15 de maio de 2016

TROVA # 70

A ANORMALIDADE NECESSÁRIA DE MARIA ALCINA


De normal batam os outros
É preciso ter coragem
Venha a nós o vosso reino
Quem não pode se sacode
Eu aceito só metade
E a família como vai?
(Arnaldo Antunes – “De Normal”, canção que deu o nome para o álbum De Normal Bastam os Outros, lançado por Maria Alcina no final de 2013)


Ainda me emociono bastante quando vejo determinados artistas do mundo da música que conseguem realizar seu ofício com extrema paixão. O público deixa de ser uma simples horda de pessoas que pagaram por um ingresso que lhe garante uma hora e meia ou duas de simples entretenimento. O palco deixa de ser um mero local de trabalho para se transformar em um santuário musical que reflete nossos desejos e sensações mais genuínas. Todos os presentes se tornam cúmplices de uma estrela que deseja fazer daquela noite um evento memorável. A isto damos o nome de arte.

Maria Alcina no SESC Belenzinho - SP,  18/02/2016
Foto: Nilton Serra

Maria Alcina é uma tradução e tanto para o que foi descrito acima. Tive a oportunidade singular de presenciar seu retorno definitivo ao mainstream com o CD e DVD De Normal Bastam os Outros, lançados entre 2013 e 2015. Quem pensa que os seus shows são um mero desfile de irreverência, confete e serpentina está plenamente enganado. Por trás de toda a purpurina e maquiagem pesada, há uma cantora de voz potente é poderosíssima, dona de um timbre vocal único e que consegue imprimir tratamentos distintos a canções da dupla João Bosco / Aldir Blanc como o antológico samba “Kid Cavaquinho” e o chocante blues “O Chefão”. Seu estilo inconfundível, nem um pouco sintonizado com os arroubos das Divas da MPB, é o diferencial de Alcina em um país de cantoras tão talentosas e bem-dotadas de talento.


De acordo com o produtor musical Thiago Marques Luiz, Maria Alcina é uma “artista singular que o Brasil entende e desentende, lembra d esquece, mas jamais deixa de aplaudir”. Descaradamente influenciada por Carmen Miranda, sua música faz uma conexão do presente com o passado, sem nenhuma presença de nostalgia. Sua arte é pautada em viés carnavalizante, cuja marca registrada é a sua voz bem-humorada e a sua personalidade esfuziante que tem cativado os brasileiros desde a sua consagração com “Fio Maravilha”, do Festival Internacional da Canção de 1972, ou de álbuns mais recentes como Confete & Serpentina (2009).




O que mais me impressionou a respeito da presença de palco de Maria Alcina foi justamente a sua brejeira simplicidade – típico de qualquer bela mineira de Cataguases – perante os músicos que a acompanhavam em cena, em relação ao público e até com as funcionárias da comedoria do SESC Belenzinho (o local do show), que ela fez questão de convidar ao palco para dançar junto dela ao som de “Prenda o Tadeu”, para delírio de todos os presentes. Além disso, o repertório do CD e DVD De Normal Bastam os Outros – composto por nomes de peso como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Karina Buhr e Anastácia – consegue dialogar com canções já clássicas do repertório de Alcina como “Fio Maravilha”, “Doida, Bonita e Gostosa” e “Bacurinha”. Não se trata apenas de uma grande cantora comemorando 40 anos de carreira musical, e sim o retorno de uma grande artista ao spotlight depois de algum tempo longe de seu público.



Karina Buhr & Maria Alcina no Theatro Net Rio - RJ, 10/06/2014
Foto: Mauro Ferreira

Injustiçada pela censura e pelo ostracismo das décadas de 1980 e 1990, Maria Alcina conseguiu se manter viva enquanto artista graças aos programas de auditório e de sua vontade incessante de querer cantar onde houvesse trabalho. Graças à Internet, às redes sociais (a cantora de “Kid Cavaquinho” pode ser facilmente encontrada no Facebook e no Instagram), à memória musical coletiva de seus fãs e dos esforços hercúleos do produtor musical Thiago Marques Luiz, o devido reconhecido foi concedido a um dos nomes mais inquietos da música brasileira.




