23 de novembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 8

CARTOLA – CARTOLA (1974)

Angenor de Oliveira: também conhecido como Divino; ou chamado de Poeta das Rosas; foi também o marido de Dona Zica da Mangueira e um dos fundadores da Escola de Samba de sua comunidade. Para o resto do mundo, ficou conhecido apenas como Cartola.
Não podemos escrever a história da Música Brasileira sem mencionarmos a importância da obra deste gênio para todos nós. Cartola é considerado o maior sambista de toda a história da nossa canção: influenciou gerações e gerações, foi regravado por artistas que fazem parte do universo do Samba e da chamada “MPB” e gravou quatro discos antológicos na década de 1970 e que são fundamentais na coleção de qualquer amante da arte musical.
No entanto, a relação do Divino com o samba vem desde a década de 1920: em 1925 fundou um bloco de Carnaval que seria o embrião da Estação Primeira de Mangueira; na década de 1930 compôs (e vendeu) sambas para Francisco Alves, Mário Reis e Aracy de Almeida. Chegou a atuar como cantor de rádio na década de 1940, mas, aos poucos – motivado por dramas pessoais e por desavenças com a diretoria da Mangueira nos anos 40 – , deixou o meio musical.
A sorte de Cartola mudou em 1952, quando Stanislaw Ponte Preta encontrou o sambista trabalhando em condições modestas como flanelinha em um bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. O Poeta das Rosas, que tinha sido dado como desaparecido ou morto, foi levado a fazer algumas apresentações em rádios e restaurantes. No entanto, o que lhe trouxe o verdadeiro sucesso foi a união entre música (o samba da Mangueira) e comida (a lendária feijoada de D. Zica): o Zicartola era mais do que um simples restaurante: era um centro cultural no qual a Rua da Carioca fervilhava com encontros entre sambistas do morro, poetas-letristas, jornalistas, novos talentos, velhos bambas: Elizeth Cardoso, Hermínio Bello de Carvalho, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Sérgio Cabral, Nara Leão, Zé Kéti, Carlos Cachaça e João do Vale eram alguns dos nomes que apareciam por lá…
Apesar de ter participado de algumas faixas avulsas de discos coletivos e de ter sido gravado por nomes de enorme prestígio como Paulinho da Viola, Clara Nunes, Nara Leão e Elza Soares, a consagração definitiva ainda estava por vir: prestes a completar 66 anos, Cartola ainda não tinha gravado seu próprio disco. O anjo da guarda que realizou este feito foi o publicitário, pesquisador musical e produtor de discos Marcus Pereira, que decidiu produzir o disco do Mestre Mangueirense.
Este álbum, que já nasceu clássico, reuniu o melhor do cancioneiro que Cartola produziu em uma vida inteira. Afinal, ninguém conseguiu a primazia de reunir no mesmo disco pérolas do naipe de “Acontece”, “Tive Sim”, “Amor Proibido”, “Disfarça e Chora”, “Corra e Olha o Céu”, “Sim”, “O Sol Nascerá (A Sorrir)” e “Alvorada”. Nestas canções, o sambista expôs sua visão, por assim dizer, anticonvencional do sentimento amoroso em versos tão belos e bem escritos – Cartola era leitor de poesia, especialmente de Castro Alves.
A estreia de Cartola em disco é um atestado de que o samba é uma de obra de arte imortal. A poesia deste Mestre fez com que o nome de Angenor de Oliveira transcendesse o universo das escolas de samba para ocupar um lugar dentre os gênios que levaram a música deste país um patamar de inventividade tal qual o fizeram Jobim, Villa-Lobos e alguns outros…

Salve, Cartola!

20 de novembro de 2016

TROVA # 99

ALGUNS SEGREDOS MUSICAIS AO SOM DE ZÉLIA DUNCAN


Para Nilton Serra, no dia de seus 35 anos

You taught me precious secrets of the truth withholding nothing
You came out in front and I was hiding
But now I’m so much better
And if my words don’t come together
Listen to the melody
‘Cause my love is in there hiding

I love you in a place where there’s no space in time
I love you for in my life
You are a friend of mine
And when my life is over
Remember when we were together
We were alone and I was singing a song for you.
(Leon Russell, 1970)

Primeira vez que eu te vi
Meu coração não fez clique
Se ouvi ou vi, não vivi
Seu pique seu trique trique

Não vi sushi, sashimi
Nem Eros nem Afrodite
Primeira vez que eu te vi
Primeiro vi seus limites
(Christiaan Oyens & Itamar Assumpção, 2005)


Certa vez o sábio e saudoso poeta Torquato Neto escreveu: “Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas”. Se o co-autor de “Geleia Geral” tivesse escrito um texto sobre Zélia Duncan, ele diria que ela preferiria todas e mais uma. Não me recordo de nenhum artista cujo trabalho musical seja tão marcado pela diversidade quanto o de Zélia. É uma cantora, compositora e intérprete de uma coragem e dignidade impressionantes, qualidades raríssimas de ver por aí...



Devo confessar publicamente que demorei um bocado para fazer parte da festança musical de Dona ZD. Tenho alguns motivos: 1) minha dificuldade em compreender que o repertório dela era muito além da “Catedral” ou os lençóis do reggae que lhe fizeram famosa pelo Brasil inteiro; 2) uma boa dose de ciúmes desta nobre escorpiana; afinal de contas, o aquariano com ascendente em touro que vos escreve sempre demandou por atenção e exclusividade...



Nilton Serra, outro escorpiano obstinado e insistente, me ensinou não só a gostar do trabalho de Zélia, como também me ensinou a admirá-la profundamente. Aprendi que ser famoso e ser reconhecido não é fruto de mera celebridade ou dos reflexos dos louros colhidos de um sucesso na trilha sonora de uma das novelas de Silvio de Abreu. É resultado de muito trabalho, de várias parcerias e do amor de “um milhão de amigos”. Zélia Duncan é uma operária da canção, uma formiguinha sempre disposta a espalhar o seu canto por toda a parte. Despojada de quaisquer atributos ou cacoetes das “Divas da Música Brasileira”, compõe, produz, toca violão, guitarra, bandolim e canta com um dos registros vocais graves dos mais belos que eu já ouvi.



A primeira vez em que eu vi Zélia cantando ao vivo foi durante a gravação de um DVD ao vivo de Rita Lee, em 2004. Interpretou “Pagu” lado a lado da Rainha do Rock brasileiro e teve de fazer o número duas vezes para que a filmagem ficasse perfeita. Melhor para nós, mortais espectadores, que pudemos presenciar uma das parcerias mais bacanas da música nacional duas vezes em uma mesma noite. Nada mal para um carioca que sempre morreu de amores por São Paulo e viajava para a Terra da Garoa durante os feriados prolongados. Apesar de ter gostado muito, eu ouvia aquela voz grave com uma certa desconfiança...



Anos depois, já morando em São Paulo, fomos curtir um sábado em outra gravação de DVD, desta vez de Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band, de Zélia. Tudo transcorria muito bem quando senti algo muito estranho dentro da boca ao comer um salgadinho. Resultado: tinha quebrado um dente minutos antes de chegar ao Auditório Ibirapuera. Por não se tratar de um dente da frente e por não estar sentindo nenhuma dor (apenas um desconforto gigantesco!), decidimos ir para o show mesmo assim. Assistimos Zélia Duncan em um dos momentos mais inspirados e produtivos de sua carreira diretamente da segunda fila do auditório e interpretando compositores de primeiríssima linha como Itamar Assumpção, Alice Ruiz e Paulinho Moska com muita competência e à frente de uma banda de músicos extraordinários.




Como toda filmagem tem lá os seus imprevistos, ficamos dentro da sala de espetáculos até 3 ou 4 da madrugada com ZD repetindo números de seu setlist, ralhando (coberta de razão!) com membros da equipe técnica para que o trabalho se concluísse a tempo dela não se sentir obrigada a servir o café da manhã para os heróicos espectadores ainda presentes no Auditório Ibirapuera. Ah, se todas as cantoras brasileiras tivessem este tipo de bom humor ao enfrentar imprevistos em cima do palco...



Poucos anos depois, retornamos a mais uma gravação de CD e DVD ao vivo no Auditório Ibirapuera: desta vez, em Amigo é Casa, no qual Zélia dividia o espetáculo com a cantora Simone. Duas noites de shows, duas noites virados na rua esperando pela abertura das catracas do metrô às 5 da manhã, pois (pobres e fodidos que éramos na época) não tínhamos carro ou sequer dinheiro para pegar um táxi para casa. Acima de tudo, nós éramos jovens de vinte e poucos anos felizes e topávamos qualquer noitada na rua ao lado de nossos queridos amigos. A formiga e a cigarra da música brasileira foram a trilha sonora daqueles tempos – canções de Gonzaguinha, Roque Ferreira, Guilherme Arantes e tantos outros fizeram a nossa cabeça e abriram ainda mais os meus ouvidos para o trabalho de Zélia Duncan.




Foi graças ao excelente disco Pelo Sabor do Gesto que Zélia Duncan finalmente conquistou este chato e exigente coração! Depois de ouvir todos os seus discos, creio que foi em 2009 que ZD achou o auge de sua forma – suas parcerias, sua voz e o seu repertório me atingiu em cheio. Fiquei um pouco triste por ela ter mudado a letra de “Ambição” – uma das minhas favoritas de Rita Lee –, mas adorei a escolha de uma canção obscura do cancioneiro da Rainha do Rock brasileiro. “Tudo Sobre Você” ficou impregnada nos meus ouvidos por um bom tempo. “Esporte Fino Confortável”, parceria de Zélia com Chico César, serve como piada interna entre nós e alguns de nossos amigos até hoje.




E foi graças ao show baseado em Pelo Sabor do Gesto que Nilton e eu cometemos a maior maluquice de toda a nossa história de frequentadores de shows: ir de São Paulo até Niterói para assistir a mais uma gravação de DVD de Zélia - dois shows em um mesmo dia no Teatro Municipal de Nikiti (um às 15h e outro às 18h), uma verdadeira maratona musical. Quando vi Lady Duncan linda e esplendorosa dentro de um vestido colorido de Ronaldo Fraga no palco daquele teatro aconchegante, deixei todo o mau humor da viagem de lado e curti aquele dia de domingo. Depois de algumas emoções e surpresas, voltamos para São Paulo, exaustos como nunca.





Fiquei encantado e emocionado com Tudo Esclarecido, CD e show no qual Zélia interpretava as canções do indefectível Itamar Assumpção. Entendi como o Jimi Hendrix conseguia ser um artista de inteligência e intensidade através da gigantesca reverência e competência de ZD – ninguém conseguirá me convencer da inexistência de outra gravação mais bela para “Noite Torta” do que a da filha de D. Loïse Duncan. Na mesma época, tivemos a oportunidade de vislumbrar a obra de Luiz Tatit com outros olhos através de ToTatiando. Zélia Duncan conseguiu a improvável façanha de deixar Tatit menos hermético através de uma perspectiva encantadoramente dramática de seu cancioneiro. Confesso que perdi as contas de quantas vezes assisti a este espetáculo, como também nem consigo me lembrar de quantas vezes já fui ao seu camarim e fomos recebidos com um sorriso largo que não parece ter mais fim.






Os excessos de compromissos profissionais, somados a algumas chegadas e partidas familiares nos tiraram de circulação por um bom tempo. Consequência direta: deixamos de acompanhar as gravações de DVD mais recentes de ZD. Por outro lado, fiquei bem contente quando surgiu a oportunidade de ver um show inédito de Zélia Duncan depois de um bom tempo. A felicidade dobrou quando soube que o espetáculo era baseado em Quando o Mundo Acabar, CD no qual Lady Duncan nos concedeu o luxo de ouvirmos alguns sambas consagrados e outros de sua própria autoria. No entanto, estávamos bem longe do palco e acomodados nas últimas cadeiras do teatro do SESC Vila Mariana. Deixei-me surpreender ao ver a cortina se abrir e me deparar com a artista saindo justamente do nosso lado para dar início a um espetáculo alegre e inteligente.



Zélia Duncan nunca tinha soado tão bela e jovial em cima de um palco para mim: em menos de duas horas de show, meu coração batucou com cavacos e cuícas que choravam com elegância. A moça em cena nem se parecia com aquela que substituiu Rita Lee no grupo Os Mutantes entre 2005 e 2007, com quem eu ralhava tanto, mas fui assistir no Parque da Independência mesmo assim... Minha implicância com ZD se transformou em uma admiração confessa, acrescida de uma inveja branca sem tamanho: como alguém que consegue fazer tanta coisa boa em termos de música tem a capacidade de escrever crônicas tão belas para o jornal O Globo toda sexta-feira?!






Aqui estão algumas de nossas historinhas tão particulares e preciosas com Zélia Duncan, a artista que mais tem contribuído para a intimidade dos nossos sons de alguns anos para cá. Existem outras anedotas a serem ditas, mas é melhor deixá-las para outro texto por questões de espaço – afinal, o amor e a admiração por ZD ultrapassam quaisquer limites. Quando eu conseguir me exprimir em palavras com um décimo da classe e da competência de Lady Duncan, eu escrevo outra crônica. "Por hoje é só"...




“Nem que eu contasse as gotas do mar, todos os dias
Pra me acalmar do que eu nunca fiz
Nem que eu parasse as ondas do ar, dia após dia
Descansaria as horas em mim,
Por hoje é só
Bruxas e reis sorriram pra mim,
Sei que é assim
Certo é errar, mas quando acordei corri devagar
Sem perceber cheguei aqui”
(Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)

19 de novembro de 2016

TROVA # 98

LADY SHARON


Em memória de Sharon Jones (1956-2016)

"Music is my happiness, my joy, and when my body wasn't right I couldn't get into my music without being healed, without being healthy."
(Sharon Jones


Nunca escondi minha predileção pelos artistas negros. Não apenas por eles carregarem anos e anos de experiência, luta e sofrimento no canto, como também pelo fato de que a extensão vocal deles coloca muito branquelo no chinelo. Se você canta "bem", você canta como uma lenda do Jazz, do Blues ou do Soul, estilos musicais inventados e reinventados por ex-escravos.


Sharon Lafaye Jones, mais conhecida como Sharon Jones, foi uma lenda do canto. Antes de ter sido consagrada como artista, trabalhou como agente penitenciária em um presídio nos EUA. Aprendeu a cantar na velha e infalível "escola" de 11 entre 10 negros na terra do Tio Sam: nas igrejas! Cantava Soul. Lançou seu primeiro disco depois de completar 40 anos de idade. 


Sharon era um monstro em cima do palco: cantava, grunhia, dançava (sozinha ou com os fãs que chamava ao palco), se chacoalhava ao som do Soul que cantava e respirava. Herdeira de Aretha Franklin e tinha influência descaradíssima de Tina Turner. Cantava com uma energia e atitude impressionantes, colocando muita menininha Pop Star de 20 e poucos anos no chinelão. Ao saber que tinha um câncer pancreático e que a luta seria longa e difícil, Sharon Jones passou a levar a máxima "faça este show como se fosse o último" ao pé da letra.


Conheci o som de Ms. Jones à frente dos The Dap-Kings na época do lançamento do quarto disco deles: I Learned the Hard Way (2010). Graças ao Pequenos Clássicos Perdidos de Fábio Bridges, este verdadeiro agitador cultural das searas internéticas, pude ter a oportunidade de conhecer melhor o trabalho do grupo que acompanhou Amy Winehouse em Back to Black (2006). Mark Ronson, que não era nem bobo nem nada, viu o excelentíssimo conjunto de apoio de Sharon Jones como o trampolim perfeito de Amy para o sucesso. "Rehab", "Wake up Alone" e "You Know I'm no Good" não teriam sido os hits que foram sem aqueles músicos tão brilhantes. E, arrisco dizer, a influência de Lady Sharon teve um peso marcante: o que era retrô se tornou vintage...




Sharon nos deixou em 18 de novembro de 2016, aos 60 anos de idade. Em plena atividade, em constante ebulição, em um momento no qual o mundo carece de vozes fortes e marcantes em um mundo cada vez mais caduco e conservador, ouvir a Soul Music de Sharon Jones & The Dap-Kings não é apenas ouvir música de qualidade, é também um ato político: diante da onda reacionária e racista que cresce a olhos vistos, é uma cantora de enorme representatividade para os negros, para as minorias e para aqueles que ainda de importam com princípios humanitários e expressões artísticas de tamanha autenticidade.



Descanse em paz, Lady Sharon! Muito obrigado por ter lutado até o fim! O mundo sentirá muito a sua falta...




16 de novembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 7

KARINA BUHR – SELVÁTICA (2015) 



“As mulheres tem servido por todos esses séculos como espelhos que possuem o poder mágico e delicioso de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural.”
(Virginia Woolf – A Room of One’s Own)


Se realizarmos uma pesquisa a respeito de como a música brasileira tem retratado a figura da mulher no decorrer dos anos, vamos chegar à conclusão lógica, clara e evidente de que a fala feminina ela é, na verdade, uma extensão do pensamento masculino: a Amélia de Mário Lago sempre será querida pelo público por ser a fêmea “de verdade” que lava, passa e faz as vontades e desejos de seu macho; a Marina de Caymmi, coitadinha, nem poderia sequer utilizar uma maquiagem para se sentir mais bela, visto que a noção de beleza é definida pelo macho que canta.
Erasmo Carlos, em uma de suas mais belas canções, não apenas pediu inspiração, como também deu uma pequena voz àquelas que não podiam se expressar. Chico Buarque, travestido de mulher em versos, conseguiu traduzir uma parcela dos desejos e contradições da “alma feminina”. Rita Lee, quando era a mulher mais importante da música popular deste país, soube dar voz a uma série de questões que vivíamos na ordem do dia para aquelas que sempre foram reprimidas sumariamente por aqueles que amaram.


Karina Buhr é uma das poucas artistas femininas dispostas a reescrever a história da figura feminina na música brasileira: seus discos, seus desenhos e seus poemas clamam pela defesa das mulheres em geral, em um mundo ideal no qual a igualdade de direitos deveria valer para ambos os sexos. No entanto, o Brasil ainda necessita de manifestos feministas em pleno século XXI para entender o quanto a luta por direitos iguais ainda é necessária e relevante. Selvática, terceiro álbum de Karina, é muito mais do que um simples disco: trata-se de um manifesto que afirma a necessidade do empoderamento da figura feminina em meio à cena contemporânea. A ideia em relação ao conceito deste trabalho surgiu a partir da leitura de uma passagem do livro do Gênesis, da Bíblia (um livro machista, deixemos bem claro), que fala a respeito da criação dos animais selváticos (cobras, insetos e outros bichos peçonhentos) – as mulheres em geral, por serem criaturas ligadas ao pecado e por serem supostamente traiçoeiras e dotadas de fragilidade, também deveriam ser consideradas como selváticas. A artista justifica que sua proposta reside no fato de que é preciso reescrever uma história pautada em silêncio e opressão, visto que os fatos históricos foram escritos e proclamados pelos homens.
A comoção em torno do álbum começou a tomar conta das redes sociais em setembro de 2015 quando a capa do disco foi divulgada na página mantida por Karina Buhr no Facebook. A imagem – que mostra a cantora sem camisa (o que implica os seios à mostra) é caracterizada como uma guerreira do Daomé, com colar, pulseiras e um punhal já demonstrando estar preparada para o combate – foi censurada com a alegação de nudez explícita. O que o Sr. Mark Zuckerberg – e a ala conservadora que tem tido voz e espaço neste país ignora solenemente – é o fato de que o adjetivo selvático significa algo próprio das selvas, que nasce e/ou se cria por lá. A postura, infelizmente, não surpreendeu Buhr, que afirmou ao portal G1 no auge da polêmica: “Achava que o Facebook poderia tirar a foto, bloquear meu perfil ou até a página, como já aconteceu outras vezes, por exemplo, com o fanzine digital ‘Sexo Ágil’, que faço desde 2012 e onde sempre tem peitos. Mas não deixaria de postar a capa do meu disco, nem méis desenhos, nem nada, por conta disso”.
Se Karina Buhr tivesse que atender às expectativas de seus censores (machos, machistas e feminazis exercendo o pior de seu patrulhismo ideológico, político e estético), como ela deveria retratar o conceito de um ser selvagem ou silvestre? Vestindo roupas de Christian Dior para agradar aos que teriam se sentido supostamente agredidos por um par de belos seios?! Enquanto a patrulha em torno dos corpos femininos tomava conta das redes em nome da tradição, dos bons costumes em prol de uma suposta vaidade da artista, outros decidiram repostar e recriar a controvertida foto em seus perfis como um ato de protesto, o que rendeu um efeito instantâneo: a curiosidade em torno do CD aumentou de maneira impressionante, apesar da onda hipócrita e reacionária constante…
Antes de tecermos quaisquer considerações acerca das canções do disco, é importante dizer que Karina Buhr contou com um time de músicos de primeiríssima categoria para as gravações de Selvática: Bruno Buarque (bateria, MPC e percussão), MAU (baixo), André Lima (teclados), Guizado (Trompete), Fernando Catatau e Edgard Scandurra (guitarras). O CD ainda contou com as participações especiais de Manoel Cordeiro (guitarra), Laura Lavieri (vocais), Victor Rice (violoncelo) e da aparição das vozes selváticas de Denise Assunção e Elke Maravilha. A produção do álbum ficou a cargo de Buarque, MAU, Lima e Rice, que gravaram as faixas entre os meses de junho e julho de 2015.

André Lima, Karina Buhr, Bruno Buarque, MAU e Victor Rice (sentido horário)


A faixa de abertura, “Dragão”, ajuda o ouvinte a ser inserido no contexto do disco. Como uma fera que chega sorrateiramente diante de sua presa, o discurso de Karina nos envolve em um belo reggae que nos diz que “a tristeza é amiga da onça, / que ensina a enfrentar leões”, dentre os milhares que devem ser combatidos pelo dia-a-dia. No entanto, a temporária calmaria era um passo em falso para o ouvinte menos avisado de Selvática, visto que a segunda faixa do álbum é o rock “Eu sou um Monstro”, fala de clichês femininos e da necessidade da mulher de abandonar o estado de apatia em um universo majoritariamente misógino e que consegue abalar as estruturas emocionais de qualquer indivíduo através dos versos diretos de Buhr e da guitarra incendiária de Edgard Scandurra:

Mulher, tua apatia te mata
Não queira de graça
O que você nem dá pra você, mulher
Hoje eu não quero falar de beleza
Ouvir você me chamar de princesa
Eu sou um monstro
(…)


O peso da agressividade do primeiro single de Selvática abre espaço para a terceira canção do disco, “Conta Gotas” (Karina Buhr & Guizado), que se destaca pelos solos lancinantes do trompete de Guizado, que interagem com a poesia cortante de Karina, que revela a típica tristeza proveniente de lágrimas derramadas, lástimas ditas de maneira veloz e imperdoável e pensamentos a voar livremente diante de uma relação amorosa supostamente marcada pela infelicidade constante. Já a faixa seguinte, a desaforada “Pic Nic” (com destaque para os riffs nervosos de guitarra de Fernando Catatau, integrante do grupo Cidadão Instigado), é uma nota raivosa, irreverente e debochada ao universo pequeno-burguês e suas mediocridades, com seus ímpetos de ganância (um cacoete masculino?) e seu elenco de indivíduos supostamente descartáveis. Eis os versos de Buhr, repletos de sarcasmo e deboche:


Não me importa de onde vem o dinheiro dele
Vai ter churrasco não sei onde botou o gelo ele
Tem pó de serra, cerveja em cima da mesa
Tem pés em baixo da minha mesa

Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic

Não quero saber porque você veio
Nem de sua cerveja, seu gelo, sua ganância
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas

Seu filho ri enquanto o meu chora
Você chama o psicólogo
Eu jogo você fora

Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Agora, chame o psicólogo!

Corre, pega o gelo
Corre, frita a carne
Corre, não reclama
Corre, não faz drama

Corro pra minha vida
Acordo pra corrida
Corro pro salário
Seu esquema otário

(…)



A quinta e a sexta faixas de Selvática são os dois números mais fortes e ligeiros do disco. “Esôfago”, de Karina Buhr, fala da violência doméstica sofrida por milhares e milhares de mulheres que nunca tiveram a oportunidade de ter seus males reparados por uma sociedade misógina e injusta. “Cerca de Prédio”, parceria de Buhr com Cannibal (baixista e vocalista da banda punk Devotos), versa sobre a especulação imobiliária e do clima sufocante que tomou conta dos grandes centros urbanos. Os versos da canção refletem a impossibilidade do indivíduo de se reconhecer em meio à cidade que o reprime e não o acolhe:


Não te reconheço, minha cidade
Não deixe, não se abandone
Com promessa de felicidade
O asfalto quente consome

Carnaval eu volto
Me espera
Com tanto pé de planta
Você de primavera

Cidade ouve seu grito
Dia de hoje um corte bruto
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Estúpido

Não te reconheço, minha cidade
Não deixe, não se abandone
Com promessa de felicidade
O asfalto quente consome

Quando der eu volto, me espera
Me leve pro seu mundo
Um poço de calma
Que alivia a alma
Entristece coração

O tempo faz isso com a gente
O tempo faz isso com a gente
Move montanhas diálogos
Muda o compasso com os passos

Planta dos pés no chão
queimando cansaço
Algumas coisas mudaram
Grades, janelas
Acho que a casa é aquela
Agora é amarela
Planto meus pés na cidade
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio


Os três números seguintes do terceiro álbum de Karina Buhr são os momentos mais poéticos e reflexivos do disco. “Vela e Navalha” e “Rimã” vão da descrição hábil de uma bela guerreira ao momento de plena devoção à natureza que nos regenera é que merecia maior respeito por parte dos humanos.




No entanto, é a nona faixa de Selvática, “Alcunha de Ladrão”, que expõe o talento genuíno de Buhr para escrever versos. Ao relatar o cotidiano cruel de um ser marginalizado pelo chamado “avanço social”, a autora de Desperdiçando Rima consegue retratar com clareza algumas das principais mazelas do Brasil – a fome, a miséria, a desigualdade social, a repressão policial, o descaso das autoridades perante os excluídos:


Solução às vezes nenhuma
Ou vês alguma saída
Se não tem esperança sobra
Quando tem ela pede comida
Sofrida a boca esquece
Do barulho do estômago aflito
Que o bico seca sem água
Que exige e consegue viver
Que não quer mas precisa, de fome,
Pensar rápido, roubar e correr

Não era esse o seu ofício
Nem o que sonhava pra si
Mas a fome não mede o porvir
E exige na pança o peso
Se ileso consegue fugir
Não entende como passou
Só sabe que precisava
Não teme quase nada
Suas asas que seguem inteiras
Pairam na beira do perigo
Não tem vicio praticamente
não sente arrepio na vista
não tem quase medo de nada
mas teme ainda a polícia



“Desperdiço-te-me”, penúltima canção do disco, é um belo texto sobre paixão e desilusão amorosa. Tal qual uma Carolina buarqueana que vê algo de essencial passar diante de seus olhos tristes sem esboçar quaisquer reações, a Karina Buhr destes versos também se revela como uma mulher dominada pela apatia infeliz de um sentimento avassalador, que vence sua presa pelo cansaço:

Quando você botou o dedo
No meu coração
Abriu um rio
Abri meus olhos
Vi que a sala estava escura
Que brilhava a pele dura
De paixão

Hoje desperdiço-me
Sentada nesse jardim
vendo a vida passar por mim assim
Hoje desperdiço-me
Vendo um pedaço da vida
passar por mim e ir

E não faço nada pra conter
O desvio de poder sobre mim
Que passou de miim pra você
Quando te vi pela segunda vez

Então desperdiço-te-me
Nesse cansaço da vida
que passa por mim

Selvática chega ao fim com a canção-manifesto que dá nome a esta coleção de 11 canções irrepreensíveis. Karina Buhr se propõe a reescrever a história das mulheres a partir do momento presente, resgatando o instinto guerreiro contido em cada indivíduo do sexo feminino que tenha sido vítima de misoginia, de agressão ou de qualquer desmando gerado pelo sexo oposto, abrindo caminho para a liberdade de um sexo tido como inferior ou supostamente frágil:

Refaço! Rechaço!
Não lhe devemos nada
não nos verás na escuridão como capacho
nos temporais amargos
dias penumbrosos anoitecidas
Não moveras do corpo um pelo
a tempestade é vencida
Selváticas, por amor ensandecidas.
Não as tocarão manadas apedrejantes.
Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas
cavalgam amazonas delirantes.
Guerreira que bebe sangue
arco e flecha do Daomé
viço do bicho, ebó de mangue
jurema da favela
óleo de palma pra ela
alma na planta do axé


A partir da primeira feitiçaria atirada por Karina aos seus ouvintes sem sinal de dó, surgem duas vozes selváticas que irão corroborar a história a ser reescrita. Denise Assunção (irmã do Nego Dito Itamar Assumpção) reencarna as guerreiras africanas selváticas e lança suas profecias em formas de versos, gritos e uivos desesperadores:


O eclipse perdurará
acharás palha no agulheiro e transmutarás
Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás
com o cipó da própria raiz segura
costura de árvores nas alturas
não espirrarás tua violência amanhecida
tantas vezes na aprovação da multidão
tua sanha virará só coração
sem arranhão, nem ferida
Choro trufado, pedregoso
umedece o olho arranhando
refinando a vista embargada
guerrilheira curda vitoriosa
nas curvas das serras teimosas
Mulheres, conforme a espécie na guerra
esbravejam a dor da Terra em uivos
lhes crescem pupilas ruivas
uvas bacantes semeadas
oliveiras palestinas suculentas
avisam: já não há quem possa

Denise Assunção e Karina Buhr na choperia do SESC Pompeia
Foto: Nilton Serra


Elke Maravilha, a segunda voz selvática a aparecer, relembra as mulheres que foram levadas às inquisições por feitiçaria ou qualquer outro tipo de pecado.  Ela nos avisa que os fatos históricos serão reescritos de forma que as cicatrizes indeléveis gravadas em vários corpos femininos sejam finalmente esquecidas – independentemente da aprovação dos homens:

Chifres de marfim nascem devagar
a empurrar entremeando os cabelos
Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes
estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs
Vãs as imagens delas
conforme a sua semelhança
bailarão lança e festança
extirparão o sumo da memória criminosa
refarão a história e a prosa
de tuas eternas inquisições de fogueiras
em beiras de abismos baderneiras flamejantes
ciganas a postos abafarão os berreiros constantes
em fogosas rosas gigantes
filhos meus, os seus e os nossos
Selváticas, elas não necessitam seu elogio
Ela transgride sua orientação

A profecia de Elke, concluída com uma gargalhada típica de uma bruxa horripilante, dá espaço para a conclusão do manifesto de Karina Buhr, que lança mão da prosódia religiosa e finalmente sentencia para concluir, no dizer da filósofa brasileira Márcia Tiburi, esse “heavy metal-macumba feminista, esse deboche bíblico-diabólico, tentando entender o teratológico gênero musical que só a Karina podia inventar para reunir bruxas, fadas, amazonas, iluminadas e guerreiras, perdidas e vitoriosas”:

Refeito o começo bíblico
não ferirás nenhum corpo por ser feminino
com faca, ou murro, ou graveto
eu te prometo
sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto
Super heróis de tuas vítimas estancadas
agora és delas a espada e não o algoz
Selvática, ela come a selva de fora
ela vem da selva de dentro!
Selvática, ela pare a própria hora
ela bale em pensamento!
E no final ideal não terás domínio
algum sobre mulher alguma!
No final ideal não terás domínio
sobre mulher alguma!

Karina Buhr reescrevendo a história das mulheres na canção brasileira a partir do livro do Gênesis
Foto: Vinil

É importante acrescentar que este álbum possui um sem-número de simbolismos que não caberiam em nossa análise. No entanto, é importante citar uma aqui, a partir de um post feito na página de Karina Buhr no Facebook, poucos dias após o lançamento do CD: no caso, foi feita a lembrança em relação aos Bereber, um povo bárbaro e selvagem baseado em uma cultura essencialmente matriarcal, surgido há mais de dois mil anos. Estes indivíduos ocupam a região de Magreb, que fica entre a Argélia, a Tunísia e o Marrocos e preveem ser chamados de “Amazigh”, que significa em português, “pessoas livres”. As mulheres desse povo longínquo são caracterizadas pela beleza e pela força, além de sempre conseguirem manejar armas brancas com notável destreza e de estarem sempre vestidas com muitas pulseiras, colares e outros tipos de ornamento. Sua rainha mais importante viveu por volta do ano 600 e tinha o dom da profecia: foi batizada como Dihya, mulher-luz e rainha dos selvagens, conhecida por todos os seus como Kahina, nome utilizado para denominar todas as sacerdotisas e feiticeiras. Na língua de Camões, este nome ficou conhecido como Karina…
Se os reacionários de plantão tivessem ouvido o disco com atenção e fizessem um mínimo de pesquisa pelo próprio Google ou Facebook antes de julgar o conteúdo pela capa, teriam chegado à óbvia conclusão de que a imagem da capa de Selvática não é apenas um mero convite à afronta ou uma mera demonstração de egolatria, mas um manifesto corajoso muitíssimo bem fundamentado, algo que não se vê na música brasileira há muito tempo. 
Por isso, aproveite a chance e deixe-se enfeitiçar por este manifesto em prol da liberdade chamado Selvática, um disco que já nasce com a pecha de clássico – em nome das mulheres, em nome da igualdade, em nome da poesia e da música de boa qualidade!


ESTE TEXTO FOI ORIGINALMENTE PARA O SITE PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS!