18 de setembro de 2016

TROVA # 87

A MÁQUINA HUMANA
(A Voz & A Máquina, um show de Elza Soares)



Sou negra, índia. Sou samba, jazz, blues, funk, rock ‘n’ roll, bossa, rap, soul, choro, sou punk. Sou claro. Sou escuro. Sou o sagrado. Sou o profano. Bendita. Maldita. Sou tudo. Sou nada. Sou Elzazaza. Elza eu sou.”
(Elza Soares)


Nunca me deixei seduzir pelos sons (re)criados pelos DJs. Sempre achei a música das pick ups um tanto estridentes e entediantes demais, de uma frieza absoluta. Baladas? Boates? Só aquelas que tocam o repertório dos anos 1970/1980, mas não me venham com Trash 80’s para cima de mim! No fundo, no frigir dos ovos, sempre tive a crença de que a máquina servia exclusivamente para que a música se tornasse algo decorativo, impessoal, sem emoção, com gosto de uísque com energético.


Por outro lado, sempre há momentos nos quais somos obrigados a rever os nossos conceitos. Quando soube que Elza Soares faria uma apresentação de seu espetáculo A Voz & A Máquina no Teatro Porto Seguro, fiquei bem receoso. Pensei que a proposta deste show estava completamente distante de trabalhos mais recentes como Elza Canta e Chora Lupi e A Mulher do Fim do Mundo, o que era a mais pura verdade. Fui para o teatro com o coração aberto e várias expectativas, apesar da minha antiga implicância com os DJs. Mais uma vez eu seria surpreendido por mais uma apresentação devastadora da voz do milênio.


Foto: Edson Lopes Jr.
Acompanhada de dois DJs – Ricardo Muralha e Bruno Queiroz – e um tecladista (Antônio Guerra), lá estava Elza Soares, sentada como uma rainha em sua cadeira no alto de um praticável. De início, pensei que estava dentro de uma rave que multiplicava a voz de Elzinha repetida e excessivamente. Estava redondamente enganado. Logo de cara, constatei que as pick ups de Queiroz e Muralha estavam a serviço de uma das vozes mais lendárias do planeta e não o contrário. As máquinas, condicionadas a reproduzir sons de forma sistemática e fria, foram humanizadas pelo talento inconfundível de Elza. A nega subverteu a lógica da invenção do homem branco em prol de seu canto.


Isso é o que os artistas revolucionários fazem: fazem da sua voz algo maquinal e tornam a máquina humana. Este é um dos exemplos que fazem de Lady Elza Soares uma artista singular na música do Brasil e do mundo... Verdade seja dita: com quase (ou mais de) 80 anos de idade, Elza poderia simplesmente focar em trabalhos saudosistas, louvando seu passado musical de grandes sucessos ou colhendo os frutos gerados por A Mulher do Fim do Mundo, um dos CDs/shows mais extraordinários de todos os tempos. Todavia, Elzinha não está no meio musical apenas para dar selinho, agradecer, abraçar e fazer improvisos musicais através de sua voz inconfundível: espetáculos como A Voz & A Máquina nos mostram como ela sabe ser moderna e inquieta.


Diz-se que a proposta de Elza, ao montar este show, era de se aproximar de um público mais jovem. Ela não só alcançou tamanha proeza, como também conseguiu mobilizar fãs mais velhos para uma típica “curtição jovem”. Graças aos rapazes que a acompanham no palco, os velhos clássicos de Vinícius de Moraes (“Corcovado”, “Canto de Ossanha” e “Chega de Saudade), Lupicínio Rodrigues (“Esses Moços”, “Nervos de Aço”) e Jorge Aragão (“Malandro” e “Vou Festejar”) ficaram, a princípio, irreconhecíveis, mas sem deixar de apresentar o selo de qualidade do canto de Elza Soares. “A Carne” (Seu Jorge, Marcelo Yuka & Wilson Capellette), canção gravada por ela em Do Cóccix Até o Pescoço, aparece em A Voz & A Máquina e é um dos pontos altos da noite. Como nos alerta o número de abertura, “Computadores Fazem Arte” (Fred Zero Quatro), “computadores fazem arte / artistas fazem dinheiro”. Elzinha faz a revolução e com muita ousadia.