Alcina é uma cantora que olha para a frente sem deixar de reverenciar o que foi produzido de melhor no passado. Resgatar o repertório de Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola em tempos nos quais muitos pouco conhecem o básico do cancioneiro popular brasileiro é mais do que um ato de reverência: é um serviço de utilidade pública! Em uma era na qual o “politicamente correto” e a “falsa inocência” na música brasileira, a anormalidade do canto de Maria Alcina é fundamental para o Brasil de hoje.



Nós dois ao lado de Maria Alcina após seu show no SESC Belenzinho - SP,  18/02/2016

13 de maio de 2016

TROVA # 69


"PERDOAI-OS, PAI: ELES SÓ SABEM O QUE FAZEM"... 
COM 54 MILHÕES DE VOTOS




para Angela Rô Rô e Dilma Rousseff, duas mulheres brasileiras injustiçadas pela lei dos homens do Brasil


"Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem
Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem
Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem
Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem

Eu quero uma cruz de pinho selvagem
Alguma bebida pra me dar coragem
Meu sangue ser água, matar minha sede

Que todos recusem carinho pra mim
Mas nunca se esqueçam, eu nunca padeço
Mas nunca se esqueçam de mim
Mas nunca se esqueçam de mim"

(Angela Rô Rô & Sérgio Bandeyra – 
"Perdoai-os, Pai", faixa que abre o álbum Escândalo!, lançado por Rô Rô em 1981)




Até a manhã de 12 de maio de 2016, dia em que o Brasil foi duramente atingido por um golpe democrático e saiu do Estado Democrático de Direito para o Estado de Direito Mínimo, os defensores da Direita defendiam o fato de que tudo de ruim que acontecia neste país era culpa da Presidente Dilma e do Partido dos Trabalhadores.

A partir da consagração do golpe de Estado, a justificativa para o ataque dos simpatizantes é a de que os 54 milhões de votos concedidos à Dilma legitimaram Michel Temer como o atual Presidente da República. 

Diante disso, cabe esclarecer alguns fatos:

1) Os 54 milhões de votos foram para o programa de governo defendido por Dilma Rousseff, não pelo seu então Vice-Presidente;

2) Os 54 milhões de votos foram dados para quem se expôs publicamente diante de debates, horário eleitoral obrigatório, de adversários políticos despreparados e desequilibrados, sob a chancela e o apoio de uma mídia partidária, pertencente a oligarquias interesseiras, que não se isenta da realidade dos fatos e acontecimentos;

3) Os 54 milhões de votos foram dados para quem se comprometeu na execução de programas sociais que amenizassem a desigualdade social que sempre assolou este país;

4) Os 54 milhões de votos foram dados à primeira mulher que fora designada ao cargo político mais importante da nação, dona de uma reputação moral irrepreensível, avessa a conchavos políticos típicos de integrantes do seu partido ou de integrantes da base aliada; 

5) Os 54 milhões de votos foram dados a uma chapa política composta por uma Presidente e um Vice-Presidente que deveriam ter trabalhado juntos pelos interesses comuns da sociedade brasileira, não para que ele conspirasse contra à sua companheira de governo;

6) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a alguém que tem em um político arrogante, desonesto e asqueroso como Eduardo Cunha como homem de confiança. Esperava-se do Vice-Presidente que realizasse a articulação política do governo com a oposição de forma limpa e honesta;

7) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a alguém que pertence a uma tradição política neoliberal, que exclui os pobres do chamado "progresso da nação". Dilma foi a eleita com a promessa de que iria fazer um governo para todos - não conseguiu, por ter cometido erros graves e por ter sido vítima de um golpe de estado -, algo que nunca foi prioridade para o PMDB;

8) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a um estadista que desrespeita a Educação, a Cultura, as minorias (mulheres, negros, LGBTs...), as empresas estatais e a segurança pública descaradamente ao nomear o seu Ministério;

9) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a um estadista que concede foro privilegiado a SETE investigado pela Operação Lava-Jato. Todos os petistas que foram réus em processos de corrupção foram julgados e implacavelmente condenados, ao contrário dos aliados tucanos, do DEM e de outros partidos da antiga oposição;


10) Os 54 milhões de votos NÃO foram dados a quem foi declarado "ficha-suja" e inelegível por oito anos, segundo o TSE. Tal qual foi muitíssimo bem dito pelas redes sociais, se quiséssemos um bandido na cadeira presidencial, estes votos seriam dados ao Sr. Aécio Neves, não para a Sra. Dilma Rousseff.



