ou fãs desejosos em tirar selfies (existe breguice maior a ser
cometida em um show, gente?) de frente para o artista que se apresenta em cena
aberta. Seguindo às preciosas orientações de Marcus Preto em relação à direção
artística e de repertório, Gal Costa reuniu alguns lados B de seus discos
("Caras e Bocas", "Tuareg", "Passarinho") e
algumas inéditas para o show, no qual era acompanhada somente por Guilherme
Monteiro na guitarra e no violão. As apresentações, que ocorreram entre meados
de 2014 e meados de 2015, foram não apenas uma oportunidade para que público e
artista revisitassem um legado de décadas, como também serviu para que
esperássemos com ansiedade o que Gracinha iria aprontar nos palcos com a
estreia da turnê Estratosférica.
Pouco tempo depois de nos sentirmos arrebatados pelo belo recital,
estivemos frente a frente rapidamente com a eterna musa do Tropicalismo em uma
noite de autógrafos do CD em julho de 2015. Gal foi de uma atenção e de uma
simpatia tão grande conosco que foi impossível não esconder o meu sorriso
largo, torto e imperfeito de ter trocado algumas palavras com ela, ganhar um
autógrafo e tirar uma foto para eternizar esse momento tão especial para nós.
A estreia da turnê coincidiu com um marco histórico pessoal de extrema
importância para Gal Costa: o primeiro show foi no mesmo final de semana em que
a artista completou 70 anos de idade. A comemoração se deu em cima do palco,
celebrando o amor pela música e cinco décadas de uma carreira dedicada ao que
existe de melhor em matéria de canção neste país. Em outras palavras, a festa
de Gracinha tornou-se de todos os que admiram o seu trabalho e a sua trajetória
pelas artes do Brasil. Pronta para voar intensamente, a nave pousaria em São
Paulo para uma única noite depois de passar por Salvador, Goiânia, Rio de
Janeiro e outras cidades. Para que o evento se tornasse algo extremamente
forte, expressivo e simbólico, o setlist
de Estratosférica contou com uma
entrada triunfal: a já antológica "Sem Medo Nem Esperança", composta
por Arthur Nogueira e Antonio Cicero ("Não sou mais tola / Não mais me
queixo / Não tenho medo / Nem esperança // Nada do que fiz / Por mais feliz /
Está à altura do que há por fazer"...), se funde com o lendário rock "Mal Secreto" (Jards
Macalé & Waly Salomão), já cantado por Gal durante a inesquecível temporada
de FA-TAL: Gal a Todo Vapor
("Não choro / Meu segredo é que sou / Rapaz esforçado / Fico parado,
calado, quieto / Não corro / Não choro / Não converso / Massacro meu medo /
Mascaro minha dor / Já sei sofrer"). Minha surpresa ao ver nos vídeos
gentilmente compartilhados pelos fãs de Gracinha pelo YouTube e pelo Facebook
que nossa musa estava em uma excelente forma e deixando muita popstar a ver navios.
A nave musical capitaneada por Gal, Guilherme Monteiro (guitarra),
Pupillo (bateria e direção musical), Fábio Sá (baixo) e Maurício Fleury
(teclados) não perde altitude com a presença de peso de "Jabitacá"
(Júnio Barreto, Lirinha & Bactéria), "Não Identificado" (Caetano
Veloso) e "Namorinho de Portão" (Tom Zé). Já as inéditas
"Ecstasy" (João Donato & Thalma de Freitas) e "Casca"
(Alberto Continentino & Jonas Sá) conferem arrojo e modernidade para o
repertório de uma das cantoras mais modernas do país. Antes do número seguinte,
a pungente "Dez Anjos" (Milton Nascimento & Criolo), problemas de
som da guitarra de Guilherme obrigam a bela Gracinha a interromper o
espetáculo, enquanto os técnicos resolviam o problema. O público, ao invés de
ser presenteado com um típico e autêntico piti de uma grande estrela da canção,
foi presenteado com (sim, acredite!) uma PIADA contada por Gal Costa. O talento
de piadista da filha de D. Mariah está longe de ser o mesmo que ela possui para
o canto, entretanto a intenção em suavizar um momento tão tenso em uma
apresentação ao vivo contando um fato tão tosco e pitoresco foi de uma
simplicidade tão grande que rendeu ainda mais a minha admiração.
