18 de janeiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 16

ELIS REGINA – ELIS (1972)


O ano de 1972 foi bastante significativo para a chamada “Música Popular Brasileira” graças a artistas que lançaram discos essenciais para qualquer um que aprecie o que há de melhor em matéria de canção brasileira. Elis Regina é uma das artistas que merecem sem lembradas não apenas pela qualidade de seu trabalho em 1972, mas por todos os serviços prestados pelas artes no Brasil.
No entanto, Elis não era uma figura tão benquista no início da década de 1970 para algumas pessoas no Brasil. Muitos entenderam suas declarações contra as turminhas da Jovem Guarda e da Tropicália como reacionárias e retrógadas. Seu temperamento explosivo e espalhafatoso lhe rendeu uma aura de diva – fato que também era realçado pelo seu casamento com Ronaldo Bôscoli, um dos artífices da Bossa Nova. Sua apresentação no Encontro Cívico Nacional, evento organizado pelo governo militar em 21 de abril de 1972, regendo um coral de artistas que entoaram o Hino Nacional Brasileiro foi um amargo passaporte para a galeria de artistas que “apoiavam o regime”. Anos depois, ficou esclarecido de que a Pimentinha estava sendo ameaçada pelos militares a fazer a tal apresentação para que pudesse, enfim, dormir em paz e sem se preocupar com a possibilidade de ser presa e/ou torturada.
A esquerda e outros reacionários de plantão não hesitaram em levar Elis Regina para o limbo dos artistas malditos por supostamente apoiarem o regime militar, o que exigiu uma resposta imediata da cantora: seu repertório precisava ser mais jovem, mais engajado, menos sisudo. Para a execução desta missão de honra, a Philips (gravadora da Pimentinha na época) convocou Roberto Menescal para produzir o disco e o talentoso pianista César Camargo Mariano para fazer os arranjos. Elis tratou de operar o restante das mudanças necessárias: separou-se de Bôscoli (desfazendo a parceria de trabalho com o marido e seu fiel companheiro, Luiz Carlos Miéle), rompeu seu contrato com a Rede Globo de Televisão e deu início à sua parceria (musical e amorosa) com César.
Elis, segundo disco de uma série de discos que levavam o primeiro nome da artista na década de 1970, foi lançado em 1972. A partir deste disco, Elis Regina sentiu-se finalmente livre para explorar limites nunca antes explorados até aquele momento em sua carreira: sua interpretação tornou-se mais sóbria e menos exagerada; seu repertório passou a ser mais ousado, mais diversificado, mais juvenil, porém sem deixar de reverenciar o que há de melhor na tradição de monstros sagrados da canção brasileira. Enfim, este é o primeiro disco que reflete a virada musical da carreira da cantora mais importante do Brasil.
O time de compositores jovens reunidos por Elis e Roberto Menescal para este álbum é um verdadeiro escrete de talentos musicais invejáveis: Sueli Costa & Vitor Martins, João Bosco & Aldir Blanc, Milton Nascimento & Ronaldo Bastos, Fagner & Belchior, Zé Rodrix & Guarabyra, Chico Buarque & Francis Hime, Ivan Lins & Ronaldo Monteiro de Souza, Zé Rodrix & Tavito… Além de uma faixa inédita de Tom Jobim, o repertório deste disco se compõe também de regravações de dois clássicos da nossa Era do Rádio: “Vida de Bailarina” (Américo Seixas – Dorival Silva) e “Boa Noite Amor” (José Maria de Abreu – Francisco Matoso).

Elis Regina ao vivo no Teatro da Praia (RJ) em 1972

Veja a tracklist do disco, com uma breve explicação para cada faixa e entenda o porquê deste trabalho de Elis ser considerado um verdadeiro clássico da música brasileira:

