Angenor de Oliveira: também
conhecido como Divino; ou chamado de Poeta das Rosas; foi também o marido de
Dona Zica da Mangueira e um dos fundadores da Escola de Samba de sua
comunidade. Para o resto do mundo, ficou conhecido apenas como Cartola.
Não podemos escrever a história
da Música Brasileira sem mencionarmos a importância da obra deste gênio para
todos nós. Cartola é considerado o maior sambista de toda a história da nossa
canção: influenciou gerações e gerações, foi regravado por artistas que fazem
parte do universo do Samba e da chamada “MPB” e gravou quatro discos
antológicos na década de 1970 e que são fundamentais na coleção de qualquer
amante da arte musical.
No entanto, a relação do Divino
com o samba vem desde a década de 1920: em 1925 fundou um bloco de Carnaval que
seria o embrião da Estação Primeira de Mangueira; na década de 1930 compôs (e
vendeu) sambas para Francisco Alves, Mário Reis e Aracy de Almeida. Chegou a
atuar como cantor de rádio na década de 1940, mas, aos poucos – motivado por
dramas pessoais e por desavenças com a diretoria da Mangueira nos anos 40 – ,
deixou o meio musical.
A sorte de Cartola mudou em 1952,
quando Stanislaw Ponte Preta encontrou o sambista trabalhando em condições
modestas como flanelinha em um bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. O Poeta
das Rosas, que tinha sido dado como desaparecido ou morto, foi levado a fazer
algumas apresentações em rádios e restaurantes. No entanto, o que lhe trouxe o
verdadeiro sucesso foi a união entre música (o samba da Mangueira) e comida (a
lendária feijoada de D. Zica): o Zicartola era mais do que um simples
restaurante: era um centro cultural no qual a Rua da Carioca fervilhava com
encontros entre sambistas do morro, poetas-letristas, jornalistas, novos talentos,
velhos bambas: Elizeth Cardoso, Hermínio Bello de Carvalho, Nelson Cavaquinho,
Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Sérgio Cabral, Nara Leão, Zé Kéti, Carlos
Cachaça e João do Vale eram alguns dos nomes que apareciam por lá…
Apesar de ter participado de algumas
faixas avulsas de discos coletivos e de ter sido gravado por nomes de enorme
prestígio como Paulinho da Viola, Clara Nunes, Nara Leão e Elza Soares, a
consagração definitiva ainda estava por vir: prestes a completar 66 anos,
Cartola ainda não tinha gravado seu próprio disco. O anjo da guarda que
realizou este feito foi o publicitário, pesquisador musical e produtor de
discos Marcus Pereira, que decidiu produzir o disco do Mestre Mangueirense.
Este álbum, que já nasceu
clássico, reuniu o melhor do cancioneiro que Cartola produziu em uma vida
inteira. Afinal, ninguém conseguiu a primazia de reunir no mesmo disco pérolas
do naipe de “Acontece”, “Tive Sim”, “Amor Proibido”, “Disfarça e Chora”, “Corra
e Olha o Céu”, “Sim”, “O Sol Nascerá (A Sorrir)” e “Alvorada”. Nestas canções,
o sambista expôs sua visão, por assim dizer, anticonvencional do sentimento
amoroso em versos tão belos e bem escritos – Cartola era leitor de poesia,
especialmente de Castro Alves.
A estreia de Cartola em disco é
um atestado de que o samba é uma de obra de arte imortal. A poesia deste Mestre
fez com que o nome de Angenor de Oliveira transcendesse o universo das escolas
de samba para ocupar um lugar dentre os gênios que levaram a música deste país
um patamar de inventividade tal qual o fizeram Jobim, Villa-Lobos e alguns
outros…
“You
taught me precious secrets of the truth withholding nothing
You came out in front and I was hiding
But now I’m so much better
And if my words don’t come together
Listen to the melody
‘Cause my love is in there hiding
I love you in a place where there’s no space in time
I love you for in my life
You are a friend of mine
And when my life is over
Remember when we were together
We were alone and I was singing a song for you.”
(Leon Russell, 1970)
“Primeira
vez que eu te vi
Meu
coração não fez clique
Se
ouvi ou vi, não vivi
Seu
pique seu trique trique
Não
vi sushi, sashimi
Nem
Eros nem Afrodite
Primeira
vez que eu te vi
Primeiro
vi seus limites”
(Christiaan Oyens & Itamar
Assumpção, 2005)
Certa vez o sábio e saudoso poeta Torquato Neto escreveu: “Há várias
maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas”.
Se o co-autor de “Geleia Geral” tivesse escrito um texto sobre Zélia Duncan,
ele diria que ela preferiria todas e mais uma. Não me recordo de nenhum artista
cujo trabalho musical seja tão marcado pela diversidade quanto o de Zélia. É
uma cantora, compositora e intérprete de uma coragem e dignidade
impressionantes, qualidades raríssimas de ver por aí...
Devo confessar publicamente que demorei um bocado para fazer parte da
festança musical de Dona ZD. Tenho alguns motivos: 1) minha dificuldade em
compreender que o repertório dela era muito além da “Catedral” ou os lençóis do
reggae que lhe fizeram famosa pelo Brasil inteiro; 2) uma boa dose de ciúmes
desta nobre escorpiana; afinal de contas, o aquariano com ascendente em touro
que vos escreve sempre demandou por atenção e exclusividade...
Nilton Serra, outro escorpiano obstinado e insistente, me ensinou não só
a gostar do trabalho de Zélia, como também me ensinou a admirá-la
profundamente. Aprendi que ser famoso e ser reconhecido não é fruto de mera
celebridade ou dos reflexos dos louros colhidos de um sucesso na trilha sonora de uma das novelas de
Silvio de Abreu. É resultado de muito trabalho, de várias
parcerias e do amor de “um milhão de amigos”. Zélia Duncan é uma operária da
canção, uma formiguinha sempre disposta a espalhar o seu canto por toda a
parte. Despojada de quaisquer atributos ou cacoetes das “Divas da Música
Brasileira”, compõe, produz, toca violão, guitarra, bandolim e canta com um dos
registros vocais graves dos mais belos que eu já ouvi.
A primeira vez em que eu vi Zélia cantando ao vivo foi durante a
gravação de um DVD ao vivo de Rita Lee, em 2004. Interpretou “Pagu” lado a lado
da Rainha do Rock brasileiro e teve de fazer o número duas vezes para que a
filmagem ficasse perfeita. Melhor para nós, mortais espectadores, que pudemos
presenciar uma das parcerias mais bacanas da música nacional duas vezes em uma
mesma noite. Nada mal para um carioca que sempre morreu de amores por São Paulo
e viajava para a Terra da Garoa durante os feriados prolongados. Apesar de ter gostado
muito, eu ouvia aquela voz grave com uma certa desconfiança...
Anos depois, já morando em São Paulo, fomos curtir um sábado em outra
gravação de DVD, desta vez de Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band,
de Zélia. Tudo transcorria muito bem quando senti algo muito estranho dentro da
boca ao comer um salgadinho. Resultado: tinha quebrado um dente minutos antes
de chegar ao Auditório Ibirapuera. Por não se tratar de um dente da frente e
por não estar sentindo nenhuma dor (apenas um desconforto gigantesco!),
decidimos ir para o show mesmo assim. Assistimos Zélia Duncan em um dos
momentos mais inspirados e produtivos de sua carreira diretamente da segunda fila do auditório e interpretando
compositores de primeiríssima linha como Itamar Assumpção, Alice Ruiz e
Paulinho Moska com muita competência e à frente de uma banda de músicos
extraordinários.
Como toda filmagem tem lá os seus imprevistos, ficamos dentro da sala de
espetáculos até 3 ou 4 da madrugada com ZD repetindo números de seu setlist, ralhando (coberta de razão!) com
membros da equipe técnica para que o trabalho se concluísse a tempo dela não se
sentir obrigada a servir o café da manhã para os heróicos espectadores ainda presentes
no Auditório Ibirapuera. Ah, se todas as cantoras brasileiras tivessem este
tipo de bom humor ao enfrentar imprevistos em cima do palco...
Poucos anos depois, retornamos a mais uma gravação de CD e DVD ao vivo
no Auditório Ibirapuera: desta vez, em Amigo
é Casa, no qual Zélia dividia o espetáculo com a cantora Simone. Duas
noites de shows, duas noites virados na rua esperando pela abertura das
catracas do metrô às 5 da manhã, pois (pobres e fodidos que éramos na época)
não tínhamos carro ou sequer dinheiro para pegar um táxi para casa. Acima de
tudo, nós éramos jovens de vinte e poucos anos felizes e topávamos qualquer
noitada na rua ao lado de nossos queridos amigos. A formiga e a cigarra da
música brasileira foram a trilha sonora daqueles tempos – canções de
Gonzaguinha, Roque Ferreira, Guilherme Arantes e tantos outros fizeram a nossa
cabeça e abriram ainda mais os meus ouvidos para o trabalho de Zélia Duncan.
Foi graças ao excelente disco Pelo
Sabor do Gesto que Zélia Duncan finalmente conquistou este chato e exigente
coração! Depois de ouvir todos os seus discos, creio que foi em 2009 que ZD
achou o auge de sua forma – suas parcerias, sua voz e o seu repertório me
atingiu em cheio. Fiquei um pouco triste por ela ter mudado a letra de “Ambição”
– uma das minhas favoritas de Rita Lee –, mas adorei a escolha de uma canção
obscura do cancioneiro da Rainha do Rock brasileiro. “Tudo Sobre Você” ficou
impregnada nos meus ouvidos por um bom tempo. “Esporte Fino Confortável”,
parceria de Zélia com Chico César, serve como piada interna entre nós e alguns
de nossos amigos até hoje.
E foi graças ao show baseado em Pelo
Sabor do Gesto que Nilton e eu cometemos a maior maluquice de toda a nossa
história de frequentadores de shows: ir de São Paulo até Niterói para assistir
a mais uma gravação de DVD de Zélia - dois shows em um mesmo dia no Teatro
Municipal de Nikiti (um às 15h e outro às 18h), uma verdadeira maratona musical. Quando vi Lady Duncan linda e
esplendorosa dentro de um vestido colorido de Ronaldo Fraga no palco daquele
teatro aconchegante, deixei todo o mau humor da viagem de lado e curti aquele
dia de domingo. Depois de algumas emoções e surpresas, voltamos para São Paulo,
exaustos como nunca.
Fiquei encantado e emocionado com Tudo
Esclarecido, CD e show no qual Zélia interpretava as canções do
indefectível Itamar Assumpção. Entendi como o Jimi Hendrix conseguia ser um
artista de inteligência e intensidade através da gigantesca reverência e
competência de ZD – ninguém conseguirá me convencer da inexistência de
outra gravação mais bela para “Noite Torta” do que a da filha de
D. Loïse Duncan. Na mesma época, tivemos a oportunidade de vislumbrar a obra de
Luiz Tatit com outros olhos através de ToTatiando. Zélia Duncan conseguiu a
improvável façanha de deixar Tatit menos hermético através de uma perspectiva
encantadoramente dramática de seu cancioneiro. Confesso que perdi as contas de
quantas vezes assisti a este espetáculo, como também nem consigo me lembrar de
quantas vezes já fui ao seu camarim e fomos recebidos com um sorriso largo que
não parece ter mais fim.
Os excessos de compromissos profissionais, somados a algumas chegadas e
partidas familiares nos tiraram de circulação por um bom tempo. Consequência direta:
deixamos de acompanhar as gravações de DVD mais recentes de ZD. Por outro lado,
fiquei bem contente quando surgiu a oportunidade de ver um show inédito de
Zélia Duncan depois de um bom tempo. A felicidade dobrou quando soube que o
espetáculo era baseado em Quando o Mundo
Acabar, CD no qual Lady Duncan nos concedeu o luxo de ouvirmos alguns
sambas consagrados e outros de sua própria autoria. No entanto, estávamos bem
longe do palco e acomodados nas últimas cadeiras do teatro do SESC Vila
Mariana. Deixei-me surpreender ao ver a cortina se abrir e me deparar com a
artista saindo justamente do nosso lado para dar início a um espetáculo alegre
e inteligente.
Zélia Duncan nunca tinha soado tão bela e jovial em cima de um palco
para mim: em menos de duas horas de show, meu coração batucou com cavacos e
cuícas que choravam com elegância. A moça em cena nem se parecia com aquela que
substituiu Rita Lee no grupo Os Mutantes entre 2005 e 2007, com quem eu ralhava tanto, mas fui assistir no Parque da Independência mesmo assim... Minha implicância com
ZD se transformou em uma admiração confessa, acrescida de uma inveja branca sem
tamanho: como alguém que consegue fazer tanta coisa boa em termos de música tem
a capacidade de escrever crônicas tão belas para o jornal O Globo toda sexta-feira?!
Aqui estão algumas de nossas historinhas tão particulares e preciosas
com Zélia Duncan, a artista que mais tem contribuído para a intimidade dos nossos
sons de alguns anos para cá. Existem outras anedotas a serem ditas, mas é
melhor deixá-las para outro texto por questões de espaço – afinal, o amor e a
admiração por ZD ultrapassam quaisquer limites. Quando eu conseguir me exprimir
em palavras com um décimo da classe e da competência de Lady Duncan, eu escrevo
outra crônica. "Por hoje é só"...
“Nem que eu contasse as gotas do mar,
todos os dias
Pra me acalmar do que eu nunca fiz
Nem que eu parasse as ondas do ar, dia
após dia
Descansaria as horas em mim,
Por hoje é só
Bruxas e reis sorriram pra mim,
Sei que é assim
Certo é errar, mas quando acordei corri
devagar
Sem perceber cheguei aqui” (Christiaan Oyens & Zélia Duncan, 1998)
"Music is my happiness, my joy, and when my body wasn't right I couldn't get into my music without being healed, without being healthy."
(Sharon Jones)
Nunca escondi minha predileção pelos artistas negros. Não
apenas por eles carregarem anos e anos de experiência, luta e sofrimento no
canto, como também pelo fato de que a extensão vocal deles coloca muito
branquelo no chinelo. Se você canta "bem", você canta como uma lenda
do Jazz, do Blues ou do Soul, estilos
musicais inventados e reinventados por ex-escravos.
Sharon Lafaye Jones, mais conhecida como Sharon Jones, foi
uma lenda do canto. Antes de ter sido consagrada como artista, trabalhou como
agente penitenciária em um presídio nos EUA. Aprendeu a cantar na velha e
infalível "escola" de 11 entre 10 negros na terra do Tio Sam: nas
igrejas! Cantava Soul. Lançou seu
primeiro disco depois de completar 40 anos de idade.
Sharon era um monstro em cima do palco: cantava, grunhia,
dançava (sozinha ou com os fãs que chamava ao palco), se chacoalhava ao som do Soul que cantava e respirava. Herdeira
de Aretha Franklin e tinha influência descaradíssima de Tina Turner. Cantava
com uma energia e atitude impressionantes, colocando muita menininha Pop Star de 20 e poucos anos no
chinelão. Ao saber que tinha um câncer pancreático e que a luta seria longa e
difícil, Sharon Jones passou a levar a máxima "faça este show como se
fosse o último" ao pé da letra.
Conheci o som de Ms. Jones à frente dos The Dap-Kings na
época do lançamento do quarto disco deles: I Learned the Hard Way (2010). Graças ao Pequenos Clássicos Perdidos de Fábio
Bridges, este verdadeiro agitador cultural das searas internéticas, pude ter a
oportunidade de conhecer melhor o trabalho do grupo que acompanhou Amy
Winehouse em Back to Black (2006). Mark Ronson, que não era nem bobo nem
nada, viu o excelentíssimo conjunto de apoio de Sharon Jones como o trampolim
perfeito de Amy para o sucesso. "Rehab", "Wake up Alone" e
"You Know I'm no Good" não teriam sido os hits que foram sem aqueles músicos tão brilhantes. E, arrisco
dizer, a influência de Lady Sharon teve um peso marcante: o que era retrô se
tornou vintage...
Sharon nos deixou em 18 de novembro de 2016, aos 60 anos de
idade. Em plena atividade, em constante ebulição, em um momento no qual o mundo
carece de vozes fortes e marcantes em um mundo cada vez mais caduco e
conservador, ouvir a Soul Music de
Sharon Jones & The Dap-Kings não é apenas ouvir música de qualidade, é
também um ato político: diante da onda reacionária e racista que cresce a olhos
vistos, é uma cantora de enorme representatividade para os negros, para as
minorias e para aqueles que ainda de importam com princípios humanitários e
expressões artísticas de tamanha autenticidade.
Descanse em paz, Lady Sharon! Muito obrigado por ter lutado
até o fim! O mundo sentirá muito a sua falta...
“As mulheres tem
servido por todos esses séculos como espelhos que possuem o poder mágico e
delicioso de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural.”
(Virginia
Woolf– A Room of One’s Own)
Se
realizarmos uma pesquisa a respeito de como a música brasileira tem retratado a
figura da mulher no decorrer dos anos, vamos chegar à conclusão lógica, clara e
evidente de que a fala feminina ela é, na verdade, uma extensão do pensamento
masculino: a Amélia de Mário Lago sempre será querida pelo público por ser a
fêmea “de verdade” que lava, passa e faz as vontades e desejos de seu macho; a
Marina de Caymmi, coitadinha, nem poderia sequer utilizar uma maquiagem para se
sentir mais bela, visto que a noção de beleza é definida pelo macho que canta.
Erasmo
Carlos, em uma de suas mais belas canções, não apenas pediu inspiração, como
também deu uma pequena voz àquelas que não podiam se expressar. Chico Buarque,
travestido de mulher em versos, conseguiu traduzir uma parcela dos desejos e
contradições da “alma feminina”. Rita Lee, quando era a mulher mais importante
da música popular deste país, soube dar voz a uma série de questões que
vivíamos na ordem do dia para aquelas que sempre foram reprimidas sumariamente
por aqueles que amaram.
Karina
Buhr é uma das poucas artistas femininas dispostas a reescrever a história da
figura feminina na música brasileira: seus discos, seus desenhos e seus poemas
clamam pela defesa das mulheres em geral, em um mundo ideal no qual a igualdade
de direitos deveria valer para ambos os sexos. No entanto, o Brasil ainda
necessita de manifestos feministas em pleno século XXI para entender o quanto a
luta por direitos iguais ainda é necessária e relevante. Selvática,
terceiro álbum de Karina, é muito mais do que um simples disco: trata-se de um
manifesto que afirma a necessidade do empoderamento da figura feminina em meio
à cena contemporânea. A ideia em relação ao conceito deste trabalho surgiu a
partir da leitura de uma passagem do livro do Gênesis, da Bíblia (um livro
machista, deixemos bem claro), que fala a respeito da criação dos animais
selváticos (cobras, insetos e outros bichos peçonhentos) – as mulheres em
geral, por serem criaturas ligadas ao pecado e por serem supostamente
traiçoeiras e dotadas de fragilidade, também deveriam ser consideradas como
selváticas. A artista justifica que sua proposta reside no fato de que é
preciso reescrever uma história pautada em silêncio e opressão, visto que os
fatos históricos foram escritos e proclamados pelos homens.
A
comoção em torno do álbum começou a tomar conta das redes sociais em setembro
de 2015 quando a capa do disco foi divulgada na página mantida por Karina Buhr
no Facebook. A imagem –
que mostra a cantora sem camisa (o que implica os seios à mostra) é
caracterizada como uma guerreira do Daomé, com colar, pulseiras e um punhal já
demonstrando estar preparada para o combate – foi censurada com a alegação de
nudez explícita. O que o Sr. Mark Zuckerberg – e a ala conservadora que tem
tido voz e espaço neste país ignora solenemente – é o fato de que o
adjetivo selvático significa algo próprio das selvas, que nasce e/ou
se cria por lá. A postura, infelizmente, não surpreendeu Buhr, que afirmou ao
portal G1 no auge da polêmica: “Achava que o Facebook poderia tirar a foto,
bloquear meu perfil ou até a página, como já aconteceu outras vezes, por
exemplo, com o fanzine digital ‘Sexo Ágil’, que faço desde 2012 e onde sempre
tem peitos. Mas não deixaria de postar a capa do meu disco, nem méis desenhos,
nem nada, por conta disso”.
Se
Karina Buhr tivesse que atender às expectativas de seus censores (machos,
machistas e feminazis exercendo o pior de seu patrulhismo ideológico, político
e estético), como ela deveria retratar o conceito de um ser selvagem ou
silvestre? Vestindo roupas de Christian Dior para agradar aos que teriam se
sentido supostamente agredidos por um par de belos seios?! Enquanto a patrulha
em torno dos corpos femininos tomava conta das redes em nome da tradição, dos
bons costumes em prol de uma suposta vaidade da artista, outros decidiram
repostar e recriar a controvertida foto em seus perfis como um ato de protesto,
o que rendeu um efeito instantâneo: a curiosidade em torno do CD aumentou de
maneira impressionante, apesar da onda hipócrita e reacionária constante…
Antes
de tecermos quaisquer considerações acerca das canções do disco, é importante
dizer que Karina Buhr contou com um time de músicos de primeiríssima categoria
para as gravações de Selvática: Bruno
Buarque (bateria, MPC e percussão), MAU (baixo), André Lima (teclados), Guizado
(Trompete), Fernando Catatau e Edgard Scandurra (guitarras). O CD ainda contou
com as participações especiais de Manoel Cordeiro (guitarra), Laura Lavieri
(vocais), Victor Rice (violoncelo) e da aparição das vozes selváticas de Denise
Assunção e Elke Maravilha. A produção do álbum ficou a cargo de Buarque, MAU,
Lima e Rice, que gravaram as faixas entre os meses de junho e julho de 2015.
André Lima, Karina
Buhr, Bruno Buarque, MAU e Victor Rice (sentido horário)
A faixa de abertura,
“Dragão”, ajuda o ouvinte a ser inserido no contexto do disco. Como uma fera
que chega sorrateiramente diante de sua presa, o discurso de Karina nos envolve
em um belo reggae que nos diz que “a tristeza é amiga da onça, / que ensina a
enfrentar leões”, dentre os milhares que devem ser combatidos pelo dia-a-dia.
No entanto, a temporária calmaria era um passo em falso para o ouvinte menos
avisado de Selvática, visto que a segunda faixa do álbum é o rock “Eu sou um Monstro”, fala de
clichês femininos e da necessidade da mulher de abandonar o estado de apatia em
um universo majoritariamente misógino e que consegue abalar as estruturas
emocionais de qualquer indivíduo através dos versos diretos de Buhr e da
guitarra incendiária de Edgard Scandurra:
Mulher, tua apatia
te mata Não queira de graça O que você nem dá pra você, mulher
Hoje eu não quero
falar de beleza Ouvir você me chamar de princesa Eu sou um monstro
(…)
O peso da agressividade
do primeiro single de Selvática
abre espaço para a terceira canção do disco, “Conta Gotas” (Karina Buhr &
Guizado), que se destaca pelos solos lancinantes do trompete de Guizado, que
interagem com a poesia cortante de Karina, que revela a típica tristeza
proveniente de lágrimas derramadas, lástimas ditas de maneira veloz e
imperdoável e pensamentos a voar livremente diante de uma relação amorosa
supostamente marcada pela infelicidade constante. Já a faixa seguinte, a
desaforada “Pic Nic” (com destaque para os riffs
nervosos de guitarra de Fernando Catatau, integrante do grupo Cidadão
Instigado), é uma nota raivosa, irreverente e debochada ao universo
pequeno-burguês e suas mediocridades, com seus ímpetos de ganância (um cacoete
masculino?) e seu elenco de indivíduos supostamente descartáveis. Eis os versos
de Buhr, repletos de sarcasmo e deboche:
Não me importa de
onde vem o dinheiro dele
Vai ter churrasco
não sei onde botou o gelo ele
Tem pó de serra,
cerveja em cima da mesa
Tem pés em baixo da
minha mesa
Não tem graça, não
tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não
tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não
tem graça, toalha de picnic
Não quero saber
porque você veio
Nem de sua cerveja,
seu gelo, sua ganância
Eu também prefiro
coisas
Eu também prefiro
coisas
Eu também prefiro
coisas
Eu também prefiro
coisas
Seu filho ri
enquanto o meu chora
Você chama o
psicólogo
Eu jogo você fora
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Agora, chame o
psicólogo!
Corre, pega o gelo
Corre, frita a carne
Corre, não reclama
Corre, não faz drama
Corro pra minha vida
Acordo pra corrida
Corro pro salário
Seu esquema otário
(…)
A quinta e a sexta
faixas de Selvática são os dois números mais fortes e ligeiros
do disco. “Esôfago”, de Karina Buhr, fala da violência doméstica sofrida por
milhares e milhares de mulheres que nunca tiveram a oportunidade de ter seus
males reparados por uma sociedade misógina e injusta. “Cerca de Prédio”,
parceria de Buhr com Cannibal (baixista e vocalista da banda punk Devotos),
versa sobre a especulação imobiliária e do clima sufocante que tomou conta dos
grandes centros urbanos. Os versos da canção refletem a impossibilidade do
indivíduo de se reconhecer em meio à cidade que o reprime e não o acolhe:
Não te reconheço,
minha cidade
Não deixe, não se
abandone
Com promessa de
felicidade
O asfalto quente
consome
Carnaval eu volto
Me espera
Com tanto pé de
planta
Você de primavera
Cidade ouve seu
grito
Dia de hoje um corte
bruto
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Não te reconheço,
minha cidade
Não deixe, não se
abandone
Com promessa de
felicidade
O asfalto quente
consome
Quando der eu volto,
me espera
Me leve pro seu
mundo
Um poço de calma
Que alivia a alma
Entristece coração
O tempo faz isso com
a gente
O tempo faz isso com
a gente
Move montanhas
diálogos
Muda o compasso com
os passos
Planta dos pés no
chão
queimando cansaço
Algumas coisas
mudaram
Grades, janelas
Acho que a casa é
aquela
Agora é amarela
Planto meus pés na
cidade
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Os três números
seguintes do terceiro álbum de Karina Buhr são os momentos mais poéticos e
reflexivos do disco. “Vela e Navalha” e “Rimã” vão da descrição hábil de uma
bela guerreira ao momento de plena devoção à natureza que nos regenera é que
merecia maior respeito por parte dos humanos.
No entanto, é a nona
faixa de Selvática, “Alcunha de Ladrão”, que expõe o talento
genuíno de Buhr para escrever versos. Ao relatar o cotidiano cruel de um ser marginalizado
pelo chamado “avanço social”, a autora de Desperdiçando Rima consegue retratar
com clareza algumas das principais mazelas do Brasil – a fome, a miséria, a
desigualdade social, a repressão policial, o descaso das autoridades perante os
excluídos:
Solução às vezes
nenhuma
Ou vês alguma saída
Se não tem esperança
sobra
Quando tem ela pede
comida
Sofrida a boca
esquece
Do barulho do
estômago aflito
Que o bico seca sem
água
Que exige e consegue
viver
Que não quer mas
precisa, de fome,
Pensar rápido,
roubar e correr
Não era esse o seu
ofício
Nem o que sonhava
pra si
Mas a fome não mede
o porvir
E exige na pança o
peso
Se ileso consegue
fugir
Não entende como
passou
Só sabe que
precisava
Não teme quase nada
Suas asas que seguem
inteiras
Pairam na beira do
perigo
Não tem vicio
praticamente
não sente arrepio na
vista
não tem quase medo
de nada
mas teme ainda a
polícia
“Desperdiço-te-me”,
penúltima canção do disco, é um belo texto sobre paixão e desilusão amorosa.
Tal qual uma Carolina buarqueana que vê algo de essencial passar diante de seus
olhos tristes sem esboçar quaisquer reações, a Karina Buhr destes versos também
se revela como uma mulher dominada pela apatia infeliz de um sentimento
avassalador, que vence sua presa pelo cansaço:
Quando você botou o
dedo
No meu coração
Abriu um rio
Abri meus olhos
Vi que a sala estava
escura
Que brilhava a pele
dura
De paixão
Hoje desperdiço-me
Sentada nesse jardim
vendo a vida passar
por mim assim
Hoje desperdiço-me
Vendo um pedaço da
vida
passar por mim e ir
E não faço nada pra
conter
O desvio de poder
sobre mim
Que passou de miim
pra você
Quando te vi pela
segunda vez
Então
desperdiço-te-me
Nesse cansaço da
vida
que passa por mim
Selvática chega ao fim
com a canção-manifesto que dá nome a esta coleção de 11 canções
irrepreensíveis. Karina Buhr se propõe a reescrever a história das mulheres a
partir do momento presente, resgatando o instinto guerreiro contido em cada
indivíduo do sexo feminino que tenha sido vítima de misoginia, de agressão ou
de qualquer desmando gerado pelo sexo oposto, abrindo caminho para a liberdade
de um sexo tido como inferior ou supostamente frágil:
Refaço! Rechaço! Não lhe devemos nada não nos verás na escuridão como capacho nos temporais amargos dias penumbrosos anoitecidas Não moveras do corpo um pelo a tempestade é vencida
Selváticas, por amor ensandecidas. Não as tocarão manadas apedrejantes. Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas cavalgam amazonas delirantes. Guerreira que bebe sangue arco e flecha do Daomé viço do bicho, ebó de mangue jurema da favela óleo de palma pra ela alma na planta do axé
A partir da primeira feitiçaria
atirada por Karina aos seus ouvintes sem sinal de dó, surgem duas vozes
selváticas que irão corroborar a história a ser reescrita. Denise Assunção
(irmã do Nego Dito Itamar Assumpção) reencarna as guerreiras africanas
selváticas e lança suas profecias em formas de versos, gritos e uivos
desesperadores:
O eclipse perdurará acharás palha no agulheiro e transmutarás Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás com o cipó da própria raiz segura costura de árvores nas alturas não espirrarás tua violência amanhecida tantas vezes na aprovação da multidão tua sanha virará só coração sem arranhão, nem ferida Choro trufado, pedregoso umedece o olho arranhando refinando a vista embargada guerrilheira curda vitoriosa nas curvas das serras teimosas Mulheres, conforme a espécie na guerra esbravejam a dor da Terra em uivos lhes crescem pupilas ruivas uvas bacantes semeadas oliveiras palestinas suculentas avisam: já não há quem possa
Denise
Assunção e Karina Buhr na choperia do SESC Pompeia Foto: Nilton Serra
Elke Maravilha, a segunda voz
selvática a aparecer, relembra as mulheres que foram levadas às inquisições por
feitiçaria ou qualquer outro tipo de pecado. Ela nos avisa que os fatos
históricos serão reescritos de forma que as cicatrizes indeléveis gravadas em
vários corpos femininos sejam finalmente esquecidas – independentemente da
aprovação dos homens:
Chifres de marfim nascem devagar a empurrar entremeando os cabelos Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs Vãs as imagens delas conforme a sua semelhança bailarão lança e festança extirparão o sumo da memória criminosa refarão a história e a prosa de tuas eternas inquisições de fogueiras em beiras de abismos baderneiras flamejantes ciganas a postos abafarão os berreiros constantes em fogosas rosas gigantes filhos meus, os seus e os nossos
Selváticas, elas não necessitam seu
elogio Ela transgride sua orientação
A profecia de Elke, concluída com uma
gargalhada típica de uma bruxa horripilante, dá espaço para a conclusão do
manifesto de Karina Buhr, que lança mão da prosódia religiosa e finalmente
sentencia para concluir, no dizer da filósofa brasileira Márcia Tiburi, esse “heavy metal-macumba feminista, esse
deboche bíblico-diabólico, tentando entender o teratológico gênero musical que
só a Karina podia inventar para reunir bruxas, fadas, amazonas, iluminadas e
guerreiras, perdidas e vitoriosas”:
Refeito o começo bíblico não ferirás nenhum corpo por ser feminino com faca, ou murro, ou graveto eu te prometo sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto Super heróis de tuas vítimas estancadas agora és delas a espada e não o algoz
Selvática, ela come a selva de fora ela vem da selva de dentro! Selvática, ela pare a própria hora ela bale em pensamento! E no final ideal não terás domínio algum sobre mulher alguma! No final ideal não terás domínio sobre mulher alguma!
Karina Buhr reescrevendo a história
das mulheres na canção brasileira a partir do livro do Gênesis Foto: Vinil
É importante acrescentar que este
álbum possui um sem-número de simbolismos que não caberiam em nossa
análise. No entanto, é importante citar uma aqui, a partir de um post feito na
página de Karina Buhr no Facebook, poucos dias após o lançamento do CD: no caso,
foi feita a lembrança em relação aos Bereber, um povo bárbaro e selvagem
baseado em uma cultura essencialmente matriarcal, surgido há mais de dois mil
anos. Estes indivíduos ocupam a região de Magreb, que fica entre a Argélia, a
Tunísia e o Marrocos e preveem ser chamados de “Amazigh”, que significa em
português, “pessoas livres”. As mulheres desse povo longínquo são
caracterizadas pela beleza e pela força, além de sempre conseguirem manejar
armas brancas com notável destreza e de estarem sempre vestidas com muitas
pulseiras, colares e outros tipos de ornamento. Sua rainha mais importante
viveu por volta do ano 600 e tinha o dom da profecia: foi batizada como Dihya,
mulher-luz e rainha dos selvagens, conhecida por todos os seus
como Kahina, nome utilizado para denominar todas as sacerdotisas e
feiticeiras. Na língua de Camões, este nome ficou conhecido como Karina…
Se os reacionários de plantão tivessem
ouvido o disco com atenção e fizessem um mínimo de pesquisa pelo próprio Google
ou Facebook antes de
julgar o conteúdo pela capa, teriam chegado à óbvia conclusão de que a imagem
da capa de Selvática não é
apenas um mero convite à afronta ou uma mera demonstração de egolatria, mas um
manifesto corajoso muitíssimo bem fundamentado, algo que não se vê na música
brasileira há muito tempo.
Por isso, aproveite a chance e
deixe-se enfeitiçar por este manifesto em prol da liberdade chamado Selvática,
um disco que já nasce com a pecha de clássico – em nome das mulheres, em nome
da igualdade, em nome da poesia e da música de boa qualidade!