O roteiro do show ainda nos trouxe surpresas regadas a canções inéditas
na voz de Gal e lados A e B que foram excelentemente repaginados para a versão
ao vivo de Estratosférica. O resgate de canções de discos menos clássicos como
"Cabelo" (Arnaldo Antunes & Jorge Benjor) e "Arara" (Lulu
Santos) foram surpreendentes até para os fãs mais radicais do trabalho de
Gracinha. A inclusão de "Cartão Postal" e de "Os Alquimistas
estão chegando os Alquimistas", duas das faixas mais belas dos discos mais
importante de Rita Lee e Jorge Benjor - Fruto
Proibido (1975) e A Tábua de
Esmeralda (1974) - no setlist nos
deu a impressão de que estas canções sempre fizeram parte do repertório mais
clássico de uma das cantoras mais importantes do Brasil. Já a presença da
infinitamente tristonha "Três da Madrugada" (Torquato Neto & Carlos
Pinto) e da singela "Sim, Foi Você" (Caetano Veloso) renderam os
momentos mais poéticos da apresentação. Por fim, a sequência que une as
releituras bluesy com sotaque eletrônico de "Como 2 e 2" (Caetano
Veloso) e "Pérola Negra" (Luiz Melodia) é arrebatadora ao ponto de
deixar o público com a respiração entrecortada.
Quando damos por conta de que o show chegava ao fim, mais de noventa
minutos já tinham se passado sem que a gente desse por conta de tal fenômeno.
Gal e seus navegantes estratosféricos saíam para detrás do palco e já
preparavam a nave para que ela decolasse novamente. A bela setentona retornou
ao palco e cantou "Meu Nome é Gal" (Roberto Carlos & Erasmo
Carlos), a canção que se tornou em sua marca registrada definitiva há mais de
quatro décadas. A turma que fazia a cabeça de Gracinha em 2015 ainda possui
alguns nomes davam o tom em 1969 - Caetano, Gil, Jorge Benjor, Tom Zé, Roberto,
Erasmo e alguns outros nomes ainda estão por lá, no entanto a nave musical de
Gal Costa pousou por outras paragens, tais quais as de Milton Nascimento, João
Donato, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Guilherme Monteiro, Pupillo e alguns
outros... Tal qual a Gracinha recém-egressa da Bossa Nova é que tinha caído de
cabeça no movimento tropicalista, a Gal Costa recém-chegada ao clube dos
setentões ilustres da música brasileira ainda possui a crença na importância do
amor para que as coisas da vida lhe fizessem sentido. O tal "rapaz"
que ela procurava para corresponder o seu amor anos atrás foi encontrado. Ele
lhe ama incondicionalmente há mais de quatro décadas: seu nome é público. Em
alguns momentos, o dito cujo pode não possuir a "cultura" necessária
para compreender os meandros e sutilezas de uma artista, mas nunca duvidou do
sentimento e da importância da filha de D. Mariah para as artes do planeta.
E, enfim, a nave musical de Gal Costa voou com destino a outra galáxia
para animar outros terráqueos que ainda se encantarão com o seu canto límpido e
cristalino. Apesar de termos sentido falta de outras canções no setlist ("Vaca
Profana" e "Átimo de Som", por exemplo) o show Estratosférica foi um evento notável e
digno para que não possamos esquecer que Gracinha ainda é uma das cantoras mais
importantes do Brasil. E, se depender da vitalidade que temos visto pelos
palcos afora, teremos muito o que dizer acerca da arte de Maria da Graça Costa
Penna Burgos... para a plena alegria dos amantes da boa música!
LEIA MAIS SOBRE O CD ESTRATOSFÉRICA NO PEQUENOSCLÁSSICOSPERDIDOS:
(algumas palavrinhas sobre nossas
experiências musicais: do LP ao streaming)
Para Márcia Rodrigues de Souza,
uma leitora devota e apaixonada da
Arte da Crônica
Para Neil Young,
com todo o meu carinho, pelos seus 70
anos de vida
"O
caminho do céu
No
caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som
O
caminho do céu
No
caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som
(Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor)
Voar,
voar
(Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor)
Há
uma alma na asa no ar
(Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor)
Cantar,
cantar
(Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor)
Há
uma asa na alma no ar
(Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor)
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor
Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor
Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor
O
caminho do céu
No
caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
Voar,
voar
Há
uma alma na asa no ar
Cantar,
cantar
Há
uma asa na alma no ar
Me
ensina a cantar, amor
O
caminho do céu, o caminho do céu
No
caminho do som, no caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som"
(Péricles Cavalcanti - "O Céu &
O Som" -
canção gravada por Gal
Costa em seu álbum Cantar, de 1974)
É muito comum dizer que nossas memórias são
musicais. Posso precisar cada momento da minha vida com o disco que eu ouvia na
época, relacionar com o aparelho de som que estava disponível para os meus
ouvidos naquele tempo e por aí vai. Minha relação com versos e sons sempre foi
intensificada pelas mais diversas formas de acesso à música: comecei a amar a
música loucamente através de uma velha fita cassete gravada da saudosa Rádio
Cidade do Rio de Janeiro que reproduzia os acordes de "Sweet Child
O'Mine"; passei rapidamente pelo final da era dos Long Plays na década de 1990 quando ganhei um de presente de
aniversário aos 12 anos de idade; enlouqueci de vez aos 13 quando um CD de Rod
Stewart virou minha cabeça de tal jeito e me fez o colecionador insano de discos no qual
me transformei.
Li um texto de Zélia Duncan certa feita no qual ela
descreve suas paixões musicais e ela comentou sobre a importância dos encartes
dos vinis e dos CDs para um ouvinte atento de música popular. Como bom curioso
que sempre fui, eu sempre me interessei em saber quem eram os autores das
canções, os músicos e produtores por trás dos clássicos, os responsáveis por
trás dos astros e das estrelas da canção. Além de tudo, não podemos deixar de
lado a importância do aspecto visual marcante da capa de um LP: como ignorar
Simone seminua vestindo apenas um jeans azul em cima de uma cama com lençóis de
cetim branco? Como esquecer do rosto angelical (e um tanto perturbador) de
Barry Manilow em roupas brancas com aquele colar de pianista em ouro 24k no
quarto de meu finado Tio Jorginho no antigo apartamento dos meus avós em
Laranjeiras? Como não nos lembrarmos da garçonete com cara de louca servindo o
café da manhã do Supertramp na capa e na contracapa de Breakfast in America? Ou como deixar passar por nossos olhos a
imagem sensualíssima de Ney Matogrosso quase nu nadando pelas águas do pantanal
mato-grossense? E o que podemos dizer da capa impactante do primeiro disco do
Secos & Molhados, que chega a ser praticamente surrealista? Ah, e não
podemos nos esquecer de Gal e a sua tanga lendária em Índia ou de Bethânia e o seu antológico arco de conchinhas que coroava a sua cabeça na imagem que ilustra a capa
de Pássaro Proibido...
Ouvir música tornou-se um ritual sagrado para mim:
o ato de permitir que os versos e sons de uma fita K7, um LP ou CD adentrassem
o ambiente sem pedir licença tal qual a Irene do Manuel Bandeira sempre foi
natural para mim. De preferência com um volume bem alto, para que eu pudesse
escutar tudo enquanto estivesse fazendo outra coisa - estudando, lavando a
louça, fazendo a barba, tomando banho, trabalhando em casa ou qualquer
atividade profissional corriqueira. A casa de meu avô Adhemar na Ilha do
Governador era um sonho para qualquer amante da boa música e confesso que foi
lá onde praticamente aprendi a cultivar este ato. Lá havia um quarto de música
onde poderíamos encontrar desde os discos de orquestra de Tommy Dorsey ou
clássicos de Al Jolson e Willie Nelson até os discos de MPB e música romântica
de minha avó Magaly - leia-se: da fina flor da MPB de Chico Buarque à breguice suprema do romantismo de Julio Iglesias! Como a casa
era grande, eles viviam sozinhos e sempre havia os infinitos afazeres do dia-a-dia, era
possível escutar o que eles estavam ouvindo da garagem de casa, o que eu achava
ótimo, pois era um ambiente oposto à claustrofobia de dois quartos, sala, cozinha e banheiro onde eu vivi por anos e anos... Foi daquela casa que veio a minha primeira lição musical: se você realmente quer ouvir música,
não pode ser feito em um volume baixo!
Para que a experiência musical ocorra de uma forma
bacana, é preciso ter uma aparelhagem de som potente e que faça com que os
acordes possam se propagar pelos cantos da casa como pássaros recém-libertos de
gaiolas. Lembro de duas anedotas do universo da música encantadoras e
impossíveis de serem ignoradas por aqui: a primeira é do Sr. Antônio Matogrosso
Pereira, um militar de altíssima patente da Aeronáutica e pai de Ney
Matogrosso, um dos artistas mais controversos e revolucionários da música
brasileira. Quando Ney lançou seu primeiro disco e show solo (Água do
Céu-Pássaro / Homem de Neanderthal), o fascínio do Sr.
Matogrosso pela arte do filho famoso era tamanho que ele não admitia que
ninguém ouvisse o LP em volume baixo para que ele se remetesse ao som
ensurdecedor que ele tinha ouvido no teatro.
A outra anedota é de Barbra Streisand, notoriamente
conhecida pelo fato de não ouvir música em casa ou em praticamente lugar nenhum
a não ser o estúdio de gravação. No início da década de 1970, Babs deixava de
ser uma cantora com um repertório baseado exclusivamente em um repertório de
musicais graças aos esforços do lendário produtor Richard Perry, que produziu
um de seus melhores títulos de toda a sua discografia – Stoney End (1971). Para que houvesse tamanha modernização do som de
Streisand, a Diva precisava nada mais, nada menos do que uma aparelhagem de som
que tocasse os discos mais influentes da época. Em uma noite remota, Perry
recebe uma ligação de Barbra pedindo que ele a ajudasse com a fiação do som
estéreo desconectado e que a musa simplesmente não saberia o que fazer...
Músicos que apreciam o prazer de ouvir música ainda são de uma enorme diferença
no meio musical...
A experiência musical de qualidade pode ser
qualquer coisa, menos barata. É cara, requer investimento em LPs, em CDs, em
edições especiais dos artistas que a gente mais gosta e admira. Além disto,
precisamos daquelas estantes de madeiras elegantes e suntuosas que tenham a
capacidade de armazenar os nossos tesouros musicais mais valiosos - sonhar não
custa nada, não é verdade? Não existe nada no mundo que me deixa com mais
inveja do que alguém que tira uma foto na frente de um belo móvel com coleções
e mais coleções de LPs e CDs devidamente enfileirados de acordo com o afeto
musical do colecionador. Porém, quando pensamos nas vicissitudes que regem o
cotidiano, chegamos à infeliz e nada romântica conclusão de que existe um
problema crônico de espaço físico para o colecionador de música: como muitos de
nós não somos ricos no sentido de pertencer às elites econômicas do Brasil,
sempre estamos às voltas com o dilema do armazenamento. Eu, por exemplo, por
ter um horror absoluto de perder meus CDs, cheguei à obsessiva tarefa de fazer
backups dos arquivos em MP3 assim que eu comprava o disco na loja e chegava em
casa.
VINIL em frente ao aparelho de som da família, em 1991.
Um fato que ainda me surpreende em 2015 é
justamente este revival da audição de
Long Plays, algo que eu pensei que
jamais acontecesse depois do surgimento do Compact
Disc, do Napster e do MP3 e dos
recentes serviços de streaming! Ironicamente, nunca se ouviram tantos vinis
como na primeira década de 2010: pesquisas feitas no primeiro semestre de 2015
apontam que os norte-americanos consumiram mais LPs do que assistiram vídeos no
YouTube ou no Vevo, por exemplo. Vitrolas portáteis, antes objetos de máxima
expressão do que se entende por vintage, hoje são vendidas por pouco mais de
200 ou 300 reais. Já não podemos dizer a mesma coisa a respeito do preço dos
LPs novinhos em folha: alguns chegam a custar cinco vezes mais do que um CD em
período de lançamento, o que me deixa à margem de toda essa festança retrô que
habita as casas de amigos, conhecidos e desafetos que cultivamos por aí. 120
reais em uma edição de Amy Winehouse em vinil? 100 reais por um LP do Secos
& Molhados que eu já tenho em casa?! Não, obrigado! / No, thanks!