1) “Vinte Anos Blue” (3:11) - Parceria da cantora e pianista Sueli Costa com o letrista Vitor Martins (que se tornaria célebre graças a sua parceria musical com Ivan Lins anos mais tarde), esta canção é uma balada melancólica que ganha uma força bastante significativa na voz de Elis, que tinha 27 anos ao gravar este clássico. O disco abre com a constatação de que a voz que canta já passou de seus 20 anos de idade e que existe uma série de “perguntas sem respostas”… O piano de César Camargo Mariano e o arranjo de cordas que surge ao final da canção conferem a esta gravação uma melancolia típica do Brasil de 1972.
2) “Bala com Bala” (3:12) - Elis Regina já era conhecida em 1972 como uma verdadeira caçadora de jovens talentos musicais. Neste disco, não foi diferente ao lançar uma nova dupla de compositores: o engenheiro, cantor e compositor João Bosco e seu parceiro, o letrista e psiquiatra Aldir Blanc. “Bala com Bala” é um jazz arrebatador, pontuado pelo piano elétrico de César e permitindo vários dribles vocais de Elis, que narra duelos inacabados, batalhas implacáveis e concluindo (de maneira brilhante!) que “Toda fita em série que se preza, dizem, reza / Acaba sempre no melhor pedaço”.
3) “Nada Será Como Antes” (2:45) - Uma das canções mais populares (e políticas) do disco, esta canção é uma parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. As notícias de pessoas “distantes” devido à ditadura militar, a falta de utopias no presente e a crença de que o futuro jamais abrigaria as glórias do passado. Há uma curiosidade em relação à versão de Elis: os versos “Alvoroço em meu coração / Amanhã ou depois de amanhã / Resistindo na boca da noite um gosto de sol” foram suprimidos para dar lugar aos versos pessimistas “Sei que nada será como está / Amanhã ou depois de manhã”. Pergunto-me o porquê de Elis ter feito esta omissão de trechos da canção de Milton. Seria por esquecimento? Seria por desconhecimento do original do Clube da Esquina? Seria intencional? Seria para deixar seu pessimismo bem claro? De qualquer maneira, a interpretação de Elis Regina de “Nada Será Como Antes” tornou o clássico de Milton menos esperançoso, o que, em 1972, era necessário para que as pessoas se conscientizassem a respeito do verdadeiro clima que pairava nos ares deste país.
4) “Mucuripe” (2:27) - A quarta faixa do disco é uma toada composta por Fagner e Belchior. Apesar de ter sido gravada por Roberto Carlos e seu antológico disco de 1975, foi a versão de Elis que ajudou a popularizar os compositores desta canção, que pouco tempo depois, gravaram seus primeiros LPs. A interpretação de Elis é contida, porém não deixa de ser dramática e emocionante.
5) “Olhos Abertos” (2:37) - Rock rural de Zé Rodrix e Gutemberg Guarabyra (dois integrantes do trio Sá, Rodrix e Guarabyra). Em um mundo dividido entre comunistas e capitalistas, hippies alienados e militantes engajados, jovens e velhos, o canto de desejo de Elis Regina pregava união em um momento no qual o sistema queria que tudo e todos estivessem reduzidos a fragmentos.
6) “Vida de Bailarina” (2:25) - A sexta faixa do disco é uma regravação de um dos maiores hits de Ângela Maria. Tributo composto por Américo Seixas e Dorival Silva (também conhecido como Chocolate), “Vida de Bailarina” foi a primeira canção escolhida pela jovem Elis Regina para interpretar nas primeiras vezes em que participou de concursos de calouros da Rádio Farroupilha, de sua Porto Alegre natal. A versão que foi registrada nos sulcos do vinil revela uma interpretação discreta de Elis – fugindo a tradição dos cantores da geração de Ângela e Cauby Peixoto, que cantavam casos e desenlaces amorosos a plenos pulmões, isto é, a partir de notas altíssimas! –, conduzida pelo dedilhar jazzístico do piano de César Camargo Mariano, baixo, bateria e um arranjo singelo de cordas.
7) “Águas de Março” (3:05) - O Lado B se inicia com a esperançosa “Águas de Março”, uma dos maiores composições de Antônio Carlos Jobim. Lançada originalmente por Tom em maio de 1972, em um compacto (dividido com João Bosco) encartado no lendário semanário underground O Pasquim, a canção foi oferecida a Elis logo depois. A versão de Elis para a canção de Jobim se tornou tão emblemática que recebeu uma releitura da Pimentinha ao lado do Maestro Soberano dois anos depois, quando ambos gravaram Elis & Tom em Los Angeles, nos Estados Unidos.
As referências literárias e musicais, escolhidas por Tom foram as mais variadas. No entanto, os versos mais emblemáticos de “Águas de Março” são justamente os que encerram esta belíssima canção: (“São as águas de março / fechando o verão / É promessa de vida / no seu coração”). Através da voz de Tom, Elis Regina lançava em sua viagem de trevas uma (merecida) fagulha de esperança. A temporada de chuvas que fecha o verão é símbolo de esperança e renovação, apesar das trevas, dos pregos e do desgosto.
8) “Atrás da Porta” (2:48) - Obra-prima da parceria entre Chico Buarque e Francis Hime, “Atrás da Porta” foi escrita sob medida para a voz de Elis Regina. O que existe de curioso a respeito da história da gravação deste clássico é que Chico não havia completado apenas a primeira parte da letra desta canção quando Elis começou a gravá-la. Ao ouvir a fita que continha estes versos gravados, Chico emocionou-se e escreveu o resto da letra… O que fez de “Atrás da Porta” uma canção antológica foi o fato de que Elis a interpretou com o conformismo desesperado de uma mulher que vivia em crise amorosa permanente. Elis conhecia muito bem este circuito de trevas, pois, aos 27 anos, já tinha vivido vários amores frustrados (Solano Ribeiro, Ronaldo Bôscoli e, anos mais tarde, o próprio César Camargo Mariano).
9) “Cais” (3:17) – Parceria musical de Milton Nascimento & Ronaldo Bastos, é um acalanto para a mulher abandonada descrita na faixa anterior. A invenção torna-se a única arma que restava para a viagem a qual Pimentinha trilhava. O suntuoso arranjo de cordas e o cravo tocado por César Camargo Mariano conferem um tom épico e dão à interpretação de Elis uma força de um gigante. Milton, definitivamente, conseguiu em Elis Regina sua intérprete mais singular, mais completa e mais competente graças a gravações como esta.
10) “Me Deixa em Paz” (2:10) - A décima canção que faz parte deste disco de Elis é uma parceria entre Ivan Lins e seu primeiro parceiro musical, o letrista Ronaldo Monteiro de Souza. “Me Deixa Em Paz”, destaca-se neste pacote não apenas pelo piano elétrico de César Camargo Mariano, como também pela elegante interpretação de Elis, que lembra um pouco as canções que interpretava em suas lendárias temporadas no Beco das Garrafas.
11) “Casa no Campo” (2:45) - Outro Rock rural de Zé Rodrix, desta vez em parceria com Tavito. No entanto, a gravação de Elis Regina para “Casa no Campo” é tão lembrada pela memória afetiva dos brasileiros que torna-se difícil para qualquer pessoa que faça música neste país gravá-la… A letra da canção descreve o desejo que todos nós temos em ter uma casa repleta de amigos, animais, discos, paz, calmaria, esperança… Além disso, Elis desejava uma “esperança de óculos” e seu “filho de cuca legal” (João Marcello Bôscoli), desejo que todos nós que temos filhos também compartilhamos…
12) “Boa Noite, Amor” (2:23) - O Elis 1972 se encerra com um dos maiores sucessos de Francisco Alves. Composta por José Maria de Abreu e Francisco Matoso, trata-se de uma belíssima cantiga de ninar para a pessoa amada entoada por uma voz contida, precisa, porém sem deixar de ser emocionada. Pimentinha escolheu para finalizar seu disco uma belíssima declaração de amor para seu novo marido e parceiro musical por nove anos, César Camargo Mariano. A participação deste músico foi um dos elementos-chave na produção de um dos álbuns mais marcantes da discografia de Elis Regina.


*

Se você nunca ouviu este disco de Elis Regina e quer saber o porquê deste trabalho ser um dos discos mais importantes não só de 1972, mas de toda a história da música brasileira, não hesite mais de uma vez e ouça-o! Mas, se você sonha com uma reedição Deluxe Edition, com todos os ônus e bônus acoplados, aí vai uma boa notícia: a gravadora Trama, de João Marcello Bôscoli (filho de Elis), está preparando uma bela reedição deste disco em CD.
De acordo com o A & R da gravadora, a proposta deste trabalho consiste em replanificar o som estéreo do álbum, abrindo os quatro canais da gravação original em fita analógica e mixá-los através das mais altas tecnologias com o intuito de eliminar os incômodos ruídos do vinil. Para a execução desta mission impossible, foi convocado um dos melhores engenheiros de som neste país: Luís Paulo Serafim.

No entanto, se eu pudesse fazer um pedido ao pessoal da Trama, faria apenas um: o de que a versão de luxo deste Elis tivesse um encarte maior, uma ficha técnica detalhada e a inclusão da foto de Elis se espreguiçando na bela cadeira de vime, disponível apenas na versão original em LP: Discos como este fazem com que qualquer um de nós entenda o porquê do Brasil ainda necessitar ouvir Elis Regina, afinal ela sempre terá muito a nos dizer…


15 de janeiro de 2017

TROVA # 107

DAME STREEP


“She is an observer and a thief. She waits to share what she has stolen on that sacred place, which is the screen. She makes the most heroic characters vulnerable, the most known familiar, the most despised relatable. Dame Streep. Her artistry reminds us of the impact of what it means to be an artist, which is to make us feel less alone.”
(Viola Davis, 2017)

"Disrespect invites disrespect, violence incites violence. And when the powerful use their position to bully others we all lose."
(Meryl Streep, 2017)
  

Meryl Streep & Viola Davis em Doubt (2008)
Se eu tivesse um mínimo de talento para a atuação, gostaria de ter um décimo, ou um centésimo do dom de Meryl Streep. Atriz mais consagrada de Hollywood nos últimos 40 anos, essa senhora de 67 anos já acumulou, até janeiro de 2017, 19 indicações para o Oscar e 30 para o Globo de Ouro, sendo que ela já levou três estatuetas douradas e nove globinhos dourados para casa, além de já ter participado de mais de 60 películas.


Meryl Streep & Woody Allen em Manhattan (1979)
Meryl Streep já foi várias mulheres na sétima arte: já viveu executiva de moda, uma mãe solteira que abandona o único filho, uma roqueira desgarrada da família, uma freira obcecada pela sua definição de verdade, uma professora de música que faz arte a partir do lado esquerdo do peito, uma atriz de musicais em plena decadência que descobre como a morte lhe caía muito bem, uma polonesa fugida de um campo de concentração atormentada pela escolha mais difícil de sua vida, a autora de A Festa de Babette, uma editora de livros preocupada com a festa em homenagem ao amigo artista que estava morrendo de AIDS, uma escritora de best-sellers que enfrenta a ira da diabólica ex-mulher de seu marido, a bonachona cozinheira que encantou os EUA nos anos 1950/1960, a temida Dama de Ferro, dentre tantas outras.


Meryl Streep como a famigerada editora de moda Miranda Priestley em The Devil Wears Prada (2005)



Diziam algumas línguas há uns tempos atrás de que ela viveria Clarice Lispector no cinema, para meu deleite e de tantos outros leitores apaixonados pela ucraniana mais brasileira já surgida por estas bandas. Infelizmente, era um boato. Mas a esperança ainda permanece... 



Meryl Streep como Florence Foster Jenkins (2016)

Preciso acrescentar um valioso detalhe: em vários desses papeis, precisou cantar. E, sim: Meryl possui uma voz belíssima e canta muitíssimo bem! Mesmo quando teve que interpretar Florence Foster Jenkins, considerada a pior cantora do planeta, Dame Streep o fez com perfeição: cantava muitíssimo mal com uma perfeição gigantesca, absurda! Ou quando teve que dar voz à bruxa amargurada de Caminhos da Floresta (Into the Woods), nos brindando com alguns dos raros momentos de brilhantismo daquela película. Ou ainda quando teve que fazer a nata do repertório do ABBA em Mamma Mia! (2008)... 




 
Meryl Streep em Into the Woods (2014)


Meryl Streep & Clint Eastwood em The Bridges of Madison County (1995)

Comecei a prestar atenção nos filmes de Meryl Streep já na adolescência, apesar de ter algumas memórias remotas das exibições de Ela é o Diabo (She Devil) na Sessão da Tarde na época em que eu era criança. Fiquei encantado quando a vi ao lado de Clint Eastwood em As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County) e infernizando as vidas dos personagens de Goldie Hawn e Bruce Willis em A Morte lhe Cai Bem (Death Becomes Her). Rolei de dar risadas com cada desmando de Miranda Priestley em O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada). Fiquei tenso em cada segundo de sua atuação surpreendente ao lado de Philip Seymour-Hoffman, Amy Adams e da extraordinária Viola Davis em Dúvida (Doubt).


Meryl Streep, Bruce Willis & Goldie Hawn em Death Becomes Her (1992)

Dustin Hoffman & Meryl Streep em Kramer vs. Kramer (1979)

No entanto, foi no momento em que vi sua atuação comovente de Joanna Kramer em Kramer vs. Kramer no qual descobri o quão Meryl é uma atriz muito especial. Ela consegue te fazer rir e chorar com uma facilidade tão impressionante quanto que ela tem de encarnar personagens tão distintos entre si. Daquele momento em diante, sempre procurei assistir seus filmes na telona do cinema. De algumas produções gostei muito, de outras nem tanto. Porém, sempre tinha alguma coisa boa a dizer acerca do talento de Dame Streep, minha atriz preferida.

*

Meryl Streep em Sophie's Choice (1982)

Ao ser reconhecida pelo conjunto da obra e pelos 40 anos de carreira completados em 2017, Meryl Streep foi agraciada por ter recebido o Prêmio Especial Cecil B. DeMille na septuagésima-quarta cerimônia do Globo de Ouro. Diante do redemoinho político no qual os EUA se encontram, Meryl Streep fez um discurso contundente sobre o presidente eleito Donald Trump e da intolerância cada vez mais reinante. Falou de preconceitos, da arrogância dos poderosos, de xenofobia. Uma fala histórica, surpreendente e que deixa claro o posicionamento da maioria dos trabalhadores de Hollywood em relação ao novo chefe da nação norte-americana.


Meryl Streep vivendo a ex-Primeira Ministra Margaret Thatcher em The Iron Lady (2011)

As reações foram energéticas de ambos os lados: os detratores do presidente enalteceram o discurso incendiário de Meryl Streep com citações, inúmeros likes e vários compartilhamentos nas redes sociais. O GAFE vibrava com a polêmica do momento. Do outro lado, a atitude deselegante já esperada de Donald Trump, alegando que Streep é uma atriz supervalorizada, dentre outras baixezas. O mais impressionante foi ver pessoas as quais eu considerava sãs e respeitáveis endossando o discurso fascista e conservador de Trump acusando Meryl de hipocrisia e oportunismo. Hollywood promete travar quatro anos de disputas verbais e batalhas com Washington. No meio desta confusão, alguns princípios democráticos, interesses pessoais, artísticos e econômicos. E com direito à ampla cobertura da mídia, sedenta por notícias em meio à mediocridade dos tempos de hoje.


Em meio à avalanche de informações, de meias-verdades e de muita arrogância, saber da existência de ideias tão libertárias quanto as de Meryl Streep serve como alento para aguentarmos as insanidades dos medíocres com a cabeça erguida, sem desistir de lutar por aquilo que acreditamos: a liberdade irrestrita para todos, para justificar o nome da estátua que atrai milhões e milhões de pessoas para Nova York a cada ano. Ou, como diz Suzanne Vale (uma de suas personagens mais célebres): a vida não deveria imitar a arte, a vida deveria ser arte.



Shirley MacLaine & Meryl Streep em Postcards From the Edge (1990)

Salve, Dame Streep! Que o seu exemplo seja seguido por todos os cidadãos revoltados com os desmandos dos canalhas tanto dentro como fora das telas...



Meryl Streep com suas três estatuetas do Oscar nas mãos - 1979, 1982 e 2011

10 de janeiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 15

DAVID BOWIE – LET’S DANCE (1983)


 “I know when to go out
I know when to stay in
And get things done
”
(“Modern Love” – David Bowie, 1983)


1983 foi, definitivamente, o ano em que David Bowie brilhou como poucos no mundo da música neste planeta. O camaleão não gravava um álbum de inéditas há cerca de três anos quando lançou um dos títulos mais importantes de sua discografia: Let’s Dance.
Entre Scary Monsters (And Super Creeps) e este clássico (que completou 30 anos de lançamento em 14 de abril de 2013), Bowie esteve em recesso. Apesar de ter feito uma parceria incandescente com o Queen (“Under Pressure”) e de ter gravado com o produtor e compositor (e um dos papas da disco music) Giorgio Moroder  (“Cat People”), todos esperavam um grande passo do Mestre em direção aos holofotes no ano de 1983.


Para que David Bowie estivesse pronto a fazer o seu grande retorno à cena, era preciso entender as modificações que ocorriam na música Pop da época. O surgimento da MTV acelerou a popularização do videoclipe; “Thriller”, de Michael Jackson, tinha tomado o planeta de assalto no ano anterior e Madonna já tinha iniciado seu plano (bem-sucedido) de conquista do universo pop com o lançamento de seu álbum de estreia, também de 1983. Além disto, o Rock tinha definitivamente se tornado em um enorme espetáculo e dominava grandes arenas e espetáculos. O camaleão velho de guerra deveria agir de forma precisa e marcante para garantir seu espaço ao sol e não ficar para trás em relação aos seus contemporâneos. E David Bowie fez isso com enorme brilhantismo…

Bowie no Festival de Cinema de Cannes de 1983
Primeiramente, o visual e o som: a versão 1983 de David Bowie era indefectível: cabelos louros platinados (como nunca estivera até então), ternos elegantes ao som de uma música simples, dançante e com versos diretos para a fácil compreensão do ouvinte; passo 2: seguir os conselhos dos colegas do Queen e assinar um contrato de $17,5 m com a EMI, depois de anos gravando pela RCA; terceiro passo: trocar seu fiel produtor (e escudeiro musical) Tony Visconti – responsável pela produção de cinco trabalhos de Bowie até então – pelo renomado Nile Rodgers para trabalhar em Let’s Dance. Troca realizada, tudo estava pronto para que o astro desse início às gravações das oito faixas do novo trabalho.

David Bowie e Nile Rodgers

Rodgers já era um dos nomes mais famosos do showbiz musical naquela época graças ao seu trabalho à frente da banda Chic, na qual era guitarrista, produtor e compositor ao lado de Bernard Edwards. Também produziu hits de Diana Ross, Sister Sledge, Debbie Harry (Blondie) e Carly Simon. No entanto, ao encontrar com David Bowie em uma boate de Nova York no início dos anos 1980, o talento deste Midas do Pop foi definitivamente posto à prova. Em pouco menos de 20 dias de gravação, Nile conseguiu revirar as demos Folk do camaleão de cabeça para baixo ao transformá-las em verdadeiros hinos dançantes.


Conforme o esperado, a associação Bowie + Rodgers resultou no maior sucesso comercial do astro inglês até hoje. A crítica especializada reconheceu Let’s Dance como um dos melhores trabalhos do autor de “Space Oddity”. Já os fãs mais puristas acharam o disco comercial demais, devido à sonoridade Pop (sem o mesmo experimentalismo de lançamentos anteriores) das canções.


O inesperado sucesso do álbum surpreendeu o próprio David Bowie. Afinal, este é um dos poucos trabalhos nos quais o artista não tocou um instrumento musical sequer no decorrer das gravações. Também é importante acrescentar que sete das oito faixas do disco foram singles (lados A e B) de relativo sucesso, o que é uma clara evidência do quanto o público de Bowie se expandiu a partir deste lançamento. Ao contrário do que muitos especialistas acreditavam, Let’s Dance é um disco tão conceitual quanto The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars (1972), Diamond Dogs (1974), Station to Station (1976) ou a trilogia berlinense Low – Heroes – Lodger (1977-1979).
Por outro lado, este foi o último momento no qual o camaleão conseguiu ter uma sequência de álbuns reconhecidos por público e crítica – os sucessores Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987) não tiveram a mesma aclamação de momentos anteriores –, prova cabal de que a crueldade artística da década de 1980 não poupou sequer o próprio David Bowie.
O reencontro com o sucesso teve como resultado a Serious Moonlight World Tour, uma das turnês mais bem-sucedidas de 1983. Por outro lado, Bowie confessou que a partir daquele período teve um longo período de crise criativa. De qualquer maneira, Let’s Dance já tinha garantido ao seu autor um lugar garantido entre os clássicos absolutos da década de 1980.
Let’s Dance – Faixa a Faixa:

1)          “Modern Love” (4:48) - Nesta faixa, Bowie já avisa logo de cara que sabe o momento certo de sair, de ficar e de como conseguir o que quer. Uma das faixas mais conhecidas do disco, era a canção escolhida para fechar os shows da Serious Moonlight Tour.



2)          “China Girl” (5:32) - Composta em 1976 por Bowie em parceria com Iggy Pop para o disco The Idiot (1977), do amigo. O toque Pop dado pelo co-autor ao lado de Nile Rodgers fez com que “China Girl” fosse um dos maiores hits do camaleão em todos os tempos…

Versão de Iggy


Versão de Bowie



3)          “Let’s Dance” (7:37) - Aqui, vemos como David Bowie consegue conciliar uma aura cool distante (“Put on your red shoes and dance the blues”) e um homem meramente sedutor (“If you should fall into my arms, tremble like a flower”). O clipe, dirigido pelo renomado diretor David Mallet, mostra um casal de indianos dançando ao som dos blues do camaleão em uma remota comunidade aborígene no interior da Austrália… A versão original, de 7 minutos e 37 segundos oferece destaque para os sons titânicos da bateria de Tony Thompson…


4)         “Without You” (3:08) - Balada romântica escrita em parceria com Audrey Auld, foi lançada como single apenas na Holanda, Espanha e Japão. A impressão à primeira audição é de que esta música saiu de um disco clássico do Roxy Music não apenas pela sonoridade incomum, como também pelo fato de que os vocais de Bowie imitam descaradamente o estilo cool de Bryan Ferry.


5)          “Ricochet” (5:13) - De autoria do próprio Bowie, esta foi a única canção do disco que não ganhou um single. Primeiro porque o resultado final desagradou o artista, que deixou os arranjos nas mãos de Nile Rodgers. Porém, há registro de um vídeo desta canção datado da época da Serious Moonlight Tour. Vale a pena ver o registro por causa das imagens da época… E só!


6)          “Criminal World” (4:24) - Cover da banda inglesa Metro, este é um dos exemplos mais clássicos de como David Bowie e Nile Rodgers conseguiram arranjar esta canção tão perfeitamente que soa como se fosse uma composição escrita pelo próprio camaleão. Ouça as duas versões (a original é de 1977) e tire suas próprias conclusões…

Versão do Metro


Versão de Bowie



7)          “Cat People (Putting Out Fire)” (5:09) - Graças a um convite do diretor de cinema Paul Schrader, David Bowie compôs a letra para o tema principal do filme Cat People, de 1981. A versão original saiu na trilha sonora do filme e em um single pela MCA (gravadora de Moroder, na época), em 1982. O camaleão tinha planos de utilizar a mesma versão gravada para o filme em Let’s Dance, porém, por questões contratuais, a autorização não foi concedida. Com isso, Stevie Ray Vaughan, que tocou as guitarras na gravação original, foi convocado novamente ao estúdio e regravou a canção ao lado de Bowie. Os fãs mais jovens do astro, no entanto, se lembram de “Cat People” na trilha sonora de Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino…

Versão 1


Versão 2



Bowie ao lado do lendário guitarrista Stevie Ray Vaughan

8)          “Shake It” (3:49) - Faixa que encerra Let’s Dance, “Shake It” faz referências a Nova York (cidade que já fora retratada pelo autor em outros de seus clássicos) e ao espírito de celebração que permeia todo o disco. Uma versão estendida de 5 minutos e meio desta canção foi lançada como lado B do single China Girl em maio de 1983. Especialistas apontam esta criação de Bowie como precursora de parte do trabalho desenvolvido pelo U2 na década de 1990… Definitivamente, Ziggy Stardust não foi único trabalho do camaleão que se tornou referência para vários músicos das gerações seguintes…

Versão original


Long version



Serious Moonlight World Tour:


E, por fim, confira o universo de Let’s Dance em cena com a Serious Moonlight World Tour:

Parte I
1. “Look Back In Anger” (1979)


2. “Heroes” (1977)


3. “What In The World” (1977)


4. “Golden Years” (1976)


5. “Fashion” (1980) / “Let’s Dance” (1983)


6. “Breaking Glass (1977)


7. “Life on Mars” (1971)


8. “Sorrow” (1973)


9. “Cat People (Putting Out Fire)” (1982)


10. “China Girl” (1983)


11. “Scary Monsters” (1980) / “Rebel Rebel” (1974)


12. “White Light, White Heat” (1973)


Parte II

13. “Station to Station” (1976)


14. “Cracked Actor” (1973)


15. “Ashes to Ashes” (1980)


16. “Space Oddity” (1969)


17. “Young Americans” (1975)



18. “Fame” (1975)


19. Modern Love [Encore]


New York City - Madison Square Garden, 27 de Julho de 1983

A primeira versão deste texto foi escrita para o site Pequenos Clássicos Perdidos!