Vinícius Rangel Bertho da Silva
Professor, pesquisador e autor do livro "O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: poesia, performance e política na música brasileira" (Ed. Terceira Margem, 2015). 

17 de abril de 2016

TROVA # 68

A CIÊNCIA DA BURRICE E AS NOSSAS LUTAS INGLÓRIAS


Para Denise Stoklos e Nara Leão,
dois estandartes da inteligência e da liberdade 

"Tem tanto burro mandando
Em homens de inteligência
Que, às vezes, fico pensando
Que a burrice é uma ciência"
(Guto & Mariozinho Rocha - "Cabra Macho" - canção interpretada brilhantemente por Nara Leão em seu disco Nara, de 1967)

"Haven't you heard it's a battle of words
the poster bearer cried
Listen son, said the man with the gun
There's room for you inside (...)"
(Roger Waters & Richard Wright - "Us and Them" - uma das faixas do lendário album The Dark Side of the Moon, lançado pelo Pink Floyd em 1973)

"Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos"
(Caetano Veloso - "Podres Poderes" - canção que abre o seu álbum Velô, de 1984)




Lembro muito bem de ter lido um ensaio muito famoso de Roberto Schwarz na época em que fazia minhas pesquisas para o Mestrado. O texto afirmava com uma exatidão notável de que na década de 1960, em meio a uma ditadura que florescia a olhos vistos, a classe artística e intelectual do Brasil estava "irreconhecivelmente inteligente". Schwarz estava certíssimo: seu pensamento serviu (e ainda nos serve) como referência para pensar um país tão complexo e contraditório como o nosso.

No entanto, o pensamento que melhor traduz a desordem mental e intelectual de uma boa parcela dos brasileiros é o do já saudoso ensaísta, escritor e intelectual Umberto Eco. O autor de O Nome da Rosa disse, sem rodeios, de que as redes sociais ampliam o pensamento e as vozes dos imbecis. Tempos inglórios estes que reproduzem o pensamento de uma elite e de uma mídia infinitamente conservadora e sórdida que se assemelham ao caos vivido por muitos de nós nos anos 1960. Porém, há uma diferença aterradora: a inteligência dos tempos de outrora passou longe de uma boa parcela da sociedade...

O Brasil enfrenta uma das crises políticas mais graves de sua história. A Presidente Dilma Rousseff corre o risco de ser impedida de governar oficialmente devido a acusações de ter infringido a lei de responsabilidade fiscal. Julgada por uma Câmara dos Deputados majoritariamente corrupta, que se comporta como paladinos da moralidade, da decência e da honestidade, muitos desses Senhores não só nos representam mal, como estão preocupados com seus próprios interesses. Quando vejo a TV Câmara, com o desfile de hipócritas falando sobre corrupção, vejo o quanto uma canção interpretada por Nara Leão no auge da ditadura militar continua de uma atualidade impressionante: é muito fácil ser "cabra macho" e acusar os outros; difícil mesmo é ser homem e assumir os crimes cometidos e revelar o seu rabo preso.

Para piorar, a grande mídia brasileira - assumidamente partidária e controlada por menos de DEZ famílias ricas - se levanta assumidamente contra aqueles que pretendem dar um golpe na democracia brasileira. Eu me pergunto ATÉ QUANDO teremos que cantar canções que tratam do egoísmo daqueles que se refestelam no poder, da incompetência dos tiranos que querem fazer do Brasil um país mais desigual, que não dá oportunidades para todos os seus habitantes? O papel dos meios de comunicação brasileiros é determinante neste processo, visto que eles advogam em causa próprias, em prol dos corruptos e não de uma pessoa idônea, que nunca se beneficiou dos seis anos na Presidência da República. Os jornais e a TV manipulam as informações e dão ampla sustentação a um impeachment travestido de golpe de estado que pode comprometer a democracia de maneira fatal. Veículos de peso como a Folha de S. Paulo possuem entre seus colunistas indivíduos de moral baixa e vergonhosa como Reinaldo Azevedo e Kim Kataguiri. Enquanto isso, muitos repetem o eternamente viciado discurso midiático formulado pela canalhice de dois ou três como cassandras robotizadas e inconscientes da gravidade dos fatos.

O clima de ódio e agressividade passa a tomar conta das manifestações políticas de uma maneira muito nociva. Ao ponto de nomes como Chico Buarque de Hollanda, um eterno defensor da democracia e da liberdade de expressão, chegar a ser infinitamente enxovalhado em praça pública, pela mídia golpista e nas redes sociais. Como dizia a famosa canção de Rita Lee & Roberto de Carvalho, eternizada pela voz de Elis Regina: hoje vivemos tempos de "muita patrulha" e "muita bagunça", nos quais torna-se difícil de encontrar a verdade dos fatos. Os inegáveis erros dos governos petistas (corrupção de membros do governo, coerência, falta de medidas de "esquerda") acabam falando mais alto do que os indiscutíveis acertos das administrações de Lula e Dilma.

A burrice se tornou uma constante de uma parcela maciça da esfera pública. A criação do maior número de universidades federais, a inclusão social que gerou uma diminuição expressiva da fome no Brasil e a ascensão das classes C, D e E, a garantia de alguns direitos das minorias são algumas das conquistas dos governos do PT que foram sumariamente ignoradas por, pelo menos, metade da população brasileira. Por outro lado, os governos de oposição - especialmente os do PSDB - não recebem o julgamento de uma significativa parcela da mídia e da sociedade. Alguns exemplos deste fato no Sudeste devem-se ao descaso do governo Alckmin com os transportes, a educação e os bens culturais: nenhum afiliado tucano foi julgado pelos envolvimentos no Tremsalão, as escolas estaduais se encontram em um estado deplorável, dois centros culturais importantíssimos sofreram incêndios e não temos a menor perspectiva de termos acesso ao Museu da Língua Portuguesa e ao Auditório do Memorial da América Latina. O que podemos dizer dos mais de 20 museus fechados no RJ em prol do Museu do Amanhã, construído só para inglês ver? Esperamos até hoje que os responsáveis pela tragédia de Mariana (MG) sejam devidamente punidos pelas autoridades...


Junto com a burrice das instituições, a hipocrisia se destaca de maneira impressionante. Os redutos da elite desejam dar o tom de um pensamento único neste país, sem direito de exercer qualquer espécie de discórdia. O fascismo generalizado progride através de um conservadorismo atroz. Este texto é um apelo para que a esfera pública não se permita abater pela burrice, ciência que deveria ser estudada e entendida a ponto de que os erros do passado não sejam repetidos no presente e comprometam o futuro. Para os que não compreendem a importância da democracia e não entendem a importância do lado escolhido por mim, deixo uma frase do diretor e encenador teatral Gerald Thomas como mensagem direta: "Joguem essas pedras, meus amores! Precisamos delas!". Não tememos o preço de levantar nossas vozes dissonantes a favor das lutas inglórias e a favor da liberdade e da democracia...



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3 de abril de 2016

TROVA # 67

A FONTE DA JUVENTUDE DOS ROLLING STONES

RON WOOD, MICK JAGGER, CHARLIE WATTS & KEITH RICHARDS ANTES DE TOCAREM PELA PRIMEIRA VEZ EM CUBA - 25/03/2016

I haven’t had the time to plan returning to the scene because I haven’t left it.
(Mick Jagger)

Nem a chuva torrencial de Porto Alegre conseguiu apagar o fogo inesgotável de Mick Jagger...


         Existem maneiras plenamente distintas de programas a serem feitos nos nossos embalos de sábado à noite. Ficar em casa, pedir uma pizza e tomar um guaraná é uma pedida excelente. Sair de casa para ir ao teatro, ao cinema ou a algum show também não deixa de ser uma alternativa e tanto para fugir da mesmice avassaladora imposta pela minha rotina de Professor. As duas opções me interessam de maneiras iguaizinhas. Por outro lado, há uma terceira opção que consegue ser mais atraente do que as duas outras que mencionei: e ela está ligada à minha banda do coração – The Rolling Stones.



         Não é todo sábado à noite que podemos nos embalar ao som de uma das atrações mais longevas do showbiz mundial. Principalmente quando levamos em consideração o fato de que eles não davam as caras em São Paulo há 18 anos! Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts são quatro senhores de idade que poderiam estar curtindo o doce sabor da aposentadoria, mas estão na estrada para fazer o que sabem de melhor: Rock ‘n’ Roll. Os Stones foram pioneiros na realização de turnês grandiosas, barulhentas e milionárias desde a época de Tattoo You (1981), álbum tido por muitos críticos e fãs como o último lapso de brilhantismo das pedras rolantes – fato do qual eu discordo veementemente, pois sou fã confesso dos álbuns stonianos lançados entre 1989 e 2005. Além disto, a banda tem outros feitos memoráveis de serem incluídos no currículo: foram uma das primeiras bandas a tocar na China pós-comunismo e foram os primeiros músicos de Rock que tocaram em Cuba após o fim do embargo econômico imposto pelos EUA. Ter a possibilidade de presenciar uma apresentação deles em um estádio na cidade em que você mora é definitivamente um convite irrecusável para vislumbrar ao vivo, cores e altíssimos decibéis canções que fizeram do Rock uma verdadeira obra de arte e não um mero e efêmero objeto de consumo.




O setlist do concerto dos Rolling Stones em Havana, 25/03/2016

         Diante de tudo que foi posto, não seria possível para este fã das pedras rolantes há mais de duas décadas ficar em casa na noite de 27 de Fevereiro de 2016, por exemplo. Depois de presenciar a lendária aparição de Jagger, Richards, Wood, Watts e sua trupe por Copacabana em meus últimos dias como morador do Rio de Janeiro, pensei que aquela seria a última vez que eu veria a lendária banda se apresentar ao vivo diante de meus olhos e ouvidos. Além do fator (óbvio, claríssimo e evidente) da idade avançada dos músicos, não temos o lançamento de álbuns inéditos dos Rolling Stones desde o injustiçadíssimo A Bigger Bang, de 2005. Mick e Keith deixaram de compor juntos para se dedicarem a projetos paralelos, colocarem seus egos gigantescos para o duelo em praça pública e manterem vivo o legado do grupo fundado por eles em 1962. Desde a segunda metade da década de 2000, as turnês tem sido de caráter comemorativo, não estão baseadas em lançamento de material exclusivamente inédito, o que particularmente acho triste, uma verdadeira pena. O que eu mais gostava nas apresentações dos Stones é justamente o fatos mais odiado pelos fãs mais xiitas: como as criações mais recentes da dupla Jagger-Richards de discos malquistos como Steel Wheels (1989), Voodoo Lounge (1994) e Bridges to Babylon (1997) dialogavam com os clássicos do cancioneiro stoniano. Vi como eles fizeram isso quando eles passaram pelo Estádio do Maracanã em janeiro de 1995, pela Praça da Apoteose em abril de 1998 e pela Praia de Copacabana em fevereiro de 2006.




         Minha ida ao Morumbi no sábado do dia 27 de Fevereiro de 2016 tinha dois objetivos básicos e fundamentais: matar as saudades dos músicos que me ensinaram o verdadeiro valor da rebeldia depois de 10 anos e (provavelmente) me despedir deles, pois é provável que a Olé Tour tenha sido a última dos Rolling Stones a passar pelo Brasil. Encontrei gente de todo tipo no Estádio do SPFC naquele dia – desde fãs aguerridos e apaixonados como eu que sabiam todas as letras das canções do setlist a senhores de idade acompanhados de suas esposas, filhos e/ou netos a peruas de 50 e poucos anos a jovens mais preocupados em garantir a sua selfie com o majestoso palco dos Stones ao fundo de seus sorrisos forçados e implorando por popularidade nas redes sociais. Jagger, como o melhor showman da história da música do planeta, não apenas tem a consciência da diversidade do seu público, como também faz questão de cumprimentar a todos na língua local com direito a piadas regionais, a alusões ao mundo futebolístico e uma performance digna de inveja geral e de tirar o fôlego de todos os presentes.



         A receita do sucesso para cada apresentação bem-sucedida de Jagger, Richards e cia: hits da banda são obrigatórios para gerar o interesse dos pagantes, além da inclusão de alguns lados B e raríssimas canções das safras mais recentes. Tudo isso em um cenário grandioso e eloquente, uma iluminação inacreditável e com direito a queimas de fogos para encher os olhos e zunir os ouvidos de todos os presentes. Esta é a receita dos Rolling Stones para um infalível espetáculo. E digo com conhecimento pleno de causa de que nenhuma atração faz isso melhor do que eles: afinal o corporativismo no Rock ‘n’ Roll surgiu de vez com os ingleses que levaram os embalos da Swinging London para os quatro cantos do planeta!


         A energia que foi emanada do palco montado no Estádio do Morumbi na última noite de sábado de fevereiro de 2016 era incomum. O que muitos (ou todos) se perguntam é como Mick Jagger e Keith Richards com 72 anos de idade, Charlie Watts no alto de seus 74 e Ron Wood com 69 conseguem subir em um palco com tanta disposição para gastar. Arrisco dizer que a fonte da eterna juventude dos ingleses se encontra em cada riff, em cada acorde, em cada batida ou em cada rebolado que vemos e ouvimos toda vez em que as luzes dos refletores se acendem e ouvimos os primeiros acordes de “Start Me Up” ou “Jumpin’ Jack Flash”. Keith afirmou recentemente que não consegue imaginar a possibilidade de ter exercido outra atividade profissional além da música. Tocar para milhares de pessoas com todo o prazer possível é a atitude mais audaciosa do mundo para fugir da mortalidade imposta a todos nós, seres humanos, cientes de que, em um determinado dia, nossa existência se findará. Os quatro Stones remanescentes rolam com maestria, classe e precisão contra a morte e nos servem como inspiração para celebrarmos a vida através de versos e sons.


KEITH RICHARDS, um homem dos palcos



         Do alto do meu eterno egoísmo de fã, pergunto-me se aquela noite de fevereiro foi a ultima vez em que eu presenciei os Rolling Stones tocaram ao vivo diante de meus olhos e ouvidos. A lógica natural nos leva a crer que sim. As leis contraditórias do Rock ‘n’ Roll que pregam a juventude vampiresca e permanente de suas estrelas nos indicam surpreendentemente que não. Em meio ao eterno embate entre a razão e a emoção, ficamos com a segunda alternativa: afinal de contas, sempre temos a crença permanente de que a jovialidade supostamente perene das pedras rolantes faça com que nós, meros mortais, jamais criemos limo... 





20 de março de 2016

TROVA # 66

A CORAGEM E A OUSADIA DE MOTHER MONSTER
(algumas coisinhas sobre Lady Gaga)

Lady Gaga com o Globo de Ouro de Melhor Atriz graças ao seu maravilhoso trabalho em American Horror Story.


My whole career is a tribute to David Bowie
(Lady Gaga, 2016)

MISS YOU, STARMAN!

A partida repentina de David Bowie para o outro plano provocou reações diversas e surpreendentes por parte da mídia e do público. No entanto, foi a manifestação da classe artística como um todo que mais me comoveu: Bowie era uma fonte de inspiração de músicos de tribos completamente distintas como Lorde e o Red Hot Chilli Peppers. Mick Jagger escreveu um texto sentimental e belíssimo (a emoção extrema é algo incomum para o frontman dos Rolling Stones) sobre o velho amigo, ex-vizinho e rival musical. Madonna dedicou suas legendas mais apaixonadas em sua conta no Instagram à memória do artista que mudou sua percepção diante dos palcos e da vida. Annie Lennox demostrou sua maravilhosa inteligência ao falar do arauto que modificou a relação entre homem e arte. Por outro lado, de todas estas vozes que se ouviram para louvar o Starman, foi a de Stefani Joanne Angelina Germanotta – conhecida por nós como Lady Gaga – que gerou mais controvérsias entre todos os amantes de música.

Madonna definiu David Bowie como um artista talentoso, único, genial, alguém que mudou as regras do jogo da música Pop. Madge nunca teve tanta razão...

MICK JAGGER & DAVID BOWIE



Comecei a prestar atenção na mocinha pouco tempo depois do seu surgimento diante dos olhos do planeta. Parecia extremamente promissora no que diz respeito à ousadia e cara de pau para fazer música, além de ser uma profunda conhecedora das ferramentas e clichês do universo Pop. A ambição e o relativo oportunismo de Mother Monster, sua tosca bizarrice e a permanente vontade de chamar a atenção do público passaram a me irritar de tal maneira eu cheguei a entrar no coro que dizia que “Born this Way” era cópia descaradamente mal feita de “Express Yourself”. O jogo de Gaga virou para mim logo depois do inteligente Artpop (2013) e quando Tony Bennett entrou em cena para nos revelar a cantora extraordinária que Lady Gaga é: a gravação dela para “Ev’ry Time We Say Goodbye” é literalmente arrebatadora.

Gaga ao lado de Cher, na ocasião em que a primeira vestiu o ultra controverso "meat dress" em uma entrega do MTV Music Awards.


Apesar de cantar sem a menor desfaçatez que vivia para sentir o sabor e o frescor do aplauso, Lady Gaga se revelou como uma força distinta das cantoras Pop pelo simples fato de que possui mais voz e ousadia do que todas elas juntas. Não recorre a playbacks, autotunes ou outros efeitos eletrônicos que mascaram a pobreza da preparação vocal de suas colegas de profissão. Pelo contrário: seu talento transparece no fato de que ela não busca, por exemplo, a (impossível) eterna juventude de Madonna ou as caras, bocas e coreografias de Beyoncé, ou o farofismo e a falsa inocência (super infantil) de Katy Perry e Taylor Swift. Gaga sabe a diferença do Pop rasteiro e barato de sua geração e das canções que fizeram de eventos como The Sound of Music, Like a Prayer e The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars capítulos essenciais da cultura popular de todos os tempos.


Resumo da ópera: se antes associávamos Ms. Germanotta à Madonna da mesma maneira que o fazíamos ao dizer que Beyoncé era uma versão dos anos 2000 de Diana Ross à frente (ou não) das Supremes, é preciso rever nossos conceitos e admitir que a fonte de tanta ousadia, cara de pau e determinada genialidade vem do legado do artista mais inventivo de todos os tempos: DAVID BOWIE!



Acho de uma injustiça muito grande cobrar de uma jovem artista (Gaga atinge a marca dos 30 anos de idade em 28 de março de 2016) a genialidade de um homem que foi profundamente autêntico em tudo que fez. Na verdade, vejo uma maldade imensa dos detratores da moça ao criticarem o tributo que ela fez ao legado de Bowie na quinquagésima-oitava cerimônia de entrega dos Grammys. Muitos fãs do Starman, se pudessem, teria ofertado Ms. Germanotta aos leões ou à fogueira por ter cometido tamanha heresia com o repertório alheio. Duncan Jones, filho mais velho do Mestre, enxergou um “entusiasmo excessivo” de uma pessoa “mentalmente confusa”. Infelizmente a maldade de muitos foi muito mais ampla do que a ambição de Lady Gaga em ser respeitada e reconhecida por todos.


A apresentação de Lady Gaga contou com a direção musical de Nile Rodgers – que, graças ao seu eterno toque de Midas, fez de Diana Ross, Madonna e do próprio David Bowie estrelas de primeira grandeza através de álbuns fundamentais de qualquer discografia Pop como Diana (1980), Like a Virgin (1984) e Let’s Dance (1983). A jovem Pop star conseguiu reunir as mais distintas personae do Camaleão Inglês em seus seis minutos de apresentação ao juntar “Space Oddity”, “Rebel, Rebel”, “Changes”, “Ziggy Stardust”, “Fashion”, “Fame”, “Heroes”, “Let’s Dance” e “Under Pressure” em um medley esfuziante. Ao rever a apresentação de Gaga e compará-la com a homenagem feita por Lorde e os ex-companheiros de banda de Bowie no Brit Awards, percebi uma sinceridade e uma devoção muito mais intensas no que foi apresentado na Cerimônia de Entrega do Grammy.



De qualquer modo, utilizar a figura de David Bowie para massacrar a de Lady Gaga é um ledo engano. Enquanto Ms. Germanotta se dedicar a projetos que façam do universo Pop algo mais inteligente – o injustiçado álbum Artpop (2013) não sai do meu aparelho de som de jeito nenhum! –, ela será digna do meu aplauso. Afinal, a ambição e a inteligência que se convertem em coragem e ousadia são maiores do que a obviedade vislumbrada na MTV e nas paradas de sucesso da Billboard. Torço para que a moça continue a nos surpreender e encantar e, assim, levar sua música para caminhos menos óbvios e repletos de criatividade e sapiência, tal qual fez o nosso eterno e saudoso Starman



GAGA TOP 5


1. Applause


2. Born this Way


3. Judas


4. Bad Romance


5. Till It Happens to You