Uma das novidades mais interessantes que surgiram
na relação entre o público consumidor de música e a arte que ainda se cultiva
através de versos e sons, na minha modestíssima opinião, está nos serviços de streaming. Pagar por um serviço pelo qual
você pode ter acesso a uma infinidade de títulos (além de raridades!) por um
preço relativamente razoável é algo bastante prático e confortável para o
pagante. É evidente que ouvir música pelo tablet
ou pelo celular não é tão prazeroso quanto estar com o seu aparelho de som
ligado; no entanto, a praticidade de podermos escutar o que quisermos a partir
do simples toque do dedo na tela do smartphone
vale qualquer desvantagem. Além disto, não é mais preciso sair fazendo upload
de arquivos de musicas no seu celular de forma insana (além de ser chato, o iTunes oferece tudo, menos
praticidade!), não há mais a necessidade de carregarmos uma penca de discos
para o carro (a não ser se você tem bebês de colo que só ouvem discos bem
específicos e raros) e tem o fator segurança em primeiro lugar: certa feita,
levaram vários de nossos CDs mais queridos na triste ocasião de um furto
ocorrido dentro do carro de minha mãe, na qual levaram tudo de valor que havia
dentro do veículo.
Um dos fatores negativos que o streaming apresenta, na minha concepção, é a falta de vontade do
ouvinte de ser um pesquisador nato de música ou, como diríamos vulgarmente, um
"rato de livrarias, sebos e (das ainda sobreviventes) lojas de discos". Na
medida em que os álbuns se encontram livremente dispostos em cada telefone
celular, um pesquisador de música em potencial deixa de surgir no pedaço. Por
outro lado, é um serviço muitíssimo mais econômico: onde eu encontraria a
versão Deluxe de All Things Must Pass, primeiro (e monumental) álbum do ex-Beatle
George Harrison, por menos de 50 reais? E a gravação antológica de "The In
Crowd", do Ramsey Lewis Trio, que tocava incessantemente durante o Irrational Man, de Woody Allen? Ou um
álbum raríssimo como o belo disco ao vivo que Aretha Franklin gravou em Paris
em 1968 sem ter que revirar as lojas virtuais de cabeça para baixo? Ou então a
discografia praticamente completa de Nina Simone, que custaria os olhos da cara
em qualquer loja decente do ramo?!
Evidentemente, existem pessoas que não veem o
streaming como algo realmente benéfico para a sociedade. O U2, por exemplo,
alega que vários desses serviços não pagam direitos autorais adequadamente para
os músicos. Neil Young, um eterno purista em termos de qualidade de som,
proibiu a fina flor de seu catálogo de estar disponível no Spotify, na Apple Music e
na Deezer e outros sem antes decretar
com um pingo de dó: "streaming has
ended for me". Depois do anúncio de Neil, tratei de sair correndo para
o celular e redescobrir algumas pérolas daquele baú de pepitas que ele nos deu.
Fui (re)ouvir Tonight's The Night e
fiquei tão apaixonado por aquele disco que resolvi escrever sobre ele...
A boa música que vem do fone de ouvido, seja do
celular, seja das caixas de som sempre tem algo a nos dizer. Ela pode nos levar
para um paraíso repleto de versos e sons e nos fazer esquecer da mediocridade
infeliz, tacanha e arrasadora que assola o cotidiano de cada um. O século XXI e
as suas mais altas tecnologias nos renderam opções que nos permitem exercer a
liberdade de ouvirmos o que quisermos sem termos que pensar ou pesquisar muito,
o que, nestes tempos de modernidade líquida (pegando emprestado um termo de
Zygmunt Bauman), não deixa de ser algo completamente ruim...
Leia mais sobre Tonight's the Night, de Neil Young, no Pequenos Clássicos Perdidos: