8 de agosto de 2016

TROVA # 80

CAFEÍNA, POESIA & PENSAMENTO
(cafés, livros e viagens de Patti Smith)


Acredito no momento. Acredito nesse balão alegre, o mundo. Acredito na meia-noite e na hora do meio dia. Mas no que mais acredito? Às vezes em tudo. Às vezes em nada. É algo que flutua como a luz refletindo numa lagoa. Acredito que um dia todos vamos perder. Quando somos novos acreditamos que isso não vai acontecer, que somos diferentes. Quando era criança, achava que nunca iria crescer, que podia realizar esse desejo com a minha vontade. E depois percebi, bem recentemente, que tinha atravessado alguma divisória, inconscientemente encoberta pela verdade da minha cronologia. “Como ficamos tão velhos?”, pergunto às minhas articulações, ao meu cabelo cor de ferro. Agora já estou mais velha que meu amor, que meus amigos que já se foram. Talvez eu viva tanto que a Biblioteca Pública de Nova York seja obrigada a me ceder a bengala de Virginia Woolf. Eu cuidaria da bengala para ela, das pedras de seu bolso. Mas também seguiria vivendo, recusando entregar minha caneta”.
(Patti Smith – Linha M – São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 203)

Para Malu Zanesco
a quem eu tive a honra de apresentar a arte de Patti Smith


A inteligência e o pensamento de Patti Smith transitam pelas mais diversas formas de artísticas: os universos da música, literatura, artes plásticas lhe são bastante familiares. Foi a poesia que lhe deu régua e compasso, mas foi o Punk Rock que lhe tornou famosa graças a discos revolucionários como Horses (1975), Easter (1978), Peace and Noise (1997), Twelve (2008) e Banga (2012).


Entretanto, foi a Literatura de Patti que me pegou de jeito. Ao ler Só Garotos [Just Kids] durante o inverno de 2012, ri e chorei com as andanças de Ms. Smith pela sua Nova Jersey de origem, pela França de Rimbaud e por Nova York, onde encontrou seu melhor amigo e o primeiro amor de uma vida inteira, o artista plástico e o renomado fotógrafo Robert Mapplethorpe. Os encontros e desencontros da filha mais velha de Ian e Beverly Smith são o autorretrato mais completo da juventude de uma das artistas mais importantes que os Estados Unidos da América ofertaram ao mundo.

Patti Smith ao lado de Robert Mapplethorpe 

De humilde vendedora de uma livraria à fama como uma das musas do Punk Rock e o casamento com Fred “Sonic” Smith, Patti Smith virou sinônimo de rebeldia total para gerações. Sua música não se assemelhava ao que outras mulheres faziam na década de 1970. Sua beleza não segue nenhum tipo de padrão estético ou regras previamente estabelecidas. A intensidade de seu pensamento, por outro lado, é um tributo a todos os que lhe influenciaram ao longo dos anos – Arthur Rimbaud, Allen Ginsberg, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Albert Camus, Jim Morrison e tantos outros...

Patti Smith ao lado de Allen Ginsberg

Se a música rendeu fama e celebridade a Patti Smith, a literatura lhe deu bastante prestígio no universo das letras: Só Garotos venceu o National Book Award de 2010, além de outros prêmios literários importantes dos EUA. Diante do sucesso merecido das primeiras memórias de Patti, surgiram rumores de adaptações do livro para o Cinema e de que haveria uma sequência, na qual a madrinha do Punk Rock relataria sua vida pacata, discreta e distante dos holofotes ao lado de Fred e seus dois filhos, Jackson e Jesse.

The Smiths: Fred, Patti, Jackson e Jesse - Foto: Robert Mapplethorpe
Quando comecei a ler Linha M [M Train] em abril de 2016, pensei que estava diante da vida de Patti ao lado de Fred “Sonic” Smith. Fui sumariamente enganado pela autora de “Redondo Beach”. Ela fez de seu segundo livro de prosa – Patti Smith é autora de vários livros de poesia, dentre eles: Witt (1973), Babel (1978), The Coral Sea (1996) e Auguries of Innocence (2005) –, um verdadeiro emaranhado de pensamentos poéticos acerca de seu cotidiano. Viagens, fotos, turnês, conferências, memórias, sonhos, segredos e desejos passam pelo olhar de poeta, leitora voraz e amante incondicional da cafeína. Cada página do livro pede uma xícara generosa de café e dá uma vontade incontrolável de viajar por Nova York, Tóquio, Guiana Francesa, Tanger e Rockaway Beach só para poder desfrutar de algumas das andanças e polaroides da autora.


Tal qual um trem a seguir viagem, o pensamento errante e poético de Patti Smith transita por leituras e tributos a musas e mestres literários como Jean Genet, Harumi Murakami, Albert Camus, Sylvia Plath e Ozamu Dazai. Os textos fazem com que o livro não resultasse em um mero diário de viagens: eles são um retrato fiel da Patti à beira dos 70 anos de idade, solitária e experiente nas lições e armadilhas que a vida lhe pregou – as perdas de Fred e Todd Smith, irmão da autora, em menos de dois meses, foram devastadoras para a intérprete original de “Because the Night”.



Ao concluir a leitura de Linha M, tive a impressão de ter me despedido de uma queridíssima companheira de viagem: juntos fomos à Casa Azul onde viveu Frida Kahlo, saboreamos a adorável solidão do Café ‘Ino, sentimos as forças implacáveis da natureza representadas pelo furacão Sandy (que passou por Nova York no outono de 2012), passeamos por Tóquio e Tanger, nos encantamos pelos livros perdidos, pelas polaroides extraviadas em meio às andanças de Patti. Viagens ao pensamento. Sonhos compartilhados. Os desejos de uma artista.



Por isto e tudo o mais, recomendo a todos uma leitura de Linha M. Busque a companhia de uma generosa xícara de café e adentre o universo de Patti Smith ao som das 9 sinfonias de Beethoven (como eu fiz durante a reta final de minha leitura). O trem de Patti pode te levar até suas lembranças mais íntimas, ao amor de um casaco perdido, ao réquiem de uma cafeteria que era o recanto de sua criatividade e a outros lugares que só a criatividade de um livro bem escrito consegue te levar. Pegue o seu ingresso e faça uma boa viagem, sem deixar de observar o vão que separa o vagão da plataforma...


6 de agosto de 2016

TROVA # 79

A MALANDRAGEM DO VIL METAL
(alguns episódios pessoais e públicos de como o dinheiro pode nos causar amor e ódio)



"Money, so they say
Is the root of all evil today
But if you ask for a rise 
It's no surprise that they're giving none away"
(Roger Waters - "Money", canção do lendário álbum The Dark Side of The Moon [1973], do Pink Floyd)


Minha relação com o dinheiro sempre foi muito difícil. Complicada mesmo, tal qual uma relação intempestiva de dois amantes que se amam muito e que vivem em pé de guerra permanente. 

Já fiz coisas horrorosas por não ter o tal do vil metal em mãos para adquirir algo. Já fiz coisas indignas, cedendo às tiranias dos outros, para poder garantir um pingo de estabilidade financeira. Consequência direta? Chegar à conclusão do quanto eu me anulei para poder satisfazer às demandas do mercado do qual eu faço parte - no caso, a educação privada. Consequência indireta? Minha qualidade de vida se tornou bastante comprometida ao ter que trabalhar todas às noites e durante meus finais de semana durante anos. 



Devo confessar não me arrependo de muitas coisas que já fiz por dinheiro. Entretanto, aprendi muito sobre mim, sobre os outros e (especialmente) sobre a falta de escrúpulos das instituições, amparadas pelo Capitalismo que nos rege. Acreditei piamente (e, de vez em quando, ainda acredito) na frase clássica de Nelson Rodrigues que dizia: "O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro". Quando comecei a me olhar no espelho e ver os reflexos do envelhecimento rápido (calvície, olheiras de estimação, metabolismo mais baixo, gordura localizada) e que estava vivendo 3 anos em 1, aprendi da maneira mais dura e difícil de que não há salário alto ou benefício que compense a sua qualidade de vida.


Quando você trabalha por horas e horas a fio sem ter possibilidades significativas de crescimento profissional, com a ausência de um plano de carreira que dê aquele sorriso no rosto para que você pondere a necessidade de sacrifícios, quase tudo relacionado ao universo do trabalho deixa de fazer sentido para ti, afinal o lucro que está sendo gerado, em primeiro lugar, jamais pertencerá a você. Remuneração nenhuma substitui a possibilidade de você ver seu sobrinho que mora em outro estado crescer pelas redes sociais ou pelo celular ou a primeira visita da afilhada que veio passar o dia na sua casa enquanto você não está. Os momentos familiares perdidos por causa do seu trabalho doem na alma. Penso na dor de meu pai ao passar sua juventude tendo que trabalhar para sustentar esposa e dois filhos. Penso no sofrimento de meu avô em ter que começar um negócio próprio praticamente do zero e fazer prosperar através de muito suor enquanto os filhos cresciam e sua mulher trabalhava arduamente para dar conta de uma casa.


Já ganhei um bocadinho de plata nesta vida afora como professor em escolas regulares e institutos de idiomas. Não investi meus rendimentos e economias em um negócio próprio por jamais me imaginar como chefe ou alguém que deve administrar as finanças ou tomar decisões de grande porte. Jamais ambicionei o desejo de ter um carro 0km ou refeições regadas a champanhe e caviar como uma prioridade de vida. Roupas de marca e de fino trato até me interessam, mas prefiro meus velhos farrapos ao invés de ter que investir milhares de reais em um camisa pólo ou um sapato de presença que vá além de 200 reais. Jet set? Restaurantes claros e/ou cafés da moda? Baladinhas do momento ou casas de stand-up comedy? Não, obrigado! / No Thanks! Cogitei a possibilidade de um dia ter um teto para poder chamar de meu, porém os bancos ainda acham que o meu cartão de crédito é uma navalha. Um claríssimo exemplo de um amor jamais correspondido. Um ódio descaradamente declarado.


Desde sempre, compreendi que o mundo seria muito mais interessante pra mim a partir de um investimento maciço na intelectualidade. Não me tornei um grande pensador, tampouco em um influente formador de opinião. Por outro lado, já posso plantar meus amigos, meus discos e meus livros e nada mais - algo muito mais atraente do que roupas, festas, carrões e drinks à base de Red Bull. Com isso, não me sinto na eterna obrigação de agradar todo mundo, o que me faz um inimigo público de peso de acordo com uma boa parcela da sociedade. Resumindo: por ter escolhido o caminho menos óbvio, o dinheiro é algo de pouca relevância para mim, apesar de ser essencial para muitas atividades que faço.


A consequência por ter me feito um indivíduo menos materialista e mais pragmático? Desenvolvi uma capacidade crônica em lidar com dinheiro. Os credores e os bancos me amam de paixão por causa desta aptidão e pela facilidade impressionante em contrair dívidas. Minha revolta com o Capitalismo tem sido minha resposta para o fato do vil metal nunca ter gostado de mim, o que é um sentimento mútuo entre nós dois. O que me consola é o fato de não ser o único: o Poeta Vinícius de Moraes era conhecido entre seus familiares e amigos pela sua enorme incapacidade em lidar com as finanças. Dizem as lendas que o Poetinha, que se casou nove vezes, saía de cada um de seus divórcios apenas com uma muda de roupas e o seu Portinari debaixo do braço, prova claríssima do seu profundo desapego em relação à grana.


Em contrapartida, a ambição e a vontade desmedida por dinheiro pode levar o ser humano a cometer atos indecentes, deploráveis, nojentos, dignos de causar vergonha. Alguns exemplos bastante palpáveis deste fato são a corrupção dos políticos que elegemos, a eterna ganância das corporações, o desrespeito pelo ser humano em prol do lucro individual é limitado. Por causa do amor por este malandro que não nos ama ou não nos corresponde da mesma maneira, invertemos os valores da sociedade em que vivemos, passando a fazer da exceção à regra. Atitudes éticas se tornam em artigos enfadonhos. A arte e o pensamento crítico são relegados para outros planos e deixam de ser prioridade. O lucro e o sucesso são a cartilha a ser seguida.


O artista e o intelectual, por estarem plenamente comprometidos com a sensibilidade, geralmente possuem dificuldades gritantes em lidar com o vil metal. Leonard Cohen, por exemplo, se lançou em uma extensa turnê mundial devido a um gigantesco desfalque dado por sua ex-empresária. Os Beatles se separaram de vez em 1970 devido às disputas financeiras que azedaram a amizade e parceria musical de John Lennon e Paul McCartney. Os Rolling Stones seguiram rumo ao exílio na França a partir de 1971 por causa das dívidas astronômicas de Jagger & Richards com o fisco inglês. Dizem que Barbra Streisand retornou aos palcos depois de 20 anos de recusa em fazer turnês simplesmente porque o dinheiro tinha acabado. Sinais evidentes que as verdinhas podem amá-los, como também odiá-los com uma intensidade impressionante.


Sem falsa modéstia ou “vitimismo” descarado, afirmo, sem rodeios, que pertenço ao grupo daqueles que o dinheiro sempre odiou. Com muito orgulho é um pouco de vergonha. Sempre me pergunto por onde esse verdinho anda depois do dia 6 ou 7 de cada mês, pensando nas culpas e na minha eterna inaptidão em lidar com ele. O vil metal, o mais malandro de todos os malandros, volta sorrateiramente ou no último dia da temporada ou no quinto dia útil para, logo depois, bater cruelmente em retirada. Quando eu aprender a ser um romântico calculista, ele vai ficar do meu lado durante uma temporada mensal completa. Até lá, preciso entender a lição do velho Tio Patinhas e tomar decisões mais pautadas pelo cérebro, não pelo coração. Quem sabe a maturidade dos meus 30 e poucos anos me dê a oportunidade de um dia poder zombar daqueles que sorriram diante dos meus fracassos e das solas gastas dos meus sapatos furados. Talvez eu não consiga comprar um time de futebol ou um Lear Jet, mas quem sabe posso garantir um mínimo de conforto para a velhice?



20 MIL VISUALIZAÇÕES



Quando idealizei o Trovas de Vinil, pensei em algo bem particular, como uma terapia, uma maneira de poder escrever sobre o que mais gosto: MÚSICA! Escrever sobre meu assuno preferido sem poder ter que me preocupar com obrigações profissionais ou demandas acadêmicas tem sido um exercício prazeroso durante estes 4 anos e meio.

Publicar mais de 80 textos sobre as mais diversas tendências musicais tem sido também um desafio e tanto para mim. Dos Rolling Stones ao Secos & Molhados, de Itamar Assumpção a David Bowie, de Gal Costa a Zélia Duncan, de Cauby Peixoto a Ney Matogrosso, de Nina Simone a Patti Smith, tem sido um prazer e um desafio poder falar de discos que fazem os sons aqui de casa e dos meus fones de ouvido, comentar sobre as lendas musicais que fazem o nosso mundo um pouco melhor aqui neste espaço. E sem deixar de falar sobre diversidade, política e outras polêmicas que fazem este mundo rodar cada vez mais loucamente. E sem deixar de lado alegrias e tristezas do meu universo particular e do mundo da música também...

Muito obrigado a todos que tem acompanhado o Trovas de Vinil por esta página do blogger e pelas redes sociais. Estamos cheios de planos para que este espaço se torne ainda mais atraente para os que leem acompanham os posts. Fiquem ligados e atentos para as novidades a caminho!

Por ora, muito obrigado pelo carinho!

Um abraço musical do 
Vinil

31 de julho de 2016

TROVA # 78

A SEDUÇÃO ILIMITADA DO MAESTRO DO AMOR
(ou algumas de minhas memórias sobre Barry White)

Amado Maestro

There's people making babies to my music. That's nice.
(Barry White)


         Música sempre foi um assunto sério lá em casa: ela se fazia presente desde a sala de estar até os quartos de dormir e passava pelos demais cômodos do já saudoso apartamento em que vivíamos na Ilha do Governador. Por outro lado, tenho recordações bastante especiais do que ouvíamos nos automóveis que o Sr. Orlando, meu velho e bom pai, teve no decorrer da vida: The Police, Simply Red, Rod Stewart, Phil Collins, Genesis e outros nomes de peso do Pop Rock internacional eram super habituais nas caixas de som dos Fuscas, Passats, Gols, Fiats que eram os veículos da família. Nenhuma destas minhas memórias são tão repletas de afetividade quanto a audição dos clássicos de Barry White, que embalou os momentos mais comuns dos meus pais e, por tabela, os meus.


Barry White no programa de TV Soul Train, em 1973.
         White, que na verdade se chamava, Barry Eugene Carter, nasceu na cidade texana de Galveston, em 1944. A música não foi apenas a fonte de suas paixões, mas foi a sua verdadeira tábua de salvação de um futuro que não lhe prometia sucesso e glória. Ao ouvir a gravação antológica de Elvis Presley para “It’s Now or Never” em uma prisão (o jovem Barry tinha sido condenado por roubo qualificado), viu que o seu caminho para encontrar o seu pote de ouro simbólico era trilhando os passos do Rei do Rock, cujo topete carcaterístico imitava aberta e descaradamente no decorrer dos enlouquecidos anos 1970. Começou sua vida artística como homem de Artistas & Repertório (A&R) em uma pequena gravadora na década anterior. Pouco tempo depois, tornou-se um respeitado produtor musical e revelou talentos musicais maravilhosos como o trio vocal feminino Love Unlimited e a fantástica Love Unlimited Orchestra, que fez sons inesquecíveis para quem teve os seus dias de juventude em meio a penteados afro/black power e calças boca de sino.


         Barry White se lançou como cantor em 1973 e logo se popularizou com um repertório romântico e dançante que misturava Soul, Funk, Disco e Latin Music embalados por uma voz de baixo-barítono que voava feito um foguete sonoro que desbravava nuvens e céus com as meninas do Love Unlimited e as cordas e sopros da Love Unlimited Orchestra como tripulantes de um voo do amor. O tom sussurrado e falado utilizado por Barry se alternava com os agudos potentes tornaram sua voz em uma marca registrada e em um padrão de referência para vários homens que decidissem se aventurar pelos caminhos da canção popular. Os esforços de White, sua abordagem incomum para emplacar hits nas paradas de sucesso e um som que era fruto da influência de gênios do porte de Ray Charles, Aretha Franklin, o som da gravadora Motown lhe renderam mais de 100 milhões de discos vendidos em mais de três décadas de carreira.



         Um dos meus álbuns preferidos de Barry White é o obscuro Beware!, lançado em 1981. Lançado após um período de imenso sucesso – que lhe rendeu sucessos monstruosos como “Let the Music Play” e a sua versão inesquecível para “Just the Way You Are”, de Billy Joel e os smash hits “You’re the First, the Last, My Everything” e “Can’t Get Enough of Your Love, Babe”, este trabalho marca o flerte intenso do músico texano com o sabor caliente dos sons latinos que vinham do Brasil. Sua canção dedicada ao Rio de Janeiro é um dos maiores hinos de amor ao povo carioca e marcou o início de suas várias idas e vindas pela Cidade Maravilhosa. A gravação da faixa-título, da autoria de JoAnn Belvin, é um dos momentos mais emocionantes da carreira de White. “I Won’t Settle for Less than The Best (for You Baby) e “Let Me In and Let’s Begin with Love”, parcerias de Barry com Vella M. Cameron, são dois retratos intensos do que podemos fazer de mais honesto e apaixonado em uma relação a dois. Os vocais açucarados embalados por excelentes músicos e cantores de apoio, além dos sopros e cordas da Love Unlimited Orchestra são de deixar qualquer músico e ouvinte sem fôlego.

A capa de Beware! (1981)

         As poucas informações disponíveis acerca da discografia de Barry White nos levam a crer que Beware!, apesar de ter feito relativo sucesso no Brasil, não teve uma boa acolhida pela crítica especializada e pelo público do maestro. Talvez a presença de carga erótica e latinidade do disco não tenham agradados aos que se animavam com a chamada New Wave. O que me importa é que este trabalho de Barry – lançado no mesmíssimo ano em que eu nasci – faz parte da minha discoteca básica há mais de 20 anos. Ao ouvir p álbum recentemente (desta vez no HB20 de minha mãe, que tinha as canções do CD em uma seara de arquivos em MP3 que alimentam o carro de D. Elizabeth), senti que a beleza desta obra-prima continua intacta.

A capa de Just Another Way to Say I Love You (1975)

         Retomar o contato com a música de Barry White não é apenas um convite para retomar as memórias familiares mais escondidas em meu recôndito pessoal. É recordar a origem de minha paixão por vozes grandiosas, arranjos orquestrados e os balanços e embalos das velhas canções de amor que (ao contrário do que dizem por aí...) jamais envelhecem. Creio que foi aquele veludo vocal que me ajudou a ter esta vontade louca e incontrolável de querer cantar por aí. Enquanto muitas mulheres devem ter se rendido aos encantos de Mr. White, eu me deixei seduzir pelo talento musical ilimitado do Maestro do Amor. E assim tem sido e há de ser por muitos anos...


BARRY WHITE’S TOP 10

1. You’re the First, the Last, My Everything


2.   Can’t Get Enough of Your Love, Babe


3.   Honey Please, Can’t Ya See


4.   I’ve Got So Much to Give


5.   Don’t Make Me Wait Too Long


6.   Let the Music Play


7.   Your Sweetness is my Weakness


8.   It’s Ecstasy when You Lay Down Next to Me


9.   I’ll Do Anything You Want Me To


10.    How Did You Know It Was Me?



BONUS # 1: Around the World (Lisa Stansfield & Barry White)


BONUS # 2: Under the Influence of Love (Love Unlimited Orchestra)


25 de julho de 2016

TROVA # 77

A HONESTIDADE NA TERRA DA CONFUSÃO

Grande Otelo como Macunaíma no filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade 



O seu dinheiro nasce de repente
E embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade

(...)

E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?
(Noel Rosa, 1933)
“There’s too many men, too many people
Making too many problems
And there’s not much love to go around
Can’t you see this is a land of confusion?

This is the world we live in
And these are the hands we’re given
Use them and let’s start trying
To make it a place worth living in”
(Tony Banks, Phil Collins & Mike Rutherford, 1986)

Se Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade vivesse por aqui em 2016, ele iria vociferar e repetir sem pestanejar: “Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são”. A vida política brasileira sofreu um abalo sísmico profundo com o golpe que destituiu Dilma Rousseff no segundo ano de seu segundo mandato. Os responsáveis? As formigas comilonas que sempre busca(ra)m saciar a sua eterna gula.


Quem são as tais saúvas que seriam citadas por Macunaíma hoje? Os políticos desonestos e golpistas eleitos por nós para nos apunhalar abertamente no exercício de seus mandatos, um judiciário corrupto e conivente com a injustiça deste país e a grande mídia, pertencente às oligarquias econômicas brasileiras que distorcem os fatos e exploram a população. Estou bem longe de ser uma formiguinha gulosa: não pertenço ao rol daqueles que tiveram o privilégio de ter nascido em berço de ouro, tampouco fui vítima da ascensão social que me trouxe estabilidade financeira e ausência de senso crítico. Sou um trabalhador que ouve e pensa basicamente através da música que ouço e dos livros que leio. Mesmo assim, sei que sou, dentre a realidade de grande maioria dos brasileiros, um afortunado, por ter curso superior, pós-graduação em uma universidade federal e ter uma parcela considerável de conforto sem ter que roubar, enganar poucas pessoas ou desejar o mal de quase ninguém. Procuro ostensivamente por uma virtude que raramente se vê no Brasil: HONESTIDADE.


A inimiga número 1 da honestidade é a hipocrisia. As saúvas que devoram o nosso país todo dia são hipócritas por excelência. Vide o exemplo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, majoritariamente investigada por crimes de corrupção, julgando um processo de impeachment de uma governante eleita com 54 milhões de votos e que não enriqueceu, nem possui dinheiro público em paraísos fiscais na Suíça ou nas Ilhas Cayman. Membros do STF são acusados de receberam propina do PSDB e seus colegas juízes estão sempre dispostos a protegerem os malfeitos dos tucanos e maximizarem os erros de membros do PT, às vezes, sem provas concretas. A polícia reprime negros, pobres e honestos indiscriminadamente enquanto milhares de bandidos estão tranquilamente soltos por aí. Tudo isso recebe a bênção do quarto poder: a nata da imprensa brasileira – ou o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão), uma nomeação alternativa cunhada por mim para que o renomado jornalista Paulo Henrique Amorim chama de PiG (Partido da Imprensa Golpista) – defende os interesses de uma dúzia de famílias oligarcas (Marinho, Civita, Frias e Mesquita entre elas) ao se revelar tendenciosa e afirmar descaradamente que o jornalismo que pratica é justo e imparcial.


A hipocrisia que se faz soberana em muitas salas de jantar deste país faz com que uma expressiva parcela da sociedade ignore as suas verdadeiras prioridades. Remover os petistas do governo federal (um projeto obsessivo e antigo das elites) tornou-se mais importante do que combater a crescente cultura do estupro e da homofobia, que faz milhares de vítimas enquanto uma agenda político-social conservadora toma conta do Brasil, majoritariamente orientada por políticos evangélicos. A privatização das Universidades públicas com a desculpa de que são um alto custo para os governos locais não merecem a mesma atenção do que o projeto de lei estapafúrdio de uma “escola sem partido” – lembremos, mais uma vez da frase antológica de Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto” – enquanto o legado de Paulo Freire é amaldiçoado por vários brasileiros enquanto o autor de Pedagogia da Autonomia é respeitadíssimo no exterior. Corruptos muito mais nocivos foram postos no poder no lugar de um grupo político supostamente desonesto. Enquanto o Rio de Janeiro está moral e financeiramente falido, um falso clima de euforia é embutido na rotina da população através de uma tocha olímpica que recebe mais atenção policial do que muitos criminosos à solta por aí. Delações premiadas se tornaram mais valorizadas do que demonstrações cabais de honestidade. Os hipócritas seguem animados com o seu projeto: o de inverter os valores mais básicos para nós.


Ao contrário do que aconteceu por aqui pós-1964, o Brasil ficou insuportavelmente polarizado entre “coxinhas” e “mortadelas”, deixando a inteligência literalmente de lado. O debate intelectualizado e qualificado foi substituído por ataques verbais (físicos, às vezes) de todos os tipos. A capacidade de análise tem sido sumariamente delegada aos meios de comunicação, que trazem seus juízos de valor para uma extensa parcela de indivíduos que mal leem ou interpretam e vestem a camisa da CBF para bater panelas em suas varandas gourmet, destilar seu fascismo contido dentro de si e protestar nas ruas e avenidas aos domingos. O resultado desta catástrofe? Grande parte da classe média e trabalhadora, que deveria litar pelos seus princípios e necessidades (educação e saúde de qualidade, segurança pública decente, meios de transporte dignos e decentes, etc.), passa a defender o discurso dos mais ricos (a não criação da CPMF, que atingiria diretamente quem tem mais dinheiro, não os mais pobres!) ao serem induzidos pela irresponsabilidade e conivência do GAFE. É a supremacia da hipocrisia. A honestidade se torna cada vez mais um mito a ser devorado pelas saúvas.


As redes sociais se converteram no palco principal de debates, agressões e busca de informações relevantes sobre políticas nos últimos anos, visto que órgãos de imprensa alternativa encontraram no Twitter e no Facebook terrenos férteis para a disseminação ética e responsável de notícias. Cabe ao usuário educar o seu olhar para “filtrar” o que lê para ter uma visão menos tendenciosa dos fatos ocorridos em nosso país. Com o intuito de ser mais uma alternativa de propagação responsável da informação, de protestar contra o golpe, a corrupção e a hipocrisia, além ser uma oposição irreverente ao GAFE e outros pilares da hipocrisia brasileira, Nilton Serra e eu idealizamos um “evento” fictício chamado Constantino, nos inclua na sua lista, baseado na lista “caça às bruxas” criada pelo macarthista anêmico Rodrigo Constantino, antigo pau mandado da revista Veja e do jornal O Globo. O sucesso da página nos surpreendeu imensamente, pois muitos de nós queríamos ser “boicotados” ao lado de gente ilustríssima como Chico Buarque e muitos outros. Compramos algumas brigas e fizemos novas amizades. Passamos a dividir a moderação do “evento”, pois não tínhamos tempo hábil (e ainda não temos, porque as salas de aula demandam muito de nossa vida útil) para dar conta de tudo sozinhos.


Às vésperas do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder, o Cafeína – página coletiva de amantes de café da qual participamos desde sua criação e brilhantemente capitaneada por nossa querida amiga Ana Paula Raulickis, em 2006 – publicou uma carta de repúdio à crise política em nossa página no Facebook. Apesar de alguns protestos coxinhas bem agressivos dizendo que iriam “descurtir” nossa  página por causa de nossa virada à esquerda (que Dilma deveria ter dado assim que foi reeleita, mas não deu!), milhares de adesões ocorreram nos dias seguintes à publicação de nosso protesto coletivo. As explicações para isso? Café também rima com mortadela. Necessitamos de discussões de fôlego nas redes sociais, apenas isso.


Por fim, decidimos criar uma page para todos os que queriam ter seu nome na lista negra do anêmico MacCarthy à brasileira. Cerca de 17 mil pessoas acompanham as postagens do Coletivo Vozes Dissonantes – nome adotado por nós, após um longo período de discussões –, enquanto cerca de 132 mil já deram o seu “Like” na página do Cafeína. Já o evento fictício Constantino, nos inclua na sua lista possui em julho de 2016 a adesão de 20 mil revoltados genuínos com a situação calamitosa que o Brasil se encontra. Algo impressionante para quem luta contra o GAFE e outros “movimentos” de direita que distribuem suas “revoltas” online e são financiados pelo que existe de pior na política conservadora brasileira.



Ao ler uma das crônicas de Fernanda Torres incluídas em Sete Anos, encontrei algo bem interessante e que diz bastante acerca do momento político-cultural brasileiro no século XXI: “(...) eu guardo a suspeita de que o Brasil é um país que se situa entre a Veja e a CartaCapital”. Em outras palavras, nosso país está entre um filme de catástrofe e uma produção de ficção científica. Em uma época extremamente confusa e delicada politicamente, sinto cada vez mais a necessidade de parar de ler jornais e seguir rumo à ignorância para o que mais de honesto em mim não me leve ao encontro da loucura. No entanto, o desejo recorrente de me resguardar é apenas benéfico para os hipócritas de plantão. Graças à hipocrisia, assistimos a olhos vistos a mitificação da honestidade na terra da confusão. Enquanto eu puder cantarolar o samba do Noel e o rock do Genesis sem correr risco à minha integridade, haverá luta permanente contra a injustiça.


PÁGINAS:

Cafeína – 


Constantino, nos inclua na sua lista https://www.facebook.com/events/939298339519775/