Apesar da evidente fragilidade física, Elza Soares reina em cima de seu trono musical através de seu canto forte e incansável. É uma rainha dos palcos, sem perder a humildade e a gratidão de quem veio dos estratos menos favorecidos da sociedade brasileira. Canta os encantos da paixão e as dores da desilusão amorosa com a propriedade da experiência de uma vida inteira. Fala de injustiças sociais, de algumas esperanças e conta algumas anedotas de amigos queridos – não contive minhas gargalhadas quando ela nos contou da provável reação de Vinícius de Moraes se ele visse suas canções interpretadas daquele jeito. É uma mulher de “nervos de aço”. Uma artista de “opinião”. É de uma ousadia que pouquíssimos artistas possuem, pois só uma voz tão poderosa quanto uma máquina conseguiria humanizar a fria tecnologia dos DJs.




Espero que alguma gravadora um dia se interesse em registrar A Voz & A Máquina em CD e DVD. Não desejo isso apenas para que possamos ouvir mais um trabalho inquietante de Elza Soares, mas para que as gerações que surgirem depois da minha possam testemunhar (mesmo que pela tela da TV, do smart phone ou do YouTube) que ela é, foi e sempre será uma das artistas mais criativas e revolucionárias de que já tivemos notícia...



11 de setembro de 2016

TROVA # 86

DIA ONZE


“Where in hell can you go
Far from the things that you know
Far from the sprawl of concrete
That keeps crawling its way
About 1,000 miles a day?

(…)

Now, come on, shotgun bride
What makes me envy your life?
Faceless, nameless, innocent, blameless and free
What’s that like to be?”
(Natalie Merchant, 2001)



Em 2001, eu vivia a felicidade e a plena arrogância de um jovem de 20 anos de idade que achava que a juventude seria eterna e o mundo uma utopia a conquistar. Apesar de sempre ter desejado o Jornalismo, a Faculdade de Letras tinha mudado a minha vida: graças aos estudos de Literatura, passei a nutrir um amor gigantesco pela palavra. Todavia, o desejo de ser jornalista ainda me rondava, pois tinha recebido um convite de Izabel Leventoglu, uma de minhas professoras de Língua Portuguesa da Graduação, para escrever e editar o jornal universitário Estilo, do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá. Caroline Rohan, parceira e amiga de boas e más horas, embarcou comigo naquele desafio.
Editar o Estilo era uma tarefa que nos rendeu muito suor, paciência, gargalhadas, algumas lágrimas, alguns aliados queridos, além de uns dois ou três desafetos. Vivíamos na sala de edição de materiais impressos da Universidade, que pertencia ao curso de Jornalismo, ao lado de Marita, uma editora que possuía uma paciência invejável conosco. Era uma terça-feira ensolarada e sinistra e resolvemos “matar” uma aula de Legislação para podermos finalizar uma das edições do jornal universitário. Carol e eu estávamos justamente nesta sala quando ouvimos as notícias no rádio de que Nova York estava em chamas. Diante da catástrofe, o periódico iria ter de esperar mais uma vez...
Os plantões do noticiário tratavam dos aviões sequestrados, do Pentágono em chamas, das torres gêmeas sendo atacadas e ruindo. O choque de presenciar um ataque terrorista obrigou a Universidade a interromper os afazeres aos quais se dedicava naquele momento para ver e rever as aeronaves colidindo contra o World Trade Center. Cheguei na frente da TV mais próxima a tempo de ver o segundo avião cumprir o seu trágico destino. Não me lembro de mais nada que tinha que fazer durante o dia: sei que tinha que ir para casa ou ir para o estágio, talvez. Mais tarde, de volta para as aulas do período da noite, vi a abertura do Jornal Nacional com os rostos de William Bonner e Fátima Bernardes se alternando através uma edição frenética e noticiando os fatos do dia como se fosse um espetáculo inédito. O mundo mudava depois de tudo aquilo. Para pior, infelizmente...


*

Quatro aviões sequestrados e derrubados: dois em Nova York, um em Washington, outro na Pennsylvania. Milhares de mortos. As torres gêmeas do World Trade Center caíram como se fossem singelos castelos de cartas – a diferença é que havia concreto, tijolos, pessoas, dor e sofrimento por dentro. O Pentágono em chamas. Um avião destroçado no meio de uma floresta graças à heroica resistência dos reféns. Choque e perplexidade. O mundo em alerta.
O maior feito dos talibãs não foi ter matado muitos de uma só vez. Foi ter dado cabo à “revolução televisionada” da qual tanto se escreveu e falou: o terrorismo se tornara, enfim, integrante do horário nobre. Se isso não foi revolucionário, não deve ser possível saber o que mais poderia ter sido...


Todas as pessoas se recordam bem do lugar onde estavam e do que estavam fazendo no exato momento de uma grande tragédia. As mortes de Ayrton Senna, Cássia Eller e Michael Jackson são exemplos para muitos de minha geração. O dia 11 de setembro de 2001 não apenas chocou o planeta inteiro, como entrou para a galeria de crimes hediondos dos quais a humanidade jamais poderá se esquecer ou se orgulhar como o Holocausto, a Bomba Atômica, a escravidão e os Tribunais do Santo Ofício, para não citar mais alguns.


*

Depois de recolher os destroços e os mortos, os Estados Unidos não conseguiram superar o luto dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001. A Terra de Uncle Sam embarcou em uma onda de paranoia ridícula de censura que se espalhou pelas rádios e emissoras de TV: não era permitido tocar canções que nos remetessem aos atentados terroristas. Os artistas foram vítimas de um puritanismo reacionário motivado pela dor e pela morte de milhares de inocentes. Excluir os trabalhos de artistas e bandas que jamais tiveram inclinações terroristas do dial e dos canais televisivos era de um exagero patético, ridículo.  Alanis Morissette, U2, Pearl Jam, Tom Petty, Foo Fighters, Phil Collins, Frank Sinatra e o Red Hot Chilli Peppers foram alguns dos que sofreram tais sanções.


Chico Buarque um dia nos disse que a pior coisa de se viver em um regime ditatorial não é ser censurado pelo governo, e sim ter de se autocensurar. Um exemplo ocorrido nesta época se deu com uma de minhas cantoras preferidas, Natalie Merchant. A ex-vocalista do 10,000 Maniacs tinha concluído as gravações de seu terceiro disco de estúdio, Motherland, em 9 de setembro de 2001. Como consequências dos ataques que abalaram os EUA dois dias depois, Miss Merchant precisou reformular seus planos originais em relação ao projeto.


A primeira alteração foi feita com a arte do álbum – a sessão de fotos de capa e encarte consistia em imagens de crianças vestindo máscaras de oxigênio em um campo aberto. De acordo com a artista, as controversas imagens (hoje, desaparecidas) foram feitas em 10 de setembro. A sessão de fotos se reiniciaria no dia seguinte, o que jamais chegou a acontecer. A segunda mudança feita em Motherland foi em relação ao repertório: o disco que já abria com uma canção descaradamente política – “This House is on Fire” – contaria com uma das canções mais belas de Natalie Merchant: “The End”, uma “Imagine” do século XXI, foi influenciada por uma exposição de fotos do renomado fotógrafo Sebastião Salgado. A letra fala em um utópico fim da lei, das religiões e da perversidade dos homens.


Natalie não queria se tornar a inimiga número 1 da América, o que resultou na exclusão desta canção do disco. Os ataques de 11 de setembro de 2001 deram uma interpretação deturpada às canções de Motherland. Apesar das críticas bastante elogiosas ao álbum, a Warner e o selo Elektra fizeram pouca divulgação do disco e dispensou Natalie Merchant do casting da gravadora pouco tempo depois. Como consequência da autocensura, “The End” infelizmente só foi gravada em disco 13 anos depois.


Por outro lado, os norte-americanos nunca se recuperaram da dor causada pelos ataques de 11 de setembro. Ao andar pela parte sul de Manhattan em 2012, visitei o local da tragédia e a sensação era de um mal estar tremendo. O que mais me surpreendeu foi descobrir a St. Paul’s Chapel, localizada atrás do antigo World Trade Center. Aquele local, intacto e imune às barbáries do passar do tempo, abrigou moradores locais em um grande incêndio ocorrido na cidade no século XVIII e foi pólo de resgate das vítimas do terrorismo. Aquela capela me deu uma lição: a força dos justos sobrevive aos anos, o mesmo se aplica aos artistas da música e às belas canções que ouvimos por aí...



Tenho a consciência de que todo dia onze do nono mês do ano é uma oportunidade que temos para abominar o ódio e a injustiça para que possamos reafirmar nosso amor uns pelos outros e ouvir música que nos faça bem e nos faça pensar. É por isso que as canções são feitas. É por isso que escrevemos sobre música...









10 de setembro de 2016

TROVA # 85

A MÚSICA DA VITROLA DE CLARA
(algumas considerações sobre Aquarius
de Kleber Mendonça Filho)


“Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero a vida num momento
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo 

Hoje
Trago no olhar imagens distorcidas
Cores, viagens, mãos desconhecidas
Trazem a lua, a rua às minhas mãos 

Mas hoje,
As minhas mãos enfraquecidas e vazias
Procuram nuas pelas luas, pelas ruas
Na solidão das noites frias por você 

Hoje
Homens sem medo aportam no futuro
Eu tenho medo acordo e te procuro
Meu quarto escuro é inerte como a morte 

Hoje
Homens de aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência
Que é o que me resta, vivo em minha sorte

Ah, sorte
Eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim
Como eu te amei”
(Taiguara, 1969)


            Em tempos nos quais a estabilidade democrática e a ética se tornaram itens opcionais no sistema político brasileiro, qualquer evento cultural que desafie a norma do establishment em 2016 já é um enorme acontecimento. O cinema brasileiro já nos legou não apenas o maior deles, como também revelou um dos programas culturais mais impactantes das últimas décadas: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho.



         O segundo filme do cineasta pernambucano já seria um grande momento cultural só por causa de Sonia Braga como protagonista de um grande elenco. Sonia é um mito do cinema mundial e é uma das mulheres mais belas jamais surgidas na telona do cinema: encarnou Tieta do Agreste, Dona Flor ao lado de seus dois maridos, já deu O Beijo do Homem da Aranha, viveu Gabriela na TV e em Hollywood; fez Eu te Amo, de Arnaldo Jabor, um dos filmes mais ousados de toda a história de nossas artes. É dona de uma trajetória invejável, de dar orgulho a todos os brasileiros de bom coração.




         Aquarius ganhou notoriedade no final de maio de 2016, quando estreou no badalado Festival de Cinema de Cannes. A Riviera Francesa e o mundo do entretenimento tremeram não apenas com a qualidade indiscutível da película e com uma das atuações mais fantásticas de Sonia Braga. Ao final da primeira projeção, elenco, produtores e o diretor do filme posaram para as câmeras fotográficas e das emissoras de TV do mundo inteiro denunciando o golpe parlamentar que estava em curso no Brasil.



O impacto foi imediato: o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) minimizou os protestos e fez campanha aberta para que o público brasileiro boicotasse o filme. O Ministério da Cultura do “governo” Temer repreendeu os envolvidos publicamente e pouco fez para diminuir a classificação indicativa do filme – ao estrear por aqui, o filme de Kleber Mendonça Filho recebeu o selo infeliz de “Censura 18 Anos”.




Por outro lado, a popularidade de Aquarius era inevitável: antes de chegar de vez no Brasil, o filme já teria exibição garantida em dezenas de países do mundo e abocanhou um público de 55 mil pessoas nos primeiros 4 dias de exibição. Em uma semana, 100 mil pagantes já tinham assistido o segundo filme de Kleber Mendonça Filho. Enquanto os setores mais conservadores da mídia brasileira não tinham mais como esconder o sucesso deste trabalho, os espectadores a favor da democracia e contrários ao governo golpista, tomados pelo tom político arrebatador da película, saudavam o final de algumas sessões de cinema com gritos de “Fora Temer”, para nojo dos golpistas e preocupação daqueles que tomaram o poder, mas nunca tiveram um projeto de poder legitimado pela maioria do povo brasileiro.



A trama de Aquarius gira em torno de Clara, uma mulher sexagenária que vive no único apartamento habitável do Edifício Aquarius, localizado em frente à Praia de Boa Viagem, um dos endereços mais valorizados de Recife (PE). Os demais apartamentos foram comprados por uma poderosa construtora de imóveis, interessada em erguer um condomínio gigantesco no lugar do prédio onde a personagem de Sonia Braga viveu durante a vida inteira. O conflito da protagonista se intensifica quando Diego, o neto do dono da empresa, inicia uma campanha agressiva para o suntuoso empreendimento possa ser construído.



O embate entre Clara e Diego revela a eterna contradição existente entre a sensibilidade poética do indivíduo e a sua constante sede de poder, que desconhece nostalgia, valores e sentimentos. A convicção da única moradora do Edifício Aquarius contra o poderio do capital e da arrogância se tornou inabalável ao ponto de entrar em conflito com seus próprios filhos. Uma das falas mais impactantes do filme de Kleber Mendonça Filho é justamente aquela na qual a personagem de Sonia Braga esfrega na cara do jovem empreendedor interpretado por Humberto Carrão que educação é algo completamente independente de posses ou dinheiro. Em outras palavras: nem todos os membros das elites, detentores de posses e do acesso a boas escolas e universidades são bem-educados.


Clara é uma mulher que carrega consigo e em seu apartamento as marcas e as memórias do passado, formando um enorme arquivo sentimental. Seu apartamento no Edifício Aquarius é uma galeria dos amores que lhe mantém viva e firme na luta contra o poder e a especulação imobiliária. Ex-crítica de música e especialista em Heitor Villa-Lobos, a personagem de Sonia Braga expressa seus sentimentos através da música. “Toda Menina Baiana”, de Gilberto Gil, é a trilha sonora de uma memorável festa familiar. “O Quintal do Vizinho”, de Roberto & Erasmo, lhe traz o consolo diante de uma desilusão amorosa e da falta de sensibilidade do outro. “Another One Bites the Dust” e “Fat Bottomed Girls”, do Queen, são canções que testam a potência das caixas de som do carro (e do cinema!), como também são “armas” sonoras para os desmandos ocorridos em uma festa patrocinada por Diego e ocorrida no apartamento de cima ao da protagonista. Reginaldo Rossi louva as belezas e os encantos mil de Recife e do Nordeste Brasileiro enquanto belas mulheres bailam pelo tradicional Clube das Pás. A minha preferida de todas as escolhas de Kleber Mendonça Filho é quando Clara, desfrutando de um de seus melhores momentos de Tia babona, pede para o sobrinho mais novo que ele toque Maria Bethânia para a namorada carioca que ele acabara de conhecer. Assim, a menina teria plena convicção de que o rapaz é um cara intenso.



  Aquarius não é apenas um belíssimo filme por causa de sua trilha sonora espetacular ou por trazer a bela e talentosíssima Sonia Braga bailando pela sala de casa ao som de seus vinis prediletos. As canções do filme dialogam com os sentimentos de Clara de maneira direta, sem deixar de nos dizer algo aos recônditos sentimentais mais profundos de cada um de nós.


A vitrola de Clara não é apenas um passaporte para as doces memórias do passado. Ela é a pedra de resistência principal de alguém que resiste a fazer concessões a um mundo que se faz cada vez mais frio e insensível. Os sons do vinil fazem da personagem de Sonia Braga uma anã que luta incansavelmente contra um gigante poderoso e covarde pronto a colocar em prática a sua agenda neoliberal. Aquarius é um filme inspirador: nos incentiva a lutar pelas injustiças frequentes no dia-a-dia pessoal e nos motiva a brigar pelos absurdos que afligem a vida no Brasil do século XXI. Que o Cinema Brasileiro possa nos ofertar outros filmes de tamanha magnitude...






















5 de setembro de 2016

TROVA # 84

MEU BLOCO NA RUA
(lutando pela democracia depois do golpe de 2016)

Dilma Rousseff - Brasília, 29 de agosto de 2016.
"Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval
(Sérgio Sampaio, 1972)


Nasci em 1981, durante o terceiro ano de governo do último general que governou o Brasil durante uma ditadura militar que censurou, torturou e matou aos borbotões. Minha família por parte de Pai, cujo patriarca era o Sr. Maurício (meu avô), era de militares da Aeronáutica. Eles sempre disseram que o período militar em Brasília foi uma “era de ouro” nos quesitos “autoridade” e “segurança”. Meus parentes por parte de Mãe foram beneficiados pelo ilusório “milagre econômico” semeado por Médici e seus comparsas: meu saudoso avô materno, Seu Adhemar, não tinha do que reclamar das benesses adquiridas pela classe média, que ascendeu economicamente durante os anos 1970.
Quando as Diretas Já tomaram o país de assalto, os milicos devolveram o poder da nação para os civis e o primeiro Presidente da República civil (embora apoiado pelos militares) retornou ao Palácio do Planalto depois de duas décadas, eu tinha entre 4 e 5 anos de idade, ou seja, ainda não tinha condições de opinar ou decidir sobre os rumos do país.


*

         Eu tinha oito anos em 1989. Lembro bastante das eleições presidenciais ocorridas naquele ano: eu era um menino carioca vivendo em Porto Alegre que saía para passear no Parque Farroupilha aos domingos e já percebia a popularidade de Lula, Brizola (Silvio Santos até...) e Fernando Collor nos debates da TV e nas propagandas eleitorais gratuitas e obrigatórias. A pior cicatriz da ditadura já se fazia presente em minha família e em vários núcleos familiares já naquela época: bastava iniciar o horário político e a TV era automaticamente desligada até o horário da novela das oito.
Política era definitivamente um assunto que não se discutia em casa, tampouco perto das crianças. O resultado de tamanha falta de politização foi a eleição de Collor para o período presidencial de 1990 a 1994, depois de uma campanha eleitoral agressiva, baixíssima e vergonhosa.

*

         Em 1992, já de volta ao Rio de Janeiro, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e já nutria um interesse próprio pelas aulas de História. Durante meus momentos de tédio em sala de aula (hiperativo desde sempre, sempre foi um desafio focar minhas atenções única e exclusivamente na Professora), adorava ler as páginas do livro didático que descrevia os governos da República Velha, da Era Vargas, dos anos de chumbo, da redemocratização do país. Um detalhe chamava muita atenção: naquele volume estava escrito que Collor seria o Chefe de Estado da Nação por mais dois anos.
O país fervia em denúncias de corrupção diariamente e em torno das consequências geradas pelas medidas perversas de ajuste econômico – quem viveu o início da década de 1990 lembra bem a crise econômica sofrida por aqueles que perderam seus rendimentos na poupança, sequestrados pelo Governo Federal. Como se sabe, não foi aquele o destino selado do Presidente da República mais jovem a assumir o cargo até então.
Em outubro daquele ano, o Caçador de Marajás foi deposto por um impeachment gerado por inúmeras acusações, renunciou ao posto e saiu pela porta dos fundos do Planalto. Eu tinha 11 anos de idade enquanto assistia todo aquele circo midiático armado pela Globo e uma série de “caras pintadas” até certo manipuladas pelos interesses da vênus platinada e das elites brasileiras. Creio que foi naquele momento de minha vida em que realmente me interessei por algo relacionado às artes, à história e à política de meu país. Minha inocência dos anos de infância definitivamente começava a sair de cena...

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Foi aos 21 anos de idade, ou seja, no início de minha vida adulta, que vi o projeto neoliberal elitista, excludente e arrogante de Fernando Henrique Cardoso e seus asseclas ser desprezado nas urnas para que um ex-operário e ex-sindicalista, um representante das camadas populares, chegar ao posto mais elevado da República Federativa do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva representava a possibilidade de termos um país mais justo e digno para todos, diminuindo as desigualdades sociais tão presentes na história nacional. Chico Buarque estava ao seu lado, junto com a nata da inteligência e da classe artística do território nacional. Eram tempos de glória e de euforia que não seriam abalados por nenhuma arbitrariedade.
No entanto, a euforia não iria durar para sempre: minha primeira decepção de peso com o governo Lula veio em 2005, quando os primeiros escândalos de corrupção vieram à tona. O PT, antes um partido livre de qualquer suspeita em termos de ética e honestidade, se transformou em um partido tão comum quanto todos os outros, deslumbrado com as delícias do poder e seduzido pelo canto da sereia da corrupção, do dinheiro fácil, do lucro instantâneo e da ganância absoluta. Como forma de protesto, fiquei sem exercer meu direito ao voto por mais de dez anos, justificando minhas ausências na zona eleitoral mais conveniente no dia das votações.
Descontente com a descaracterização do PT, que se aliou ao PMDB e as forças políticas de centro para chegar ao poder, não me animei muito quando soube que Dilma Rousseff, a herdeira política de Lula, tinha sido eleita Presidente do Brasil em 2010, apesar de sempre ter tido enorme admiração por sua biografia e sua trajetória política. Apesar dela ter sido a ministra mais firme e competente dos dois primeiros governos do PT. Apesar dela ter sido a primeira mulher a assumir o posto mais alto de uma República de um país machista, conservador, racista, homofóbico. Apesar dela ter combatido a ditadura militar e ter sido barbaramente torturada. Apesar dela ter sempre se destacado por possuir uma moral ilibada e inquestionável. Apesar de ela nunca ter pertencido ao grupo de notáveis do PT e por prometer o comando com mão de ferro e tolerância zero com desonestidade.

Laerte


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Meu retorno às urnas e à militância política se deu em 2014. O Brasil se via dividido entre um projeto político reacionário, machista e conservador representado por Aécio Neves e o PSDB de um lado e a continuidade uma política popular inclusiva, de tintas levemente neoliberais representada por Dilma e o PT. Entre a escolha de uma plataforma política que não me satisfazia por completo e o retorno de uma proposta elitista e retrógrada, fiz questão de viajar até o Rio de Janeiro para votar em Dilma Rousseff no segundo turno das eleições presidenciais.


Vibrei de alegria e alívio quando constatei que “Dilmãe” tinha sido reeleita com 54 milhões de votos. Entretanto, fiquei com receio ao ouvir o tom de ressentimento do candidato derrotado pelo PT e o tom odioso da grande mídia, disposta a varrer a ex-guerrilheira para debaixo do tapete da história através de uma campanha incansável de desconstrução: inaugurava-se, enfim, o terceiro turno das eleições de 2014. Este seria o mais longo e o mais cruel de todos. Como novos integrantes deste thriller político estavam a economia brasileira em estado de saúde periclitante e o Congresso Nacional mais conservador desde 1964. Anos difíceis estavam por vir, sem a prosperidade de três mandatos petistas anteriores. Seriam dias de luta, frustração e de muita resistência.

Dilma Rousseff - Brasília, 31 de agosto de 2016.

*

O segundo mandato de Dilma Rousseff, como sabemos, foi infinitamente prejudicado pela oposição que teve o seu projeto político recusado nas urnas, por um Congresso Federal que temia as investigações sobre corrupção que Dilma sempre apoiou, por um Vice-Presidente que negou o apoio que sua companheira de chapa tanto necessitava, por uma crise econômica que não foi combatida com eficiência e por uma mídia tão golpista quanto os políticos desonestos e reacionários que exploram e roubam o Brasil há anos e anos.

Dilma Rousseff - Brasília, 31 de agosto de 2016.
Dilma foi covardemente deposta por um golpe parlamentar sacramentado em 31 de agosto de 2016, para que o governo golpista de Michel Temer pudesse, enfim, chegar ao poder. Era a consagração de um projeto político neoliberal, hipócrita e cínico, para desespero das camadas mais pobres da sociedade brasileira e felicidade das elites conservadoras que sempre sonharam em obter lucro fácil e imediato em cima de uma mão de obra barata. Temer e seus ministros fizeram pouquíssimo caso das manifestações a favor de Dilma Rousseff e/ou pela convocação de eleições diretas. A resposta dos setores ligados à esquerda se deu no dia 4 de setembro de 2016: mais de 100 mil pessoas foram para as ruas de São Paulo protestar contra o golpe parlamentar que rompeu com a democracia no Brasil.


*

A partir do momento em que a normalidade democrática deixou de ser a regra e transformou-se em exceção, cabe a nós, que ainda acreditamos na importância do regime democrático e do voto popular (descaradamente desrespeitado por vários parlamentares), ir para a rua pedir para que a boa e velha honestidade retorne à rotina da sociedade brasileira. Ao colocar o nosso bloco na rua e fazer barulho pela convocação de novas eleições e pela retirada dos golpistas do Planalto, reafirmamos nosso desejo por democracia.


Estes são dias de resistência, dias de combate, dias de luta. Cabe a todos nós que acreditaram no projeto político e na idoneidade de Dilma Rousseff defender a Constituição com unhas e dentes, apesar da truculência da Polícia e do Estado. Estarei nas ruas para brigar por isso...